[Espanha] Cinco elementos estratégicos para o anarco-sindicalismo

Artigo publicado no “Rojo y Negro” nº 393, outubro de 2024

Vivemos em um mundo turbulento e em rápida transformação. Ao nosso redor, a realidade está mudando rapidamente. A tecnologia se desenvolve, a ciência se expande, as sociedades se tornam mais complexas e diversificadas, o ecossistema entra em uma deriva sem precedentes. Bifurcações caóticas estão ocorrendo, cada vez mais rapidamente, na geopolítica, na economia, no meio ambiente e na cultura social.

Em meio a esse turbilhão, o anarco-sindicalismo não pode permanecer imóvel, inalterado, paralisado. O sistema de produção está mudando a toda velocidade. As empresas estão mudando seus modelos de negócios e suas ferramentas para a exploração da classe trabalhadora. O sindicalismo revolucionário precisa se revolucionar para, sem abandonar seus princípios fundamentais, adaptar-se a esse século vertiginoso de grandes mutações sociais.

A realidade em transformação ao nosso redor desafia o anarco-sindicalismo. A adaptação de nossas organizações aos novos campos de batalha da luta de classes é uma necessidade inegável. Neste texto, apresentaremos cinco elementos estratégicos para essa adaptação. Essa é uma proposta provisória que deve ser aprimorada, completada e problematizada pelo trabalho sindical coletivo da militância anarco-sindicalista nos locais de trabalho, na construção cultural e na prefiguração de um novo mundo.

O primeiro elemento é a necessidade de uma profunda renovação sindical, adaptando nossas organizações aos novos desafios de um aparato produtivo transformado e em constante mudança. Terceirização, teletrabalho, plataformas digitais, a inexistente desconexão digital, cadeias de valor transnacionais, empresas de multisserviços… Todos esses são marcos de um novo cenário que devemos analisar e ao qual devemos reagir com a mente aberta e com o impulso de novos experimentos de resistência sindical.

Além disso, nossas organizações precisam ser capazes de se expandir em uma sociedade que é muito mais complexa do que aquela em que nasceram. A classe trabalhadora está cada vez mais plural e diversificada. A imigração, o feminismo, a dissidência sexual e até mesmo a diversidade de experiências culturais em uma sociedade fragmentada em “bolhas” de todos os tipos são fatos da realidade diante dos quais o sindicato deve agir, respeitando e aproveitando o que há de enriquecedor nas diferenças e construindo uma proposta geral aceitável para a classe trabalhadora como um todo.

E isso nos leva ao segundo elemento estratégico que propomos: a abertura. O sindicato tem de ser uma organização aberta e porosa, que saiba captar as necessidades da classe trabalhadora e suas várias formas de luta e resistência. Estourar os canos que limitam a troca de informações internas e abrir as janelas para que as propostas dos movimentos sociais e as análises de intelectuais comprometidos entrem.

O sindicato precisa debater com a sociedade, com a classe trabalhadora como um todo e com todas as pessoas de boa vontade que desejam superar a realidade de injustiça e opressão que nos cerca. Sem abandonar seus princípios fundamentais, sem abrir mão de sua própria voz, sem deixar de analisar o mundo por si mesmo. Mas também abandonando a persistente obsessão pela nostalgia e pelos espaços fechados que podem transformar o anarco-sindicalismo em um beco sem saída.

O terceiro elemento que propomos é o respeito pelas decisões coletivas. Um cuidado rigoroso com a responsabilidade que vem com o cumprimento das regras que democraticamente estabelecemos para nós mesmos.

O anarco-sindicalismo incorpora um enorme legado de normas coletivas, criadas e adotadas para construir uma organização que tenta prefigurar um mundo sem exploração e opressão. Normas que outras famílias políticas muitas vezes tentaram imitar (federalismo, revogabilidade de cargos, autonomia dos partidos políticos, etc.). Normas que são o produto da experiência coletiva e da análise de gerações de militância. Devemos agir com responsabilidade diante desse legado e das inovações que coletivamente incorporamos a ele, criando uma cultura sindical de respeito às decisões tomadas e de cuidado com a convivência no sindicato.

O quarto elemento é a importância decisiva da formação e da construção do conhecimento. Temos de criar uma cultura sindical voltada para o futuro. Sindicatos que são salas de aula sem paredes, onde o conhecimento é compartilhado e a alegria de aprender é coletivizada. Organizações que debatem e multiplicam as oportunidades para que todos participem da criação do discurso coletivo e da análise da situação atual.

E o quinto elemento, finalmente, é a primazia dos trabalhadores sobre qualquer abstração ideológica ou teórica. As mulheres trabalhadoras em primeiro lugar. Não devemos infligir nenhuma violência (fora ou dentro do sindicato) em nome da ideologia, da pureza ou do patriotismo organizacional. As pessoas vêm em primeiro lugar. A classe trabalhadora é formada por pessoas reais e concretas, com corações e mãos, anseios coletivos e sonhos pessoais. Essas pessoas são a razão da existência do sindicato. Bíblias e mandamentos, para os padres. Nós preferimos as pessoas.

Apresentamos estas cinco propostas para o debate coletivo. Falar sobre algo é dar a esse algo um nome e uma existência no mundo real. É iluminar aspectos da realidade que, de outra forma, permaneceriam na obscuridade e no esquecimento. Vamos falar sobre o anarco-sindicalismo. O anarco-sindicalismo para o mundo turbulento de hoje.

José Luis Carretero Miramar

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Sombra no mato
passarinho assovia —
avencas ao vento.

Mô Schnepfleitner

[Espanha] Congresso “Sentido comunal” em Vic (Catalunha)

Desde Research & Degrowth e Fundació Emprius – com a colaboração de Ecologistes en Acció, THECO e Rebelión Científica –, organizamos o congresso “Sentido comunal. Comunalismos e decrescimentos”.

Terá lugar no sábado 25 de janeiro de 2025 em Vic (Catalunha), em La Reciclària.

Será um espaço de encontro, intercâmbio e reflexão entre pessoas de diferentes territórios do Estado espanhol que defendemos o comunalismo e o decrescimento como vias de transformação social desejáveis e necessárias, que podem apontar na direção de solucionar muitas das graves problemáticas e males que sofremos e enfrentamos.

Haverá quatro blocos temáticos ao longo do dia: “Comunalismos e decrescimentos“, “Comunalismos na história“, “Subsistência e autonomia: uma alternativa ao extrativismo” e “Comunalismos em ação: desafios e oportunidades“. Com pessoas oradoras vindas de diferentes territórios e com espaço de participação do público.

Informativo com o programa e formulário para inscrever-se:

degrowth.org/congreso

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Já anoiteceu
Rompe-se o silêncio
A coruja pia.

