[Escócia] Divisão Neo-Nazi Highland superada em número e expulsa de Elgin

No sábado, 17 de junho, antifascistas, sindicalistas, anarquistas e socialistas se reuniram de toda a Escócia para protestar contra uma manifestação anti-imigrante realizada em Elgin pelo fanboy de Hitler, Alek Yerbury e sua divisão neonazista Highland.

Uma vigília para refugiados foi organizada em Plainstones por Moray TUC em um lado da igreja, onde as pessoas começaram a se reunir por volta das 11h, enquanto um punhado de fascistas começou a se reunir do outro lado. Um autodenominado libertário vagou pela vigília com seus filhos pequenos durante as filmagens, geralmente sendo um idiota e tentando fazer com que os antifascistas debatessem com ele. Apesar da nítida vantagem numérica, Moray TUC relutou em contornar a igreja para enfrentar os fascistas, visando, em vez disso, concentrar-se em sua própria vigília pacífica – felizmente, eles não conseguiram manter o controle sobre a situação.

Pouco antes do meio-dia, um garoto punk de 17 anos manteve a gloriosa tradição antifascista ao socar Alek Yerbury e foi advertido pela polícia. Pouco depois disso, os antifascistas começaram a se espalhar espontaneamente pela lateral da igreja, cercando rapidamente Yerbury e os nazistas da 7ª Divisão Highland e forçando a polícia a formar um círculo protetor ao redor deles.

Susan Slater, do Moray TUC, fez uma tentativa fraca de impedir que as pessoas gritassem “escória fascista fora de nossas ruas” e se ater a “slogans positivos” – sempre há um liberal dizendo às pessoas como protestar. Este pedido foi prontamente ignorado. Susan Slater disse mais tarde a um jornalista do norte da Escócia que estava desapontada com o confronto direto com os nazistas – talvez Moray TUC precise de novos representantes ou de aumentar seu compromisso com o antifascismo!

Por duas horas, a Divisão Highland foi abafada por entre 200 e 300 antifascistas, sindicalistas e moradores locais. Havia gritos de “escória fascista fora de nossas ruas”, “diga em voz alta, refugiados são bem-vindos aqui”, “quando os refugiados estão sob ataque, o que fazemos? Levante-se, lute!” bem como canções de sucesso como “você pode enfiar sua bandeira nazista na bunda” e “a raça superior? Você nos faz rir”, com um alô especial para a camarada vuvuzela. Várias vezes Alek Yerbury tentou começar a falar, apenas para ser abafado por uma parede de barulho e forçado a desistir.

Eventualmente, os nazistas se cansaram e a linha policial recuou para tentar oferecer-lhes uma rota de fuga, que foi recebida por antifascistas imediatamente avançando e empurrando os nazistas fortemente protegidos para um beco enquanto entoavam vitoriosamente “De quem é a rua? As ruas são nossas!”

Alguns antifascistas então se separaram e correram por uma rua paralela para cortar os nazistas do outro lado, imprensando-os. A polícia deixou os nazistas saírem por uma entrada lateral. Yerbury e a Divisão Highland foram perseguidos até o micro-ônibus, com a polícia formando uma linha defensiva na entrada do estacionamento.

Além do menino que foi advertido, houve 0 prisões, os fascistas estavam em desvantagem de pelo menos 20 para 1 e foram expulsos de Elgin em uma das derrotas mais humilhantes que alguém poderia esperar.

Nunca permitiremos que os nazistas tenham uma plataforma na Escócia, No Pasaran!

Ação Antifascista Dundee

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2023/06/20/neo-nazi-highland-division-outnumbered-driven-out-of-elgin/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

fecho um livro
vou à janela
a noite é enorme

Carol Lebel

[França] Quando Stalin se aproximou de Hitler…

Em 22 de agosto de 1939, Stalin enviou a Hitler uma carta na qual propunha a colaboração entre as duas potências. Jean-Jacques Marie, em seu livro La collaboration Staline-Hitler (A colaboração Staline-Hitler), aponta que esta missiva há muito foi esquecida na historiografia, embora seja central para entender o pacto assinado no dia seguinte.

Para o autor, marca um ponto de ruptura, pois destrói a imagem de Stalin buscando ganhar tempo e promove um entendimento ideológico entre os dois poderes totalitários.

Ele então lembra que a URSS já havia mantido relações com a Itália fascista e então, em 10 de março de 1939, iniciou uma virada buscando se aproximar da Alemanha.

O anúncio da assinatura constitui um verdadeiro choque, precipitando o mundo para a Segunda Guerra Mundial. É acompanhado por cláusulas secretas que ratificam em particular a partição da Polônia, a anexação dos Estados Bálticos.

O autor lembra ainda que a aliança possibilitava intercâmbios militares e tecnológicos e que a URSS também fornecia matérias-primas à Alemanha. Finalmente, sublinha – após a ruptura do pacto e a invasão dos territórios soviéticos – que em 1944 o Exército Vermelho deteve o seu avanço para permitir que a insurreição polaca fosse massacrada em Varsóvia, como última forma de troca, massacrando Hitler qualquer potencial oposição a Stalin.

Se não somos obrigados a subscrever todas as análises do autor, este livro representa uma útil síntese.

