No Silêncio da Selva…: o Inferno Verde de Clevelândia.

Por Carlos Ferreira de Araujo Junior

O filósofo camaronês Achille Mbembe cunhou o conceito necropolítica para aquelas políticas e ações criadas para determinar quais indivíduos devem viver e quais indivíduos devem morrer. A materialização destas políticas pode ser vista nos campos de concentração, campos de refugiados, colônias penais, etc.  A Necropolítica estabelece zonas de morte, onde indivíduos subversivos, corpos não dóceis e ideias perigosas são confinadas e lá deixadas para morrerem. No Brasil, a Colônia Penal de Clevelândia do Norte. Clevelândia ficava incrustrada na floresta Amazônica, isolada de vários centros habitados.

A Colônia Penal Agrícola de Clevelândia operou entre 1924 e 1926, durante a Primeira República, na década de 1920, sob o autoritário governo de Arthur Bernardes (1922-1926). Neste período foram enviados os inimigos de Arthur Bernardes além de presos comuns presos por furtos, vadiagem etc. Os primeiros presos políticos a serem enviados foram os rebeldes tenentistas. Depois foram enviados operários anarquistas.

A repressão seguia uma “escala” que levaria a Clevelândia: os opositores de Bernardes eram caçados e presos em delegacias precárias. Depois eram metidos em navios-porões que os transportavam para o Oiapoque. Os navios-porões eram verdadeiras masmorras sobre o mar e repetiam os ambientes imundos da delegacia. Tudo um prelúdio para um lugar ainda pior: Clevelândia, o Inferno Verde ou a Sibéria Tropical. Entre 1924 e 1926, foram enviados para Clevelândia cerca de 1.300 pessoas. Cerca de 700 delas morreram. A título de comparação, durante a Ditadura Civil-Militar (1964-1985), cerca de 450 pessoas desapareceram ou foram mortas, de acordo com a Comissão Nacional da Verdade.

Dentre os libertários enviados a Clevelândia podemos citar: Domingos Passos, Domingos Braz, Pedro Motta, Nino Martins, Nicolau Paradas, Thomaz Derliz Borche, José Batista da Silva, Antônio Salgado, Fernandes Varella, Biofilo Panclastra, José Nascimento Alves, Antônio da Costa, Manoel Ferreira Gomes, Pedro Carneiro, entre outros. Os anarquistas que morreram em foram: Pedro Motta, Nicolau Paradas, Nino Martins, José Maria Fernandes Varella e José Alves do Nascimento. O anarquista amazonense Fernandes Varella chegou a enviar cartas para o jornal anarquista A Plebe relatando as péssimas condições do lugar, além de relatar própria agonia. Varella morreria dias depois. 

Outros presos relataram que médicos e enfermeiros injetavam uma substância identificada como quinino nos corpos dos detentos, de forma arbitrária. Além da desnutrição, os detentos sofriam e morriam de tuberculose, malária e desinteria. O anarquista afro-indígena Domingos Passos também enviou cartas para a imprensa operária narrando torturas, espancamentos e negligências. Domingos Passos conseguiu escapar e chegar com vida a Belém do Pará. O sobrevivente Domingos Braz, operário anarquista, descreveu os tipos de presos recolhidos em Clevelândia.

Desgraçados mendigos pela infâmia de serem velhinhos, inutilizados, repelidos e escarnecidos pela sociedade, porque aqui não há asilos que os acolham; inúmeros filhos do povo confundidos entre vagabundos (…) pelo inconcebível delito de não terem recursos para comprarem a sua liberdade aos agentes que os prenderam; e vários sindicalistas e anarquistas. A PLEBE. n. 245. Data: 12/02/1927.

Na mesma carta, Braz descreve o ambiente mortífero de Clevelândia:

O Oiapoque é um lugar sem recursos médicos. Os próprios preceitos sanitários e higiênicos são desconhecidos. Os infelizes deportados dormem em grupos de cem e mais indivíduos. Barracões imundos e asquerosos cobertos de tábuas ou por palhas em cima e pelos lados – eis o alojamento. A febre palustre, a desinteria, a gastroenterite encontram neles um vasto e amplo campo de propagação fazendo, impunimente, vítimas diárias. Acresce a tudo isso a alimentação deficiente, imprópria e irregular e, na maioria das vezes, sem tempero de espécie alguma. A PLEBE. n. 245. Data: 12/02/1927.

Os condenados de Clevelândia não foram executados de imediato. Foram padecendo aos olhos da administração do lugar. Eles foram morrendo pouco a pouco por doenças, maus tratos, fome, trabalhos extenuantes e tristeza.

REFERÊNCIAS

KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente. Ed. Monstro dos Mares. 2025

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução de Renata Santini. São Paulo: N-1 edições, 2018.

PLEBE, A. n. 245. Data: 12/02/1927.

RODRIGUES, Edgar. Companheiros.

______________. História do Movimento Anarquista no Brasil.

SAMIS, Alexandre. Clevelândia: anarquismo, sindicalismo e repressão

política no Brasil”,

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

agência de notícias anarquistas-ana

Margeando riacho
Tenras folhinhas brotam
No campo queimado.

Mary Leiko Fukai Terada

Leave a Reply