
Por Tomás Ibáñez
Admito, estou puto, muito puto, e isso explica por que reagi tão abruptamente a alguns textos vindos do setor plataformista, ou especifista, como eles mesmos preferem se denominar, e por que proferi expressões tão agressivas como a de qualificá-los de “anarquismos cavernícolas, retrógrados e reacionários”[1]
Estou puto porque sempre me pareceu desprezível que, nas controvérsias, se vá “para cima da pessoa” do adversário, atribuindo-lhe determinados traços ou características para desqualificar suas posições e seus argumentos, e é precisamente isso que se faz em escritos como os de Miguel Brea, do coletivo especifista madrilenho Liza.[2]
No afã de explicar que determinadas posturas se devem a situações ou a traços pessoais, não se deveria abandonar certa prudência, se não se quiser cair na indecência. Reprocha-se a mim, por exemplo, não estar presente nas lutas de rua contra os despejos e outras insuportáveis barbaridades. Reconheço que, aos meus 82 anos, já não estou para militar 24 horas por dia como fiz por muito tempo na minha juventude e continuei fazendo com intensidade decrescente por muitos anos mais.
Me irrita que se pretenda induzir a ideia de que minhas posturas se deveriam ao fato de eu ser um intelectual de gabinete, sem contato militante com a realidade, e me irrita ter que contrapor essa ideia com alguns dados sobre minha trajetória de rua, lembrando, por exemplo, que antes de ser maior de idade já estive diante dos tribunais por atividades anarquistas antifranquistas, ou que em janeiro de 1966 passei a integrar a Comissão de Relações da FIJL (ilegalizada na França por sua vinculação com a Defesa Interior), ou que sofri uma ordem de expulsão da França por minha participação na revolta de Maio de 68, sem esquecer que participei intensamente da reconstrução da CNT, e assim sucessivamente até o presente, fazendo o que razoavelmente posso para lutar por meus valores.
Aliás, quando se alude ao fato de que a elaboração de meus textos persegue o objetivo de serem publicados em revistas indexadas, deveria-se saber que não apenas me caracterizei por rejeitar essa prática, como também uma de minhas lutas acadêmicas foi, precisamente, a de denunciar esse critério como indicador de excelência em pesquisa.
Estou puto porque o procedimento que consiste em desqualificar a pessoa com o fim de minar seus argumentos me levou a mencionar alguns fragmentos de minha trajetória antes de abordar as questões de fundo, que é o que realmente apresenta algum interesse.
E, por último, mas não menos importante, também estou puto porque tenho o sentimento de que a corrente especifista, representada basicamente por Liza em Madri e por Embat na Catalunha, inscreve-se de forma quase mimética, e provavelmente sem pretender, num fenômeno mais geral que no âmbito marxista leva o nome de Movimento Socialista, originado no País Basco, e Horitzó Socialista nos países catalães.
No caso do anarquismo, o propósito de focalizar as lutas para a revolução social proletária e de recompor o tecido libertário fragmentado, aglutinando-o numa grande e potente organização, parece-me arrastar as lutas anarquistas para uma ineficácia política e social, afastando-as da realidade do mundo contemporâneo.
Espero que ter dado vazão à minha raiva tenha tido em mim o efeito catártico suficiente para que eu possa abordar agora, sem excessiva acrimônia, a controvérsia com a tendência especifista em torno de três temas principais:
— A revolução, o programa revolucionário e o desejo de revolução.
Ao contrário do que se sustenta desde o especifismo, não é a crítica ao antigo imaginário da revolução que desanima o fervor combativo de quem rejeita o sistema atual e anseia por outra forma de vida, mas sim o próprio fato de fomentar a crença na vigência desse imaginário. Com efeito, animar a lutar hoje por uma revolução social inspirada no conceito de revolução próprio das ideologias socialistas e anarquistas forjadas no século XIX está fadado a criar, mais cedo ou mais tarde, uma inevitável frustração, não apenas diante da evidência de que não se delineiam, nem a curto nem a médio prazo, condições que a tornem possível, mas também pelo escasso entusiasmo, e até mesmo pelo nulo interesse, que a perspectiva de uma revolução “à moda antiga” desperta na população.
Trata-se de uma falta de credibilidade e de uma ausência de interesse que pode desanimar aqueles que, movidos pelas melhores intenções, dedicam suas energias a “avançar” rumo à consecução da revolução, aprimorando estratégias, elaborando programas e delineando profundos projetos revolucionários, que em nenhum caso produzem avanços perceptíveis nessa direção.
