[EUA] Por que nossa bandeira é preta?

Howard J. Ehrlich escreve em Reinventing Anarchy: 

“Por que nossa bandeira é preta? O preto é um tom de negação. A bandeira preta é a negação de todas as bandeiras. Trata-se da negação da nacionalidade que coloca a raça humana contra si mesma e nega a unidade de toda a humanidade. O preto é um estado de raiva e indignação para todos os crimes hediondos contra os seres humanos, crimes perpetrados em nome da aliança a um ou outro estado. Trata-se da raiva e da indignação aos insultos a inteligência humana, insultos implícitos nas pretensões, hipocrisias, e artimanhas baratas de governos… O preto também é a cor do luto; a bandeira preta que anula a nação é a mesma que lamenta por suas vítimas, incontáveis milhões assassinados em guerras, externas e internas, para a glória maior e a estabilidade de algum tipo de estado sangrento. Lamenta por aqueles cujo trabalho é roubado (taxado) para pagar o abate e a opressão de outros seres humanos.

Lamenta não somente pela morte carnal, mas também pela paralisação do espírito perante sistemas autoritários e hierárquicos. Lamenta os milhões de neurônios apagados sem nunca terem tido a chance de iluminar o mundo. É a cor do luto inconsolável.

Mas preto também é bonito. É a cor da determinação, da resolução, da força, uma cor pela qual todas as outras são clarificadas e definidas. Preto é o entorno misterioso da germinação, da fertilidade, a área de reprodução de nova vida que sempre evolui, se renova, atualiza, e reproduz a si mesma na escuridão. A semente escondida na terra, a jornada estranha do esperma, o crescimento secreto do embrião no útero. Tudo isso a escuridão da cor preta envolve e protege.

Então o preto é negação, é raiva, é indignação, é lamentação, é beleza, é esperança, é o acolhimento e a proteção de novas formas de vida e relacionamento humanos nesta terra. A bandeira preta significa todas essas coisas. Temos orgulho de carregá-la, lamentamos precisar fazer isso, e aguardamos ansiosamente pelo dia em que tal símbolo não seja mais necessário.”

Tradução > Núcleo de Traduções Libertárias Ferrer y Guardia (NTLFG)

agência de notícias anarquistas-ana

Sabiá quieto.
O silêncio da tarde
Pousa na antena.

Camila Jabur

[Grécia] Pôster | A guerra está em toda parte, o nosso inimigo está aqui…

A GUERRA ESTÁ EM TODA PARTE

Na Palestina, no Irã, na Síria, no Líbano, na Ucrânia, na América Latina, na África Subsaariana

O NOSSO INIMIGO ESTÁ AQUI…

No Estado grego e em suas alianças, em sua participação ativa e apoio aos conflitos bélicos, nas instalações militares gregas e aliadas, na indústria bélica, no nacionalismo, no racismo e no patriarcado, no famoso desenvolvimento nacional, nas expulsões, nos assassinatos por parte dos patrões, nas balas disparadas à toa pelos policiais, na NORMALIDADE DISTÓPICA que nos impõem.

…ou seja, em tudo o que odiamos desde crianças: o Estado e os patrões

conflito com o totalitarismo moderno

pela libertação social

Espaço Anarquista Ypokentro

ypokentro@espiv.net

ypokentro.espivblogs.net

Arachovis 42, Exarchia

agência de notícias anarquistas-ana

Em uma flor,
A joaninha pousa
Colorindo o jardim

Vanessa Kaori V. Uechi

Pânico anarquista e o Estado grego

Por Neil Middleton

A expansão contínua e a implementação cada vez mais absurda das leis antiterroristas são uma realidade compartilhada em muitos países. Chegamos a um ponto em que qualquer pessoa que proteste ou faça campanha por um mundo melhor sabe que leis antiterroristas podem ser acionadas a qualquer momento. A questão de como responder a isso, então, é mais urgente do que nunca.

Aqui veremos como o movimento anarquista respondeu durante um dos momentos-chave de tensão da Europa do século XXI: a década em que a Grécia esteve no centro da crise capitalista. Durante os anos da crise, dezenas de anarquistas e antiautoritários foram acusados e, muitas vezes, condenados sob leis antiterroristas. Embora isso não pudesse ser combatido diretamente, o movimento na Grécia conseguiu devolver essa repressão ao Estado ao se mobilizar em torno dos prisioneiros. Devido às ações do movimento, uma tentativa do Estado de afirmar controle acabou por enfraquecê-lo e aumentar as tensões.

As leis antiterroristas chegaram relativamente tarde à Grécia, com um artigo específico sendo adicionado ao código penal apenas em 2001. Tratava-se do que se tornaria o infame Artigo 187A, que definia terrorismo como uma circunstância agravante de qualquer crime que potencialmente minasse a ordem pública. A definição, do ponto de vista do Estado, é convenientemente vaga, criando a possibilidade de que qualquer ação considerada ameaçadora ao Estado, ou mesmo a qualquer organização internacional, possa ser enquadrada com penalidades adicionais e maiores poderes policiais.

O potencial de abuso dessa vagueza foi amplamente demonstrado. Não apenas o alvo principal, os grupos guerrilheiros anarquistas, foi afetado, como a ameaça pairou também sobre ativistas ambientais que faziam campanha contra a mineração de ouro em Skouries, e sobre membros do coletivo anarquista Rouvikonas por causa de uma postagem em rede social. O que aumenta ainda mais a utilidade do antiterrorismo para o Estado são as atividades potencialmente cobertas pelo Artigo 187A. Longe de abranger apenas atos especialmente violentos, tanto crimes graves quanto delitos menores podem ser considerados atos de terrorismo. O incitamento a tais atos também é abrangido, assim como o fornecimento de qualquer apoio a pessoas supostamente integrantes de um grupo terrorista, com outras leis sobre “financiamento do terrorismo” sendo introduzidas durante a crise. Casos envolvendo anarquistas frequentemente giravam em torno da questão de saber se era possível rotular indivíduos como dirigentes de uma organização terrorista, o que acrescentaria penalidades extras.

