[Espanha] Disponível o último número de “Asturies”

Já se encontra disponível o número 16 (Primavera, 2026) de Asturies, projeto de contrainformação anarquista que continua seu trabalho de análise e agitação desde Astúrias. Sob o título principal “Crisis ambiental y transición enerxética” (Crise ambiental e transição energética), esta nova edição põe o foco na falsa saída do “capitalismo verde” e a necessidade de uma defesa da terra desde uma perspectiva de classe e de confronto.

Em suas páginas, este número oferece conteúdos de grande atualidade para as lutas sociais na região e fora dela: análise sobre o movimento francês As sublevações da terra e a urgência de um ecologismo social; uma crônica sobre o impacto dos polígonos eólicos nas zonas rurais; detalhes sobre a vitória de moradores na central térmica de La Pereda (Mieres); e informação sobre a resistência de moradores contra a mineração em Peñamayor.

O jornal Asturies é um meio libertário que tem como objetivos expandir as práticas e teorias anarquistas, assim como oferecer informação e análise da realidade desde uma ótica libertária e anticapitalista.

Como meio de informação, trata de combater a propaganda burguesa e como meio contra todo poder não dá a palavra às instituições nem às organizações relacionadas com o Estado ou o capital; ao contrário, dá a palavra aos movimentos e organizações sociais e aos protagonistas das lutas obreiras.

Asturies é formado por um grupo de pessoas pertencentes ao mundo libertário. O meio funciona de maneira assembleária e autogestionada. Seus recursos provêm dos esforços individuais de seus integrantes e das colaborações de outras pessoas que desejam sustentar a imprensa libertária.

Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/03/30/disponible-el-ultimo-numero-de-asturies/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

O luar no mar.
Um peixe salta, enlevado,
banhado de prata.

Jacy Pacheco

[México] Breve relato do Encontro de Rádios, Podcast e Audiovisuais Anarcopunks

No sábado passado (04/04) realizou-se este Encontro de Rádios, Podcast e Audiovisuais nas instalações da Biblioteca Libertaria La Social, onde vários compas se reuniram para conhecer e mostrar seus projetos.

Foram todos os compas que confirmaram sua participação: Asko Radio, Semilla Negra Radiofónika, Amenaza Menor, Zineantena, Ya Puso La Puerka Radio e também se somaram os compas de Axolote Radio. A todos eles damos nosso mais sincero agradecimento.

Falamos de muitos temas, tanto do âmbito técnico, os objetivos de cada um, e as diversas experiências. Com este encontro podemos nos coordenar para trabalhar aqui e acolá, e seguir difundindo as ideias de rebelião, anarquia e ruptura punk.

Terminando tivemos um agradável momento de convivência, risos e anarquia. Também em alusão à convocatória outras rádios nos compartilharam seus projetos, os quais vamos difundir neste espaço. Desta vez não puderam estar conosco, mas esperamos que para a próxima possamos vê-los e conhecê-los.

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/31/mexico-encontro-de-radios-podcasts-e-audiovisuais-anarkopunks/

agência de notícias anarquistas-ana

ave calada –
ninho em silêncio
na madrugada

Carlos Seabra

[Itália] 91 detidos sem crime: o modelo Meloni é a repressão preventiva

Recebemos de um companheiro advogado da Rede de Resistência Legal este comunicado. Ao final do artigo, alguns links de referência.

A Rede de Resistência Legal acusa: a detenção preventiva está sendo usada para neutralizar o dissenso e transformar ideologia em culpa.

Diante da detenção preventiva determinada contra 91 pessoas, consideramos necessário intervir. A história mostra que as medidas emergenciais tendem a se transformar em instrumentos ordinários de controle social, corroendo progressivamente as garantias fundamentais.

Os fatos

No dia 29 de março de 2026, foi aplicado o art. 11-bis do decreto-lei 59/1978, introduzido pelo recente decreto de segurança. Numerosas pessoas foram conduzidas a delegacias e detidas por horas, enquanto pretendiam participar de uma homenagem pacífica em memória de dois ativistas falecidos, portando apenas flores.

A detenção foi adotada de forma generalizada contra todos os participantes, não sendo verificáveis os pressupostos para a aplicação da medida – que é uma medida atípica adotada no âmbito das competências de segurança pública e, como aquela do art. 11, está desvinculada da prática de um crime.

As razões da detenção parecem basear-se exclusivamente na (suposta) adesão ideológica dos participantes ao anarquismo e na violação de uma proibição do Chefe de Polícia, motivada em termos incompatíveis com os princípios constitucionais de liberdade de pensamento.

A iniciativa, de fato, foi proibida por ser considerada “em contraste com os valores da convivência civil e democrática, dada a inclinação ideológica do anarquismo contra a ordem constituída…”.

A detenção, no entanto, exige para sua aplicação que exista motivo fundado para acreditar que as pessoas detidas possam realizar condutas capazes de gerar perigo concreto para o pacífico andamento da manifestação, a ser avaliado com base em circunstâncias específicas de tempo e lugar (posse de armas, instrumentos para disfarce, artefatos pirotécnicos, etc.). Elementos absolutamente ausentes no caso em questão.

Também o requisito de antecedentes criminais ou policiais, necessário para a aplicação da medida, não parece ter sido verificado (nem verificável) no momento da detenção, exigindo averiguações individuais incompatíveis com intervenções indiscriminadas e imediatas.

O recurso à detenção, então, parece ter sido destinado unicamente a impedir a homenagem, por meio de um uso generalizado e distorcido do instrumento (que, segundo a letra da lei, visa proteger o pacífico andamento das manifestações).

O vazio de garantias

A detenção preventiva apresenta graves problemas no plano das garantias: não há qualquer controle judicial, nem preventivo nem posterior. Configura-se assim uma compressão da liberdade pessoal na ausência de devidas tutelas, em contraste com os princípios constitucionais do direito de defesa, da proteção contra atos da administração pública e da reserva de jurisdição. Além disso, a aplicação com as modalidades que testemunhamos não faz mais do que afirmar uma lógica de “pena do suspeito”, que permite limitações da liberdade sem comprovação de responsabilidade. Não é segurança: é a lógica do “direito penal do autor” que retorna, contornando todas as garantias processuais e transformando uma avaliação abstrata em privação concreta da liberdade.

Uma escolha política

Causa impacto que tenha sido proibida uma simples homenagem, expressão de piedade e memória, em vez de regulamentá-la com eventuais prescrições. Ainda mais significativo é que tal ação tenha sido objeto de uma intervenção específica da presidente do conselho [de ministros], diante de questões sociais e econômicas muito mais graves.

Por outro lado, experiências passadas nos lembram como medidas emergenciais são frequentemente experimentadas em esferas de dissenso político, transformadas em laboratórios de práticas repressivas.

