[Espanha] Ateneu Anarquista de Alcorcón

O que é o Ateneu Anarquista de Alcorcón?

É um local situado no centro de Alcorcón desde 2016. Entendemos este espaço como um lugar onde encontrar-nos coletivamente, algo que atualmente é cada vez menos habitual, mas mais necessário. Um espaço de liberdade e aprendizagem em comum, onde poder encontrar-nos com nossos/as iguais e repensarmos como está formada a sociedade atual e aquilo no qual se sustenta.

O objetivo é apoiar as lutas sociais que enfrentam a injusta ordem estabelecida e seus valores, propondo alternativas que partam de nós mesmas, dos próprios afetados, com humildade, mas com firmeza e convicção e potencializar, todo o possível, ditas lutas dotando-as de uma perspectiva transformadora.

Nossa ideia é nos afastarmos da lógica do mercado, pelo que o local se mantém através de quotas voluntárias, e as pessoas que colaboram o fazem sem receber dinheiro algum. Igualmente todas as atividades que se realizam são gratuitas, para que qualquer um possa participar delas.

O que podes encontrar no Ateneu é:

– Um espaço para realizar atividades, palestras, apresentação de livros, oficinas, programas de rádio…

– Um lugar de reunião para coletivos que funcionem de maneira assembleária com uma visão crítica do mundo que nos rodeia.

– Uma distribuidora de material alternativo e libertário.

– Um ponto de encontro, difusão de convocatórias, contrainformação…

– Um espaço adaptado para crianças, pois cremos na necessidade de fomentar a inclusão nos espaços políticos, tanto das crianças, como das pessoas que estão ocupando-se de sua criança.

Por que (A)?

Porque cremos na capacidade para decidir sobre nossas próprias vidas e sobre os conflitos que nos afetam, junto a outras pessoas, através da empatia, da horizontalidade e do apoio mútuo. Porque cremos na necessidade de construir uma alternativa distanciada da mercadoria que devora, nos espreme e nos despersonaliza. Porque cremos que a liberdade se alcança mediante seu exercício cotidiano e só a prática da autogestão e da organização coletiva sem mediações de especialistas, representantes ou autoridades pode dotar-nos de uma organização social mais sadia, justa e equilibrada. Porque cremos, definitivamente, que a soberania na tomada de decisões não pode ser delegada.

Onde estamos?

Calle Bilbao semiesquina Calle Cisneros.

Horário: M y J, 18:00-21:00h.

Renfe: Alcorcón (C-5).

Metrô: Alcorcón Central (L-12).

bibliotecalarevoltosa.wordpress.com

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

todo mundo giz
que ali jazz um haicai
porque blue – ou bliss?

Bith

[Espanha] Lançamento: “Una vida sobria para la revolución. Hardcore Punk, Straight Edge y Políticas Radicales”, Gabriel Kuhn (Ed.).

O Straight Edge perdurou nas últimas décadas como uma cultura punk hardcore sem drogas. No entanto, seu legado político muitas vezes permanece ambiguamente associado a uma postura machista autorreferencial soberba e ao puritanismo conservador. Embora alguns elementos da cultura Straight Edge alimentem essa percepção, a história política do movimento é, de longe, muito mais complexa.

Desde as origens do Straight Edge em Washington D.C., no início dos anos 1980, indivíduos, bandas e cenas inteiras em todo o mundo o associaram ao pensamento e ao compromisso radicais. Una vida sobria para la revolución traça essa história.

Isso inclui contribuições – na forma de entrevistas aprofundadas, ensaios e manifestos – de um grande número de artistas e ativistas ligados ao Straight Edge, de Ian MacKaye (Minor Threat/Fugazi) a Dennis Lyxzén (Refused/The (International) Noise Conspiracy) ou outras bandas, a projetos feministas (Emancypunx), ativistas dissidentes sexuais e de gênero, a coletivos radicais como o CrimethInc ou outros dedicados tanto a uma vida sóbria quanto à luta por um mundo melhor.

Una vida sobria para la revolución. Hardcore Punk, Straight Edge y Políticas Radicales

Gabriel Kuhn (Ed.)

Rústica con solapas, 396 páginas, 19x14cm. 18€.

978-84-127768-3-6

editorialimperdible.com

@editorialimperdible

agência de notícias anarquistas-ana

Não tenho certeza,
mas acho que os grilos gostam
da minha janela.

Humberto del Maestro

[Itália] “Nem o Papai Noel nem a bruxa virão”

Há um ano, os companheiros escreveram isso nas paredes da cidade [foto]. Nada mudou, pelo contrário… novas guerras. Mais de 20.000 mortos em Gaza nas mãos do exército israelense, apoiado por todos os Estados, até mesmo o italiano, embora presidentes e governadores falem da boca para fora com o governo israelense. Na Ucrânia, os campos de gás e o trigo colocam em guerra os senhores e governantes da Europa, da Rússia e dos Estados Unidos da América, mas quem paga por essa guerra são sempre os últimos, os ucranianos com suas vidas, os trabalhadores e aposentados dos países europeus e os povos da África e dos países que fazem fronteira com o conflito em andamento.

Além disso, milhares de homens, mulheres e crianças morrem nos mares da Europa fugindo da guerra e da miséria de seus países de origem na tentativa de construir uma vida decente para si mesmos.

Aqui, muitas famílias enfrentam cortes em sua renda de subsistência, com a destruição da Renda Cidadã e a redução de salários. Os serviços públicos domésticos, eletricidade, gás e água, estão subindo de preço devido à guerra na Ucrânia e também devido à especulação por parte de quem fornece esses serviços. O custo dos exames e terapias de saúde aumenta e a qualidade do serviço oferecido diminui, com os presentes que os vários governos nos deram, com a privatização da saúde.

Nem o Papai Noel nem a bruxa virão. O Papai Noel e as bruxas só podem ser nós, organizando-nos para nos opormos ao Estado e ao governo, mas, acima de tudo, para criar mutualismo, cooperação e solidariedade, colocando governos e patrões, chefes e mafiosos fora do mercado.

O mutualismo, a solidariedade e a luta são nossas armas para que os patrões e os governos deixem de ter qualquer significado.

Grupo Anarquista “Francesco Mastrogiovanni” de Nápoles – FAI

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

o ruído
de um rato sobre o prato
como resulta frio!

Buson

[Espanha] Lançamento: Levantes pela terra: O renascimento das lutas pelo clima

As lutas contra o desastre em curso não terão nenhuma possibilidade de êxito se não se transformam em uma força material sustentada por muita gente na rua.