O antiterrorismo também traz poderes policiais adicionais e cobertura midiática ampliada. A polícia tem permissão para usar testemunhas anônimas e frequentemente o fez em casos contra anarquistas. A prisão preventiva para suspeitos de terrorismo foi elevada até e além do limite legal de 18 meses, prática muitas vezes justificada pelo surgimento oportuno de acusações adicionais quando um período de detenção se aproximava do seu limite. À medida que os casos contra anarquistas se acumulavam ao longo da década, muitos passaram a se ver envolvidos simultaneamente em múltiplos processos com acusações sobrepostas. Era até possível acusar alguém por ações que teriam ocorrido fora da prisão enquanto essa pessoa já estava encarcerada. Pessoas foram condenadas com base em provas extremamente frágeis. Tasos Theofilou foi preso injustamente por anos com base em DNA falho, enquanto Irianna foi condenada devido a DNA contestado e ao seu relacionamento com um anarquista que já havia sido julgado, mas declarado inocente.

Quando a crise política começou na Grécia, após a revolta de dezembro de 2008, houve um aumento das ações de grupos guerrilheiros anarquistas e antiautoritários, que atacavam infraestrutura financeira, polícia e instituições estatais. A resposta do Estado foi uma campanha jurídica que começou com as primeiras prisões em 2009 e, em alguns casos, continua até hoje. Em seu auge, em meados e no final da década de 2010, dezenas de guerrilheiros suspeitos ou autodeclarados foram julgados e presos. A ambição do Estado não era apenas atingir aqueles que haviam pegado em armas contra ele, ou que se acreditava terem feito isso, mas atingir o máximo possível do espaço anarquista e antiautoritário. A vagueza dos artigos antiterroristas permitiu visar familiares, conhecidos e camaradas de supostos guerrilheiros.

Não havia disposição para contestar as leis antiterroristas no parlamento. Partidos de esquerda chegaram a questionar governos de direita sobre o tratamento dado aos prisioneiros e a levantar questões sobre os abusos de poder mais evidentes, mas não havia esperança de nada além disso. Embora os governos socialistas dos anos 1980 tenham revogado leis antiterroristas anteriores em meio a um alto grau de simpatia pública por grupos guerrilheiros marxistas, desde então as atitudes parlamentares mudaram. Anarquistas e antiautoritários incluíam a revogação dessas leis em listas de reivindicações, mas poucos esperavam algum avanço.

O que anarquistas e antiautoritários conseguiram fazer foi devolver ao Estado parte da pressão exercida por ele, ao se mobilizarem em torno dos prisioneiros. Na Grécia, isso tomou a forma de apoio nas ruas às campanhas de greve de fome dos prisioneiros. A greve de fome é uma tática frequente na Grécia, e o movimento do lado de fora a apoiava por meio de uma série crescente de protestos, motins e ações diretas. Em alguns momentos, essas campanhas atingiram picos significativos, com as maiores campanhas do período da crise ocorrendo no verão de 2013, em novembro/dezembro de 2014 e na primavera de 2015. Cada uma dessas campanhas ganhou uma importância que ultrapassou o movimento anarquista, pois desempenhou um papel no período de agitação social.

A campanha do verão de 2013 em apoio a Kostas Sakkas, cuja prisão preventiva estava sendo estendida para além do limite máximo de 18 meses, contribuiu para uma onda de protestos. O governo da época tentava vender a narrativa de um suposto sucesso, segundo a qual a crise estaria chegando ao fim mais cedo. Outra onda de protestos antiausteridade e de solidariedade a Sakkas arruinou essa narrativa.

A campanha do fim de 2014, em solidariedade a Nikos Romanos e à sua reivindicação do direito à saída para fins educacionais, pôs fim a um período de estagnação nas ruas e brevemente reenergizou o movimento num momento em que o governo estava em lento colapso.

A campanha da primavera de 2015 tinha motivações diversas. Para alguns, foi uma resposta à prisão e à possível acusação de familiares de guerrilheiros presos. Para um grupo de prisioneiros, foi uma tentativa de capitalizar o impulso do outono anterior e motivar o movimento externo a se mobilizar contra as negociações do novo governo, liderado pela esquerda, em favor de mais austeridade. Dos três exemplos, os de 2013 e 2014 atingiram seus objetivos e ameaçaram gerar uma agitação social mais ampla. A campanha de 2015 foi apenas parcialmente bem-sucedida e, infelizmente, expôs divisões dentro do movimento, pois houve queda no nível de participação.

Os anarquistas nunca conseguiram contestar diretamente as leis antiterroristas, mas foram capazes de reagir contra aspectos de sua implementação e de transformar um método de controle social em uma possível centelha de agitação. Em momentos em que os movimentos sociais têm dificuldade de responder, o Estado sempre buscará ampliar o alcance do seu controle, sendo o antiterrorismo a espada. No entanto, quando é possível montar uma resposta forte e sustentada, essa espada pode se tornar de dois gumes.

Everything Continues: A History of the Crisis in Greece 2008-2018 deve ser lançado em breve.

Imagem: estudantes anarquistas marcham em Atenas em 6 de dezembro de 2013, para marcar o assassinato de Alexis Grigoropoulos pela polícia.

Este artigo apareceu pela primeira vez na edição de inverno de 2025/26 da Freedom Journal.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/03/22/anarchist-panic-and-the-greek-state

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Na casuarina
aves, só um trinado.
O gato espia.

José Roberto Magatti

[Espanha] Lançamento: “Anarquismo y cambio social. Insurreccionalismo, sindicalismo, educacionismo-realizador”, de Gaetano Manfredonia

A obra busca contribuir ao debate sobre o anarquismo e sua memória. Não é tanto história das ideias ou história política ‘clássica’, mas sobretudo, das práticas das e dos anarquistas. Destaca assim a pluralidade e heterogeneidade de um anarquismo cuja riqueza se viu muitas vezes relegada a alguma de suas manifestações. O autor nos propõe três tipos ideais e uma reinterpretação da história que pode dotar-nos de um marco analítico mais complexo. Não é pois uma história do anarquismo fechada sobre si mesma – nas quais aparece o resto de socialismos só como contraponto -, mas uma sequência não unívoca nem fechada para repensar a história também do socialismo e do movimento obreiro europeu, desde os últimos dias da Revolução Francesa até princípios do S.XX.

Anarquismo y cambio social. Insurreccionalismo, sindicalismo, educacionismo-realizador

Gaetano Manfredonia

Editorial: Sueños de sabotaje

ISBN: 9788412441758

432 págs.

Precio 19,00 €

Año: 2026

viruseditorial.net

agência de notícias anarquistas-ana

Longa chuvarada…
Nos matos e nas lagoas,
um canto de vida.