O papel da advocacia

Como advogadas e advogados engajados na defesa dos direitos, inclusive daqueles que praticam o dissenso, consideramos necessário tomar posição.

A função defensiva não é neutra: é salvaguarda das garantias constitucionais.

É por isso que, mesmo na ausência de remédios imediatos, promoveremos iniciativas de tutela e estratégias de enfrentamento diante daquilo que se apresentam como violações da liberdade pessoal e do direito de manifestação. Convidamos a sociedade civil e a comunidade de juristas a se manifestarem: nosso papel impõe a defesa ativa dos princípios fundamentais.

A liberdade pessoal não se negocia em nome da emergência: permanece inviolável, e nosso compromisso em protegê-la é tanto político quanto técnico.

Rede de Resistência Legal

Fonte: https://umanitanova.org/91-fermati-senza-reato-il-modello-meloni-e-la-repressione-preventiva/

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/04/01/governo-italiano-aplica-prisao-preventiva-a-91-anarquistas-para-impedir-uma-homenagem-a-dois-militantes-mortos/

agência de notícias anarquistas-ana

À beira do lago
aliso o brilho da lua
com as mãos molhadas

Eunice Arruda

[França] Notícias vindas das prisões cubanas

Por Floréal | 06/04/2026

Cuba não é apenas um dos países com maior número de prisões e presos em relação à população¹, mas também um dos países com maior número de mortes sob custódia.


Sete cubanos morreram na prisão em fevereiro de 2026, elevando o número de mortes nos dois primeiros meses do ano para 12, segundo a ONG Cubalex, uma das organizações dedicadas aos direitos humanos em Cuba e às suas violações pelo regime político da ilha.


Esses números são alarmantes porque, se a tendência continuar nesse ritmo, o número de 41 mortes registradas em 2025 provavelmente será amplamente superado.

As negociações entre o Vaticano e o regime de Castro levaram este último a anunciar a libertação de 51 presos políticos em março. No entanto, nenhuma das organizações humanitárias que monitorizam de perto as admissões e libertações de presos em Cuba confirmou ainda que esse número de libertações tenha sido atingido. Apenas 27 detidos foram libertados até agora. Simultaneamente à libertação destes 27 presos, o regime deteve 14 participantes no protesto ocorrido em Morón, na província de Ciego de Ávila, a 14 de março. Entre eles, dois menores de 16 anos, Jonathan David Muir Burgos e Christian de Jesús Crespo Álvarez. O Vaticano, tal como todos os outros Estados, manteve-se em silêncio sobre estas novas detenções.

Na quinta-feira, 2 de abril, o governo cubano anunciou o indulto de 1.200 presos em todo o país. Os elegíveis para o indulto foram excluídos da lista de autores de certos crimes e delitos, especialmente daqueles que cometeram crimes contra as autoridades. Essa é precisamente a acusação sistematicamente feita contra os presos políticos. Isso implica claramente que a decisão não se aplicará a eles, mas apenas a criminosos comuns.

Até hoje, Cuba ainda tem pouco mais de 1.200 presos políticos e pouco menos de 90.000 presos comuns, espalhados pelas 242 prisões da ilha (!).


[1] Há aproximadamente 90.000 presos em Cuba para uma população de 10 milhões. Em comparação, e sem a intenção de usar a França como exemplo — longe disso —, há 83.500 pessoas detidas aqui para uma população sete vezes maior.

Fonte: https://florealanar.wordpress.com/wp-content/uploads/2026/04/justicia-llopiz-casal.png

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/09/20/um-relatorio-contundente-sobre-as-prisoes-de-cuba/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/09/18/cuba-prisioneiros-sao-forcados-a-trabalhar-como-escravos-para-produzir-exportacoes-para-a-europa/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/10/09/cuba-prisao-e-escravidao-moderna-no-paraiso-dos-trabalhadores/

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o dia abre a mão
três nuvens
e estas poucas palavras

Octavio Paz

[Rússia] O livro de Petr Ryabov, “Três palestras sobre Mikhail Bakunin: personalidade, obra, legado”, foi publicado.

O livro, publicado pela Directio_Libera, pode ser encomendado através do serviço planeta.ru, bem como pela editora Black Square (https://t.me/BlackSquarePublishing/).

Quem é Petr Ryabov?
 
Petr Ryabov é um anarquista russo, filósofo, pesquisador da história e das ideias do anarquismo, doutor em filosofia e professor adjunto do departamento de filosofia da Universidade Pedagógica Estatal de Moscou Lenin. Seu livro contém uma transcrição editada das palestras do autor sobre Mikhail Bakunin.
 
Por que todo mundo que pensa livremente deveria ler esse livro?
 
Nela, Bakunin aparece não como uma figura clássica, mas como um pensador cuja filosofia era inseparável da prática da luta revolucionária. Opondo-se à ideia de reformar as instituições existentes, Bakunin apelava à sua completa abolição. As ideias que provocavam a rejeição dos governantes da sua época continuam a ser objeto de debate animado ainda hoje.
 
O arco de palestras que serviu de base para este livro foi um fenômeno notável no meio intelectual de Moscou. Agora, os leitores têm a oportunidade de conhecer sua versão impressa.

agência de notícias anarquistas-ana

Ao longo da estrada:
“A próxima descida trará
Mais quaresmeiras em flor!”

Paulo Franchetti

Você sabia?

Que, “democraticamente”, o governo Lula 3, através do Ministério da Defesa liderado por José Múcio, torrou R$ 1,27 bilhão na compra de mísseis anticarros ou antitanques (ATGM) e veículos blindados entre 2023 e 2026? Segundo eles, para “fortalecer a defesa nacional frente a tensões regionais”.

Contra uma sociedade que precisa de militarismo,

contra a “paz” dos governantes,

contra a normalidade da lógica militarista,

contra a propaganda e os gastos militares,

contra todos os exércitos!

Rebele-se!!!

Anarquistas Antimilitaristas <

agência de notícias anarquistas-ana

A cerca caída:
o gado bebe no rio
que não tem dono.

Liberto Herrera.

[Uruguai] A cultura anárquica do comum

O fundo de um imaginário coletivo subversivo

Comecemos por uma obviedade: no capitalismo, os assuntos comuns geralmente não são resolvidos pelas próprias pessoas envolvidas. Embora as relações hegemônicas em nossa sociedade — aquelas que configuram os modelos sociais dominantes — sejam estruturadas com base na dominação política, elas não são, no entanto, as relações majoritárias. As relações majoritárias são aquelas que poderíamos chamar, em termos políticos amplos, de relações anarquistas, isto é, relações não mediadas pelo mando-obediência.

