
Declaração lida por dois dos indiciados pela Operação City ante o Tribunal de Turim durante a audiência do dia 24/02/2026
Se estamos aqui, no banco dos acusados, é porque decidimos lutar contra o 41bis e a prisão perpétua, junto e em solidariedade com Alfredo Cospito, encarcerado sob esse regime em maio de 2022 e que iniciou uma greve de fome indefinida em outubro do mesmo ano. No final de fevereiro de 2023, o rechaço definitivo do Tribunal de Recursos à desclassificação de Alfredo do regime 41bis representou, na prática, sua condenação à morte. Como podemos permanecer indiferentes ante a morte iminente de um companheiro que se dedicou a denunciar tais abominações?
Dentro dos mecanismos de arbitrariedade e violência que formam o sistema judicial italiano, o artigo 41 bis e a prisão perpétua sem liberdade condicional são dois instrumentos de tortura. Não se trata de um simples artifício retórico, mas de uma análise substantiva do uso destes instrumentos, partindo do significado literal do termo, que —citando a Treccani— se refere a “diversas formas de coerção física aplicadas a um acusado […] com o fim de extrair-lhe uma confissão […]”. Inclusive hoje, e desde princípios da década de 1990 até a atualidade, centenas de presos se encontram reclusos sob o regime 41bis, submetidos ao isolamento diário e emocional, a um estigma social que também afeta seus seres queridos, a privação sensorial e, para muitos, a impossibilidade de serem liberados. Uma condição concebida e implementada cínica e cientificamente para aniquilar o indivíduo. Hoje, uma vez mais, é importante destacar como a valente luta do companheiro Alfredo Cospito, em greve de fome durante seis longos meses, desatou um amplo e decidido movimento de solidariedade.
Nas últimas décadas, rara vez o sistema penitenciário, seus mecanismos punitivos, a violência sistêmica que o impregna, a arbitrariedade de suas normas e as afirmações enganosas que pretendem justificar as “fossas comuns” foram analisados, criticados e rechaçados por diversos grupos sociais. A mobilização estudantil, junto com a denúncia e a participação ativa de organizações, associações e, sobretudo, milhares de pessoas, representou um aumento de conscientização excepcional e sem precedentes. Isto ocorreu não só em Turim, mas também em muitas cidades da Itália e do exterior.
Um efeito bumerangue que certamente, ainda que inesperadamente, sacudiu os que haviam trabalhado com tanto zelo para possibilitar legalmente a aplicação do Artigo 41bis a Alfredo. Mas apesar disto, apesar dos protestos e ações de solidariedade na Itália e em todo o mundo, Alfredo segue submetido a este regime, que provavelmente será renovado na próxima primavera. Foi condenado a 23 anos, junto com Anna Beniamino, cuja condenação ascende a quase 18 anos, por massacre político, o delito mais grave segundo a lei italiana, apesar da ausência de mortos ou feridos. Diferente do ocorrido em Piazza Fontana (17 mortos), Piazza della Loggia (9 mortos e 102 feridos), a estação de trem de Bolonha (85 mortos) e os inumeráveis ataques racistas (especialmente o de Castelvolturno em 2008, que deixou 8 mortos), em nenhum destes casos se incluiu o massacre político entre as acusações.
As guerras contemporâneas, os genocídios, as investigações de DNAA (Direção Nacional Antimáfia e Antiterrorismo) contra palestinos e migrantes, as dezenas de milhares de pessoas que fogem de territórios devastados e saqueados pelo colonialismo e morrem tentando chegar à Europa, as mortes no trabalho, a cumplicidade do Estado italiano com Israel, tudo demonstra que os massacres, a devastação e o saque são planejados e perpetrados pela violência estatal.
Lutar hoje é mais necessário que nunca. Em solidariedade com Alfredo, contra o 41bis e a prisão perpétua. Liberdade para todos os povos oprimidos, que lutam e resistem.
Acusados e acusadas
Tradução > Sol de Abril
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