Humberto del Maestro

[Grécia] Comunicado de imprensa da equipe médica que monitora o grevista de fome Aristóteles Hatzis, 15/04

Do Grupo de Médicos Solidários e da Estrutura de Saúde da Comunidade Ocupada de Prosfygika:
 
COMUNICADO DE IMPRENSA (15/04/2026) DA EQUIPE MÉDICA QUE ACOMPANHA O ESTADO DE SAÚDE DO GREVISTA DE FOME ARISTÓTELES HATZIS, EM GREVE DE FOME DESDE 05 DE FEVEREIRO DE 2026.
 
Aristóteles Hatzis, que está no 70º dia de greve de fome, apresenta baixo nível de ureia sérica, hiperuricemia e hipoglicemia sintomática em exames de sangue, achados compatíveis com inanição. Clinicamente, observa-se dormência nas extremidades e reflexos tendinosos lentos, decorrentes de desnutrição e atrofia muscular. Em 03/04/2026, ele foi transferido para o pronto-socorro do hospital “G. Gennimatas” após um episódio de desmaio.
 
Desde as primeiras semanas da greve de fome, ele vem apresentando episódios cada vez mais graves de hipotensão ortostática, mal-estar com fadiga e taquicardia ao se levantar, enquanto alterações eletrocardiográficas persistentes que predispõem a arritmias fatais são observadas diariamente.
 
Ele já está no 70º dia de greve de fome e está extremamente magro, pesando 47,9 quilos e tendo perdido um total de 26,3% do seu peso corporal original.
 
O grevista de fome corre, a cada 24 horas que passam, um risco cardiovascular e metabólico cada vez maior, com complicações iminentes e perigosas para sua vida.
 
Suas reivindicações expressam as demandas coletivas da Comunidade.
 
1) O cancelamento imediato do contrato pela região da Ática
2) Que todos os moradores de Prosfygika permaneçam em suas casas, no local e na área onde vivem e estabeleceram laços sociais, culturais e orgânicos
3) Garantias concretas para a restauração de Prosfygika pela sociedade civil sem fins lucrativos “Katoikoi kai Filoi Prosfygikon L. Alexandras”, com autofinanciamento! – Nada de fundos públicos para a “requalificação” de Prosfygika!
 
O grevista de fome afirma que não pretende interromper o jejum, apesar dos riscos para sua saúde, até que suas reivindicações sejam atendidas.
 
Após 70 dias de greve de fome e considerando a deterioração constante e crescente de seu estado de saúde, a responsabilidade por qualquer complicação ou mesmo óbito recai sobre as partes envolvidas no contrato, com predominância da Região da Ática.
 
O encobrimento da greve de fome pela maioria dos meios de comunicação, bem como o silêncio criminoso do governo, das forças políticas parlamentares e dos órgãos competentes, são cúmplices em levar o grevista à morte.
 
Como profissionais de saúde, convocamos todos a se mobilizarem imediatamente e resistirem até que as reivindicações da greve de fome sejam atendidas.
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/04/16/grecia-apoie-e-participe-da-defesa-da-comunidade-ocupada-de-prosfygika-em-atenas-e-da-restauracao-auto-organizada-do-bairro/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Quase escondida
entre a casca e o tronco
teia de aranha.
 
Rodrigo de Almeida Siqueira

[Espanha] 14ª Feira do Livro Anarquista de Valência

A Feira do Livro Anarquista de Valência constitui um espaço de encontro que oferece a oportunidade de fortalecer velhas amizades e estabelecer novos contatos, fazer uma retrospectiva das lutas e dos movimentos sociais, debater novas estratégias para derrubar o capitalismo e o patriarcado e, em última análise, preparar a futura revolução. É também uma das faces públicas do anarquismo em Valência e arredores. Qualquer pessoa que não esteja familiarizada com as ideias anarquistas ou que tenha interesse em aprofundar o tema pode se aproximar, folhear os livros nas barracas, ouvir e participar das palestras, shows, oficinas e debates ou simplesmente conversar com as pessoas ao seu redor.
 
14ª Feira do Livro Anarquista de Valência
20 a 26 de abril de 2026
El Punt, Espai de Lliure Aprenentatge (c/Josep Esteve, 46)
Valência, Espanha
 
>> Confira a programação aqui:
 
https://mostrallibreanarquista.wordpress.com/programacio-mostra-2026/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
ontem à noite
sonhei de corpo inteiro
— acordei com teu cheiro
 
Alonso Alvarez

[Rio de Janeiro-RJ] 1º de Maio: Inauguração da base da ATB na Maré

No próximo 1º de Maio, às 16h, convidamos todas e todos para a inauguração da base da ATB na Maré — um momento de encontro, construção coletiva e fortalecimento das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras.
 
A ATB (Associação de Trabalhadores de Base) abre as portas da sua nova base no Espaço Caetés, Praça Caetés 11, no Morro do Timbau (Maré/RJ), reafirmando o compromisso com a organização popular, a solidariedade de classe e a transformação social.
 
1º de Maio é dia de luta!
 
E nada melhor do que marcar essa data com a construção de mais um ponto de resistência e articulação no território.
 
Local: Espaço Caetés 11 – Morro do Timbau, Maré
Data: 1º de Maio
Horário: 16h
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/05/20/buscamos-nos-organizar-a-partir-de-nossas-tradicoes-populares-antiautoritarias/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
quem consegue dormir
com a lua de outono
rondando a janela?
 
Maria Marta Nardi

[Porto Alegre-RS] 21/04 – Não foi descobrimento! – A invasão portuguesa e a resistência indígena ao colonialismo

Dia 22 de abril de 1500 invasores portugueses chegaram nestas terras e deram início a um projeto de genocídio dos povos indígenas, de exploração predatória e de saque de tudo que considerassem ter algum valor. Esse projeto continua até hoje sob o nome de Brasil.

526 anos depois do início dessa invasão, convidamos a todys a celebrar aquelas pessoas que até hoje resistem e combatem esse projeto colonial. Terça, dia 21 de abril, vamos receber no Esp(a)ço Iracema Gah Té para uma conversa, liderança da Retomada Multiétnica Gah Ré que vem dando exemplo na resistência contra os avanços do capital imobiliário sobre o Morro Santana. Após, teremos apresentação musical de Murillo Munìí. Teremos também exibição de vídeos.

As portas do Esp(a)ço abrem às 15h. A atividade começa às 16h.

O Esp(a)ço fica na Rua Barros Cassal, 316, no Centro de Porto Alegre.