Ana Roseli Valenga Bonete

Gatos Negros de Liberdade

Na noite escura, sem dono nem lei,

os gatos negros vagam, livres como o vento,

com olhos de fogo e um espírito rebelde,

desafiam a ordem, sem medo nem lamento.

.

Seus passos são suaves, seu olhar intenso,

em cada rincão, sua presença é essência,

não seguem normas, nem deuses, nem amos,

são símbolos vivos de um mundo sem setores.

.

Em seus miados, um canto de anarquia,

em seus saltos, a dança da autonomia,

gatos negros, guardiões da noite,

em sua liberdade, encontramos o prazer.

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agência de notícias anarquistas-ana

Chuva de primavera –
Uma criança
Ensina o gato a dançar.

Issa

[Espanha] O que aconteceu com a luta de classes?

Atribui-se a Marx, mas o conceito da luta de classes como motor histórico, ao que parece e como tantos outros fatores, já tinha sido esboçado anteriormente ao ilustre autor de O Capital. Seja como for, que diabos restou hoje, nesta época que tantos denominam pós-moderna, desse conflito entre possuidores e despossuídos. Vamos deixar de lado o chamado materialismo histórico, quer dizer, todo esse tema de desenvolvimento das forças produtivas, que seriam as determinantes das classes sociais, o qual levaria paulatinamente ao progresso, se passaria do capitalismo ao socialismo ditadura do proletariado como meio para, finalmente, chegar à sociedade comunista. Sem negar a importância filosófica de Marx (e de Engels), ainda que extremamente crítico com a práxis política à qual deu lugar seu pensamento, há que dizer que me parece difícil crer que, nos dias de hoje, ainda haja quem creia de maneira rígida nessa visão finalista da história (mas, eles existem, e seguem decifrando o hieróglifo marxista para encontrar alguma esperança em não sei muito bem o quê). Alguns sensatos consideram que o marxismo não continha exatamente uma visão teleológica da história (signifique o que signifique isso), mas não se pode pensar em um herdeiro melhor da escatologia cristã: promessas de um paraíso final, que não chega, nem nesta vida nem na outra.

Um deles, claro, fica com os anarquistas que, aceitando evidentemente a existência e o conflito entre classes, sua luta contra toda forma de opressão (não só a econômica) fez com que tivessem uma visão mais ampla, pragmática e, se queremos chamá-la assim, também realista. Onde uns asseguravam que seria o proletariado o sujeito revolucionário protagonista da sociedade futura, os libertários asseguravam que teria que dar voz a todos os oprimidos (incluídos os que alguns chamavam desclassificados). De acordo, mas isso foi no desenvolvimento da modernidade, que alguns consideram obsoleta (eu, não necessariamente), vemos o que ocorre na aparentemente desesperançada sociedade pós-moderna. Creio que na maior parte do imaginário coletivo, contaminado pelas visões liberais mais mesquinhas, desgraçadamente, não há apenas lugar para dito confronto entre classes. E não me refiro a intelectualóides visões de desenvolvimento histórico, mas a o que observamos no dia a dia nos chamados, de forma muito irônica, países avançados; uma enorme classe média ou cinzenta, com múltiplos problemas, mas com a ilusão de uma vida acomodada e aspirante inclusive a subir um pouquinho no escalão social, à qual não estranha muito que haja pessoas atiradas nas ruas provenientes do terceiro e quarto mundo (o segundo creio que ficou já na lembrança).

Mas, tenhamos fé e esperança (perdão pela retórica religiosa). Aos anarquistas, e estou certo de que somos mais do que pensamos, não sei muito bem se seguimos crendo na luta de classes (noção contaminada, efetivamente, pela visão marxista), mas nos repugna ver outro ser humano passando necessidade e quero pensar que trabalhamos por uma sociedade, aceitando sua diversidade (sobretudo, que não esteja uniformizada em sua mesquinhez), na qual esse sentimento esteja o mais difundido possível. Hoje por hoje, há toda sorte de justificativas ao ver que alguém esteja dormindo na cidade entre papelões ou se olha para o outro lado quando tantas pessoas arriscam a vida cruzando fronteiras buscando uma vida melhor. Em outras palavras, se aceita de uma maneira ou outra os piores problemas na humanidade como irresolúveis ou talvez se pense ainda nessa ilusão do progresso como algo abstrato. A realidade é que há gente que, nestes momentos, está sofrendo e morrendo por causas que são perfeitamente solucionáveis se a ética não estivesse totalmente distanciada da política e da economia; ao capitalismo, que se assinalou como o principal perpetrador da divisão de classes sociais, se unem em conivência os interesses da classe política dirigente. Tudo classes e mais classes para mantermos as pessoas atomizadas sem um verdadeiro sentimento fraternal e solidário. Mas, seguiremos trabalhando para que emerja algo melhor, e o ser humano demonstrou em ocasiões ter traços autenticamente louváveis, frente a toda essa aparência atual de ruindade e mediocridade. Chamemo-las como queiramos.

Fonte: https://exabruptospoliticos.wordpress.com/2024/09/29/que-fue-de-la-luta-de-clases/

Tradução > Sol de Abril

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para medir o calor
do dia, olhe o comprimento
do gato que dorme

James W. Hackett

[Espanha] Rádio podcast | A anarquia e a recuperação de nosso tempo

21/10/2024

As graves crises econômicas com que se iniciou este século XXI, que redundaram em um crescente questionamento das estruturas de poder estatais e econômicas, foram reavaliados e atualizados por alguns dos movimentos sociais e políticos que lutam pela igualdade entre os cidadãos. Um de tais movimentos é o anarquismo. A crítica anarquista do capitalismo e da propriedade privada, como expôs Emma Goldman, segue sendo relevante em um momento de extremo consumismo e precariedade laboral. Carlos Javier González Serrano reflete com Simón Royo Hernández, doutor em Filosofia e escritor, em resposta à pergunta: Que formas de vida fundadas nos princípios anarquistas poderiam ser viáveis hoje para enfrentar os desafios que temos pela frente?

>> Para ouvir o podcast, clique aqui:

https://www.rtve.es/play/audios/a-la-luz-del-pensar/anarquia-recuperacion-nuestro-tiempo/

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Mata devastada
Vence a luta pela vida
Cachos do Ipê roxo

Kiyomi

Notícias do Front: As Reflexões de um Anarquista Russo em Rojava

Sobre o colapso de Assad, o futuro da Rússia e a iminente invasão apoiada pela Turquia

A derrubada do regime de Bashar al-Assad na Síria estava atrasada há muitos anos. No entanto, as tragédias na Síria não acabaram. Israel bombardeou centenas de locais ao redor do país e tomou controle de uma quantidade considerável de terra no sudoeste, enquanto as forças turcas estão ameaçando atacar o nordeste da Síria para realizar limpeza étnica. Assim como em 2019, quando Donald Trump deu ao presidente turco Recep Tayyip Erdoğan luz verde para invadir o país, apelamos às pessoas ao redor do mundo para se envolverem em ações de solidariedade para desencorajar as potências mundiais de permitir que isso aconteça.

