[Curdistão] É tempo de boicotar a Turquia: uma entrevista com Dilar Dirik

por Giuseppe Acconcia | 17/04/2018

Os EUA, o Reino Unido e a França atacaram supostas instalações químicas na Síria em 14 de abril. Isso tornou mais clara a relevância de uma alternativa de esquerda aos regimes militares na região. Todos os projetos que não apoiam ao Bashar al-Assad e seus aliados, Irã e Rússia, nem apoiam os rebeldes sírios e seus aliados europeus e norte-americanos, parecem ser um perigo para os países vizinhos. No entanto, os curdos da Síria, mesmo tendo sido deixados em paz pelas forças pró-Assad e pela coalizão internacional anti-ISIS, continuaram lutando sua guerra existencial contra as autoridades turcas. O exército turco entrou no Cantão Afrin em 18 de março passado, como a conclusão da operação “Ramo de Oliva”, que começou em 20 de janeiro. Parece que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, empenhado em fortalecer suas ligações com Teerã e Moscou, considera tanto internamente quanto externamente, um movimento comunalista e de libertação pró-trabalhadores, pró-ecologia, pró-mulheres é uma ameaça ainda maior do que o ISIS. Aqui, o The Region fala com Dilar Dirik, ativista do Movimento de Mulheres Curdas, para entender melhor qual será o futuro do projeto de Rojava neste contexto de guerra armada.

Como os rebeldes pró-turcos estão governando Afrin, podemos argumentar que o sonho de Rojava está terminando?

De maneira alguma, a resistência em Afrin é forte. Após 58 dias de resistência, os combatentes do YPJ / YPG decidiram transformar a natureza da guerra. A partir de agora, todas e todos estarão envolvidos em uma guerra de guerrilha. A resistência ainda não acabou. Esta foi apenas uma luta dentro da guerra. Para os militantes curdos, Rojava é uma ideia, um projeto político que influenciou centenas de milhares de pessoas. O tempo não passou em vão. O experimento de autonomia democrática continuará: isso é apenas uma retirada temporária. Os combatentes curdos poderão voltar a Afrin daqui há algum tempo, e talvez o projeto seja ainda mais radical. Quando os habitantes de Kobane foram forçados a deixar sua cidade porque os jihadistas do ISIS a ocuparam, depois que o YPG / YPJ derrotou o ISIS, eles voltaram pedindo por estruturas mais democráticas. O mesmo acontecerá em Afrin.

Por que a comunidade internacional abandonou os curdos novamente?

Esta não é a verdadeira comunidade internacional. Devemos fazer uma distinção entre a verdadeira comunidade internacional civil que se mobilizou em todos os lugares: no Afeganistão, Japão, África do Sul… Em outras palavras, houve uma mobilização por Afrin até mesmo em países onde não há uma comunidade curda. A comunidade internacional dos estados abandonou os curdos. No entanto, a palavra “abandono” pode ser enganosa.

Os curdos nunca contaram com apoio internacional, e sabíamos muito bem que o apoio dos EUA era apenas uma aliança tática e militar. Sabíamos que quando o ISIS fosse derrotado, os curdos teriam sido deixados em paz. Para as conferências internacionais sobre a Síria, os curdos não são convidados para evitar qualquer tipo de irritação turca. A Turquia é estratégica para eles e é um vizinho do Assad. Ninguém esperaria que uma revolução de esquerda com um papel central para as mulheres pudesse ter sucesso nesta região. Sabíamos que a nível político, eles nunca nos apoiariam. Além disso, os ataques turcos ocorreram com cumplicidade ocidental: a Itália, o Reino Unido e a Alemanha estão vendendo armas que visavam o ataque a Afrin. Eles precisam que a guerra continue para espalhar o caos no Oriente Médio. Seu objetivo é impedir que qualquer tipo de revolução de esquerda ou projeto político se materialize.

Os números são claros: os ataques turcos provocaram centenas de causalidades enquanto um cessar-fogo da ONU contra a Síria foi imposto. Por esta razão, podemos dizer que Erdogan é um criminoso de guerra?

Erdogan é um criminoso de guerra e não esconde isso. Ele apoiou grupos jihadistas no território. As forças pró-turcas cometeram e registraram seus crimes de guerra, assassinatos, torturas e saques, e depois publicaram a documentação de seus crimes nas redes sociais. Eles têm certeza sobre si mesmos. Isso fica claro nas próprias palavras de Erdogan: “Vamos limpar essa terra e devolvê-la aos legítimos proprietários”. Ele definiu todos os curdos como terroristas e quer movê-los do norte da Síria para criar uma zona-tampão. Então isso é realmente uma limpeza étnica. Eles impuseram bandeiras turcas em toda parte em Afrin, eles demoliram a estátua de Kawa, um símbolo da resistência curda. Assim, eles deliberadamente atacaram a cultura curda. E eles querem erradicar o projeto democrático de Rojava. Eles argumentam que os árabes e turcos são contra os curdos, mas na verdade árabes, sírios e armênios lutam junto com os curdos.

Rojava não é uma ameaça para a Turquia, enquanto lutamos pela libertação das mulheres, etc. o Erdogan, assim como o partido Baath fez nos anos 60, quer deslocar os curdos do norte da Síria para que eles sempre sejam uma minoria. Com este pretexto, eles destruíram regiões inteiras no Curdistão turco e cometeram massacres de civis em Cizre e Nusaibin, por exemplo. Uma guerra suja é a política de Erdogan contra a autonomia curda e a ideia de democracia. Em suma, ele considera insuportável um sistema revolucionário perto das fronteiras turcas. É uma pena que a comunidade internacional não o defina como um criminoso de guerra!

O maior desastre é o alto número de refugiados e deslocados devido aos ataques turcos. Como é possível que a União Européia tenha confirmado a segunda parcela de 3 bilhões de euros de ajuda à Turquia neste contexto?

Há mais de 300 mil pessoas deslocadas após os ataques turcos. Erdogan está usando os refugiados para ameaçar a Europa. Ele prometeu às autoridades alemãs que a Turquia manteria os refugiados dentro de seu território. No entanto, ele está criando milhares de novos refugiados para continuar ameaçando a Europa com uma invasão de imigrantes. Além disso, ele está usando essa questão para dividir os refugiados e desencadear a luta entre sírios e curdos na Turquia. Ele tentou islamizar e doutrinar os refugiados. O PKK e o YPG / YPJ receberam milhares de refugiados de Sinjar em Rojava. Era um lugar seguro para todos os refugiados. É por esta razão que a população de Afrin duplicou nos últimos anos.

O que vai acontecer em Afrin?

É uma longa guerra. Decisões vêm da Rússia e dos Estados Unidos. Eles permitem que a aviação turca use o espaço aéreo sírio. O movimento curdo nunca deixará Afrin para os turcos. Assim, pedimos para começar uma campanha de boicote à Turquia.

Fonte: http://theregion.org/article/13288-it-039-s-time-to-boycott-turkey-interview-with-dilar-dirik

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