Atenção: Para garantir o conforto e segurança de todas as pessoas presentes, pedimos que se você possuir histórico ou denúncia por reproduzir comportamento abusivo ou opressivo, assédio, abuso ou outro tipo de violência, por favor, entre em contato conosco pelo nosso email ou redes sociais antes de comparecer. Não fazer isso é não se responsabilizar por suas ações e será solicitado que se retire.

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Na velha roseira,
entre as folhas e os espinhos,
uma aranha tece.

Humberto del Maestro

[País Basco] Uma marcha ciclista reivindica a conversão da indústria bélica em civil,

Uma marcha ciclista que partiu de Bilbao, impulsionada por coletivos antimilitaristas, ecologistas e internacionalistas, censurou neste sábado (11/04) os gastos militares e reivindicou a conversão da indústria armamentista em civil.

A conversão da indústria bélica em civil é o que reivindicou neste sábado uma marcha ciclista convocada pela coordenadora antimilitarista Kakitzat, que partiu do Palácio Foral da Diputação de Bizkaia e seguiu até as empresas ITP Aero, em Barakaldo, e SENER, em Getxo, ponto final do percurso.

Os organizadores denunciaram que “o Governo Basco aprovou este ano subsidiar com milhões de euros as empresas de armas bascas”, que “mantêm relações com as principais indústrias militares de Israel: Rafael, Elbit, Israel Aerospace Industries (IAI) na fabricação conjunta de diversos programas de armas, especialmente aeronáuticos e de mísseis”.

Segundo indicaram, o setor da indústria militar na CAV (Comunidade Autônoma Basca) é composto por 206 empresas e gera um faturamento anual de 6 bilhões de euros, situando-se como a terceira comunidade autônoma do Estado em produção, atrás de Madri e Andaluzia.

Durante a marcha, os participantes se concentraram em frente à ITP Aero, empresa que fabrica componentes para o avião de transporte militar Airbus A400M e para o caça europeu Eurofighter, e que registrou um faturamento de 1,882 bilhão de euros com um aumento de lucro de 28%, segundo denunciaram os convocantes.

O percurso concluiu em frente à SENER, que, conforme criticaram, é “a segunda empresa do Estado espanhol no setor de ‘mísseis’, a sexta no setor ‘aeroespacial’ militar e a décima segunda no segmento de armamento”.

Por fim, reivindicaram a conversão da indústria militar em civil e deram como exemplo o caso da Orbea, “a empresa que antigamente se dedicava à fabricação de pistolas, revólveres e todo tipo de armas curtas que ceifaram vidas” e que “atualmente fabrica bicicletas, promovendo um estilo de vida saudável e amigável ao meio ambiente”.

Fonte: https://www.naiz.eus/es/info/noticia/20260411/una-marcha-ciclista-reclama-la-conversion-de-la-industria-armamentistica-en-civil

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

as vozes da chuva
emudecem
as cigarras

Paladino

[Grécia] Apoie e participe da defesa da Comunidade Ocupada de Prosfygika em Atenas e da restauração auto-organizada do bairro

 

No coração de Atenas, a Comunidade Ocupada de Prosfygika acolheu, abrigou, alimentou e apoiou milhares de pessoas nos últimos 15 anos. É um dos maiores bairros auto-organizados e libertados da Europa.
 
A Comunidade está se tornando mais forte, mas a repressão também. Atualmente, Prosfygika está sob ameaça de ataque e despejo. Na última década, esta é a quinta vez que o Estado e a região tentam despejar e saquear Prosfygika. Desta vez, a ameaça parece ser a mais séria e está prestes a ser executada imediatamente.
 
Ao longo do último ano, a comunidade já anunciou publicamente que dará continuidade à restauração e renovação dos edifícios históricos, financiadas e organizadas de forma autônoma. Este projeto está sendo realizado com a participação e o apoio de arquitetos, engenheiros civis e outros especialistas técnicos.
 
Cada fachada restaurada, cada janela reparada e cada varanda contribuem para a defesa e o futuro de toda a comunidade e, portanto, também para o modo de vida comunitário que ela oferece.
 
Por isso, nosso companheiro Aristotelis Chantzis decidiu, em 5 de fevereiro de 2026, iniciar uma greve de fome até a morte em defesa da vida. Suas reivindicações são:
 
1) O cancelamento imediato do contrato pela região da Ática
2) Que todos os moradores de Prosfygika permaneçam em suas casas, no local e na área onde vivem e estabeleceram laços sociais, culturais e orgânicos
3) Garantias concretas para a restauração de Prosfygika pela sociedade civil sem fins lucrativos “Katoikoi kai Filoi Prosfygikon L. Alexandras”, com autofinanciamento! – Nada de fundos públicos para a “requalificação” de Prosfygika!
 
No dia 1º de maio, outro camarada iniciará sua greve de fome até a morte.
 
Convocamos todos os internacionalistas e defensores da vida a apoiar e participar da defesa da comunidade, seja vindo a Atenas, participando de nossa campanha internacionalista #saveprosfygika ou por meio de outras formas de ação.
 
Pedimos a todos que nos ajudem com este apelo por doações para colocar em prática o plano de autodefesa social!
 
Nossa resposta à repressão é a criação
Ou venceremos, ou venceremos
 
>> Para apoiar financeiramente a Comunidade Ocupada de Prosfygika, clique aqui:
 
https://www.firefund.net/saveprosfygika
 
Conteúdos relacionados:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/04/01/grecia-acoes-em-solidariedade-a-prosfygika/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/13/grecia-atenas-solidariedade-com-a-comunidade-de-refugiados-ocupada/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/02/20/grecia-greve-de-fome-ate-a-morte-em-defesa-da-vida/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Limpo o rosto na camisa –
O vento começa a trazer
As primeiras gotas de chuva
 
Paulo Franchetti

[Espanha] 1º de Maio anarcossindicalista frente à extrema direita e as guerras do capitalismo.

Este 1º de maio de 2026 completam 90 anos da Revolução Social de 1936. Referência da luta da classe obreira antifascista e libertária, que construiu uma realidade de transformação social e de liberdade. Ainda hoje nos serve de exemplo na luta diária contra o capitalismo.