Para humanizar pelo menos uma das inúmeras pessoas cujas vidas estão em jogo aqui, oferecemos as reflexões de um voluntário anarquista russo no nordeste da Síria que participou do experimento revolucionário em Rojava por muitos anos. Ele observa os mercenários russos saírem deste país onde eles infligiram tanto mal, esperando que um dia ele possa ver os mesmos soldados deporem suas armas em sua terra natal, assim como os mercenários de Assad fizeram.

Para mais atualizações sobre a situação no norte da Síria de internacionalistas anarquistas no local, você pode seguir este canal de Telegram em russo ou consultar o site do Tekoşîna Anarşîst.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://pt.crimethinc.com/2024/12/23/noticias-do-front-as-reflexoes-de-um-anarquista-russo-em-rojava-sobre-o-colapso-de-assad-o-futuro-da-russia-e-a-iminente-invasao-apoiada-pela-turquia

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cultivando ao silêncio
plantei aos prantos
meu próprios gritos.

Kola

[Chile] Crônicas de ações diretas revolucionárias: Francisco Solar, preso político anarquista

Como introdução

Solidariedade contra toda autoridade

Alguns aspectos permanentes na luta anarquista são a solidariedade com os companheiros na prisão e a crítica ao cárcere como instituição e peça fundamental do modelo social de opressão imperante. Por outro lado, entendemos a prisão como um território de luta, isto implica reconhecer nossos companheiros encarcerados como sujeitos ativos que continuam combatendo atrás das grades. É por isso que desde o anarquismo historicamente mantemos o chamado a continuar fazendo da solidariedade nas prisões uma prática permanente e irrenunciável, assim como na luta contra toda autoridade em cada rincão e aspecto da vida.

Prisão/Tortura política no Chile

Hoje a gendarmeria pretende instaurar um regime de aniquilamento permanente contra o companheiro Francisco Solar, pelo que se torna imperiosa a necessidade de manter uma luta permanente, com os meios a nosso alcance e em qualquer território.

Dentro dos regimes carcerários no Chile, sob o artigo 28 do decreto 518 do regulamento penitenciário, se estabelece a existência de módulos especiais de máxima segurança com um regime carcerário de especial isolamento para os que quebraram as normas internas, seja participando em fugas, motins, brigas internas, agressão a carcereiros etc. Também se aplica a prisioneiros por delitos de alta conotação pública.

Este regime de isolamento consiste em restrições de visita e encomenda, ao menos 21 horas de confinamento, proibição de outras atividades e vigilância permanente. Uma vez que se aplica sobre um prisioneiro este regime de isolamento, aos 60 dias se deveria revisar a continuidade desta medida, depois aos 90 dias e finalmente aos 120 dias. Em casos que se decida manter este regime de isolamento, este será revisado a cada seis meses. Após um período de isolamento, a maioria dos prisioneiros são ingressos em módulos de alta segurança, com restrições, mas longe do isolamento completo que significa um módulo de máxima segurança.

Esta medida foi aplicada para Francisco Solar pelo Diretor Nacional da Gendarmeria ou os Diretores Regionais à luz do que um suposto conselho técnico determinou. Motivados pelo tipo de delito, o governo pretende que de forma excepcional o companheiro cumpra a totalidade de sua condenação sob este infame regime de isolamento.

Atualmente Francisco se encontra no módulo 2 de máxima segurança do Cárcere La Gonzalina de Rancagua cumprindo uma condenação de 86 anos de prisão por diversos ataques explosivos contra poderosos, repressores e símbolos do domínio.

Baixe PDF (12 páginas, 14x22cm):

Leitura: Crônicas de ações diretas revolucionárias

https://lapeste.org/wp-content/uploads/2024/09/Cronicas-de-acciones-directas-revolucionarias.pdf

Impressão: Cronicas-de-acciones-directas-revolucionarias-IMPRESION

https://lapeste.org/wp-content/uploads/2024/09/Cronicas-de-acciones-directas-revolucionarias-IMPRESION.pdf

Fonte: https://lapeste.org/cronicas-de-acciones-directas-revolucionarias-francisco-solar-preso-politico-anarquista/

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Ipê amarelo —
O faxineiro varrendo
sem olhar pra cima…

Tania D’Orfani

[África do Sul – França] Breyten Breytenbach: Anarquista cosmopolita de Boland

Por Andries Bezuidenhout | 28/11/2024

Eu recebi a notícia de que Breyten Breytenbach faleceu no domingo. Naquela noite, saímos de Dikeni (Alice), onde moramos, rumo a Hogsback. Comigo estavam minha esposa Irma e nossa amiga Vangile, que estava visitando de Tshwane.

Enquanto seguíamos o caminho pelas Montanhas Amathole, ouvimos o álbum falado de Breytenbach, Lady One. Seus cantos budistas soavam como se de alguma forma pertencessem às colinas verdes e vilarejos do Cabo Oriental.

Em Hogsback, em um restaurante, pedimos uma boa garrafa de vinho tinto para acompanhar nossa refeição. Breyten era bolandês e apreciava a produção das vinícolas locais. Ao derramar um copo de vinho no chão, recitei um de seus poemas, intitulado 26 de Novembro de 1975.

“Camagu”, respondeu Vangile, usando uma palavra em isiXhosa para honrar os antepassados.

Breytenbach tinha 85 anos. Eu esperava que ele vivesse por muito mais tempo, pois, quando o vi pela última vez na África do Sul, ainda se movia como um rapaz.

Atribuí isso a um vitalício regime de yoga. Não sabia que ele havia sofrido de câncer. Algumas semanas atrás, ele caiu, o que acelerou seu falecimento. Ele morreu em Paris, com sua esposa Huâng Liên Ngo, conhecida por muitos como Yolande, ao seu lado.

De muitas formas, Breyten é um ancestral e um modelo para aqueles de nós que não se encaixam no antigo molde do afrikanerismo. Ele era ferozmente africâner, mas para ele, o africânerismo dizia respeito a todos aqueles que falavam essa língua crioula. Ele era ao mesmo tempo cosmopolita e profundamente enraizado no Boland.

Como artista, sua poesia e suas pinturas são sublimes. Ele é, sem dúvida, um dos maiores poetas da língua africâner, ao lado de Antjie Krog.

Como ativista, teve uma relação complicada e difícil tanto com o regime do apartheid quanto com o movimento de libertação.

