[Espanha-Austrália] Autogestão: “A esquerda não quer ouvir que temos que ir a um modo de vida muito mais simples e autogestionário”

Ted Trainer acaba de publicar ‘La vía de la simplicidad. Hacia un mundo sostenible e justo’. O pesquisador e ativista australiano nos abre as portas de Pigface Point, seu espaço autogestionado nas proximidades de Sidney.

O cenário futuro de um mundo pós-petróleo, onde os recursos escasseiam e o crescimento já não encontra indicadores positivos que o mantenham, leva o ser humano a buscar alternativas sustentáveis para garantir a sobrevivência. Se, ademais, incorporamos um enfoque social onde a divisão dos recursos seja justo e equitativo entre todas as pessoas que formamos o planeta, então nos encontramos com o livro “La vía de la simplicidad. Hacia un mundo sostenible e justo”, do pesquisador e ativista australiano Ted Trainer (Editorial Trotta, 2017).

Com uma ampla trajetória no campo das teorias de transição e do zênite do petróleo, o autor nos abre as portas de Pigface Point, seu espaço pessoal autogestionado nas proximidades de Sydney, onde pratica a vida simples que promove em seus ensaios e onde se encontra sua residência. No mesmo recinto também desenvolvem numerosas atividades de tipo educativo e informativo com o fim de mostrar a todas as pessoas interessadas uma das alternativas possíveis a um mundo capitalista baseado no crescimento e no consumo.

La vía de la simplicidad” é uma resposta holística a um mundo pós-capitalista, quantos anos esteve pesquisando sobre isto?

Muito tempo. Tentei fazer isso com meu primeiro livro em 1985, “Abandon Affluence!”, e para isso, logicamente, já estava há vários anos estudando o tema e buscando evidências. Posteriormente, em 1995, com “The Conserver Society: alternatives for sustentability”, melhorei os argumentos. No entanto, é em “La vía de la simplicidad” onde apresento uma tentativa teórica para superar com teses e evidências mais fortes e melhor estruturadas os trabalhos anteriores, dando respostas claras sobre o que está acontecendo, até onde vamos e tendo em conta experiências ilusórias de que existem neste âmbito na atualidade.

Fala dessa “grande visão” de nossa sociedade que as pessoas devem compreender para atuar em consequência. “La Vía de la simplicidad” é uma explicação extensa e exaustiva sobre ela mas, poderia dar-nos umas pinceladas?

O fato é simples. Há três elementos principais para entender o que está acontecendo no mundo. Estamos utilizando muito mais recursos de que deveríamos. A quantidade de produção e consumo é totalmente insustentável e se pode documentar detalhadamente olhando gráficos de extração de mineração, petróleo, pesca… Nos últimos anos se produziu um aumento incrível no consumo em geral. Por isso temos que decrescer. Temos que esboçar outro modelo onde possamos seguir vivendo bem mas, ao mesmo tempo, que a quantidade de recursos consumidos per capita seja muito menor em comparação com a atualidade.

O segundo elemento importante desta ideia é que não há múltiplas alternativas. Tudo passa por criar uma “vida simples”. Isto implica níveis de consumo de recursos muito baixos, níveis de autossuficiência muito elevados a nível local, economia local, autogestão local e produção em função das necessidades, não dos lucros. Estes elementos não são discutíveis.

Estamos preparados para implementar na atualidade “La Vía de la simplicidad” em nossas vidas ou a sociedade necessita mais evidências que augurem um colapso da civilização?

Nós não queremos que o sistema colapse. Queremos que o atual modelo decresça para ganhar tempo até que chegue o colapso. Enquanto isso, temos que trabalhar para que mais pessoas despertem e se deem conta de que este sistema não vai ser capaz de mantê-los.

No geral, as pessoas não entendem que o mercado não poderá seguir crescendo para sempre. Isto prejudicará principalmente as pessoas com menos recursos e só os ricos poderão se beneficiar. Por isso necessitamos tempo para que as pessoas normais, a maioria social, entenda que esta grande transição vai chegar. Neste contexto, seria ideal que distintas alternativas já estivessem funcionando para demonstrar não só na teoria, mas também na prática, que existem numerosas alternativas a um modelo capitalista como as Localidades em transição. Para estar preparados para quando chegue o colapso energético devemos decrescer durante 20 ou 30 anos construindo a alternativa que necessitamos.