Criticar a concepção de revolução forjada nos séculos XIX e XX não significa negar que o sistema vigente seja totalmente inaceitável, nem questionar que seja preciso lutar acirradamente contra ele. Não se trata de abandonar a imprescindível necessidade de transformar radicalmente o sistema, e está bem claro que os anarquismos desprovidos de um intenso desejo de revolução dificilmente mereceriam seu qualificativo. Não se trata de renegar a revolução, mas de ressignificar seu conceito. E é precisamente isso que se está fazendo nos setores que mantêm vivo o desejo de revolução, mas que desenvolvem suas práticas no mundo contemporâneo e não no fantasma de um mundo que já caducou há muito tempo.
Nesses setores, a revolução não é um objetivo mais ou menos distante para o qual se avançaria mediante “o correto desenvolvimento da estratégia correta”, mas, afastada de toda perspectiva escatológica, está incardinada no presente. A revolução ressignificada em termos atuais não se situa no porvir, mas acontece em cada espaço e em cada processo que se consegue subtrair ao sistema; não é aquilo para o qual nossas lutas tentam nos aproximar, mas sim o que estas produzem no curso de seu próprio desenvolvimento. Dito de outra forma, a revolução não é a meta de nossas lutas, mas é inerente a elas; não há propriamente revolução entendida como se a entendia antigamente, mas existem atividades que são revolucionárias na medida em que exemplificam a resistência contra o sistema, o contradizem e o racham no curso de seu próprio exercício. Faz-se revolução no dia a dia das lutas, sem esperar por nenhum estouro final que constituiria a recompensa de nossos esforços. A recompensa não reside em nenhum outro lugar senão no seio desses mesmos atos.
E para que não se diga que essa concepção é produto da ideologia neoliberal vigente desde o último terço do século XX, basta lembrar que já a encontramos prefigurada em escritos do século XIX, como por exemplo nos de Max Stirner. A título de curiosidade, ainda não havia terminado o ano de 1964 quando já havia publicado um texto que se intitulava em francês: “la révolution de papa est morte”.[3] Abandonar esse tipo de revolução me parecia então a melhor maneira de continuar sendo revolucionários e revolucionárias.
— A classe operária, sua consideração como sujeito revolucionário e o capitalismo atual
O peso do setor produtivo ao qual pertenciam os sujeitos catalogados como membros da classe operária não parou de diminuir tanto em termos absolutos quanto em termos relativos.
Para além da clássica distinção marxista entre a classe em si e a classe para si, é óbvio que apenas um indevido processo de reificação permite afirmar que existe algo como a classe operária (ou qualquer outra classe). A classe é um conceito sociológico, uma categoria, uma abstração, que carece de um referente material. Quando se hipostasia essa entidade conceitual, não apenas se incorre num erro inferencial, mas se assentam as bases para construir narrativas que tentam disfarçar seu caráter fantasioso sob uma linguagem tecnicista que acaba por distorcer nossa representação da realidade e por encaminhar nossa análise política, bem como as atividades dela derivadas, para rumos equivocados e conclusões errôneas.
Constatar o declínio da importância da chamada classe operária não é um viés ideológico induzido pelo neoliberalismo, mas um fato trivial por ser demasiado óbvio. Questionar a tendência a hipostasiá-la não é diminuir a importância do fato inquestionável da exploração capitalista, nem a existência bem real de multidões de pessoas que, para subsistir, se veem na obrigação de vender seu tempo, sua saúde, suas competências, suas energias em troca de contrapartidas econômicas sempre inferiores à mais-valia gerada, como exige a lei de ferro do capitalismo.
Pretender que a classe operária é “o sujeito revolucionário” representa uma dupla falácia: primeiro, porque, se não existe uma classe operária, é impossível que ela seja o sujeito de qualquer coisa; e segundo, porque, se insistimos em chamar de sujeito revolucionário as entidades que produzem revoluções, acontece que esses sujeitos são múltiplos. Não há um sujeito revolucionário, mas muitos. E estes não costumam se definir mecanicamente por uma determinada inserção no tecido produtivo, mas sim se correspondem com as reações e resistências frente aos distintos dispositivos de dominação que conformam o tecido social e o semeiam de operações de discriminação. Para além da eventual potencialidade revolucionária dos coletivos explorados e/ou discriminados aos quais pertencem as pessoas, são revolucionárias aquelas que são animadas por uma rejeição consciente e radical da submissão e por um intenso desejo de revolução que as leva a desenvolver atividades revolucionárias voltadas a opor resistência às diversas formas de dominação próprias do sistema vigente.
