[Grécia] Tirem as mãos de nossos companheirxs | Caso Banco Marfin

Em 5 de maio de 2010, durante uma manifestação multitudinária em Atenas contra as medidas de austeridade, a agência do banco Marfin foi incendiada após o lançamento de artefatos incendiários. Três trabalhadores, que estavam dentro do edifício, morreram como consequência do incêndio. O caso provocou uma profunda comoção na sociedade grega e continua sendo um dos episódios mais trágicos e controversos daquele período. Dezesseis anos após os acontecimentos de Marfin, várias pessoas estão sendo processadas com base em um e-mail anônimo. Este caso levanta sérias dúvidas sobre as garantias do Estado de Direito, especialmente quando a acusação se apoia em uma prova cuja credibilidade foi amplamente questionada. Entre outros elementos, o próprio e-mail apontava como autor dos fatos uma pessoa que, naquela data, estava presa, o que põe em xeque a confiabilidade de seu conteúdo e a solidez das acusações dele derivadas. Em 2011, iniciou-se a primeira investigação a partir de uma nota anônima. Três pessoas foram acusadas; duas foram excluídas do processo em uma fase inicial e a terceira foi finalmente absolvida por unanimidade. Em 2020, uma segunda investigação foi aberta após uma chamada telefônica anônima que apontava outras pessoas como supostos autores. Após uma ampla investigação policial, o caso foi arquivado sem resultados.

A MANOBRA ESTATAL NÃO PASSARÁ. TIREM AS MÃOS DE NOSSOS COMPANHEIRXS

O 5 de maio de 2010 ficou gravado na memória coletiva como um dia de rebelião social generalizada, um dia que condensa uma enorme onda de resistência e questionamento ao regime do memorando. É o dia em que os caciques políticos e econômicos, o Estado e o capital, tentaram erguer uma lápide e apagá-lo da memória histórica do movimento. Dezesseis anos depois, a quadrilha estatal de pessoas impenitentes tira da gaveta um caso judicial (que terminou com a condenação da patronal do banco), iniciando outra caça às bruxas. Aproveitando-se da situação atual, de forma seletiva e hipócrita, após os recentes acontecimentos de Tessalônica [caso de artefatos explosivos com a morte da mãe de uma política do partido Nova Democracia], tenta conciliar fatos desconexos – separados por dezesseis anos – com o denominador comum da ação anarquista. Assim, em 10/07, começa outro pogrom, com buscas e apreensões nas casas dos companheiros, detendo dois deles, enquanto é emitido um mandado de prisão contra outra pessoa que mora no exterior há anos. Retomam o discurso do terrorismo, com o objetivo de mudar a agenda, após as consultas governamentais para eleições antecipadas, numa tentativa de desorientar a sociedade. Falam do valor da vida humana. Mas, afinal, todas as vidas valem o mesmo?

Ao mesmo tempo, um jovem de 20 anos é declarado com morte cerebral por disparos da ELAS [Polícia Grega] após uma perseguição [um jovem de 20 anos diagnosticado com autismo foi assassinado pela polícia após não parar numa blitz], enquanto 11 trabalhadores são hospitalizados com queimaduras graves, 3 deles intubados após uma explosão numa indústria de Aspropyrgos [subúrbio de Atenas]. Dois episódios a mais de uma guerra social e de classes encarniçada. Dois casos a mais na longa lista de violência do Estado e dos patrões. A violência assimétrica de um sistema que, por mais que proclame defender a vida, na verdade propaga a exclusão e a marginalização, a miséria e a exploração, a imigração e os refugiados, a guerra e a morte ao longo do tempo.

E a verdade é que, olhando para trás, a lista é pesada: desde os trabalhadores da VIOLANDA assassinados [cinco mortos em incêndio de fábrica de biscoitos], os 57 assassinados em Tempe [“acidente” ferroviário – crime estatal na Tessália], os mais de 500 (será que, quantos e quantas foram?) nos restos do naufrágio de Pilos, as centenas assassinadas em acidentes industriais só no último ano. E olhando a lista, a lista é avassaladora… Como compensar os milhares de assassinados no genocídio que está ocorrendo na Palestina, os assassinados pelas guerras que ensanguentaram mais uma vez o mapa da vizinhança? Isso não é possível. Não nos acostumaremos com a morte.

Por mais lágrimas de crocodilo que derramem, não conseguirão lavar o sangue de seus crimes. Por muitos encarceramentos, conspirações, torturas e represálias estatais que desencadeiem contra o movimento e os combatentes, a vida e a resistência continuarão pulsando nas lutas sociais e de classe de cada época, em cada continente. É nessas lutas que a sociedade ainda permanece viva, de pé diante dessa distopia.

Ouvimos muito durante tantos dias. Devemos erguer a voz também. Diante da monotonia da propaganda estatal e da imundície de seus capangas, somos nós quem melhor podemos falar sobre a trajetória política de nossos companheirxs. Uma trajetória rica em lutas coletivas e ações desinteressadas para derrubar a barbárie do capitalismo de Estado: lutas estudantis contra a lei Arsenis, mobilizações contra a guerra do Iraque, o movimento estudantil de 2006-2007, projetos de ocupação e ação política nos bairros, lutas pela defesa da natureza, organização e reivindicações trabalhistas. Pertencemos à mesma geração política, crescemos juntos e não desejávamos nos tornar nem chefes nem mimados, nem dirigentes de partido. Nem por um instante aceitamos nossa condenação a uma vida de austeridade imposta para os de baixo, com o fim de que uns poucos se enriquecessem. Nesse caminho, nos encontramos juntos inúmeras vezes, e uma delas foi o levante massivo de meio milhão de manifestantes no centro de Atenas em 5 de maio de 2010, contra a imposição de seus memorandos antissociais.

Apoiamos incondicionalmente nossos amigxs e companheirxs, que têm nome e trajetória, vida e sonhos, e que foram nossos valiosos companheirxs em todos os momentos. Uma vida inspirada nos valores de solidariedade, resistência e auto-organização, dos quais nos orgulhamos, assim como nossos companheirxs. A ética, o espírito de luta e a constituição política do nosso povo ficam completamente desacreditados com as acusações que lhes são imputadas e que os vinculam à indiferença pelo valor da vida humana.

Aqueles que se atreveram a perturbar e aterrorizar as famílias de nossos companheirxs pagarão por isso. O governo e os meios de comunicação corruptos que tentam impor sua agenda pré-eleitoral de lei e ordem sobre a vida de nossos companheirxs, sobre a criminalização de todo um movimento de resistência, serão derrotados.

Pertencemos ao movimento que pagou um alto preço por sua decisão de persistir, resistir, lutar e combater: detenções preventivas incríveis de 18 meses, longos períodos de reféns e encarceramentos, tortura e perseguição, até mesmo com o sangue de nossos companheirxs. Nossas contas com o sistema de injustiça e barbárie continuam em aberto.

Fomos, somos e continuaremos sendo um espinho cravado em todo poder.

SÓ RESISTINDO, LUTANDO E LUTANDO PODERÁS TER ESPERANÇA

Anarquistas e companheirxs dos acusados em mais uma conspiração estatal.

Fonte: https://alasbarracidas.org/noticias/node/59215

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/12/17/grecia-desmascarar-a-montagem-estatal-contra-o-anarquista-thodoris-sipsas/


https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2013/11/30/grecia-atenas-solidariedade-com-thodoris-sipsas-acusado-do-incendio-da-sucursal-do-banco-marfin/

agência de notícias anarquistas-ana

Forte ventania
na janela da escola.
Param as conversas.

Livia Antônio da Rocha – 9 anos

Leave a Reply