Breytenbach nasceu em Bonnievale em 16 de setembro de 1939. Seus pais eram Hans e Kitty Breytenbach, e ele tinha como irmãos Jan, Cloete, Sebastiaan e a irmã Rachel. Breyten foi o último dos irmãos a falecer.

Ele cresceu em Wellington, onde a família administrava uma loja e uma pensão até 1970. Após concluir o ensino médio em 1957, estudou artes plásticas e línguas na Universidade da Cidade do Cabo e na Michaelis.

Em Cape Town, fez amizade com pessoas como Jan Rabie e Marjorie Wallace; Peter Clarke; Ingrid Jonker; Abraham de Vries e Marius Schoon.

Essas amizades moldaram sua vida e se tornaram a espinha dorsal do que mais tarde foi chamado de Sestigers, um grupo de escritores africâneres progressistas que se opunham ao apartheid na própria língua do sistema.

Em 1960, Breytenbach partiu para a Europa de barco, estabelecendo-se em Paris para continuar seus estudos e se firmar como artista visual. Enquanto estudava na Sorbonne, conheceu Yolande, cujos pais vietnamitas trabalhavam em Paris.

Casaram-se em Londres em 1962 e compraram um pequeno apartamento em Paris. Breyten também se envolveu no movimento anti-apartheid.

Nessa época, sua identidade profissional primária era como artista visual, mas após uma intervenção do escritor africâner Chris Barnard, um conjunto de escritos de Breyten foi enviado para publicação na África do Sul.

Em 1964, um livro de poesias, Die Ysterkoei Moet Sweet (a vaca de ferro deve suar), e um livro de contos, Katastrofes (catástrofes), foram publicados. Ambos ganharam prêmios literários, o que trouxe um impulso financeiro necessário em Paris e considerável reconhecimento na África do Sul.

Breytenbach tornou-se uma figura pública influente no establishment da língua africâner, embora como um crítico de fora. Seus escritos foram submetidos à censura do apartheid e ele foi ignorado por prêmios literários como o Prêmio Hertzog, o mais prestigiado prêmio de língua africâner.

De forma polêmica, Breyten e Yolande tiveram os vistos negados para visitar a África do Sul, já que seu casamento era ilegal sob a Lei de Casamentos Mistos de 1949.

Quando, finalmente, Breyten visitou o país em 1973, fez um discurso dizendo que os africâneres eram um “povo bastardo com uma língua bastarda” e que isso era algo belo. Os africâneres tinham que ser o “adubo” que daria vida ao decompor-se.

Isso causou grande ofensa e consternação no establishment nacionalista africâner.

Na França, Breytenbach participou da criação de uma organização chamada Okhela, com outros africâneres anti-apartheid. A organização estava associada de forma vaga ao ANC (Congresso Nacional Africano) no exílio, mas não fazia parte de suas estruturas de comando.

Em 1975, Breytenbach foi para a clandestinidade e visitou a África do Sul com um passaporte falso como “Christian Galaska”, com o objetivo de estabelecer elos entre financiadores europeus e o emergente movimento sindical.

No entanto, ele foi preso e condenado. O poema que recitei em Hogsback foi escrito por ele enquanto o juiz lia a sentença.

A prisão significou dois anos de confinamento solitário, sendo permitido escrever, mas não pintar. Quando sua mãe faleceu em 1978, a permissão para comparecer ao funeral foi negada.

No dia que ele recebeu a notícia de sua morte, seu guarda manteve a luz em sua cela acesa, observando-o pelo olho mágico durante a noite toda.

A poesia que escreveu na prisão ganhou prêmios no exterior, mas foi proibida na África do Sul.

Sua libertação ocorreu em 2 de dezembro de 1982, após pressão do governo francês. Breytenbach retornou a Paris e se tornou cidadão francês em 1983.

Seu livro de memórias escrito na cadeia, Confissões verdadeiras de um terrorista albino (True Confessions of an Albino Terrorist, 1984), ainda é seu livro mais lido globalmente.

Eventualmente, em 1984, Breyten foi premiado com o Prêmio Hertzog, mas recusou-o, dizendo que se recusava a aceitar o prêmio enquanto Nelson Mandela ainda estivesse preso.

No final dos anos 1980, ele teve um papel fundamental, ao lado de pessoas como Frederik van Zyl Slabbert, na criação de uma comunicação não patrocinada pelo Estado entre o ANC e figuras dissidentes africâneres.

Isso culminou no famoso encontro de 1987 em Senegal, chamado pela imprensa africâner hostil de “Safari de Dakar”.

Em 1993, Breytenbach exibiu suas pinturas e esboços na África do Sul pela primeira vez. Em um ensaio de catálogo no livro Painting the Eye, ele escreveu:

“Apenas a anarquia pode nos salvar do caos. Nossa inocência foi acreditar na bondade do espírito humano e na perfeição do intelecto humano. A anarquia que estou propondo tem a ver com a incessante interrogação de todas as formas e exercícios de poder.

“A condição humana, no que me diz respeito, deveria ser esse momento auto-incendiário de insurreição e zombaria no vazio do não-tempo.

“Você tem que trabalhar através das camadas da pintura para atingir a nudez do não-ser. Ao longo do caminho, o ‘eu’ deve ser incessantemente inventado, mesmo que seja apenas para ter um (desintegrado) posto de observação.”

Este ensaio dá uma ideia de como Breytenbach conectava produções criativas à política — ele não era alguém que se submetia à disciplina ou controle político.

Tanto que, nos anos 1990, ele criticou publicamente o novo governo do ANC por tendências autoritárias e corrupção. Também recebeu várias honrarias internacionais, inúmeras para listar.

Mas, mesmo enquanto defendia o africâner como uma língua inclusiva, continuava a causar consternação em seu establishment cultural.

Sua peça, Boklied (canto da cabra), apresentada em 1998, causou um grande tumulto, com Breytenbach jurando nunca mais publicar em africâner.

Como Charl Blignaut escreveu então neste jornal sobre a estreia no Klein Karoo Kunstefees: “Se podia sentir no ar muito antes de o jovem ator negro no palco decidir abandonar seu casaco e o dildo falso e se estabelecer em seu papel como Ritsos … completamente nu. Antes, mesmo, de ele e Isis começarem a explorar o traseiro nu de Tereus, enfiando uma pena nele enquanto a drag king Antoinette Kellerman como Farenj devastava a pequena Grethe Fox, Madonna ao fundo.”

Nesse contexto, quando ele foi premiado novamente com o Prêmio Hertzog em 1999, Mandela telefonou para pedir que ele aceitasse, o que ele fez. No entanto, em 2005, ele recusou um prêmio do então ministro de cultura e artes Pallo Jordan.

