[Chile] OUÇA: Entrevista com Mónica Caballero

Por La Zarzamora

No contexto da semana de agitação em solidariedade à prisioneira anarquista Mónica Caballero, a Rádio La Zarzamora, em colaboração com alguns indivíduos selvagens afins, conseguiu realizar uma entrevista na qual a companheira nos atualiza tanto sobre sua realidade carcerária quanto sobre suas reflexões e posições políticas.

Esta entrevista fez parte da cadeia de transmissões realizada pelas rádios livres e anarquistas de diferentes latitudes, transmitida no dia 28 de março de 2026 durante a semana de agitação e antes de uma nova comemoração do Dia da Juventude Combatente.

Ouça, baixe ou compartilhe no link a seguir:

https://archive.org/details/bloquelazarzamora-entrevista-a-monica-c-mas-bloque-2026


Fonte: https://lazarzamora.cl/escucha-entrevista-a-monica-caballero/

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vento apressado
por que não senta aqui
do meu lado

Alexandre Brito

Entre chantagens e canhões

Diante do recente impasse entre Donald Trump e a OTAN, o que se descortina não é um conflito entre “isolacionismo” e “aliança”, mas a nudez do sistema de Estados operando em sua lógica mais primária: a disputa por hegemonia pelo uso da força, a militarização de rotas comerciais como extensão natural da política imperial e a total instrumentalização de vidas humanas em nome de interesses geopolíticos. Para uma perspectiva anarquista e antiguerra, cada elemento desse contexto — desde o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã até a ameaça de Washington de abandonar o tratado do Atlântico Norte — não passa de mais um ato do mesmo espetáculo em que o Estado se revela como a principal fonte de violência organizada, e a “segurança” invocada por ambos os lados é, na prática, a segurança dos mercados e das cadeias de comando, nunca a das populações que pagarão o preço com seus corpos e territórios.

O Estreito de Ormuz, hoje bloqueado pelo Irã, é o ponto onde se materializa a disputa entre duas facções estatais pelo controle do fluxo energético global. A exigência de Trump para que a OTAN envie navios de guerra a fim de “garantir a livre navegação” nada tem a ver com princípios de liberdade; trata-se de impor, por meio de canhões e mísseis, a circulação ininterrupta do petróleo que alimenta a máquina de guerra e o capitalismo ocidental. Quando o ministro da defesa alemão, Boris Pistorius, declara que “essa guerra não é nossa, nós não a queremos”, não está ecoando qualquer sentimento pacifista — está apenas demarcando o limite tático de sua própria burguesia nacional, disposta a lucrar com a instabilidade sem necessariamente assumir os custos diretos de um confronto no Golfo. A recusa europeia não é uma vitória contra a guerra; é um cálculo de riscos dentro da mesma lógica imperialista que, décadas atrás, levou Alemanha e outros países da OTAN a participar de bombardeios na Iugoslávia, no Afeganistão e no Iraque.

A ameaça de Trump de retirar os Estados Unidos da OTAN, por sua vez, escancara o que sempre esteve por trás das alianças militares: não há compromisso com valores comuns, há apenas conveniência estratégica. O presidente norte-americano considera a aliança uma “via de mão única” porque, em sua visão, os europeus não estariam arcando com a parte que lhes cabe no serviço de manutenção da ordem imperial global. Mas a chantagem da saída não representa um movimento antiguerra; ao contrário, revela que Washington quer a liberdade de agir unilateralmente, sem ter que negociar com sócios menores que agora ousam dizer “não”. É a política de gangues em sua forma mais explícita: ou se alinham à ofensiva contra o Irã, ou os EUA retiram sua “proteção” — como se a presença de 84 mil militares e dezenas de bases em solo europeu fosse um favor altruísta, e não a infraestrutura que permite projetar poder sobre o Oriente Médio, a África e a Ásia Central.

O emaranhado jurídico que envolveria uma eventual retirada formal dos EUA ilustra perfeitamente como o Estado, mesmo em suas disputas internas de competência entre Congresso e Presidência, não possui freios substantivos que o impeçam de continuar sua trajetória bélica. A seção 1250A da Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2024 proíbe o presidente de abandonar a OTAN sem aprovação de dois terços do Senado — uma amarra legal que, para os anarquistas, apenas formaliza a divisão de tarefas entre as facções da classe dominante. Enquanto isso, um parecer do Departamento de Justiça de 2020 sustenta que o presidente tem autoridade exclusiva para rescindir tratados, e a Suprema Corte tem consistentemente ampliado os poderes executivos. Trump já retirou os EUA de cinco tratados internacionais, como o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), sempre com a certeza de que a máquina estatal não se autolimita. Mesmo que o Artigo 13 do tratado da OTAN preveja um ano de espera após a notificação, o que se desenharia seria uma batalha judicial onde o desfecho importa menos do que o fato incontornável: o Estado encontra sempre um meio legal ou extralegal para fazer valer sua vontade armada.

No entanto, a retirada formal talvez nem seja necessária. O que Trump e seus estrategistas já ensaiam é o esvaziamento da aliança por dentro — uma estratégia que remete ao precedente francês de 1966, quando o governo de Charles de Gaulle retirou a França da estrutura militar integrada da OTAN, mantendo-se formalmente no tratado, mas causando um caos logístico que levou anos para ser contornado. A repetição desse cenário implicaria a retirada unilateral de tropas, a desobediência ao Artigo 5º (o coração da “defesa coletiva”) e o fechamento ou redução de bases que funcionam como verdadeiros nós arteriais do poder militar estadunidense. Apenas na Alemanha, a base de Ramstein abriga mais de 16 mil militares, civis e contratados, sendo o principal centro de comando aéreo da OTAN fora dos EUA. Na Ilha Terceira, nos Açores, a base das Lajes continua sendo um ponto de reabastecimento estratégico no meio do Atlântico, essencial para qualquer deslocamento de aeronaves entre a América e a Eurásia. Na Itália e no Reino Unido, outras bases garantem o suporte para caças, transporte aéreo e reabastecimento em voo.

