[Portugal] 10 anos de Portal Anarquista

O Colectivo Libertário de Évora, precursor do Portal Anarquista, surgiu há precisamente 10 anos.

No final de Outubro  de 2012 foi publicado na internet, no blogue com o mesmo nome, um apelo à participação anarquista na greve geral marcada para o dia 14 de novembro e, pouco depois, o Manifesto do Colectivo, que reunia habitualmente na Sociedade Harmonia Eborense. A apresentação pública do grupo aconteceu a 13 de Novembro, num encontro que juntou cerca de 40 pessoas, antecedida da passagem do filme “Terra e Liberdade”, na Associação “É Neste País”, em Évora.

Alguns meses depois o Colectivo decidiu dissolver-se, mantendo-se, no entanto,a página na internet e no facebook com o nome de Portal Anarquista (embora a página ainda mantenha o endereço de https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/), pretendendo ser um veículo informativo e de memória libertária o mais abrangentes possível e juntando alguns outros companheiros e colaboradores.

Ao longo destes 10 anos a página no facebook cresceu exponencialmente tendo neste momento cerca de 11 mil “amigos”, enquanto que o blogue Portal Anarquista atinge já  quase um milhão e trezentas mil visitas (mais exatamente 1.297.246 visitas) e um total de mais de 2.100 artigos publicados.

No último ano lançamos também o blogue “Memória Libertária”, no Sapo, para juntar num mesmo espaço todos os textos de caráter histórico e biográfico sobre o anarquismo português.

colectivolibertarioevora.wordpress.com

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Voar sempre, cansa –
por isso ela corre
em passo de dança

Eugénia Tabosa

Esquerda Eleitoral, Ações Diretas Fascistas e Resistência Antifascista As Eleições Brasileiras de 2022

As eleições de 2022 no Brasil colocaram em confronto o nacionalismo autoritário de Jair Bolsonaro ao esquerdismo institucional, Luiz Inácio Lula da Silva do PT. Cada uma dessas estratégias rivais de governança se apresentava como a única salvação possível para a democracia. Toda a campanha foi marcada por atos de violência fascista, e não apenas de eleitores: nas semanas finais, parlamentares aliados a Bolsonaro trocaram tiros com policiais e perseguiram adversários nas ruas com armas na mão.

Para dar um panorama sobre o fosso em que estamos e os possíveis desdobramentos futuros, apresentamos essa breve análise escrita em conjunto com camaradas do coletivo CrimethInc. sobre os protestos ao fim das eleições de 2022.

As eleições de 2022 colocaram em confronto o nacionalismo autoritário de Jair Bolsonaro ao esquerdismo institucional, Luiz Inácio Lula da Silva do PT. Cada uma dessas estratégias rivais de governança se apresentava como a única salvação possível para a democracia. Toda a campanha foi marcada por atos de violência fascista, e não apenas de eleitores: nas semanas finais, parlamentares aliados a Bolsonaro trocaram tiros com policiais e perseguiram adversários nas ruas com armas na mão.

Dia 30 de outubro, aconteceu o segundo turno da eleição para determinar o presidente e os governadores, e Bolsonaro perdeu para o ex-presidente Lula. Mas Lula venceu por apenas 1,8%, preparando o terreno para o conflito que continuará dividindo o Brasil, assim como as eleições de 2020 nos Estados Unidos não marcaram o fim da polarização política.

Após o resultado ser divulgado na noite de domingo, protestos de apoiadores do atual presidente de extrema-direita começaram pelas ruas nas cidades e bloqueando estradas do país. A esquerda institucional e seus movimentos de base se mantiveram recuados e, mais uma vez, coube a antifascistas, torcidas organizadas e moradores das periferias partir para a ação e começar ações de desbloqueio das vias. Essa pode ser uma amostra dos impasses e conflitos que veremos nos próximos anos de governo petista e de reorganização da extrema-direita.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/11/08/antifascista-eleicoes-2022/

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Mesmo um velho cavalo
é belo de manhã
sobre a neve

Matsuo Bashô

 

Relato da XII Feira Anarquista de São Paulo

No último domingo, dia 13 de novembro, ocorreu a XII Feira Anarquista de São Paulo na Escola Municipal Amorim Lima. O evento começou às 10 horas e se encerrou às 19h, marcando seu retorno presencial após três anos devido à pandemia.

O evento contou com debates, lançamentos de livros, exibições de filmes, apresentações teatrais e práticas do corpo. Além disso, o LEA (Laboratório de Educação Anarquista) promoveu o Espaço Adelino de Pinho. Em conjunto com crianças e pessoas adultas, o grupo organizou atividades voltadas ao público infantil ao longo de todo o dia.

A XII Feira também contou com a exposição de mais de quarenta grupos. Além de anarquistas de várias partes do Brasil, tivemos a presença de camaradas da Alter Ediciones (Montevidéu, Uruguai), Editorial Eleuterio (Santiago, Chile) e Barricada de Livros (Lisboa, Portugal). Os materiais eram diversos: livros, revistas, jornais, fanzines, camisetas, além de alimentos agroecológicos produzidos por autogestão.

Durante toda a Feira, cerca de 3 mil pessoas circularam pelo espaço. No momento de máxima visitação, pela tarde, havia mais de mil pessoas. Isso representa a edição da Feira com seu maior público!

Agradecemos a todo mundo pela participação. Acreditamos que a nossa décima segunda edição representa um marco na retomada das atividades anarquistas. Em tempos de pandemia e ascensão do fascismo, a XII Feira Anarquista mostra a importância do anarquismo, dentro de sua pluralidade, para a resistência e a transformação de uma nova sociedade, por meio de práticas solidárias e autônomas baseadas no apoio mútuo, na ação direta e no federalismo.

Texto assinado por Biblioteca Terra Livre, Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri e Centro de Cultura Social, grupos responsáveis pela organização da XII Feira Anarquista de São Paulo.

Veja abaixo o Circo Fubanguinho, da Trupe da Lona Preta, uma das apresentações artísticas da XII Feira Anarquista de São Paulo:

https://www.youtube.com/watch?v=fdZ8kqOuG38&feature=emb_title

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/11/09/programacao-da-xii-feira-anarquista-de-sao-paulo/

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Nem tudo são flores
nos meses de primavera.
Voam marimbondos…

Leila Míccolis

[Santo Andre-SP] Cineclube: Panteras Negras

Esse sábado (19/11) iremos realizar um cine debate sobre uma das mais marcantes organizações estadunidenses na luta anticapitalista e antirracista, o Partido dos Panteras Negras. Uma importante experiência que tem muito a ensinar para nossas lutas em tempos de avanço da reação e do racismo no Brasil.

Será às 15h00 no CCS Vira-Lata Caramelo – Rua Sumaré 732, Vila Metalúrgica, Santo André (próximo da estação Utinga da CPTM).

>> O Centro de Cultura Social Vira-Lata Caramelo, localizado em Santo André, é um espaço de fortalecimento das lutas sociais no ABC Paulista. Composto pela Brigada Lucas Eduardo Martins,  Jornal Cavalo Doido, Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio e Quilombo Invisível em conjunto com outras organizações autônomas tem como objetivo a construção de atividades educativas, culturais e políticas, em dialogo com a comunidade local, valorizando princípios libertários de atuação popular.

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O velho salgueiro
Inclinado sobre o lago
Resmunga baixinho.

Mary Leiko Fukai Terada

[Espanha] O legado intelectual e humano de David Graeber

David Graeber, que infelizmente morreu muito jovem há dois anos, era um antropólogo de grande prestígio acadêmico – uma faceta que não entrarei aqui, mas seu grande trabalho intelectual é acessível a qualquer um, o que é realmente interessante -; em nível acadêmico deve ser dito que, por causa de seu radicalismo, suas portas foram fechadas nos Estados Unidos, razão pela qual acabou em Londres e se envolveu muito no movimento estudantil britânico. Graeber também foi um ativista político e social, um dos protagonistas do movimento Occupy Wall Street, inspirado em grande parte pelos indignados dos espanhóis 15M e também pela primavera árabe de 2011, cujo objetivo não era criar um partido político mas “bombear ideias e estímulos para regenerar a democracia”; a experiência do Occupy foi capturada por Graeber neste livro, We Are the 99%. Uma história, uma crise, um movimento; o título alude ao slogan adotado, que virou a obsessão com as supostas maiorias da democracia parlamentar, de que é o 1% mais rico da população que toma as decisões do mundo.