Em um contexto global de guerra e desumanização, que caminha pela mão do crescimento do fascismo da extrema direita internacional, vemos como a apropriação pela força dos recursos e territórios alheios nos retrocedam às políticas belicistas de princípios do Século XX. Estando hoje mais próximo do que nunca de uma nova “guerra mundial” e um desastre nuclear. As elites econômicas e o governo dos EUA retrocedem aos tempos da doutrina Monroe, ameaçando a todo o continente americano. E, junto com o Estado sionista de Israel, rompem as escassas normas do Direito internacional, provocam deslocamento de milhões de pessoas, destroem infraestruturas de todo tipo, massacram populações indefesas, bombardeiam escolas, hospitais… Provocando um Genocídio na Palestina e estendendo a morte e a destruição no Líbano, Irã e todo Oriente Médio.

Não esquecemos os povos do Curdistão, Ucrânia, Sudão, o Saara e tantos outros lugares que sofrem guerras e extermínio por estados belicistas. Uma pequena elite capitalista tomou o controle da população mundial, mediante a manipulação, o engano, a ameaça e a violência. Violando os direitos humanos e sociais da classe trabalhadora e da população em geral. Atacando a coletivos por motivos ideológicos: ecologistas, pessoas migrantes, racializadas, feministas, trans ou qualquer pessoa diferente.

Desde a Confederação Geral do Trabalho, como organização combativa e anarcossindicalista, impulsionamos a unidade de classe e o encontro do antifascismo e do antimilitarismo. Sem esta unidade de ação não poderemos fazer frente a este capitalismo selvagem que nos ameaça e divide.

A CGT é a organização que mais lutas e greves promove em todo o Estado. Combatemos a perda do poder salarial pela subida dos preços, a precariedade no emprego, a sinistralidade no trabalho, a diferença salarial das mulheres, a privatização de todos os serviços públicos, a destruição do meio ambiente e os gastos militares.

  • Defendemos a redução da jornada laboral a 30 horas.
  • Defendemos umas pensões públicas dignas e sem diferença salarial. Denunciamos sua privatização.
  • Defendemos o direito a uma moradia digna para todas as pessoas.
  • Defendemos o direito de regularização de pessoas migrantes, uma das populações mais discriminadas junto a outros grupos racializados.
  • A CGT não esquece este 1º de maio o aumento da violência de gênero sofrida pelas mulheres e seus descendentes. Exigimos o fim desta praga e da sociedade patriarcal.
  • A CGT aposta pela luta em nossos centros de trabalho e nas ruas. Só mediante a organização e o apoio mútuo conseguiremos varrer as desigualdades que nos impõe o capitalismo e o patriarcado.

FRENTE A EXTREMA DIREITA: ORGANIZAÇÃO E LUTA
FRENTE AO IMPERIALISMO: UNIDADE DA CLASSE OBREIRA E ANARCOSSINDICALISMO

Secretariado Permanente Comitê Confederal CGT

cgt.es

agência de notícias anarquistas-ana

deu no jornal:
economia vai bem
o povo vai mal

Carlos Seabra

[França-Cuba] A “libertação” de Alexander Díaz Rodríguez

Por Floréal | 15/04/2026
 
Em 11 de julho de 2021, centenas de milhares de cubanos se manifestaram em todo o país, gritando “Liberdade!”. Centenas foram presas e condenadas a longas penas de prisão, pois a ditadura cubana só conhece uma linguagem quando se trata de seu povo: a repressão. Entre os detidos e condenados estava Alexander Díaz Rodríguez, então com 40 anos e morador da cidade de Artemisa. Ele foi condenado a cinco anos de prisão.

Em diversas ocasiões, foram feitos pedidos de sua libertação devido ao seu estado de saúde, já que Alexander Díaz Rodríguez sofria de câncer de tireoide. Todos esses pedidos foram sistematicamente negados por causa de seu “status contrarrevolucionário”, segundo as autoridades judiciais.

Alexander Díaz Rodríguez, portanto, cumpriu sua pena e acaba de ser libertado da prisão. As fotos anexas mostram o estado em que a ditadura cubana o “libertou”.

Estas fotos foram tiradas por iniciativa de Javier Larrondo, chefe da organização Prisoners Defenders (Defensores dos Prisioneiros), que publica regularmente relatórios bem documentados sobre as prisões cubanas e as condições de encarceramento em um país cujos líderes continuam a negar a existência de presos políticos e onde nenhuma organização oficial, humanitária ou não, jamais conseguiu acessar as inúmeras prisões da ilha para investigar suas condições e o que acontece lá dentro.

As imagens de Alexander Díaz Rodríguez, após cinco anos na prisão, tornam-se um testemunho visual dos abusos sofridos por opositores dentro do sistema prisional cubano. “A humanidade não pode tolerar que um regime na situação em que Cuba se encontra continue agindo como tem agido há 67 anos”, disse Javier Larrondo.
 
Fonte: https://florealanar.wordpress.com/2026/04/15/la-remise-en-liberte-dalexander-diaz-rodriguez/
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/04/09/franca-noticias-vindas-das-prisoes-cubanas/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
na beira do lago
pernilongos esperam
pernas distraídas
 
Nara Fontes

[Itália] Além do Especismo. O caminho rumo à libertação total

“Comer carne é algo que você faz ao corpo de outra pessoa sem o seu consentimento”
Pattrice Jones (Fighting Cocks. Ecofeminism vs. sexualized violence, 2011)

Era 1792 quando Mary Wollstonecraft, sobre quem se falou na coluna Uma filósofa por mês na edição 02/2026 da Umanità Nova, publicou o ensaio A Vindication of the Rights of Woman (Reivindicação dos Direitos da Mulher).


No mesmo ano, Thomas Taylor, filósofo neoplatônico britânico da Universidade de Cambridge, usando um pseudônimo, publicou o texto satírico A Vindication of the Rights of Brutes (Reivindicação dos Direitos dos Animais) com o objetivo de ridicularizar a reivindicação dos direitos das mulheres defendida por Wollstonecraft: para salientar o quão absurdo seria as mulheres poderem reivindicar direitos, Taylor sugeria, de maneira provocadora, estender tais direitos também aos animais.

Taylor em seu panfleto coloca as mulheres, cujas reivindicações suscitam risadas de escárnio, na mesma categoria dos animais, mas, de fato, com tal reductio ad absurdum, sugere a existência de uma conexão entre as demandas feministas e as de libertação animal.


Hoje, que fique bem claro para Taylor, tais reivindicações não suscitam mais tanta hilaridade e, no plano filosófico, as demandas éticas da libertação animal foram acolhidas pelo feminismo desde os anos sessenta. De um ponto de vista político, é possível, de fato, encontrar uma conexão entre feminismo e animalismo, entendidos como movimentos de libertação, que identificam no paradigma da dominação a raiz comum da opressão.