A retirada ou o enfraquecimento desse dispositivo não representaria, sob nenhum aspecto, um desarmamento. Tratar-se-ia apenas de uma reconfiguração que, como mostrou a experiência francesa, gera imensos transtornos logísticos, mas nunca dissolve a capacidade de intervenção. A dependência americana das bases europeias é tanta que, sem elas, a ponte aérea transatlântica entraria em colapso: aeronaves como o F-15E, com raio de combate de cerca de 1.300 km, simplesmente não teriam como operar no Oriente Médio e na Ásia Central sem escalas e reabastecimento em solo europeu. Tanques aéreos, cadeias logísticas de munições, equipamentos pesados e até o sistema de evacuação médica — cujo centro nervoso está em Ramstein — ficariam seriamente comprometidos. O fato de os próprios planejadores militares americanos reconhecerem esses prejuízos demonstra o quanto a “segurança nacional” dos EUA é, na verdade, uma estrutura de ocupação global que exige a submissão de territórios alheios para se sustentar.

Sob a ótica anarquista, contudo, o mais revelador nessa crise é o modo como o debate público reduz toda a questão a um cálculo de eficiência militar ou a uma disputa entre “globalistas” e “isolacionistas”, quando a verdadeira questão deveria ser: por que ainda toleramos que um punhado de Estados decida, com navios de guerra e bombardeiros, quem pode ou não navegar por um estreito, quem pode ou não extrair petróleo, quem pode ou não existir? O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã é um ato de coerção estatal; a ameaça de enviar uma frota da OTAN é outro. Nenhum dos dois lados representa a vontade popular, nenhum dos dois defende a livre circulação de pessoas, nenhum dos dois coloca a inviolabilidade da vida acima das cotas de exportação de hidrocarbonetos. O que está em jogo é a continuidade de um sistema no qual o acesso a recursos é garantido pela capacidade de infligir morte, e no qual a geopolítica é simplesmente a continuação da guerra por outros meios — ou, como já se disse, a guerra é a continuação da política por outros meios.

Por fim, a história nos mostra que nenhuma aliança militar se dissolve sem deixar rastros de destruição, e nenhum Estado abdica de sua violência fundante. A saída dos EUA da OTAN, mesmo que viesse a ocorrer, não significaria o fim das intervenções americanas; apenas deslocaria os eixos de intervenção, provavelmente reforçando o caráter unilateral e ainda mais desregulado da política externa. E a permanência, com ou sem Trump, significará a manutenção de uma estrutura que já matou centenas de milhares de pessoas no Oriente Médio, nos Bálcãs, no norte da África, sempre sob o pretexto de “defender” valores que, na prática, se resumem à subordinação econômica e militar. Para quem se coloca do lado das populações que sofrem com bloqueios, bombardeios e ocupações, a única posição coerente é a recusa absoluta a essa lógica: não à OTAN, não ao unilateralismo estadunidense, não ao militarismo iraniano, mas à própria existência de alianças bélicas e Estados armados. A crise no Estreito de Ormuz é apenas mais um sintoma de que, enquanto existirem Estados, existirão conflitos armados; e enquanto existirem tratados como o da OTAN, existirão estruturas institucionalizadas para perpetuar a guerra, seja em nome da “livre navegação”, da “defesa coletiva” ou de qualquer outra fórmula que tente maquiar o poder de matar em massa como um interesse legítimo.

Liberto Herrera.

Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/03/31/entre-chantagens-e-canhoes/

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olhos de gato
luz dos faróis na noite
pulo no mato

Carlos Seabra

[Itália] Uma ideia de liberdade. Para Sara e Sandro

por Biblioteca Anarchica Disordine | 26/03/2026

Que o gesto de Sara e Sandro tenha sido a afirmação decisiva do “aqui e agora”, isso só podemos imaginar. Como anarquistas e companheiras/os, sentimos uma forte necessidade de estar ao lado deles e defendê-los de qualquer pessoa que se permita difamá-los. E não temos dúvida de que a violência revolucionária faz parte do anarquismo e de uma ideia antiautoritária que arrancaria pela raiz toda forma de opressão e hierarquia. Uma ideia que se expressa por muitos métodos variados e que, quando decide usar a violência, nunca ataca a esmo, mas dirige seu ataque contra a opressão e contra quem e o que constitui uma de suas engrenagens.

É inútil que os lacaios do poder, os investigadores ou qualquer outra pessoa fiquem vomitando hipóteses destinadas apenas a denegrir e especular sobre as/os companheiras/os que perderam a vida. O que queremos reafirmar é a defesa de uma ideia de liberdade, parte necessária de quem leva até o fim a teoria e a prática de seus ideais, de quem sente intensamente essa tensão cotidiana que o impele a agir, que o atormenta constantemente onde reinam a injustiça e a opressão.

Não há heróis nem heroínas; há companheiras/os revolucionárias/os que escolhem exatamente de que lado estão e aceitam o risco, jogando um jogo com o futuro. É por isso que, no gesto de Sara e Sandro, vemos a generosidade e a ternura de quem ama profundamente.

O que têm a ensinar, além de selvageria e covardia, aqueles que exterminam populações inteiras ou colocam bombas em trens ou praças, afogam milhares de pessoas no mar ou trancam e torturam indivíduos dentro das prisões? Estamos convencidas/os de que demolir vale a pena se isso servir para eliminar o abuso, e é por isso que o Estado teme uma bomba unida a uma ideia: porque ela poderia conseguir fazer explodir os alicerces da iniquidade e da opressão, tornar visível, mostrar a hipocrisia de um sistema em funcionamento baseado na violência cotidiana, da qual ele quer manter o monopólio e impedir que alguém erga a cabeça. Prisões, trabalho, devastação da natureza: estamos realmente tão cegas/os a ponto de não ver a brutalidade que domina? Um gesto de ataque pode realmente constituir um escândalo, quando os Estados não têm escrúpulos em alistar e armar jovens e enviá-los para matar e morrer?

