[França] Os condenados das montanhas: Os Curdos, um povo desconhecido. Origens e advento do PKK

Propomos aqui, a partir do livro Lições Curdas: os condenados das montanhas escrito por Azadî e publicado em 2025 pelas edições La Fabrique, uma breve história do povo curdo, certamente não exaustiva.

Quer admitamos ou não, em nossas práticas e discursos, podemos involuntariamente veicular clichês redutores do povo curdo. Todos e todas, em algum momento, podemos ter inconscientemente obscurecido a riqueza cultural e societal deste povo, projetando nossos estereótipos, imagens mentais e mitos. Não é uma reprovação nem um julgamento de intenção, mas sim discursos inconscientes.

O autor deste artigo, como muitos militantes, com toda honestidade e inocência, pode ter veiculado essas reduções involuntárias que invisibilizam, por simplificação, a totalidade da luta do povo curdo.

Azadî, curdo alevi, militante decolonial, convida a penetrar mais a fundo na sociedade curda em sua complexidade, para apreender as dimensões desconhecidas deste povo, de suas culturas e de suas histórias, para conceder-lhes seu justo valor plural. Para tal, Azadî procede primeiro a um inventário de desconhecimentos. “Os Curdos são um povo que poucas pessoas conhecem realmente.” Colocada esta constatação, duas questões emergem: Quem são eles? E de onde vêm?

Em busca da própria história

O movimento intelectual que iniciou a pesquisa das raízes ancestrais dos Curdos ocorreu num contexto de descolonização durante o desmantelamento do Império Otomano. No início do século XX, em plena transformação dos conjuntos políticos anteriores, os Curdos procuraram justificar historicamente a vontade de fundar um Estado independente. Para tal, interrogaram as fontes persas e árabes da época medieval e atribuíram a uma lenda iraniana a gênese de seu povo. A descoberta dessas origens pré-islâmicas baseou-se em conteúdos míticos e em pesquisas arqueológicas e linguísticas.

Perto do final do primeiro milênio da nossa era, como os Árabes, os Turcos ou os Berberes, os Curdos adquirem reconhecimento. Há menção do povo anteriormente ao Islão.

Um mosaico religioso e político

Notados por suas qualidades guerreiras, os Curdos distinguem-se pela sua diversidade religiosa. Embora sejam maioritariamente de confissão muçulmana, sunita, mas também xiita, alguns curdos mantiveram práticas religiosas mistas, mesclando o Islão com práticas religiosas ancestrais, como o alevismo na Turquia. O povo curdo conta também com cristãos e cristãs.

A esta pluralidade religiosa acrescenta-se a particularidade geográfica da localização do povo curdo. Há séculos, os Curdos estão na encruzilhada de zonas de influência de Impérios. A adesão maioritária dos Curdos ao Império Otomano conduziu à implantação de um Curdistão otomano na Anatólia oriental, situado na atual Turquia e na parte oeste do Irã. Sob a era do Curdistão otomano surgem numerosos principados curdos, governados por tribos curdas, com quase independência política. Do lado persa, um processo similar desenhava-se.

Um patchwork linguístico não unificado e combatido

A língua curda é hoje falada por mais de 40 milhões de pessoas em todo o mundo. É uma língua classificada como indo-europeia, declinada em múltiplos dialetos e idiomas, nunca unificados. Seguiram-se políticas de assimilação. Em seu livro, Azadî escreve que: “A proibição da língua constitui, ao lado da proibição dos costumes, das narrativas históricas, dos estilos de vestuário, etc., a base de formação das sociedades ditas nacionais” e citando Öcalan “A sociedade nacional homogênea é a sociedade mais artificial já criada e resulta de um imenso ‘projeto de engenharia social’.”

O Curdistão define-se por toda essa diversidade ancestral. Situado na junção da Síria, Irã, Turquia e Iraque, dotado de importantes recursos minerais, de uma terra entre as mais férteis, é e continua sendo objeto de cobiças e perseguições.

Uma repressão multissecular

Em 1916, as autoridades otomanas atacaram os Curdos. Em dois anos, 750.000 Curdos foram deslocados, dois terços morreram de doença, frio ou fome. O fim da primeira guerra mundial significou o desmantelamento do povo curdo: na Síria (10% da população atual), no Iraque (entre 15 e 20% da população atual), no Irã (entre 10 e 15% da população atual) e na Turquia (mais de 25% da população atual).

O livro de Azadî revisita cada um desses eixos que constituem a história colonial do Curdistão, a batalha da língua, fator de coesão entre os diferentes países onde vivem os Curdos, vetor de resistência face às tendências hegemônicas dos Estados turco, sírio ou iraquiano. Estes últimos trabalharam para o desaparecimento da língua curda, esse marcador visível e determinante na unidade de um povo. O programa de uniformização dos Estados-nação fez-se contra a diversidade que caracterizava essas sociedades.

“Os Curdos são ao mesmo tempo os Bretões e os Argelinos dos Estados que os dominam: eles são não apenas seus colonizados cuja história, cultura, dignidade e vida são negadas, mas também formam uma população interna que deve ser educada, formada, transformada em cidadãos dóceis para ser explorada.”

Tornando os colonizados estrangeiros em seu próprio país, a escola desempenhou um papel fundamental no processo de assimilação. Sobre a missão civilizatória colonial em relação às jovens alevis, o autor evoca a “turquificação da população curda”. Ele cita internatos coloniais dedicados a essa finalidade. Na Síria, é o monolinguismo árabe que constitui a vertente dessas políticas de assimilação. Mais de 30% dos Curdos que vivem na Síria são privados da nacionalidade síria, de passaportes e de empregos na função pública. No Iraque, a língua curda é por vezes reconhecida como língua autorizada e sujeita a flutuações de aceitação por parte do Estado.

1946, ano charneira na história do povo curdo

“Este ano emblemático vê nascer e desaparecer [a primeira e única até hoje república do Curdistão,] a República de Mahabad…”

Esta República iniciada por intelectuais citadinos, próxima do marxismo, rompeu com as dinâmicas tribais. Efêmera, é frequentemente comparada pelos Curdos à Comuna de Paris. Um jornal foi publicado em língua curda e uma rádio emitiu em toda a região autônoma. A adoção da língua curda como língua oficial acompanhou-se da abertura de inúmeras escolas.

Sujeito ao confronto das potências locais e internacionais, vítima das clivagens sociais, abandonado pelos chefes tribais e pelos apoios soviéticos, violentamente perseguido pelo Irã, a República agoniza em 1947. Seus dirigentes são enforcados. Por mais breve que tenha sido, esta experiência abriu uma oportunidade de diálogos transfronteiriços favorável à difusão do pensamento marxista.

Em 1955, uma feroz repressão abate-se novamente sobre os Curdos no Irã e no Iraque. Na Síria e na Turquia, uma nova geração de líderes de obediência marxista aparece. Em 1959, o poder turco prende 49 intelectuais por propaganda separatista.

A revolução iraquiana de 1958 baralha as cartas geopolíticas. Os Curdos apoiam o novo regime que, em troca, promete uma zona curda autônoma, levantando toda proibição linguística. Mas logo a questão curda choca-se com a ascensão do nacionalismo árabe.

A revolta de 1961 no Curdistão iraniano

Este período singulariza-se por “a passagem do movimento curdo da tradição tribal à abordagem nacionalista marxista.” Os anos sessenta veem a causa curda diversificar seus possíveis em função das evoluções dos Estados árabes limítrofes. A vitória de um nacionalismo pró-árabe no Iraque e na Síria afeta profundamente os Curdos por políticas de arabização frequentemente violentas. A causa curda viu-se então invisibilizada entre os movimentos terceiro-mundistas. Seguiu-se uma ruptura árabe-curda, com exceção da causa palestiniana.

No Iraque, a revolta curda de 1961, por iniciativa do Partido Democrático do Curdistão (PDK), durará cerca de 14 anos e resultará em importantes perdas para o exército iraquiano. Na Turquia, o golpe de Estado de 1960 oferece uma janela ao renascimento do nacionalismo curdo. Ao mesmo tempo, concretiza-se o desenvolvimento de um movimento de esquerda na Turquia, mas rapidamente surge uma ruptura entre os Curdos e a esquerda turca.

Em 1967, milhares de pessoas reúnem-se no leste da Turquia. É o primeiro movimento massivo contra o Estado nas regiões curdas desde 1938 e a revolta de Dersim. Isso pressagia os focos culturais revolucionários do leste e a irrupção de um movimento curdo na Turquia, separado das organizações de esquerda turcas. As questões de classe e curdas encontram-se. Estamos na aurora do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) dos anos 1974 a 1978.

