[EUA] Negro Antifa pra cacete: Os legados duradouros do antifascismo negro

Por Jeanelle Hope| 20/06/2020

COMO PESSOAS NEGRAS QUE BATALHAM PELAS VIDAS DE MUITOS OUTROS, DEVEMOS LEMBRAR QUE A NOSSA LIBERDADE ESTÁ DIRETAMENTE LIGADA À QUEDA DO FASCISMO, E QUE MUITOS MILITANTES ANTIFAS TRABALHAM COMO ALIADOS DO NOSSO MOVIMENTO.

Nos dias seguintes a eleição do 45º presidente – me recuso a digitar seu nome – dos EUA, muitos de nós enchemos as ruas protestando contra o resultado eleitoral. Para além da gritante diferença entre voto popular e eleitoral, aquele desfecho pareceu trazer consigo algo assustadoramente desconfortável. Enquanto esteve em campanha, 45º usou políticas dog whistle¹ e, algumas vezes, uma retórica explicitamente carregada de racismo e sexismo que agitou e direcionou a fúria de sua base eleitoral (majoritariamente branca) contra aqueles que já eram marginalizados; pessoas negras, imigrantes, muçulmanos, pessoas com deficiência e mulheres. Então não foi surpresa que as ruas estivessem lotadas com diversos grupos populares. Entretanto, entre as pessoas, eu me vi marchando com alguém aparentemente desconhecido. Todo trajado de preto, com direito a balaclava e capuz, coturnos, e correntes prateadas balançando ao lado da sua coxa. Fiquei cada vez mais desconfortável e amedrontada por aquela pessoa ao meu lado que também gritava “FODA-SE, TRUMP!”. Esta pessoa e outras pessoas com uma estética semelhante não tinham medo de confrontar fisicamente contramanifestantes de extrema direita (ou policiais) com força, colocando seus corpos entre aqueles que protestavam por mudanças e progresso sociais e aqueles que defendiam a manutenção do status quo.

A medida que fui a outros protestos, encontrei mais deles – “Antifa” – demonizados pela mídia mainstream e pelos políticos, compostos por um contingente multiétnico de manifestantes anticapitalistas. E agora que estamos na segunda onda do Movimento pelas Vidas Negras, que têm atraído mais desses misteriosos personagens, se levanta a questão: quem ou o que é “Antifa”?

Antifa, abreviação para “antifascistas”, data de muito antes do 45º. Nas escolas estadunidenses, aprendemos que o primeiro movimento antifascista organizado emergiu como uma resposta ao espalhamento do fascismo pela Europa nos anos 20 após o fim da Grande Guerra, particularmente com a ascensão do ditador Benito Mussolini na Itália e do Terceiro Reich de Adolf Hitler na Alemanha. Fascismo pode ser melhor descrito como um autoritarismo de extrema-direita com um marcante nacionalismo ancorado na exclusão do “outro”. Líderes fascistas agem como ditadores, esmagando a democracia ou qualquer dissidência – seja de civis, opositores políticos dentro ou fora do país, ou imprensa – usualmente com violência ou uma retórica que promova e facilite a violência. Outro fator chave do fascismo é o genocídio e a limpeza étnica. Historicamente, regimes fascistas promoveram programas e políticas de extermínio daqueles fora de um determinado modelo de branquitude (noções de raça “ariana” ou superior). O fascismo prospera de modo violento e geralmente auxiliado por forças paramilitares, como os Camisas Negras italianos ou a Gestapo nazista. Essas forças estão sob o comando de seu líder fascista, seja para arrastar milhões aos campos de concentração ou encarcerar em massa os imigrantes.

Em suma, o fascismo é absurdamente violento, poderoso e uma forma inegável de supremacia branca altamente organizada.

Como Mussolini e Hitler, Trump é um fascista, e ele não se encontra sozinho. Testemunhamos globalmente a ascensão do fascismo como no caso de presidentes como o brasileiro Jair Bolsonaro, o filipino Rodrigo Duterte, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi; e cada vez mais o presidente chinês Xi Jinping e o primeiro-ministro britânico Boris Johnson abraçam o nacionalismo e o autoritarismo, usando suas polícias e/ou exército para encarcerar e até mesmo matar minorias étnicas – povos indígenas brasileiros aos muçulmanos uigures ou imigrantes africanos na China.