Graeber não pensava, a priori, que o movimento Occupy estava enraizado em qualquer grande tradição da história americana, ele estava mais interessado em falar sobre suas raízes no anarquismo e no feminismo; no entanto, ele fez uma distinção entre democracia, entendida como propaganda pelos poderes – isto é, simplesmente uma forma de eleger políticos para governar, e uma tradição na sociedade americana com uma visão democrática ampla e profunda: uma visão perfeitamente compatível com o libertário, que envolve uma combinação de liberdade individual com a ideia de que pessoas livres e responsáveis são capazes de se sentar e falar sobre seus próprios assuntos. Isto explicaria porque aqueles que estão no poder nos Estados Unidos, e podemos estender isto a qualquer sociedade hierárquica, têm tanto medo de movimentos verdadeiramente democráticos ou compreendidos, como Graeber explica.

Também não devemos ser ingênuos e pensar que a maioria das pessoas nos Estados Unidos são anarquistas, por mais que critiquem o governo, já que a educação e a propaganda provavelmente já são responsáveis por estabelecer limites; no entanto, é uma visão muito interessante e vai muito mais longe do que esta outra, muito difundida, de entender a democracia simplesmente como a participação nas eleições para eleger os responsáveis. Movimentos como o Occupy, ou 15M, demonstram o desejo de muitas pessoas de traduzir este ideal de autogestão em experiências, de perceber que isso é possível através de assembleias e tomadas de decisão horizontais.

De fato, um dos textos mais notáveis de outro livro, Anarquismo e Antropologia. Relaciones e influencias mútuas entre a antropologia e o pensamento libertário, é firmado por David Graeber, com abundante material de referência que lhe confere solidez: o artigo se intitula “O Ocidente nunca existiu ou a democracia emerge dos espaços entre eles”, cujo título já é uma declaração de intenções. O texto de Graeber, que questiona não só o fato de que a democracia tem uma tradição puramente ocidental, mas também o próprio conceito de Ocidente, e que tenta desvincular esta opção política de sua redução à “eleição de representantes” para levá-la a um terreno de decisão libertário, descentralizado e igualitário, vale a pena ler neste livro, que, no entanto, inclui outros artigos muito interessantes sobre a relação entre o anarquismo e a antropologia.

Fragmentos de uma antropologia anarquista é o título de outra obra de David Graeber. A primeira pergunta que o autor faz é por que há tão poucos anarquistas na academia, mesmo em um momento em que as ideias libertárias estão em seu auge; movimentos de inspiração anarquista estão surgindo, mas isto não se reflete nas universidades. A conclusão de Graeber é que, enquanto o marxismo é um discurso teórico analítico sobre estratégia revolucionária, o anarquismo tendeu a ser um discurso ético sobre prática revolucionária (sempre sendo um pouco cauteloso quanto às simplificações e levando em conta as muitas nuances da realidade). Em suma, as preocupações do anarquismo foram dirigidas às formas de prática, daí sua famosa insistência em meios segundo os fins: é impossível gerar liberdade usando o autoritarismo. Graeber considera que esta coerência, que antecipa na vida cotidiana a sociedade libertária do futuro, não se encaixa muito bem em uma instituição arcaica como a universidade. Um professor anarquista deveria ao menos questionar o funcionamento das universidades, e isso só pode levar a problemas.

Entretanto, os anarquistas não são necessariamente contra a teoria. O anarquismo é tanto uma ideia quanto um projeto subversivo em relação às estruturas de dominação, sempre construindo a alternativa dentro da velha sociedade; portanto, as ferramentas são necessárias para fornecer o conhecimento e a análise intelectual necessários. Embora não sendo radicalmente antiteórico, sempre se buscou um processo de consenso em grupos anarquistas, forçando a aceitação da necessidade de múltiplas perspectivas teóricas tão amplas quanto possível, unidas por certas convicções e compromissos comuns. Graeber vê como parte do processo de consenso a aceitação por todos, desde o início, de um conjunto de princípios amplos de unidade, que são assumidos como necessários para a coesão do grupo; além disso, porém, é óbvio no mundo libertário que ninguém vai converter ninguém completamente a seus pontos de vista e que é melhor não tentar, portanto, a discussão se concentrará no assunto concreto da ação e na elaboração de um plano aceito por todos, no qual ninguém verá seus princípios serem transgredidos. Como pode ser visto, o anarquismo está mais preocupado em buscar projetos particulares que se reforcem mutuamente e não em provar que outros estão partindo de posições erradas. As diversas teorias podem estar distantes em alguns aspectos, mas isso não significa que elas não possam existir e até mesmo reforçar-se mutuamente; da mesma forma, as pessoas podem ter visões particulares e irreconciliáveis e ainda ter uma relação íntima ou participar de um projeto.

Graeber faz um pequeno manifesto contra a política; deve-se sempre deixar claro que esta concepção de política pressupõe um Estado, ou aparato governamental, a fim de impor sua vontade a outros. Nesta visão, a política está a serviço de alguma elite que é mais capaz do que as demais de administrar os assuntos de interesse de todos, e por isso será sempre contrária à ideia de pessoas administrando seus próprios assuntos. Graeber dedica seu breve ensaio precisamente a questionar qual poderia ser a teoria social apropriada para aqueles que procuram criar um mundo no qual as pessoas sejam livres para administrar seus próprios assuntos. Para isso, ele estabelece algumas premissas iniciais, que podem ser reduzidas a duas principais. A primeira é que é necessário partir da hipótese de que “outro mundo é possível”, uma frase muito utilizada inspirada em uma canção popular brasileira, para que instituições como o Estado ou o capitalismo, ou qualquer outra perniciosa, sejam evitáveis; em grande medida, é necessário um ato de fé para isso, mas precisamente a impossibilidade de conhecimento absoluto nos faz adotar o otimismo quase como um imperativo. Diante de todas as tentações conservadoras, algo que parece inerente aos seres humanos, devemos sempre encorajar o progresso, lembrando que podemos estar traindo o novo mundo se insistirmos em justificações e reproduzindo os modelos atuais.

É por isso que Graeber faz outro pequeno manifesto, desta vez contra o anti-utopismo; é uma tendência da era do “fim das ideologias” considerar que a tentação utópica levou a humanidade aos piores horrores. Em primeiro lugar, todo utopismo se reduz às diferentes formas de socialismo autoritário (marxismo-leninismo, estalinismo, maoísmo…), em nome do qual milhões de pessoas acabaram sendo assassinadas; deve-se dizer que estas práticas acabaram confundindo seus sonhos de um mundo melhor com certezas científicas e impuseram seus pontos de vista através de todo um mecanismo de violência. Os anarquistas não propõem nada semelhante, nem consideram os eventos históricos inevitáveis, nem têm a mínima intenção de construir qualquer instituição coercitiva. Graeber nos lembra algo importante, que é que a criação de formas sistêmicas de violência é sempre um ataque ao papel que a imaginação pode ter como princípio político; é necessário reconhecer isto como um primeiro passo precisamente para erradicar todas as formas de violência sistêmica. Esta, então, é a primeira proposta para uma teoria social de uma sociedade libertária: a capacidade de conceber um outro mundo melhor.