Dominique Sureau (UCL Angers)

Fonte: https://www.unioncommunistelibertaire.org/?Les-damnes-des-montagnes-Les-Kurdes-un-peuple-meconnu-Origines-et-avenement-du  

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

No perfume das flores de ameixa,
O sol de súbito surge –
Ah, o caminho da montanha!

Matsuo Bashô

[Itália] Mais fortes que a morte

Há uma enorme diferença entre a violência dos oprimidos e a dos opressores: a primeira rege-se por uma ética, a segunda, por nenhuma.

(Sara Ardizzone)

Nossa capacidade de nos expressarmos e nos comunicarmos não nos permite aventurar-nos pelos caminhos inexplorados da responsabilidade pelos riscos assumidos em carne própria. Qualquer discurso nesse sentido acaba sendo inevitavelmente provisório, insuficiente. Buscar concretamente a liberdade — em sua forma autêntica e integral, não nas falsificações concedidas e impostas pelo Estado — significa entrar na dimensão do risco inerente à própria busca. Nesse lugar, nossas escolhas, muitas vezes selvagens e solitárias, traçam o sulco de um caminho sem volta. A liberdade é uma qualidade que se experimenta ao se colocar em risco.

Dizemos isso sem cair em retórica: os dois anarquistas encontrados mortos [19/03/2026] após o desabamento de uma casa de campo em Roma, Sara Ardizzone e Alessandro Mercogliano, são nossos companheiros fraternos, dos quais nos orgulhamos de ter como companheiros. Os jornalistas a soldo, cujo lixo de papel nos informou do ocorrido, escrevem repetidamente sobre a detonação de um artefato explosivo. As distâncias inquietantes que se mantêm, sempre com o objetivo de garantir uma segurança vergonhosa, não nos pertencem. Estamos acostumados a não acreditar em uma única palavra do que profere a máquina propagandística, mas se houvesse um lampejo de verdade nas informações “vazadas”, não podemos deixar de nos deter no fato fundamental: Sara e Sandro morreram em ação, morreram lutando. A guerra social não é uma farsa, um estilo de vida ou uma subcultura. É, antes de tudo, uma guerra. Sara e Sandro são um exemplo luminoso da união indissolúvel entre pensamento e ação que inspira o anarquismo, revolucionários até o último instante de suas vidas e na morte.

Sara e Sandro são e serão para sempre uma parte do nosso coração, um coração que não pode deixar de se recusar a escrever um obituário.

As afirmações delirantes dos senhores da Inquisição e da repressão andam de mãos dadas com as dos senhores da guerra e da exploração. Os autores de massacres, os assassinos em massa, os promotores da morte clamam escandalizados pelas bombas dos anarquistas.

Com Sara e Sandro compartilhamos a paixão inextinguível pelo pensamento e pela ação anarquistas. Com eles, alguns de nós vivemos, compartilhando a intensidade febril de momentos que nenhum relógio jamais poderá marcar. Com eles, quando fomos interrogados pela máquina de repressão do Estado, mantivemos nossa dignidade e consolidamos a tenacidade de nossas decisões. Temos certeza disso: aqueles dias infinitos que vivemos nunca se tornarão uma lembrança desvanecida. Momentos que não se baseavam em discursos ideológicos, mas na convicção de nossos caminhos, nos sentimentos, na confiança mútua, na alegria de viver. Todos nós que os conhecemos profundamente sabemos que nunca haverá palavras adequadas para descrever sua modéstia, sua doçura, sua dignidade.

É por isso que a determinação revolucionária de Sara e Sandro tem a força de transcender o tempo, superando o sofrimento e a dor. A paixão deles pela vida será mais forte do que a morte. A integridade deles será sempre um aviso contra todo opressor.

21 de março de 2026

Circolo Culturale Anarchico “G. Fiaschi” (Carrara)
Circolo Anarchico “La Faglia” (Foligno)
Danilo Cremonese e Valentina Speziale
Circolo Anarchico “G. Bertoli” (Assemini)
Nucleo Anarchico “É. Henry” (Cagliari)
Biblioteca Anarchica Sabot (Roma)
Natascia Savio
Luigi di Faenza

Fonte: https://circoloculturaleanarchicofiaschi.noblogs.org/2026/03/21/piu-forti-della-morte/

agência de notícias anarquistas-ana

Pelos fios do poder,
os pardais tecem ninhos
de desobediência.

Liberto Herrera

Chaos Star – Artigo do periódico italiano ‘Disfare’ sobre a repressão na Indonésia

Artigo do periódico italiano ‘Disfare‘ sobre a repressão na Indonésia, escrito por Palang Hitam. Versão corrigida atualizada: 17/3/26 Traduzida ao português: 18/3/26

Repressão e Resistência na Indonésia

De agosto a setembro de 2025, ocorreram distúrbios generalizados na Indonésia em várias cidades do Arquipélago. Foi a maior revolta social moderna do país e foi, provavelmente, desencadeada pelo assassinato de Affan Kurniawan, mensageiro online de motocicleta, que foi emblemático para muitos dos manifestantes: marginalizados, trabalhadores precários, pessoas de rua, trabalhadores e classes baixas. Affan foi assassinado pela polícia da Brimob Mobile Brigade em um veículo blindado, e a polícia o atropelou na frente da multidão em Jacarta. A morte ocorreu no contexto de um protesto contínuo contra a corrupção governamental, o aumento do custo de vida e a brutalidade policial. O assassinato desencadeou protestos em massa ainda maiores, que levaram a confrontos violentos com a polícia e as forças policiais paramilitares. Legisladores e políticos zombaram abertamente dos manifestantes, que apenas chamavam atenção para questões sociais imediatas que preocupavam a todos, e apontaram para o crescente poder reacionário do ex-regime militar. Desde os distúrbios, a repressão se tornou ainda mais intensa.

Começando em 30 de agosto de 2025, centenas de milhares de pessoas foram às ruas em cidades como Bandung e Jacarta, exigindo não só responsabilização e justiça para Affan, mas o fim de todo o esquema corrupto político-militar-capitalista. Métodos anarquistas e táticas de rua se tornaram comuns, assim como slogans e alvos anarquistas. As facções governamentais, partidos políticos, sindicatos e associações estudantis perderam completamente o controle da narrativa. Eles não conseguiram controlar a raiva nas ruas e o momento da revolta foi desencadeado. Muitos prédios governamentais, corporações, delegacias de polícia e residências de políticos seniores foram saqueados ou incendiados.

Em retaliação, o governo indonésio, liderado pelo ex-militar Prabowo, reprimiu a dissidência, especialmente os anarquistas, já que foram seus slogans e táticas insurrecionais que foram amplamente adotados durante a revolta. Mais de 6.500 foram presos, principalmente jovens, enquanto as autoridades prendiam e detinham indivíduos vagamente suspeitos de participação nos distúrbios. Por exemplo, muitas pessoas foram presas só por estarem perto de protestos ou por documentarem o que estava acontecendo no celular. “Anarquista” virou insulto para qualquer acusado de ser contra o sistema, mas acabou acendendo as ideias.

Para citar apenas alguns exemplos de casos “anti-anarquistas”: um jovem, Very Kurniaa Kusuma, foi violentamente preso e detido só por estar no lugar errado na hora errada com um telefone na mão, sem qualquer motivo real, além de ser contra as ações da polícia e querer gravar aquilo.

Rizky Ardiansyah (conhecido como Riky) e Muhammad Rafli Andriansyah (referido como Kipli) são dois anarquistas indonésios que enfrentam acusações exageradas apresentadas como crimes graves. Acusados de envolvimento em destruição de propriedade e criação de dispositivos incendiários, coquetéis molotov, essas acusações são infladas e politicamente motivadas. A realidade subjacente é que as acusações servem como cortina de fumaça para os esforços do Estado de criminalizar a resistência à autoridade e deslegitimar a guerra social contra o brutal regime de Prabowo.

Relatos de familiares indicam que ambos os companheiros presos sofreram abusos físicos graves na detenção. Foram espancados com varas e mangueiras, deixando hematomas e ferimentos visíveis. Apesar disso, os dois companheiros não deram nenhum testemunho falso. Riky e Kipli são corajosos e fazem parte da nova anarquia juvenil que está crescendo ao redor do mundo.

Alfarisi bin Rikosen, de 21 anos, foi preso em Surabaya e no complexo de Medaeng. Acusado de atacar um prédio do governo regional com molotov na revolta de agosto. Alfarisi foi uma das 288 pessoas detidas e torturadas em Surabaya, onde também há 32 anarquistas acusados. Alfarisi morreu, em decorrência de tortura, em custódia policial em 30 de dezembro de 2025, segundo o relato da família e do advogado.