Quanto tardará em chegar o colapso do sistema capitalista atual?

Há um livro muito potente intitulado “Failing States, Collapsing System”, de Nafeez Mosaddeq Ahmed, que fala sobre o Oriente Médio e sobre as coisas alarmantes que estão acontecendo ali. Todos os países produtores de petróleo estão sofrendo vários problemas: o esgotamento dos recursos petrolíferos e, com isso, o incremento do preço para poder extraí-lo; o disparado crescimento da população… Nos últimos 30 anos só se preocupou de fazer-se cada vez mais ricos e não em melhorar as condições de vida das famílias. Agora o que tem é uma grande escassez de água e importam a maior parte da comida. Isto implica que o custo dos bens se multiplique. A quantidade de petróleo que necessitam para abastecer as pessoas está aumentando e o número de serviços e subsídios que proporcionam os Estados está se reduzindo. A quantidade de petróleo que podem exportar também está se reduzindo. De acordo com os gráficos que apresenta o autor, restam 10 anos até que os recursos decresçam de maneira dramática. Pensamos que na atualidade temos um problema com os refugiados mas, quando a única coisa que podem exportar as pessoas que vivem nestas regiões do mundo seja areia, a situação será dramática.

Há muitas análises na atualidade que vão nesta direção. Falam de uma crise multifatorial, não só pelo petróleo e não só no Oriente Médio. É a mudança climática também, o colapso da pesca… Cada vez se torna mais difícil extrair minerais e os custos de fazê-lo cada vez são mais elevados. Se deteriora a produtividade da economia. O sistema financeiro quebrará. Todas estas coisas vão piorar em muito pouco tempo. Antes de 2030 golpearão o mundo de tal maneira que tudo vai explodir e quebrar-se. As respostas às perguntas são múltiplas mas todas estão focadas até uma mesma direção, e é que o crescimento infinito do sistema capitalista é insustentável. Sua quebra virá vinculada a outras crises de diversa índole que só se poderão amenizar com uma mudança de sistema.

Crê que as pessoas ricas e poderosas aceitarão voluntariamente esta mudança de modelo de maneira pacífica ainda quando isto significa perder seus privilégios?

Não podemos garantir. De fato, é muito provável que os mais poderosos tentem lutar por manter seus privilégios e suas posições atuais. No entanto, aqui aparece uma oportunidade para mudar as coisas. O atual sistema requer uma grande quantidade de energia, um sistema financeiro… No contexto de um colapso, estaríamos praticamente sem energia, não haveria combustíveis líquidos e o sistema financeiro tardaria muito tempo em poder recuperar-se. Esta nova realidade facilitaria a mudança de paradigma mas também impulsionaria os ricos a tentar controlar a todo custo os poucos recursos que sobrariam. Também se lançariam pelos meios de comunicação e, possivelmente, inclusive potencializariam movimentos fascistas.

É provável que as pessoas voluntariamente não decidam mudar-se à “La vía de la Simplicidad” sem que seja de maneira coercitiva. Haverá que esperar que tudo estale?

Com sorte não terá que ser um colapso, mas simplesmente uma grande deterioração da situação. Sempre será de maneira voluntária. De nenhuma maneira cremos no uso da força, não tem nenhum papel neste projeto. Temos que enfrentar-nos ao cessar da produção, a que terminem as férias em Bali, a reduzir os recursos caros ao mínimo. Também teremos que convencer as pessoas, incluídos os proprietários, de que é preciso decrescer. Na Revolução de 1936-37 na Espanha, muitos dos proprietários das fábricas se adaptaram ao novo modelo de produção cooperativa e se geraram benefícios para toda a comunidade. Neste momento, quase todas as fábricas deveriam ser fechadas, já que estamos produzindo demasiado, e tanta produção não é necessária e está arruinando o planeta. Com sorte, todavia teremos algumas décadas para convencê-los e, se há sorte, encontraremos maneiras para gerar os menores inconvenientes possíveis, especialmente para todas as pessoas que trabalham atualmente nas fábricas.

