
mais do capitalismo sustentável
A Vale do Rio Doce investiu R$980 milhões na construção do Parque da Cidade, local que sediará as negociações oficiais entre os Estados na COP30. A parceria público-privada foi viabilizada pelo programa Estrutura Pará, que estabelece que mineradoras podem reverter até 50% do pagamento do imposto estadual TRFM na forma de financiamento de obras. Este imposto, especificamente voltado às mineradoras, cobra taxas a serem destinadas à fiscalização e ao controle ambiental das atividades do mesmo setor. Isso é capitalismo sustentável. Mineração legal e ilegal, igualmente, devastam, envenenam a terra e as águas, destroem florestas, rios, ecossistemas, aldeias, quilombos, cidades. Ceifam vidas, com ou sem enxurrada de lama tóxica. Ainda não se esqueceu passado recente devastador e de matança criado pela Vale.
mais da civilização
Dez anos após a devastação promovida pela Vale nas cidades de Mariana e Brumadinho, os rejeitos da barragem permanecem na terra e nos rios. Assim como prosseguem as deformidades em bichos que vivem na água, doce ou salgada – afinal, não houve apenas um rio envenenado, pois não há força viva que respeite fronteiras criadas pelos humanos, e a lama tóxica se espalhou, atingindo até os corais de Abrolhos. Quem vive na região diz que não dá para comer os peixes que habitam o Rio Doce. Na cidade de Aimorés, distante mais de 370 quilômetros, a orla do Rio Doce virou pequenas poças d’água. Seca. Não há mais bichos de água, apenas mosquitos e os chamados “peçonhentos”. Lá a devastação data da construção de uma usina, iniciada em 2001. A concessão, que envolveu a autorização do desvio do curso do rio, foi outorgada durante a ditadura civil-militar. Hoje, entre as parcerias nacionais e internacionais da administradora da usina, está a Vale. O progresso civilizatório – sustentável ou não, democrático ou não – é a perpetuação das matanças e devastações… E de lucro empresarial legal e ilegal, contando com parcerias burocráticas.
a todo vapor
As supostas conservações ambientais interessam aos Estados, aos proprietários e a segmentos da chamada sociedade civil organizada desde que garantam expressivas taxas de retorno. Nos últimos anos, houve um crescimento do que se convencionou chamar de indústria verde, com aumento de produção – sobretudo por parte da China – e de compras de painéis solares, baterias elétricas, carros elétricos ou híbridos, mercado de crédito de carbono etc. A mineração, classificada como legal ou ilegal, continua a todo vapor. Afinal, como assegurar as taxas de “bom retorno” para a indústria verde prescindindo da atividade extrativa, modificadora, coletora de commodities, de sangue e ar de trabalhadores que mantém seu ritmo de produção?
bom retorno
O mesmo ocorre com os combustíveis fósseis. O Brasil, país-sede da COP30, nos últimos meses, aprovou novos leilões para exploração de petróleo nas chamadas águas profundas. O argumento é sempre o mesmo: ‘é necessário financiar a transição energética por meio do uso – e abuso – de “nossos” recursos naturais’. Usar e, simultaneamente, abusar, tal como preconiza e assegura o sagrado direito à propriedade. As atividades econômicas, verdes ou não, complementam-se, financiam-se, estão interligadas. Tudo, claro, em prol da tal da “boa taxa de retorno”, com mineração aqui, “conservação ali”, compras de crédito de carbono por quem destrói e, assim, sucessivamente em direção à utopia neoliberal com direita e esquerda, conservadores e progressistas, socialistas de Estado e liberais dentro e fora de home offices…
negociações resilientes
Uma das expectativas em torno das negociações entre autoridades estatais, empresas filantrópicas na chamada sociedade civil organizada e comunidades indígenas que ocorrerão na COP30 gira em torno da criação de um fundo de investimento internacional. Este, pretende recompensar Estados que se comprometam a conservar bosques tropicais, destinando aos beneficiários pagamentos anuais por hectares de “floresta em pé”. Além disso, a proposta visa direcionar ao menos 20% dos fundos recolhidos às comunidades indígenas e tradicionais para que tenham autonomia para gerenciar os recursos provenientes. Trata-se do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). O governo que encabeça e estimula a iniciativa é o brasileiro. O capitalismo sustentável requer, mais uma vez, a inclusão de variadas forças agrupadas em minorias numéricas em compartilhar no governo os efeitos do “colapso climático” e tentar apaziguar as lutas incluídas na retórica da preservação de biomas. Prepondera a racionalidade neoliberal com as recomendadas moderações de condutas e aumento de resiliências, deixando sempre intocado o questionamento do regime da propriedade que fundamenta as devastações em escala global em qualquer canto do planeta.
inclusões convenientes
No fim do mês de outubro, o secretário-geral da ONU concedeu uma entrevista exclusiva antes da COP30 para uma revista ambientalista brasileira, concedida de forma inédita por um jornalista indígena. Tal ineditismo foi explicitamente comemorado na reportagem publicada. Afinal, inclusões viraram objetivos a serem perseguidos. Progresso!: mais inclusões que engrandecem e dão continuidade à racionalidade neoliberal. A entrevista versou sobre diversos temas relacionados à COP de Belém, dentre os quais a exigência de “lugar de fala” para povos indígenas durante a conferência. O tom moderado do secretário-geral escancara novamente as capturas de diversos movimentos e minorias numéricas, agora em estágios de supostas pacificações em prol do desenvolvimento sustentável capitalista e tão ao gosto dos Estados, das religiões e seus esdrúxulos ecumenismos e seguranças militarizadas ou não.
de uma estrela colorida, brilhante
Será que alguma revolta eclodirá frente aos que se arrogam donos do planeta e aos que tem fé na sua participação e na melhoria de toda essa merda? Alguma força vinda da imensa floresta, dos rios, das entranhas da terra? A fúria de algum bicho selvagem? As flechas ou estrepes de gente que vive na e com a floresta e se recusa à domesticação dessa sociedade? Haverá fogo para queimar o insuportável?!
Fonte: https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2025/11/flecheira832.pdf
agência de notícias anarquistas-ana
café da tarde—
na mangueira em flor
farra de pardais
Nete Brito
Discordo de chamarem aos regimes políticos onde existem eleições de "democráticos". Representatividade não é democracia. E regimes representativos, são elitistas;…
O conceito de liberdade como prática cotidiana e resistência constante às cercas — seja do Estado, do capital ou das…
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…