A maioria dos réus foi presa arbitrariamente, com relatos generalizados de tortura na detenção. Os maus-tratos indicaram que muitos dos sequestrados nas ruas sofreram abusos físicos graves em interrogatórios, indicando o padrão da opressão sistemática patrocinada pelo Estado. Mais de 600 continuam detidos, mais de 70 acusados presos são anarquistas, presos, em geral, por tumultos, destruição de propriedade e incêndio criminoso, pegando até 5 anos de prisão. Alguns dos anarquistas acusados enfrentam penas de 20 anos ou mais por ações destrutivas graves, ferimentos, liderança e instigação.

Vieram à tona detalhes do tratamento brutal sofrido pelos prisioneiros. A maioria foi espancada e sufocada com sacolas plásticas, humilhada na frente uns dos outros, forçada a dar falso testemunho, agredida sexualmente, queimada com cigarros e outros fatos semelhantes que vemos em casos em que os serviços de segurança acham que têm mandato político claro para o abuso. Falsos depoimentos foram divulgados pela polícia para presos e pessoas do lado de fora, como falsa prova de “fulano delatou” etc., e parte da campanha de desinformação coordenada.

A maior parte dos anarquistas presos na Indonésia pertence à chamada rede ‘Estrela do Caos‘, grupo composto de mais de 40 “anarquistas individualistas” e “niilistas”, cujo “papel de liderança” foi atribuído a Eat (Reyhard Rumbayan), preso por ataque incendiário da FAI-IRF contra um banco em solidariedade ao anarquista ferido Luciano Tortuga em 2011. Eat e vários companheiros (perseguidos pela polícia para os prender) são acusados de mentores da revolta social. Todos os réus rejeitam as acusações e acusações implícitas na “conspiração” alegada pela polícia.

Eat foi espancado e torturado pela unidade antiterrorista Densus 88, que lidera o caso contra os anarquistas. Eat também é acusado de ser membro do Palang Hitam/ABC Indonesia. Eat ficou gravemente doente por falta de remédios para tratar a sua saúde, HIV+ e paralisia. Pela falta de provas das acusações graves, o advogado de Eat conseguiu libertação temporária antes do julgamento.

No momento em que escrevo esta, Eat está em prisão domiciliar em Bandung e continua sob investigação, enfrentando 20 anos de prisão. Eat foi preso em Makassar depois que a unidade antiterrorista Densus 88 usou o spyware Pegasus para penetrar e rastrear o seu celular. Eat foi rastreado por mais de uma semana e depois preso por 15 veículos do Densus 88 com metralhadoras. Parece que as autoridades policiais e o Densus 88 mapearam e registraram fortemente a presença anarquista online, usando o spyware Pegasus e coletando dados principalmente de serviços organizacionais, e depois atacaram extensivamente.

Outro camarada anarquista enfrentando longa pena de prisão é Adit (Aditya Dwi Laksana). Adit foi classificado como perigoso porque não quebrou sob tortura, então a polícia espalhou, do lado de fora, usando a divisão de crimes cibernéticos, nas redes sociais que Adit era informante. Os documentos judiciais revelam o contrário. Adit foi torturado muito severamente e tentaram danificar a sua visão. Ele é acusado de ações destrutivas em Getong, Bandung, destruição do Banco Hana e explosivos na Assembleia Representativa Popular Regional de Bandung. Enfrenta mais de 20 anos de prisão e, segundo os documentos judiciais, há provas pesadas contra ele, que atenderam a todos os requisitos para o julgamento. Adit era um dos vários camaradas que já estavam sob vigilância da Densus 88 [unidade antiterrorista] quando a revolta ocorreu. Adit está atualmente preso na prisão de Kebon Waru, perto de Bandung.

Escreva aos camaradas aprisionados na prisão de Kebon Waru:

Very Kurniaa Kusuma
Rizky Ardiansyah (Riky)
Rafli Andriansyah (Kipli) [erro: Kipli está detido na prisão de Solo, Java]
Aditya Dwi Laksana (Adit) [atualizado]

[nome]
JI. Jakarta No.42-44,
Kebonwaru, Kec. Batununggal,
Kota Bandung, Jawa Barat
Indonésia

Outros anarquistas presos em Kebon Waru:

M. Subhan Abdul Ghoni
Eli Yana
Muhammad Vanza Alfarizy
Joy Erlando
Muhammad Jalaludin
Jatnika Alan Ramdhani
Ariel Octa Dwiyan
Angga Friansyah
Putra Rizwan Annas
Wanda Abdul Rahman
Wawan Hermawan
Reyhan Fauzan Akbar
Arfa Febrianto
Rizal Zhafran
Muhibuddin
Muhammad Zaki
Arya Yudha
Rifa Rahnabilla
Marshall Andy Kaswara
Yusuf Miraj
Deni Ruhiyat
Rizky Fauzi
Maditya Dena

Todos acusados de agredir policiais e de violência em público pelos Artigos 170 (violência em público), 214 (resistência coletiva) e 406 (destruição de propriedade de outros) do Código Penal indonésio. A maioria desses prisioneiros são pessoas comuns que não têm ligação com anarquistas individualistas nem niilistas, são vítimas de prisões arbitrárias pela polícia e têm os julgamentos com acesso negado aos seus próprios advogados.

Palang Hitam / ABC enfrenta consideráveis dificuldades para operar na Indonésia neste momento e apela por ações de solidariedade e fundos para apoiar os réus. Por favor, doe para o fundo de solidariedade através dos noblogs Dark Nights ou de qualquer grupo ABC estabelecido há muito tempo.

Palang Hitam

Fonte: https://darknights.noblogs.org/post/2026/03/16/chaos-star-article-from-italian-periodical-disfare-about-the-repression-in-indonesia/

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

As pontas quebradas
dos lápis que te desenham
inda estão na mesa

Everton Lourenço Maximo

Por que antibelicismo e antimilitarismo?

Por CF Puig | 21/03/2026

Vivemos o inimaginável tempo histórico em que se diz, “estamos em tempo de guerra”, conformando-se à distopia que, de tão deplorável, se fosse paródia, seria fraca, por exagerada demais, de tão devastadora para os de abaixo, tão distorcedora do bom desenvolvimento da natureza ecológica, que nenhuma ficção que se passava nos anos “2020-2030”, que eu tenha lido, foi tão perversamente cruel, detalhadamente ruim. Mas é o que temos para hoje.

Resta, portanto, nos posicionarmos diante da guerra. Por amar a liberdade, individual e coletiva, e por nos recusarmos a matar outros, como nós, das classes trabalhadoras e abaixo, nos recusarmos a obedecer a ordens sempre criminosas, pois não há motivo bom para a guerra, na guerra todos perdem, ainda mais os mais vulneráveis. Somente lucram os fabricantes de armas e munições. Exatamente por isso os EUA estão sempre patrocinando guerras, direta ou indiretamente, chamando aos outros de terroristas. Alcovitando e sendo encobertos nos crimes hediondos dos amiguinhos migrados de Europa para a terra que dizem prometida a eles, os genocidas que atualmente cometem o crime de cerco a população civil, e isso não se via desde tempos julgados ultrapassados, como a Idade Média e as guerras coloniais de África e de América do Sul. Não se conceberia, em tempos modernos, guerra de cerco a população civil. Esta, ainda assim, continua sendo a realidade de Gaza. Normalizam o absurdo.

Nós? Nós é que somos os empoderados do absurdo, somos nós que sabemos a importância do amigo para toda obra, puxar laje ou ajudar com o churrasco, tudo é diversão, alegria de fazer junto. O absurdo de sobreviver na opressão do capitalismo e, ainda assim, sorrir, dançar, festejar, jogar, brincar, jogar conversa fora na esquina tomando um.

Pela liberdade individual e coletiva, somos contra a guerra e nossa luta para isso é não indo à guerra e nos solidarizando com todos os desertores. Para aqueles que dizem que só se faria revolução com violência, dizemos, a revolução é no dia a dia, não dá para ser no tapa, é trabalho de formiguinha, é construção de relações, de coletivos criadores e formadores, é dinâmica ética e valorizadora do individual e do coletivo, que trata o erro como aprendizado e convida a ajudar a melhorar. Se um dia houver situação em que seja necessário defender as nossas casas, as nossas famílias? Sim, parece justificado se defender. A defesa é a única justificativa para a violência; mas não a ‘defesa’ fake que os genocidas alegam.

O terror da guerra de hoje é visualizado ao vivo, ou em cortes, depois os memes de IA etc. Os soldados sentados em escrivaninhas com joystick na mão lançam explosivos no bairro civil mesmo, é bem onde cair, onde calhar. Os mais perversamente criminosos, e os menos repreendidos pelos poderosos da lei do mais forte internacional, ainda tomam como alvos hospitais, ambulâncias, jornalistas, casas com famílias inteiras em momento de festa.

Contra a guerra, contra os genocídios,

Com os de abaixo e à esquerda,

pela liberdade de todos em todo o mundo.

agência de notícias anarquistas-ana

oco eco no beco
o escuro aprimora o vento
para os desconcertos

Alex Dias

[Chile] Cadeia de rádios em solidariedade à companheira anarquista Mónica Caballero.