Sylvain Boulouque

La collaboration Staline-Hitler, Jean-Jacques Marie. Tallandier, 2023, 350 p., 22,90 €

Fonte: https://www.monde-libertaire.fr/?articlen=7314&article=Page_dhistoire_n__28

agência de notícias anarquistas-ana

nos dias quotidianos
é que se passam
os anos

Millôr Fernandes

[Reino Unido] O capitalismo arco-íris nunca nos salvará

O capitalismo arco-íris não salvará as pessoas queer. Isso foi bem estabelecido ao longo de muitos anos. Ainda assim, um discurso recente surgiu defendendo a chamada “representação” no mercado contra fanáticos de direita.

À medida que vagamos por um dos meses mais sombrios do Orgulho LGBT nos últimos tempos, através da constante enxurrada de ataques de direita (e de esquerda) contra pessoas trans, o surgimento de slogans de extrema direita que remontam às campanhas de ódio dos anos 1980 e o bode expiatório de pessoas queer e drag queens em todo o mundo, as pessoas estão compreensivelmente começando a se sentir nervosas. Pra dizer a verdade, eu também estou. Há muito com o que se preocupar nessas atuais circunstâncias globais, e é compreensível que as pessoas se preocupem com a perda de apoio “aberto” das corporações.

Tanto os liberais quanto os esquerdistas reclamam que as empresas estão cedendo à direita por causa de seu apoio ostensivo a pessoas queers, como se não esperassem isso o tempo todo. Claro, o apoio público pode ser positivo, mas o capitalismo nunca será a solução. O capitalismo arco-íris não funcionou. Não libertou as pessoas queer; embora possa ter melhorado (vagamente) a tolerância, não promoveu a aceitação. Se tivesse, não estaríamos neste problema, sentindo as mesmas ansiedades que sentimos agora. Marcas seguem o dinheiro – se for lucrativo servir a comunidade queer, eles vão agarrar e sugar a vida até que estejamos murchos e mortos, antes de drenar a próxima oportunidade de lucro.

Alcançar a tolerância já é alcançar o fracasso. As empresas não podem nos dar liberdade. Não podemos confiar no capitalismo para criar espaço para nós. Não podemos confiar nas marcas para ditar onde e quando existimos, nem devemos dar-lhes autoridade para isso. Não podemos comprar nosso caminho para a liberdade. O capitalismo é paternalista, é demonizador – ele diz a você como e quando é aceitável ser. Ele finge apoiar nossa causa e lutar por nossa história, brincando com o megafone “Para todos os nossos clientes e colegas LGBTQ +, nós amamos vocês” enquanto nos ignora instantaneamente em 1º de julho. Dá-nos pequenos expositores nos cantos das lojas que passam facilmente despercebidos e não causam muita polêmica. O problema não está em demonstrar que as pessoas queer têm poder de compra nas lojas, ou que as lojas têm o poder de nos dizer que podemos, mas sim um sistema de pensamento mais estrutural e arraigado na raiz do capitalismo que demoniza não apenas as pessoas queer, mas também todos os ‘Outros’ – negros, ciganos, deficientes, pessoas da classe trabalhadora, para dizer o mínimo.

Em vez de esperar que alguém, muito menos o capitalismo ou sua marca favorita, nos conceda o espaço para ser queer, temos o poder de sair e criar espaços queer nós mesmas. De formas pequenas ou grandes, lembramos às pessoas que existimos. Tocar música que fode com o patriarcado heteronormativo, usar saias ou ternos ou nada, pintar as unhas, grafitar arco-íris nas lojas, cortar o cabelo, falar sobre o poder queer em público, transitar pelos espaços enquanto coletivos. Interromper a heteronormatividade em todas e quaisquer formas é incorporar o queerness e o poder que vem com ele. À medida que as bandeiras do arco-íris são arrancadas e escondidas nas lojas, nós aparecemos com força total e lembramos os heterossexuais de que existimos. Ao incorporar nossa estranheza (queerness), construímos comunidades e solidariedade, educamos por meio de nossos corpos e dizemos foda-se para quem não suporta olhar. Nem sempre é fácil e nem sempre seguro – proteja a si mesmo e aos que estão ao seu redor. Mas o capitalismo continuará a nos esconder enquanto não for comercialmente viável. O fim da hierarquia e das estruturas de poder impostas deve ser a abordagem de toda pessoa queer.

Não espere que as marcas lhe digam quando existir e não espere que o capitalismo o salve. Eles não vão. Pessoas queer salvam pessoas queer.

Daniel Newton

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2023/06/17/rainbow-capitalism-will-never-save-us/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Só o Ipê vê, pasmo,
o tremor suado — orgasmo —,
borboleta treme e passa.

Alckmar Luiz dos Santos

[Espanha] De Melilla e a violação de direitos humanos

Em 24 de junho de 2023 completa um ano do massacre de Melilla. Um ano das graves violações de direitos humanos perpetradas pelo estado espanhol e o Reino do Marrocos que tiveram como saldo a morte e execução extrajudicial de ao menos 37 pessoas, 77 vítimas de desaparecimento forçado, centenas submetidas a recusa de auxílio, a tortura e outros tratamentos cruéis desumanos ou degradantes.

A maioria eram pessoas refugiadas procedentes do Sudão, muitas delas menores de idade, que foram expulsas ilegalmente e a quem se impediu exercer seu direito humano de solicitar asilo. Completa um ano do massacre de Melilla na cerca do Bairro Chinês, “o mais grave dos últimos tempos” perpetrada em solo europeu, de acordo com a Associação Marroquina pelos direitos Humanos, como também argumenta o movimento antirracista e múltiplas organizações de direitos humanos neste país, organismos internacionais e relatores especiais das Nações Unidas.