É óbvio que o sistema em que vivemos há alguns séculos é um sistema capitalista absolutamente execrável, que Marx, mas não só ele, contribuiu para analisar. No entanto, a linguagem pretensamente rigorosa a que recorrem os textos especifistas, bem como outros de caráter filomarxista, reflete uma incapacidade de se desprender dos tópicos mais gastos do marxismo. O mantra que não para de se repetir há mais de um século é que o capitalismo entra em sua fase final e que está prestes a sucumbir sob suas insuperáveis contradições. Fala-se de capitalismo terminal, de capitalismo desvairado, de crise sistêmica e crônica do capitalismo neoliberal, da dinâmica degenerativa irreversível da acumulação, da entrada do capitalismo numa fase de turbulências estruturais, etc., etc. Nem todas essas expressões figuram literalmente nos escritos especifistas, mas se encaixam em seu incansável mantra de anunciar que o capitalismo está com os dias contados devido às suas próprias contradições internas, o que injeta uma moral de vitória adiada numa militância frustrada pelo fato de constatar que o moribundo capitalismo não para de resistir aos seus denodados ataques.
O lamentável é que esse tipo de análise não ajuda a entender as características atuais do capitalismo, e especialmente as dessa 4ª revolução industrial, ou revolução 4.0, na qual entramos desde os albores do século XXI.
Indissociável da revolução informática que deu início à terceira revolução industrial nos anos 1970, trata-se agora da integração das tecnologias digitais em todos os âmbitos da sociedade e da estrita dependência dos recursos digitais em que se encontram todos esses âmbitos – medicina, educação, comunicação, pesquisa, inclusive as guerras e, claro, a esfera econômica, que passa a configurar um capitalismo digital ou tecnocapitalismo que, entre outras características, consegue produzir mais-valia a partir dos enormes viveiros de dados explorados por potentes algoritmos.
A IA, a robótica, a engenharia genética, as nanotecnologias, os objetos conectados, os satélites, os computadores quânticos… etc. Tudo isso propicia, por um lado, a emergência de um novo tipo de totalitarismo[4] que começa a modelar a sociedade e, por outro, a entrada num regime de vertiginosa aceleração das mudanças em todos os âmbitos, criando, entre outras coisas, um contexto de incerteza e um sentimento de incontrolabilidade tanto do presente quanto do futuro.
Esse é o contexto em que se inserem nossas lutas atuais, e é bastante difícil vislumbrar como a classe operária enquanto sujeito revolucionário se encaixa no marco do capitalismo 4.0.
— A organização especifista
Obviamente, o cerne da questão não está em se é preciso se organizar ou não. Ter que se organizar é uma exigência inerente a qualquer atividade anarquista assim que envolve mais de uma pessoa. Portanto, quando se faz bandeira do anarquismo organizado, o que se está fazendo é excluir implicitamente dessa categoria boa parte das atividades anarquistas que também requerem organização, mas que se desenvolvem fora de um determinado tipo de organização. Assim, reserva-se a expressão “anarquismo organizado” para designar o anarquismo que se enquadra especificamente num determinado tipo de organização.
Por exemplo, seria manifestamente errôneo sustentar que os coletivos anarquistas que atuam a partir dos centros sociais ocupados e autogeridos, ou a partir de problemáticas locais, ou de pequenos coletivos autônomos, ou da luta contra determinadas discriminações particulares carecem de organização; no entanto, o próprio fato de deixá-los à margem do anarquismo organizado está transmitindo que, se esses tipos de anarquismo não merecem o qualificativo de anarquismo organizado, não é realmente porque carecem de organização, mas porque constituem um mosaico variegado, fragmentado, desconexo, carente de uma perspectiva estratégica que oriente suas lutas.
Essa apropriação hegemônica do atributo “organizado” frustra a pretensão de transformar o caráter organizado ou não do anarquismo num critério diferenciador entre dois tipos de anarquismo e deixa a descoberto a vontade de considerar como anarquismo organizado apenas o anarquismo próprio de determinadas organizações, entre as quais figuram, evidentemente, as organizações especifistas.
Uma mínima honestidade política exigiria que, em vez de falar genericamente de anarquismo organizado, quem assim o faz precisasse que está falando de anarquismo organizado segundo uma das concepções de organização, mas que há outras concepções e que, portanto, também existem outras variedades de anarquismos organizados. Isso deslocaria o debate para a comparação entre diversas formas de organização, para poder avaliar, entre outras coisas, quais são as mais adequadas às características da sociedade atual e as mais eficazes para transformá-la.
Pode ser, por exemplo, que a realidade atual exija modelos organizativos reticulares, muito mais flexíveis, mais fluidos, do que os das organizações tradicionais, orientados por simples propósitos de coordenação para realizar tarefas concretas e específicas, a partir de perspectivas meramente táticas.
Pode ser que a tentação de romper essa fragmentação e essa fluidez organizativa leve a condenar o movimento anarquista a sofrer um novo eclipse após o recente período em que conseguiu polinizar uma série de movimentos subversivos externos ao âmbito do anarquismo identitário e em que alcançou proliferar nos interstícios da sociedade.