Em nosso cotidiano, participamos mais da criação comum de regras (explícitas ou não) do que da elaboração de leis e assumimos mais responsabilidades do que ordens. Isso não costuma ser pensado dessa forma, é claro, nem mesmo por quem nos acompanha. Para a maioria das pessoas, a afirmação aristotélica de que no mundo sempre algo manda e algo obedece parece incontestável.

Essa preeminência atribuída às relações baseadas na dominação funciona dentro de um paradigma da dominação justa que permeia quase toda a filosofia política, salvo raríssimas exceções. Segundo esse paradigma, as relações de dominação, as chefias, são inevitáveis. Não importa se para sempre, dado que “o ser humano é o lobo do ser humano”, ou apenas por um período, enquanto se conduz pelo “caminho da verdade”; a dominação política seria justa e necessária.

Essa visão, contestada repetidas vezes pelas ideias e práticas dos espaços de auto-instituição, costuma invisibilizar a multiplicidade de relações existentes. E é justamente nessa multiplicidade que podemos nos apoiar para romper seus pressupostos instituídos. Embora invisibilizada, a auto-instituição — essa série de processos por meio dos quais o comum é produzido e sustentado sem mediações hierárquicas — é parte fundamental das lutas antagonistas e do cotidiano das comunidades.

Na política, porém, não houve nem há maior medo do que do que o de baixo é capaz: a ralé, a plebe, os pobres. A ideia da necessidade de representação da vontade e de chefia encontrou sustentação, repetidas vezes, nesse medo. Mesmo para grande parte da crítica ao populismo atual, o verdadeiro problema, como se se tratasse de uma essência maligna, um monstro adormecido, reside nas classes subalternas. O “pecado” dos partidos populistas, nesse caso, seria exacerbar, liberar esse mal.

Para rejeitar toda visão elitista e paralisante, que transforma o anárquico em patrimônio de uma minoria iluminada, precisamos revisar as noções a partir das quais nos pensamos. Hoje, inclusive em nossas iniciativas, parece haver menos clareza — ou acordo — sobre o que exatamente defendemos.

Duas formas de entender o comum

A uma concepção identitária de comunidade — entendida como um conjunto estável de características compartilhadas por um grupo humano, em última instância, uma propriedade comum — opõe-se uma noção mais ampla, entendida como um modo de ser em comum. Nessa concepção mais dinâmica e relacional de comunidade, as pessoas não são meras receptoras passivas de uma propriedade, mas parte fundamental de um processo contínuo e coletivo de construção. Portanto, a comunidade não é nada exterior, nada “fora” das próprias pessoas. Tampouco é entendida como um bem de propriedade imutável que deva ser defendido.

Em vez disso, a comunidade surge por meio das relações nas quais as pessoas instituem o comum e nas quais, ao mesmo tempo, essas mesmas relações as instituem. Instituir refere-se, então, aos processos pelos quais as pessoas sustentam a vida coletiva: atribuem-lhe sentidos, protegem-na e organizam sua continuidade. Agir como se todos esses processos pertencessem de alguma forma ao Estado — isto é, identificar sociedade com Estado — é tão equivocado quanto pensar que eles estão livres da ingerência dos modos estatais.

O paradigma político identitário, assim, reproduz uma visão bastante limitada dos processos e do papel das pessoas na criação do comum. Embora, no processo de instituição conjunta do real, o novo não surja do nada, mas do previamente instituído, tampouco é jamais a reprodução exata do que já existe. Cada pessoa, ao se relacionar com o e com as demais, recria o mundo, sempre o modificando. O novo emerge inevitavelmente, ainda que transformar de raiz o que foi historicamente instituído não seja algo fácil.

O comum nunca é algo estático, alheio ou superior às pessoas que o compõem, como pretende a visão identitária. O comum é uma copresença, um estar-juntos, um compartilhar que se torna responsabilidade ética diante das outras pessoas. Parece óbvio, mas o fato de as pessoas viverem juntas significa que estão implicadas umas nas outras, e não apenas lado a lado. Essa visão distorcida de como o real é instituído incide na reprodução da ordem atual ao gerar uma ideia que nos desvincula do processo.

Alteridade e coimplicação

No paradigma identitário, além disso, a alteridade — toda relação com o outro — é tomada como um processo negativo. A relação não é produtiva, mas sempre uma relação de contenção. Ao papel passivo na construção do comum atribuído às pessoas soma-se a interpretação da interação social como um conflito contínuo entre indivíduos negociando sua sobrevivência.

Essa ontologia individualista, majoritariamente associada à ideia liberal — sujeitos independentes ou, no máximo, relações intersubjetivas — não consegue descrever adequadamente as relações entre as pessoas. Mesmo quando se afirma que da negação do outro possa surgir algo posteriormente positivo, a visão dos limites é sempre negativa. Isso levou à interpretação equivocada de que o anarquismo seria apenas uma reação especular ao poder político instituído. Esse erro explica, ao menos em parte, um falso antagonismo e um reducionismo entre a capacidade destituinte e instituinte dos movimentos antagonistas e antiautoritários.

No entanto, é possível conceber a alteridade a partir de outro ponto de vista, que suponha uma experiência diferente do limite. Não estamos obrigados a sobreviver aos outros; nossa singularidade, nós mesmos, emergimos de uma vasta série de relações — não apenas de negação — que estabelecemos com eles. Ao contrário do que dizem aqueles que incitam o medo do outro, as demais pessoas são a própria condição de possibilidade de todos os nossos desenvolvimentos possíveis, bons e maus. Quem nos cerca é parte do que somos e, na alteridade, ampliamos ou diminuímos nossas próprias potências.

A relação entre os sujeitos e o meio, portanto, é de coimplicação e cofuncionamento, não de separação ou mera negação. O comum é o que surge nessa relação. Pensar a comunidade e suas relações a partir da diferença e da alteridade desafia certa pretensão autoritária de uniformidade e homogeneidade das comunidades.

Uma figuração anárquica do comum

Ao abandonar a ideia de uma alteridade sempre negativa e de sujeitos substanciais, podemos enfrentar o desafio de pensar o comum como condição mesma dos desenvolvimentos coletivos antiautoritários, ali onde a diferença se torna produtiva. O comum é o terreno de conflito e a condição de possibilidade da criação anárquica: a auto-instituição. A singularidade e a vitalidade desse tipo de criação residem em práticas que prescindem tanto de qualquer chefia externa ou interna quanto de qualquer forma de representação ou passividade.

A cultura do comum deve enfatizar o caráter contingente, relacional e transformador do estar-juntos. A contingência própria do que é vivo reforça a proposta. Na prática, a auto-instituição, por sua vez, supõe a rejeição da representação e de qualquer vínculo com princípios abstratos universais colocados acima das pessoas. Portanto, embora propostas de todo tipo sejam importantíssimas, não há espaço para modelos de pretensão universalista que busquem substituir os envolvidos ou abarcar toda a complexidade social.