Este livro é uma compilação de textos sobre três lutas anticapitalistas pela justiça climática e social que impulsionaram movimentos massivos à base de ações diretas valentes e estratégias políticas inteligentes: O Levante da Terra na França, a luta contra a indústria do carvão em Lützerath (Alemanha) e Stop Cop City em Atlanta (Estados Unidos).

Alzadas por la tierra: El renacimiento de las luchas por el clima

Autor/a: VVAA

Idioma: Castellano

Coleção: Glosàlya

ISBN: 978-84-18283-67-3

Formato: 13x20cm

Páginas: 160

Preço: 12,90€

descontrol.cat

agência de notícias anarquistas-ana

manhã de domingo —
nada tira da quietude
a voz do sabiá

José Marins

[Espanha] Uma história sobre assaltantes e ativistas do Partido Comunista e da CNT detidos em um bar de Guadalajara

Rafael de Lucas do “Archivo Provincial de Guadalajara” nos descobre a história que se pode extrair dos documentos e arquivos que conserva a instituição

É muita a história e a informação que podemos extrair dos documentos e arquivos que se conservam no “Archivo Provincial de Guadalajara” e que nos permite conhecermos a nós mesmos e entender a sociedade na qual vivemos e como evoluiu ao longo dos anos.

Isto é o que queremos contar-lhes no espaço de história que realizamos no programa de “Hoy por Hoy Guadalajara” junto a Rafael de Lucas no que hoje nos centramos em descobrir uma história sobre assaltantes e ativistas do Partido Comunista e da CNT detidos em um bar de Guadalajara.

Podem escutar o episódio completo aqui:

https://cadenaser.com/castillalamancha/2023/12/13/una-historia-sobre-atracadores-y-activistas-del-partido-comunista-y-la-cnt-detenidos-en-un-bar-de-guadalajara-ser-guadalajara/

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ribeira seca
nem um sopro
as cigarras crepitam

Rogério Martins

Retrospectiva 2023 do GEAFM

Em 2023, o Grupo de Estudos de Anarquismos, Feminismos e Masculinidades (GEAFM), do Centro de Cultura Social de SP, voltou a realizar seus encontros de forma integralmente presencial. Organizamos 10 conversas sobre temas variados, desde terrorismo, passando por feminismo negro, anarquia relacional, veganismo e anticlericalismo, sempre trocando ideias horizontalmente sob uma ótica anarquista. As pautas têm assumido, cada vez mais, contornos do cotidiano e têm refletido os dilemas que enfrentamos na contemporaneidade.

Há 6 anos realizamos encontros mensais, abertos para todes que desejam conhecer e se deparar com outras pessoas, outros pensamentos, de ruptura com a normatividade, e que compartilham em comum o desejo de um mundo sem opressões de nenhum tipo e que exalte tanto o comum quanto as singularidades.

O exercício da leitura coletiva abre um espaço ao dissenso e a novas formas de pensar a ação direta. Nos últimos meses recebemos pessoas de outras regiões e que também se organizam em diferentes formatos. Com isso, sublinhamos nossa abertura a sugestões de textos, vídeos e temas vindouros. Afinal, anarquismo é movimento.

Estamos muito felizes com o balanço das atividades do grupo nesse ano! Os diálogos que tivemos foram muito sensíveis e trouxeram outras nuances às teorias, mostrando que a vida expande os textos. Agradecemos a todas as pessoas que estiveram com a gente! Desejamos continuar com o mesmo gás em 2024 para mais encontros!

Centro de Cultura Social (CCS)

Rua General Jardim, 253, sl. 22. Vila Buarque – SP. Próximo ao metrô República.

E-mail: ccssp@ccssp.com.br  – Site: www.ccssp.com.br

agência de notícias anarquistas-ana

Pelo zumbir dos mosquitos
deve ser alta madrugada.
Ó esta lua demorada!

Etsujin

[Chile] Solidariedade anarquista com Aldo e Lucas Hernández

Palavras para Aldo e Lucas Hernández um ano após sua detenção, que a solidariedade revolucionária transcenda as paredes frias que tentam encerrar seu desejo de liberdade.

Aqueles que decidem se rebelar contra a miséria implantada no nascimento só conhecem dois destinos: prisão e morte, nós sussurramos uma terceira opção, O ATAQUE. – Grupo de guerrilha urbana anarquista – A NEGRA VINGANÇA

Na madrugada do dia 22 de dezembro de 2022, em uma operação que ocorreu na região metropolitana e em Valparaíso, foram invadidas diferentes propriedades, deixando como resultado 4 pessoas detidas.  A ordem da promotoria do sul era encontrar e prender o companheiro anarquista Aldo Hernandez, acusado de ser o suposto autor do ataque à direção nacional da gendarmeria em dezembro de 2021.

Nessas incursões, o companheiro anarquista Lucas Hernández também foi preso. Ambos estão em prisão preventiva. Lucas está na prisão Santiago 1, enquanto Aldo foi transferido desde o dia de sua prisão para a prisão La Gonzalina, em Rancagua.

Depois de um ano desse movimento de poder, que mantém nossos companheiros presos, enquanto a investigação continua seu curso. Convocamos a ampliar e difundir gestos de solidariedade, para tornar visível sua situação e sua posição política diante dessa prisão. 

Hoje, mais do que nunca, é necessário tomar uma posição a partir de uma prática ativa de solidariedade, em gestos que retribuam em medida o amor e a dedicação que nossos companheiros atrás das grades deixaram em cada ação ofensiva. Que mostrem aos promotores, gendarmes e policiais que nossos companheiros não estão sozinhos, que se forem agredidos nós responderemos, que se precisarem de nós estaremos lá. Porque a prisão não interrompe os processos, muito menos o avanço das ideias e práticas anarquistas.

Não esperamos nem pedimos nada do poder, muito menos da justiça.

Somos seus inimigos declarados desde que adotamos as ideias e práticas anarquistas. A ação como um abraço inequívoco daqueles que têm sido vítimas do ataque da máquina estatal e dos poderosos.

Que os gestos de solidariedade e as ações cúmplices se multipliquem. Até que tudo caia.

Pela expansão da ação anarquista, fogo à prisão.

Um abraço cúmplice e solidário ao companheiro anarquista Francisco Solar, que enfrenta uma longa e exemplar condenação pelo Estado e seus apoiadores.

Aldo e Lucas para as ruas já.