A segunda proposta de Graeber é que qualquer teoria social anarquista deve rejeitar qualquer tentação ao vanguardismo. O papel dos intelectuais não é, obviamente para o mundo libertário, formar uma elite capaz de desenvolver as análises estratégicas relevantes e depois atuar como diretores das massas para realizá-las. Sobre a questão do papel dos intelectuais, Graeber lembra que esta foi uma das razões para chamar sua obra de Fragmentos de uma Antropologia Anarquista, pois é esta disciplina que está melhor posicionada para elaborar tal teoria social. Por um lado, os antropólogos confirmaram através de suas pesquisas a existência de uma multidão de comunidades baseadas no autogoverno e com uma economia distante do capitalismo; por outro lado, a etnografia fornece algo como um modelo de como uma prática intelectual revolucionária não vanguardista poderia funcionar. Etnografia envolve observar o que as pessoas fazem, tentando extrair a lógica simbólica, moral ou pragmática que está subjacente a suas ações, tentando dar sentido aos hábitos e ações de uma comunidade. É por isso que o intelectual pode observar aqueles que estão realizando alternativas viáveis, tentar antecipar quais serão as implicações do que já está sendo feito e devolver essas ideias como contribuições ou possibilidades (nunca como prescrições). Assim, este projeto intelectual proposto por Graeber pode ter dois aspectos ou momentos: um etnográfico e um utópico, em constante diálogo. Embora nada disto pareça ter muito a ver com a antropologia dos últimos cem anos, Graeber nos lembra, houve uma afinidade peculiar entre o anarquismo e a antropologia durante este tempo, o que em si mesmo é significativo.

E partiremos para outro espaço para mergulhar em mais duas obras volumosas da Graeber. Uma delas é Dívida. Uma história alternativa da economia, que analisa as origens do sistema capitalista e considera a dívida econômica como uma ferramenta dos Estados para controlar as pessoas; Graeber defende, portanto, o cancelamento de todas as dívidas, tanto de indivíduos como de países a nível internacional. A origem deste trabalho, que é uma revisão histórica rigorosa e uma alternativa às histórias habituais da economia da antiga Mesopotâmia, está na distorção moral generalizada que considera obrigatório pagar sempre as dívidas, por mais criminosa que seja a origem das dívidas. Na esteira da crise de 2008, que expôs a falsidade de tudo o que o poder econômico e político nos levou a acreditar, Graeber propõe um verdadeiro debate público sobre a natureza da dívida, do dinheiro e das instituições financeiras. Um volume de mais de 500 páginas (sem contar as notas), mas que vale bem a pena ler.

E o último trabalho de Graeber, publicado em espanhol em outubro de 2022, co-escrito com o arqueólogo David Wengrow, é A Aurora de Tudo. Uma Nova História da Humanidade. Acabo de comprá-lo e apenas comecei a lê-lo, mas estou ardendo de vontade de fazê-lo, um ensaio onde um antropólogo e um arqueólogo, de mãos dadas, com intenções cada vez mais convergentes, reconstroem em uma obra que durou décadas a grande narrativa que é a história da humanidade. Infelizmente, Graeber morreu pouco depois de terminar esta obra e não pôde vê-la publicada, mas aí reside o grande legado intelectual e humano, que tanto fez por uma sociedade mais justa, uma grande esperança para os oprimidos do mundo. Continuaremos a nos aprofundar em seu trabalho para que possa servir de inspiração para nós.

Capi Vidal

Fonte: http://acracia.org/el-legado-intelectual-y-humano-de-david-graeber/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

mostro o passaporte
minha sombra espera
depois da fronteira

George Swede

[Espanha] CONTRA todo fascismo, CONTRA toda autoridade

18N/19h. Tirso de Molina 5, 2º Izq. Madri

A inegável ascensão do fascismo exige uma reflexão coletiva. As instituições não podem manter um discurso coerente, dada sua ligação com ele e seu interesse em alimentá-lo.

O antifascismo deve ser organizado horizontalmente, sem líderes ou hierarquias e com independência de qualquer instituição. Deve também, é claro, enfrentá-lo em todos os terrenos possíveis.

No dia 18 de novembro, no âmbito das atividades de nosso tradicional Outono Libertário, tendo em vista a proximidade da aberrante nomeação franquista de 20N, realizaremos uma palestra/encontro na qual, após uma contribuição de dados dos participantes, mergulharemos nas ferramentas, estratégias, discursos e atitudes para combater a desgraça fascista.

Nós o convidamos a participar.

Quanto mais vozes nos unirmos, menos ouviremos os disparates e as falsidades dos fascistas.

sovmadrid.org

agência de notícias anarquistas-ana

na barra sul do horizonte
estacionavam cúmulus
esfiapando sorvete de coco

Guimarães Rosa

[Espanha] A CGT denuncia que a incerteza econômica sufoca a classe trabalhadora

A CGT apresenta o número 6 de “La Brecha: Estado de crises permanente. Lucha y ación sindical”

Na sexta entrega da publicação socioeconômica da CGT se analisa as crises capitalistas das últimas décadas, o papel dos Estados e as consequências para as classes populares e a classe trabalhadora

A Confederação Geral do trabalho (CGT) apresentou seu sexto número de “La Brecha”, a publicação mensal impulsionada pela Secretaria de Formação do Comitê Confederal e desde a qual se contribui com estudos setoriais, análises de conjuntura socioeconômica e temas relacionados com a ação sindical.

Nesta nova entrega se realizou uma análise das crises do capitalismo e como este sistema, com cada nova dificuldade, se torna mais forte a custa de desfazer-se de tudo aquilo que não é rentável para seus próprios interesses, inclusive das pessoas da classe trabalhadora.

O capitalismo, na busca de sua sobrevivência teve ajuda, sobretudo por parte dos Estados, algo que se pode evidenciar ao longo da história. Em “La Brecha” de novembro se realiza uma revisão das crises capitalistas das últimas décadas, desde a II Guerra Mundial (anos 50-60 do século XX) até a mais recente, relativa aos recursos energéticos e que se derivou após o estouro da guerra na Ucrânia.

Segundo a organização anarcossindicalista, as causas das crises capitalistas podem se dividir em três grandes blocos atendendo a sua origem produtiva, de demanda ou financeira. As dimensões destas crises tem graves repercussões na população porque desencadeiam problemas econômicos, sociais e ecológicos que supõem um retrocesso nos direitos e as condições de vida da classe trabalhadora.

Após a II Guerra Mundial, na conhecida “idade de ouro” do capitalismo, se conquistaram algumas melhoras e avanços nos direitos laborais da classe trabalhadora do chamado primeiro mundo, mas sempre contra o capital e a classe política a seu serviço. Com a crise do petróleo, no final dos anos 70, se vive uma importante desindustrialização, se produz um estancamento salarial, se precariza o emprego e se põem em andamento políticas econômicas repressivas ao mesmo tempo em que se inicia uma dura repressão contra as organizações sindicais. Nos anos 90 as políticas neoliberais se afiançam com força, se continua desindustrializando, começam as privatizações, o mercado laboral se torna mais precário, flexível e instável o que implica em um importante retrocesso nos direitos laborais e sociais da classe trabalhadora. Em 2008, com a grande crise mundial, inicia-se um ajuste salarial (no salário direto, indireto e pensões), mas também os Estados priorizam o pagamento da dívida as custas do bem-estar da cidadania. Isto influi no incremento das desigualdades e da pobreza. Se institucionaliza a precariedade laboral, os serviços públicos se debilitam e se desenvolve um modelo caritativo e assistencialista, consistente na criação de estruturas que não vão à raiz dos problemas para acabar com estas desigualdades, mas que tratam as situações de maneira concreta e em casos puntuais.

A partir de 2010 a resposta política a toda esta situação acarreta um custo econômico e social importante. Desde então e até 2020 se perdeu 10 % do poder aquisitivo. O Estado espanhol se situa no 4º lugar da União Europeia com maior porcentagem de população em risco de pobreza, e no 5º lugar como país com maior desigualdade. Nestes anos aparece a figura do “trabalhador pobre”: pessoas que apesar de ter um emprego não conseguem chegar ao final do mês nem muito menos sobreviver. Ademais, na sociedade se estabeleceu uma importante polarização: os ricos são cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres.

Esta revisão das crises das últimas décadas evidencia que os Estados, a serviço do capital e das classes altas, nunca teve como prioridade a proteção e o bem-estar da maioria social, e portanto da classe trabalhadora.

A CGT, como organização sindicalista, considera que a única via que resta à classe trabalhadora, e às classes populares, é a que leva a transladar o conflito aos centros de trabalhos, aos bairros e às ruas em defesa de tudo o que é comum na sociedade e que permitiria o desenvolvimento de uma vida digna aos que sustentam com seu esforço e trabalho o sistema no qual nos coube nascer. Por isso, os e as anarcossindicalistas apostam pela mobilização contínua, o protesto constante, que dê confiança aos e às trabalhadoras, motivando-os a sair às ruas ante o muito que se jogam: moradia, emprego, saúde, educação, pensões, etc.