Uma figuração anárquica da cultura do comum pode irromper no imaginário coletivo como a afirmação e o máximo possível de ampliação das potências coletivas.

Instituir a diferença

Não é preciso se preocupar com o comum, no sentido de que ele simplesmente já existe; mas sim com as possibilidades que se abrem ao pensá-lo de maneira diferente. Por que insistir em uma ideia de alteridade que não reconhece as infinitas possibilidades da interação? Por que apegar-se a um elitismo que reduz a anarquia ao excepcional?

O antagonismo entre construção e destruição é falso. O anarquismo não pode ser reduzido à simples negação ou reação especular da ordem instituída que, embora o condicione, não pode determiná-lo. Na prática, a negação, como destruição parcial ou total do mundo instituído, é indissociável da instituição, ao mesmo tempo, de outros mundos. Mesmo na perspectiva insurrecional, não há fim do capitalismo sem mais “instituições anarquistas”, ou seja, sem generalizar esse sustentar a vida coletiva em chave antiautoritária. Portanto, rejeitar a necessidade da projeção anárquica equivale já a fracassar.

Ao mesmo tempo, o anarquismo tampouco pode ser reduzido a uma construção paródica em que, de algum modo, se vive um ideal futuro. As práticas anárquicas afirmam e ampliam potências comuns, transformações e conflitos no presente. A projeção dos movimentos, o impulso projetual das capacidades do de baixo, não supõe criar modelos únicos nem combater monstros com monstros. A criação auto-instituinte é sempre provisória, aberta e mutável. É o terreno de combate do possível.

O que defendemos não pertence ao futuro, não é abstrato, nem está fora ou acima de nós. Não há anarquismo sem sujar as mãos; a luta por generalizar a auto-instituição do comum não garante resultados, mas justamente por isso torna tudo possível.

Regino Martinez

Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/01/21/la-cultura-anarquica-de-lo-comun/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

greta no muro –
dois olhos ao fundo,
lá no escuro

Carlos Seabra

[Chile] O Sol Ácrata N°2 (exemplar 75), Abril de 2026

EDITORIAL: ALERTA, ALERTA! Escrito por Nekro

A ascensão de José Antonio Kast à presidência do Chile não é uma simples mudança de governo. Não é uma alternância eleitoral dentro da democracia. É o sinal de que o regime neoliberal chileno entra em uma nova fase de endurecimento.

O fascismo não chegou ao Chile marchando com uniformes nem levantando bandeiras nas ruas. Chegou como costuma fazer no século XXI: sentado nas instituições, falando a linguagem da segurança, da ordem e da reconstrução nacional. Isso não acontece por acidente. O fascismo aparece quando o sistema econômico perde legitimidade e as elites precisam restaurar o controle social. Esse é o Chile em que Kast chega. Não o país do otimismo neoliberal dos anos 1990 nem o “jaguar da América Latina” que durante décadas foi vendido pelas elites. Ele chega a um país fraturado e exausto por um modelo que prometeu prosperidade enquanto concentrava a riqueza. O Chile que recebe Kast é um país endividado. Um país onde milhões sobrevivem pagando créditos para estudar, viver ou adoecer. Um país onde trabalhar já não garante viver. As aposentadorias condenam à pobreza. O custo de vida aumenta enquanto os salários mal dão conta. E quando um país chega a esse ponto, a raiva explode. A Rebelião Social de 2019 foi a maior crise política do modelo neoliberal desde sua instalação durante a ditadura. Milhões de pessoas foram às ruas e questionaram a ordem econômica e política que governou o Chile durante décadas. Durante semanas, o país inteiro tremeu. O mito da estabilidade chilena desabou diante dos olhos do mundo. Mas o regime não caiu. O poder reagiu como sempre faz quando seu domínio é desafiado: primeiro com repressão, depois com uma saída institucional destinada a conter a revolta. O processo constitucional foi apresentado como transformação. Mas acabou funcionando como um mecanismo para esfriar a mobilização sem alterar as estruturas profundas do modelo.

O resultado foi uma sociedade que continua vivendo sob as mesmas condições de precariedade, mas agora com uma frustração política muito mais profunda. Esse é o país em que Kast chega ao governo: um país onde o mal-estar social persiste, mas onde o cansaço, a desconfiança e o medo começaram a ocupar o espaço que antes era ocupado pela esperança de mudança.

É nesse terreno que crescem os projetos autoritários. O fascismo não surge apenas do ódio. Surge do medo das elites de perder o controle quando o consenso que sustentava o sistema começa a se romper. Quando as instituições perdem legitimidade e a crise social se aprofunda, o poder começa a falar a linguagem da ordem, da segurança e da disciplina. Kast encarna precisamente essa resposta. Seu discurso não fala de desigualdade estrutural nem do fracasso do sistema de aposentadorias. Não fala do endividamento que domina a vida cotidiana de milhões de pessoas. Fala de segurança, de ordem e de restaurar a autoridade do Estado. Essa linguagem não é nova. É a linguagem que historicamente aparece quando o sistema precisa se defender. Suas primeiras decisões como presidente mostram claramente para onde seu governo está indo. Apenas seis dias depois de assumir o cargo, apresentou o chamado Plano de Reconstrução Nacional, um pacote econômico que promete crescimento, emprego e estabilidade. Mas por trás desse discurso aparece algo conhecido: o aprofundamento do mesmo modelo neoliberal que produziu a crise social do país. Redução de impostos para as empresas, subsídios estatais para reduzir custos trabalhistas, eliminação de regulamentações para acelerar projetos de investimento e incentivos fiscais para reativar o mercado imobiliário.

A receita é conhecida. É a mesma lógica que governou a economia chilena por mais de quarenta anos: crescimento baseado na expansão do capital privado com a promessa de que seus benefícios um dia chegarão ao resto da sociedade. O problema é que esse “um dia” nunca chegou. A desigualdade continua lá. A precariedade continua lá. O endividamento continua lá. O conflito social que estourou em 2019 continua latente sob a superfície.

O que muda agora é a forma de administrar esse conflito. Quando o consenso neoliberal deixa de ser suficiente para sustentar a estabilidade política, o sistema começa a se endurecer. A linguagem do crescimento econômico se mistura com a da ordem e da segurança. A promessa de prosperidade se combina com a expansão do controle social. É isso que estamos vendo hoje. Kast não inaugura um novo sistema político. Ele representa a fase autoritária de um modelo econômico que tenta sobreviver à sua própria crise.

