Entrevista a Marina Knup, realizadora do documentário “Viver Para Lutar”

Marina Knup, realizadora do documentário “Viver Para Lutar – Punk, Anarquismo e Feminismo: As Minas dos Anos 90” conversou com a ANA sobre o filme e sobre a turnê de lançamento, no bate-papo que você confere a seguir!

Agência de Notícias Anarquistas > Para quem não assistiu ainda, do que se trata o documentário “Viver Para Lutar”? Como surgiu a ideia deste projeto?

Marina Knup < O Viver Para Lutar tem como proposta ser uma série de documentários sobre a movimentação anarcopunk no Brasil nos anos 90. A ideia surgiu em 2007, a partir da necessidade de registrar nossas memórias e experiências com nossas próprias vozes e olhares, visto que a grosso modo esse tipo de registro audiovisual sempre foi feito pela academia ou pela imprensa, que tem seus próprios interesses e pontos de vista. A princípio teria como foco a cena anarcopunk de São Paulo, mas com o passar do tempo isso foi se ampliando e tomou a forma atual, com a ideia de realizar documentários temáticos divididos em episódios, sendo o primeiro deles este que foi lançado em abril e trata das mulheres anarcopunks e anarquistas dos anos 90, a necessidade de discutir feminismo no punk dentro daquele contexto, e o surgimento dos primeiros coletivos e projetos anarcofeministas.

ANA > E foi um processo demorado para fazer o documentário? Que contratempos encontraste?

Marina < Viajar no Brasil é algo muito caro e esse foi um dos maiores problemas que fez com que o projeto demorasse tantos anos pra finalmente se concretizar – o primeiro episódio da série está saindo 12 anos depois de começada a ideia! A principio íamos fazendo entrevistas pouco a pouco, conforme pessoas de outros estados iam passando por São Paulo ou quando era possível ir pra algum outro lugar. Nos últimos anos, com a ideia de finalmente terminar a fase de entrevistas e captação de imagens, viajei por muitas cidades do Brasil tatuando para fazer dinheiro e poder seguir adiante com as filmagens. E sempre com o apoio das cenas locais com lugar para dormir e todo tipo de ajuda que foi possível, o que foi muito importante também.

ANA > Ele foi feito totalmente no espírito DIY (Faça Você Mesmo)?

Marina < Sim. A proposta desde o início foi que o documentário como um todo fosse feito de forma DIY, do mesmo modo que construímos nossos projetos, coletivos, bandas, livros, zines, e por aí vai. Então todo o processo de filmagem, edição e realização foi feito desse modo, e, também, sem quaisquer editais, verbas ou financiamentos, somente com o suor e correria das pessoas envolvidas na cena.

ANA > E onde foi a estreia da turnê de lançamento do documentário? Já passou por quais cidades?

Marina < A estréia foi no fim de abril no No Gods No Masters Fest, em Peruíbe (SP), no espaço Semente Negra – um festival que contou com muitas atividades, oficinas, projeções, bandas e muita troca. Depois disso passei por São Paulo (SP), Santos (SP), Divinópolis (MG), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA), João Pessoa (PB), Natal (RN), Fortaleza (CE), Florianópolis (SC), Criciúma (SC), Porto Alegre (RS), Montevidéu (Uruguay), Mar del Plata (Argentina) e estou seguindo agora para Buenos Aires. Fora as mostras em que estive presente nos debates, companheirxs também organizaram atividades em Brasília (DF), Bauru (SP), Belém (PA), Juiz de Fora (MG), Pelotas (RS), Sete Lagoas (MG), Rio de Janeiro (RJ), Campina Grande (PB), Cariacica (ES), e mais mostras em São Paulo (SP), e estão pra rolar outras mostras em Cuiabá (MT), Goiânia (GO) e Campinas (SP) também.

ANA > Depois do Brasil a turnê roda pela América do Sul, América Central?

Marina < Depois do Brasil a rota por enquanto inclui Uruguay, Argentina, Paraguay, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Costa Rica e México, mas ela ainda está sendo modificada com o passar da viagem! Algumas compas também estão traduzindo o filme para o inglês para que possam rolar mostras em outros países um pouco mais adiante.

ANA > E como tem sido a sua turnê pelo Brasil? Muitas aventuras? Companheirismo, solidariedade… Como você analisa a recepção do público?

Marina < Tive um apoio muito grande em cada cidade que passei, assim como também rolou em outras ocasiões. Foi massa demais rever mais uma vez companheirxs com quem sigo conspirando movidas conjuntas há muitos anos, assim como conhecer novxs compas, poder trocar realidades e experiências, ver de perto como estão as movidas em cada lugar, e tudo isso foi acompanhado de muita solidariedade em todos os sentidos. Mais uma vez pude ver e sentir funcionando com toda a força nossa rede libertária. Pela própria temática do documentário, outro ponto que também tem sido constante é a aproximação e contato com outras manas, grupos feministas e troca de experiências com relação às nossas vivências e projetos nesse sentido. Em cada uma das cidades em que viviam garotas que participaram do documentário, elas também participaram dos debates, assim como a galera mais velha dos anos 90 e 80 como um todo.

Quanto à recepção das pessoas, as mostras e debates têm sido muito fortes em vários sentidos. Rola sempre muita identificação das mulheres presentes, tanto pelos questionamentos que são colocados com relação ao machismo nos movimentos, quanto pela força que as manas que participam do documentário passam ao contar suas histórias de luta. Os debates tem sido sempre repletos de trocas de experiências, reflexões sobre o presente e os percursos que seguimos desde os anos 90 até aqui, urgências atuais, auto-críticas, etc. Decidi não disponibilizar o filme na internet enquanto estivessem rolando as mostras e isso possibilitou que rolassem mais debates coletivos presencialmente, e acompanhar isso tem sido bem interessante.

ANA > Em tempos sombrios e sinistros em “nosso” país, há algum esquema de segurança durante as apresentações do documentário?

Marina < Em alguns locais houve mais preocupação nesse sentido, em outros menos. Mas a preocupação com a nossa segurança foi algo presente mesmo em outros momentos históricos no país, então no contexto atual é algo que segue existindo.

ANA > Conte um pouquinho sobre o 1° Festival de Cinema Internacional Anarquista que acontecerá em Buenos Aires…

Marina < O Festival vai acontecer nos dias 24 e 25 de agosto e está sendo organizado por várixs companheirxs anarquistas e feministas de Buenos Aires no Centro Cultural La Toma. Vamos participar com 3 integrantes do coletivo organizador do Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo, com uma conversa sobre cinema anarquista. Vão rolar muitos debates, oficinas, feira de materiais e, claro, muitos filmes de várias partes. Como vão estar presentes companheirxs de diversos países da América Latina, estamos muito otimistas com a possibilidade de estreitar mais os laços entre aquelxs que tem se envolvido com a produção audiovisual dentro das movidas anarquistas, e possibilitar mais trocas e intercâmbios.

ANA > Por fim, se cuida, sucesso em suas andanças com o documentário. Valeu!

Marina < Valeu mais uma vez pelo espaço! Pra saber da agenda atualizada de exibições do documentário é só acessar a página facebook – www.facebook.com/docviverparalutar

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Na mata fechada
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É a cascata seca.

Fiore Carlos

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