Convidamos todas as rádios companheiras a se unirem a uma cadeia de rádios no âmbito da semana de mobilização pela sua saída para as ruas, que será realizada no dia 28 de março a partir das 12h (horário do Chile)

Vale lembrar que, nas próximas semanas, o Tribunal de Apelações analisará pela segunda vez seu pedido de liberdade condicional, que já havia sido rejeitado anteriormente, apesar de ela cumprir todos os requisitos exigidos para obter o agora chamado “benefício” carcerário.

Diante disso, como rádios, queremos nos solidarizar com a companheira que mantém sua posição inabalável diante das artimanhas do poder.

Junte sua rádio pela saída para as ruas da nossa companheira.

Contra o arrependimento, continuamos ao lado de nossos companheiros e companheiras na prisão.

Mónica Caballero para as ruas!

Presos anarquistas e subversivos para as ruas agora!

Inscreva sua rádio no formulário… https://pad.riseup.net/p/CADENAZOXMONI

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/18/chile-semana-de-agitacao-pela-libertacao-da-presa-anarquista-monica-caballero-sepulveda-de-23-a-29-de-marco/

agência de notícias anarquistas-ana

O gari folheia
o livro de poesias—
Voa passarinho!

Regina Ragazzi

[Porto Alegre-RS] Respondendo ao chamado de agitação pela companheira Mônica Caballero

A solidariedade entre anarquistas passa não apenas pela mão terna com nossos companheiros, ela se complementa com respostas desde a propaganda até o ataque. Isso porque aqueles com quem solidarizamos transitaram precisamente por esses caminhos.

No caso da companheira Mônica Caballero, sequestrada pelo estado chileno e prestes a ter uma audiência de progressão de regime, nosso aceno nesta semana de agitação é pelos ataques com os quais esteve relacionada, ou acusada, ataques que acertadamente souberam responder diferentes momentos e contextos de opressão. Pela sua atitude diante do inimigo contra quem soube gritar Viva a Anarquia. Pelo seu silêncio cúmplice, importante para não colaborar com circos jurídicos nem midiáticos. Pela dignidade, luta, firmeza e solidariedade que leva adiante desde as prisões. Por cada letra, carta e desenho que desde lá segue nos incitando a procurar que Viva a Anarquia.

No amanhecer do 23 de março, ascendemos uma fogueira numa passarela do bairro burguês e de extrema direita Moinhos de Vento, e penduramos uma faixa com os dizeres:

Do Bra$il até o $hile

Liberdade Mônica Caballero

e Fora CMPC!

Alguns anarquistas pela anarquia!

A CMPC empresa da celulose e monocultivo de eucalipto do Chile pretende instalar uma nova mega fábrica de celulose aqui na beira do Rio Guaíba, degradando a terra, o ar, a água, em nome do lucro e em detrimento da vida.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/18/chile-semana-de-agitacao-pela-libertacao-da-presa-anarquista-monica-caballero-sepulveda-de-23-a-29-de-marco/

agência de notícias anarquistas-ana

No olhar do companheiro
que constrói sem pedir licença,
o amanhã inteiro.

Liberto Herrera

[Espanha] Como ganharam a batalha da memória


Por que uma dívida exigível nunca foi exigida? Por que nenhuma administração pediu qualquer reparação ao Estado italiano pela intervenção fascista de 1936-39? Um Estado italiano que ainda hoje reclama da Alemanha indenizações pelos crimes de guerra de 1944.

800 aviões de combate, entre caças e bombardeiros. Um exército terrestre de cerca de 75.000 homens. Artilharia, blindados, submarinos e navios de guerra. Hospitais de campanha, veículos de transporte, combustível, técnicos.

Realização da ponte aérea para levar as tropas coloniais de Marrocos à Andaluzia. Bloqueio do Mediterrâneo para impedir o abastecimento da República. Bombardeios de saturação em cidades e povoados para semear o terror na “retaguarda”. Destruição sistemática de infraestruturas civis ao longo de toda a costa catalã e valenciana. Ocupação de Maiorca, com massacres de opositores.

Os militares italianos enviados por Mussolini não foram um mero episódio da “guerra da Espanha”, mas sim, junto com os nazistas, um trunfo decisivo para o sucesso do golpe de estado franquista.

E, no entanto, ninguém, desde a morte do ditador, reclamou ao Estado italiano qualquer ressarcimento ou reparação, nem mesmo simbólica. Uma anomalia, já que após a II Guerra Mundial, na conferência de Paris de fevereiro de 1947, a Itália teve que ceder territórios à Iugoslávia, França, Grécia, retirar-se das colônias, desmantelar grande parte do exército e da marinha e pagar indenizações econômicas à Iugoslávia, Grécia, União Soviética, Etiópia, Albânia. Egito e Líbia receberiam compensações mais tarde (a Líbia em 2010).

Este “esquecimento” incompreensível perdura ainda: as últimas leis de memória “democrática” dedicam 4 linhas genéricas ao papel das potências do Eixo, apesar das provas aportadas pela pesquisa historiográfica, talvez pela dificuldade de encaixá-lo no relato de uma “guerra civil, entre irmãos”.

O livro “Desarmados e cativos” recolhe a experiência – a partir de 2007 – de campanhas e iniciativas dirigidas a obter “verdade, justiça, reparação e garantia de não repetição” efetivas, denunciando a manipulação da história em que se baseia a narração oficial da transição e as cumplicidades que tornaram possível a aceitação, inclusive por parte de entidades memorialistas, da incrível impunidade de que gozaram e gozam pessoas, empresas e instituições que criaram ou consolidaram seus próprios privilégios durante a guerra e o franquismo. Uma manipulação da história que implica a anulação de violações gravíssimas e imprescritíveis de princípios fundamentais do direito internacional (o reconhecimento de dívidas de guerra ou a perseguição dos crimes de lesa-humanidade) e dos valores que devem inspirar uma sociedade formalmente respeitadora dos direitos fundamentais (da dignidade humana, não subordinável à razão de estado).

As reparações ainda são exigíveis, por via diplomática e judicial, apesar das anistias (a Itália também fez uma e, no entanto, seus tribunais julgam os crimes nazistas), e também não estão sujeitas a prescrição. E desde 2008, realizaram-se campanhas com propostas concretas para exigir ressarcimentos por via penal e civil (na Itália). Por que, então, as vítimas catalãs (e dos outros povos do estado) são as únicas que não receberam qualquer reparação por parte dos governos que sucederam ao regime fascista de Mussolini? Governos de uma República antifascista que até 1967 (Mussolini havia sido executado em 1945) cobrou de Franco o material bélico enviado ao bando golpista pelo fascismo italiano.

As culpas das cínicas autoridades italianas são evidentes, mas ainda mais sangrentas, se possível, são as responsabilidades das administrações, instituições, partidos e organizações sociais do estado espanhol.

A inibição de ministérios espanhóis e da diplomacia desse estado na hora de tutelar os direitos de seus cidadãos agredidos pelo fascismo internacional é a enésima demonstração de que o reino da Espanha mantém uma continuidade orgânica com o regime franquista e não com a agredida República (a intervenção italiana foi denunciada como ilegal pelos governos republicanos nos fóruns internacionais). Resulta, no entanto, incompreensível a passividade da Generalitat e das outras instituições catalãs (Câmaras Municipais, Parlamento), já que são continuadoras daquelas que então reclamaram a condenação da pirataria de aviões e navios italianos. Interpeladas reiteradamente ao longo destes anos, em nenhum momento quiseram empreender iniciativas legais ou políticas e nem sequer acompanhar vítimas intencionadas a fazê-lo. Uma prova também, mais uma, de uma “cultura” política para a qual a ideia da administração e da política como serviço a uma sociedade/cidadania soberana é retórica vazia, simples marketing eleitoral.

Infelizmente, tudo deve ser dito, as campanhas objeto do livro “Desarmados e cativos” também não tiveram o apoio, para além das habituais adesões simbólicas, por parte das organizações e dos espaços libertários, autônomos e das esquerdas radicais, seja por desconfiança em relação a iniciativas não surgidas nos respectivos âmbitos, ou seja, por outras, inexplicadas, razões.

De modo que, após anos de tentativas falhadas e em meio à indiferença geral, também se fecha esta possível brecha na narração hegemônica da guerra de 36/39, consolidada a golpes de leis de memória democrática que branqueiam o regime de 78 e enésimo escárnio para as últimas sobreviventes, meninas então, daquela barbárie, que vão deixando este mundo sem ter recebido justiça e reparação de nenhum tipo.

