
A Comuna de Paris, viva e polarizadora
Um novo livro sobre a Comuna de Paris. Embora escrito por Michel Winock, o que podemos aprender de novo sobre este evento histórico? O essencial e o desenrolar dos acontecimentos são conhecidos, os atores também… E no entanto. Antes de mais, a publicação de uma obra sintética sobre o assunto, cujo autor sabe dar sentido aos fatos e discursos, é sempre de saudar. A coleção da Gallimard que acolhe o livro, “Os dias que fizeram a França”, sabe englobar um dia no seu contexto político e social, vamos aquém e além do 18 de março de 1871 para analisar a guerra civil dos Franceses, conforme o subtítulo. Poderíamos lamentar a escolha da ilustração na capa: a queda da coluna Vendôme. Era realmente isso que deveria ser lembrado destes 72 dias da Comuna de Paris? Felizmente, Michel Winock eleva-se na sua análise, mesclando anedotas, discursos e reflexões. Um leitor pouco familiarizado com os acontecimentos encontrará ali o seu contentamento, uma base para avançar em direção aos testemunhos e outras análises.
A Comuna de Paris, de 18 de março a 28 de maio de 1871, ostenta um triplo rosto: republicano, operário e patriótico; ela intervém numa França dilacerada e para além dos fatos e dos anos. Para nossa grande surpresa, ainda hoje, por ocasião da sua 150ª comemoração, eleitos e militantes de direita e extrema-direita se desencadearam para denunciar no Conselho de Paris, na rua, nas redes sociais os pseudocrimes dos Federados ou comunardos. O azedume persistente da reação!! A destacar também o anexo do livro que reproduz excertos de manuais escolares sobre a Comuna.
Paris, o acampamento das revoluções
Primeiro contributo do livro: evocar os anos anteriores. O século XIX, entre a queda de Napoleão 1º em 1815 e a do seu sobrinho em 1870 em Sedan, é um pouco confuso na mente dos leitores. Império, Restauração, as diferentes formas de monarquias, República, novamente Império… as revoluções de 1830, de 1848… Michel Winock sintetiza estes anos com a ascensão do movimento operário e socialista, o lugar da burguesia e o desenvolvimento de uma economia ultrajante, exploradora dos proletários. As manobras de Adolphe Thiers ainda precisam ser analisadas. Ele, de quem Chateaubriand considerava que “compreendia tudo exceto a grandeza”, ele que qualificava o povo de “vile multidão”, ele que empreenderá uma luta de morte contra esta, apesar dos apelos à negociação e ao compromisso. Thiers é o responsável direto pela morte de milhares de Parisienses, pela destruição de bairros, infraestruturas, para o maior alívio da burguesia versalhesa. Mas não só, a clivagem da sociedade também é entre o mundo agrícola, provincial, e o mundo urbano. As cidades são republicanas, os campos monárquicos, legitimistas. Na própria Paris, as distinções sociais tornam-se também topográficas. Entre a capital e a província, o divórcio é cultural, político, social, econômico, uma das razões pelas quais a Comuna de Paris não conseguirá estender a sua ação.
Após o cerco de 1870-1871 e os sacrifícios sofridos, a inépcia dos militares, incluindo Trochu, os Parisienses não suportam o armistício e a paragem dos combates. Thiers desconfia deles e quer retomar os canhões, desarmar a Guarda Nacional. É o caso dos canhões de Montmartre. A insurreição está em marcha e, como havia proposto em 1848 a Luís Filipe, ele evacua Paris para a reinvestir pelas armas e punir este povo que despreza. Michel Winock expõe claramente este contexto, o que poderia ser um feito mais que arriscado.
É a confusão na capital. Os Federados não estão prontos. Os membros da Associação Internacional dos Trabalhadores, como Varlin, Malon, têm algumas ideias, mas como estruturar uma administração para gerir Paris? Eles são muito legalistas e querem eleições, em 26 de março. Três componentes emergem: Republicanos (Delescluzes), blanquistas (Vaillant), proudhonianos, AIT (Beslay, Courbet). Winock dá a lista completa acompanhada de uma curta biografia.
Agir sob o fogo dos versalheses
Sob o fogo dos versalheses e sempre na defensiva após o fracasso da saída de Rueil e Clamart, em 3 de abril, eles vão reativar os serviços, impulsionar princípios (separação da Igreja e do Estado), inovar no ensino, na gestão das empresas, no direito do trabalho. Alguns consideram que estes elementos não foram de grande utilidade e, no entanto, basta reler o programa da Comuna de 19 de abril para avaliar a sua lucidez.
Michel Winock evoca a vida em Paris com um ar de festa, os debates nos clubes, o lugar das mulheres, a liberdade de imprensa com O Grito do Povo de Jules Vallès (100 000 exemplares). Infelizmente, a confusão e as rivalidades nas diferentes instâncias, as traições desferem golpes fatais na Comuna. Evidentemente, a Semana Sangrenta foi medonha e o número exato de vítimas é para sempre desconhecido (entre 17 000 e 30 000, sem contar os mortos na deportação, nos pontões).
Esta Comuna de Paris encerra o ciclo das revoluções em França, torna-se um mito universal e abre espaço ao debate, nomeadamente entre Marx e Bakunin. Após a anistia de 1880, alguns reinvestem-se no combate político, uma maneira de sublinhar que a Comuna está viva e este livro demonstra-o.
• Michel Winock
A Comuna
A guerra civil dos Franceses
Ed. Gallimard, 2026
Fonte: https://monde-libertaire.net/?articlen=8816
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
Nas bodas de prata
retornando à terra natal –
flor de laranjeira!
Teruko Oda















Discordo de chamarem aos regimes políticos onde existem eleições de "democráticos". Representatividade não é democracia. E regimes representativos, são elitistas;…
O conceito de liberdade como prática cotidiana e resistência constante às cercas — seja do Estado, do capital ou das…
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
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