Sara e Sandro estavam e estão em nossos corações, duas/dois companheiras/os de luta, e é isso que permanecerão sendo. Sua urgência continuará a ser um diálogo com o futuro: o de uma ideia contra o poder.

Tradução > Contrafatual

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Um canto alegre
No quintal do vovô
É o João-de-barro.

Pedro Henrique Valenga Bonete

Governo italiano aplica “prisão preventiva” a 91 anarquistas para impedir uma homenagem a dois militantes mortos.

Um total de 91 anarquistas foram presos no último domingo (29/03) em Roma, quando se dirigiam para participar de uma cerimônia em memória de Alessandro Mercogliano e Sara Ardizzone, os dois ativistas anarquistas mortos em 19 de março, enquanto fabricavam uma bomba em uma casa de campo no Parco degli Acquedotti. A manifestação havia sido declarada “ilegal” pelas autoridades italianas, que mobilizaram um grande contingente de policiais e forças especiais no Parque Modesto di Veglia, onde cerca de 60 pessoas conseguiram depositar uma coroa de flores antes de serem identificadas. Os detidos foram levados à delegacia com autorização do Ministério Público para identificação e possível encaminhamento para deportação. A polícia justificou a proibição alegando que a reunião era “contrária aos valores da convivência civil e democrática” e que “glorificava condutas como plantar uma bomba”.

A primeira-ministra Giorgia Meloni usou as prisões para defender suas políticas linha-dura. Em uma mensagem nas redes sociais, ela afirmou que “a detenção preventiva de 91 indivíduos do movimento anarquista, considerados perigosos e que chegaram a Roma para uma manifestação não autorizada em memória dos dois anarquistas mortos, confirma a necessidade” do Decreto de Segurança promulgado por seu governo. Meloni rejeitou as críticas de que a lei criminaliza o protesto social, limita o direito de manifestação e concede poderes excessivos à polícia. “Ela não serve para limitar a liberdade de expressão, como alegam certos grupos de esquerda. Pelo contrário, serve para garantir que as manifestações ocorram de forma pacífica e não violenta”, argumentou. Os dois falecidos, Mercogliano (53 anos, natural de Nola) e Ardizzone (36 anos, de Roma), eram ligados à Federação Anarquista Informal-Frente Revolucionária Internacional (FAI-FRI), a mesma organização à qual pertence o anarquista Alfredo Cospito, condenado a 23 anos de prisão por um ato.

O incidente ocorreu apenas duas semanas após a morte dos dois ativistas, cuja identificação foi dificultada pelos ferimentos em seus corpos e só foi possível graças às suas tatuagens. Ardizzone havia sido absolvida no ano passado em Perugia, na investigação “Sibilla”, enquanto Mercogliano já havia sido condenado no mega-julgamento de 2019 contra anarquistas. O governo Meloni então usou a tragédia para impedir o relaxamento das condições restritivas do Artigo 41 bis que Cospito enfrenta e para alimentar o medo contra a manifestação nacional “Sem Reis”, realizada em 28 de março em Roma.

Agora, com essas 91 prisões “preventivas”, o governo consolida sua agenda que criminaliza a memória de ativistas políticos falecidos e a dissidência sob o pretexto de “ordem pública”. Enquanto a esquerda institucional italiana ignora a situação, os movimentos sociais denunciam a “democracia” de Meloni, argumentando que ela se baseia na prisão de pessoas antes que elas possam exercer seus direitos fundamentais. O direito de protestar, mais uma vez, é o primeiro a ser suprimido.

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velho haicai
séculos depois
o mesmo frescor

Alexandre Brito

[Alemanha] Quem soltou os cachorros? Atualização: repressão a anarquistas em Munique

A promotora, Eva Firoozi, podia ter sido autora de romances. Uma daquelas autoras best-seller que, por causa do politicamente correto e da falta de humor, estragam o prazer da leitura, mas teria causado menos danos, pelo menos. Essa adição à equipe dos sonhos da Procuradoria Geral de Munique (General-SA), Reinhard Röttle, e o líder e fundador do partido ZET, Georg Freutsmiedl não foi à toa.

A nova chefe do ZET, Gabriele Tilmann, também não incluiu a defensora da justiça social só para preencher a cota de mulheres no cargo. Não, em Munique, como em toda a Baviera, “não há espaço para anarquistas, sem-teto em ocupações ilegais etc.”, segundo o sempre bem-humorado Franz Joseph Strauß. Se esses anarquistas não saírem da cidade por conta própria, precisamos de funcionários criativos como Eva Firoozi. Claro, para nosso grande pesar, nós anarquistas. Não por levar Eva Firoozi a sério, sequer por ter medo dela. Só estamos cansados de ler as suas acusações absurdamente mal escrita. Cheias de furos no roteiro; a lógica da história não bate, e os personagens são bidimensionais. Você não precisa ser estudante de literatura para perceber isso.

Se a procuradora geral Firoozi fosse só má escritora, poderíamos simplesmente ter ignorado os livros dela na livraria. Como promotora, porém, de alguma forma conseguiu nos forçar a ler as suas criações (nunca mais que 31 páginas) como leitura para dormir. A procuradora geral decidiu: acusou Manuel de incêndio criminoso de veículo ferroviário, seis betoneiras, uma carregadora de rodas, uma esteira com silo e tentativa de incêndio criminoso de um moinho de vento. Além disso, é acusado de diversos furtos e de associação com o “Hetzblatt gegen den Windpark” [jornal militante contra o parque eólico]. Nathalie também foi acusada, mas só de furto. Eva Firoozi promete que, se a sua moção para recorrer da decisão do tribunal distrital de não reabrir o caso “Zündlumpen” for bem-sucedida, combinará este caso com o caso maior. Ou era o contrário? Quem se importa.