Fonte: https://federacioanarquista.wordpress.com/2026/02/11/com-han-guanyat-la-batalla-de-la-memoria/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Este álbum de fotos:
Também as traças se nutrem
De velhas lembranças

Edson Kenji Iura

[EUA] PIU #7 buscando contribuições

Plastic in Utero: um jornal de anarquia anti-civilização renascido do composto da modernidade devastada está recebendo contribuições para a edição nº 7!

Estamos procurando perspectivas inovadoras, criativas e instigantes sobre nossa condição civilizada atual. Prazo para envio da edição nº 7: 31 de maio.

Nesta edição, vamos falar sobre saúde. Como sempre, não queremos restringir a criatividade das contribuições, então vale o que você considerar relevante ou interessante. Pode significar uma discussão sobre a condição mental, emocional e/ou social de um indivíduo. Pode ser a saúde da humanidade coletiva ou da biosfera. Também pode significar uma crítica à própria ideia de saúde como algo dotado de sentido.

Formato:

Em formato de zine tipo digest: fonte Times New Roman tamanho 9 ou 10, em duas colunas.

Tamanhos máximos:

– Ensaios e textos criativos: 2.500 palavras

– Poemas: 2 páginas (por favor, incluir observações sobre formatação)

– Cartas: aproximadamente 350 palavras

– Artes visuais: 2 páginas contínuas (ou qualquer quantidade de peças menores)

Cópias pelo correio? Enviar para:

Uncivilized Distro

Po Box 72

Seymour, IL 61875 – EUA

Envios digitais? Enviar para: tmwg1995[@]protonmail.com

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

A orquídea –
a cada instante
o silêncio é outro.

Constantin Abaluta

[Irlanda] ICL-CIT: Lutem contra os ricos, não contra as guerras deles!

De fato. Nossos camaradas irlandeses estão certos. Independentemente do que se possa pensar sobre a atual situação internacional (e há muito a ser dito), uma coisa é certa: a maioria das vítimas será da classe trabalhadora e seremos nós que arcaremos com o peso do conflito. Os ricos não serão afetados pelo desfecho da mesma forma que os trabalhadores serão.

Cidadãos comuns e pessoas simples estão sendo assassinados aos milhares por regimes em todo o mundo. São nossos camaradas e colegas de trabalho em todo o mundo que estão sofrendo as consequências das decisões tomadas pelos poderosos e seus representantes no governo. Seja uma campanha de bombardeios, uma guerra sem fim, um tiroteio por agentes federais, repressão descarada e assassina ou na ponta de um drone, o sangue de milhares está escorrendo pelas ruas.

Enquanto isso, os ricos ficam mais ricos, aconteça o que acontecer. A desigualdade aumentou enormemente nos últimos anos, e não será diferente desta vez. Não se enganem: aconteça o que acontecer, eles encontrarão uma maneira de lucrar com isso. As contas de serviços públicos podem subir, e pode muito bem ser uma luta para pagar as contas. As taxas de desemprego e a inflação podem aumentar. Isso não importa para aqueles que têm muito dinheiro ou cujo sustento não depende de um salário ou de um emprego, mas importa para nós. Nós sofreremos; eles não. O que é uma crise para nós, é uma oportunidade para eles.

Cada situação e cada conflito são únicos. Dependendo das opiniões e dos pontos de vista, cada pessoa atribuirá a culpa de maneira diferente. Além disso, nada acontece no vácuo.

Normalmente, os confrontos têm uma história longa e prolongada que pode remontar a décadas.

Dependendo de que lado da cerca se está, historicamente e atualmente, pode-se escolher um dos lados envolvidos em detrimento dos outros. Mas uma coisa é certa: os trabalhadores são bucha de canhão nas mãos de quem manda!

Somente a solidariedade pode reverter essa situação. Trabalhadores em todo o mundo estão se recusando a dar uma mãozinha a regimes assassinos, enquanto se organizam em antecipação a crises futuras. Da próxima vez que o mercado de ações despencar ou uma bolha financeira estourar e eles tentarem repassar as repercussões para nós, os ricos e poderosos encontrarão uma classe trabalhadora determinada que vem construindo seus sindicatos locais e sua organização internacional nos últimos anos. Ainda há muito a fazer. Você vai se juntar a nós?

Agora, mais do que nunca, em meio à agitação internacional, lute contra os ricos e não contra as guerras deles!

Fonte: https://www.onebigunion.ie/post/icl-cit-fight-the-rich-not-their-wars

Tradução > Reno Moedor

agência de notícias anarquistas-ana

Entre as antenas
E as casas todas iguais –
Quaresmeiras!

Paulo Franchetti

[Austrália] Defendam o povo do Irã

Declaração da Federação Comunista Anarquista

O Irã enfrenta mais uma guerra imperialista. Depois de enrolar o lado iraniano com negociações em torno de seu programa nuclear, os Estados Unidos e Israel iniciaram os bombardeios em 28 de fevereiro. Eles assassinaram o Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e muitos outros membros do alto escalão do regime iraniano, causaram grandes danos às defesas aéreas e às instalações de lançamento de mísseis e deram atenção especial ao ataque à marinha iraniana. Os assassinatos causaram inúmeras vítimas em áreas residenciais de várias cidades iranianas e, em um exemplo hediondo para o qual nem Israel nem os EUA se dispuseram a dar uma explicação, um míssil atingiu uma escola de meninas na cidade iraniana de Minab, matando 165 pessoas.

A resposta do Irã tem sido dispersa – lançando foguetes e drones contra uma ampla gama de alvos na região, tanto militares quanto civis. O Hezbollah entrou na guerra ao lado do Irã, após o que Israel invadiu o Líbano. A mídia divulga rumores de uma invasão iminente do Irã por forças curdas do Iraque.

Não derramamos lágrimas pelo aiatolá Khamenei, pois ele era um tirano sanguinário, responsável por esmagar várias revoltas populares contra o regime iraniano. Ainda em janeiro deste ano, ele ordenou o pior massacre da história da República Islâmica, quando as autoridades mataram milhares de pessoas para reprimir uma onda de manifestações massivas que clamavam por sua derrubada.

Já apelamos anteriormente para que os trabalhadores iranianos derrubem os aiatolás e voltamos a fazê-lo.

Mas a vingança pelos crimes de Khamenei e de sua camarilha de clérigos reacionários cabe à classe trabalhadora, não aos Estados Unidos ou a Israel. A campanha de bombardeios deles não tem como objetivo libertar o povo do Irã, mas sim subjugá-lo. O presidente dos EUA, Trump, está enviando mensagens contraditórias sobre seus objetivos de guerra, de modo que não se pode afirmar com certeza se ele visa o retorno do xá, o surgimento de algum outro líder da oposição de dentro do país ou encontrar algum traidor dentro do regime para governar o Irã em nome dos EUA, como ocorreu na Venezuela. Seja qual for o mecanismo, porém, o resultado exigido é que o Irã seja esmagado sob o jugo de ferro do imperialismo norte-americano.

O que deve ser feito?

Os trabalhadores de todo o mundo devem sair em defesa do povo do Irã e tentar paralisar as máquinas de guerra dos EUA e de Israel. Na Austrália, nossa tarefa é romper a aliança com os EUA. Concretamente, precisamos fechar as bases americanas, as bases australianas envolvidas em colaboração substancial com as forças armadas dos EUA e todas as instalações de inteligência que contribuem para o esforço militar americano. Em particular, precisamos fechar Pine Gap, que é um elemento-chave no sistema global de satélites espiões dos EUA e fornece informações aos EUA e a Israel para auxiliar na seleção de alvos de bombardeio. Pine Gap deve ser privado de eletricidade, água, largura de banda de comunicações e todos os tipos de suprimentos.

Para conseguir isso, porém, precisamos transformar nosso movimento sindical, que é liderado por um bando de covardes incapazes de defender as organizações que presidem. Precisamos reconstruir os sindicatos e precisamos construir o poder da base nos sindicatos para desafiar os dirigentes, que estão comprometidos com o ALP, que por sua vez está comprometido com a aliança com os Estados Unidos. A luta para defender o Irã é parte integrante da luta para reconstruir um movimento sindical combativo na Austrália. Toque em um, toque em todos.

ACABEM COM O ANZUS!

PAREM O AUKUS!

FECHEM PINE GAP!

Fonte: https://ancomfed.org/2026/03/defend-the-people-of-iran/

Tradução > Reno Moedor

agência de notícias anarquistas-ana

terno salgueiro
quase ouro, quase âmbar
quase luz…

José Juan Tablada

Chamamento conjunto de objetos de consciência e resistência ao alistamento da Turquia, Chipre, Grécia e Israel: Não à guerra contra o Irã!

Nós, como vozes contra a guerra desde Turquia, Chipre, Grécia e Israel, também lançamos um grito comum contra os ataques em curso contra o Irã e a expansão do conflito. Este grito não é pelo poder dos Estados e dos exércitos, mas sim pela liberdade dos próprios povos.