Por isso, este momento exige clareza. O fascismo não entra em uma sociedade se anunciando como fascismo. Ele entra prometendo estabilidade, segurança e ordem contra o caos. Mas sua função sempre foi a mesma: proteger um sistema econômico que já não pode se sustentar apenas pelo consenso. O Chile entra agora em um novo ciclo político. Um ciclo onde o poder tentará restaurar o controle social enquanto o mal-estar que sacudiu o país há poucos anos continua sem encontrar uma saída real.

A pergunta já não é se o conflito social voltará. A pergunta é quando. E também o que faremos nós. O antifascismo não nasce nos parlamentos nem nos discursos institucionais. Nasce na sociedade organizada: nos bairros, nos territórios e nos espaços onde as pessoas voltam a se reconhecer como força coletiva.

Porque todo sistema de dominação depende, em última instância, da obediência daqueles que o sustentam.

E essa obediência nunca está garantida.

PARA LER, BAIXAR E PROPAGAR ESTE NÚMERO:

https://periodicoelsolacrata.wordpress.com/wp-content/uploads/2026/03/el-sol-acrata-nc2b02-ejemplar-75-quinta-epoca-abril-de-2026.pdf

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Um pombo no mar
traz ao bico verde ramo:
terra à vista?

Anibal Beça

15 perguntas à Frente Anarquista no Irã e no Afeganistão

Respostas às perguntas de “Maciej Augustyn”, um camarada anarquista na Polônia sobre o movimento anarquista no Irã e no Afeganistão.

1 – O movimento anarquista no Irão é de nicho e fragmentado, concentrando-se sobretudo nas cidades universitárias? E qual o nível de atividade na diáspora?

O movimento anarquista no Irã é jovem. Foi apenas nos últimos anos que o anarquismo dentro do território iraniano se desenvolveu num movimento propriamente dito. Foi também apenas nos últimos anos que alguns livros anarquistas foram oficialmente traduzidos para persa e receberam permissão para publicação no Irã.

Dito isto, o movimento está mais disseminado geograficamente do que os observadores externos poderiam esperar. De acordo com pesquisas que realizamos no Twitter e no Telegram, os anarquistas estão presentes em todas as 31 províncias do Irã, desde pequenas cidades a grandes metrópoles, por todo o território do país. O movimento está em todo o lado, mesmo que nem sempre seja visível.

Devido às condições de severa repressão no país, o movimento anarquista tem operado de forma cada vez mais descentralizada. Esta descentralização não é uma fraqueza, mas sim uma estratégia de sobrevivência. Somos a única organização anarquista com aproximadamente 17 anos de atividade organizada contínua. Começamos em 15 de agosto de 2009, fora do Irã, sob o nome de “Voz do Anarquismo”. De 2011 a 2014, reorganizamo-nos sob o nome de “Rede Anarquista”. A partir de 2013, operamos o site Asranarshism. Depois de camaradas do Afeganistão terem se juntado a nós em 2015, fundimos todas as atividades no coletivo Asranarshism. Em 2018, juntamente com outras duas organizações anarquistas, uma no Irã e outra no Afeganistão, fundimos a União Anarquista do Afeganistão e Irã. Em 2020, esta passou a fazer parte da Federação da Era do Anarquismo. Em meados de abril de 2025, a Federação foi efetivamente dissolvida. Preservamos as suas páginas como um arquivo, em parte como um registro da nossa história e em parte para impedir que alguém usasse o nome enquanto as páginas permanecessem inativas. Desde 30 de abril de 2025, operamos sob o nome Frente Anarquista, com foco nas geografias do Irã, Afeganistão e região circundante.

Não temos o desejo de expandir a nossa força organizacional num sentido institucional convencional. O nosso foco está na qualidade e profundidade da nossa organização, e não no crescimento.

Sobre a diáspora: a nossa situação é oposta à da maioria das outras forças de oposição iranianas, cuja base principal está fora do país. No nosso caso, as nossas raízes e presença primária estão dentro do Irã. Fora do Irã, o número de anarquistas ainda não é grande.

>> Leia a entrevista na íntegra aqui:

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2026/04/06/15-perguntas-a-frente-anarquista-no-irao-e-no-afeganistao/

agência de notícias anarquistas-ana

Tempo destinado
a esfregar e descorar
nódoas do passado.

Flora Figueiredo

[EUA] Marius Mason será transferido para uma casa de transição em 4 de maio

O prisioneiro político Marius Mason, conhecido por sua arte, seu ambientalismo, seu anarquismo e sua defesa das pessoas trans, entre outras coisas, está com previsão de deixar a prisão em maio de 2026 para ir a uma casa de transição em Detroit.

Neste momento, não sabemos quais restrições serão impostas, nem por quanto tempo. Reconhecemos as muitas pessoas que defenderam, apoiaram e trabalharam para tornar esse desfecho possível, e esperamos que essa transição aconteça com dignidade, segurança e cuidado para todas as pessoas envolvidas.

Compartilharemos mais detalhes assim que estiverem disponíveis. Enquanto isso, por favor, considere doar o que puder para o fundo de apoio de Marius em:

supportmariusmason.org/support

Entre em contato com freemariusmason[@]gmail.com se você tiver alguma dúvida específica.

Com a mais profunda gratidão,

A equipe de apoio a Marius Mason

Fonte: https://www.abcf.net/blog/marius-mason-to-be-released-to-halfway-house-5-4/  

Tradução > Contrafatual

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O Estado é mito
que o vento leva—ficam
nossas mãos nuas, sós.

Liberto Herrera.

[Chile] La Zarzamora: 8 anos pela liberação total

Por La Zarzamora

Hoje 4 de abril, completamos 8 anos de contrainformação e incômodo para a dominação e seus executores.

8 anos gritamos sem parar: basta ESPECISMO, de PATRIARCADO, de CÁRCERE e de toda a construção simbólica e material que sustenta este asqueroso sistema de morte.

Entre genocídio, guerras, extrativismo, prisão e fascismo desatado, resistimos como o mato, rebrotamos das dores, das desesperanças e das frustrações, apoiadas por todos os nossos companheiros, que nos fazem seguir expandindo nossos ramos espinhosos.

Juntos chegamos aos rincões mais longínquos, sendo traduzidas e propagadas em idiomas que jamais pensamos.

Não é fácil o que fazer de Zarza, às vezes há momentos tristes, às vezes nos custa, às vezes choramos. Esta relação direta com a injustiça do sistema e do estado, vai calando profundo, porque não somos uma empresa nem um projeto, somos compas como qualquer um, vivemos e experimentamos as raivas e dores dos que acompanhamos.

Mas mesmo assim seguimos AUTOGESTIONADAS, ÁCRATAS, E ATIVAS, orgulhosos de nossa coerência, com as mãos e a consciência limpa de qualquer dinheiro sujo de ongs, fundos feministas ou qualquer invento do progrecapital.

Assim pobres, mas coerentes seguimos para outro ano de La Zarzamora, que vem com mais crescimentos e surpresas.