Nos anos 2000, ensinou escrita criativa em Nova York e manteve seu envolvimento com o Instituto Goreé em Dakar. Também lançou vários álbuns, com colaborações de palavras faladas com músicos.

Organizou festivais literários, frequentemente com poetas de países onde foram presos e perseguidos. Sua amizade próxima com o poeta palestino Mahmoud Darwish significava que ele adotava uma posição pública e principiada contra Israel.

Em fevereiro de 2007, a casa de infância de Breytenbach em Wellington foi convertida em um centro comunitário e ainda opera como um centro para arte, literatura e artes cênicas.

Na África do Sul, ele é mais conhecido como poeta e ativista, na França como pintor. Seus volumes de poesia frequentemente incluíam imagens e suas pinturas, textos, enquanto seus e-mails liam-se como poemas.

Breytenbach foi um ser humano verdadeiramente excepcional, cuja vida e espírito criativo mostraram que a imaginação artística é por necessidade tanto pessoal quanto política.

Andries Bezuidenhout é acadêmico, poeta, músico e artista.

Fonte: https://mg.co.za/friday/2024-11-28-breyten-breytenbach-cosmopolitan-anarchist-from-the-boland/

Tradução > Alma

agência de notícias anarquistas-ana

Árvore amiga
enfeita meus cabelos
com flores amarelas

Rosalva

Alegria: um ato revolucionário. | Em memória de Giovanni Stifonni

É hoje o dia da alegria, e a tristeza

nem pode pensar em chegar.

G.R.E.S. União da Ilha do Governador

Forte, andar malemolente, sorriso largo no rosto, olhos verdes alumbrados, tranquilamente atravessou o Largo do São Francisco na direção da Assembleia Popular em frente ao IFICS-UFRJ, em 2013. Parou no entorno da roda assembleiaria e de lá seus olhos atentos e curiosos perambulavam pelos corpos, pelos prédios, enquanto seus ouvidos o faziam sorrir dos discursos animados pela luta contra o aumento dos 0,20$ centavos.

Ao fim da assembleia um companheiro anarquista paulistano radicado no Rio nos apresentou. Então fomos a um bar na praça Tiradentes, beber e comer. Ele nos contou da situação social na Itália, na França, na Espanha – especialmente em Madrid, cidade amada por ele -. Estávamos felizes de nos conhecermos. Entre um copo e outro da cerveja brasileira que ele tanto gostava, ele buscava saber mais da situação social no Brasil. Juntaram-se a nós mais companheiros anarquistas que atuavam nas outras assembleias populares na cidade. Brindamos ao internacionalismo, a boa bebida e a boa comida: saúde e anarquia! Desde então, nos tornamos amigos irmãos da anarquia, da vida e da boemia.

Quem era este homem? Para muitos era professor de italiano, biógrafo, economista, historiador. Escolheu este canto do mundo para viver, a cidade do Rio de Janeiro. Aqui produziu dois pós doutorados em história, trabalhou como professor de língua italiana, tradutor, e professor universitário em história contemporânea com temas anarquistas. Mas, a academia não era suficiente. Pois, observava, com seu espírito investigativo e criativo, as correntes que atavam a produção historiográfica e impediam a renovação docente nas universidades. Estudou, trabalhou, pesquisou, proferiu conferências, publicou textos, integrou grupos de pesquisas em várias universidades no Rio e fora do Brasil.

Para nós, um companheiros, um amigo, um irmão oferecido pelo insinuante absurdo da vida. Giovanni apaixonou-se pelo Brasil, apaixonou-se pelo Rio de Janeiro, onde gozava da praia, da cerveja de garrafa e dos petiscos deliciosos dos seus apaixonantes “butecos pé sujo”. Sobreviver não era de seu feitio. Fosse em reuniões, jogos de futebol, assembleias, grupos de trabalho encontros particulares, – era difícil estar na mesa em um restaurante ou bar e não sermos interrompidos por algum conhecido ou amigo dele -, a disposição e disponibilidade para o bem e o bom, para solidariedade e o apoio desinteressado embalava a todos nós e contagiava com alegria inconfundíveis. Comentávamos sempre entre nós: com a alegria a vida vai melhor.

Foi assim que o Giovanni entrou nas nossas vidas e no grupo que fundaria a Liga Anarquista no Rio de Janeiro e em seguida fundaria a Iniciativa Federalista Anarquista no Brasil, hoje União Anarquista Federalista. Trabalhou dando o seu melhor para o nosso Rio de Janeiro Libertário, lutou pela justiça social para um Brasil Anarquista. Sempre leal, um internacionalista, em 05 de novembro de 2024 partiu para uma nova viagem em outro plano. Nos beijou sorrindo a partida, e com seu sopro de vida deixou este mundo prenhe de mais liberdade, de mais justiça e revolucionariamente alegre.

A Liga Anarquista no Rio de Janeiro e União Anarquista Federalista celebram sua vida e memória.

Giovanni, viva companheiro e irmão, que a terra te seja leve.

uafbr.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

Noite de silêncio
Uma moça na janela
Contempla a neblina

Tânia Souza

Contra Todo Nacionalismo | O Poder É Maldito | A Sociedade Contra O Estado

Por Carlos Pereira Júnior

|| Contra Todo Nacionalismo ||

Quero queimar na praça

ou descartar na privada

a bandeira nacional.

Não me servirão de nada

as cores da nação.

.

Pois, muito em breve,

sairei sem rumo

pelo mundo a fora

para estar em todos os lugares

e em parte alguma.

.

Serei um errante marinheiro

lendo estradas no céu,

abominando Estados,

pátrias, fronteiras, fascismos

e todas as formas de autoritarismo

e fundamentalismo político.

Minha vocação é ser livre de todo poder soberano.

|| O Poder É Maldito ||

Sempre exercido contra o povo

o poder assujeita, silência e mata

nossa potência individual e coletiva.

.

O poder está dentro e fora do Estado,

é divino e tenebroso.

Sempre parasitário e assassino.

.

Ele cria, destrói e controla

nossos destinos.

É desejado, querido,

buscado e reverenciado

pelos que entre nós

são perversos e autoritários.

.

Mas o poder é sempre maldito

e isso me faz libertário.

|| A Sociedade Contra O Estado ||

Quando algum dia

nossa luta avançar

e ameaçar de morte a ordem vigente,

o Estado, em franca reação,

há de nós prender e eliminar

sob um sol de meio dia.

.

O autoritarismo, afinal,

nunca sai de moda.

Principalmente nos tempos

de duvidosa democracia.

.

O que importará nestes tristes dias vindouros,

será nossa defesa encarniçada da sociedade,

será nossa capacidade de criar liberdades

e afirmar a vontade popular

contra todas as oligarquias,

Estados, deuses e hierarquias.

