
15/08/2026
Na lendária entrevista que Régis Debray fez com Salvador Allende em 1971, o então presidente do Chile afirmou que devia ao agitador anarquista italiano Juan Demarchi suas primeiras leituras teóricas de esquerda, especialmente as obras de Bakunin. Foi esse carpinteiro radicado em Valparaíso quem lhe ensinou, segundo Allende, a entender os profundos contrastes sociais que observava ao percorrer os morros e praças do porto de sua adolescência.
Manuel Lagos Mieres desmonta neste livro a redução historiográfica da figura de Juan Demarchi e nos revela a imagem profunda do carpinteiro e agitador anarquista italiano cuja trajetória marcou o movimento operário no Chile e na América do Sul no final do século XIX e na primeira metade do século XX. Sua vida foi marcada pela entrega à causa da emancipação social e pela resistência diante da perseguição constante da qual ele e os seus foram objeto de forma permanente.
Exilado de seu próprio país, Demarchi participou da criação de centros e bibliotecas populares no Brasil; foi fundamental para a constituição da Associação Continental Americana de Trabalhadores (ACAT) na Argentina. No Chile, lutou pela criação da Mancomunal de Operários do Carvão (Lota); presidiu a Liga de Inquilinos, liderando a Grande Greve de Inquilinos em 1919 e o Comitê Pro-Baratamento da Carne (Antofagasta). No porto de Valparaíso, foi membro destacado da seção chilena da Industrial Workers of the World (IWW) e membro da Federação de Carpinteiros. Durante seus últimos anos, em Santiago, continuou participando de concentrações operárias até pouco antes de sua morte (1943). Seu trabalho foi descrito por seus pares como uma “obra francamente apostólica”, dedicada ao bem-estar da comunidade e à emancipação da classe operária.
Como assinalamos, Salvador Allende definiu sua relação pessoal com Juan Demarchi como um vínculo fundamental em sua formação política inicial, descrevendo o anarquista italiano não apenas como um mentor, mas também como o homem que lhe abriu as portas para o pensamento teórico de esquerda durante sua adolescência em Valparaíso.
Allende destacou que Demarchi, apesar da diferença de idade entre eles (ele tinha cerca de 14 anos e Demarchi mais de 60), conversava com ele durante horas em sua humilde oficina de carpintaria, localizada perto da casa do futuro presidente e do Liceu Eduardo de la Barra, que o jovem frequentava. Durante aquelas tardes, o agitador ácrata lhe ensinava xadrez e emprestava livros, “essencialmente teóricos”, como os de Bakunin. Para Allende, aquelas longas conversas foram tão valiosas quanto os próprios textos, pois ele admirava “essa simplicidade e essa clareza que têm os operários que assimilaram as coisas da vida”.
O périplo de um anarquista
O livro de Lagos Mieres consegue rastrear em detalhe a trajetória de Juan Demarchi, desde seu exílio da Itália e seus primeiros passos como ativista fora de seu país, em outras nações europeias e no norte da África, e muito especialmente a partir de sua chegada à América do Sul. Foi em nosso continente que ele realmente se constituiu como um dos mais destacados “agitadores sociais” e incansável propagandista ácrata.
A pesquisa detalha a rota de Demarchi:
Chegou ao Brasil entre 1888 e 1891, estabelecendo-se no Rio de Janeiro, onde alternou seu ofício de carpinteiro com a exortação pública em comícios e assembleias. Lá foi perseguido e acabou chegando à Argentina em 1893, radicando-se em Buenos Aires até 1899. Integrou, dirigiu e fundou agrupamentos culturais operários anarquistas, especialmente sob os princípios organizativos de Errico Malatesta, promovendo a cultura como uma ferramenta para a emancipação. No final de 1898, Demarchi foi preso e acusado de conspirar contra o Estado, o que lhe rendeu a expulsão do país após passar pelas prisões na Patagônia argentina, onde costumavam confinar os “perigosos anarquistas”.
Foi conduzido à força até a fronteira com o Chile e estabeleceu-se em Punta Arenas, cidade na qual sua contribuição foi fundamental para organizar as primeiras sociedades de resistência e sindicatos magalhânicos, como a União Operária.
Continuou sua atividade em Lota e Curanilahue – onde trabalhou junto aos operários do carvão, contribuindo para a fundação de mancomunais – e depois em Arauco e Angol.