Cada novo ataque, cada novo front, significa um grande perigo para a população civil em toda a região. Sob os bombardeios, as sirenas e as evacuações forçosas, a gente luta simplesmente para sobreviver. À medida que a geografia da guerra se expande, o espaço para a paz, a liberdade de expressão e a democracia se encobrem.

A guerra não é imposta apenas nos campos de batalha, mas sim em todos os aspectos de nossas vidas cotidianas. O colapso econômico, a divisão social, a contaminação acelerada e um clima permanente de medo são as cadeias invisíveis que o militarismo oprime as sociedades. Rejeitamos essas cadeias.

Os ataques contra o Irã ameaçam desatar um fogo que pode devorar todo o Oriente Médio. Desde o Líbano até Chipre, desde o Golfo até a Turquia, esta guerra põe em perigo o futuro compartilhado de todos os seus povos. A paz não é apenas uma exigência para o Irã, mas sim para toda a região implicada.

Este ato de solidariedade é um apelo à paz que ultrapassa fronteiras. A segurança das pessoas não provém das políticas belicosas dos governos, mas de sua própria organização, de seu diálogo e de seu apoio mútuo. Os Estados fabricam a guerra; os povos defendem a vida.

Rejeitamos a reprodução da violência e nos empenhamos em fortalecer a segurança coletiva e a estabilidade social.

As políticas de guerra enfraquecem as condições de vida das sociedades, enquanto as soluções voltadas para a paz ampliam a liberdade, sustentam a vida e aprofundam a solidariedade. A ocupação e a agressão apenas geram uma espiral de novas crises; enquanto a paz garante o futuro comum dos povos.

Hoje, levantamos a voz em um apelo para proteger o futuro. Ampliemos as geografias da paz, não as da guerra.

O futuro compartilhado dos povos deve ser construído não à sombra das armas, mas sob a proteção da livre vontade das próprias comunidades.

Pela objeção de consciência e pela resistência ao alistamento, em prol da paz!

Fonte:  https://www.pressenza.com/es/2026/03/llamamiento-conjunto-de-objetores-de-conciencia-y-resistentes-al-reclutamiento-de-turquia-chipre-grecia-e-israel-no-a-la-guerra-contra-iran/

agência de notícias anarquistas-ana

No perfume das flores de ameixa,
O sol de súbito surge –
Ah, o caminho da montanha!

Matsuo Bashô

[EUA] O Plano Anarquista para Roubar a Mona Lisa

Cópias encadernadas de O Complô Anarquista para Roubar a Mona Lisa (The Anarchist Plot To Steal The Mona Lisa) podem ser encontradas aqui.

INTRODUÇÃO

Poucas pessoas sabem que os anarquistas franceses da década de 1890 financiaram o movimento através de roubos, ou desapropriações, e ainda menos sabem que anarquistas roubaram a Mona Lisa do Louvre em 1911. No entanto, os fãs do sucesso da Netflix Lupin  já absorveram o legado desses ladrões anarquistas, pois o Lupin do título foi baseado no lendário ladrão anarquista Alexandre Marius Jacob, chefe da infame gangue dos Trabalhadores Noturnos, cujos roubos ousados ressoam até hoje, em 2026.

Antes dos Trabalhadores Noturnos, os anarquistas franceses da década de 1890 começaram seu empreendimento criminoso com um ladrão chamado Émile Henry, que foi muito demonizado por historiadores, até mesmo anarquistas. De qualquer forma, Émile era um jovem anarquista que se tornou ladrão em vez de seguir carreira acadêmica, e logo ficou famoso por suas bondades, sendo a mais famosa o roubo de uma vaca, que entregou em segurança a uma camponesa pobre. Embora seja conhecido pela história como um sanguinário que explodia bombas, Émile, na verdade, tinha alma bondosa e sensível, o que o levou ao primeiro grande ataque.

Em 1892, quando os pobres grevistas da mina Carmaux foram esmagados pelos capitalistas e traídos por políticos socialistas, Émile decidiu explodir os escritórios da empresa de mineração em Paris. Por artimanha do destino, a bomba foi encontrada pela polícia e levada para a delegacia, onde explodiu repentinamente, matando quatro policiais e uma secretária. Após essa explosão inesperada, Émile fugiu, mas contou com muita ajuda dos camaradas anarquistas.

Um dos seus amigos foi o crítico de arte anarquista Félix Fénéon, que o ajudou a escapar para a Inglaterra por meio de contatos como Oscar Wilde. Outro amigo que o ajudou foi o anarquista Charles Malato, que já havia fugido para Londres. Presos nesse exílio, Émile e Charles ajudaram a formar uma equipe de assaltantes, entre eles Leon Ortiz, Louis Matha e Paul Chericotti. Essa equipe assaltou várias lojas e casas tanto na Inglaterra quanto na França, com furtos se aproximando cada vez mais de Paris. No entanto, Émile foi muito afetado pelas execuções dos anarquistas Ravachol e Vaillant, e decidiu explodir um alvo capitalista como vingança.

Infelizmente para todos, Émile não conseguiu encontrar um alvo adequado, então escolheu o Café Terminus, de classe média, onde matou e feriu pessoas aleatórias com a bomba, só para ser capturado instantaneamente. A maioria das pessoas não sabe que a equipe de assaltantes de Émile o ajudou com os atentados a bomba, incluindo Louis Matha e Leon Ortiz, assim como ajudaram a desmontar o laboratório de bombas após o ataque. O ato de Émile desencadeou uma onda de repressão, e logo quase todos os seus companheiros estavam presos e colocados no infame Julgamento dos Trinta.

Enquanto intelectuais anarquistas como Félix Fénéon foram considerados inocentes, ladrões anarquistas como Leon Ortiz e Paul Chericotti foram condenados a trabalhos forçados na Guiana Francesa. Como muitos sabem, Émile Henry foi guilhotinado pelo Estado francês, embora logo tenha sido vingado pelo anarquista italiano Sante Caserio, que esfaqueou o presidente da França no peito. A repressão que se seguiu a esses atos foi imensa, quase esmagando o movimento anarquista francês, mas, uma vez recuperados, uma nova equipe de assaltantes foi rapidamente estabelecida, desta vez bem ao sul, em Marselha.

Foi na metrópole litorânea que Louis Matha e Charles Malato conheceram um jovem anarquista chamado Alexandre Marius Jacob, e logo treinaram o novo ladrão, que saquearia a República como os seus predecessores. De 1899 a 1903, Alexandre e os Trabalhadores Noturnos trouxeram mais de um milhão de francos para o movimento anarquista, e os lucros foram divididos entre um grupo central de anarquistas que se reuniam no Café Muniez em Paris. Entre eles, Louis Matha, Jean Grave, Émile Pouget e Félix Fénéon, todos ex-réus no Julgamento dos Trinta.

Infelizmente, o grande Marius Jacob foi capturado em 22 de abril de 1903, e a épica onda de crimes dos Trabalhadores Noturnos terminou. Sem maneira fácil de obter centenas de milhares de francos, o crítico de arte Félix Fénéon decidiu focar em criar um cartel de arte usando jovens anarquistas como Pablo Picasso e, em 1906, o astuto Félix já havia se tornado negociante de arte em uma grande galeria parisiense. Poucos meses após conseguir essa posição lucrativa, um ladrão de arte anarquista roubou duas estátuas supostamente africanas do Louvre e as vendeu para Picasso, que passou a replicar seus rostos de pedra nas suas pinturas, trazendo, assim, a arte africana para galerias europeias e escandalizando a burguesia racista.

Esse ladrão anarquista de estátuas não estava só arrecadando alguns francos com Picasso, estava testando a segurança no Louvre, com o seu último roubo de estátua ocorrendo poucos meses antes do maior assalto de todos, o roubo da Mona Lisa. Quando a ilustre pintura desapareceu, em 21 de agosto de 1911, a polícia acabou descobrindo a ligação de Picasso com as estátuas roubadas, embora estivessem tão distraídos com ele e seus amigos artistas, que não perceberam o plano maior.

A história completa desse lendário roubo agora é narrada em O Plano Anarquista para Roubar a Mona Lisa, um estudo em formato de livro sobre esses artistas e ladrões anarquistas, desde as origens, na década de 1880 até a década de 1910, quando organizaram o roubo da Mona Lisa. Não só roubaram a pintura, a mantiveram tempo suficiente para vender seis falsificações para grandes capitalistas como JP Morgan, gerando, assim, o equivalente a mais de um bilhão de dólares em moeda atual. Uma história de crime real como nenhuma outra.

Fonte: https://thetransmetropolitanreview.wordpress.com/2026/03/13/the-anarchist-plot-to-steal-the-mona-lisa/

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

Dança da mulher molhada
Ao vento o galho
Orvalho nas pétalas.