Sim, mais uma vez, muita conversa sem parar e muita bobagem. Já ouvimos isso: Manuel é “membro da cena anarquista de extrema-esquerda” e “rejeita qualquer forma de governo estatal” etc. Aparentemente, também é primitivista. Por quê? Baseado no fato de que “vivia em um acampamento na floresta, construído por ele mesmo”. De qualquer forma, a maior parte da trama já é conhecida e pode ser encontrada no texto “Rebelião em tempos de vigilância policial total” e em outros textos sobre repressão em Munique. Seria perda de tempo repetir isso aqui.

Por que só acusar Manuel de incêndio criminoso, e não Nathalie? Por que só nesses três casos e não os seis de antes? A culpa é dos cães. Especificamente, os chamados cachorros diferenciadores de cheiro. É aqui que a coisa fica realmente estranha.

Como muitas das técnicas de investigação dos policiais alemães, o uso de cães que diferenciam o cheiro tem um histórico de fedor. Não, desta vez não estamos falando dos KZ [campos de concentração]. Cães diferenciadores de cheiro foram amplamente usados pela Stasi para procurar membros da oposição. Coletavam uma amostra à força em interrogatório, aplicando um tampão na região genital e guardando em um pote de conserva. Ou então, invadiam casas e colocavam um pano de algodão nas roupas. Espera aí, o KHK Wolf e o MEK não fizeram isso na cabana do Manuel e da Nathalie na floresta? Eles costumavam chamar isso de pseudociência no BRD. Pelo menos até a queda do muro. Especialmente nos últimos anos, sempre havia algum pseudocientista com o companheiro canino de nome estranho que afirmava que o cão podia farejar algo, para o qual não havia outras evidências. Agora, afirmam que o odor corporal de Manuel está em alguma “evidência”.

O arquivo da investigação diz que a equipe de vigilância e o já mencionado KHK Wolf da K92, que assumiu essa missão da Stasi, enfiaram algum tipo de lenço em sapatos, roupas etc., que atribuíram de forma relativamente aleatória a Nathalie ou a Manuel, encontrados na nossa casa.

Depois, mostraram a alguns cães que “indicaram” que o cheiro combinava com o cheiro das “evidências”. Isso já sabíamos. Novas amostras comparativas de cheiro foram obtidas no dia da prisão de Nathalie e Manuel, quando um chamado tratador de cães esfregou bruscamente um pedaço de pano no corpo dela, que o policial Florian Obermeier chamou de “sabonete corporal grátis”. Agora, fica estranho. Na acusação, Eva Firoozi escreve que, em 03 de março de 2025 os cães do “laboratório” da unidade de cães de serviço da Mittelfranken estabeleceram “uma conexão entre o cheiro nas evidências e o cheiro nos acusados.” Mas, então, precisaram admitir que: “a gravação em vídeo do cheiro diferenciando os cães em ação não pode mais ser encontrada.” Esse é o caso de Manuel. Para começar, os super farejadores nem conseguiram estabelecer conexão com Nathalie. Podemos facilmente imaginar o quanto a General-SA Firoozi deve ter ficado furiosa quando a KOK Jochen Meyer, que normalmente não é tímida, humilde, mas objetivamente, confessou a ela que os vídeos “se perderam no correio”. Felizmente, esse processo duvidoso é facilmente repetido. Os resultados podem divergir um pouco nos detalhes, mas para Eva Firoozi isso já é motivo suficiente para entrar com um processo contra Manuel.

A atitude anarquista dos dois (sim, os anarquistas de fato rejeitam o Estado, Sra. Firoozi) é estabelecida e enriquecida usando fragmentos de conversa tirados de contexto, obtidos ao longo de meses de espionar a cabana de Nathalie e Manuel, assim como citações de rascunhos de textos, emails etc. As leituras das longas listas de evidências chegam a dar sono.

Em 12 de janeiro último, a acusação foi apresentada ao juiz Dr. Blaschke da terceira divisão criminal do primeiro tribunal distrital de Munique.

Nesse tribunal se decidirá se o caso será incluído ou não no caso principal. Esse mesmo juiz anteriormente considerou a escuta telefônica de alojamentos sem mandado não ilegal porque, “segundo o princípio legal ex injuria ius non oritur”, o ocupante da casa “não tem direito ao artigo 13 da constituição” e recomendou utilmente que aqueles que não desejam ser vigiados ilegalmente “entrem com uma liminar clara contra todas as agências estaduais”. Deve ser muito divertido para esse juiz analisar todas as fitas de vigilância em áudio que transformaram a vida de Nathalie e Manuel em um assunto público e voyeurista do Estado. Aqueles que escolheram a jurisprudência conquistaram esse privilégio.

De qualquer forma, vamos deixar o legalismo aos juristas, preferimos manter o nosso anarquismo.

Fonte: https://actforfree.noblogs.org/2026/03/24/who-let-the-dogs-out-update-on-repression-against-anarchists-in-munich/

Tradução > CF Puig

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na boca da fornalha
labaredas
dançam Falla

Eugénia Tabosa

[Reino Unido] O Livro 3 já saiu!

Contemplai minhas obras, ó poderosos, e desesperai!

É isso mesmo, o Livro 3 do Projeto de Livros sobre Anarquismo e Punk já está aqui. São 522 páginas, com outra boa leva de capítulos vindos de diversos cantos do Planeta Punk.

Ele já está disponível para compra na Active Distribution por apenas £10: https://www.activedistributionshop.org/product/punk-anarchy-in-action/

 e, em breve, deve chegar também à sua livraria radical local.

Alguns eventos de lançamento estão sendo organizados, incluindo na livraria A Centre, em Belfast, no sábado, 11 de abril. Mais detalhes em breve!