Apesar disso, o governo espanhol descumpriu sistematicamente seu dever de devida diligência, negando-se a esclarecer os fatos, apurar responsabilidades, promover a prestação de contas e reparar o dano. E em todo este descuido muito tem que ver o Ministro do Interior, Sr Grande – Marlaska, que não assume a responsabilidade e foge para diante, encobrindo as forças de segurança espanholas e marroquinas.

O acontecido em Melilla faz um ano é uma clara expressão do racismo institucional que exercem os diversos estados e da impunidade da qual gozam. Por tudo isso, para exigir Justiça e o fim da impunidade na Fronteira Sul, animamos à participação nas diversas marchas e concentrações em torno ao 24J que estão convocando em numerosas cidades no aniversário do massacre.

Nativa ou estrangeira, a mesma classe obreira!

Justiça para as vítimas do massacre de Melilla!

Secretaria de Exteriores CNT

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/de-melilla-y-la-vulneracion-de-direitos-humanos/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/07/07/espanha-dor-pelas-vitimas-de-melilla/

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Os beijos da tarde
são feitos de mil fragrâncias
de velhas saudades.

Humberto del Maestro

[Espanha] Já está na rua o número 31 de “Bicel”, boletim informativo da Fundação Anselmo Lorenzo (FAL)

Como todos os anos por estas datas, já está disponível para baixar o novo boletim, o número 31, de Bicel, o boletim informativo da Fundação Anselmo Lorenzo, como sabeis, centro documental e fundação cultural da Confederação Nacional do Trabalho (CNT).

Este número, de 46 páginas todo colorido, contem artigos interessantes e notícias relacionadas com a atividade cotidiana da Fundação.

>> Deixamos por aqui o link para baixar o PDF:

https://fal.cnt.es/wp-content/uploads/2023/06/BICEL-31.pdf

Fundação Anselmo Lorenzo – FAL

https://fal.cnt.es/

agência de notícias anarquistas-ana

um pé no degrau
um passo na escada
bate coração

Carlos Seabra

Vítimas de esterilização forçada no Japão incluíam crianças

A lei, que ficou em vigor por 48 anos, forçava pessoas a passarem por operações para evitar que elas tivessem filhos considerados ‘inferiores’.

Duas crianças de 9 anos estavam entre a 25 mil pessoas que foram forçadamente esterilizadas no Japão sob a lei da eugenia pós-guerra do país, revelou um relatório do parlamento.

A lei, que ficou em vigor por 48 anos, forçava pessoas a passarem por operações para evitar que elas tivessem filhos considerados “inferiores”.

Muitas delas tinham deficiências físicas ou cognitivas, ou doença mental.

A lei foi amplamente reconhecida como um capítulo negro na recuperação pós-guerra do Japão e eliminada em 1996.

Na segunda-feira (18), o parlamento divulgou um estudo de 1,4 mil páginas aguardado há muito tempo, baseado em uma investigação do governo que começou em junho de 2020.

Ele reconheceu que cerca de 25 mil pessoas haviam sido submetidas às operações, mais de 16 mil das quais foram realizadas sem consentimento.

Para algumas pessoas foi dito que elas estavam passando por procedimentos de rotina como operações de apendicite, revelou o relatório. Governos locais na época tinham o poder de atribuir arbitrariamente a cirurgia.

As duas crianças de 9 anos que foram esterilizadas eram um menino e uma menina, segundo o relatório.

Tóquio pediu desculpas em 2019 e concordou em pagar a cada sobrevivente ¥3,2 milhões (US$28 mil).

Outros países que aplicavam políticas de esterilização forçada incluem Alemanha, Suécia e os EUA.

Eles também pediram desculpas e pagaram indenizações às vítimas sobreviventes.

Fonte: agências de notícias

agência de notícias anarquistas-ana

vela acesa
testemunha olhares
sobre a mesa

Carlos Seabra

[Espanha] Lançamento HQ: “Vientos de libertad”, de Philippe Thirault e Roberto Zaghi

Descubra  Nestor Makhno, figura emblemática da revolução ucraniana. Ucrânia, princípios do século XX. Nascido em uma família camponesa muito pobre e adotado por uma família burguesa, o jovem Nestor Makhno não encontra seu lugar em um mundo impiedoso e dominado pelos ricos. Esta é a história de ficção do maior anarquista ucraniano que, desafiando os bolcheviques e os alemães, viveu meio século de revoltas e revoluções.

Uma edição integral que inclui os dois volumes que narram a história deste herói ucraniano.

Vientos de libertad 

Philippe Thirault, Roberto Zaghi

Número de páginas: 136

Dimensões: 315 cm × 235 cm × 0 cm

ISBN: 978-84-124994-8-3

Preço: 34,95€

www.akiracomics.com

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Sobre verde imenso
um ponto saltitante
pássaro cantante

Winston

[Espanha] Naufrágios morais

Enquanto alguns mal nascidos seguem pedindo mão dura contra a imigração, mortes que poderiam evitar-se seguem acontecendo. As mais chamativas, as ocorridas recentemente no mar Jônico sem que se saiba exatamente o número de falecidos em um barco que transportava centenas de pessoas. O desejo das autoridades europeias de evitar que os migrantes cheguem a suas costas foi mais forte que qualquer intenção de assistência humanitária. Nada surpreendente, já que é o que ocorre ativa ou passivamente de modo permanente, mas desta vez a catástrofe teve certas proporções e invadiu os meios de comunicação generalistas. Está mais que claro que a velha e mesquinha Europa, com sua maldita união de poderes políticos e privilégios econômicos, não deseja em absoluto pôr os meios para que as pessoas que migram viajem e solicitem asilo em condições dignas. Sim, é certo que nem todos os governos parecem a priori da mesma laia, que os mais conservadores são os que abertamente mantem um discurso de rechaço à imigração; na prática, a União Europeia em seu conjunto faz pouco ou nada quando os direitos humanos mais elementares são transgredidos, uma divisão de papéis entre governos que recorda aquele de “poli bueno poli malo” para ao final levar a cabo o mesmo objetivo.