Fonte: Buskando La Kalle

agência de notícias anarquistas-ana

o coqueiro coqueirando
as manobras do vermelho
no branqueado do azul

Guimarães Rosa

 

[Espanha] 28ª Marcha Anticarcerária

31/12/2023 Marcha para o CIE e Wad-Ras

-10h Novo presídio em construção na Zona Franca. Rua A/Calle, 1

-12h CIE

-22h30 Wad-Ras

13/01/2024: Marcha à Brians

-11h30 Estação Renfe Martorell

Não é novidade que os discursos e as medidas de modernização e democratização dos antigos centros penitenciários e dos novos a serem construídos, tenham se adaptado aos ciclos de mudança do modo de produção capitalista. Mas a realidade nas prisões continua tão dura como sempre. Somente em 2022, 39 prisioneiros foram encontrados mortos sob a responsabilidade das Instituições Penitenciárias. Além disso, o uso de medidas de punição, tortura e controle, como confinamento solitário, restrições mecânicas ou até mesmo o uso de sistemas de vigilância de inteligência artificial também aumentou.

No atual contexto de crise, a narrativa maliciosa do crescimento da insegurança e do crime nas ruas busca retratar, por um lado, as instituições e seus espaços de confinamento como os guardiões necessários da paz social. Por outro lado, eleva os bandidos do sistema (polícia, segurança privada, agentes penitenciários e outros órgãos repressivos) à posição de vítimas que devem gozar de maior legitimidade e impunidade para se defender. Em outras palavras, mais cassetetes, tasers, canhões de gás e horas pagas para participar de julgamentos como promotores particulares. Mas mesmo para esses indivíduos, armados com maços de chaves e com leis em vigor ou a serem elaboradas, não desejaríamos um minuto de prisão. Apenas que não mais acordem mais uma manhã ao amanhecer. Portanto, quando dizemos que a prisão é uma tortura, não dizemos isso por uma questão de circunstância. A prisão é tortura porque, independentemente de sua aparência, ela nada mais é do que o efeito de políticas que perseguem e criminalizam uma grande parte da população por meio de estruturas de opressão. A prisão é tortura porque, seja qual for a sua forma (CIE, centro de detenção juvenil, centro psiquiátrico ou outra prisão), não há reforma possível que possa encobrir seu objetivo essencial: aniquilar a vida de um ser privando-o de sua liberdade.

Mas, embora a prisão muitas vezes possa lhe custar a vida, ela nem sempre precisa ser o fim. É por isso que também estamos em frente aos muros por mais um ano, para celebrar as fugas, motins e revoltas que ocorreram e continuarão ocorrendo. Para homenagear aqueles que não estão mais aqui, mas também para dar voz às lutas contra o isolamento, a tortura e os abusos que, na tentativa de silenciar, só geraram solidariedade e cumplicidade, exacerbando o conflito e as contradições do confinamento. Seja uma realidade mais próxima ou mais distante, para um membro da família que está preso, para um companheiro que está esperando uma ordem de admissão ou para um camarada que está lutando na prisão, a questão antiprisional é uma responsabilidade coletiva da qual não podemos nos esquivar. Porque a luta para escapar do confinamento e derrubar os muros está sendo travada em todos os cantos do planeta e em todos os momentos de nosso tempo.

É por isso que, até que haja apenas um prisioneiro, não haverá liberdade e nunca nos cansaremos de gritar:

ABAIXO OS MUROS DAS PRISÕES E A SOCIEDADE QUE PRECISA DELAS

NEM CIES, NEM GRADES, NEM PRESOS E PRESAS

NEM NOVAS NEM VELHAS PRISÕES

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

O ano chega ao fim —
Capa de chuva nas costas
E sandálias nos pés.

Bashô

[Chile] Santiago: 10ª Convenção de Tatuagem e Arte Corporal “Solidaridad a Flor de Piel”

Persistindo na solidariedade como princípio anárquico, em 25 de novembro aconteceu a 10ª versão do Solidaridad a Flor de Piel (Solidariedade a Flor da Pele), buscando contribuir economicamente com nossos companheiros e companheiras em prisão, além de gerar um espaço de divulgação antiprisional.

Enche-nos de alegria manter viva essa iniciativa, fazê-la à mão, alimentando-nos de diferentes vontades em conflito contra todas as formas de dominação.

Solidariedade é cumplicidade, uma ideia semelhante nos une, uma maneira de ver, entender e se desenvolver no mundo, lutando contra a lógica do poder, das hierarquias, das jaulas e de qualquer autoridade. Não somos movidos pela caridade ou compaixão por aqueles que estão do outro lado do muro da prisão, não somos movidos pela piedade ou pelo clientelismo; somos movidos pela solidariedade e gostamos de enfatizar esse ponto.

Para nós, a solidariedade é uma relação entre seres equivalentes, que devido a situações legais/policiais estão hoje em cenários diferentes, alguns em uma jaula, outros com os pés na rua… mas isso pode mudar, tanto porque uma sentença termina, quanto porque nossa permanência na rua é frágil e precária, não devemos nos esquecer disso.

Somos gratos por cada gesto que possibilitou que a jornada acontecesse e cumprisse seu objetivo, este ano nos propusemos a contribuir com 9 companheiros em prisão, além de contribuir com sacos de comida para um grupo de animais que viu seu companheiro humano ser levado para a prisão. A solidariedade cruzada com diferentes espécies encheu nossos corações.

Cada nova instância do Solidaridad a Flor de Piel é também um momento de memória, para trazer ao presente os companheiros Mauricio Morales e Sebastián Oversluij, que voam além das estrelas e que participaram e levantaram as primeiras versões desses dias (2008/2009). Nós os carregamos tatuados em nossa memória e em nossos corações.

Em tempos de sentenças pesadas e condenações que querem ser perpétuas, a solidariedade nos dá asas para continuar… nós continuamos, contra todas as probabilidades…

Quando a solidariedade aflora na pele, as palavras se transformam em ação.

Solidaridad a Flor de Piel

Dezembro de 2023

Fonte: https://es-contrainfo.espiv.net/…/santiago-chile…/

agência de notícias anarquistas-ana

jardim sem flor
entre as páginas do livro
a rosa e sua cor

Alice Ruiz

[França] Lei de imigração, um projeto de merda em um país de merda

Guardada desde faz meses nas gavetas do governo, a lei de imigração impulsionada por Darmanin [Ministro do Interior] sai do Senado carregada de emendas tiradas diretamente do programa de extrema direita, votadas com o apoio dos funcionários eleitos do partido presidencial. Ante estes ataques racistas contra exilados e imigrantes sem documentos estão se organizando mobilizações.

O projeto de lei para “controlar a imigração, melhorar a integração” ou lei Darmanin, logo será examinada pela Assembleia após a emenda do Senado em 14 de novembro. Este projeto de lei, “o mais duro e firme dos últimos trinta anos”, segundo palavras de seu autor, foi descrito inicialmente, inclusive em alguns meios de comunicação de esquerda, como um equilíbrio entre a regularização dos trabalhadores sem documentos e a firmeza para os infratores. Para simplificar, há que “ser mau com os maus e amável com os bons”, diz o ministro do Interior.