Tal conexão é bem sublinhada pelo filósofo australiano Peter Singer que, em Libertação Animal (1975), populariza o termo especismo (cunhado em 1970 por Richard D. Ryder, psicólogo britânico que, após o início de experimentos em animais, começou uma batalha contra essa prática tornando-se um dos pioneiros do movimento de libertação animal), definindo-o como “uma distorção de julgamento a favor dos interesses da própria espécie e contra os dos membros de outras espécies”. A filosofia de Singer, de cunho utilitarista, considera moralmente corretas as ações que levam em conta os interesses dos seres que têm a capacidade de sofrer.

O especismo é a ideologia difundida, na qual todos nós estamos imersos e que absorvemos sem nos darmos conta, que coloca a espécie humana no vértice de uma pirâmide e a legitima a considerar todas as outras espécies animais como inferiores, uma visão que tem raízes culturais e que, afirma Singer, é codificada nas antigas escrituras hebraicas, onde se lê que a espécie humana teria um direito divino de domínio sobre as outras espécies, e na Grécia clássica com sua visão antropocêntrica. Tais princípios teriam então confluído para o cristianismo, através do qual chegaram ao predomínio na Europa e, nos últimos cinco séculos, para fora das fronteiras europeias, até influenciar o resto do mundo.

A desvalorização sistemática dos animais não humanos, reduzidos a objetos à nossa total disposição, torna possível sua exploração e morte. Daí decorre uma estreita analogia com o racismo e o sexismo, enquanto formas de discriminação fundadas no interesse de um grupo em detrimento de outros e na perpetuação de uma hierarquia de poder. O antiespecismo, próximo ao movimento da ecologia profunda e à anarquia verde, amplia os conceitos de antirracismo e antissexismo incluindo as outras espécies animais e, superando a visão antropocêntrica, sustenta que a pertença biológica à espécie humana não pode de modo algum justificar a possibilidade de dispor da vida, da liberdade e do corpo de um indivíduo pertencente a outra espécie, reconhecido como sujeito senciente e não mais como recurso ou meio.

Entre as figuras a quem Singer reconhece uma extraordinária ação pioneira está o ensaísta e ativista inglês Henry Salt, antiespecista ante litteram, que foi o primeiro, na história do pensamento ocidental, a reconhecer uma raiz política comum entre a opressão humana e animal. Salt, a quem devemos a noção de direitos animais, lutou pela abolição da pena de morte e pela reforma do sistema prisional, e em 1891 fundou a Humanitarian League para se opor tanto às injustiças contra os seres humanos quanto às formas de crueldade contra os outros animais. Em 1894 escreveu o ensaio Animals’ Rights, Considered in Relation to Social Progress (Direitos Animais, Considerados em Relação ao Progresso Social), no qual sublinhava a analogia entre a condição dos animais domésticos e a dos escravos negros do século anterior: “A emancipação dos homens da crueldade e da injustiça — lê-se ali — trará consigo, a seu tempo, também a emancipação dos animais. As duas reformas são inseparáveis e nenhuma delas pode ser completamente realizada sozinha”. A modernidade do pensamento de Salt consiste na superação da atitude piedosa típica da abordagem protecionista em relação às outras espécies e na intuição de reunir os direitos naturais de todas as espécies numa única causa a ser combatida.

Em nossos dias, encontramos uma abordagem semelhante também na obra do filósofo jusnaturalista estadunidense Tom Regan, autor do ensaio The Case for Animal Rights (1983) [publicado no Brasil como “Jaulas Vazias” ou “Direitos Animais”] em que defende a cessação de todas as práticas de exploração, baseando-se no pressuposto de que cada animal, enquanto sujeito-de-uma-vida, dotado, por isso, de valor intrínseco e de interesse em viver, é titular de direitos morais inalienáveis.

No ensaio Empty Cages: Facing the Challenge of Animal Rights (2004) [Jaulas Vazias], a abordagem abolicionista e a recusa das práticas do chamado bem-estar animal são bem sintetizadas por Regan na frase: “Devemos esvaziar as jaulas, não torná-las maiores”.

Apesar de, ao longo dos anos, parecer ter se desenvolvido uma maior atenção ao bem-estar animal, para cuja tutela foram promulgadas várias leis, é indubitável que o advento do capitalismo e da era industrial tornaram a nossa “a pior época para ser um animal”, para usar ainda as palavras de Peter Singer, pois o especismo teve os instrumentos para colocar em prática o maior extermínio da história do planeta: “a pecuária industrial não é nada mais que a aplicação da tecnologia e das forças de mercado à ideia de que os animais são um meio para nossos fins”.

Todos os anos, no mundo, cerca de 170 bilhões de seres sencientes (considerando apenas os animais criados para alimentação), cada um com sua própria e complexa unicidade de indivíduo, mesmo sem que a espécie humana tenha a necessidade de se alimentar deles, vivem aprisionados nas engrenagens de uma gigantesca linha de montagem e, dessas somas já impressionantes, estão excluídos os animais marinhos, cujo número, dificilmente quantificável, mesmo quando arredondado para baixo, supera em muito o relativo ao massacre da fauna terrestre.

Nesses números anormais e na crescente taxa de crueldade que a competição de mercado leva a exercer sobre os animais para incrementar a produção contendo os custos, reside a razão pela qual o historiador americano e estudioso do Holocausto Charles Patterson em 2002 escreveu Eternal Treblinka: Our Treatment of Animals and the Holocaust [Uma Eterna Treblinka], no qual, após uma análise histórica indispensável para entender como se chegou a uma tragédia de tais dimensões, dando voz a alguns sobreviventes do Holocausto, que se tornaram depois defensores dos animais após compreenderem que a raiz da violência é a mesma, estabelece uma comparação inegável entre o modo como os nazistas tratavam suas vítimas e o modo como, na sociedade atual, são tratados os animais. O título do livro inspira-se nos escritos de Isaac Bashevis Singer, e em particular numa passagem de seu conto The Letter Writer (O Escritor de Cartas): “Em relação a eles, todos são nazistas: para os animais, Treblinka dura eternamente”. A analogia estabelecida por Patterson suscitou polêmicas e indignação, mas é inegável que a gestão dos campos de concentração, como descrito pelos testemunhos dos sobreviventes, remete a procedimentos de tipo industrial típicos dos matadouros, exatamente como o tratamento dos corpos dos indivíduos, reduzidos a objetos em ambos os casos.