As versões oficiais sobre as recentes mortes no Jônico, como não pode ser de outra maneira, são questionadas. Os guarda costas gregos asseguram que se aproximaram do barco de migrantes para prestar ajuda, mas desde a nave lhes disseram que não queriam resgate algum e que seu objetivo era chegar à Itália. No entanto, os sobreviventes negam esta versão e asseguram que não se negaram a serem rebocados à costa grega. Outra versão mantem que um barco se aproximou ao bote com centenas de pessoas migrantes para atar duas cordas com a intenção de rebocá-lo; as más condições da nave fez com que se avariasse o motor e alguns sobreviventes afirmam que as tentativas de arrastá-la, alguns testemunhos dizem que tentando levá-la à costa italiana, provocou finalmente que se desestabilizasse. Diversos ativistas e ONGs pediram uma investigação exaustiva sobre os guarda costas gregos e sobre o Frontex, o exército europeu de fronteiras, que também estava a par dos problemas do barco. Veremos como fica a coisa, mas são já muitos episódios em que a política migratória da Europa, com uns ou outros protagonistas, provocam mortes perfeitamente evitáveis; enquanto, já se deteve várias pessoas do barco como possíveis traficantes de pessoas e sem provas claras.

De fato, o governo reacionário da Grécia está há muito tempo efetuando devoluções ao mar de pessoas em busca de refúgio; o Estado grego pode adotar o papel de poli malo, mas o resto da Europa olha para o ouro lado. Segundo cifras de ACNUR, Alto Comissionado das Nações Unidas, 325 pessoas morreram ou desapareceram no Mediterrâneo Oriental, o mesmo lugar do Naufrágio de alguns escassos dias, este ano terá superado seguramente a cifra ao falar até mais de 500 desaparecidos. Os meios de comunicação generalistas, para consumo das massas, encobrem estas mortes evitáveis, ou diretamente assassinatos, com a palavra “tragédia”, eufemismo que evoca alguma sorte de incidente sem culpados. A realidade é que a causa não é nada incidental, enquanto que a culpada tem um nome claro: a velha e mesquinha Europa, com seu férreo controle migratório, usando a polis malos como o governo grego ou assinalando difusos traficantes de pessoas. Claro, estamos falando de mortos de terceira categoria e já estamos habituados a ver “tragédias” em nossos repulsivos meios de comunicação generalistas ante as quais só mostramos um (muito) passageiro estremecimento. Nos empenharemos em assinalar, uma vez ou outra, a culpada de tantos crimes, que é a política migratória da velha e mesquinha Europa.

Juan Cáspar

Fonte: http://acracia.org/Naufrágios-morais/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

A bola baila
o gato nem olha
salta e agarra

Eugénia Tabosa

Cartilha | 10 anos do Levante Popular de Junho de 2013

Há exatos dez anos ocorre a maior manifestação realizada no Brasil. Mais de um milhão de pessoas participaram de manifestações simultâneas em 388 cidades em 22 estados.

Em comemoração ao maior levante popular dos últimos 100 anos, a União Popular Anarquista e a editora Terra Sem Amos publicam esse compilado de materiais escritos por anarquistas revolucionários que estiveram na articulação de pobres e excluidos, nas barricadas, no enfrentamento.

Esperamos que esse compilado de escritos possam ajudar na compreensão deste fenômeno social, combater as narrativas do reformismo degenerado e da direita conservadora sobre o levante, bem como auxiliar as novas gerações de revolucionárias e revolucionários a sair do “realismo político” imposto pela direita, pelos reformismos e que possamos ter novos horizontes de luta e de vida.

>> Clique para acessar o para as barricadas em pdf aqui:

https://uniaoanarquista.files.wordpress.com/2023/06/para-as-barricadas-1.pdf

agência de notícias anarquistas-ana

para quem haicais?
para mim, para o que faz
para o menos mais

Bith

O anarquista e ativista anti-guerra Alexey Rozhkov contou como foi levado do Quirguistão para a Rússia

Em 29 de maio, o ativista anti-guerra Alexey Rozhkov, que fugiu da Rússia para o Quirguistão, estendeu seu registro temporário em seu país anfitrião. E logo no dia seguinte, de manhã cedo, as forças de segurança invadiram sua casa. Em 7 de junho, o advogado Kamil Isabekov visitou Alexey Rozhkov em um centro de detenção temporário nos subúrbios de Yekaterinburg (a maior cidade dos Urais) para descobrir as circunstâncias de sua transferência para a Rússia. A iniciativa de direitos humanos anti-guerra Solidarity Zone escreveu sobre isso.