>> Leitura e download:

https://in-formacioncgt.info/la-brecha-06-crises-estado-permanente/

Tradução > Sol de Abril

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treme um haicai
na ponta da espada
de um samurai

Sandra Santos

[Espanha] A primeira fotojornalista de guerra espanhola foi uma poetisa anarquista, lésbica e campeã de atletismo

Juan Manuel de Prada publica ‘El derecho a soñar: Vida y obra de Ana María Martínez Sagi’, a biografia de uma mulher que foi pioneira em todos os campos.

Poeta, jornalista, campeã espanhola de lançamento de dardo, a primeira mulher a se tornar membro da diretoria de um clube de futebol, repórter de guerra, anarquista, feminista e lésbica. Parece impossível para uma pessoa combinar todas estas características e desenvolvê-las em uma única vida. Que ela realmente existiu e que hoje ela é praticamente desconhecida é ainda mais surpreendente. Mas é real. Ana María Martínez Sagi (Barcelona, 1907) foi a escritora que reuniu todas estas facetas e que o escritor e colunista Juan Manuel de Prada resgatou em uma biografia. Foram necessários mais de vinte anos de pesquisa, durante os quais ele teve a oportunidade de conhecer a protagonista antes de sua morte, em 2000.

A autora lhe deu todo seu trabalho inédito, tanto em verso como em prosa, com a diretriz expressa de que ele só o publicaria vinte anos após sua morte. Duas décadas depois, El derecho a soñar: Vida y obra de Ana María Martínez Sagi (Espasa) traça sua história desde seu nascimento em uma família burguesa de direita até seu final solitário, incluindo seu sucesso durante a Segunda República, seu tempo na linha de frente da Guerra Civil e seu exílio na França. “Que alguém que tinha sido tão destacada em tantos aspectos não me pareceu muito injusto em nenhum lugar”, De Prada admitiu neste jornal. Foi no final dos anos 90 quando ele descobriu a artista através de uma entrevista com César González-Ruano. Saber quem era essa “poeta, sindicalista e virgem do estádio”, como foi definido no texto, foi a dúvida que imediatamente se instalou dentro dele.

Depois de verificar que ela ainda estava viva, ele a convenceu a abrir as portas de sua casa em Moià. Ali ela lhe revelou que havia coberto como jornalista “os combates na frente de Aragão, que havia atravessado os Pirineus quando as tropas inimigas estavam entrando em Barcelona, que havia sobrevivido com dificuldade no país vizinho, que havia tomado parte em risco nas atividades da Resistência durante os anos da ocupação alemã, que após a Libertação havia ganho a vida nos mais variados ofícios, desde pintora de rua até floricultora, antes de assumir um posto de professora na Universidade de Illinois, onde se aposentou”.

Ela então retornou à Espanha, onde encontrou, como descreve a biografia, “uma recepção amuada que a convenceu a refugiar-se naquela pequena cidade”. “Ela tentou se fazer conhecida novamente nos círculos literários, mas eles não lhe deram atenção, então ela decidiu se retirar e viver no anonimato absoluto”, explica o autor, “ela pensou que seria recebido de braços abertos porque sabia que havia uma nova geração antifranquista, mas não”. O machismo dominante naquele período também não ajudou: “Enquanto exilados como Rafael Alberti voltavam a aclamá-lo, ninguém queria saber nada sobre ela”.

Com essas informações iniciais, De Prada publicou o romance Las esquinas del aire (As esquinas do ar) em 2000. Entretanto, ao continuar a pesquisar e recuperar dados sobre Sagi em arquivos e bibliotecas em diferentes cidades do mundo, ele percebeu que merecia uma publicação mais extensa que incluísse sua biografia em detalhes. Ele decidiu fazê-lo por meios acadêmicos na forma de uma tese de doutorado. Seus tutores foram Jaime Olmedo, diretor técnico do Diccionario biográfico na Real Academia de la Historia, e Gonzalo Santonja, controverso Ministro da Cultura da Junta de Castilla y León, que passou do comunismo para a extrema direita. Ele escolheu o primeiro porque tinha sido seu professor em um mestrado em Filologia e o segundo porque era um “amigo de toda a vida”. “Sua especialidade é a literatura do exílio, apesar de agora ser visto como um entusiasta da tourada e, mais recentemente, por causa de sua nomeação como Ministro da Cultura em Castilla y León por Vox”, diz o escritor.

De fato, Juan Manuel de Prada, cuja ideologia política é mais para a direita do que para a esquerda, foi perguntado “como, sendo tão católico, você está agora recuperando a vida de uma mulher vermelha”. “Hoje temos uma visão muito maniqueísta das coisas que nos faz pensar que só podemos nos concentrar no que tem a ver conosco. A vocação do escritor não tem nada a ver com isso, você pode se sentir atraído por pessoas que estão muito distantes de você ideologicamente. O que faz você se apaixonar é a história”, responde ele.

Uma mulher “fora do lugar”

Uma constante na biografia de Sagi estava sendo “deslocada”, começando com a forma como ela rompeu com sua família por causa de sua “deriva ideológica”. Antes de se voltar ao anarquismo, ela era simpatizante da Esquerra Republicana e defensora do nacionalismo catalão, embora sempre escrevesse em espanhol. “Isto a deixou em terra de ninguém”, diz De Prada. Ela foi uma atleta de elite ao ponto de ganhar um campeonato nacional de lançamento de dardo e fundou o Club Femení d’Esports no meio da ditadura de Primo de Rivera; um dos mais importantes espaços feministas do pré-guerra de Barcelona onde, além de praticar esporte, as mulheres aprenderam a ler. Aos 27 anos, ela se tornou a primeira empresária de um clube de futebol do mundo, cargo que ocupou no F.C. Barcelona entre 1934 e 1935.

Na Segunda República, durante a qual ela experimentou seu maior reconhecimento como poetisa e jornalista, suas reportagens sobre o sufrágio feminino foram particularmente populares em um momento em que este tema estava sendo debatido nas ruas e no parlamento. Em seu suplemento diário Las Noticias ela incluiu entrevistas com perfis de todos os estratos sociais, sejam mendigos, prostitutas ou políticos. Em 1929 publicou sua primeira coleção de poemas, Caminos, seguida por Inquietud (1931), Canciones de la isla (1932) e País de la ausencia (1938), entre outros. “O fato de uma mulher começar a se envolver em uma série de atividades até então consideradas masculinas era visto com hostilidade, independentemente da orientação ideológica”, diz De Prada. “O amor lésbico não foi aprovado”. As relações entre as mulheres eram mantidas clandestinamente, fora dos holofotes e da vida pública, de modo que seu lesbianismo contribuiu para torná-la uma pessoa que não tinha lugar na sociedade da época”, acrescenta ela sobre como sua vida sentimental também foi marcada pela diferença.

A romancista e poetisa Elisabeth Mudler foi seu grande amor, reconstruído na biografia através do diário lírico que Ana María deixou de seu romance e de sua poesia inspirada por ela. Foi também uma das razões pelas quais Sagi pediu ao escritor para não publicar seus textos até vinte anos após sua morte: “Todos os poemas que dedica a evocar sua relação com ela são extraordinários, mas acho que ela tinha medo que seus parentes ficassem ofendidos porque alguns de seus textos são eróticos e muito explícitos”. Em qualquer caso, acredita que “ela queria ter certeza de que pessoas de sua geração estavam mortas e que havia aspectos de sua vida que ela queria esconder”. Ela também esperava que “surgisse outra época que fosse mais receptiva a seus valores”.

O impacto da guerra na linha de frente

Outra área na qual Sagi foi pioneira foi a Guerra Civil, o que a tornou a primeira fotojornalista de guerra espanhola. “Ela combinou fotografias na linha de frente da guerra com crônicas do que estava acontecendo. Em uma delas, ela conta como um miliciano foi baleado na testa enquanto segurava sua cantina para que ela bebesse água. Ele morreu em seus braços”, lembra De Prada. Durante este período ela escreveu Por el río venía, que o romancista considera ser um dos poemas mais importantes da autora. “Nele ela narra como o cadáver é varrido pela correnteza. É lindo. Poderia ter sido assinado por Federico García Lorca”, afirma ele. “Seu corpo marrom veio, imóvel e frio. A água, cantando, passou por seus dedos duros. Você veio tão pálido, soldado, no rio!”, dizem alguns de seus versos.

