Anarquistas pelo planeta e o avanço do anarcoterrorismo.

A Indonésia é composta por milhares de ilhas e está localizada no sudeste asiático com fronteiras terrestres com a Malásia, Papua Nova Guiné e Timor-Leste. Conta com 250 milhões de habitantes, a maioria adepta do islamismo. Foi colônia holandesa do século XIX até a II Guerra Mundial quando, em 1942, foi invadida pelo Japão com o auxílio da Alemanha nazista que acabara de invadir e dominar a Holanda. Com a liderança de Sukarno, aliado dos japoneses, buscou a independência em 1945, reconhecida quatro anos depois. Sukarno tornou-se presidente da Indonésia, aproximou-se do bloco soviético e chinês, declarou-se presidente vitalício em 1963, e acabou sendo deposto.

O país ocupou as manchetes de jornais no final da década de 1960 que noticiavam o sucesso dos EUA junto ao general indonésio Suharto, para barrar o avanço do comunismo. Na época, aproximadamente meio milhão de pessoas foram executadas sob a acusação de se oporem ao governo militar.

Esses corpos somariam-se a tantos outros que sumiram nos anos seguintes e aos milhares de mortos na guerra com o Timor-Leste na década de 1980, confronto também marcado pela alegação de barrar o avanço do bloco soviético.

Nos últimos anos, as notícias de práticas anarquistas na Indonésia passaram a ganhar repercussão. Como se sabe, as práticas anarquistas, quase do outro lado do planeta, não costumam ser muito noticiadas. Muitas vezes são vistas até mesmo como exóticas por aqueles que pretendem demarcar um berço europeu para os anarquismos.

Uma das procedências dos anarquismos na Indonésia, remonta à passagem do anarquista Zhang Ji no começo do século XX que percorreu Ásia e foi um dos fundadores da Associação de Solidariedade de Tóquio em 1907. Esta associação pretendia combater as produções intelectuais nacionalistas financiadas pelo Império japonês e utilizadas como justificativas para a colonização de territórios vizinhos.

Zhang Ji, na época, incansável na luta contra o Império do Japão, e combatente da dinastia Qing, aportou em Java e depois relatou em suas memórias as lutas espalhadas pelas ilhas em combates libertários contra a invasão holandesa.

Anarquistas procedentes da China, assim como Zhang Ji, reuniam-se em casas para fazerem leituras de textos libertários. Pelo arquipélago, espalharam-se associações que tinham como um de seus alvos combater a pretensão da Indonésia a se tornar império ou de dominar mercados da China, Holanda e Japão.

Assim, inventavam associações e publicavam periódicos contra o Estado e a favor de uma alimentação vegetariana, contra a violência aos animais e pelo uso de roupas naturais. Eclodiam mais associações em Java, Timor e Cingapura. Nos mares do sul também se divulgavam os escritos de um periódico procedente da China, o Minsheng (Vozes do povo), fundado pelo libertário Liu Shifu.

Liu Shifu ficaria conhecido pelas suas aventuras pela Ásia, por sua atração pelo anarcoterrorismo e por seu contato com anarquistas no Japão. Quando ali esteve, acompanhou os massacres perpetrados pelo Império do Japão contra coreanos e libertários na década de 1910.

Zhang Ji, anos mais tarde, envelhecido, aderiu à Revolução Chinesa e tornou-se integrante do partido. Tornou a publicar suas memórias contando episodicamente sobre os anarquistas naquela região do planeta.

Liu Shifu, morto na década de 1910 por conta de complicações de saúde, permaneceu vivo por meio de seus escritos pela Malásia, Hong Kong e Indonésia, percorrendo as associações camponesas pelo sul e sudoeste da Ásia e atiçando práticas libertárias principalmente na Indonésia e na Malásia, e rapidamente se tornando alvos da polícia.

Mesmo assim, sem se limitar a fronteiras, os libertários fugiram e inventaram outras sociabilidades apartadas da obediência ao imperador, ao sultão, ou à dinastia.