.

Assim, na contramão dos conformismos,

faremos todo poder desabar

frente a potência de nossa poesia.

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ribeira seca
nem um sopro
as cigarras crepitam

Rogério Martins

[Espanha] Lançamento: “Y llegó la tormenta” | Uma novela gráfica sobre o assassinato do czar Alexandre II pelos “demônios” de uma célula anarquista

Álex Rozados • Sergio Izquierdo Betete

São Petersburgo, 1 de março de 1881. A boa estrela do czar Alexandre II, que sobreviveu já a várias tentativas de assassinato, se apaga. Duas bombas jogadas pelo grupo subversivo Naródnaya Volya junto ao canal de Catalina terminam com sua vida. Os demônios que perturbaram o escritor Fiódor Dostoyevski regressam para cumprir seu papel e desatam uma tormenta que pretendia arrasar tudo e levará adiante a seus próprios protagonistas. Entre eles, Serguei Necháyev, personagem complexo, explosivo e inclassificável cuja tormentosa relação com o velho anarquista Mijaíl Bakunin marcará seu devir. “Y llegó la tormenta” é também a história de Andrei Zhelyábóv, Vera Fígner e Sofya Peróvskaya, que dirigiu no local o atentado contra o czar e se converterá na primeira mulher condenada à morte no Império russo como “criminosa de Estado”.

Y llegó la tormenta

Autores: Álex Rozados, Sergio Izquierdo Betete

Páginas: 216

Formato: 17×22 en cartoné a 4/4 colores

ISBN: 13 978-84-19124-93-7

Prólogo: Jordi Maíz

26,95€

reinodecordelia.es

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a cigarra canta
enquanto orquídeas florescem:
cada um na sua

Gustavo Felicíssimo

[Espanha] A CGT saúda a queda do ditador Bashar El Assad e expressa seu compromisso com a defesa da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria, que surgiu das raízes da revolução Rojava.

O Secretariado de Relações Internacionais da CGT saúda a queda do ditador Bashar El Assad e expressa seu compromisso com a defesa da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria, que surgiu das raízes da revolução de Rojava.

Diante dos acontecimentos ocorridos na Síria nos últimos dias, a Secretaria de Relações Internacionais da CGT saúda a queda do ditador Bashar El Assad, mas expressamos nossa preocupação com a situação em que a população de todo o país é deixada em meio a um conflito atravessado por múltiplos interesses geoestratégicos. Em particular, analisamos a situação da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria, o único ator político focado na construção democrática de uma sociedade não baseada na tirania e na opressão. O histórico do Hayat Tahrir al Sham (HTS) e de seu líder Abu Mohamed al Julani, ligado à Al-Quaeda, é a antítese do que o povo do nordeste da Síria está propondo. Além disso, a coalizão que derrubou Assad inclui os fundamentalistas da Coalizão Nacional Síria (e o Exército Nacional Sírio) financiados e patrocinados pelo regime criminoso da Turquia. Precisamente, a Turquia tem entre seus objetivos destruir a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria, um projeto de sociedade que se baseia na defesa dos direitos das mulheres, na ecologia, na organização comunitária e na coexistência entre diferentes nacionalidades e religiões. Como advertem os companheiros das Forças Democráticas da Síria (YPJ e YPG): “A ameaça, é claro, é latente: o Estado turco já está mobilizando mercenários do ENS para atacar a cidade de Manbij, com o objetivo de ocupá-la ilegalmente”.

É inegável que o que aconteceu transforma o mapa político para os interesses das grandes potências imperialistas, da Turquia a Israel, bem como dos Estados Unidos e da Rússia. Um tabuleiro de xadrez internacional que se tornou atomizado, especialmente desde o início do genocídio na Palestina. Também é evidente que parte da esquerda na Espanha tem sido deliberadamente cega às atrocidades cometidas pelo regime sírio durante décadas, demonstrando mais uma vez uma miopia política que só pode ser entendida a partir da conivência com o mais cruel dos autoritarismos. Da CGT, celebramos o fim do regime e fazemos eco às notícias que chegam de nossos companheiros em Rojava: “Os que estão comemorando a queda de Assad são aqueles que resistiram por décadas à opressão, à negação de suas identidades, à prisão e à tortura, à pobreza planejada do regime do partido Baath. Os que estão comemorando são os camaradas, irmãos, mães e esposas, netos e netas dos 15.000 mártires que enfrentaram o ISIS e o derrotaram em 2019. Esses mártires eram curdos, árabes, assírios, armênios, turcomanos, muçulmanos, cristãos e yazidis”.

Nesses tempos complexos, o Secretariado de Relações Internacionais da CGT expressa seu apoio à luta do povo curdo, à defesa de Rojava e ao importante valor de sua luta por uma sociedade verdadeiramente democrática, livre e diversificada. Permaneceremos vigilantes até o limite de nossa capacidade para continuar ajudando nossos irmãos e irmãs a conquistar uma Síria verdadeiramente livre e democrática, longe de qualquer tentação fundamentalista e totalitária.

Viva a solidariedade internacionalista! Viva a luta dos povos por sua libertação!

Viva a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria!

Vinheta de Octavio Alberola

Fonte: Gabinete de imprensa do Comitê Confederal da CGT

Tradução > Liberto

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lembrança de menino
fazendo cócegas na mão
a cauda do girino

Rafael Noris

[Espanha] O anarquismo hoje

Quando olhamos para o que resta do glorioso e espetacular movimento anarquista, cuja plenitude podemos situar entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, somos tomados de tristeza e nostalgia, pois ele não é mais relevante hoje. Esses 100 anos de anarquismo viram os trabalhos teóricos de Bakunin, Kropotkin, Proudhon ou Malatesta, juntamente com trabalhos práticos como a Comuna de Paris ou as comunidades anarquistas na Espanha da guerra civil na Catalunha e em Aragão. É uma pena que hoje não existam pensadores e ações como esses, mas é precisamente a ancoragem do anarquismo nesses pensadores e ações que impede que existam outros como eles hoje.

Hoje, no entanto, quando olhamos para as publicações e movimentos anarquistas, o que podemos observar é seu caráter obsoleto, devido ao seu foco nos teóricos do século XIX e na iconografia proletária do início do século XX, com pôsteres da Guerra Civil Espanhola misturados a artigos sobre pensadores anarquistas do século XIX. A erudição às vezes louvável e didática, mas resultando em propostas políticas que estão enormemente desatualizadas, simples comentários hermenêuticos, na melhor das hipóteses, como aqueles feitos naquela instituição de tecnofeudalismo que chamamos de universidade, onde, como bem sabemos, o anarquismo está ausente.