O tema da reificação dos corpos dos animais, associado à mercificação dos corpos das mulheres, está no centro da obra de Carol J. Adams, ensaísta e ativista estadunidense, autora de The Sexual Politics of Meat: A Feminist-Vegetarian Critical Theory (1990) [A Política Sexual da Carne]. O destino comum reservado quotidianamente aos corpos femininos e animais é identificado por Adams nas fases de objetificação, fragmentação e consumo. É a linguagem que favorece a normalização da opressão, gerando uma dissociação entre a carne presente no prato e o corpo do animal morto. Para explicar tal processo de remoção, Adams introduz o conceito de referente ausente: substituindo o animal que é consumido por termos neutros como “carne”, “hambúrguer” ou “bife”, que desarmam o impacto cruel da violência, a linguagem evita que se produza uma associação direta com o corpo do animal ao qual aqueles pedaços pertenciam. É justamente a partir dos anos noventa que, a nível teórico, se desenvolve um movimento feminista interseccional, antiespecista e ecologista, que identifica como pilares a inviolabilidade dos corpos, a luta contra todo tipo de opressão e contra a cultura do domínio antropocêntrico.

Para superar o antropocentrismo, é necessário repensar radicalmente nosso papel de espécie dentro da rede dos viventes e recuperar aquilo que, graças aos estudos da antropologia moderna, sabemos ter sido a relação do homem pré-civilizado com a natureza, relação que ainda hoje caracteriza muitas populações indígenas: uma relação de não separação, desprovida de hierarquias, que permite ao ser humano dialogar sem fronteiras de espécie com a comunidade dos viventes da qual faz parte.

É preciso lembrar que o conflito entre natureza e cultura que nós, ocidentais modernos, elevamos a paradigma, nada mais é do que uma abordagem disfuncional à realidade, que está nos conduzindo ao nosso próprio fim. Deveríamos superar este modelo dicotômico, esta visão da natureza como alteridade que colonizou as mentes de todos nós, mas que, como hoje sabemos graças aos desenvolvimentos que houve no âmbito científico (sobretudo graças à etologia e às neurociências), está em antítese com a nossa própria biologia.

Como vimos, na base de toda forma de opressão há sempre uma separação, a atribuição arbitrária de superioridade de um lado e subalternidade do outro, que legitima a prepotência, seja quando se fala de corpos humanos, de corpos animais, de florestas, de sistemas ecológicos, de comunidades indígenas, etc.

Se combatemos as discriminações, não existe nenhuma razão válida para não colocar em discussão o especismo. Se combatemos pela liberdade e autodeterminação dos indivíduos, não existe nenhuma razão válida para adotar um padrão moral diferente em relação aos indivíduos que pertencem a uma espécie diferente da nossa. Ser libertário é um motivo a mais para recusar ignorar o horror a que nossa espécie submete todas as outras. Como é possível opor-se à violência, sem considerar o fato de que nossos pratos estão cheios dela? Como é possível aceitar perpetuar a herança religiosa de uma hierarquia entre as espécies?

Construir cercas identitárias e viver as lutas de modo setorial não faz sentido. É, ao contrário, necessário e urgente, sobretudo à luz dos cenários atuais e dos desafios futuros, reafirmar mais uma vez a necessidade de uma abordagem interseccional nas lutas, que veja finalmente reconhecida e enfrentada a matriz comum de todas as formas de opressão, sem esquecer o especismo, que é tão interiorizado e normalizado que frequentemente não só está ausente dos debates, mas nem sequer é considerado um terreno de luta, e que, em vez disso, deve ser absolutamente enfrentado para desmantelar também o último baluarte de exploração e de violência sistemática e para construir uma frente comum no único caminho possível, aquele rumo à libertação total.

Francesca Geloni – Grupo Germinal Carrara

Fonte: https://umanitanova.org/oltre-lo-specismo-il-cammino-verso-la-liberazione-totale/

Tradução > Liberto

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O aparecimento desses rostos
na multidão;
Pétalas num galho preto e molhado.

Ezra Pound

[Joinville-SC] 1º de maio pelo direito à literatura

No contexto do dano causado ao setor infantil da nossa Biblioteca Municipal, aconteceu um protesto semanas atrás. Dando continuidade ao trabalho, uma rede informal em defesa da Biblioteca Pública Municipal Prefeito Rolf Colin 100% pública está formada, composta por frequentadores, frequentadoras, trabalhadores e trabalhadoras da palavra escrita e falada.

Na perspectiva de dar continuidade à luta comunitária pelo direito à literatura e à cidade, inclusive com a ampliação de novos espaços públicos de leitura, além do fortalecimento dos já existentes, convidamos você para uma manhã de leitura.

O 1º de maio é uma data histórica de luta da classe trabalhadora por 8 horas de trabalho, 8 horas de lazer e 8 horas de descanso. Faz parte dessa história, inclusive, a criação de espaços de educação em sindicatos e associações operárias, em um período em que o Estado e as empresas não garantiam nossos direitos básicos.

No nosso feriado, o primeiro de maio, vamos à praça com nossas cadeiras, um livro de nossa preferência e o desejo de ampliar o direito à preguiça. Afinal, a redução da jornada 6×1, sem redução de salários, aliada à melhoria das bibliotecas públicas e à criação de novos espaços de leitura nos bairros, significará mais tempo livre. Mais tempo para o livro.

Data: 1º de maio

Horário: 9h às 11h

Local: Praça 1º de Maio,

R. Santa Catarina, 231. No final da Av. Getúlio Vargas.

Realização: Em defesa da Biblioteca Pública

Para acompanhar as redes sociais da livraria: https://linktr.ee/ambientearejado  

agência de notícias anarquistas-ana

panela velha
no avarandado novo
vaso de avencas

Alexandre Brito

[Portugal] Jornal MAPA #49 nas ruas

Um MAPA para tempos de guerra

Nestes tempos em que o estado de guerra permanente se instalou, a edição #49 do Jornal MAPA sai para as ruas a posicionar-se ao lado dos movimentos sociais. Dos EUA trazemos o testemunho de uma das vítimas do ICE e falamos sobre a crise social desencadeada pela perseguição de imigrantes. Analisamos o baixar das armas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e o que isso significa para a região, e olhamos para a Ucrânia, onde, com polémica, a deserção e a sabotagem não são as únicas saídas possíveis para anarquistas face à invasão russa. Analisamos também a mobilização social que em Janeiro assolou Turim por causa do despejo do centro social Askatasuna, e aproveitamos para dar a conhecer a rádio independente Blackout que emite a partir de Turim há mais de 20 anos.