Silvia Mera

[Bélgica] Nem guerra nem “paz”, revolução

Hoje, não podemos mais ignorar o fato de que guerras, massacres e genocídios se espalham e intensificam em todos os lugares: Congo, Sudão, Iêmen, Mianmar, Palestina, Ucrânia, Irã, Líbano, … Governos continuam inventando desculpas para bombardear: atacar para se defender, matar para proteger, atacar para libertar…

Na Europa, o discurso sobre a chamada “paz eterna” pós-Guerra Fria teve seu momento. Hoje, a propaganda militarista recomeça: soldados que vão às escolas divulgar a profissão; tem propaganda de defesa em toda parte, nas ruas, na internet e nos cinemas; a carta de Théo Francken [Ministro da Defesa e do Comércio Exterior] endereçada a todos os jovens de 17 anos convidando ao alistamento para serviço militar voluntário; conselhos sobre kits de sobrevivência; e o escambau… Em toda parte, impõem a ideia de que se deve preparar para a guerra, preparar para lutar, preparar para “perder os filhos”. A guerra é inevitável? Não dá para imaginar outra perspectiva possível?

A guerra é a fatalidade do capitalismo, não é nossa!

Porque quando o sistema capitalista está em crise, a guerra é uma das “soluções”, conferindo ao sistema econômico um mecanismo de destruição e reconstrução e de controle social.

O sistema capitalista precisa de guerra, por muitos motivos. “Assegurar” e se apropriar de territórios; controlar recursos naturais; desviar a atenção da população das crescentes tensões políticas internas e da miséria; criar “unidade” diante de um inimigo externo e estabelecer o patriotismo; disciplinar a população, inclusive marginalizando e reprimindo os considerados ameaçadores; reprimir revoluções e movimentos sociais, como, por exemplo, na Síria ou no Sudão; para justificar o fortalecimento das estruturas estatais, a vigilância e o aumento dos orçamentos militares, gerando uma “economia de guerra”, muito útil quando há períodos sem conflito no próprio território. A guerra é lucrativa. Se há alguém que sempre sai vitorioso nas guerras, é a indústria armamentista!

A guerra nunca será do nosso interesse e como o sistema não pode sobreviver sem ela, é necessária a solução: destruir esse sistema!

É essencial lutar aqui, por nossos próprios meios e na nossa escala: nos organizar sem autoridade, descentralizar a luta, nos empoderar e fortalecer as lutas contra o Estado.

Sabotar a máquina de guerra; fazer oposição às guerras dos Estados; apoiar desertores de todo o mundo; solidariedade com lutas e revoltas; atacar as indústrias de armamentos; recusar-se a participar do esforço de guerra; resistir à propaganda; espalhar ideias antimilitaristas; defender uma perspectiva internacionalista.

Diante da lei dos mais fortes, no opomos com solidariedade e ajuda mútua. Diante da ordem de defender esse sistema contra um inimigo externo, nos opomos atacando aqueles que nos oprimem. Diante da máquina da morte, lutar por uma vida de liberdade.

Nem guerra nem “paz”, revolução.

Assembleia Antimilitarista – Bruxelas

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

O peixe mergulha
do seu salto sobre a rocha:
o rio não para.

Everton Lourenço Maximo

[Itália] Irã. Desertemos a guerra!

O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã desencadeou uma escalada bélica que está incendiando a área entre o Mediterrâneo e o Golfo Pérsico.

Uma deflagração em nível global parece cada vez mais próxima.

O risco para quem se opõe ao regime teocrático iraniano numa perspectiva internacionalista, de classe e antipatriarcal é que o regime, enfraquecido após a insurreição de janeiro, se fortaleça diante dos ataques.

Os Estados Unidos e Israel não se importam nada com as aspirações de liberdade que custaram nada menos que vinte mil mortos e dez mil prisioneiros políticos àqueles que escolheram desafiar a República Islâmica.

Trump não visa uma mudança de regime que responda às demandas dos insurgentes porque lhe basta arrancar acordos favoráveis no setor energético.

O que está em jogo para os Estados Unidos é o controle dos recursos e do Estreito de Ormuz, o isolamento da Rússia, o fim do comércio de hidrocarbonetos com a China.

Israel tenta acertar contas com o Hezbollah, aproveitando-se das divisões entre os xiitas libaneses.

É uma operação arriscada, especialmente se o governo israelense não se contentar em controlar a faixa até o rio Litani, tentando uma operação terrestre mais profunda, que poderia ser muito desafiadora militarmente e geradora de novos protestos e iniciativas derrotistas no front interno. Netanyahu anda na corda bamba, com um movimento calculado para chegar às eleições em posições mais fortes. O governo do Likud e seus aliados da extrema direita religiosa aposta na expansão na Cisjordânia e na guerra para evitar uma rejeição nas urnas, que decretaria o fim político do primeiro-ministro e da atual aliança governista. No entanto, a carta da união diante de um inimigo histórico corre o risco de se desgastar, especialmente se o conflito não for breve: do norte do país, atingido por uma chuva de mísseis, milhares fogem novamente.

30% da população de Israel, a mais pobre, não tem abrigos seguros contra as bombas.

As guerras comerciais da administração Trump não surtiram os efeitos esperados, corroendo parte do apoio conquistado ao prometer o retorno à era de ouro, com os EUA novamente como centro da economia mundial.

As pesquisas indicam uma perda seca de apoio que poderia ser desastrosa nas eleições de meio de mandato.

A administração Trump, após o golpe de mão na Venezuela, joga mais uma vez a carta militar, porque é o único âmbito em que mantém uma indubitável superioridade sobre seus competidores mais fortes.

Uma aposta não isenta de riscos, como demonstram os trágicos resultados das guerras desencadeadas pelos EUA no Iraque e no Afeganistão. Países onde o poder militar estadunidense permitiu uma vitória em campo que se transformou em derrota, porque a ferocidade da ocupação militar, a ausência de aliados sólidos, que apenas massivos investimentos a fundo perdido poderiam ter garantido, levaram a retiradas que demonstram a incapacidade estadunidense de implementar seus projetos coloniais.

O Irã não é a Venezuela. Provam-no os ataques muito mais fortes e incisivos em comparação com as pantomimas realizadas durante a guerra dos 12 dias em junho passado.

Não só.

Quinze dias após o início desta nova e cruel fase do conflito, os Estados Unidos e Israel, embora tenham infligido duríssimos golpes ao aparato militar iraniano, massacrando mais de mil civis, não parecem capazes de controlar a situação. A tentativa de usar as milícias curdas iranianas foi até agora rejeitada pela recém-nascida coalizão dos partidos da área curdófona do Irã.

O caos sistêmico a que Trump provavelmente visa poderia abalar as alianças estadunidenses na área, que hoje já são menos sólidas que no passado.

Basta pensar num país como a Turquia, um aliado histórico que há tempos age por conta própria, apoiando ativamente as facções palestinas ligadas ao Hamas na Palestina, aliando-se a Al Jolani na Síria e acertando contas com a oposição curda. Hoje, a Turquia se candidata ao papel de centro da área numa chave neo-otomana, em concorrência direta com Israel.

No Irã, a oposição política e social internacionalista, de classe e anarquista se opõe à guerra. A guerra de Trump e Netanyahu não é travada em seu nome. A morte do tirano não leva ao fim da ditadura, porque só a luta de quem, desde baixo, tenta romper a ordem clerical e patriarcal, pode abrir horizontes reais de liberdade, desencadeando um processo revolucionário.

As bombas israelenses e estadunidenses massacram a população civil enquanto um regime cada vez mais sanguinário e feroz priva de comida os presos políticos e os usa como escudos humanos em bases militares.

Os anarquistas iranianos se opõem à guerra e ao regime.

Desertores e objetores de consciência israelenses apoiaram a insurreição no Irã e se opõem à guerra.

A eles vai o nosso apoio.

Em nosso país, vimos praças animadas por alguns setores de exilados exaltando o ataque de Israel e Estados Unidos ao Irã.

Em outras praças, promovidas pela variegada esquerda italiana, foram hasteadas bandeiras da República Islâmica e imagens de Khamenei.

Sinais inquietantes.

É um momento sombrio.

A Itália, há anos plataforma logística para a guerra na Ucrânia e em Gaza, hoje tem um papel nevrálgico no apoio à guerra no Irã.

As bases de Sigonella e o Muos de Niscemi têm um papel central nas operações de inteligência bélica.

A fragata de mísseis Martinengo foi deslocada para Chipre, ajudas militares foram enviadas aos países do Golfo.

O governo nega querer entrar na guerra, mas nosso país já está em guerra há anos.

Missões militares italianas estão há décadas ativas no Iraque, no Kuwait, no Líbano, em Chipre, na Palestina, no Egito, além do Mar Vermelho e do Chifre da África.