Um enorme agradecimento a todas as pessoas que contribuíram para este volume e para toda a série de três livros. Com este livro final, agora publicamos 1.612 páginas, 58 capítulos, algo como um zilhão de palavras. Há algumas ideias para publicações futuras, mas, por enquanto, vamos deixar a poeira baixar depois de 6 anos de trabalho árduo. (Aliás, o Livro 1, Smash the System!, já está esgotado há um ou dois anos. Se você gostaria de vê-lo reimpresso, avise Jon Active: jonactivedistribution@gmail.com)

Fonte: https://anarchismandpunk.noblogs.org/post/2026/03/25/book-3-is-out-now/

Tradução > Contrafatual

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/04/23/reino-unido-o-projeto-do-livro-anarquismo-e-punk/

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Um só pirilampo
ofusca o pisca-pisca
das luzes do campo.

Sérgio M. Serra

Desobediência Civil

Rebelar-se exige coragem,

uma imensa dose

de generosidade e boa vontade.

Mas, acima de tudo,

pressupõe a ousadia

de colocar-se em risco,

de desafiar toda autoridade

e verdade estabelecida,

até que a própria existência

se torne um intenso exercício de desobediência.

Rebelar-se é fazer de si mesmo um outro,

Um caos e uma máquina de guerra,

afirmar contra o Estado

a potência da multidão

e a liberdade que nasce da ação direta.

Carlos Pereira Júnior

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Procurando pouso
Na rua movimentada,
Borboleta aflita

Edson Kenji Iura

[Grécia] Ações em solidariedade à Prosfygika

54 dias de greve de fome até a morte.

Convocação para ações em solidariedade à Prosfygika. No próximo dia 5 de abril, em defesa da Comunidade Okupa de Prosfygika.

Em junho de 2025, o governo regional da Ática (que inclui a cidade de Atenas) aprovou um contrato programático para a suposta “renovação” e o despejo da Comunidade Okupa de Prosfygika, onde residem mais de 400 pessoas.

No dia 5 de fevereiro, nosso companheiro Aristotelis Chantzis iniciou uma greve de fome até a morte em defesa da comunidade, em defesa da vida. Em breve, nas próximas semanas, um segundo companheiro dará continuidade e também iniciará uma greve de fome. Várias semanas de ações em Atenas e internacionalmente já ocorreram. A abertura da comunidade à sociedade em geral na Grécia, mas também internacionalmente, e a construção de uma autodefesa social, incluem, além de outras ações, trabalhos de construção, como obras técnicas na renovação dos apartamentos, da casa de acolhimento para pacientes com câncer e familiares do hospital de Aggio Savas, que fica ao lado da comunidade, e do museu da Guerra Civil, para citar alguns exemplos. Centenas de internacionalistas, pessoas solidárias e membros da sociedade local atenderam ao chamado para vir apoiar a comunidade nos trabalhos em prol de sua defesa.

No dia 14 de março, milhares de pessoas saíram às ruas de Atenas para se manifestar e uniram suas vozes em solidariedade à Prosfygika, enquanto na Polônia, Sérvia, Bélgica, França, Alemanha, Itália, Espanha e Colômbia, ações de solidariedade foram realizadas da mesma forma.

Apesar de grande parte do movimento e da sociedade em geral ter se mobilizado, o Estado da Grécia e o governo regional da Ática ainda não se posicionaram, e não cancelaram o plano que continua em andamento e que coloca em risco a vida do nosso companheiro Aristotelis Chantzis, juntamente com as vidas de tantos membros da comunidade que enfrentariam condições extremas de vida ou morte caso perdessem o apoio auto-organizado pela Comunidade e suas 22 estruturas sociais autônomas.

Convocamos todas as pessoas em defesa da vida a iniciar ou participar de ações solidárias daqui em diante para promover e divulgar o chamado a ações pan-helênicas e internacionais no próximo dia 5 de abril, em solidariedade à Comunidade Okupa de Prosfygika.

Fazemos um apelo para:

1.    Participação em greve de fome em cadeia de 1 a 3 dias a partir de agora.

2.    Mobilização em solidariedade à grande manifestação que ocorrerá no dia 5 de abril em Atenas e internacionalmente.

3.    Imprensa e meios de comunicação: venham a Atenas para estarem nesse dia com nossos companheiros.

4.    Apoio às redes de solidariedade já existentes ou criação de novas redes com qualquer pessoa que tenha a iniciativa de contribuir com a campanha #SaveProsfygika

5.    Apoiando ou compartilhando a campanha de financiamento em: https://www.firefund.net/saveprosfygika

6.    Assinar o texto com as reivindicações da Comunidade e da greve de fome:

Fazemos um apelo a todos os companheiros para que apoiem na medida do possível, seja nas ações propostas ou em iniciativas próprias. Estamos cientes de que cada contexto político local e nacional impõe desafios distintos, e confiamos na capacidade de vocês de agir e reagir de acordo com isso.

Entrem em contato conosco para construirmos juntos formas de resistência contra o Estado grego e o governo regional da Ática.

O ataque contra a Comunidade Okupa de Prosfygika não é uma luta isolada. A Comunidade resiste como um dos poucos projetos de luta social que restam e que constrói, com isso, uma proposta contra os regimes que, globalmente, se inclinam para a extrema direita, sociedades militaristas e mentalidades coloniais. Pedimos a todos os companheiros que demonstram solidariedade que se conectem com a luta também em seu próprio contexto geográfico e político.

Este é o 5º ataque massivo que o Estado grego impõe contra a comunidade nas últimas décadas. Apesar de o ataque parecer ser o mais grave dos anteriores, desta vez também não terão sucesso.

Tirem as mãos de Prosfygika!

Vamos vencer, ou vamos vencer!

Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/03/31/acciones-en-solidaridad-con-prosfygika/

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Cabelos alvos:
Registros do tempo.
Sol poente.