Alexey Rozhkov:

“Fui detido no início da manhã em um apartamento temporário alugado por um grande número de agentes, cinco a sete. Todo o meu equipamento técnico foi levado imediatamente. Eles me disseram para levar todas as minhas coisas comigo, mas não deixaram me embalar adequadamente. Eles me trouxeram para o departamento [GKNB – Comitê Estadual de Segurança Nacional do Quirguistão]. Nas salas vizinhas, os gritos de pessoas que estavam sendo torturadas eram ouvidos com frequência e continuamente. Fui ameaçado de tortura se não cooperasse.

Minha detenção ocorreu na manhã seguinte depois que renovei meu registro, então duvido que seja uma coincidência. Contei a eles como renovei meu registro e depois fui levado ao aeroporto. [Durante o vôo, Rozhkov foi acompanhado por dois oficiais dos serviços secretos do Quirguistão à paisana.] Na chegada [na Rússia], fui recebido pelo FSB, saco na cabeça, choque, tudo estava como de costume”.

Alexey Rozhkov é um anarquista, ele se tornou o terceiro na Rússia a incendiar o escritório de alistamento militar após a invasão em grande escala do exército russo na Ucrânia. Ele foi detido e acusado de “tentativa de homicídio” – supostamente havia uma vigia no prédio do cartório de registro e alistamento militar. No entanto, seis meses depois, o artigo foi reclassificado como “dano à propriedade” e Rozhkov foi libertado do centro de detenção provisória. Tendo como pano de fundo as declarações das autoridades de que o incêndio criminoso de cartórios de registro e alistamento militar deveria ser qualificado como “ato terrorista”, Rozhkov deixou a Rússia.

Após a fuga, em entrevista ao DOXA, Rozhkov explicou o motivo de seu ato: “Acabei de entender que não se pode ficar indiferente. O que está acontecendo agora é ilegítimo, é ilegal. Qualquer guerra é a morte para o cidadão comum. […] Eu queria fazer algum tipo de apelo para que as pessoas começassem a lutar contra esta guerra, queria influenciar a situação, fazer algo para parar tudo isso ou pelo menos enfraquecer [as tropas russas]”.

Depois que as forças de segurança trouxeram Rozhkov para a Rússia, um tribunal nos subúrbios de Yekaterinburg retomou o julgamento de seu caso. No dia 6 de junho, em reunião, o procurador solicitou que o processo fosse devolvido para investigações adicionais. A próxima audiência está marcada para 14 de junho.

A Solidarity Zone observa uma tendência de reclassificar tais casos sob o artigo de um “ato terrorista”, e teme que tal mudança afete o caso de Alexey Rozhkov. Portanto, a Solidarity Zone pede a máxima publicidade desta situação. As pessoas não devem ser entregues ao regime criminoso de Putin, e os incêndios anti-guerra não devem ser qualificados como ataques terroristas. No final, nem um nem outro corresponde às normas internacionais e às leis russas.

Agora Alexey Rozhkov está detido no SIZO-1 em Yekaterinburg, e cartas podem ser escritas para ele.

Endereço para cartas: 620019, Russia, Yekaterinburg, Repina street, 4, SIZO-1, Rozhkov Alexey Igorevich, born in 1997. Você pode enviar mensagens para Alexey para o e-mail solidary_zone@riseup.net, a Solidarity Zone as enviará para ele.

Fonte: https://avtonom.org/en/news/anarchist-and-anti-war-activist-alexey-rozhkov-told-how-he-was-taken-kyrgyzstan-russia

Tradução > Contrafatual

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Por entre a neblina
Subindo a Serra Vernal
Bisbilhota a Lua.

Mary Leiko Fukai Terada

[Alemanha] O veredito chegou: solidariedade com Lina e todos os outros antifascistas!

Lina e os seus co-acusados foram condenados. Hoje (31/05), em Dresden, foram considerados culpados de formar uma organização criminosa e de levar a cabo vários ataques organizados contra fascistas na Saxônia e na Turíngia. Lina foi condenada a uma pesada pena de prisão de mais de cinco anos, por ser a alegada líder da organização. Diz-se também que os seus alegados camaradas de armas irão para a prisão durante vários anos.

Assim, os antifascistas foram condenados porque se diz que se tornaram ativos contra os fascistas, que dominam grandes áreas na Saxônia e aí construíram uma hegemonia violenta. Os fascistas, que este Estado protege constantemente e a cujas ações fecham os olhos.

O veredito foi precedido de uma agitação midiática e política sem paralelo em todos os canais. Lina e os seus camaradas de armas foram apresentados como terroristas e foi levantado o sentimento contra uma nova “RAF”. Para nós, é evidente que o Estado não determina os meios na luta antifascista. Para nos defendermos contra os fascistas, muitos meios são eficazes e todos eles são legítimos. Por conseguinte, manifestamos a nossa solidariedade inabalável para com todos aqueles que foram condenados neste processo. Os nossos pensamentos estão hoje convosco e com os vossos camaradas.

O problema é a justiça de classe.

O veredito faz parte de uma onda de repressão que o Estado alemão tem desenvolvido nos últimos anos. As leis policiais e de reunião estão a ser reforçadas em todos os estados federais. Os instrumentos de repressão existentes, como o artigo 129º, são cada vez mais utilizados, seja contra comunistas turcos, ativistas curdos, antifascistas ou, mais recentemente, contra a última geração. Há anos que não há tantos esquerdistas revolucionários nas prisões alemãs.