Dá a impressão de que a argumentação anarquista está ultrapassada e ancorada no passado e, embora existam grupos nas redes sociais com até 20 mil membros, seus memes, ridículos e superficiais, protestos punks individualistas, mal recebem uma ou duas interações e nenhum comentário de ninguém. Desajustado, o anarquismo atual parece querer educar as crianças na bondade de Rousseau, mas sem se aprofundar no pensador que promoveu a ideia do bom selvagem, que ele considera fora de sua órbita política e de sua atmosfera filosófica.

Há um fechamento dogmático no anarquismo teórico-político, centrado em seus autores representativos do século XIX e em seus comentadores do século XX, que empobrece seu discurso e o torna residual, ao copiar em seu seio, como temos dito, aquela exegese acadêmica de origem bíblica, hoje eminentemente universitária, centrada na hierarquização do discurso com base em autores santificados por devotos de igrejas mutuamente excludentes. A mesma coisa que acontece com os spinozistas, os kantianos, os marxistas, os aristotélicos, para não dizer cristãos ou muçulmanos, instalados em suas províncias filosóficas ou religiosas, interrogando pensadores mortos para dizer sobre seus ombros gigantes suas coisas anãs, acontece com os anarquistas.

Assim, o anarquismo, como esses outros cultos, está em um estado de movimento político zumbi, ele se move, sim, mas não está vivo, pois sua vitalidade foi exaurida naqueles cem anos que mencionamos anteriormente e agora parece que o que existe é apenas um culto às múmias de seu passado egípcio.

O anarquismo nasceu como uma teoria política bem estabelecida no século XIX, juntamente com sua práxis como movimento político, mas somente como teoria ele pode ser revitalizado, portanto, os pensadores anarquistas do século XIX, bem instruídos, devem dar lugar aos pensadores anarquistas do século XXI, assim como a iconografia e a arte do anarquismo do passado teriam de assumir a aparência da arte de hoje, em vez de continuar a usar pôsteres proletários da guerra civil espanhola.

A cura para o anarquismo zumbi, o antídoto, está na ruptura com a maneira de considerar o que, teórica e praticamente, significa ser um anarquista. Ser anarquista hoje não significa pertencer à CNT, mesmo que essa instituição sindicalista nos seja simpática e propícia e que estejamos muito de acordo com seus postulados, porque hoje ser anarquista é mais e menos do que ser militante, já podemos dizer que significa: guiar-se pelo princípio an-arché.

Se a busca pela arché (princípio, fundamento, governo, comando), de acordo com a tradição triunfante e dominante, inicia a filosofia e com ela a expropriação da razão comum, da igualdade e da liberdade de expressão e compreensão, ao assumir a posição de sua recusa, em uma situação de an-arché, rejeitando todos os princípios, fundamentos, governo, comando, hierarquia, já se está na posição do anarquismo. Assim, ele se torna um movimento que agora atravessa horizontalmente todas as classes sociais, todas as culturas e, retroativamente, todo o passado.

Não apenas os grandes anarquistas do século XIX assumiram essa posição, a do anarquismo ontológico, mas desde a pré-história da humanidade e ao longo da história da filosofia, bem como em nossos dias, pode-se rastrear a posição anarquista ou anarquizante, que pode ser encontrada em muitos autores, mesmo naqueles cuja obra como um todo se opôs a ela, se os lermos cuidadosamente.

O anarquismo, assim considerado, não é mais uma doutrina, confinada a certas instituições políticas ou a autores específicos, nem o anarquismo, assim considerado, é algo próprio da aristocracia do proletariado, que superava os marxistas por ser mais cooperativa e libertária. Assim, ele deixa de ser um objeto morto da história para os historiadores e recupera a vida que lhe havia sido tirada.

Platão é um anarquista quando diz: “De fato, se houvesse um Estado de homens bons, provavelmente haveria uma luta pelo não governo, como há agora pelo governo” (República I, 347d), assim como Rousseau é um anarquista quando diz: “O primeiro homem a quem, cercando um campo, ocorreu dizer isto é meu e encontrou pessoas simples o suficiente para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassinatos, quantas misérias e horrores teriam sido poupados à raça humana se ele tivesse gritado a seus companheiros, arrancando as estacas da cerca ou cobrindo a vala: ‘Cuidado para não dar ouvidos a esse impostor; vocês estão perdidos se esquecerem que os frutos pertencem a todos e a terra a ninguém'” (Discurso sobre a Origem da Desigualdade, Parte II, primeiro parágrafo). Platão, levando em conta sua obra como um todo, seria uma espécie de socialista ou comunista pré-marxista, enquanto Rousseau, levando em conta sua obra como um todo, seria uma espécie de social-democrata ou republicano, de acordo com as categorizações mais comuns.

O anarquismo não é, portanto, nem uma doutrina, nem um movimento sindicalista, nem uma filosofia particular de um ou mais autores do século XIX, nem é uma posição política definida, embora tudo isso possa derivar dele e embora tenha se manifestado eminentemente em autores famosos e em movimentos políticos notórios, mas o anarquismo hoje é uma topologia, ou seja, é um lugar fora do espaço e do tempo, uma posição utópica. Landauer o teria chamado de atópico, uma posição que pode ser encontrada no presente, no passado e no futuro, retroalimentando-se à medida que se atualiza.

Assim, já encontramos a posição anarquista na Grécia clássica, mas ela também pode ser rastreada na pré-história e em outras culturas, nós a encontramos nos aspectos anarquistas das obras de escritores, artistas, cientistas, poetas, que não são considerados anarquistas dada a exegese de suas obras como um todo por suas próprias confrarias, mas que o foram em algum ponto ou em muitos momentos que podem ser resgatados e rastreados. Há uma necessidade urgente de uma História da Filosofia Anarquista, desde os cínicos da Grécia antiga até os sufis do Irã moderno, de Zenão de Cítio a Omar Khayyam e além.

Atualmente, temos no pensamento contemporâneo alguns autores anarquistas e outros que já ousam tematizar aberta e diretamente seu anarquismo, o que muitas vezes leva ao ostracismo, à indiferença ou à zombaria entre seus colegas acadêmicos invejosos e ciumentos, mas a nova teorização filosófica anarquista ainda precisa se hibridizar e cooperar com o movimento político anarquista tradicional. As publicações recentes de Catherine Malabou ou Donatella Di Cesare, de Andytias Matos ou Jordi Carmona, ainda não encontraram tradução em uma linguagem mais compartilhável: os teóricos devem se tornar mais militantes e deixar nossa torre de marfim, e os políticos devem estudar mais e deixar sua militância constante, tudo isso para se unirem em uma ação teórico-prática que coloque o anarquismo de volta no lugar que tinha no século que mencionamos acima.