A nova lei prevê impor automaticamente uma OQTF[1] aos solicitantes de asilo cuja solicitação seja rechaçada em primeira instância. Em caso de rechaço, até agora podiam recorrer ante a CNDA, um tribunal composto por dois juízes e um perito. Esta colegialidade permitiu, em teoria, ganhar tempo para uma entrevista séria com eles.

A reforma pretende reduzir o jurado a um só juiz e generalizar a vídeo conferência das audiências. Ante mais de dez casos por dia, podemos temer que este juiz único simplesmente ratifique o rechaço da solicitação de asilo pronunciado pela OFPRA[2]. Ademais desta lei, o governo pretende dotar-se de meios para expulsar as pessoas objeto de um OQTF. Aumenta a capacidade dos centros de detenção administrativa existentes (Mesnil-Amelot) e constrói outros novos (Mérignac) para alcançar 3.000 praças adicionais daqui a 2027.

Falsas promessas dadas aos reformistas

A garantia oferecida à esquerda foi a eliminação do período de espera de seis meses durante o qual os solicitantes de asilo não podiam trabalhar (quer dizer, a duração teórica do exame de sua solicitação). O problema é que neste caso, depois de haver sido postos a trabalhar durante seis meses, um grande número deles seriam deportados se se rechaçava sua solicitação de asilo. A outra promessa foi a criação de uma permissão de residência específica para os trabalhadores de ofícios “estressados”, renovável a cada ano com a condição de que seu setor ainda enfrente escassez de mão de obra. Portanto, não se trata de modo algum de uma abertura, mas de um substituto do visto de trabalho que garantiria uma permissão de residência durante três anos.

Ao finalizar os confinamentos, se retomaram um grande número de obras paralisadas que requeriam uma importante mão de obra. No entanto, milhares de trabalhadores sem documentos, cansados da exploração a que estão sujeitos, recorreram ao auto empreendimento e, em particular, à revenda. Resulta que, sob a pressão do governo, 2.500 revendedores e revendedoras sem documentos foram despedidos por Delivere em setembro de 2022. Um grande número ficou sem recursos e recorreu a profissões chamadas “de escassez”, com a promessa de uma regularização (provisória). Com a aprovação desta medida, se a demanda de trabalhadores nas obras de construção, nas cozinhas e nos serviços de manutenção diminuísse, o Estado teria todas as possibilidades de expulsar a quem mantinha a economia do país.

Um projeto inspirado no programa RN [Le Pen]

No entanto, inclusive estas medidas que serviam menos aos interesses dos trabalhadores sem documentos que aos de seus patrões foram eliminadas depois de serem aprovadas pelo Senado. O centro e a direita senatoriais de então, mediante uma bateria de emendas, reorientaram esta já desastrosa reforma para modelá-la segundo o mortífero programa da RN sobre imigração. Estas medidas incluem: o estabelecimento de quotas migratórias, o endurecimento da reagrupação familiar e o acesso a permissões de residência por motivos familiares, a criação de novos casos de denegação de expedição de uma permissão de residência, o condicionamento da obtenção de uma primeira permissão de residência de estudantes a um depósito, a transformação da ajuda médica estatal (AME) em ajuda médica de emergência unicamente, o condicionamento das prestações sociais a cinco anos de residência certificada no território ou inclusive a reinstauração do “delito de residência ilegal”.

O Senado desenhou uma reforma racista, mas em continuidade com a política governamental. A AME e a CMU foram abolidas em Mayotte em 2005 com um foco colonial, e os territórios de ultramar serviram geralmente como lugar para a experimentação social antes de estender este tipo de medida ao resto do país. As emendas do Senado permitiriam generalizar esta supressão da AME, apesar do recente alerta de um coletivo de 3.000 cuidadores sobre os riscos para a saúde que gera esta medida. Há muitos motivos para preocupar-se de que outras práticas experimentadas no estrangeiro se estendam por todo o país.

Os estudantes estrangeiros são os mais afetados pelas medidas discriminatórias desde a muito tempo. Aumento de dez vezes as taxas de matrícula para estudantes não europeus em 2019, suspensão de vistos em setembro deste ano para estudantes malienses, nigerianos e burkineses. Se faz todo o possível para dissuadir os nacionais de antigas colônias de estudar na França, baseando-se no preconceito racista de que não são verdadeiros estudantes.

Uma mobilização a longo prazo

Inclusive antes desta aberrante acumulação de emendas destinadas a fazer a vida cada vez mais impossível aos sem documentos no território, os coletivos e seções sindicais de trabalhadores sem documentos apoiados por organizações de apoio não se equivocaram e se mobilizaram contra o projeto de lei de Asilo e imigração. A Marcha de Solidariedade lidera desde a um ano uma campanha de concentrações e manifestações destinadas a protestar contra este projeto. Uma onda de greves coordenadas afetou 33 marcas em 17 de outubro, incluída a ocupação das obras da Arena por centenas de grevistas e seus seguidores, a obra de construção mais importante dos Jogos Olímpicos na qual trabalham muitos trabalhadores sem documentos. Estas lutas obtiveram um procedimento de regularização para os grevistas do local e demostraram que a implacabilidade legislativa e policial está longe de ter vencido a determinação e a solidariedade dos ativistas. Esta mobilização não cessou e tem como objetivo reabrir os mostradores físicos para a apresentação de solicitações de permissão de residência na prefeitura.

Podemos temer que a atenção centrada na questão da AME sirva de alavanca para que Darmanin negocie a aprovação de seu projeto. As manifestações declaradas em 18 de dezembro e as demais mobilizações organizadas até então em toda a França a instâncias de mais de 200 organizações[3] devem ser mobilizadas massivamente por nosso campo político se queremos obter um rechaço total deste projeto. Papeis para todos! Agora!

Comissão Antirracismo da UCL

Notas

[1] Obrigação de abandonar o território francês

[2] Escritório Francês para a Proteção dos Refugiados e Apátridas.

[3] Veja-se a ordem do dia no site web Antiracisme-solidarite.org.

Fonte: https://www.unioncommunistelibertaire.org/?Un-projet-de-merde-dans-un-pays-de-merde

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Dentro da lagoa
uma diz “chove”, outra diz “não”:
conversa de rã.

Eunice Arruda

[Espanha] A Cruz Vermelha demite uma trabalhadora em retaliação por ela ter se manifestado contra riscos e assédios

A Cruz Vermelha retalia com a demissão uma trabalhadora por denunciar situações de risco e humilhação para usuárias e trabalhadoras.