Da Galiza trazemos notícias de uma vitória popular contra a Altri e contra a indústria extractivista da pasta de papel, mas do Barroso relatamos a acumulação de apoios do Estado para o ataque ambiental em curso. De Lisboa trazemos um ponto de situação sobre a luta pelo Quartel da Graça; trazemos a história da bicicleta enquanto arma contra a ditadura do automóvel, e falamos sobre mulheres imigrantes, com as suas vidas perdidas e sitiadas entre fronteiras e fogões. Esta edição traz também reflexões sobre a decisão governamental de roubar direitos a pessoas trans, e demora-se no nenúfar vitória-régia (Victoria amazonica) para estimular a prática de uma ecologia queer. Também a partir de uma perspectiva queer, questionamos o apelo à criminalização do discurso de ódio, que supõe encontrar no Estado um interlocutor justo na hora de aplicar a lei e de gerir o crime.

Na era da catástrofe, falamos sobre a organização popular e sobre o poder do «colectivismo de desastre», e acompanhamos como de costume as fronteiras da Europa Fortaleza. Partilhamos a história mais ou menos feliz da Casa da Horta, no Porto, trazemos um retrato do filósofo Diógenes, o habitual passeio futurista, a poesia, as palavras cruzadas, os cartoons e as recensões de livros. Tudo isto está na edição #49 do Jornal MAPA, à venda por todo o país e disponível para assinatura anual. Apoia o Jornal MAPA e contribui para a continuação deste projeto de informação crítica. Assina o jornal em https://www.jornalmapa.pt/assinatura-do-jornal/

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vulnerabilidade
a tristeza é pedra
água forjada na pupila

José Couto

[Grécia] Reivindicação de responsabilidade por ataque incendiário à casa de um policial pelo Grupo de Ataque Anarquista “Memória e Raiva”

Em março, nenhum de nós morrerá. Março de 2010, Daphne, Lambros Fountas, guerrilheiro anarquista tombado em confronto com policiais. Março de 2026, arredores de Roma, Sara Ardizone e Sandro Mercoliano, camaradas anarquistas mortos por uma explosão.

Em outubro, nenhum de nós morrerá. Outubro de 2024, Ampelokipi, Atenas, Kyriakos Xymitiris, guerrilheiro anarquista morto por explosão.

Em maio, nenhum de nós morrerá. Maio de 2025, Tessalônica, Snizanna Paraskevaidou, tombou em uma explosão durante um ataque a um banco.

E a história continua assim. Pelas batalhas da nossa gente, simples, cotidiana. Como Lambros, como Kyriakos, como Snizanna, como Sandro e Sara, e tantas outras pessoas que perderam a vida em ação direta. Com determinação, com nossa própria raiva e memória, fomos às ruas ao amanhecer de 10 de março, data em que o guerrilheiro revolucionário anarquista Lambros Fountas tombou lutando sob fogo policial em Daphne há 16 anos, e atacamos a casa de um policial em Kaisariani com um artefato incendiário.

Temos todos os motivos para mirar os canalhas do Estado que agem como seguranças dos patrões e da elite dominante. Com esta ação, queremos lembrá-los, e a todos os policiais, de que não deixaremos sua atividade impune. São eles que visam combatentes, atacam violentamente manifestantes, torturam e assassinam pessoas em delegacias, nas fronteiras, assim como pessoas das margens empobrecidas e da nossa própria classe. Que se lembrem e saibam que também podemos localizá-los em suas casas, em seus bairros, em seus trabalhos, e que eles não estão realmente seguros em lugar nenhum ao fazer essa escolha de servir ao sistema.

É fato que o Estado investe em ordem e segurança ao fortalecer o policiamento em todos os níveis do governo central. Dessa forma, impede tanto quanto possível qualquer resistência vinda de baixo em favor do capital, ao mesmo tempo em que fortalece o capital militar policial por meio de verbas para forças de segurança e programas de armamento. Trata-se de um fenômeno paralelo à situação geopolítica internacional. À medida que a guerra se intensifica no exterior, no Oriente Médio e na Ucrânia, e o Estado grego participa dela por meio da aliança greco-israelense-americana, da OTAN e da União Europeia, a repressão doméstica também se intensifica. Policiais de todo tipo são posicionados para controlar nossas vidas. O mesmo vale para todos os campos do espaço público, das universidades aos bairros, praças e outros espaços naturais, como a Praça Exarchia e o Monte Strefi.

Então, que o medo mude de lado. Não importa o quanto a mídia cúmplice e alinhada ao regime os encubra ao esconder nossas ações, nós conhecemos a ansiedade que essas visitas às suas casas lhes causam. Se vocês não recuarem, nós voltaremos. Nossas vidas não são descartáveis. Queremos mostrar que vocês são os terroristas e perigosos ao interesse público, não nós, que devolvemos a vocês a porcentagem mínima da violência que lhes cabe.

Expressamos nossa solidariedade ao povo palestino que luta por sua vida. Intensifiquemos a ação antiguerra contra os crimes de guerra cometidos na Palestina, no Líbano e no Irã pelo bloco ocidental. Não nos tornaremos carne para os canhões dos assassinos porque os governantes locais, com Mitsotakis e Dendias à frente, correram para se aliar a Netanyahu e Trump.

A escolha de conectar esses conteúdos por meio da ação no dia de memória do guerrilheiro anarquista Lambros Fountas constitui um elo entre memória, ação e continuidade.

FORÇA A TODOS OS MILITANTES PALESTINOS DETIDOS PELO REGIME NACIONALISTA ISRAELENSE, SIONISTA, E AMEAÇADOS COM A PENA DE MORTE

LIBERDADE E SOLIDARIEDADE A TODOS OS CAMARADAS PERSEGUIDOS PELO CASO AMPELOKIPI

Grupo de Ataque Anarquista “Memória e Raiva”

Fonte: https://actforfree.noblogs.org/2026/04/09/claim-of-responsibility-for-arson-attack-on-a-cops-house-by-anarchist-strike-group-memory-and-anger-athens-greece/

Tradução > Contrafatual

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Na noite escura
Vaga-lume luminoso
Alegria das crianças

Felipe Bunduki