Na década de 1920, com a ascensão do fascismo japonês, o massacre que se seguiu por toda a Ásia, e que culminou na invasão japonesa ao país em 1942, acreditou-se que os anarquismos na Indonésia tinham sido sufocados.

Século XXI

No primeiro de maio de 2019, em Jakarta, os anarquistas romperam um bloqueio policial em uma estrada e um grupo de anarcossindicalistas pôde dar continuidade à sua manifestação e se reunir no ponto de encontro com outras milhares de pessoas.

Em agosto de 2019, na mesma cidade, em uma manifestação trabalhista em frente ao parlamento de Jakarta, um anarquista foi preso por usar uma camiseta com escritos pelo fim da existência da polícia. Outros sete anarquistas foram presos em seguida sob a acusação de serem integrantes da associação Anarko, que agitou o primeiro de maio de Bandung neste ano.

Até agora, não há mais notícias sobre eles.

O primeiro de maio de Bandung foi marcado por uma mancha negra que invadiu a cidade e que não estava interessada em negociar com empresários ou com o governo por melhorias em condições de trabalho. Bradavam contra o capitalismo, contra o sultão e contra o Estado. A polícia cercou a mancha negra anarquista por dois lados, dividindo em dois grupos para espancar e prender os jovens.

O resultado foi a prisão de vários anarquistas. Muitos deles foram torturados, despidos, tiveram as cabeças raspadas e seus corpos e rostos pintados com spray. Outros jovens foram obrigados a rastejar quase nus pelo asfalto. Posteriormente foram soltos. Entre eles estava Arpatam, de 20 anos, e que após ser atingida várias vezes no rosto pela polícia, ficou no chão sem conseguir respirar e com lesões no nariz e nos olhos.

Em seguida foi levada a uma base militar junto com outros jovens, onde teve sua roupa arrancada e recebeu uma nova sessão de espancamento. Somaram-se à jovem Arpatam outras 618 pessoas e um jovem atropelado. 3 deles ainda permanecem presos sob a acusação de destruírem propriedades.

Em uma conta na rede social Instagram foram reunidas fotos e vídeos daquele dia. Sob o codinome de Gardoefack, anarquistas lançaram um breve texto pedindo a quem tivesse outros registros, que os enviassem para serem divulgados.

Em meio ao material reunido, lançaram um vídeo com a leitura de um pequeno texto. Em uma passagem, afirmam: “Nós somos uma maldição para vocês. Mesmo sendo espancados, chutados, desnudados, continuaremos a lutar junto com milhões de antepassados… Somos o vento que se espalha em vários espaços para combater a dominação. Continuaremos a lutar. Combatendo. Combatendo. Nos tornaremos a fúria contra os ardilosos governantes”.

No Primeiro de Maio em outra cidade, Makassar, oito anarquistas desapareceram. Durante as manifestações, algumas pessoas foram sequestradas pela polícia e enviadas à delegacia de Panakukang. A cidade ficou completamente parada com a busca pela polícia aos anarquistas. Não há qualquer informação a respeito dos libertários. A eles se somaram outros 11 anarquistas que sumiram pela cidade. Além de prisões sumárias, alguns desaparecem após serem abordados e obrigados a entrarem em carros pretos sem identificação.

Porém, a presença dos anarquistas neste ano nas manifestações de primeiro de maio não foi novidade.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.pucsp.br/ecopolitica/observatorio-ecopolitica/n55-56.html

agência de notícias anarquistas-ana

Fileira de ipês
ornamenta o quarteirão —
Radiante manhã.

Alberto Murata

One response to “Anarquistas pelo planeta e o avanço do anarcoterrorismo.”

  1. Reno

    Lutem pelo planeta para q ricos usufruam dos mares belos, das paisagens lindas e vc seja preso morto e torturado. É um paradoxo. Enquanto vc luta e é julgado como terrorista, o rico viaja pra polinesia francesa, ja q pro nordeste eles nao vao mais porcausa das poças de oleo forjada por bozzo. É foda. Quantas vezes mais voltaremos vida após vida pra mostrar pra esses imundos q dinheiro nenhum,conforto nenhum paga o respirar de um ar puro?

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