“Dada a gravidade dos fatos relatados e a recusa da empresa em chegar a uma solução acordada, a CNT Valladolid iniciará uma disputa trabalhista com a Cruz Vermelha. Ela será formalmente comunicada à empresa no dia 22 de dezembro, às 13h30, na sede da Calle Pólvora nº 6, em Valladolid”.

Os eventos começaram em fevereiro de 2023, em Valladolid, quando a pessoa em questão percebeu uma atitude e um tratamento degradante em relação às usuárias e trabalhadoras por parte de outro funcionário do centro. Após repetidas solicitações ao funcionário para que mudasse sua atitude e várias comunicações orais ao seu superior, a trabalhadora demitida decidiu registrar os fatos comunicando-os ao seu superior. O funcionário foi transferido para outro posto de trabalho, mas a partir de então foi lançada uma campanha de assédio contra a trabalhadora, que finalmente resultou em demissão disciplinar em julho de 2023.

A empresa Cruz Vermelha apresentou três motivos para a demissão:

-> Falta de desempenho: fato totalmente falso, pois a trabalhadora, em decorrência da reclamação, e durante quatro meses, passou a realizar as tarefas de duas pessoas (já que o cargo do empregado demitido não foi preenchido e ele foi transferido para outro posto de trabalho).

-> Fraude, deslealdade e quebra de confiança por reivindicar as horas extras que a companheira é obrigada a fazer ao tentar realizar o trabalho de duas pessoas. Essa é uma evidência de que a demissão também se refere a reclamações trabalhistas básicas.

-> Desobediência às ordens de um superior. Diante da carga excessiva de trabalho à qual a trabalhadora está submetida, ela coloca por escrito que é impossível realizar as tarefas de duas pessoas e que é necessário cobrir o outro trabalho ou indicar as tarefas mais importantes para priorizá-las. Um fato que a empresa não aponta, acreditando que isso poderia justificar a demissão.

Portanto, temos dois fatos muito graves em qualquer empresa, mas ainda mais em uma empresa que é financiada principalmente com dinheiro público e fornece assistência social:

-> Por um lado, um encobrimento de comportamento arriscado e degradante por parte de um funcionário da Cruz Vermelha.

-> Por outro lado, assédio no trabalho e acusações falsas que, em um determinado momento durante o período de assédio, levaram a trabalhadora a se afastar do trabalho devido às crises de ansiedade.

Do sindicato CNT Valladolid, exigimos a reintegração imediata da trabalhadora demitida. Assim como a investigação do comportamento dos responsáveis pela Cruz Vermelha, que não apenas protegem o tratamento humilhante e arriscado para as usuárias e trabalhadoras, mas também assediam a pessoa que os leva ao conhecimento da empresa até inventarem sua demissão. A título de informação, durante a denúncia desses fatos e da campanha de assédio, a presidente da Cruz Vermelha em Valladolid era Rosa Urbón, atual presidente da Cruz Vermelha em Castilla y León e esposa do prefeito de Valladolid, que também foi diretora do antigo Instituto da Mulher e da Igualdade de Oportunidades. A intenção deste sindicato não é desacreditar um indivíduo, mas abordar esses comportamentos abusivos e perigosos da empresa e evitar que se repitam.

Dada a recusa da empresa em chegar a uma solução acordada na reunião de mediação realizada em 21 de dezembro, o sindicato CNT Valladolid tomará as medidas legais e sindicais apropriadas para corrigir essa situação. Essas ações terão início no dia 22 de dezembro, com a comunicação oficial do conflito trabalhista à empresa, na sede da Calle Pólvora nº 6, em Valladolid, às 13h30.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/cruz-roja-despide-a-una-trabajadora-como-represalia-por-denunciar-situaciones-de-riesgo-y-vejaciones/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

pequenos dedos
das gotas de chuva
massageiam a terra

Carlos Seabra

[Espanha] A CNT realiza uma manifestação em Iruñea em solidariedade aos acusados pela Gestión y Eventos Lázaro.

Com o lema “Contra a repressão dos patrões, nem um passo atrás!”, a central sindical anarcossindicalista se reuniu neste sábado, 16 de dezembro, na prefeitura de Iruña.

O sindicato denuncia que quatro pessoas foram acusadas por uma queixa apresentada pela empresa Gestión y Eventos Lázaro, por demonstrar solidariedade a um trabalhador demitido nas piscinas de Villafranca. O julgamento será realizado na segunda-feira, 18, em Tudela.

A CNT denuncia que “essas acusações são um ataque ao direito da classe trabalhadora de se organizar para defender seus direitos, bem como um ataque ao sindicalismo e que não cederá aos ataques de nenhum empregador”.

>> Vídeo: https://youtu.be/aYJWjHcM41U

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/cnt-realiza-una-concentracion-en-irunea-en-solidaridad-con-los-imputados-por-gestion-y-eventos-lazaro/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

O silêncio é um campo
plantado de verdades
que aos poucos se fazem palavras.

Thiago de Mello

[Chile] Ante a sentença de 86 anos ao companheiro anarquista Francisco Solar

Após passar 3 anos em prisão preventiva, em julho de 2023, o companheiro anarquista Francisco Solar, junto a Mónica Caballero, enfrentou o julgamento contra ele, onde foi condenado a 86 anos de prisão pelo envio de pacotes bomba contra o ex ministro do Interior Hinzpeter, à 54ª delegacia e o duplo atentado explosivo contra o edifício Tánica no  bairro dos ricos. Esta sentença deve entender-se como parte da ofensiva estatal e se converte em uma das mais altas dos últimos tempos.

Na atual legislação chilena, um dos limites máximos de castigo é representado pela prisão perpétua simples, a prisão por toda a vida do condenado que só pode solicitar benefícios intrapenitenciários depois de cumprir 20 anos encarcerado. Também, aqueles condenados cujas penas somem mais de 40 anos de prisão, da mesma forma, só podem começar a solicitar benefícios intrapenitenciários depois de 20 anos.

Na prática, a condenação de 86 anos contra Francisco se comporta como uma prisão perpétua simples, já que o companheiro só pode começar a solicitar algum benefício depois de 20 anos. Considerando a extensão da condenação, isto se apresenta como algo sumamente difícil. Por outra parte, esta mesma extensão faz com que seja inatingível, transformando-se em uma prisão por toda a vida. A sentença contra Francisco não é outra coisa mais que uma prisão perpétua encoberta.

Nos enfrentamos a uma das condenações mais severas no Chile por ações políticas sem resultado de morte. Basta rastrear as condenações na ditadura e inclusive na década de 90 contra os grupos guerrilheiros que seguiam operando para observar facilmente a brutalidade com a que o poder golpeia hoje em dia.