Tomás Ibañez tem sido uma das poucas vozes na Espanha que adotou essa dupla práxis, porque, na realidade, tanto o pensar quanto o fazer são um ato, defendendo um anarquismo em movimento que se caracteriza por sua abertura em vez de se ater à sua tradição nuclear. Teórico e militante ao mesmo tempo, ele é um exemplo, que não hesitou em apresentar Foucault, Deleuze ou Castoriadis como pensadores anarquistas.

É claro que estamos interessados em manter uma posição anarquista constante, mas para ser um anarquista hoje e permanecer um anarquista, o anarquista não pode se limitar ao que o anarquismo tem sido circunscrito nos livros de história das ideias, nem às práticas anarquistas das instituições louváveis que, sob esse nome, ainda lutam e agem a partir de um lugar social marginalizado e contra imensas forças opostas.

É muito bom, é claro, ser membro de uma ou outra organização anarquista, ou se aprofundar no pensamento de um ou outro pensador especificamente anarquista, mas se esse núcleo não for enriquecido por uma enorme abertura e pluralidade, ele se tornará obsoleto e enclausurado, dificultando a atualização.

Atualizar o anarquismo é equivalente a acender o futuro, queimando aquele futuro determinado pela globalização capitalista que implica seu declínio. Isso requer uma abertura tal do movimento anarquista que abranja tudo o que aconteceu de anarquista na história da humanidade, permeando assim todas as abordagens anarquistas atuais e todas as perspectivas anarquistas futuras.

Simón Royo Hernández

Fonte: https://redeslibertarias.com/2024/11/15/actualidad-del-anarquismo/

Tradução > Liberto

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Os raios brilhantes
Não rasgam o céu,
O Cobertor da alma.

Augusto Menezes

[Escócia] Clydeside Anarchist Zine 2 + Breve relato da Radical Bookfair

No sábado, dia 7 de dezembro, o Clydeside Anarchist Noise enviou uma delegação de desordeiros para a Glasgow Radical Bookfair, na Quaker House. Distribuímos muitos de nossos zines (e acabamos – possivelmente um pouco cedo demais!), participamos das discussões, conversamos com companheiros de toda a cena anarquista da Escócia e fizemos muitos novos amigos! Além disso, conseguimos arrecadar algum dinheiro para as taxas legais e para ajudar uma mãe solteira a pagar o aluguel deste mês – obrigado a todos que contribuíram para esses esforços.

De modo geral, nos divertimos muito. Agradecemos à Red & Black Clydeside pela organização do evento e à Food Not Bombs Govanhill por nos alimentar durante todo o dia!

Por fim, os participantes da Bookfair tiveram a (in)sorte de serem os primeiros a ver a segunda edição do Clydeside Anarchist Zine. Essa nova edição está mais colorida e bonita (se é que podemos dizer isso) e contém vários textos (não tão) teóricos, poemas e guias de instruções para extremistas locais. Há uma versão digitalmente legível disponível abaixo, bem como um link para o Zine #1.

Estamos sempre procurando material para publicar em nosso blog ou em nosso próximo zine – envie-nos um e-mail para notcan@riseup.net

Download zine: https://noisenoisenoise.blackblogs.org/wp-content/uploads/sites/1911/2024/12/pdf-zine2.pdf

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A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.

Matsuo Bashô

[Espanha] A CGT inicia uma campanha de coleta solidária de brinquedos e livros para os afetados pela DANA

A Confederação Geral do Trabalho (CGT) inicia uma campanha de coleta solidária de brinquedos e livros que serão distribuídos entre os meninos e meninas das zonas afetadas pela DANA em Valência.

Desde a Confederação Geral do Trabalho (CGT) informam que pôs em marcha uma campanha de coleta solidária de que serão distribuídos entre os meninos e meninas das zonas que foram afetadas pela DANA de 29 de outubro em Valência.

A campanha consiste em pôr um ponto de coleta de brinquedos e livros nas sedes que a CGT tem distribuídas em todo o território do estado espanhol, além de fazer um chamado à filiação e à população solidária a entregar brinquedos novos ou em bom estado, que não sejam sexistas nem bélicos, jogos de mesa e livros para todas as idades. O material chegará à Valência e será distribuído nas zonas afetadas pelas mesmas filiadas e colaboradoras da CGT.

Trata-se de uma nova ação solidária da organização libertária que se soma à caixa de resistência que a CGT pôs em marcha para recolher doações e cobrir as necessidades dos afetados, a recolha e entrega de produtos de primeira necessidade ou a campanha conjunta com o coletivo Soterranya BicisPerALHortaSud na qual já se distribuiu mais de setecentas bicicletas a pessoas afetadas.

Fonte: Gabinete de Comunicação da Confederação Geral do Trabalho do País Valenciano e Murcia

Tradução > Sol de Abril

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Disseram-me algo
a tarde e a montanha.
Já não lembro mais.

Jorge Luis Borges

[EUA] Lançamento: “Eles vão apagar nossa memória na porrada: Impondo a não-violência em movimentos esquecidiços”, de Peter Gelderloos

(They Will Beat the Memory Out of UsForcing Nonviolence on Forgetful Movements)

Como podemos resistir à opressão diante da crise ecológica, da violência policial e do supremacismo branco? Peter Gelderloos apresenta uma crítica radical aos movimentos não-violentos neste relato provocador. Entrelaçando história, vinhetas, entrevistas e reflexões pessoais, ele mostra como sofremos de uma incapacidade de transmitir lições de uma geração para a próxima e explora os motivos para isso.

Aprendendo com o fracasso das rebeliões antirracistas desencadeadas pelos assassinatos policiais, de Minneapolis a Bristol, e das campanhas climáticas que esquecem suas histórias coloniais, Gelderloos demonstra como o protesto não-violento é um sintoma de uma amnésia social, uma incapacidade de lembrar o que aprendemos com o nosso passado. Advertindo contra futuras ondas de pacificação e esquecimento, ele nos incentiva a coletivizar a memória e desenvolver os métodos necessários para lutar pela sobrevivência.

Peter Gelderloos é escritor e participante de movimentos sociais. É autor de The Solutions are Already HereHow Nonviolence Protects the StateAnarchy WorksThe Failure of Nonviolence e Worshiping Power.

They Will Beat the Memory Out of UsForcing Nonviolence on Forgetful Movements

(Eles vão apagar nossa memória na porrada: Impondo a não-violência em movimentos esquecidiços)

Peter Gelderloos (Autor)
Editora: Pluto Press
Páginas: 176
ISBN-13: 9780745349770
Preço: $14,96
plutobooks.com

Tradução > Alma

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Nesta noite escura,
nenhum caminho aparece.
Brilha o vaga-lume.

Dôshin Esteves