
Apesar de todos os contratempos e erros, a revolução espanhola teve o mérito de se concretizar. A obra revolucionária das coletivizações será sua marca indelével no espaço e no tempo.
José Peirats.
O golpe de Estado de 17-18 de julho de 1936 e a guerra que se prolongou oficialmente até 1º de abril de 1939 constituem um dos fatos mais reinterpretados da história da Espanha, se nos limitarmos à questão puramente bélica. Mas, se falarmos do processo revolucionário que surgiu e acompanhou todo o conflito, o silêncio se impõe de tal forma que, noventa anos depois, ele continua sendo desconhecido para uma imensa maioria.
Em 19 de julho de 1936, poucas horas após a revolta militar, as trabalhadoras e os trabalhadores das organizações operárias saíram às ruas de Barcelona e de outras capitais provinciais, mas também em muitas cidades e vilas da Espanha, para impedir o golpe militar. Sua determinação frustrou, a princípio, as intenções criminosas de um exército experiente nas guerras coloniais do Rif e do norte da África.
Não se deve esquecer que o golpe de Estado foi uma conspiração militar e política promovida pelas classes privilegiadas: a oligarquia econômica e aristocrática — grandes empresários, rentistas, latifundiários e grandes proprietários de terras —, a elite da Igreja Católica e a direita política mais reacionária. E que contou com o apoio dos regimes fascista italiano e nazista alemão, uma ajuda que chegou muito antes do início do golpe de Estado; com grandes somas de dinheiro, material de guerra, além de assessoria militar e dos serviços de inteligência.
Hoje continuamos relembrando os heroicos acontecimentos insurrecionais que conseguiram colocar de joelhos todo um exército bem armado, mas também a Revolução Social que o povo trabalhador protagonizou a partir de então. O que aconteceu na Espanha daqueles anos representa uma das maiores conquistas sociais da história recente. Naquele breve período, e em plena guerra, desenvolveram-se muitas das fórmulas organizacionais e econômicas promulgadas pelo anarquismo e pelo anarcossindicalismo.
Em grande parte do território leal à República — em cidades como Barcelona, Madri e Valência, em municípios de médio porte, mas também em vastas áreas rurais de Aragão, Castela, Catalunha e Levante —, as instituições do Estado foram tomadas; prefeituras e governos regionais, bem como as forças armadas e o próprio exército, ficaram subordinados à vontade popular. Foram organizadas Colunas de milicianos, com trabalhadores voluntários — embrião do Exército Popular da República —, que conseguiram deter o avanço do exército fascista, definindo e delimitando as diferentes frentes de guerra.
Surgiram organismos revolucionários como os Comitês Revolucionários Locais, inicialmente, e depois os Conselhos Municipais. Em nível regional, foram criadas estruturas maiores, como o Comitê de Milícias da Catalunha ou o Conselho de Aragão, entre outras. Os meios de produção foram socializados, a propriedade da terra foi coletivizada, assim como a indústria: fábricas, oficinas etc. A economia ficou sob controle dos trabalhadores. A experiência organizacional, proveniente em grande parte do Movimento Libertário, contribuiu para realizar grandes transformações sociais, dando prioridade aos escassos serviços de saúde e ao acolhimento social de idosos, órfãos e refugiados de guerra. Vale destacar que tudo o que se relacionava à cultura recebeu atenção especial da Revolução, com prioridade para a educação; deu-se impulso à frágil infraestrutura criada recentemente pela República, além de se organizar um sistema educacional próprio, criando escolas onde elas eram inexistentes. O cinema e o teatro também receberam grande atenção, favorecendo a chegada dessas artes às zonas rurais e aos vilarejos mais remotos, além de toda uma rede de bibliotecas públicas, como a que foi criada em Fraga, a primeira na história da cidade.
Por essa razão, nós, do Movimento Libertário, sempre mantivemos viva a memória, insistindo na lembrança da Revolução Social de 19 de julho de 1936; alguns de nós fazemos isso longe da autocomplacência e de qualquer dogma. Estudamos seus acertos e erros; aprendemos com o que a classe trabalhadora é capaz de alcançar quando toma consciência e se organiza; quando o faz pelo bem comum, à margem de qualquer estrutura de poder e questionando as decisões das burocracias e dos líderes improvisados.
O anarquismo está profundamente enraizado na Espanha. O orgulho e a resistência são valores próprios do nosso povo. Entre nós, a anarquia é uma atitude natural que nasce da rebeldia contra a injustiça. Não é uma teoria. O ser humano, em qualquer época, sempre terá esse espírito de rebeldia. Abel Paz
Das Terras Baixas do Cinca
Fraga, 14 de julho de 2026
Centro de Estudos Libertários José Alberola
centrodeestudioslibertariosjalberola.blogspot.com
agência de notícias anarquistas-ana
Beira do lago
A mãe ganso e filhotes
Passeiam sem pressa.
Bruno Cercounei – 8 anos
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.