Mas, por que a magnitude da sentença? Nesta ofensiva estatal, vemos uma condenação dirigida não só contra práticas e entornos revolucionários em geral, mas também especificamente contra o movimento anarquista e, mais precisamente, contra a tendência informal insurrecional. Efetivamente, o companheiro Francisco tem uma história de vida vinculada diretamente com o anarquismo de ação, e o passado colapso do Caso Bombas em 2010 é uma vergonha que o poder cobra com vingança. No entanto, o golpe assestado pelo Estado através de seus tribunais não é motivado unicamente por um desejo de aniquilação pessoal para o companheiro, mas principalmente pela tendência onde se situa Francisco, os contextos sociais nos quais se enquadraram as ações e a precisão dos ataques.

Esta sentença busca ser um golpe aniquilador ao amplo campo antagonista e negador deste mundo. Desta forma, o Estado chileno se converte no verdugo que impõe uma das condenações mais altas contra um anarquista em prisão em todo o mundo durante as últimas décadas.

Frente a esta realidade, se faz evidente a urgente necessidade e importância de compreender isto como um golpe aos entornos anárquicos, e, portanto, de responder a este ataque do poder com todas as formas e meios disponíveis, sem ficarmos atônitos nem impávidos. Não permitiremos que o poder aniquile impunemente o companheiro.

A combater contra a prisão perpétua encoberta ao companheiro anarquista Francisco Solar!

Solidariedade e cumplicidade com quem desafia os poderosos e repressores!

Alguns Anarquistas

Santiago território ocupado pelo estado chileno 20 dezembro de 2023.

Fonte: Buskando La Kalle

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

janela que se abre
o gato não sabe
se vai ou voa

Alice Ruiz

[Nova Zelândia] O veganismo não é anti-indígena

Por Samah Seger | 8 de maio de 2023

Os povos indígenas representam por volta de 5% da população mundial. Ainda são menos os que seguem vivendo segundo seus costumes tradicionais, que podem incluir a matança de animais para sobreviver. Apesar do estranho que é isto, os argumentos contra o veganismo geralmente evocam os povos indígenas para apoiá-los.

Quantas vezes ouvistes: “Dirias a um indígena que se tornasse vegano?”. De fato, o argumento de que o veganismo é incompatível com a cultura indígena carece de fundamento. Os defensores dos seres humanos, dos animais e nossos ecossistemas são aliados naturais na luta contra as estruturas coloniais opressivas.

Como indígena, compreendo a necessidade de proteger nossos costumes para evitar que sigam sendo apagados. Como também sou imigrante, sei que este sentimento existe entre as pessoas que vivem fora de sua terra natal e que utilizam os alimentos para manter a sensação de lar. Mas a produção moderna de carne e outros sistemas de agricultura animal têm suas raízes no pastoreio, que é fundamental na tradição judaico-cristã ocidental, com seus pastores e pastoras piedosos. Os colonizadores puderam estender a agricultura animal por todo o mundo com a ajuda do cristianismo, uma ferramenta utilizada contra os povos indígenas.

O estereótipo do caçador indígena

O argumento de que o veganismo é anti-indígena comete o erro de equiparar indigenismo com caça. As representações dos povos indígenas que se centram nos aspectos violentos, primitivos ou retorcidos de nossas culturas reforçam as narrativas coloniais dos povos indígenas como selvagens, quando na realidade fomos durante muito tempo pensadores magistrais, jardineiros, coletores, narradores de histórias, construtores, curandeiros, navegantes, astrônomos, artistas, marinheiros e muito mais. A imagem superficial dos povos indígenas como caçadores nos pinta como congelados no tempo, ignorando nossa realidade vivida. Hoje em dia, a maioria de nós nos abastecemos nos supermercados e comemos alimentos que se parecem muito pouco a nossa dieta tradicional. O fato de que comamos de forma diferente – a base de plantas ou não – não nos faz menos indígenas.

Os lácteos como ferramenta de colonização

Antes de que os europeus introduzissem a pecuária leiteira, a maior parte do mundo não consumia leite de outras espécies. Um grande número de não europeus nunca se adaptaram ao consumo de lactose na idade adulta e inclusive experimentam taxas desproporcionais de enfermidades relacionadas com o consumo de lácteos. Muitas culturas indígenas tampouco criavam gado para obter leite. No entanto, o leite animal foi utilizado durante muito tempo como ferramenta de colonização. No artigo Colonialismo animal: O caso do leite, a autora Mathilde Cohen escreve que, como se pensava erroneamente que o leite animal era uma forma de impulsionar o crescimento da população, os governos impulsionaram a criação de gado leiteiro para satisfazer o “desejo de uma maior mão de obra e um exército de indígenas [e negros]”.

Se demonizou a lactância materna prolongada – uma forma tradicional de anticoncepção – e se fomentou agressivamente o leite animal.

Apesar do conhecimento generalizado de seus efeitos nocivos para mães e bebês, o “colonialismo da lactância materna” continua hoje em dia, e as empresas de preparados para lactantes utilizam tácticas de marketing “generalizadas, enganosas e agressivas”. Segundo as Nações Unidas, estas táticas se utilizam com pais vulneráveis de todo o mundo, criando uma “barreira substancial à lactância materna”.

A prática continua na infância. Hoje em dia, em Aotearoa (Nova Zelândia), as diretrizes do governo nos dizem que consumamos 2,5 rações de lácteos ao dia, e os oferecem nas escolas sem nenhuma alternativa, apesar de que ao redor de que 64% dos indígenas maoris são intolerantes à lactose.

O olhar branco do veganismo

O registro mais antigo de não violência para com os animais data de uns 3000 anos na antiga Índia. A não violência, ou ahimsa, se converteu em um elemento central do hinduísmo, do budismo e, sobretudo, do jainismo, que pede a seus seguidores que não escravizem nem façam dano a outros animais. Estas filosofias inspiraram inumeráveis pessoas e prepararam o caminho para os movimentos de resistência não violenta.

Desde então, ativistas decoloniais e antirracistas, ecologistas, defensores dos portadores de deficiências, anticapitalistas, feministas, anarquistas, filósofos e outros debateram a opressão dos animais desde numerosos e importantes pontos de vista.

Por exemplo, o ativista pelos direitos civis Dick Gregory disse uma vez em uma entrevista que “o mesmo que nós fazemos aos animais, o sistema está fazendo a nós”, crendo que “ao final se chegará a um mundo vegetariano ou a nenhum mundo”.

Mais recentemente, durante uma palestra na Universidade da California, Berkeley, a ativista política Angela Davis chamou a humanidade a “desenvolver relações compassivas com outras criaturas com as quais compartilhamos este planeta”, situando o veganismo como “parte de uma perspectiva revolucionária”. Apesar dos muitos, poderosos e diversos ativistas que lutam contra algumas das indústrias mais exploradoras do mundo, o veganismo se reduz geralmente nos meios de comunicação e no mundo acadêmico a uma mera moda para brancos privilegiados. Na realidade, os negros estadunidenses são o grupo demográfico vegano de mais rápido crescimento nos EUA, e também há um notável crescimento do veganismo entre os maoris.