As razões para isso não são apenas ideologias reacionárias e pessoal das agências de segurança. Inúmeras revelações sobre redes de direita na polícia, nos serviços secretos e nas forças armadas alemãs mostraram que elas existem. Tudo isto tem de ser levado a sério.

Mas o problema é muito mais profundo. O Estado e as suas autoridades existem essencialmente para um objetivo: proteger o sistema social vigente. Foi para isso que foram criados. O Gabinete para a Proteção da Constituição deve reconhecer uma possível resistência numa fase inicial. A polícia deve combatê-la nas ruas e perseguir os ativistas. E o poder judicial deve garantir, através de sentenças, que em breve ninguém se atreverá a defender-se. Os movimentos sociais resistentes têm de ser arrancados pelos dentes e as estruturas revolucionárias têm de ser esmagadas. Perante o agravamento das crises sociais, o recrudescimento das diversas lutas sociais e o aumento progressivo da organização revolucionária, o Estado persegue este objetivo com uma severidade crescente.

Por isso, um processo “justo” nunca deveria existir e não pode existir de todo. O que ele julgou foi o sistema de justiça de classe alemão, que não pode aceitar que as pessoas se unam para se defenderem contra os fascistas de forma organizada, fora do quadro das leis do Estado. No final, a lei que prevalece continua a ser a lei dos governantes.

A solidariedade é a nossa arma, a construção de um movimento de massas antifascista é o nosso objetivo.

Em vez de apelarmos ao Estado de direito, temos de reconhecer que só a nossa própria resistência à repressão pode impedir ou, pelo menos, atenuar os seus efeitos. Só podemos confiar em nós próprios e a nossa solidariedade é a nossa arma mais poderosa. É positivo que esta solidariedade esteja agora a ser levada para as ruas de muitas cidades.

Esta solidariedade será também importante nos próximos meses. Angariar donativos, organizar o público e sensibilizar para a repressão nas nossas próprias cidades e estruturas.

Mas também é evidente que o movimento antifascista ainda é demasiado fraco para organizar formas de solidariedade mais eficazes. Para isso, temos de sair dos limites da cena política. É necessário um movimento antifascista muito mais alargado que una várias formas de resistência antifascista a todos os níveis da sociedade – rua, trabalho, bairro, universidade, escola, lazer – em solidariedade uns com os outros. Hoje temos de trabalhar mais para construir este movimento.

Liberdade para Lina e todos os outros. Abaixo a justiça de classe. Por um movimento de massas antifascista!

Die Plattform

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/06/08/alemanha-dresden-antifascista-lina-e-condenada-a-mais-de-cinco-anos-de-prisao/

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Muita brisa à noite.
Dos jasmineiros da rua,
perfumes e flores.

Humberto del Maestro

[Reino Unido] Parada do Orgulho de Sheffield proíbe polícia

A Sheffield Radical Pride anunciou uma marcha do Orgulho pelo centro da cidade de Sheffield no dia 22 de julho, o mesmo fim de semana em que 100.000 pessoas se reunirão na cidade para o festival Tramlines.

A marcha será o único evento de Orgulho de Sheffield este ano e foi organizada por ativistas que dizem querer “trazer o protesto de volta ao Orgulho”. Os organizadores declararam que não aceitarão patrocínio corporativo e proibiram a polícia de comparecer à marcha. Isso será seguido por um evento estático e atividades planejadas em Sheffield ao longo do dia, com os organizadores divulgando detalhes nas próximas semanas.

“A inclusão de corporações e órgãos governamentais vai totalmente contra o espírito do Orgulho. O orgulho foi um protesto contra a violência policial e, mais de 50 anos depois, nossas vidas ainda estão em risco”.

“Um em cada cinco de nós já passou pela situação de sem-teto, aumentando para 25% se formos trans, mas a estratégia de prevenção de sem-teto de 24 páginas do Conselho de Sheffield não menciona como lidar com isso. A polícia pode ser vista usando distintivos de arco-íris em seus uniformes, ou pagando sua entrada nos eventos de Orgulho financiados por corporações, mas a polícia continua a construir sua longa história de ferir, não proteger, a comunidade queer”.

“Nenhuma quantidade de glitter ou bandeiras de arco-íris pode encobrir o fato de que o estado não protege a comunidade queer.” – Orgulho Radical de Sheffield

Nos últimos anos, Sheffield tem lutado para organizar consistentemente um evento do Orgulho e, em 2018, os organizadores proibiram a participação de organizações políticas. Ativistas da Sheffield Radical Pride dizem que, à medida que o Orgulho se tornou popular, ele se desconectou de suas raízes políticas; escolhendo a comercialização, o patrocínio corporativo e o pinkwashing em vez da libertação queer.

Este anúncio vem depois que Sheffield Radical Pride organizou um protesto em abril após o Dia Internacional da Visibilidade Trans. A organização está incentivando as pessoas queer em toda a cidade e além a se envolver e devolver o orgulho às suas origens de protesto de base, “Sheffield Radical Pride chama todas as pessoas queer e que lutam contra a opressão para se juntarem a nós em 22 de julho. Junte-se a uma longa e orgulhosa história de comunidades se unindo; para celebrar quem amamos e perdemos, o que ganhamos e para juntar energia para tudo o que está por vir – queremos tudo”, disse uma porta-voz.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2023/06/09/sheffield-pride-parade-bans-police/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Escurece rápido.
Insistente, a corruíra
cisca no quintal.