Contamos-lhes alguns:

– Edições La Zarzamora – Começamos a fanzinear pelo que encontrarás em feiras de contrainfo e atividades múltiplos artigos e entrevistas de La Zarza. (Na página iremos subindo para impressão).

– Tiramos um livro! Logo vem o lançamento do livro em memória da companheira Marcela Rodriguez, que surge a partir da última entrevista que Zarzamora realiza antes de sua partida física. Um trabalho conjunto em espanhol e italiano, realizado por Zarza, Loika e Julio Araya (companheiro de vida de Marcela), que logo será lançado.

– Rádio: Reativamos as cápsulas informativas todos os dias às 14h00 na rádio La Zarzamora.

– Colaboratividade e apoio mútuo: seguimos armando e concretizando ideias com mais meios livres e compas. Virão produções!

Isto é só uma pincelada, já verão!

Agradecemos-lhes o apoio e a confiança em todos estes anos. Seguimos juntos incomodando ricos e poderosos.

Coragem!!

La Zarzamora

8 anos Pela Liberação Total

lazarzamora.cl

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

silêncio
o passeio das nuvens
e mais nenhum pio

Alonso Alvarez

Pré-lançamento do livro “História do anarquismo na ditadura militar brasileira (1964–1985)” de Rafael Viana da Silva.

O livro discute a presença e a atividade anarquista durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), a partir da análise de diferentes fontes documentais. Analisando jornais, cartas, entrevistas e outros materiais —, o autor resgata a presença e a militância política dos anarquistas nesses anos, situando-as em um contexto marcado pela modernização capitalista, pelo autoritarismo estatal e pela emergência de novos sujeitos sociais e políticos.

A obra acompanha as discussões nacionais e transnacionais do anarquismo brasileiro bem como a inserção dos anarquistas no movimento estudantil e a repressão que atingiu dezenas deles.

Com a distensão política, o livro analisa o processo de reorganização pública e de reinserção dos anarquistas nas atividades do movimento estudantil, do movimento comunitário e do movimento sindical, além das polêmicas que atravessaram seus jornais.

História do anarquismo na ditadura militar brasileira (1964– 1985) constitui uma referência indispensável para todos aqueles que buscam compreender mais profundamente não apenas o regime militar brasileiro e o anarquismo em geral, mas, sobretudo, a presença e a atuação do anarquismo nesse contexto ditatorial.

A capa do livro é de autoria do artista gráfico @1dinelli

Garanta a nova obra (R$ 65,00): editorafaisca.net

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outro assobio
escuto os passarinhos
sem dar um pio

Ricardo Silvestrin

[Itália] Declaração dos indiciados pela Operação City ante o Tribunal de Turim

Declaração lida por dois dos indiciados pela Operação City ante o Tribunal de Turim durante a audiência do dia 24/02/2026

Se estamos aqui, no banco dos acusados, é porque decidimos lutar contra o 41bis e a prisão perpétua, junto e em solidariedade com Alfredo Cospito, encarcerado sob esse regime em maio de 2022 e que iniciou uma greve de fome indefinida em outubro do mesmo ano. No final de fevereiro de 2023, o rechaço definitivo do Tribunal de Recursos à desclassificação de Alfredo do regime 41bis representou, na prática, sua condenação à morte. Como podemos permanecer indiferentes ante a morte iminente de um companheiro que se dedicou a denunciar tais abominações?

Dentro dos mecanismos de arbitrariedade e violência que formam o sistema judicial italiano, o artigo 41 bis e a prisão perpétua sem liberdade condicional são dois instrumentos de tortura. Não se trata de um simples artifício retórico, mas de uma análise substantiva do uso destes instrumentos, partindo do significado literal do termo, que —citando a Treccani— se refere a “diversas formas de coerção física aplicadas a um acusado […] com o fim de extrair-lhe uma confissão […]”. Inclusive hoje, e desde princípios da década de 1990 até a atualidade, centenas de presos se encontram reclusos sob o regime 41bis, submetidos ao isolamento diário e emocional, a um estigma social que também afeta seus seres queridos, a privação sensorial e, para muitos, a impossibilidade de serem liberados. Uma condição concebida e implementada cínica e cientificamente para aniquilar o indivíduo. Hoje, uma vez mais, é importante destacar como a valente luta do companheiro Alfredo Cospito, em greve de fome durante seis longos meses, desatou um amplo e decidido movimento de solidariedade.

Nas últimas décadas, rara vez o sistema penitenciário, seus mecanismos punitivos, a violência sistêmica que o impregna, a arbitrariedade de suas normas e as afirmações enganosas que pretendem justificar as “fossas comuns” foram analisados, criticados e rechaçados por diversos grupos sociais. A mobilização estudantil, junto com a denúncia e a participação ativa de organizações, associações e, sobretudo, milhares de pessoas, representou um aumento de conscientização excepcional e sem precedentes. Isto ocorreu não só em Turim, mas também em muitas cidades da Itália e do exterior.

Um efeito bumerangue que certamente, ainda que inesperadamente, sacudiu os que haviam trabalhado com tanto zelo para possibilitar legalmente a aplicação do Artigo 41bis a Alfredo. Mas apesar disto, apesar dos protestos e ações de solidariedade na Itália e em todo o mundo, Alfredo segue submetido a este regime, que provavelmente será renovado na próxima primavera. Foi condenado a 23 anos, junto com Anna Beniamino, cuja condenação ascende a quase 18 anos, por massacre político, o delito mais grave segundo a lei italiana, apesar da ausência de mortos ou feridos. Diferente do ocorrido em Piazza Fontana (17 mortos), Piazza della Loggia (9 mortos e 102 feridos), a estação de trem de Bolonha (85 mortos) e os inumeráveis ataques racistas (especialmente o de Castelvolturno em 2008, que deixou 8 mortos), em nenhum destes casos se incluiu o massacre político entre as acusações.

As guerras contemporâneas, os genocídios, as investigações de DNAA (Direção Nacional Antimáfia e Antiterrorismo) contra palestinos e migrantes, as dezenas de milhares de pessoas que fogem de territórios devastados e saqueados pelo colonialismo e morrem tentando chegar à Europa, as mortes no trabalho, a cumplicidade do Estado italiano com Israel, tudo demonstra que os massacres, a devastação e o saque são planejados e perpetrados pela violência estatal.

Lutar hoje é mais necessário que nunca. Em solidariedade com Alfredo, contra o 41bis e a prisão perpétua. Liberdade para todos os povos oprimidos, que lutam e resistem.