Para o escritor, esta obra é um exemplo da “marca indelével que a morte deixou em seu espírito”. “Ela estava no centro do conflito, viveu-o muito de perto e o sofreu em sua própria carne com três feridas: uma menor por estilhaços, um acidente de carro e uma terceira muito grave no bombardeio de Alcañiz em 1938, pelo qual esteve em coma e cega por vários dias”, acrescenta.

Ainda há material a ser publicado

A biografia de Sagi está dividida em dois volumes que totalizam 1.709 páginas. A primeira oferece uma visão panorâmica das três primeiras décadas da vida da autora até 1937, quando seu rastro desaparece após a queda do Conselho Anarquista de Aragão. O segundo se debruça sobre os anos até 2000, tratando do exílio da autora, fortemente marcado pela escassez. “Foi muito difícil. Ela viveu em condições muito difíceis por alguns anos”, diz De Prada. A romancista considera que a “misantropia” da poeta foi prejudicial para ela durante este período, pois enquanto “muitos intelectuais exilados tecem relações entre si, ela se distanciou totalmente daqueles ambientes”. Ela tentou se unir à cultura francesa, mas também não conseguiu fazê-lo”.

Lá ela tinha um relacionamento com Marie-Thérèse Eyquem, uma pioneira na defesa do esporte feminino que acabou sendo secretária geral do Partido Socialista Francês. Uma figura que ela acabou fazendo o protagonista de um de seus romances, com um conteúdo lésbico, mas em código. Em Paris ela viveu sob ocupação alemã entre 1942 e 1944, mas seus anos mais complicados como expatriada foram os que passou em Chartres, onde esteve envolvida em “histórias bizarras”, como a autora as define, devido a sua amizade com Joaquín Ascaso, Antonio Ortiz e outros anarquistas perseguidos pelo sistema judicial.

Antes desta biografia, De Prada publicou La voz sola – A Voz só (2019, Fundación Banco Santander), uma antologia da poesia e textos jornalísticos de Sagi. De Prada diz que tem pendente o lançamento da prosa da autora e Andanzas de la memoria, um livro “com notas no qual ela evoca alguns episódios de seu passado e um diário idealizado de sua relação com Mudler”. Através dele ela continuará a expandir e tornar acessível a obra e o legado que a escritora lhe confiou.

Fonte: https://www.eldiario.es/cultura/primera-fotorreportera-guerra-espanola-poeta-anarquista-lesbiana-campeona-atletismo-juan-manuel-prada

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

sussurro sem som
onde a gente se lembra
do que nunca soube

Guimarães Rosa

[São Paulo-SP] Anarquismo decolonial numa visão preta de quebrada!

Muito se fala sobre o Anarquismo nos meios de esquerda, porém pouco se conhece dele. A luta anarquista na história nunca foi travada por acadêmicos ou burocratas, muito menos por reformistas ou doutores cultos da linguagem. Essa luta sempre foi travada por nós, aqueles considerados os últimos da sociedade. Aqueles que a polícia não pede por favor com humildade para parar uma manifestação.

Da mesma forma nenhuma revolução anarquista começou com nenhuma vanguarda do pensamento ou aqueles iluminados que sabem o que o povo precisa, muito mais que o próprio povo. Todas as vitórias anarquistas pelo mundo foram conquistadas pelos periféricos, conquistadas pelos indígenas, pretos, mulheres, LGBTQIA+ excluídos pelo status quo e sequestrados em suas pautas pelo poder do Estado.

Não seria diferente aqui nesse país da tragédia cômica e inevitavelmente racista. Não há outra saída para barrar o Fascismo que não saia das mãos das favelas e periferias dessa terra. Não há a menor possibilidade do Fascismo bolsonarista retroceder, ainda mais agora que tomaram a pauta “Deus” para dentro dos seus bueiros.

O motivo dessa Frente existir não é fazer dela o grupo organizado que irá mudar o mundo ou o país, mas colocar em pauta que existe uma ideologia já vivida pelas quebradas, apoio mútuo, solidariedade, liberdade e insubmissão à injustiça, que aprendemos desde os quilombos e em nossas aldeias. Ancestralidade, Cultura e Educação não são nossos lemas por serem palavras bonitas. São nossos lemas porque construir isso é urgente e o anarquista que se deu conta disso, precisa levantar da cadeira e fazer sua parte antes que seja tarde demais, sem colocar sua esperança em políticos, antes que não possamos nem ao menos dizer “parem de nos matar”.

Frente Anarquista da Periferia (FAP)

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na cama de nuvens
o sol espreguiça-se
oblongo

Eugénia Tabosa

Vídeo | Grécia tem greve de 24 horas contra o custo de vida

Vídeo da linha de frente em Syntagma na quarta-feira, 9 de novembro de 2022. Imagens da marcha, dos confrontos e das prisões durante a grande marcha grevista em Atenas com dezenas de milhares de manifestantes. A greve geral de ontem foi uma das maiores greves dos últimos anos, uma paralisação de trabalhadores do setor público e alguns setores privados contra a alta nos preços.

>> Veja o vídeo (05:15) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=yWdSrN_QBRo

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/11/10/grecia-greve-geral-9n-contra-o-aumento-do-custo-de-vida-confrontos-em-atenas-e-tessalonica-marcaram-as-marchas/

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velho haicai
séculos depois
o mesmo frescor

Alexandre Brito

[Irã] “Nem o rei nem a direção, abaixo o sistema autoritário”

O levante dos oprimidos no Irã é um levante, dividi-lo em grupos étnicos é uma ação contrarrevolucionária!

Para evitar que o levante dos oprimidos no Irã se converta em uma guerra de milícias religiosas e étnicas, como o levante dos oprimidos na Síria (2012), devemos extrair lições da história e a experiência do passado. Conflitos de classe.

Agora que passaram dez anos desde o ressurgimento dos Oprimidos na Síria, a história demonstrou que converter o levante social e de massas em uma guerra de milícias e em um circo político para os partidos políticos criará as condições para o reforço da contrarrevolução. Converterá o levante em um jogo político para as agências de inteligência de várias superpotências e companhias multinacionais para criar um banho de sangue através da guerra de milícias com o apoio dos estados títeres regionais.

Desafortunadamente, a contrarrevolução conseguiu converter os levantes dos oprimidos desde Tunez até a Síria e Iêmen, em ferramentas para implementar os planos das superpotências e as empresas multinacionais. O exemplo vivo desta realidade são os conflitos internos na Síria e no Iêmen que criou um mercado para o comércio de armas.

Ainda que o Irã se componha de várias regiões étnicas e religiosas diferentes, as manifestações e protestos anteriores se dividiram de alguma maneira entre estas entidades políticas e culturais, mas desta vez, diferente de antes, mas como o levante de 1979, os oprimidos do Irã se levantaram como um corpo.

Este é o ponto de inflexão mais positivo e alentador do ressurgimento da luta dos oprimidos iranianos. É um sinal aprender lições das lutas passadas e o aumento da autoconsciência dos oprimidos iranianos.

Mas apesar de toda a alegria a este nível de autoconsciência dos oprimidos, não devemos esquecer nem um segundo o perigo das manobras contrarrevolucionárias (do governo aos monárquicos, nacionalistas e suníes salafistas). Se olharmos de perto as reações e atitudes dentro e fora do Irã, lamentavelmente há movimentos contrarrevolucionárias aqui e ali, ainda que são preliminares, mas tudo tem um começo. Converter o levante na Síria em um banho de sangue durante dez anos de guerras de milícias começou com um só disparo e um incidente banal, que foi um tiroteio durante uma manifestação pacífica depois das orações da sexta-feira.

Nas últimas semanas, os monárquicos fora do Irã sob a bandeira do estado tentaram constantemente mudar a natureza dos protestos, enquanto que em casa o governo atacou as bases armadas da oposição fora do Irã (na região do Curdistão/Iraque) e levou a cabo dois níveis de repressão em Baluchistão e Curdistão com bastante dureza em comparação com as regiões de fala persa para criar confusão, suspeita e divisões entre os manifestantes.

