[França] David Graeber, 1961–2020 | “Nós ainda não acreditamos que perdemos você

Por Isabelle Frémeaux e John Jordan

Querido David,

É meia-noite. Lágrimas vêm e vão como marés. Noite passada (02/09), sob a lua cheia, você partiu de repente e deixou este mundo, do qual você fez parte para transformá-lo em algo melhor. Na biblioteca da ZAD (Zone à Défendre, “Zona a Defender”) – construída onde o Estado francês queria colocar um aeroporto, à sombra de um farol ilegal erguido no local de uma planejada torre de controle – há oito livros num mostruário especial. Um deles é a edição francesa de seu Bullshit Jobs.

A biblioteca está cheia de livros sobre anarquismo, movimentos de ocupação, Comuna de Paris, utopias, lutas territoriais e camponesas. Estranhamente, perto do exemplar de exibição de seu livro, havia uma prateleira meio vazia: a única prateleira meio vazia da biblioteca. Aquela prateleira parecia ser o lugar para marcar sua morte sem sentido, com espaço suficiente para fazer um pequeno santuário a sua memória, sua amizade, seu brilhantismo e peculiaridade.

Adornamos com velas, flores do campo onde queriam construir a pista, uma pedra de pavimentação de uma velha barricada – de uma luta ocorrida aqui há 45 anos – e uma foto sua sorrindo e olhando para o alto, a sua esquerda, como se estivesse chamando os espíritos da alegre rebelião para seu lado. Se seguíssemos seu olhar, da foto até os livros, pousaríamos na prateleira nomeada ACAB (“All Cops Are Bastards”, “Todos Policiais São Bastardos”). Você teria rido sua risada de malandro.

Não são muitas as bibliotecas com uma prateleira ACAB, ou que são erguidas numa zona ocupada contra um aeroporto e seu mundo, que funcionou com auto-organização sem polícia por seis anos. Você teria amado a ZAD; ela incorpora suas ideias onde a ação direta se torna parte da vida cotidiana. Tínhamos falado sobre você e Nika nos visitando, fazendo uma palestra aqui, passando um tempo juntos caminhando por estas fazendas e pântanos salvos da destruição. Mas a vida, como a revolução, é sempre imprevisível. Você não foi visitar estes quatro mil acres que os políticos uma vez chamaram de território perdido para a república. Nós ainda não acreditamos que perdemos você. Nesta noite, soltamos fogos de artifício em direção à lua em sua homenagem.

Um dos primeiros pensadores anarquistas, William Godwin, escreveu que livros velhos são corpos de fantasmas. Seus livros não são velhos, mas já são corpos de fantasmas – corpos que continuarão a inspirar muitas pessoas nestes tempos sombrios em que, mas do que nunca, precisávamos de sua imaginação radical. Em 2018, trabalhávamos num livro para apoiar a ZAD depois de despejos após a vitória contra o aeroporto. Pedimos para você fazer o prefácio. Via telegrama, da fronteira de Rojava, você respondeu dizendo que não poderia escrever porque estava contrabandeando drones para a Região Autônoma, o que deu a todos nós muita esperança de viver sem o Estado. “Escreva o prefácio como um ‘ghostwriter'”, você escreveu, o que foi uma terrível honra, a qual JJ cumpriu, tentando desesperadamente canalizar você como uma espécie de médium distante. Isso diz muito sobre o quão aberto e humilde você era. Você fez piada depois, dizendo que deveria ter camaradas escrevendo para você mais vezes, o que lhe daria mais tempo para aprender a tocar guitarra.

Na última vez em que saímos com você e Nika, estávamos correndo do gás lacrimogêneo nas ruas de Paris, no maior dia de ação da revolta dos Coletes Amarelos, quando Macron estava pronto para deixar o Palácio do Eliseu num helicóptero (o que, infelizmente, ele nunca fez). Você foi um daqueles raros intelectuais cujas ações e modos de vida correspondiam a suas ideias, que encarou os riscos em pensamento e ação, e cujas palavras tinham tanta clareza que abriam as portas do radicalismo a muitas pessoas. Certa vez, você escreveu a Isa que uma de suas regras era “ser gentil com seu leitor”. Já estamos sentindo muita falta dessa gentileza. Sempre vamos te amar, seja como um corpo ou um fantasma.

Tradução > Erico Liberatti

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