Estes estereótipos sobre as culturas indígenas ignoram e apagam as muitas nações que dependeram durante muito tempo de alimentos básicos baratos e abundantes como as lentilhas, o milho, as batatas, as ervilhas e os grãos de bico, assim como os muitos veganos pobres das nações ricas.

Valores indígenas

Em contraste com a visão antropocêntrica moderna do mundo, que vê os humanos como seres separados e superiores dos demais animais, a maioria das tradições indígenas reconhecem que os humanos fazem parte da natureza. Sabíamos que os animais eram nossos parentes muito antes de que o dissesse Charles Darwin.

Por exemplo, o Deus mandeo (Hayyi ou “o vivente”) é a força vital do mundo natural e de todos os seus habitantes, uma perspectiva que vê o caráter sagrado de todos os seres vivos. Nossos ensinamentos dizem que todas as matanças e derramamentos de sangue são pecaminosos – e ainda que (talvez paradoxalmente) nos dá permissão para comer ovelhas macho, aves de presa e peixes com escamas, “a atitude para com a matança é sempre apologética”. Alguns dizem que nós, ou ao menos nossos sacerdotes, costumávamos ser vegetarianos.

Ainda que algumas culturas indígenas se mostram contrárias ao veganismo, suas histórias nos dizem que se preocupavam profundamente por seus irmãos animais. Em sua palestra Indigenous VeganismOs nativos feministas sim comem tofu, Margaret Robinson fala da visão Mi’kmaq de que toda a vida está relacionada, encapsulada pelo conceito de “M’sit No’maq”, que significa “todos meus parentes”. Devido a essa visão, explica, “a pesca comercial moderna, que geralmente se promove por oferecer segurança econômica às comunidades aborígenes, está ainda mais afastada de nossos valores mi’kmaq do que o estão as práticas veganas atuais”. Estas perspectivas oferecem vias para um veganismo compatível com os valores de nossos antepassados, e inclusive podem nos ajudar a viver de acordo com eles. Como disse Robinson, “o veganismo nos oferece um sentido de pertencimento a uma comunidade moral, cujos princípios e práticas refletem os valores de nossos antepassados, ainda que possam estar em desacordo com sua prática tradicional.”

O veganismo como ferramenta decolonial

Geralmente se acusa o veganismo de ser anti-indígena, mas na realidade é uma resposta aos sistemas anti-indígenas de hoje em dia. O veganismo oferece a oportunidade de perturbar a lógica colonial desafiando os pilares mais básicos do colonialismo, que reduzem todas as formas de vida a meros objetos para a exploração capitalista.

Nosso povo teve que adaptar-se para sobreviver, e agora devemos fazê-lo de novo.

Fonte: https://sentientmedia.org/veganism-is-not-anti-indigenous/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Quando me canso da paisagem
Do leste, viro a cadeira
Para oeste.

Paulo Franchetti

[Espanha] O Punk peninsular de uma perspectiva anarco-feminista

Quando descobri o punk, de repente, todo o resto ficou aquém (por mais contraditório que isso possa parecer). O punk está sempre lá para plantar uma semente de questionamento ou discordância; a provocação (à qual ele é geralmente associado) é a coisa menos importante em comparação com o que o desenvolvimento de sua consciência política por meio da música traz como pessoa.

Muitos acreditam que não é importante se posicionar, mas em um mundo onde a opressão nos atravessa holisticamente, politizar espaços de lazer, sociais ou artísticos é a ferramenta mais poderosa que nos resta para nos afirmarmos como dissidentes. Mas cuidado! A linha entre o “punk kalimotxero” e o movimento punk pode ser muito tênue. Há festivais como o Viña Rock, grupos e estrelas do punk como Evaristo Páramos, Non Servium ou Boikot, que usam discursos subversivos como recurso estético ou estratégia de marketing, fagocitando lutas e criando negócios a partir de algo muito sério. São grupos e eventos em que os homens vêm se apropriando de um discurso há anos, que, embora no início tenha sido útil e vingativo, agora está longe de ser um exemplo de luta.

O punk nasceu da necessidade de gritar e reclamar, mas, como qualquer outro estilo, ele também é dominado por homens cis. É triste que, mesmo hoje em dia, ainda tenhamos que nos esforçar para encontrar grupos com identidades dissidentes, especialmente no sul da Espanha. Vivenciamos isso de forma gritante quando formamos o Vulvassur (punk não misto de Sevilha, em 2018); durante os anos em que estivemos ativas, encontramos muitas dificuldades tanto para compartilhar uma formação com alguém que não fosse puramente homens cis quanto para manter o grupo não misto. Sempre temos que fazer um esforço duplo, pois somos duplamente julgadas e, portanto, é mais difícil nos sentirmos seguras ou representadas. Isso está mudando ao longo dos anos, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Analisando a Espanha, eu diria que a diferença entre o País Basco, Barcelona, Madri e Valência na cena punk em relação ao resto da península é abismal. É claro que isso tem a ver com uma questão cultural e histórica, já que esses são lugares geralmente mais “progressistas”, onde os movimentos sociais mantiveram o dedo no pulso do fascismo, um terreno perfeito para o punk germinar. Especificamente na Euskalherria (o berço do punk na Espanha), a existência de um gaztetxe em quase todas as cidades facilita as reuniões e a criação de eventos regularmente, nos quais, pela minha experiência pessoal, a maioria dos participantes são dissidentes que geram espaços seguros (Errekaleor, CSOA La Esquirla, La Kelo, Sastraka e grupos como Ternura, Aihotz, Lentejas, Brüma ou La Virgen). Em Barna, onde a resistência e a ocupação foram historicamente cultivadas, hoje há grupos (Polvo de Hadas, Pols) e espaços liberados mistos e não mistos (CSO La Ruina, El Kubo, Pisos Fantasmas, La Eskandalosa) com uma agenda que sempre fumega. Madri tem sofrido uma repressão policial e fascista mais extrema ultimamente, perdendo muitos espaços (CSOA Coko, Enrredadera, Quimera, Emboscada), mas grupos como Genderlexx, Bajo control, Troika ou Perra Vieja continuam sendo um exemplo de luta e referência. Da Cantábria à Galícia (berço do crust punk), o envelhecimento do punk é perceptível, mas felizmente há pessoas que continuam a trabalhar abnegadamente para nos tornar visíveis, como Maritxu Alonso (Oviedo), criador do selo autogerido Uterzine, uma comunidade que hospeda desde a autopublicação até oficinas e compilações de grupos dissidentes (No más punkis muertas), que você pode encontrar na web; ou os grupos Voces de Ultratumba, que surgiu nos anos 80 e foi reativado recentemente, Atorrak (Zaragoza), Partenogénesis (Almería), Er Pizu (Chiclana de la frontera) e Sharp Knives (Lisboa). Também podemos encontrar em Córdoba a associação cultural El Tugurio, dirigida pelos membros do grupo Who Cares!!!, que fazem verdadeiros esforços altruístas para trazer bandas de diferentes estilos; em Málaga, a CSA Las Vegas, onde Sopa Jervía organiza oficinas e concertos interessantes; em Múrcia, a CSO Kasablanka ou La Algarroba Negra, em Badajoz.