Nós desertamos.

Nós não nos alistamos ao lado deste ou daquele estado.

Nós estamos ao lado de quem, em cada canto da terra, deserta da guerra.

Queremos um mundo sem fronteiras, exércitos, opressão, exploração.

Apenas uma humanidade internacional poderá lançar as bases desse mundo de livres e iguais que pode pôr fim às guerras.

A luta pelo fechamento das bases militares italianas, estadunidenses e da Otan é hoje mais do que nunca crucial.

Desertar da guerra não é um simples slogan, mas uma prática concreta, que se fortalece na aliança transnacional de oprimidos e explorados.

Sabotemos a guerra!

A Comissão de Correspondência da Federação Anarquista Italiana

Fonte: https://umanitanova.org/iran-disertiamo-la-guerra/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

De terninho preto
Lá se vai a andorinha —
Viajante dos trópicos

Tony Marques

[EUA] Amar é resistir

Por Malik Farrad Muhammad | 19/02/2026

Em condições opressivas, o amor é resistência, pois é proibida a alegria. É igual a reféns palestinos sendo libertados, mas as famílias avisadas para não celebrar nem se alegrar; como quando pretos, demonstrando unidade, malhando em solidariedade ou compartilhando coisas na prisão, comida, higiene ou sapatos. Isso é enfatizado, até mesmo, na sala de visitas da cadeia, quando vieram me ver, com um sorriso radiante e radiante. Olhos azul-cinza sonhadores, enquanto nos abraçávamos pela primeira vez sem vidro entre nós. “Breve abraço e beijo no início e fim da visita!” Os porcos gritam. Um lembrete nada gentil de que, sem o vidro, o Estado permanece entre nós. Nós nem ligamos, enquanto ficamos nos olhando nos olhos, mãos entrelaçadas com força. É um prazer estar aqui com você, cantamos “Ceilings”, a música da Lizzy McAlpine que cantamos em dueto. Cantamos a visita inteira, os porcos pareciam confusos. “Isso é amor?” Eles nunca imaginariam que fosse. O Estado tira o amor, tranca aqueles que se apaixonam e joga fora a chave. Com isso, vai a humanidade. Então, qual é essa pureza de prazer? Qual é a pureza do canto? Estão se divertindo demais. “Não podem só conversar entre si? Esse canto é uma distração”, diz. Distraindo quem? Como? Estou confuso. Mas, por favor, pode não interromper a minha visita? É você que é uma distração. Não pode ir ficar andando de um lado para o outro na sala de visitas? Fica distraída. Você pode largar o seu emprego? Porque é distraída. Você pode derrubar esta prisão? Porque é distraída. Nem ligamos para isso também, o nosso amor continua. O mesmo acontece com o canto. “Podem ficar quietos?” “Não,” recuso categoricamente. O riso, a alegria, o amor que exalamos. Aproveitamos o tempo juntos. Cantando, falando. Falando de política, de Chicago e de foguetes. De amor. Despedaçar os porcos e o Estado ao alcance do ouvido; que sabemos que você odeia. Vamos cantar músicas rebeldes e rir alto o dia inteiro. É o nosso amor, é a nossa alegria. É uma declaração de resistência tanto quanto de fato, e que também é pura. Então, vamos cantar canções rebeldes, cantaremos alto e vamos cantar orgulhosamente, cantar por muito tempo e vamos cantar com força, até que todas as mulheres e crianças sejam livres, até que todas as gaiolas fiquem vazias, meu amor. Porque, às vezes, o ato mais radical é amar. De forma imprudente e desesperada, impotente, irresponsável. Jogando a cautela ao vento, porque o amor é desdenhoso da covardia. Amar com cautela é um ato covarde.

‘O amor só conhece um mestre, que é a paixão que faz o coração bater cada vez mais rápido.’

Malik Farrad Muhammad é escritor, artista, músico, anarquista, pai e amigo encarcerado. Por meio da arte e da escrita, Malik expõe as condições cruéis dos prisioneiros nos EUA e fala sobre a inevitabilidade da libertação por meio do amor e do relacionamento. A arte e a voz dele não só transcende os muros da prisão, como as barreiras entre nós; indo diretamente ao que significa ser humano e àquilo que devemos uns aos outros.

Fonte: https://malikspeaks.noblogs.org/post/2026/02/19/love-is-resistance/

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

A chuva tardia
deixou perfumes de terra
nas ruas molhadas.

Humberto del Maestro

A corrente que prende Maja em Budapeste é a mesma que nos acorrenta a todos: internacionalizar a luta ou morreremos um a um

Por Liberto Herrera | 17/03/2026

A  recente condenação da camarada antifascista Maja a oito anos de prisão na Hungria não é um caso isolado, nem um erro judicial. É a face visível de uma engrenagem continental de repressão que opera para criminalizar e esmagar qualquer movimento que ouse enfrentar o avanço fascista. O que vimos em Budapeste foi um julgamento-espetáculo, onde Maja foi tratada como um troféu de guerra, exibida com correntes e coleiras para servir de exemplo aterrorizante. A mensagem dos governos e suas polícias é clara: a solidariedade entre os povos e a luta antifascista serão pagas com a tortura do isolamento e o apodrecimento em celas – vide Alfredo Cospito. Mas se a nossa resposta for apenas local, estaremos jogando o jogo deles.

A repressão que atinge Maja começou muito antes de sua extradição clandestina. Ela foi gestada nas marchas neonazistas em homenagem à Waffen-SS na Hungria, protegidas por um regime de extrema-direita. Quando antifascistas, em legítima defesa da memória e da humanidade, reagiram à apologia do nazismo, desencadeou-se uma caçada internacional. Mandados de prisão, perseguições públicas e a colaboração ativa entre as polícias alemã e húngara provam o que sempre denunciamos: o Estado não é neutro. Ele é o comitê central para gerir os negócios da burguesia e, hoje, para gerir também a contenção violenta de quem se levanta contra o ódio.

A extradição de Maja, num “operação de sombra e nevoeiro”, foi um sequestro orquestrado por autoridades que se dizem defensoras do “Estado de Direito”. Até mesmo o Tribunal Constitucional Federal alemão apontou a ilegalidade do ato, mas a lei burguesa é apenas mais uma ferramenta que se descarta quando o alvo é um inimigo de classe. Maja está há dois anos em confinamento solitário, submetida a revistas íntimas humilhantes e comida podre, porque o sistema sabe que não basta prender: é preciso quebrar o espírito de quem luta. Eles a chamam de terrorista para justificar a própria barbárie.

Diante disso, a nossa posição não pode ser a de esperar por julgamentos justos ou pela boa vontade de tribunais burgueses. A justiça que condena Maja é a mesma que absolve policiais assassinos e financia regimes xenófobos. Aprendemos com a história que o fascismo não se derrota com apelos à razão das elites, mas com a força organizada das ruas. O protesto relâmpago em Bremen, no dia 4 de março de 2026, é um grito que precisa se multiplicar: ocupar as ruas sem pedir licença, furar o cerco da mídia e mostrar que, enquanto um só companheiro estiver acorrentado, a nossa luta não terá descanso.

A resposta deve ser tão internacional quanto a repressão que nos ataca. Se os governos da Alemanha e Hungria articulam-se para sequestrar e condenar uma antifascista, a nossa resistência precisa construir pontes que atravessem todas as fronteiras. Não basta acompanhar o caso de Maja à distância, com tristeza ou solidariedade passiva. É preciso transformar a nossa revolta em ação coordenada: pressionar embaixadas, denunciar nos locais de trabalho e estudo, e, acima de tudo, fortalecer as redes que conectam as lutas de Lisboa a Budapeste, de Macau a São Paulo. O inimigo tem o poder dos Estados; nós temos a capacidade de tecer alianças que eles jamais conseguirão controlar totalmente.

Que a imagem de Maja acorrentada se transforme em combustível para a nossa organização. Cada dia de sua prisão injusta é um dia a mais para mostrarmos que o fascismo não passará e que o anticapitalismo é a trincheira necessária para derrotá-lo de vez. A liberdade de Maja é a nossa liberdade. E ela virá não da misericórdia dos algozes, mas da pressão implacável de uma classe que se reconhece unida na luta. Liberdade para Maja e para todos os presos políticos! Que os nazistas e seus cúmplices nos governos preparem-se: não terão sossego enquanto houver um antifascista atrás das grades. A nossa resposta será a greve, o protesto e a solidariedade sem fronteiras.

Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/03/17/a-corrente-que-prende-maja-em-budapeste-e-a-mesma-que-nos-acorrenta-a-todos-internacionalizar-a-luta-ou-morreremos-um-a-um/

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agência de notícias anarquistas-ana

Sob a névoa fria,
O cemitério da vila
Cercado de ciprestes

Paulo Franchetti