Em todo caso, a fascinação por construir uma sólida organização anarquista articulada em torno de um programa revolucionário coerente e de perspectivas estratégicas capazes de sustentar eficazmente as lutas anticapitalistas deveria alentar a atividade militante de quem se inscreve nessa tesitura, sem que tenham que alimentar a enganosa ilusão de que as dificuldades que afligem as lutas atuais se devem, principalmente, à ausência de uma grande organização libertária, e que essas dificuldades desaparecerão assim que essa organização veja a luz.
Apesar de meus receios em relação às organizações que, de maneira mais ou menos explícita conforme os casos, fazem parte da tradição plataformista, ou seja, da tradição que representa no seio do anarquismo a versão mais próxima da “forma Partido”, própria das diversas variantes dos marxismos-leninismos e dos trotskismos, não me incomodaria tanto o intenso proselitismo que seus partidários desenvolvem se os esforços daqueles que anseiam por uma grande organização anarquista se voltassem para desenvolvê-la, conquistando novos espaços e nova militância, em vez de lançar mão do já existente, ou seja, de uma parte do anarquismo atualmente ativo para reestruturá-lo, sem perceber que, ao homogeneizá-lo e unificá-lo, corre-se o risco de destruí-lo.
Com efeito, parece que se estivesse lançando uma OPA sobre os centros sociais ocupados e sobre os coletivos anarquistas autônomos para que sua militância engrosse as fileiras “unitárias” do especifismo. Um pouco como ocorreu na Catalunha durante o chamado “Process“, quando os nacional-independentistas das CUP lançaram uma OPA sobre a militância anarquista espalhada pelo tecido social da Catalunha e conseguiram atrair para a atividade nacional-independentista boa parte dela.
O fato de que, desde o especifismo, se exorte a potencializar o poder popular e a empoderar o povo fortalece o ar de família com as organizações de índole marxista revolucionária, acentuando dessa forma o aroma de leninismo rampante que emana do especifismo. Não é surpreendente que, dessa proximidade, manifeste-se certa atração pelo reacionário conceito de “vanguarda”, ainda que tentando reformulá-lo e disfarçá-lo para torná-lo menos repelente nos meios anarquistas.[5]
A modo de conclusão provisória, é óbvio que, considerando apenas as divergências em torno desses três temas, delineiam-se orientações fortemente divergentes, para não dizer diferenças abissais.[6] No entanto, como ninguém pode ter total certeza de que seu ponto de vista é o mais acertado, acho muito bem que aqueles que se agrupam em organizações como Liza, Embat e outros coletivos do mesmo talante desenvolvam suas propostas e atividades sem que lhes coloquemos obstáculos, desde que também se abstenham de fazê-lo em relação a outras propostas anarquistas.
Desde o convencimento de a necessária pluralidade dos anarquismos, quero apenas desejar-lhes sorte em sua caminhada, mas isso não implica renunciar à análise, às avaliações e à crítica de seus postulados e de seu fazer.
É essa mesma sorte, só que ainda maior devido à minha própria orientação dentro dos anarquismos, que desejo àqueles que se organizam fora dessas organizações nos coletivos anarquistas autônomos que procuram resistir e que, com isso, estão contribuindo para anarquizar o mundo no presente e em toda a medida do possível.
[1]: https://redeslibertarias.com/2025/10/10/anarquismos-cavernicolas-retrogrados-y-autoritarios/
[3]: 1964. T. Ibáñez “La révolution de papa est morte”. *Bulletin des Jeunes Libertaires* nº 48
[4]: Veja o adendo sobre essa questão em meu livro *Anarquismo no fundacional. Afrontando a dominação no século XXI.* Barcelona Gedisa 2024
[5]: T. Morago, Recompor a vanguarda, *Regeneración libertaria*. junho 2026
[6]: A. Apilánez. https://kaosenlared.net/el-anarquismo-en-su-laberinto/
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
Na noite em silêncio
o relógio presente
marca o passado
Eugénia Tabosa
A bit older than Tomás Ibáñez… and less fluent writer not integrated in academy, I still daher to the scientific system analises.
I do no owe Marx or others the observation that the capitalist system include in it people who work and are exploited and others who are mainly exploite them.
Nor I find it obvious that these who exploit have the power to force the exploited and only a revolutionary uprising may stop this.
It is obvious that some people who resent this social order organise to do it some of them even self label themselves anarchists.
It is simple to conclude that revolutionary anarchists will organise themselves to promote their specific take and join others anarchist and not anarchists who do not share the same take to the struggles for a better world.