Jorge Fonseca Jr.

Realizado na Polônia um congresso de anarquistas bielorrussos

Há alguns dias, foi realizado em Varsóvia um congresso de anarquistas da Bielorrússia, agora exilados em vários países da União Europeia. O congresso contou com a presença de representantes de vários coletivos anarquistas, inclusive da nossa organização, e ativistas que não eram membros de nenhum grupo. Apesar da repressão e das contínuas tentativas de destruir o movimento anarquista, continuamos a nos desenvolver e organizar. A resistência contra o autoritarismo e a luta por um mundo melhor não serão detidas por cassetetes e balas.

Anarquistas da Bielorrússia

Fonte: https://pramen.io/en/2023/06/a-congress-of-belarusian-anarchists-took-place-in-poland/

Tradução > Contrafatual

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/03/24/noticias-sobre-presos-politicos-anarquistas-na-bielorrussia-fevereiro-de-2023/

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pequena abelha
deixa em mim
a sua dor

Alexandre Brito

O Junho (rastejante) em Belo Horizonte

(esse texto é dedicado a Douglas Henrique e Luiz Felipe, mortos pelo Estado em Junho de 2013)

Contra a criminalização, desinformação e apagamento sobre o acontecimento de 2013, mas também  buscando ir além das efemérides acríticas, esse texto tenta dar um pequeno panorama ciente da sua parcialidade sobre o evento de Junho e seus desdobramentos na cidade de Belo Horizonte.  É importante frisar que Junho tem características muito diversas, cada cidade e região do país vivendo a experiência insurrecional de maneira diferente. Talvez seja uma obviedade, mas a totalidade das análises demonstram quase sempre uma ênfase no Junho paulistano com algumas menções ao Rio de Janeiro. Enquanto em São Paulo a questão do aumento da passagem fez a luta estourar e reverberar por todo país, em BH a revolta foi canalizada para as questões relativas à Copa da FIFA. Esse mote apareceu também em cidades como Fortaleza e Rio de Janeiro. Mesmo dentro de Belo Horizonte há diferenças substanciais entre os chamados “grandes atos” e os protestos que ocorreram nas periferias e nas BR’s, onde autonomamente as pessoas fecharam as vias por um senso de indignação frente às precariedades cotidianas. Ainda há muito a ser descoberto sobre esses protestos invisíveis. Diferente da história senso comum que vem sendo contada, em BH as esquerdas mantiveram-se unidas e não saíram das ruas – com todos os problemas e ganhos – e a cidade não foi tomada pela direita. Esse relato sobre as manifestações na cidade pretende ser um registro feito por aqueles que estiveram imersos nesse processo, tentando fazer jus a  suas contradições.

Quando o Junho de 2013 explodiu em São Paulo com as manifestações do Movimento Passe Livre contra o aumento da passagem, o campo libertário de Belo Horizonte encontrava-se disperso. Nos anos anteriores, várias experiências libertárias subterrâneas foram colocadas em prática, com destaque para a Praia da Estação, um evento convocado anonimamente por autonomistas em 2010 que encontrou grande eco e força em BH, trazendo questões importantes sobre a ocupação da cidade, além de um forma organizativa horizontal e de caráter festivo que acabou atraindo vários setores da esquerda, organizados ou não. Ainda que a sensação verdadeira de que o campo autonomista e anarquista na cidade encontravam-se desarticulados,  grupos como o MAL (Movimento Anarquista Libertário) e o Espaço Ystilingue estavam atuantes. Ainda assim, quando estouram os protestos em SP, fomos todos pegos de surpresa!

A cidade passava também por uma onda de ocupações urbanas como a Ocupação Eliana Silva e Dandara, trazendo questões fundamentais sobre a cidade, a moradia e a vida comunitária. Além disso, em 2011 a formação do COPAC – Comitê dos Atingidos Pela Copa em Belo Horizonte (ligada a organização nacional, a ANCOP – Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa), tinha como objetivo debater, promover e defender os direitos daqueles atingidos diretamente pelos megaeventos da FIFA e também funcionou como um espaço articulador e convergente das diversas esquerdas de Belo Horizonte.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/06/17/junho-de-2013-em-belo-horizonte/

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Varrendo folhas secas
lembrei-me do mar distante:
chuá de ondas chegando.

Anibal Beça

[França] Comunicado do S | “Agradeço imensamente a todos vocês. Vocês têm sido enormes.”

