Daniel Colson (1943-2026).

Pensador anarquista singular e generoso, sua obra traçou linhas vivas de revolta e criação

Por David Berry | 11/01/2026

Daniel Colson, teórico anarquista e historiador do movimento operário, faleceu no dia 9 de janeiro em Lyon (França). Tinha 82 anos.

Colson foi um membro ativo do movimento anarquista em Lyon desde o início dos anos 1970. Fez parte do coletivo que dirigiu a livraria anarquista da cidade ‘La Gryffe’ desde sua criação em 1978 e foi membro do coletivo editorial da revista anarquista Réfractions desde 1997. Professor de sociologia na Universidade de Saint-Étienne, publicou extensivamente sobre história operária, sindicalismo revolucionário, anarquismo e, recentemente, filosofia.

Colson mudou-se para Lyon, a segunda maior cidade da França, em 1966, onde estudou sociologia, após passar dois anos estudando filosofia em um seminário perto de Clermont-Ferrand. Na universidade, descobriu a política revolucionária e logo se envolveu no movimento estudantil, dominado no final dos anos 1960 por maoístas, trotskistas e outros grupos de gauchistes (esquerdistas, termo pejorativo usado originalmente pelo Partido Comunista Francês para se referir aos estudantes revolucionários de 1968, em referência à obra de Lenin “O Comunismo de Esquerda: Uma Doença Infantil”).

Graças à sua amizade com o comunista libertário Michel Marsella, Colson também conheceu o anarquismo, o grupo Socialisme ou Barbarie em torno de Cornelius Castoriadis, o situacionismo, os espartaquistas, etc. Como muitos de seus contemporâneos, participou da campanha contra o imperialismo estadunidense, em particular contra a guerra do Vietnã, e foi o principal impulsor do “Comitê do Vietnã” no centro histórico de Lyon. O grupo publicou um boletim, Informations rassemblées à Lyon (IRL), e após a repressão e o colapso do movimento de 1968, o “Comitê do Vietnã” transformou-se no “Comité de quartier du Vieux-Lyon” (Comitê do Bairro do Centro Histórico de Lyon).

Quando anos depois lhe perguntaram quais haviam sido os objetivos desse comitê, Colson respondeu: “Nada menos que criar o embrião de uma insurreição a nível local”. Influenciado pelos trabalhadores da indústria automobilística que ocupavam as fábricas locais da Berliet, o grupo decidiu ocupar a Maison des jeunes, centro juvenil local, onde o comitê se reunia nos meses anteriores. “Éramos muito ambiciosos. Esperávamos seriamente, quando dadas as condições adequadas, tomar a delegacia local, incluindo seu arsenal”. Esse plano nunca se materializou, embora o grupo tenha ocupado brevemente a prefeitura.

Colson também se inspirou em 1968 e, especialmente, em sua experiência de “espontaneidade na ação e na organização”, incluindo a ampla cooperação entre estudantes e trabalhadores. Para ele foi de suma importância a descoberta de três obras: a história em quatro volumes da Primeira Internacional, escrita pelo anarquista suíço James Guillaume; A revolução desconhecida, do anarquista russo Voline (publicada originalmente em francês em 1947, mas reeditada após 1968 por Daniel Guérin e pelo artista anarquista Jean-Jacques Lebel); e O Anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia (1972), de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

Não que ele entendesse absolutamente o Anti-Édipo quando tentou lê-lo pela primeira vez (na verdade, achou-o “bastante indigesto”) e mesmo dez anos depois, quando tentou novamente, só conseguiu entender o primeiro capítulo: para Colson, aquele capítulo demoliu com sucesso o “enorme aparato teórico marxista” que dominava a esquerda francesa naquele momento, e deixou claro “não apenas o poder teórico, mas também o emancipador, ético, filosófico e prático do anarquismo”.

Colson participou ativamente de vários jornais anarquistas: os Cahiers de mai, lançados em junho de 1968 e que foram a voz dos Comitês de Ação que haviam surgido por toda a França; ICO (Informations et Correspondences Ouvrières), centrado nas lutas operárias autônomas, fora de sindicatos e partidos; e IRL (Informations rassemblées à Lyon), literalmente notícias reunidas em Lyon, que publicava relatos de testemunhas oculares e documentos sobre as lutas sociais na área de Lyon que não apareciam na imprensa convencional nem nos principais jornais de esquerda. O IRL, que Colson ajudou a criar, interessava-se pelas lutas operárias, mas também pelo não legalismo e outras formas de resistência, e discutia uma variedade de movimentos: anarquismo, conselhismo, feminismo, ecologia, antimilitarismo, liberação sexual, etc.

Após retornar ao mundo acadêmico, Colson doutorou-se em 1983 com uma tese – posteriormente publicada como livro – sobre o anarcossindicalismo e o comunismo no movimento operário de Saint-Étienne, 1920-1925. (Se você já teve dúvidas sobre a diferença entre os termos “sindicalismo”, “sindicalismo revolucionário” e “anarcossindicalismo”, e sobre como o outrora sindicalista revolucionário movimento operário francês veio a ser dominado pelo comunismo, este livro é para você). Em 1998, publicou um segundo livro histórico-sociológico sobre a indústria siderúrgica – e seus donos, os famosos “barões do ferro” ou mestres ferreiros – em Saint-Étienne desde meados do século XIX até a Primeira Guerra Mundial.

Em 1978, Colson fez parte do grupo original de ativistas anarquistas que fundou a livraria La Gryffe em Lyon, coletivo que permanece ativo. Além de vender seu habitual catálogo de obras anticapitalistas e antiautoritárias, La Gryffe também conta com uma sala de reuniões onde regularmente acontecem debates, exposições, projeções de filmes, etc. Quando Colson publicou um livro sobre o coletivo em 2020, teve cuidado de não oferecer uma visão idealizada de um grupo anarquista bem-sucedido, mas destacou também a longa e por vezes difícil história sobre a qual se construiu La Gryffe, incluindo sérias diferenças de opinião e conflitos dentro do coletivo, conflitos que foram resolvidos de acordo com os princípios anarquistas.

Colson explicou certa vez, em uma palestra sobre “Proudhon e a relevância contemporânea do anarquismo”, cujo principal objetivo era defender a reabilitação de Proudhon, que ainda era impopular nos círculos anarquistas, que havia descoberto Proudhon aproximadamente ao mesmo tempo, nos anos setenta, em que descobriu o “nietzschianismo de esquerda” de Foucault e, especialmente, de Deleuze. Deleuze, argumentou, desenvolveu um pensamento emancipador que tinha muito em comum com Proudhon.

De fato, afastando-se de seu trabalho sociológico anterior, e depois de escrever livros sobre Proudhon e Malatesta, Colson concentrou-se cada vez mais na filosofia, e estava especialmente interessado em Spinoza, Leibniz, Nietzsche, Deleuze e Guattari (entre outros) e em como seus pensamentos se relacionavam com o anarquismo. Isso resultou em uma série de palestras em congressos, artigos de revistas e livros sobre esses temas. Em 2022, por exemplo, ele publicou um livro sobre ” anarquismo da classe trabalhadora e filosofia”. Infelizmente, apenas um de seus livros foi traduzido para o inglês (por Jesse Cohn): o Pequeno Léxico Filosófico do Anarquismo. De Proudhon a Deleuze — “uma exploração provocativa de afinidades e genealogias ocultas no pensamento anarquista“.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/01/11/daniel-colson-1943-2026/

Tradução > Liberto

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Alexandre Pasqual