Um dos obstáculos que enfrentei nos últimos anos em Sevilha foi a falta de espaços livres para organizar eventos fora da lógica capitalista de um local alugado. Na ausência desses espaços, houve e ainda há coletivos como o Cloakas, que organizou eventos de rua autogestionados, politizando o lazer ou arrecadando fundos para causas antirrepressivas; o Andalucía Über Alles, que trouxe muitos grupos nacionais e internacionais para a Sala Hollander e a CSO Malatesta.

Gostaria de compartilhar algo que venho observando há alguns anos e que é inerente a todos os espaços. Como estamos cada vez mais aptos a apontar nossos agressores, todas as atitudes de merda que muitas pessoas ao nosso redor têm estão vindo à tona. Isso está nos afetando, gerando debates e diferenças, mas considero necessário passar por eles e, é claro, preferível a olhar para o outro lado. É triste ver como os vínculos são quebrados, mas é necessário ter uma visão crítica, empática e de apoio mútuo em conflitos como esse.

Nunca esqueçamos o espírito de autogestão que combina tão bem com a lógica DIY do punk e nunca permitamos que ele se torne estagnado e apropriado pela nobreza.

O punk não está à venda, vamos torná-lo um espaço seguro para todes!

Por Nurixx. Nascida em Ceuta, criada na Andaluzia e atualmente perambulando pelo norte ibérico em busca de autogestão.

Fonte: https://www.briega.org/es/opinion/punk-peninsular-desde-perspectiva-anarcofeminista

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

velho sapato
lembra das caminhadas
solto no mato

Carlos Seabra

As festas do solstício de inverno

A seguir publicamos o texto “As festas do solstício de inverno”, de autoria de Neno Vasco. O referido texto foi publicado em 31 de dezembro de 1919, no periódico lisboeta A Batalha, pertencente a Confederação Geral do Trabalho de Portugal. Fortemente impactado com o exemplo do processo revolucionário na Rússia que irrompera dois anos antes, o anarquista luso-brasileiro acreditava que era chegada a hora em que as  festas do sol se aliariam às festas do trabalho. Essa aliança, comunicada pelo autor de modo altamente lírico, une os revolucionários de ontem aos revolucionários de hoje na busca de uma nova era de igualdade e liberdade para todos os seres. A pesquisa e edição do texto é de Thiago Lemos Silva.

Por Neno Vasco

Quando os dias começam a crescer, o homem, criador dos Deuses, adora e festeja o Sol, pai da vida e Deus supremo.

O astrônomo alexandrino Sosígenes, encarregado por Júlio César de corrigir o velho calendário de Numa, dois meses atrasado, queria que o ano começasse no dia do solstício de inverno. O ditador, porém, para não contrariar, demasiadamente, os hábitos romanos, ordenou que principiasse no dia da lua nova imediata – que nesse ano caia oito dias depois do solstício.

Deste modo, o solstício ficou em 25 de Dezembro – e esta foi a data da festa natalícia do Deus Sol, isto é do Hórus egípcio, do Mitra persa, do Febo greco-romano.

E depois, foi a festa natal do menino Jesus, o novo Deus Solar dos cristãos, posto nos braços da Virgem Maria, como o menino Hórus, no natal egípicio, figura ao colo da Virgem Ísis. Os cristãos tendo triunfado no mundo conhecido e civilizado, todo situado no hemisfério setentrional, apropriaram-se das festas do solstício de nascimento do Sol e deram nomes novos aos mitos antigos.

Hoje, o solstício está deslocado três ou quatro dias para trás. E os reformadores do calendário pedem que o ano parta do equinócio da primavera, 21 de março – o qual viria a ser um dia independente e isolado para um festa fixa, a Páscoa, a festa primaveril da natureza. Os anos bissextos teriam outro dia independente, no equinócio do outono, entre o mês VI e o VII. Cada dia do mês cairia, pois, sempre no mesmo dia da semana.

Todos os reformadores tiveram que respeitar as poderosas tradições do culto solar: Numa, Júlio César, o cristianismo primitivo, o papa Gregório XIII, a ciência moderna.

Para os antigos, o ano deveria começar com o renascimento do Sol, pai supremo dos homens e dos Deuses. No solstício de inverno, o Deus luminoso começa a encarar as trevas, o dia principia e vence a noite, depois duma luta trágica, em que ele parece sucumbir. Depois, há ainda as dificuldades e perigos da infância  até o equinócio da primavera, que marca e soleniza a juventude florida e sorridente do Deus, a sua ressureição completa e triunfal.

No solstício de verão, é a vida com todo o seu esplendor, é o pleno triunfo da luz, até no equinócio do outono, quando a idade começa a declinar e a ameaça das trevas e da morte surge de novo apavorante, – para que de novo o Deus vital renasça e se liberte. A treva, o frio, a morte – tudo se dissipa enfim como um pesadelo horrível, ante a radiosa claridade triunfante do astro divino, que desentorpece a terra gélida com os seus raios cada vez mais perpendiculares e faz brotar o germe e faz irromper a vida.

A democracia burguesa enfeitou as festas solares e dionisíacas de vestes novas, consagrando uma à “família” – que a indústria moderna destruiu, explorando a mulher e a criança, – dedicando outra, com sombrio sarcasmo, à “fraternidade universal” – que as rapinas e rivalidades imperialistas enterraram em sangue e lodo.

A humanidade nova, prestes a tomar a posse dos seus destinos, a sacudir o jugo dos parasitas e dos opressores não precisa de contrariar as belas festas do Sol. As festas do Sol se aliarão às festas do trabalho, como ele fecundante, como ele renovador e embelezador da vida, como ele amante da terra generosa, nossa mãe comum.

Fonte: https://patosaesquerda.com.br/as-festas-do-solsticio-de-inverno/

agência de notícias anarquistas-ana

gente sem terra,
corrupção, desemprego:
mundo em guerra

Carlos Seabra