Maria de Lourdes da Silva Pereira

[Bielorrússia] Os anarquistas Pavel Shpetny e Aleksandr Kozlyanko foram libertados

Ontem, recebemos boas notícias: dois de nossos companheiros, Pavel Shpetny e Aleksandr Kozlyanko, foram libertados. Após a libertação, foram deportados do país e encontram-se atualmente na Lituânia.

Ambos foram condenados no caso de uma “organização criminosa anarquista internacional” e receberam sentenças de seis anos de prisão. Esperava-se que fossem libertados no início de março deste ano, mas a administração prisional instaurou novos processos contra eles com base no Artigo 411 (“desobediência maliciosa à administração prisional”). Como resultado, Pavel Shpetny recebeu mais dois anos, e Aleksandr Kozlyanko mais um ano e meio de prisão. Antes da libertação de ontem, Pavel deveria ser solto em março de 2028, e Aleksandr em setembro de 2027.

Durante o tempo em que estiveram detidos, ambos passaram por grandes dificuldades. Pavel é órfão, e sua irmã o espera do lado de fora. Enquanto Aleksandr estava preso, seu irmão Dmitry faleceu, e ele agora tem uma mãe idosa.

A liberdade não é apenas um alívio há muito esperado, mas também o início de uma nova e difícil etapa, especialmente no que diz respeito à migração forçada. Após vários anos em condições adversas nas prisões bielorrussas, eles agora precisam reconstruir suas vidas do zero: recuperar a saúde, encontrar moradia e se adaptar a um novo país. Tudo isso requer tempo, esforço e apoio financeiro.

Se puder, por favor, apoie-nos:

Stripe: https://donate.stripe.com/5kA3ew9nsegbdKo3cc

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Auxílio mútuo é a nossa força! Vamos mostrar que ninguém fica para trás!

Fonte: https://abc-belarus.org/en/2026/03/20/anarchists-pavel-shpetny-and-aleksandr-kozlyanko-have-been-released/

Tradução > Reno Moedor

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A fruta aberta
revela o mistério
da raiz: néctar.

Roberto Evangelista

Chão de fábrica, terreno de luta!

Companheiros e companheiras, é no chão da fábrica, no escritório, no canteiro de obras, no mercado, no aplicativo e em cada canto onde a gente vende nossa força por um salário miserável que o sistema mostra sua cara mais cruel. É ali, diante da máquina e do patrão, que sentimos na pele o suor da exploração. O capitalismo não é uma abstração distante; ele se materializa na jornada exaustiva, no assédio do chefe, na ameaça constante da demissão e no lucro que some nos bolsos de quem não produz porra nenhuma. Por isso, o local de trabalho é a nossa principal trincheira de luta. É onde as engrenagens giram e é exatamente ali que devemos enfiar o pé na roda!

Durante décadas, nos venderam a ilusão de que a solução viria de fora: de um político bonzinho, de uma lei trabalhista ou de um sindicato pelegueiro que negocia nossos direitos por migalhas. Mas a verdade é que ninguém vai nos libertar além de nós mesmos. A organização no local de trabalho é uma das armas mais poderosas que temos. É construindo comissões, núcleos de base e coletivos por setor que conseguimos enxergar quem realmente está ao nosso lado e quem está vendido ao sistema. É no dia a dia, dividindo o intervalo e a raiva, que forjamos a confiança necessária para agir. Uma paralisação relâmpago, uma operação-tartaruga, uma sabotagem estratégica na produção ou simplesmente a recusa coletiva a aceitar uma ordem abusiva — tudo isso nasce da organização invisível mas sólida que construímos entre os nossos.

Não se enganem: o patrão treme quando percebe que os trabalhadores estão conversando entre si sem a supervisão dele. Ele sabe que a união da classe é o prenúncio do fim dos seus lucros. Por isso, a FACA chama todos os trabalhadores e trabalhadoras a abandonarem o individualismo e a passividade que o sistema nos ensina. Vamos ocupar os espaços de trabalho com a nossa consciência de classe! Vamos transformar o cafezinho e a roda de fumo em células de resistência. Vamos nos apropriar dos saberes da produção para usá-los contra quem nos explora. A fábrica não é dele, é nossa! O lucro que ele acumula foi suor nosso, e está na hora de reivindicarmos não apenas migalhas, mas o controle de tudo o que produzimos.

Que este ano nos encontre mais organizados dentro de cada local de trabalho! A Federação Anarquista Capixaba (FACA) está ao lado de quem constrói a luta por dentro, enfrentando o chicote invisível do patrão e a burocracia sindical vendida. Se você está cansado de chegar em casa exausto e ver seu trabalho enriquecer um canalha, chega junto! Vamos fortalecer as comissões, articular as categorias e preparar o terreno para a greve geral que sacudirá esse sistema. A revolução não começa nos palanques, começa no chão da fábrica. Organize-se com seus iguais, confie na sua classe e prepare a sabotagem. O poder está nas nossas mãos, basta a gente se unir para tomar o que é nosso!

Federação Anarquista Capixaba (FACA)

Filiada à União Anarquista Federalista

fedca@riseup.net

federacaocapixaba.noblogs.org

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Borboleta azul
raspa este céu de mansinho
insegura e frágil.

Eolo Yberê Libera

[México] Vídeo: Mónica Caballero à rua!

Propaganda anárquica nas ruas da Cidade do México durante a semana de mobilização e solidariedade internacional pela libertação imediata da companheira anarquista Mónica Caballero, cujo caso será analisado nas próximas semanas por uma comissão de juízes do tribunal de apelação, com possibilidade de liberdade condicional.

Daqui manifestamos nossa solidariedade cúmplice à companheira, com a convicção de que nosso desejo de liberdade não tem correção nem arrependimento, em tensão permanente contra o poder, os poderosos, seus defensores e seus falsos críticos.

Mónica Caballero à rua!