Fazes referência em seu livro, mas também nesta entrevista, à experiência cooperativista e anarquista da Espanha nos anos 1936-37. Como influiu este fato no desenvolvimento de sua teoria?

Foi muito importante. Esta experiência demonstra que o que propomos se pode fazer. De fato, creio que é o melhor exemplo que temos na história recente: uma alternativa em uma sociedade moderna que implica uma considerável indústria, coordenação, universidades, hospitais… O imprescindível em uma sociedade contemporânea. É um exemplo poderoso que nos recorda que o que propomos é possível porque, basicamente, já foi feito com êxito antes.

Milhões de pessoas na área de Barcelona cooperativizaram os meios de produção e gestionaram a sociedade de maneira comunal. Creio que foi o fato mais importante que aconteceu ao longo da história. Alejandro Magno, Gengis Kan… O que fizeram foi insignificante. Foi tribal, estúpido e bruto. Simplesmente mataram as pessoas e conquistaram territórios para poder construir um império. Não fizeram bem a ninguém. Que métodos ou que movimentos surgiram em 50.000 anos de história para criar uma sociedade pacífica, amistosa, cooperativa e organizada em base a questões ambientais e proporcionando uma vida amável?

Outro exemplo que me ocorre é a sociedade que se desenvolveu em torno de Creta até o 1.500 AC. Ainda assim, é difícil buscar boas sociedades que sirvam como modelo para gestionar o mundo. No entanto, há muitíssimos pequenos exemplos por todo o planeta. Mas, sem dúvida, a grande escala, o exemplo mais completo e emocionante foi o dos anarquistas espanhóis em termos de um mundo sustentável, justo e pacífico.

O decrescimento energético é um elemento fundamental neste novo modelo, como também o é a energia limpa. Qual é o papel das renováveis?

Sem dúvida temos que mover-nos para as renováveis. Na atualidade, uma de minhas linhas de pesquisa se centra nas capacidades da energia renovável. Apesar de que não creio que se possa gestionar o nível de consumo energético da sociedade atual com energia renovável, esta sim tem uma razão ecológica devido à quantidade e ao custo de produção.

Tampouco seria possível em um mundo pós-petróleo usar as renováveis como alternativa sem reduzir o consumo. Este é o ponto de vista que pretendo contribuir na discussão. Não sou dogmático mas estou muito seguro de meu argumento. Temos que mover-nos às renováveis já que em “La vía de la simplicidad” a única energia possível e coerente é a renovável.

Converter “La vía de la simplicidad” em um modelo mainstream é o grande desafio que temos adiante?

Totalmente. Tudo isto não pode ficar em um círculo reduzido de acadêmicos ou pessoas que leem livros de 300 páginas. As pessoas comuns querem que seus problemas reais se solucionem, mas para isso tem que entender que há um problema. Por exemplo, o efeito estufa é um problema, mas a maioria dos estadunidenses não consideram que o seja e, provavelmente, tampouco a metade dos australianos. Por isso, o grupo crucial de pessoas é o de pessoas normais.

A esquerda na hora de abraçar as teorias de “La vía de la simplicidad”, tem sido uma aliada ou uma opositora?  

O papel da esquerda neste projeto é um grande problema. Eu gastei muita energia tentando que se somassem a esta alternativa de um mundo simples. Alguns o fizeram mas muitos outros não. A maior parte da esquerda segue pensando que seu grande problema é o capitalismo. Pensa que sem ele todos nós viveremos bem. Outros se deram conta de que temos um problema de recursos naturais e ambientais. No entanto, seu foco é muito suave e não lhe dão demasiada importância em reduzir nossa forma de consumir. Não querem pensar em um Simpler Way. Temos passado muito tempo tentando explicar à esquerda: “Gente, o capitalismo tem que terminar, mas este não é o fim da história. Temos que mover-nos a uma vida simples, onde a tomada de decisões se realize de maneira comunitária”. Mas não querem ouvi-lo; outro trabalho que nos fica.

Fonte: https://elsaltodiario.com/autogestion/la-esquerda-no-quiere-oir-que-tenemos-que-ir-a-um-modo-de-vida-muito-mas-simple-e-autogestionario

Tradução > Sol de Abril

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