Sábado, 17 de junho de 2023

Olá a todos,

Meu nome é Serge e fiquei gravemente ferido, como muitos outros, na manifestação contra a megabacia de Santa Sóline em 25 de março de 2023. Fui atingido na cabeça por uma granada, provavelmente disparada por um policial equipado com um lançador de granadas de puma. Sofri um traumatismo craniano grave que me colocou numa situação de absoluta emergência, situação agravada pelo bloqueio do meu atendimento pelos serviços de emergência durante a manifestação. Depois de um mês de coma artificial [induzido] e seis semanas em terapia intensiva, fui transferido para um departamento de neurocirurgia e depois para um centro de reabilitação. Atualmente, sinto um tremendo progresso na minha capacidade de me mover, comer e simplesmente me trocar e refletir. O caminho vai ser extremamente longo, mas estou determinado a dar tudo, a lutar para recuperar o que me constitui, tanto física como mentalmente. Faço-o obviamente por mim, mas também porque penso que recusar abdicar, recusar-se a ser esmagado pela máquina repressiva é uma necessidade política, numa altura em que os Estados apostam no terror e na nossa passividade.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer àqueles que, neste campo minado, me carregaram, seguraram minha mão, me protegeram, fizeram os primeiros socorros (retardando o sangramento, massagem cardíaca, intubação etc.) e simplesmente me permitiram permanecer vivo. Também gostaria de agradecer aos cuidadores que, em todas as etapas, cuidaram de mim e ainda hoje me ajudam a reconquistar meu corpo e minha cabeça. Só posso compartilhar com vocês a imensa alegria que senti quando saí do coma diante da enorme solidariedade que foi expressa: assembleias, textos, tags, doações, músicas, ações e várias mensagens de companheiros ao redor do mundo. O eco de suas vozes e os rugidos da rua ajudaram a mim e a meus entes queridos a não me soltarem. Por tudo isso, agradeço imensamente a todos vocês. Vocês têm sido enormes.

Tudo isso nos lembra que é essencial que nenhum espancamento, nenhuma prisão, nenhuma mutilação, nenhum assassinato seja preterido em silêncio pelas forças da ordem social capitalista. Eles mutilam e matam tantas vezes que não é acidental, está em sua função. Muitas histórias ao redor do mundo nos lembram que não há nada mais verdadeiro do que a fórmula “ACAB”. Todos os policiais são bastardos. São e continuarão a ser os patetas da burguesia cujos interesses protegem e asseguram, até agora, a sustentabilidade.

A classe capitalista tem como única perspectiva a degradação de nossas condições de vida em larga escala e todos os proletários aqui e alhures estão vivenciando isso amargamente. Diante das lutas que estamos travando para impedir esse destino, eles claramente optaram por aumentar drasticamente a repressão, tanto por novas leis repressivas quanto dando carta branca à polícia, como em Sainte Sóline. Devemos tomar nota disso e levar coletivamente a ideia de que está fora de questão participar de uma luta sem proteções efetivas e capacidades de resistência. Não somos mártires.

No entanto, nossa força tem pouco a ver com uma história de campo de batalha. Nossa força são nossos números, nosso lugar na sociedade e o mundo melhor que aspiramos. Contra as poucas organizações de dirigentes e burocratas que gostariam de nos levar para casa uma vez adquirido o seu lugar ao sol nas nossas costas, precisamos de mil formas de nos organizarmos na base por e para solidariedades concretas, para os camaradas do movimento, mas também, e talvez especialmente, para todos aqueles que se juntarão aos futuros impulsos revolucionários.

Força aos companheiros que estão na mira dos Estados!

Viva a Revolução!

Vemo-nos rapidamente nas lutas.

S

Fonte: https://lescamaradesdus.noblogs.org/post/2023/06/17/communique-du-s/

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agência de notícias anarquistas-ana

A jabuticabeira.
Através de líquida cortina
olhos negros espiam.

Yeda Prates Bernis

[França] Abolição das fronteiras criminosas!

O naufrágio, frente à Grécia, na noite de 13 a 14 de junho de 2023 de um barco que desde a Líbia transportava pelo menos 750 migrantes, entre eles uma centena de crianças (sem coletes salva-vidas e muitas vezes confinadas para evitar qualquer rebelião) e quando só se fala de uma centena de sobreviventes, reativa o debate. Mas sobre quê?

O governo francês abre as muitas perguntas sobre a “política migratória europeia” para poder dar melhor sua própria resposta: Darmanin [Ministro do interior da França] lança as acusações habituais contra os “traficantes que são delinquentes”, considera as soluções habituais que são “vias legais de acesso à ‘imigração”, a saber, as ditadas pelos interesses do capital, que são um rotundo fracasso como o demonstra esta tragédia.

Darmanin não tem problema em denunciar: “É necessariamente um fracasso coletivo quando as pessoas perdem a vida em condições desprezíveis”. De fato, é só o fracasso de um sistema mortal, o capitalismo.

Na realidade, os delinquentes não são senão os Estados, sua motivação é sempre o capitalismo, e a Frontex, a agência europeia de vigilância de fronteiras está a serviço deles. Reclamar, como tantos, uma política de salvamento marítimo, levada pelos Estados, é chamar ingenuamente o bombeiro incendiário como socorrista, se não falamos melhor de salvamento com fundos e organismos públicos. Frontex sobrevoou o barco, mas não considerou oportuno intervir, nem interveio contra o pushback (reenvio) de migrantes para a Turquia por parte dos guarda costas gregos. E este é, de fato, o significado do que implementarão os estados europeus com o desejo de processar as solicitações de asilo nas fronteiras da Europa.

Quer dizer, para a Frontex, para blindar um pouco mais a entrada no espaço europeu, com ainda mais tragédias por vir. A obrigação de permanecer para morrer de fome ou sofrer violência no Estado do qual se é nacional é chamada por nossos governantes “direito de permanecer no próprio país”.

Os anarquistas recordamos nossa solução: a abolição das fronteiras, criminosas, erguidas pelos Estados a serviço do capital para proibir a livre circulação das pessoas. O fracasso dos governos na Europa e em todas as partes é proporcional ao desespero destes seres humanos que fogem da pobreza, da repressão e da ditadura, a custa de suas vidas.

Fédération Anarchiste

federation-anarchiste.org

Tradução > Sol de Abril

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vento muda
ares de chuva
tua chegada

Camila Jabur