
Propomos aqui, a partir do livro Lições Curdas: os condenados das montanhas escrito por Azadî e publicado em 2025 pelas edições La Fabrique, uma breve história do povo curdo, certamente não exaustiva.
Quer admitamos ou não, em nossas práticas e discursos, podemos involuntariamente veicular clichês redutores do povo curdo. Todos e todas, em algum momento, podemos ter inconscientemente obscurecido a riqueza cultural e societal deste povo, projetando nossos estereótipos, imagens mentais e mitos. Não é uma reprovação nem um julgamento de intenção, mas sim discursos inconscientes.
O autor deste artigo, como muitos militantes, com toda honestidade e inocência, pode ter veiculado essas reduções involuntárias que invisibilizam, por simplificação, a totalidade da luta do povo curdo.
Azadî, curdo alevi, militante decolonial, convida a penetrar mais a fundo na sociedade curda em sua complexidade, para apreender as dimensões desconhecidas deste povo, de suas culturas e de suas histórias, para conceder-lhes seu justo valor plural. Para tal, Azadî procede primeiro a um inventário de desconhecimentos. “Os Curdos são um povo que poucas pessoas conhecem realmente.” Colocada esta constatação, duas questões emergem: Quem são eles? E de onde vêm?
Em busca da própria história
O movimento intelectual que iniciou a pesquisa das raízes ancestrais dos Curdos ocorreu num contexto de descolonização durante o desmantelamento do Império Otomano. No início do século XX, em plena transformação dos conjuntos políticos anteriores, os Curdos procuraram justificar historicamente a vontade de fundar um Estado independente. Para tal, interrogaram as fontes persas e árabes da época medieval e atribuíram a uma lenda iraniana a gênese de seu povo. A descoberta dessas origens pré-islâmicas baseou-se em conteúdos míticos e em pesquisas arqueológicas e linguísticas.
Perto do final do primeiro milênio da nossa era, como os Árabes, os Turcos ou os Berberes, os Curdos adquirem reconhecimento. Há menção do povo anteriormente ao Islão.
Um mosaico religioso e político
Notados por suas qualidades guerreiras, os Curdos distinguem-se pela sua diversidade religiosa. Embora sejam maioritariamente de confissão muçulmana, sunita, mas também xiita, alguns curdos mantiveram práticas religiosas mistas, mesclando o Islão com práticas religiosas ancestrais, como o alevismo na Turquia. O povo curdo conta também com cristãos e cristãs.
A esta pluralidade religiosa acrescenta-se a particularidade geográfica da localização do povo curdo. Há séculos, os Curdos estão na encruzilhada de zonas de influência de Impérios. A adesão maioritária dos Curdos ao Império Otomano conduziu à implantação de um Curdistão otomano na Anatólia oriental, situado na atual Turquia e na parte oeste do Irã. Sob a era do Curdistão otomano surgem numerosos principados curdos, governados por tribos curdas, com quase independência política. Do lado persa, um processo similar desenhava-se.
Um patchwork linguístico não unificado e combatido
A língua curda é hoje falada por mais de 40 milhões de pessoas em todo o mundo. É uma língua classificada como indo-europeia, declinada em múltiplos dialetos e idiomas, nunca unificados. Seguiram-se políticas de assimilação. Em seu livro, Azadî escreve que: “A proibição da língua constitui, ao lado da proibição dos costumes, das narrativas históricas, dos estilos de vestuário, etc., a base de formação das sociedades ditas nacionais” e citando Öcalan “A sociedade nacional homogênea é a sociedade mais artificial já criada e resulta de um imenso ‘projeto de engenharia social’.”
O Curdistão define-se por toda essa diversidade ancestral. Situado na junção da Síria, Irã, Turquia e Iraque, dotado de importantes recursos minerais, de uma terra entre as mais férteis, é e continua sendo objeto de cobiças e perseguições.
Uma repressão multissecular
Em 1916, as autoridades otomanas atacaram os Curdos. Em dois anos, 750.000 Curdos foram deslocados, dois terços morreram de doença, frio ou fome. O fim da primeira guerra mundial significou o desmantelamento do povo curdo: na Síria (10% da população atual), no Iraque (entre 15 e 20% da população atual), no Irã (entre 10 e 15% da população atual) e na Turquia (mais de 25% da população atual).