Acusados e acusadas

Fonte: https://nocprtorino.noblogs.org/post/2026/02/26/dichiarazione-letta-durante-ludienza-dibattimentale-per-il-corteo-del-4-marzo-2023/

Tradução > Sol de Abril

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a borboleta
pousa sobre o sino do templo
adormecido

Buson

[Chile] Para aqueles que insistem em arriscar tudo. Palavras do companheiro Francisco Solar.

Para aqueles que nem a repressão nem a prisão conseguem acalmar.

Para aqueles que, sabendo que a realidade opressiva pouco ou nada mudará, mesmo assim arriscam tudo por alguns instantes de liberdade. Liberdade verdadeira desde o momento em que se decide enfrentar o poder em primeira pessoa.

Para aqueles que não se acomodam.

Para aqueles que não se contentam com a crítica que, por mais radical que seja, fica apenas nas palavras.

Para aqueles que não esperam que os riscos sejam assumidos por outros, mas que são eles mesmos que tomam as rédeas e decidem atacar.

Para aqueles que não descansam sobre os louros das ações já realizadas.

Para aqueles para quem a anarquia é fazer o que se diz.

Para aqueles que apostam e se lançam na prática da violência revolucionária.

Para aqueles que vibram com a conspiração e o ataque.

Para aqueles que, em definitiva, não se domesticam e não contemplam a passividade em suas vidas.

Para aqueles que insistem obstinadamente em arriscar tudo.

Para Sara e Alessandro, que levaram uma vida de combate e que a anarquia não os esquecerá.

Francisco Solar

Prisão La Gonzalina-Rancagua

Março de 2026

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Nuvens de mosquitos –
Sem isso, no entanto,
Mais solitário.

Issa

Feira do Livro Anarquista dos Balcãs 2026

Nos entusiasma e motiva convidar a companheiros, coletivos, editoras e iniciativas dos Balcãs e mais além de Skopie para a Feira do Livro Anarquista dos Balcãs 2026, que acontecerá de 24 à 27 de setembro. Com tenacidade e dedicação, assumimos a responsabilidade de albergar este comovente encontro de resistência, solidariedade e auto-organização. Esperamos dar-lhes as boas vindas para compartilhar quatro dias de encontros, debates, desacordos, aprendizagem, organização e luta coletiva.

Depois de quinze anos, a Feira do Livro Anarquista dos Balcãs regressa à Skopje, onde se celebrou pela última vez em 2011. Regressa a uma cidade completamente mudada, uma região transformada e um contexto global radicalmente alterado. O que permanece inalterado é a necessidade de nos encontrarmos, nos organizarmos, intercambiarmos e resistirmos juntos. O regresso da BAB à Skopje não é um gesto nostálgico, mas uma necessidade política: reconectar velhas e novas lutas, fortalecer laços regionais e internacionais e enfrentar as realidades do presente com força coletiva. Um novo movimento de anarquia está se mobilizando uma vez mais nesta cidade moldada pelas contradições, a devastação e a sobrevivência. Estão surgindo novos coletivos, grupos informais e iniciativas, reconectando com lutas passadas enquanto abrem novas frentes de resistência. Skopje está se convertendo uma vez mais em um terreno de confronto com o Estado, o capital e todas as formas de dominação.

As guerras já não são eventos excepcionais; estão se convertendo na cotidianidade do mundo. O imperialismo já não se esconde atrás de máscaras diplomáticas, mas transforma abertamente fronteiras, vidas e futuros. As novas tecnologias se desenvolvem a portas fechadas, em mãos privadas, enquanto que suas consequências afetam a todos nós: inteligência artificial, vigilância digital, controle algorítmico do trabalho, a educação, a saúde, a guerra e o entretenimento. Estamos excluídos dos dados, das decisões e das infraestruturas, mas obrigados a suportar sua carga, cada vez mais como objetivos da militarização e do controle social.

Ao mesmo tempo, uma nova onda de política reacionária está revertendo décadas de luta. Os movimentos antigênero atacam as mulheres, as pessoas queer e trans com renovada violência. Forças patriarcais, nacionalistas e religiosas estão mobilizando o medo e o ressentimento, moldando novas gerações com velhas hierarquias. A maquinaria econômica do capitalismo continua sua destruição sem fim, batendo novos recordes a cada ano em colapso ecológico, exploração, deslocamento e miséria social.

Estas crises não são independentes. Formam uma paisagem interconectada de dominação. É o resultado lógico do poder estatal, da acumulação capitalista, do controle tecnológico e da hierarquia social.

Nos Balcãs, estes processos globais adquirem formas particularmente brutais e visíveis. A região segue sendo tratada como um laboratório semiperiférico de austeridade, privatização, corrupção e extração. Estão construindo represas em rios, estão vendendo bosques, estão convertendo montanhas em minas e estão reconfigurando cidades para obter lucros especulativos, enquanto comunidades inteiras ficam sem água, ar limpo nem meios de vida seguros. A destruição ecológica avança pela mão do desemprego, da migração forçada e o desmantelamento do que resta da infraestrutura social.

Ao mesmo tempo, regimes populistas novos e reciclados, projetos nacionalistas e governos autoritários consolidam seu poder mediante o medo, a militarização, a misoginia, o racismo e o revisionismo histórico. As fronteiras dos Balcãs seguem sendo zonas de detenção, rechaço e morte para as pessoas em movimento, enquanto que as populações locais sofrem a disciplina da dívida, a precariedade e a crise permanente. No entanto, em toda a região, as lutas continuam: contra as centrais hidrelétricas, o extrativismo da água e da terra, os desalojos, a violência policial, a opressão de gênero, a organização fascista, os regimes fronteiriços e a exploração laboral. Estas lutas costumam ser isoladas, e é precisamente por isso que necessitamos espaços como a Feira do Livro Anarquista dos Balcãs para conectar, coordenar e resistir juntos.

Ante esta crua realidade, nos enfrentamos com uma tarefa compartilhada: responder de forma revolucionária e radical. Repensar nossas estratégias, reconstruir nossas redes e agudizar nossas práticas de resistência. Encontrar as frestas do sistema e atuar ali, juntos.

A Feira do Livro Anarquista dos Balcãs está a mais de uma década existindo como um espaço precisamente para isto: não só para livros, mas também para encontros, debates, desacordos, aprendizagem, organização, cuidado, frustração e renovação de forças. É um encontro emotivo que se nega a estancar-se em um só lugar, refletindo as realidades de nossa região e a necessidade de uma constante recomposição das lutas.

Em 2026, a Feira do Livro Anarquista dos Balcãs acontecerá em Skopje, de 24 à 27 de setembro.

Skopje é uma cidade com uma rica história de luta, revolta, repressão e sobrevivência. Uma cidade onde as culturas se encontram e chocam, onde o espaço urbano se disputa constantemente, onde as novas gerações voltam a formar grupos de resistência em condições cada vez mais duras. Desde as lutas obreiras até a organização antifascista, desde a resistência feminista e queer até as lutas ecologistas e de moradores, Skopje não é só um lugar de crise, mas também de potencial.