O estado também tentou arrasar as milícias do partido armado curdo a uma resposta armada e criar suspeitas e divisão entre os levantes em Baluchistão, Curdistão e Azerbaijão com o centro de fala persa. Claro, junto com os esforços do governo iraniano, os governos de Paquistão, Turquia e o Golfo estiveram envolvidos nas últimas décadas em uma flagrante discriminação religiosa e étnica nessas regiões e agora estão tratando de provocar divisões. Mais efetivos e piores que todos estes são dos fenômenos que surgiram nos últimos dias: Primeiro, os tiroteios e a armação do levante, especialmente nas regiões fora do centro. Em segundo lugar, a etinização das manifestações de solidariedade fora do Irã, especialmente na Europa, que só são solidárias com o levante de uma região, o que é o começo da fragmentação e criação de divisões ao estimular o nacionalismo e o salafismo religioso.

Nos opomos e condenamos essas tentativas e tratamos de prevenir qualquer tentativa, opinião e declaração contrarrevolucionária. De acordo com nossa experiência da história dos levantes, especialmente o levante dos oprimidos no Irã de 1979 e o levante dos oprimidos no Iraque de 1991, apresentamos nossos pontos de vista, sugestões e apoio a nossos amigos e camaradas em todas as regiões do Irã. Nosso único objetivo é impedir os esforços daqueles grupos e partidos que estão tratando de converter este levante unido dos oprimidos do Irã em nacionalista fragmentado e em uma guerra de milícias.

Afortunadamente, até onde sabemos, as atividades dentro das cidades e regiões iranianas, o nível de consciência dos insurgentes está ao nível de sua responsabilidade histórica revolucionária e os riscos de divisões foram menos dominantes até agora. No entanto, nós (como partidários de nossos companheiros insurgentes no Irã) não devemos ficar de braços cruzados e ignorar os movimentos e esforços dos movimentos autoritários e as milícias (desde nacionalistas, salafistas, shakhaístas até esquerdistas) para controlar e enganar em todos os protestos ou levantes. A antirrevolução sempre foi capaz de vencer e derrotar as ondas da revolução social aproveitando o otimismo dos oprimidos inconscientes através dos movimentos, partidos e grupos armados autoritários.

Frente a estes esforços contrarrevolucionários, o apoio dos lutadores pela liberdade e os movimentos antiautoritários a nível mundial e em todas as regiões do mundo para o levante dos oprimidos no Irã pode fortalecer o equilíbrio de poderes em benefício do polo revolucionário contra os capitalistas, que já preparam seu cenário para controlar a sociedade iraniana após a queda do atual governo.

Não ao estado e ao governo, não às milícias, não ao partidismo, não ao nacionalismo, não ao salafismo

Sim à solidariedade global, sim ao levante social, sim à autogestão social local de todas as regiões iranianas, sim ao federalismo não estatal

Foro anarquista de fala curda

14 de outubro de 2022

Fonte: Anarkistan –https://linktr.ee/anarkistan

Tradução > Sol de Abril

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criado mudo
fica quieto
mas vê tudo

Carlos Seabra

Liberdade para Kirill Ukraintsev, sindicalista, vítima do regime russo!

Com mais de 20 anos à frente da Federação Russa, Putin tem travado uma verdadeira guerra contra o povo da Rússia, cuja situação econômica e social continua a piorar. Para tentar esconder a situação, além do desenvolvimento de campanhas de intoxicação e propaganda, o regime silencia por todos os meios aqueles que ousam falar alto e lutar por mais liberdade e justiça. Sindicalistas, anarquistas e, em geral, defensores dos direitos humanos estão particularmente na sua mira… A guerra desencadeada após a invasão do território ucraniano aumentou a brutalidade da repressão por parte do Estado russo, que agora nem sequer finge respeitar a sua própria legalidade.

Kirill Ukraintsev é um simples trabalhador precário, um estafeta que faz entrega de refeições, e que com outros colegas, em 2020 teve a coragem de dizer “niet” ao seu patrão-oligarca e de criar um sindicato para exigir respeito pela sua dignidade. Desde 2020, eles já fizeram inúmeras greves, exigindo o pagamento de salários não pagos, a anulação de multas injustas e o fim do aumento de mais encargos sobre os trabalhadores. Reivindicam também contratos de trabalho para os estafetas.

Em abril passado, o chefe do Delivery Club decidiu unilateralmente reduzir os salários dos estafetas em 20%, num momento em que a Rússia está a ter um forte aumento da inflação! Em resposta a essa medida escandalosa, os estafetas iniciaram um movimento grevista. No dia 25 de abril, enquanto o sindicato “Correio” organizava uma manifestação em frente à empresa, a polícia invadiu a casa de do  secretário do sindicato, Kirill Ukraintsev. Foi detido sob custódia e acusado ao abrigo do artigo 212.1 do Código Penal da Federação Russa, que reconhece como delito  convocar ou participar em reuniões não autorizadas. O sindicalista é acusado de apelar a estafetas e a taxistas, através das redes sociais, para protestarem contra a violação de direitos laborais. Por isso, arrisca até 5 anos de prisão por “violação repetida do procedimento de organização de reuniões”.

> > Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/11/08/liberdade-para-kirill-ukraintsev-sindicalista-vitima-do-regime-russo/

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Sobre o varal
a cerejeira prepara
o amanhecer

Eugénia Tabosa

Poéticas Animalistas em Maria Lacerda de Moura e Nise da Silveira: Libertação, Arte e Resistência

As conexões entre as poéticas libertárias, feministas e animalistas atravessam o tempo e recortam geografias na crítica endereçada à figura universalista antropocêntrica e nas experiências artísticas das relações multiespécie.

No campo das artes e da tecnobiopolítica, novos desafios passam pela necessidade de revisitar autoras como: Maria Lacerda e Nise da Silveira. Meu objetivo será, portanto, buscar na obra das duas autoras a positividade nas relações multiespécie e suas interfaces com os processos de libertação, criação artística e resistência política.

>> Baixe o PDF Poéticas Animalistas em Maria Lacerda de Moura e Nise da Silveira aqui:

https://www.anarquista.net/poeticas-animalistas-em-maria-lacerda-de-moura-e-nise-da-silveira/

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Ao fim da árdua trilha
A cidade e seu castelo –
Pipas incontáveis.

Tan Taigi

[Grécia] Greve Geral (9N) contra o aumento do custo de vida: confrontos em Atenas e Tessalônica marcaram as marchas

Os incidentes eclodiram a partir do meio-dia desta quarta-feira, 9 de novembro, em Atenas e Tessalônica. Anarquistas começaram a lançar coquetéis molotov e pedras contra a polícia tanto em Atenas quanto em Tessalônica, enquanto as marchas para a greve estavam em pleno andamento e com grande participação, com o resultado de que os centros das cidades pareciam campos de batalha. Em Tessalônica, bancos e lojas de luxo foram atacadas por anarquistas durante os protestos.

Ainda durante as mobilizações da greve e pouco antes do início dos confrontos na Praça Syntagma, em Atenas, um grupo de cerca de 20 anarquistas se aproximou do Ministério da Fazenda na Rua Victory e atacou com coquetéis molotov todos os carros do Ministério, bem como a entrada do prédio. Foi uma mensagem clara de rebelião contra o terrorismo de Estado.

Outras cidades gregas também registraram manifestações.

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um gato no telhado
para os pardais novos
que alvoroço!

Rogério Martins

Manifesto Internacionalista contra a guerra e a paz capitalista na Ucrânia…

“Suas guerras! Nossos mortos!” foi sob essa bandeira que proletários radicais se distanciaram dos desfiles pacifistas organizadas nas ruas da Espanha, em março de 2004, após os massacres em Madrid que deixaram mais de 200 mortos. Eles avançaram esse lema derrotista em resposta à participação militar da Espanha no Iraque e à “Guerra ao Terror” imposta pelo Estado capitalista mundial e seu ramo espanhol, ecoando dessa forma as muitas manifestações históricas de derrotismo revolucionário que entremeiam o desenvolvimento de sociedades de classe e, portanto, da luta de classes, da guerra de classes.