>> Veja o vídeo aqui:

https://www.instagram.com/reel/DWiOLemDdCo/?igsh=Y3g4cGt2MXltc2ww

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/18/chile-semana-de-agitacao-pela-libertacao-da-presa-anarquista-monica-caballero-sepulveda-de-23-a-29-de-marco/

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Os grilos cantam
Apenas do meu lado esquerdo:
Como estou ficando velho!

Paulo Franchetti

Podcast do Instituto de Estudos Libertários (IEL): Liberdade em Prosa e Verso

Liberdade em Prosa e Verso, um podcast antifascista, é um projeto criado por integrantes do Instituto de Estudos Libertários (IEL) com a finalidade de divulgar fatos, atos e principalmente produções artísticas antifascistas, que compõem o que chamamos de Cultura Libertária.

Manifestações literárias, poéticas e musicais, propostas educacionais e políticas são o foco desse projeto. A primeira temporada colocou em foco Jacques Prévert, Lima Barreto, Joe Hill, entre outros. Os vídeos estão disponíveis no canal do youtube do IEL (link abaixo).

No dia 14 de maio começaremos a segunda temporada, trazendo Lorca, Pedro Casaldáliga, Florbela Espanca, entre outros. 

> Podcast do Instituto de Estudos Libertários (IEL): Liberdade em Prosa e Verso:

https://www.youtube.com/@InstitutodeEstudosLibert%C3%A1rios/featured
 
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Na rede estendida
O outono balança
Suave entardecer.

Conchita M. Almeida

[Suíça] 200 zines

A fanzinoteca gratuita de Friburgo acaba de distribuir seu 200º fanzine. Ótima oportunidade para compartilhar uma primeira avaliação.

O projeto nasceu com a chegada do inverno de 2024, quando dois amigos se perguntavam como se manter ocupados nos meses frios que se aproximavam. Depois de hesitar em divulgar textos, criando uma dupla teatral, veio a ideia de circular ideias em papel. Foi quando nasceu a fanzinoteca livre, inicialmente, formada por uma simples pilha de folhetos e fanzines empilhados num canto. Os primeiros zines estavam lá, o desejo de divulgá-los também, e encontramos um bom nome para o projeto. Só faltava um lugar para guardar os volumes.

Consideramos diversas opções. Alugar um espaço, dividir a biblioteca de fanzines em pequenas caixas espalhadas por diferentes lugares, ou criar um projeto móvel para levar em eventos e festivais. Nesse período de reflexão, a pilha de fanzines continuou a crescer.

Foi quando apareceu uma casa. O projeto emergente encontrou refúgio no restaurante Les Menteurs, no antigo Espace Cardinal. Em março de 2024, Pascal, ou GG, Gentil Gérant, abriu a porta para nós, primeiro, como alternativa temporária, depois por período ilimitado. Os fanzines empilhados encontraram seu lugar em prateleiras bonitas, prontos para serem escolhidos e levados por vocês, caros leitores.

Desde então, a cada semana, às prateleiras se adicionaram novos folhetos, livros, zines, revistas e até alguns jogos. Foram escolhidos da seguinte forma.

1.            Pedidos ou impressões de publicações que vemos nos nossos canais de comunicação.

2.            Compras ou trocas com outras fanzinotecas, info-quiosques e livrarias.

3.            Compras ou doações de pessoas que criam fanzines, tanto os já conhecidos de nós, como outros, que vieram fazer contato.

Tudo é distribuído gratuitamente, independente do custo de aquisição. Até agora, o equilíbrio está funcionando: o pouco dinheiro arrecadado financia futuras aquisições.

Diferente de outros projetos semelhantes, optamos por não funcionar como biblioteca de arquivo. Mesmo que seja perfeitamente possível ler no local, enquanto se desfruta de uma bebida ou de um prato preparado pela equipe do restaurante Menteurs, com ênfase explícita em passar adiante. Queremos que as pequenas obras circulem, passem de mão em mão, estimulem mentes.

Assim, nascem zines e outras produções autônomas: o desejo de compartilhar ideias, paixões, reflexões e experiências com o mundo exterior sem passar por canais comerciais ou midiáticos tradicionais, que muitas vezes não são muito acessíveis para os mortais comuns. Nisso reside, de modo profundo, o aspecto político do projeto.

A liberdade de imprensa só é assegurada a quem tem impressora“, diziam os editores anarquistas russos quando lutavam para derrubar o regime do tzar. Hoje, o cenário da comunicação (mídia e editoras) está cada vez mais concentrado nas mãos de grandes grupos ricos, às vezes, servindo a uma estratégia assumida de extrema-direita. O grupo Bolloré é um exemplo emblemático: dono de grande parte dos meios e edições francófonos.

As principais plataformas de redes sociais, há muito apresentadas como alternativa à monopolização da liberdade de expressão pela mídia tradicional, também se uniram, sem constrangimento, aos projetos fascistas de figuras como o Trump. Nesse contexto, podíamos até atualizar o slogan dos editores russos: “A liberdade de expressão será assegurada por aqueles que se expressam“.

Colocar as ideias no papel e circular como o seu entorno é uma ótima maneira de se expressar livremente, com total independência.

É exatamente isso que gostamos de fazer na fanzinoteca gratuita. Venha nos visitar e aprecie os próximos 200 fanzines!

Fonte: https://renverse.co/analyses/article/200-zines-8437

Tradução > CF Puig

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sob o luar
até eu
sou paisagem

Cláudio Feldman

[México] Comunicado em Solidariedade aos Protestos AntiFifa 2026

Oaxaca, territórios em resistência
29 de março de 2026

Expressamos nossa mais firme solidariedade às comunidades, coletivos e pessoas que ontem, 28 de março, tomaram as ruas da Cidade do México no contexto dos eventos prévios à Copa do Mundo de 2026. Desde as vias do sul até as imediações do estádio, sua presença tornou visível uma realidade que os discursos oficiais buscam esconder: que por trás da chamada “festa do futebol” existe um profundo processo de espoliação, exclusão e violência estrutural. As ações realizadas, como as “peladas” no asfalto e as manifestações no espaço público, não foram apenas atos simbólicos, mas uma denúncia direta contra um modelo que privilegia o espetáculo global acima da vida digna dos povos.