O livro de Azadî revisita cada um desses eixos que constituem a história colonial do Curdistão, a batalha da língua, fator de coesão entre os diferentes países onde vivem os Curdos, vetor de resistência face às tendências hegemônicas dos Estados turco, sírio ou iraquiano. Estes últimos trabalharam para o desaparecimento da língua curda, esse marcador visível e determinante na unidade de um povo. O programa de uniformização dos Estados-nação fez-se contra a diversidade que caracterizava essas sociedades.
“Os Curdos são ao mesmo tempo os Bretões e os Argelinos dos Estados que os dominam: eles são não apenas seus colonizados cuja história, cultura, dignidade e vida são negadas, mas também formam uma população interna que deve ser educada, formada, transformada em cidadãos dóceis para ser explorada.”
Tornando os colonizados estrangeiros em seu próprio país, a escola desempenhou um papel fundamental no processo de assimilação. Sobre a missão civilizatória colonial em relação às jovens alevis, o autor evoca a “turquificação da população curda”. Ele cita internatos coloniais dedicados a essa finalidade. Na Síria, é o monolinguismo árabe que constitui a vertente dessas políticas de assimilação. Mais de 30% dos Curdos que vivem na Síria são privados da nacionalidade síria, de passaportes e de empregos na função pública. No Iraque, a língua curda é por vezes reconhecida como língua autorizada e sujeita a flutuações de aceitação por parte do Estado.
1946, ano charneira na história do povo curdo
“Este ano emblemático vê nascer e desaparecer [a primeira e única até hoje república do Curdistão,] a República de Mahabad…”
Esta República iniciada por intelectuais citadinos, próxima do marxismo, rompeu com as dinâmicas tribais. Efêmera, é frequentemente comparada pelos Curdos à Comuna de Paris. Um jornal foi publicado em língua curda e uma rádio emitiu em toda a região autônoma. A adoção da língua curda como língua oficial acompanhou-se da abertura de inúmeras escolas.
Sujeito ao confronto das potências locais e internacionais, vítima das clivagens sociais, abandonado pelos chefes tribais e pelos apoios soviéticos, violentamente perseguido pelo Irã, a República agoniza em 1947. Seus dirigentes são enforcados. Por mais breve que tenha sido, esta experiência abriu uma oportunidade de diálogos transfronteiriços favorável à difusão do pensamento marxista.
Em 1955, uma feroz repressão abate-se novamente sobre os Curdos no Irã e no Iraque. Na Síria e na Turquia, uma nova geração de líderes de obediência marxista aparece. Em 1959, o poder turco prende 49 intelectuais por propaganda separatista.
A revolução iraquiana de 1958 baralha as cartas geopolíticas. Os Curdos apoiam o novo regime que, em troca, promete uma zona curda autônoma, levantando toda proibição linguística. Mas logo a questão curda choca-se com a ascensão do nacionalismo árabe.
A revolta de 1961 no Curdistão iraniano
Este período singulariza-se por “a passagem do movimento curdo da tradição tribal à abordagem nacionalista marxista.” Os anos sessenta veem a causa curda diversificar seus possíveis em função das evoluções dos Estados árabes limítrofes. A vitória de um nacionalismo pró-árabe no Iraque e na Síria afeta profundamente os Curdos por políticas de arabização frequentemente violentas. A causa curda viu-se então invisibilizada entre os movimentos terceiro-mundistas. Seguiu-se uma ruptura árabe-curda, com exceção da causa palestiniana.
No Iraque, a revolta curda de 1961, por iniciativa do Partido Democrático do Curdistão (PDK), durará cerca de 14 anos e resultará em importantes perdas para o exército iraquiano. Na Turquia, o golpe de Estado de 1960 oferece uma janela ao renascimento do nacionalismo curdo. Ao mesmo tempo, concretiza-se o desenvolvimento de um movimento de esquerda na Turquia, mas rapidamente surge uma ruptura entre os Curdos e a esquerda turca.
Em 1967, milhares de pessoas reúnem-se no leste da Turquia. É o primeiro movimento massivo contra o Estado nas regiões curdas desde 1938 e a revolta de Dersim. Isso pressagia os focos culturais revolucionários do leste e a irrupção de um movimento curdo na Turquia, separado das organizações de esquerda turcas. As questões de classe e curdas encontram-se. Estamos na aurora do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) dos anos 1974 a 1978.
Dominique Sureau (UCL Angers)
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
No perfume das flores de ameixa,
O sol de súbito surge –
Ah, o caminho da montanha!
Matsuo Bashô















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