Como proletários socialistas revolucionários, comunistas, anarquistas…, não temos absolutamente nenhum interesse material em tomar partido, de qualquer maneira que seja, com o Estado capitalista e sua democracia, qualquer que seja sua aparência, com nossos inimigos de classe, com nossos exploradores, com aqueles que sempre nos retribuíram severamente com “tiros, metralhadoras e prisão” quando lutamos e tomamos as ruas para reivindicar nossa humanidade. E é assim independente da natureza e da orientação política do regime de turno na pátria A ou na pátria B, que estão em um conflito interestatal por seus próprios interesses de conquista e poder. Nós nunca expressaremos qualquer solidariedade com qualquer um de nossos exploradores!

Seus interesses! Nossos mortos! Não tomamos posição por nenhum dos Estados em conflito, seja ele categorizado, de acordo com a moralidade política burguesa dominante, como “o agressor” e o outro como “o agredido” ou vice-versa. Seus respectivos interesses em jogo são exclusivamente seus e em total oposição aos da classe explorada, ou seja, nós proletários; é por isso que, por fora e contra todo nacionalismo, todo patriotismo, todo regionalismo, todo localismo e todo particularismo, afirmamos em alto e bom som nosso internacionalismo!

O proletariado, como uma classe revolucionária, não mostra nenhuma neutralidade em relação a qualquer um de seus exploradores que se confrontam na redistribuição de suas participações no mercado, mas ao contrário, ele rejeita-as igualmente como dois lados da mesma realidade, o mundo de exploração de uma classe por outra, e expressa sua profunda solidariedade com todos os setores de nossa classe que estão passando pelas agressões multiplicadas de um ou outro de seus inimigos históricos. Mas sejamos claros, nós nunca negaremos aos proletários a necessidade imperativa de se defenderem contra qualquer agressão, repressão, tortura, massacre…

E aqui, na circunstância atual, os proletários na Ucrânia não mais possuem a sua frente apenas seu inimigo costumeiro e diário, isto é o Estado ucraniano “agredido” e sua burguesia local (chamada de “oligarca” para melhor esconder sua verdadeira natureza de classe, como se fossem diferentes de todos os outros capitalistas em outros lugares do mundo), não têm apenas de passar pelos ataques de sua própria burguesia (com cortes salariais, demissões, economia de guerra, repressão dos subsequentes movimentos grevistas), mas desde 24 de fevereiro desse ano também têm de confrontar a ofensiva militar do Estado “agressor” dos capitalistas russos com seu exército, seus bombardeamentos, seus mísseis, seus massacres diários…

Suas nações! Nossos mortos! E para todos os belicistas da esquerda e da extrema-esquerda do Capital, que acusarão mais uma vez os revolucionários de serem “neutros” e de não “tomarem posição”, respondemos que é bem o contrário que propomos nesse manifesto e em nossa atividade militante no geral: defendemos firmemente o partido do proletariado e a defesa de seus interesses históricos e imediatos, defendemos sua ação de subversão desse mundo de guerra e miséria, defendemos o desenvolvimento, a generalização, a coordenação e a centralização dos atos de fraternização, deserção, motim já existentes em ambos os lados do fronte, contra ambos os beligerantes, contra ambos os Estados, contra ambas as nações, contra ambas as frações locais da burguesia mundial… Defendemos a extensão dessas lutas e sua conexão orgânica, como momentos de uma totalidade com todas as lutas que têm acontecido há meses e em todos os lugares sob o Sol negro da ditadura social do Capital, seja no Sri Lanka, Peru, Irã, Equador ou Líbia.

Advogamos pelo desenvolvimento do terceiro campo, o único campo que defende os interesses globais do proletariado em sua luta imediata e histórica contra a exploração, o trabalho assalariado, a miséria e a guerra. Esse terceiro campo é o do proletariado internacionalista revolucionário, o qual se opõe a todos os campos burgueses em guerra, é o campo de nossos irmãos e irmãs de classe que lutam por seus próprios interesses, que são antagônicos aos interesses de todos aqueles que defendem a propriedade privada, o dinheiro e a ordem social que esses portam…

Sua paz! Nossa exploração! Se rejeitamos categoricamente todas as guerras burguesas, nas quais o proletariado serve apenas como carne de canhão, não importando a qual campo é incorporado, rejeitamos a “paz” da mesma forma e com a mesma força, a “paz” não é nada mais do que o momento invertido, mas complementar, da “guerra”. A paz é somente um momento de reconstrução entre duas guerras, porque a guerra é necessária ao Capital de modo a temporariamente resolver a crise inerente ao seu modo de produção. Mas a guerra é também o momento supremo de paz social, e a última é somente a materialização da guerra permanente travada contra nossa classe através da exploração de nossa força de trabalho, a mercantilização de nossas vidas e a alienação de nossas existências.

Voltando à Ucrânia, gostaríamos de salientar aqui que se nos opomos fortemente ao apoio a qualquer lado na presente guerra, que não é nada além de uma guerra entre Estados, se recusamos tomar lados com uma ou outra burguesia beligerante, tanto a ucraniana que é “invadida” e “agredida” como a russa que é “invasora” e “agressora”, nosso julgamento é diferente e mesmo antagônico quando analisamos os eventos que transcorreram algumas semanas antes do estalar da guerra na Ucrânia. Estamos nos referindo à repressão militar no Cazaquistão e a “ocupação” desse país por tropas de elite do exército russo: uma “ocupação” não é necessariamente igual a outra!

Nossas revoltas! Nossos mortos! Obviamente, ninguém, ou apenas alguns, ficou chocado com a repressão do levante de trabalhadores no Cazaquistão em janeiro e por uma boa razão. Nem mesmo no Ocidente, onde por fim os capitalistas entenderam rapidamente que a burguesia russa, ao “invadir” o Cazaquistão que havia se tornado incontrolável socialmente, ao esmagar o proletariado em revolta, ao restaurar através do terror a ordem dos grandes negócios, a ordem dos negócios internacionais, estava na verdade agindo objetivamente em serviço dos interesses de todos os capitalistas, e portanto também das multinacionais que têm suas sedes no Ocidente. Eis aqui a absoluta diferença em natureza entre a “ocupação” do Cazaquistão para reprimir um movimento social que ameaçava parcialmente a atual ordem das coisas, por um lado, e a “ocupação” de uma parte da Ucrânia em um conflito que responde aos interesses geoestratégicos entre diferentes frações do mesmo Capital mundial, por outro.

Todo mundo entenderá facilmente que a abordagem proletária a esses dois tipos de ocupação, e como se posicionar, será totalmente diferente. No caso, como na Ucrânia, onde existem dois atores burgueses que se confrontam, se posicionar e se empenhar contra um deles, contra o “agressor” (nesse caso, o Estado russo), mas não contra o outro, o “agredido” (o Estado ucraniano), acaba de maneira objetiva, e especialmente em um sentido eminentemente prático, quer se goste ou não, apesar de sua vontade, apesar do que se afirma, em se empenhar com e apoiar o último, e ainda mais na ausência de qualquer dinâmica de autonomização em relação às estruturas militares e de abastecimento que concebe esse comprometimento. Porque não nos enganemos, não existia antes do eclodir da guerra, e não existe no momento, qualquer movimento revolucionário forte na Ucrânia, suficientemente antagônico para que pudesse afirmar o poder social de nossa classe e defender seus interesses imediatos e históricos.