Os Estados Unidos não são uma exceção. Além de décadas de encarceramento em massa, que engoliram gerações inteiras de negros e indígenas, temos visto nos últimos anos imigrantes negros e latinos sendo detidos e negros em quantidades alarmantes enquanto crianças da América Central são postas literalmente em gaiolas pela atual administração. Policiais por todo o país continuam a deter e assassinar negros em quantias exorbitantes de forma impune; a despeito de um treinamento para uma atuação mais “humanitária”, das câmeras corporais, nas câmeras nas viaturas, de uma diversidade maior entre os oficiais ou do “policiamento comunitário”. Apesar disso tudo, os casos de brutalidade tornam-se cada vez mais e mais notórios.

Botham Jean, Atatiana Jefferson, Korryn Gaines e Beonna Taylor foram mortos pelas forças da lei em suas próprias residências. Stephon Clark foi assassinado no jardim da avó segurando apenas um celular. E, mais recentemente, a maior parte do mundo assistiu o ex-policial de Minneapolis (Derek Chauvin) ajoelhar-se no pescoço de George Floyd por quase nove minutos. Enquanto isso, Trump sancionou, justificou e até louvou esse tipo de violência branca. Isso é fascismo e nós devemos nomear como tal. E é esse terror sistemático típico do nacionalismo branco que os manifestantes antifas buscam combater.

Em março de 2019, eu novamente me encontrei de pé ao lado de um manifestante antifa, desta vez num protesto em Sacramento em resposta ao assassinato de Stephon Clark e à recusa do procurador distrital em processar os oficiais culpados pelo homicídio. A medida que as tropas do Estado aumentaram suas hostilidades, usando bicicletas e cassetetes contra nós, aquele mesmo antifa pulou na minha frente, agindo como uma barreira entre mim e o policial. Durante essa demonstração de solidariedade, eu me lembro de pensar “Eles realmente estão de corpo e alma nisso!”. Aquele momento me ajudou a entender que os antifascistas não estavam apenas contra o Trump, mas sim contra toda forma de racismo uma vez que estas são manifestações do fascismo.

De acordo com o autor e professor Mark Bray, antifa é uma intersecção de políticas radicais de esquerda com o conceito da ação direta. Manifestantes antifascistas acreditam na organização vinda da base e tem pouca ou nenhuma fé no Estado, na polícia ou nas cortes – no governo, em geral – uma vez que esses sistemas de poder foram corrompidos pelos regimes fascistas. Soa familiar? Como Trump e Mitch McConnell (líder da maioria no Senado) aparelhando nossas cortes e juízes conservadores sem qualificação necessária. Ou policiais raramente sendo indiciados ou sentenciados por seus atos violentos. Perante um sistema sociopolítico completamente defeituoso, antifascistas muitas vezes veem a resistência armada e a autodefesa comunitária como os únicos meios de derrotar o fascismo; seríamos negligentes em não reconhecer que esse sentimento ressoa em muitas pessoas negras.

Nesses momentos atuais e intensos de agitação racial, com que frequência vemos a imagem icônica de Malcolm X espiando por uma cortina enquanto segura um rifle em nossas redes sociais? Essa imagem, assim como fotos semelhantes dos membros do Partido dos Panteras Negras, costuma instigar nossas ideias radicais e nosso próprio legado de antifascismo negro.

Para os Panteras, fascismo não era apenas algo que aconteceu na Alemanha nazista ou em colônias europeias no exterior. O fascismo também está em atuação aqui. Escravidão, revoltas antiabolicionistas, o bombardeio da Wall Street negra e o massacre de Tulsa, o surgimento da Ku Klux Klan e dos conselhos de cidadãos brancos, as políticas rígidas e a guerra às drogas do Nixon; todas foram formas fascistas que almejavam escravizar, reprimir e matar pessoas negras. Portanto, o Partido dos Panteras Negras se alinhou aos movimentos antifas durante seu período, uma vez que reconheciam que negros sempre tiveram as botas dos fascistas sobre seus pescoços.

Glorificamos imagens da militância do Poder Negro, mas rapidamente esquecemos as mensagens de advertência de Malcolm, que nos alertou que sempre que nos opormos à supremacia branca e exigirmos nossa liberdade seremos confrontados com a violência do Estado. Sua imagem é uma lembrança que devemos estar preparados para defender a nós mesmos “por quaisquer meios necessários”. Sedes do Partido dos Panteras Negras em Sacramento, Los Angeles e Chicago foram atacadas por policiais no final dos anos 60, e muitos partidários ousaram atirar de volta.

