
Noite muito dura para os amantes de Exarchia e a luta revolucionária na Grécia.
Muitos de nossos companheiros passaram a noite entre quatro paredes após espancamentos sistemáticos das inúmeras forças de segurança. Outros ficaram feridos, incluindo três na cabeça e levados de ambulância para o hospital. Outros tiveram que se esconder durante a maior parte da noite, ou a noite toda, para não serem apanhados e espancados pela polícia que parecia muito frenética em todo o bairro, como em um videogame de guerra.
No total, mais de 5.000 policiais, helicópteros e drones transmitiam constantemente a posição dos insurgentes resistentes nos telhados dos imóveis, a polícia antiterrorista, a tropa de choque, a polícia civil, a polícia motorizada, os veículos blindados com armas de fogo. Um verdadeiro exército convergiu para Exarchia durante os dois protestos sucessivos. Eles eram muito numerosos e equipados demais para os membros irredutíveis do bairro rebelde e solidário.
Exarchia não suportou muito. Já parcialmente ocupada por semanas, rapidamente caiu sob o controle dos soldados supostamente destacados para a tal manutenção da paz. Poucos lugares no bairro ainda são seguros. Hoje de madrugada, enquanto o sol ainda não nasceu, a okupa Notara 26 ainda está de pé, assim como a estrutura de saúde autogestionária ADYE (K*Vox ou Exarchia). Mas esses lugares e alguns outros são organizações dos últimos bastiões de um bairro não-padrão completamente devastado pelo Estado grego durante as últimas semanas, que objetiva eliminar uma das fontes de inspiração do movimento social em todo o mundo.
Ainda hoje, o sangue fluiu, incluindo o de uma jovem mulher espancada na cabeça a ponto de pintar a verdadeira face do regime no chão. A Junta não terminou em 1973, ao invés disso o novo governo com seus ministros, alguns dos quais são de extrema-direita e sua política cada vez mais autoritária, se aproxima passo a passo do exemplo do coronel Papadopoulos e sua camarilha.
Com os novos meios tecnológicos adquiridos especialmente na França, o poder monitora, rastreia, acossa, retêm, ameaça, bate e para, além de tirar onda. Sim, ocorreu a manifestação em memória da revolta de 1973, muito numerosa, mas cercada por uma quantidade impressionante de policiais e ônibus da MAT (tropa de choque). Nas ruas de Exarchia, dezenas de companheiros foram forçados a sentar no chão ou ajoelhar-se, com as mãos atrás da cabeça, sob golpes, chacotas e humilhações. Aqui, uma mulher é arrastada pelos cabelos. Ali, um homem é atingido nos testículos. E então poças de sangue, aqui e ali, nos cantos da praça central do bairro ferido.
Na mídia, há uma consenso de elogios em todas as cadeias de TV: Kyriakos Mitsotakis finalmente restaurou a “ordem e a democracia” em todas as partes da Grécia, inclusive em “Exarquistão”, o bairro, segundo eles, sem ordem nem leis. As notícias de última hora passam sem interrupção o título do tenista grego Stefanos Tsitsipras no “ATP Finals 2019” e a ocupação policial de Exarchia, completamente paralisada ou quase após uma breve resistência. Mitsotakis saúda a vitória de seu amiguinho tenista e promete acabar com as últimas okupas muito em breve. Segundo ele, sua missão nesta área terminará em breve.
Também querem vingar a visita do Rouvikonas, neste domingo de manhã, à casa do ministro da Economia, Adonis Georgiadis, ex-LAOS, partido de extrema-direita. Particularmente racista, Georgiadis afirmou especialmente que queria “tornar a vida mais difícil para os imigrantes” para dissuadi-los de vir para a Grécia. Com essa ação, pouco antes da manifestação de 17 de novembro, o Rouvikonas queria demonstrar, mais uma vez, que se somos vulneráveis, aqueles que nos governam também são: “Conhecemos seus endereços pessoais, sabemos onde encontrá-los! Ameaçou o grupo anarquista em sua declaração. O protesto de toda a classe política foi imediato. Por exemplo, o PASOK ficou surpreso que os ativistas se permitissem evidenciar a privacidade dos líderes políticos, independentemente das divergências. “Isso reforça nossa determinação de classificar o Rouvikonas entre organizações terroristas”, disse outro ministro da Nova Democracia na televisão. Rouvikonas, o próximo alvo planejado, “assim que o caso Exarchia for completamente resolvido”.
A lei está sendo endurecida contra todas as formas de resistência. Por exemplo, o uso de um coquetel molotov agora custa até 10 anos de prisão e não mais 5 como antes. À “neutralização dos sentinelas nos telhados”, ou seja, grupos de manifestantes que até agora observavam e enviavam uma enxurrada de coquetéis molotov dos telhados dos imóveis do bairro se complicou. Os postos policiais continuam a aumentar. Os funcionários da prefeitura de Atenas são enviados sob escolta policial para limpar rapidamente as pichações dos muros. Um lembrete de “muros brancos, pessoas tolas”, dizia um dos slogans contra a ditadura dos coronéis, o mesmo no outro extremo da Europa em maio de 1968.
Na movimentada noite ateniense, as vozes se perguntam sobre a continuação, as listas de discussão são revividas, circulam mensagens para expressar raiva, revolta e solidariedade, mas também ideias, sugestões e desejos. Na frente da okupa de refugiados Notara 26, a maior faixa teimosamente anuncia: “Vocês não poderão desocupar um movimento inteiro!”
Essa noite, Exarchia rebelde teve um gosto de sangue na boca, imóvel e silencioso no escuro, mas ainda vivo.
Yannis Youlountas
Fonte: http://blogyy.net/2019/11/18/lendemain-du-17-novembre-2019-a-athenes-un-gout-de-sang-dans-la-bouche/
agência de notícias anarquistas-ana
pássaro tenor
afina a garganta
ao sol se pôr
Carlos Seabra
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!