Em 1918, já estava instalado em Antofagasta, cidade na qual seu talento organizativo deu seus frutos mais duradouros, especialmente na Liga de Inquilinos, chegando a ser seu presidente em 1919, e no Comitê Pro-Baratamento da Carne (CPAC). Foi levado novamente à prisão e, posteriormente, expulso da cidade.
Então se dirigiu a Valparaíso, onde estabeleceu sua oficina de carpintaria em 1921. No porto, foi membro ativo da IWW (Organização Mundial dos Trabalhadores) e administrador do local da Federação de Carpinteiros (Ateneu Operário). Em 1926, foi expulso do país sob a Lei de Residência e retornou à capital argentina, onde chegou a residir durante quatro anos. Em Buenos Aires, colaborou na fundação do jornal Ação Direta, do qual também foi editor, e representou os operários chilenos na Associação Continental Americana de Trabalhadores (ACAT). A polícia argentina o prendeu em 1929 e ele foi novamente expulso, podendo retornar ao Chile graças a uma lei de anistia.
Mas a tranquilidade e a anistia duraram apenas até 1932, quando foi novamente detido e, desta vez, relegado à Ilha Mocha. Passou seus anos finais entre Santiago e Valparaíso, falecendo no porto em abril de 1943.
A historiografia e os preconceitos ideológicos
Como descreve e explica com numerosos exemplos Manuel Lagos Mieres em seu livro, a reconstrução da vida dos agitadores anarquistas no Chile é uma tarefa complexa, pois em seu caminho se erguem numerosos obstáculos e preconceitos ideológicos. Segundo o autor, os obstáculos com que teve que lidar para revelar a vida e obra de Juan Demarchi são:
• A hegemonia da historiografia marxista que, a partir da década de 1950, tem analisado e contado a História Social do Chile a partir de uma matriz ideológica que privilegia o estudo do proletariado industrial filiado aos partidos políticos da esquerda tradicional dominante (Comunista, Socialista), o que tem invisibilizado as correntes autonomistas.
• O “consenso” em torno de figuras fundacionais do mundo operário no Chile que, por exemplo, eleva Luis Emilio Recabarren ao pedestal de único “pai” e fundador do movimento operário, o que resulta na anulação dos feitos da corrente anarquista e de outros sujeitos sociais, como as mulheres lutadoras, que ficaram condenadas ao esquecimento.
• A redução à anedota à qual são submetidos os agitadores ácratas. No caso específico de Demarchi, os historiadores o mencionam apenas de passagem por sua especial vinculação com Salvador Allende, considerando-o um personagem “lendário e romântico”, sem reparar no projeto político que encarnava, nem nas formas de ação ou na transcendência histórica desse lutador social.
O personagem em escala humana
Manuel Lagos Mieres consegue, ao longo de todo o texto, manter presentes as características próprias da personalidade e a particular qualidade humana de Juan Demarchi. Segundo se depreende dos diversos testemunhos que dão sustento à obra, Demarchi caracterizava-se por possuir uma ética implacável, uma profunda vocação pedagógica e uma coerência absoluta entre seus ideais anarquistas e sua vida cotidiana. Além de ser um agitador, as fontes o retratam como um homem possuidor de uma mística moral tão grande que não hesitou em sacrificar de modo permanente seu bem-estar pessoal e familiar em prol da emancipação social.
Demarchi atribuía um valor fundamental à dignidade e independência por meio do ofício, pois via na carpintaria um trabalho “utilíssimo e saudável” que lhe permitia manter sua autonomia e praticar uma ética laboral antiautoritária, trabalhando livremente “sem explorar outros nem se deixar explorar”.
Embora o poder político e econômico da época o tenha classificado como um “agitador perigoso” – descrição com que se designou muitos de seus pares operários e anarquistas –, o que lhe custou numerosas detenções e reiteradas expulsões do país, seus companheiros o descreviam como um homem de costumes puros e laboriosos, que realizava uma “obra francamente apostólica”, centrada na emancipação dos trabalhadores por meio da cultura e da educação.
O livro está disponível no site da Ceibo Ediciones, ceiboediciones.cl, e nas principais livrarias do país.
Manuel Lagos Mieres. CEIBO EDICIONES
Fonte: https://resumen.cl/2026/08/15/libro-juan-demarchi-la-tempestuosa-vida-de-un-anarquista/
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
Na noite sem lua
o mar todo negro
se oferece em espuma
Eugénia Tabosa
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.