Convidamos a coletivos anarquistas, editoras, infoshops, iniciativas autônomas, grupos informais e indivíduos dos Balcãs e de outros lugares a reunir-se em Skopie para compartilhar experiências, análises, ferramentas e práticas. Os convidamos a trazer seus livros, fanzines, textos, cartazes, debates, oficinas, filmes, intercâmbios de habilidades e propostas. Os convidamos a trazer suas lutas, suas dúvidas, suas perguntas e sua ira, assim como suas energias e desejos de um mundo diferente.

A Feira do Livro Anarquista dos Balcãs não é um evento para espectadores e palestrantes, mas um espaço comum que construímos juntos. É um lugar para encontrar-nos com companheiros de diferentes contextos, aprender das derrotas e vitórias dos demais, debater, discordar e apoiar-nos material e politicamente. É um espaço para fortalecer laços entre locais e internacionalistas contra as fronteiras, os Estados e o capital.

Envio de propostas para eventos: bab2026@riseup.net

A assembleia organizadora está estruturando o programa da feira (de quinta-feira, 24 à domingo 27 de setembro). Nossa principal preocupação é incluir o maior número possível de apresentações e oficinas, mas também deixar tempo suficiente para um debate profundo sobre cada tema. O programa está previsto para as jornadas completas de quinta-feira, sexta-feira e sábado, com meia jornada no domingo.

Em tempos de guerra, autoritarismo, reação patriarcal, devastação ecológica e dominação tecnológica, insistimos em nos organizarmos sem governantes nem chefes. Insistimos na solidariedade em lugar da competição, da auto-organização em lugar da representação, da ação direta em lugar da delegação.

Nos próximos meses se oferecerão mais detalhes sobre a participação, o marco político, a logística e as datas limites para as contribuições. Lhes pedimos que traduzam esta convocatória a seus idiomas, a compartilhem conosco, a publiquem em suas plataformas e a compartilhem em seus canais de comunicação.

Se agradece a difusão.

Feira do Livro Anarquista dos Balcãs 2026, Skopje 24–27 de setembro de 2026

Contra a guerra, o capital, o patriarcado e o Estado – Pela solidariedade, a resistência e a liberação.

bab2026.espivblogs.net

Tradução > Sol de Abril

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mamãe passarinho chocando,
papai trouxe a comida
festa na copa das árvores

Akemi Yamamoto Amorim

[Itália] ATENÇÃO! Os anarquistas estão entre vocês?

Partimos de um fato. Sim, os anarquistas estão entre vocês:

trabalham ao seu lado nas escolas, nas fábricas, nos hospitais e também nas famílias… não encontram trabalho como vocês, e quando encontram, sofrem a mesma precariedade que vocês. Talvez sejam feios, às vezes sujos, mas maus… esse adjetivo deixamos para quem tenta sempre falar em nosso lugar.

Nós somos anarquistas, a polícia nos conhece assim como a cidade onde vivemos nos conhece, e ela sabe muito bem que não temos nada a esconder, enquanto nós não podemos dizer o mesmo deles.

No entanto, a política nacional, acompanhada de perto pelos jornais, tem insistido em nos colocar na roda, os anarquistas. À esquerda, têm pena de nós por nossa suposta intransigência idealista (alguns de nós votaram “Não” no referendo, sabiam?), jogam em cima de nós suas próprias contradições institucionais – que querem prisões, mas sem exageros. Querem exército, mas europeu. Como se ir à guerra com a bandeira azul ou tricolor mudasse alguma coisa para nós, futuros soldados recrutas. Querem o capitalismo, mas bondoso… como se trabalhar oito horas por dia com um sorriso no rosto nos devolvesse o dia perdido apenas para fazer o mundo correr em direção às guerras e ao aquecimento global.

E o que dizer da direita? Atribuem-nos o mérito de ter sedes pra todo lugar, de estar infiltrados melhor do que as forças de segurança e de conseguir colocar cidades inteiras sob cerco. Desde o século XIX nos descrevem assim… precisa comentar?

Parece que muitos falam de nós e por nós; então vamos falar um pouco dos outros também: vamos falar da direção que a sua democracia está tomando, na Itália e no exterior, de suas prisões superlotadas, de seus CPTs [Centros de Permanência Temporária] e de seus decretos de segurança.

Vamos falar da medida policial que proíbe preventivamente um ato em Roma por causa daqueles dois mortos em circunstâncias a serem apuradas – medida que, ao que parece, circulou nas redes sociais, mas para a qual ninguém ainda tinha pedido autorização na delegacia. Como emitir uma ordem de indeferimento se ninguém tinha solicitado nada ainda?

Vamos falar daqueles jornalistas que, para justificar toda essa retórica, atribuem a prontidão das forças de segurança como consequência direta do relatório anual dos serviços secretos, sendo que esse documento, apresentado como todos os anos no parlamento, trata das verdadeiras ameaças da última moda: guerras híbridas e cenários bélicos.

Vamos falar da Liga [Lega], que, na ânsia de chamar a atenção e dar seu palpite, tira da cartola uma proposta de lei absurda que quer criar a chamada “rede antifa”, anarquista e terrorista, quando na Itália simplesmente não existe nenhuma rede desse tipo, nem mesmo depois de anos de batidas policiais, processos judiciais e tentativas de fabricá-la em mesa de escritório para ter um inimigo interno.

Vamos falar da Salis. Porque todo mundo achou conveniente falar dela como se fosse uma anarquista, uma daquela perigosa e misteriosa rede “antifa”, que, como eurodeputada da AVS [Aliança Verdes e Esquerda] e como cidadã, queria participar da manifestação “No Kings” em Roma e se viu com a polícia na porta do quarto de hotel onde estava hospedada, detida por uma hora sem receber nenhum auto. Um pedido de um país estrangeiro, dizem. Mas o auto tem que ser lavrado, com ou sem justificativa de casos internacionais… sabiam?

Nós, no fundo, não somos muito diferentes de vocês. Somos anarquistas e orgulhosos de sê-lo porque queremos uma vida melhor, mas para todos, um mundo sem exploração, fronteiras e guerras. Infelizmente, ainda não vemos ideias e soluções melhores, e as de vocês não parecem estar funcionando.

FAI – Federação Anarquista Italiana

Seção “M. Bakunin” – Jesi

Seção “F. Ferrer” – Chiaravalle

Grupo Anarquista “Kronstadt” (sem endereço fixo) – Ancona

Fonte: https://cslfabbrijesi.noblogs.org/archives/2539  

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Ainda cantando
Os insetos são levados
Sobre o tronco que flutua.

Issa