Nos solidarizamos especialmente com as mães que buscam seus filhos desaparecidos e com as famílias de pessoas desaparecidas que, com dignidade e dor, levantaram o grito “Não brinquem com a nossa dor”, lembrando que não pode haver celebração enquanto persiste uma crise humanitária marcada pela impunidade. Da mesma forma, reconhecemos a luta dos coletivos de bairro, organizações urbanas e moradores de bairros e colônias que denunciaram a “Copa do Mundo do despojo” e apontaram claramente que se trata de um “evento global com despejo local”. Suas vozes sintetizam o cansaço diante de políticas que priorizam interesses privados, investimentos especulativos e megaprojetos acima de direitos fundamentais como moradia, acesso à água e trabalho digno.

O que hoje se vive na Cidade do México não é um fenômeno isolado, mas parte de um processo mais amplo de turistificação e gentrificação que transforma os territórios em mercadoria. Sob a lógica dos grandes eventos internacionais, as cidades são reconfiguradas para o consumo, os custos de vida aumentam, as populações históricas são deslocadas e o tecido social que sustenta a vida comunitária é rompido. Esse modelo transforma bairros inteiros em zonas de investimento, expulsa quem os habita e redefine o espaço público como uma vitrine a serviço do capital.

Desde Oaxaca, sabemos que esse despojo não se limita às cidades. É o mesmo processo que avança sobre terras comunais e ejidais, que privatiza praias e costas, que impõe projetos turísticos, extrativistas e de infraestrutura em territórios de povos originários sem o seu consentimento. É uma lógica que desarticula comunidades, fragmenta territórios e coloca em risco formas de vida ancestrais em nome do desenvolvimento e do progresso. A Copa do Mundo de 2026, nesse sentido, nada mais é do que uma expressão visível de um sistema que mercantiliza a vida e aprofunda as desigualdades.

Diante disso, alertamos também sobre o uso da força pública, mecanismos de controle e contenção que buscam inibir a protesta e disciplinar as comunidades. A presença policial, os reordenamentos urbanos, a pressão institucional e as formas diretas e indiretas de despejo configuram um cenário onde a defesa do território é constantemente vigiada e, em muitos casos, criminalizada. Rejeitamos qualquer forma de repressão, ameaça ou assédio contra quem exerce seu direito à protesta e à defesa de seus direitos coletivos.

Reafirmamos que não há celebração possível quando se constrói sobre o despojo, o deslocamento e a dor. Não há evento global que justifique a perda de territórios, o rompimento do tecido social nem o silenciamento das lutas. O bairro, a colônia, as praias, a terra, os territórios e a vida não são mercadoria, e sua defesa é um direito legítimo dos povos.

Desde Oaxaca em rebeldia, seguimos convidando para o 2º Encontro Nacional contra a Gentrificação e Turistificação, nos próximos dias 18 e 19 de abril;

Frente de Organizações Oaxaqueñas (FORO)

Fonte: https://tierrayterritorio.wordpress.com/2026/03/29/comunicado-en-solidaridad-con-las-protestas-anti-fifa-2026/

Tradução > Liberto

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Rua do tempo:
Imagem volátil
Em olhos opacos.

Abelardo Rodrigues

[Itália] Não basta uma noite para nos fazer desaparecer

Olhos celestes,

um oceano de raiva.

.

Um corpo pequeno que transpira determinação e força.

Um vulcão em erupção.

“Você me deu uma cassetada e eu não senti nada!”

.

Uma companheira gentil,

sempre atenta aos outros,

de uma generosidade rara

neste planeta.

.

…mil outras coisas

que as minhas palavras

não conseguem descrever.

.

Encolhida em posição fetal

vivo esta grande dor

…chorando…

a acolho dentro de mim.

.

Para superar este luto

e recolher

que seja uma migalha

da sua imensa coragem.

.

Gosto de lembrar você assim:

saindo de casa com Dina,

para colher chicória selvagem.

Porque à noite há um jantar beneficente

para os companheiros.

.

Tchau, Sara,

boa viagem.

.

Seu coração bate…

em todas as nossas noites

de fogo.

Fonte: https://lanemesi.noblogs.org/post/2026/03/28/non-basta-una-notte-per-farci-sparire/

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/24/italia-mais-fortes-que-a-morte/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/26/italia-em-memoria-de-sandro-e-sara/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/25/italia-para-sara-e-sandro/

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Vultos
Ciscos cegos
No olho da rua.

André Vallias

[Itália] Contra todas as guerras e todos os patrões

Hoje, 28 de março, fomos às ruas em Roma na mobilização “No Kings” (Sem Reis) contra a guerra, o autoritarismo e a exploração.

Entre outras, estavam presentes também aquelas entidades que há anos apoiam governos, missões militares e políticas repressivas.

Nós, não. Nós não esquecemos, não nos confundimos e recusamos as guerras dos patrões. Mas recusamos também a paz feita por eles, feita de exploração, mortes no trabalho, repressão, fronteiras militarizadas e campos de concentração estatais.

A manifestação de hoje foi precedida, ontem à noite, dia 27 de março, por um encontro em nossa sede, muito participado, especialmente por jovens, dedicado ao tema do serviço militar obrigatório e da deserção.

Recusar a guerra é justo e necessário para quebrar a máquina do poder e da exploração.

“nem deus, nem estado, nem guerra”

Todes livres na livre Terr(A)

Grupo anarquista Mikhail Bakunin – FAI Roma & Lazio

Tradução > Liberto

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casa fantasma
cheia de habitantes
feitos de plasma

Carlos Seabra