Isso não é um convite, é um apelo!

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por Kuarup | 19/11/2018

Mais uma eleição chegou ao final, e o beco sem saída que já estava instaurado tornou-se ainda pior, configurando uma dura inflexão nos rumos do país. Não que a vida sob a gerência do PT fosse mansa, mas é inegável que a emergência de forças ultraconservadoras tornarão a existência dos que vivem do mundo do trabalho ainda mais severas, com as precárias condições que a democracia “oferece” ainda mais erodidas.

Se a derrota da esquerda partidária marca ainda o fim do festival de “vitórias eleitorais” e das apoteoses políticas da Carta aos Brasileiros, para o vasto campo de sementes autônomas ainda por nascer, embora seja difícil definir o que seria esse solo de extrema-esquerda, o resultado das eleições é a lembrança de que a segunda-feira no andar de baixo seguirá recheada de asperezas diárias, mas também de frestas e rachaduras.

Como disse Mao “há desordem no céu, a situação é extraordinária”, e a despeito das melancolias e perplexidades que imperam nas bordas de cá, acreditamos que podemos descobrir como desenhar outros horizontes de lutas para o tempo presente. Ou isso, ou o Netflix!

Não fazemos ideia das “tarefas” da “extrema-esquerda”, as aspas vem por indefinição mesmo, todavia, imaginamos ser o momento para dizermos alguma coisa, até para informar do nosso desaparecimento, ou irrelevância.

A crise, que não é nova, está a demonstrar fartamente a que veio esse ciclo do capital em terras brasilis, o derretimento das velhas e surradas formas que a esquerda partidária experimentou, que escancara o dramático desarme político da base da pirâmide, e é, por isso mesmo, o que dá a urgência a esse chamado.

Trata-se, nesta perspectiva, de avaliarmos se ainda temos horizonte para uma esquerda anticapitalista, se é pensável buscarmos energias de criação e fissuras no modo hegemônico da vida presente.

É dizer: Podemos ser de alguma serventia para o surgimento de outras energias emancipatórias, para a liberação de forças criativas que, como nós, querem constituir um campo de lutas fora dos anéis de detritos da esquerda partidária, dos velhos pactos e da política de conciliação e das lógicas que tanto negamos?

Será que podemos criar laço coletivos, e entre indivíduos, longe das patologias, dos vícios e o pouco apreço à vida coletiva que vem caracterizando os esforços da última década em nosso meio?

Somos uma constelação no Brasil de muitos indivíduos e uns poucos ajuntamentos, basta uma mirada em “nosso meio” e mapeamos que vivemos em nossa própria bolha, é nosso casulinho. É uma vida de baixa intensidade, sem vínculo com as formas vivas presentes, e muito contra os apressados, o Real ainda resiste, e existe.

Os ativismos nesse lado da margem estão distantes de terem algum significado no bruto pêndulo da realidade, malgrado o palavrório de muitos. Como força política, o “campo autônomo” é pura lenda! Nossa lista de dificuldades é longa, maior que a paciência do tempo necessário para a reflexão.

Diante do que a realidade nos apresenta, da guerra de classes “por outros meios”, sem mediações, é que se dirige nosso apelo, para as possibilidades instituintes de espaços e territórios onde ajuda mútua, associação voluntária, tomada de decisão igualitárias sejam semeadas.

Para os que sentem que podemos construir algo muito além do desejo de controle dos aparatos, que não nos interessa o poder de Estado e nem a imposição de nossa visão, então, isso é um apelo.

Aos que compartilham nossa ética contra o domínio e todas as formas de controle da liberdade.

Como pensar e construir novos horizontes e lutas? Seguimos imaginando que o crucial é o território, aquele que habitamos com nossos afetos, labutas diárias, nossas contradições e possibilidades de fazeres. É aí também que a maquinaria capitalista movimenta suas forças, essa é a infraestrutura por onde o poder busca emoldurar os desejos de uma outra vida, necessária e urgente.

Não sabemos por onde começar, mas e daí? Não queremos mesmo as velhas certezas, com suas ciladas e atalhos cheios de astúcias.

No campo de possibilidades, dizem por aí, há uma infinidade de mundos possíveis para serem criados, aguardando serem gestados, territórios para serem desenhados por mãos generosas e corações tranquilos. É fato, não temos as respostas, parafraseando amigos próximos, só podemos indagar: Que horas a extrema-esquerda volta?

Podemos deixar que as coisas aconteçam do jeito que os que dominam já fazem, submeter os acontecimentos ao “espírito da época”. Podemos escolher “não intervir”, torcendo que alguma toupeira da história faça o trabalho de escavação, numa fé inútil.

A opção de seguir nas redes sem impacto no real, militâncias de sofás regadas a tristezas com fast food, questiúnculas intermináveis e disputas por igrejotas, até isso pode ser uma escolha, ao menos de alguns.

Nosso apelo é um grito solto aos ventos de possíveis rebeldias, apesar dos desertos de dificuldades acreditamos nas potências que vagam por aí em busca de encontros e de outro ethos.

Podemos escolher criar e habitar outros mundos, cometer montanhas de erros, gerar novos conflitos ou adensamentos, ou podemos deixar que os mundos sigam colonizados pela opressão.

Podemos fazer as escolhas difíceis, de começarmos algo que nem sequer sabemos definir, não sem a paixão que acompanha sempre quem escolhe a revolta.

agência de notícias anarquistas-ana

Solzinho da manhã
O louva-a-deus no galho
Bem agarradinho.

Murilo Henrique Rosa da Luz – 10 anos

2 responses to “Isso não é um convite, é um apelo!”

  1. Silvio Rogério dos Santos

    Muito mais produtivo do os textos que tratam o voto nulo como dogma. Ao menos pra mim.Agora é realmente ir pras bases e trabalhar.

  2. Débora Sintra

    Gostei do chamado, os anarquista passam tempo demais falando mal uns dos outros, se insultando, disputando quem é mais estreito e isolado. O manifesto tem o valor de um convite para algo diferente. Vamos todos lutar juntos contra o sistema, é isso que importa.
    Valeu

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