A Fúria Necessária

Não vos venho trazer flores nem ilusões. Venho falar da verdade que muitos camaradas preferem adoçar para não assustar os recém-chegados: a repressão não é um acidente de percurso na luta anarquista; ela é a sua sombra inevitável, o eco metálico que a nossa ação provoca nas engrenagens do Leviatã. Quem sonha com uma revolução sem cicatrizes, sem sangue e sem cadeias, está a sonhar com uma aventura ou uma festa, não com a destruição da ordem burguesa. A tese que vos trago é dura, mas necessária: a repressão é inerente à nossa luta porque o poder não cede o seu espólio sem violência; ainda assim, mesmo que o terreno esteja minado, mesmo que as probabilidades sejam de aniquilamento, a luta deve prosseguir por todos os meios possíveis. A tensão entre a ordem burguesa e o mundo novo que carregamos em nossas entranhas não é um mal-entendido que se resolva com diálogos de salão; é um antagonismo ontológico, uma contradição irreconciliável. E é precisamente da superação violenta e radical dessa ordem que a vitória libertária há de surgir — o que, por sua vez, nos conduz, inexoravelmente, de volta ao fogo da resistência.

Comecemos pelo óbvio que os acadêmicos e os reformistas se recusam a ver: o Estado burguês não é uma entidade neutra, um mero árbitro de conflitos sociais. Ele é a comissão executiva dos exploradores, o guarda-costas armado da propriedade privada e das hierarquias que dela emanam. A sua essência é a coerção monopolizada. A lei que ele aplica não é a justiça; é a codificação da espoliação. Quando nos organizamos em conselhos livres, quando ocupamos terras e fábricas, quando recusamos a obediência e a servidão voluntária, não estamos a fazer um pedido de mudança; estamos a desferir um golpe na própria base de sua legitimidade. A reação do Estado a esse golpe não pode ser outra senão a repressão. Não é um “risco” calculado; é uma certeza física, como a queda de um corpo. A história está repleta de exemplos — desde a Comuna de Paris, afogada em sangue, até a Ucrânia Livre, esmagada pelo exército vermelho e pelos brancos; desde os mártires de Chicago até as celas de prisão que abrigam os camaradas de hoje. A repressão não é o “preço” a pagar; ela é a resposta natural do sistema à nossa existência.

Neste ponto, muitos se acovardam. Dizem: “O terreno é desfavorável. A burguesia está fortalecida. O proletariado está atomizado. Esperemos o momento oportuno.” Que covardia disfarçada de pragmatismo! Quando, pergunto eu, o terreno foi favorável para os oprimidos? Quando é que os donos do mundo se sentaram à mesa e disseram: “Agora estamos frágeis, podem atacar”? O terreno desfavorável é o único terreno que a classe trabalhadora conhece. A fábrica é desfavorável, a mina é desfavorável, o gueto é desfavorável. A história não é uma escada rolante que nos leva suavemente à liberdade; é um abismo que só se transpõe com um salto — e o salto exige pernas fortes, mesmo que o chão trema. Esperar por condições ideais é esperar pela morte da nossa própria iniciativa. É entregar ao inimigo o monopólio do tempo. A luta não se faz quando a vitória é certa; faz-se porque a vitória precisa ser conquistada, e a única maneira de torná-la possível é travá-la, agora, com as ferramentas que temos, mesmo que sejam apenas as nossas mãos nuas e a nossa vontade inquebrantável.

Agora, detenhamo-nos sobre essa tensão inevitável. O que é a ordem burguesa senão um sistema de mediações hierárquicas — o patrão sobre o operário, o homem sobre a mulher, o branco sobre o negro, o burocrata sobre o cidadão? É uma teia de comandos e obediências que se reproduz diariamente nas escolas, nas igrejas, nos quartéis e nos parlamentos. O anarquismo, em sua essência, é a negação absoluta dessa mediação. Nós não queremos reformar a cadeia, queremos quebrá-la. Não queremos um patrão mais humano, queremos a autogestão. Não queremos um Estado mais paternalista, queremos a federação livre de comunas. Essa negação não é uma abstração filosófica; ela se traduz em atos concretos: a desobediência, a greve selvagem, a sabotagem, a expropriação. Cada um desses atos colide frontalmente com o código penal burguês, com a sua polícia e com os seus exércitos. A tensão, portanto, é uma guerra de movimento perpétuo.

E é nesse embate, nessa dialética violenta, que reside a nossa esperança. Porque a superação da ordem burguesa não virá de um voto, nem de uma declaração da ONU, nem de um manifesto pacífico que pede gentilmente que os opressores se convertam. A superação virá da crise, do choque, do momento em que a repressão do Estado se torna tão brutal, tão descarnada, que o véu da legalidade se rasga e as massas veem o tigre por trás da máscara. É a repressão que educa as massas na escola da necessidade. É a violência policial que radicaliza o operário moderado. É a prisão do militante que inspira a rebelião da vizinhança. Nesse sentido, a repressão é uma faca de dois gumes: o inimigo a usa para nos imolar, mas nós a usamos como uma forja que tempera a nossa determinação e revela a verdadeira face do poder. Quanto mais o Estado aperta o cerco, mais ele demonstra que não tem argumentos, apenas balas. E quando uma estrutura só tem balas para oferecer, a sua queda é apenas uma questão de tempo e de fúria acumulada.