Foi seu entendimento do fascismo estar ligado ao preconceito contra pessoas negras que levou o Partido dos Panteras Negras a sediar a conferência da Frente Unida Contra o Fascismo em Oakland, Califórnia, em julho de 69; a ocasião também atraiu negros, bem como latinos, caribenhos, amarelos, indígenas, progressistas e até brancos da classe trabalhadora, de todo o país. Foi seu entendimento compartilhado do fascismo estadunidense que uniu as organizações e as pessoas.

Para deixar claro, os brancos não detêm o monopólio do antifascismo. Além disso, os negros estão entre a vanguarda dos antifascistas.

Ao contrário da crença popular, negros estão inseridos nas atuais redes antifas. Ezili (nome falso), um antifa de Sacramento e pesquisador de movimentos de rua, começou a se engajar com movimentos antifascistas após a eleição de Trump e subsequente difusão de retóricas de extrema direita em campus universitários. Ezili argumenta que estamos presenciando o ressurgimento global do fascismo devido a falha da supremacia branca neoliberal e conservadora. O fascismo emerge na crise da branquitude, da masculinidade branca, e do capitalismo. Segundo Ezili “pessoas brancas acham que essa ordem racial e social não é mais o bastante, portanto devemos retomar alguns dos antigos costumes”, como meio de retomar o domínio branco.

Logo, ser antifascista é ser antirracista

Como uma resposta para o racismo do 45º e crescimento fascista, os antifas de hoje veem uma oportunidade de reimaginar uma sociedade onde ajuda mútua, cobertura médica acessível e oportunidade de um salário digno sejam valores universais. “Nós focamos em antifas e anarquistas destruindo coisas em vez de ver o antifascismo como um processo ao mesmo tempo criativo e destrutivo. Sim, nós socamos os fascistas, mas você também vai encontrar um antifa – especialmente um negro – que se preocupa em assegurar que sua avó recebe comida e que seu amigo tenha suas despesas médicas cobertas; isso, também, é antifascismo!”, diz Ezili.

Enquanto somos estimulados a demonizar manifestantes antifas, rotulando-os como “provocadores de anarquia”, Ezili nos lembra de refletir sobre as palavras de James Baldwin: “De toda forma, brancos que haviam roubado das pessoas negras suas liberdades e lucrado com esse roubo a cada hora, não tem base moral na qual possa se apoiar.” Tal sentimento também ecoa no clipe viral da autora e ativista Kimberly Latrice Jones sobre o “contrato social quebrado” nos EUA e em defesa do saque, da violência e da anarquia em Minneapolis após a morte de George Floyd.

Ser antifascista é ser antirracista

Na esteira da atual revolta provocada pelas trágicas mortes de Breonna Taylor, George Floyd, Tony McDade e muitas outras pessoas negras nas mãos da polícia, o antifascismo apareceu mais uma vez, atraindo críticas polarizadoras, principalmente de especialistas políticos de direita acusando os antifas de instigar e alimentar a violência, bem como os negros, que foram amplamente desconectados de seus legados do antifascismo negro. Como pessoas negras lutando uma batalha por suas vidas, devemos lembrar que nossa liberdade está diretamente atrelada ao fim do fascismo, e que muitos antifas trabalham junto aos nossos movimentos como aliados. Próxima vez que você compartilhar uma foto do Malcom X ou dos Panteras Negras portando armas, lembre-se que eles foram antifascistas. E, em tempos como estes, todos devemos nos esforçar para sermos também antifascistas.

[1] Apito de cachorro, ou política do dog whistle, é uma mensagem política empregando linguagem em código que parece significar uma coisa para a população em geral, mas tem um significado mais específico e diferente para um subgrupo alvo

>> Jeanelle K. Hope, PhD, é uma ativista, pesquisadora e professora-assistente em Estudos Comparados Étnico-Raciais. Ela escreveu e conduziu pesquisas sobre movimentos sociais negros, solidariedade afro-asiática, juventude de mulheres negras, e produções artísticas e culturais de pessoas negras.

Fonte: https://www.essence.com/feature/fascism-black-antifa-rallies/

Tradução > AnarcoSSA

agência de notícias anarquistas-ana

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