Por outro lado, no caso de um levante proletário em uma dada região que a burguesia é obrigada a reprimir através da contribuição de uma força interventora “externa” (por conta do derrotismo que enfraquece as forças de repressão locais), a “ocupação” resultante tem um caráter completamente diferente. Nosso inimigo é nossa própria burguesia, claro, mas é acima de tudo a burguesia que temos diretamente em frente de nós, a que está nos reprimindo, bombardeando, massacrando, a que está tomando o lugar da fração burguesa que inicialmente nos explorava, que está a substituindo. Obviamente, entendemos que contra uma “agressão”, contra uma “ocupação”, contra massacres e repressão, os proletários querem resistir, pegar armas, defenderem-se… Mas enquanto no Cazaquistão essa resistência armada teria como objetivo a defesa do levante social, a defesa de um embrião de dinâmicas revolucionárias, na Ucrânia a resistência dos proletários, mais uma vez se for limitada somente a um dos protagonistas da confrontação bélica, arrisca rapidamente aniquilar-se nas mãos do Estado ucraniano, de seus aliados e de seus interesses burgueses. Pelo menos é isso que a história das lutas de nossa classe sempre nos mostrou, até que se prove ao contrário… e o exemplo histórico da Espanha de 1936-37 é revelador nesse aspecto, já que a revolução foi sacrificada lá em nome do “mal menor” a ser defendido, a república burguesa, a frente popular antifascista, confrontado com o que era representado como o “mal absoluto”: o fascismo.

Na Espanha ontem, como em Rojava e na Ucrânia hoje, “o povo em armas” não é, e está longe de ser, o proletariado armado; armado com as armas da crítica para permitir o desenvolvimento da crítica real pelas armas…

Portanto, podemos apenas saudar os proletários que recusam se posicionar em um ou outro dos campos burgueses presentes e que, ao contrário, afirmam seu internacionalismo e se organizam para confrontar os dois irmãos inimigos. Como nos anos 80 do último século, quando desertores “iraquianos” se organizaram com desertores “iranianos”, durante a terrível carnificina que durou oito longos anos, e quando eles juntaram forças para lutar juntos contra ambos os exércitos burgueses.

Saudações, então, às proletárias na Ucrânia, tanto na região ocidental de Transcarpathia (portanto, sob administração militar ucraniana) e no Donbass, nas “províncias orientais” (portanto, sob administração militar russa), que foram às ruas para expressar seu desprezo pela “defesa da pátria” e para exigir o retorno de seus filhos, irmãos e parentes enviados aos frontes para defender interesses que não são seus.

Saudações aos proletários na Ucrânia que estão secretamente abrigando soldados russos que desertaram, por risco próprio já que quando são presos, seja pelas autoridades militares russas ou pelas ucranianas, são forçados a entender onde a força legal está nesse mundo nojento, qual lado e qual pátria eles têm de defender e que nenhuma fraternidade será tolerada.

Saudações aos proletários na Ucrânia que, apesar do alistamento obrigatório, escapam de sua incorporação em unidades militares através de todos os meios disponíveis, legais ou não, e dessa forma recusam se sacrificar e servir sob as dobras do trapo nacional ucraniano.

Saudações aos soldados russos que, desde o começo das “operações especiais” na Ucrânia, têm fugido da guerra e seus massacres, abandonando tanques e veículos armados funcionando e buscando sua salvação em voos, através de redes de solidariedade com desertores de ambos os exércitos.

Saudações também (embora a informação a esse respeito seja menos precisa, a guerra das notícias e da propaganda militar obriga!) aos 600 soldados da marinha russa que recusaram no começo do conflito a desembarcar, sabotando então um desembarque na área de Odessa.

Saudações também (com as mesmas ressalvas) aos soldados russos que fizeram motim e se recusaram a atacar Kharkov, também no início do conflito.

Saudações aos soldados do exército da “República Popular de Donetsk”, forçadamente incorporados e enviados ao fronte de Mariupol, que recusaram continuar a lutar, a servir como “carne de canhão” (de acordo com eles mesmos!), enquanto dessa vez eles eram enviados para defender a vizinha “República Popular de Lugansk”.

Saudações aos rebeldes e sabotadores que, na Federação Russa, já queimaram dezenas de escritórios de recrutamento militar e outros escritórios dos porcos por todo o país.

Saudações aos ferroviários na Bielorrússia, que têm repetidamente sabotado os trilhos, essenciais para a manutenção de linhas de abastecimento do exército russo mobilizado na Ucrânia.

Saudações aos proletários na Ucrânia que, no início dos bombardeios, começaram a organizar saques coletivos de lojas abandonadas por seus donos, de supermercados e shoppings, como reportado em Mariupol, Kherson e até em Kharkov, avançando a satisfação das suas necessidades básicas de sobrevivência contra todas as leis e morais que protegem a propriedade privada.

Saudações a todos os proletários na frente doméstica, que organizam greves e se recusam a oferecer seu trabalho e seu suor para a economia de guerra, a economia da paz social, e portanto a economia de todas as formas, estejam conscientes ou não disso.

E finalmente, saudações aos proletários, ferroviários, estivadores… na Europa, Grécia, Inglaterra… que recusam transportar equipamento militar para a OTAN para Ucrânia.

Saudações, portanto, para todos você que recusam se sacrificar no altar da guerra, da miséria e da pátria!!!

E o dia, que esperamos ser em breve, em que os proletários tomarão as ruas de Moscou e Kiev, e de todas as grandes áreas urbanas da Rússia e da Ucrânia, entoando com uma voz “Putin e Zelenski, fora!”, responderemos de nossa parte, nos referindo aos camaradas que bradavam nas ruas da Argentina há mais ou menos vinte anos atrás o lema “¡Que se vayan todos!“, que todos sumam, que vão para os infernos, Biden, Johnson, Macron, Scholz, Sanchez, von der Leyen, Michel, Stoltenberg… todos esses promotores da guerra e da miséria… e todos aqueles, com certeza todos aqueles, que estão na fila da alternância política!

Mas sejamos claros: eles são somente intermediários nesse sistema de prostituição generalizada que é o trabalho assalariado, a venda obrigatória de nossa força de trabalho. Para além de todas as pessoas que personificam a ditadura social do Capital, o último é acima de tudo uma relação social impessoal que pode ser, é e tem sido reproduzido por qualquer elemento, burguês ou proletário, cooptado a fazê-lo. Então, mesmo que compartilhemos por completo a alegria dos proletários no Sri Lanka que, depois de ter expulso o presidente vigente alguns dias atrás, invadiram seu palácio presidencial e mergulharam em sua luxuosa piscina, a pergunta que devemos nos fazer é: como empurrar a dinâmica revolucionária rumo a suas últimas consequências, como expropriar a classe proprietária e reapropriar nossos meios de existência… e acima de tudo, como não retroceder?! É aqui que a genuína aventura humana começa…

Guerra de Classes, 31 de julho de 2022

Fonte: https://amanajeanarquista.blogspot.com/2022/11/manifesto-internacionalista-contra.html

agência de notícias anarquistas-ana

Os banhos agora
Num dia sim, noutro não –
Canto dos insetos.

Konishi Raizan

Lançamento: “El pensamiento fascista en el Perú (1930-1945)”

José Ignacio López Soria (Compilador). “El pensamiento fascista en el Perú (1930-1945)”. Prólogo de Abraham Abad. Editorial Ande. Lima, novembro de 2022.

Este livro de José Ignacio López Soria se estabeleceu como uma das obras mais citadas nos estudos sobre o fascismo peruano, não só pelas definições teóricas que ele fornece em seu estudo introdutório, mas também pela seleção de textos que mostram claramente as ligações entre as elites peruanas e o fascismo em voga durante as décadas de 1930 e 1940. São apresentados documentos inestimáveis nos quais é explicitada a postura fascista ou filofascista de figuras como José de la Riva-Agüero, Raúl Ferrero Rebagliati, Carlos Miró Quesada Laos, Antonio Pinilla e organizações como a Unión Revolucionaria, etc. Ao mesmo tempo, o compilador apresenta uma tipologia das correntes do fascismo que proliferaram durante estes anos, classificando-as sob os conceitos de aristocrático, mesocrático e popular. O texto foi um grande sucesso na época, tendo saído rapidamente de circulação após sua publicação em 1981. Portanto, é muito difícil encontrar cópias da edição original atualmente. Hoje, com a irrupção da extrema direita na cena política mundial, este trabalho recuperou sua vitalidade para compreender o processo de radicalização dos setores conservadores e sua abordagem das tendências fascistas nas condições históricas específicas que caracterizam a sociedade peruana.

El pensamiento fascista en el Perú (1930-1945)

editorialande@gmail.com

editorialande.com
Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Ah! Oh! É tudo
O que se pode dizer —
Monte Yoshino em flor.

Yasuhara Teishitsu