Mas atenção: essa vitória libertária, que emerge da superação da ordem, não é um ponto de chegada estático, um paraíso onde os problemas se dissolvem. Ela é um processo contínuo de auto-emancipação. E é precisamente por isso que a luta, e todos os meios possíveis para travá-la, se tornam a categoria central da nossa existência. Defender que a luta deve prosseguir “por todos os meios possíveis” não é um apelo cego à violência; é o reconhecimento de que, numa guerra de extermínio contra a nossa humanidade, temos o direito moral e histórico de usar todas as armas disponíveis. Se o Estado usa a leis para nos prender, usemos a ilegalidade para expropriar o que foi roubado. Se o Estado usa a mídia para mentir, usemos a palavra impressa e a ação direta para desmascarar. Se o Estado usa as balas, usemos as barricadas. A ética do oprimido não pode ser a ética do opressor. Enquanto eles têm a propriedade, nós temos a fome; enquanto eles têm o exército, nós temos o número; enquanto eles têm a tecnologia da vigilância, nós temos a solidariedade orgânica das ruas. A luta por todos os meios significa utilizar a greve geral como arma política, a ocupação como ato de justiça distributiva, a sabotagem como interrupção do lucro, e a insurreição popular como o momento culminante em que o povo, armado com a sua própria coragem, toma para si os destinos da vida social.

Reconheçamos, no entanto, a dureza do caminho. As derrotas são amargas. As fileiras se diminuem. Os camaradas tombam. E o terreno, muitas vezes, parece mais estéril do que nunca. A pergunta que ecoa nos porões das delegacias e nos exílios forçados é: “Por que continuar?” A resposta é tão simples quanto absoluta: porque parar é aceitar a morte em vida. Porque a interrupção da luta não é uma trégua; é uma derrota definitiva que consagra a ordem burguesa como eterna. A continuidade da resistência, mesmo em terreno árido, é a única garantia de que a chama não se apaga. Cada ato de rebeldia, por menor que seja, é uma negação prática do “fim da história” proclamado pelos ideólogos do capital. Quando um grupo de trabalhadores ocupa uma fábrica falida, mesmo que despejados no dia seguinte, eles plantaram uma semente: a semente da autogestão possível. Quando um bairro se organiza em milícias populares para enfrentar a repressão policial, mesmo que massacrados, eles escreveram uma página na memória coletiva que nenhum juiz pode apagar. A luta não se justifica apenas pela vitória final; ela se justifica pela dignidade que confere a cada instante da resistência. A vitória libertária virá, mas virá como um corolário de inúmeras batalhas perdidas, de inúmeros mártires, de inúmeros “fracassos” que, somados, constroem a subjetividade revolucionária.

Esta é a dialética cruel que nos move: a ordem burguesa não pode coexistir com a liberdade anárquica. Ela a perseguirá, a caluniará e a esmagará com todas as suas forças. Mas, ao fazer isso, ela gera o seu próprio antídoto. Ela unifica os dispersos, ela radicaliza os moderados, ela prova a sua própria incapacidade de resolver as crises que ela mesma cria. A superação, portanto, não é uma fuga da realidade; é um mergulho nela até ao fundo, até ao ponto em que a tensão se rompe e o novo emerge das cinzas do velho. E esse novo mundo — a sociedade federada, igualitária e livre — não será construído com preces, mas com os escombros do edifício derrubado.

Por fim, caros camaradas, não nos enganemos com o canto da sereia do realismo político. O realismo burguês é a aceitação da servidão. O nosso realismo é a consciência da força do inimigo aliada à certeza da nossa necessidade de o destruir. A repressão está aí, nos porões, nas delegacias, nos canhões. Mas a nossa vontade de resistir também está aí, nas oficinas, nos campos, nos bairros periféricos. Que a repressão nos encontre de pé. Que o terreno desfavorável nos encontre em movimento. Que a tensão nos encontre na trincheira. Porque a vitória libertária não é um prêmio para os prudentes; é uma conquista para os audazes. É a superação da ordem burguesa que nos trará a alvorada, mas essa superação exige que cada um de nós, agora, neste instante, empunhe a sua ferramenta, a sua palavra, o seu punho ou a sua inteligência para golpear as cadeias.

A luta continua. Não porque temos esperança de um amanhã fácil, mas porque o hoje, sem luta, é insuportável. Não porque o futuro nos garante o triunfo, mas porque o presente nos exige a rebeldia. A repressão é inerente, o terreno é hostil, a tensão é absoluta. Mas a resistência é a nossa essência. E enquanto houver um único explorado, uma única mulher oprimida, um único trabalhador acorrentado, haverá um anarquista a plantar a dinamite da liberdade. Avante, pois. A vitória é o próprio caminho, e o caminho é a luta até ao fim.

Liberto Herrera.

Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/08/18/a-furia-necessaria/

agência de notícias anarquistas-ana

raios!
alguém rasgou
o terno azul da tarde

Alonso Alvarez

One response to “A Fúria Necessária”

  1. Luis Martins

    Uma tese assustadoramente ignorante. Se algo, nós anarquistas, sabemos, é que a repressão e a violencia organizada das instituições do poder, não resultam em nada mais que o aumento da violência e da resistência.
    Anarquia é ordem sem necessidade de poder. Civismo sem necessidade de hierarquia.
    Querer impor esses valores pela sua absoluta contradição é uma imbecilidade.

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