[Espanha] Crônica de três dias de literatura e anarquismo em Xixón

O “Alcuentru´l Llibru Anarquista d´Asturies” celebrou sua oitava edição com um intenso programa de feira, debates, livros e música.

Por Christian Ferreiro | 07/09/2020

 O “VIII Alcuentru´l Llibru Anarquista d´Asturies” organizado pela CNT de Xixón, aconteceu entre os dias 3 e 5 de setembro na Casa’l Pueblu de Xixón. Como não poderia ser de outra maneira, estas jornadas foram marcadas pelas medidas sanitárias de segurança quanto ao foro limitado, a distância entre assentos e sua regular limpeza e desinfecção, o uso de máscaras, etc. Apesar destas condições, se poderia dizer que inclusive o ambiente foi mais acolhedor e a afluência notável. É louvável, nestes tempos que correm.

 O encontro aconteceu ao longo dos três dias no mesmo local, o da CNT de Xixón: a Casa’l Pueblu. Este local, da histórica central sindical, permaneceu fechado desde 1998 até 2014, ano no qual começaram a celebrar estes encontros do livro. Como seu próprio nome indica, não é meramente uma feira do livro, mas estritamente um encontro: um lugar de abertura no qual possam confluir várias frentes em luta desde uma perspectiva libertária, mediante exposições de livros, mas também de fanzines de diferentes temas, reivindicações, amplificador de diversas organizações em luta, etc.

Carlos Taiboestreou mesa e microfone para nos trazer doze das cem historietas e relatos que compõem seu recente livro “Historias antieconómicas, em uma tentativa fecunda de visitar as vozes que ficaram nas margens do relato hegemônico do capitalismo. Taibo, mostrando sua pedagógica oratória, transmitiu o mundo da vida de diversas pessoas que resistem à lógica mercantil: a “sobriedade” e a “simplicidade voluntária”que caracterizaram a geração do pós guerra, que tanto amor dedicavam ao escassíssimo alimento que ingeriam, deveríamos tomá-las como princípios éticos em tempos próximos a um mais que provável colapso. Recuperar o mundo da vida rural e seus elementos pré capitalistas, quer dizer, recuperar a importância da vida frente ao trabalho, estaria na base de toda consciência anticapitalista.

O segundo dia do encontro se iniciou com uma visão geracionalmente diferente, a de Gonzalo Pérez Méndez, na exposição de seu Trabalho Final de Graduação recentemente publicado em formato livro graças a um concurso da Universidade de Oviedo que ganhou: La ruptura que no fue: la izquierda radical, del invierno caliente (1976) a la reconversión industrial (1986)”Gonzalo Pérez, graduado em História, plasmou em seu TFG as contradições de uma década economicamente fundamental que cimentou a imposição de uma economia neoliberal. Este relato oficial, composto pelo imaginário político coletivo dos Pactos da Moncloa, a Transição, Adolfo Suárez e Juan Carlos I, Santiago Carrillo, etc, é o que Gonzalo Pérez pretende resistir desde as margens de uma geração chamada ‘millennial’ e uma reflexão política radical.

Emotiva e reflexiva foi a apresentação da recente novela Amianto, ao mesmo tempo que tecnologicamente curiosa. A apresentação se realizou via chamada de WhatsApp do próprio autor do livro, Alberto Prunetti, em um perfeito castelhano e com apenas problemas técnicos. Alberto Prunetti nos expôs algumas das experiências colhidas em sua novela, protagonizada por Renato, o próprio pai de Alberto. A linha histórica que vai desde o desenvolvimentismo italiano e a geração posterior à II Guerra Mundial, identificada com Renato, e a geração dos 70 e 80 que pode formar-se e ir à universidade graças à geração de seus pais, identificada com Alberto, ficou patente nesta exposição e palestra sobre a novela.

O momento reivindicativo e plural se manifestou no terceiro e último dia do encontro, em uma sessão de vermute em que se facilitou o espaço para aquelas pessoas, grupos de amigos e coletivos que se dedicassem ao esboço e publicação de fanzines. Se apresentaram muito variados, entre os quais se poderiam destacar ‘Cuervo Zine’, agrupação com publicações plurais, como livros de relatos ilustrados, escritos conjuntos e contribuições sobre temas muito diversos, além de reivindicações políticas, como de mitologia nórdica, etc.; ’21’, pertencente ao coletivo Interferencias que estão a 18 anos em atividade; ‘Vomitorium’, caracterizado por sua diversa composição, desde poemas e relatos até tiras cômicas, e sempre aberto a quem queira participar; o fanzine do Bloque Críticu Asturies, organização de luta estudantil e obreira, cujas publicações são de clara orientação e compromisso políticos e com pretensões de autogestão para não prestar contas a ninguém mais que a sua linha política de cunho libertário; ‘Polvos de talco’, formado por dois amigos que querem tratar temas do mundo cultural, como o futebol ou a música, desde uma perspectiva libertária, plasmado em relatos de vivências pessoais sobre vidas precárias e suas dificuldades; ‘Orgullo e poderío’, de Les Greques, fanzine que pretende derrubar os tabus a respeito do mundo do folclore e o cuplé (estilo musical), reivindicando artistas asturianas desde uma perspectiva de gênero e classe. Concretamente neste fanzine, Les Greques pretendeu plasmar as biografias de artistas LGTB entre os séculos XIX e XX, ressaltando figuras como a de La Pastorina ou a verdadeira Rosalía, Rosalía Garrido, com o objetivo de derrubar os preconceitos a respeito. O fanzine, repleto de passatempos folclóricos, horóscopos de artistas de cada signo, destinará os benefícios econômicos a organizações e associações LGBT asturianas. Cabe assinalar que todos os fanzines apoiam o comércio local e a autogestão na edição, sempre com o objetivo de comunicar e mobilizar ideias e reivindicações, sem qualquer tipo de enriquecimento econômico.

Após o cancelamento da apresentação do livro de Laura Fernández, “Hacia mundos más animales. Una crítica al binarismo ontológico”, ocorreu um momento de reivindicação sobre o caso do 8M de Granada. Em 8 de março de 2019, após a manifestação da greve feminista, três pessoas foram identificadas pela polícia nacional. Estas três pessoas, após serem intimadas a prestar declarações na Chefatura Superior da Polícia Nacional de Granada em maio de 2019, são informadas de que são acusadas por delito penal por danos ao patrimônio histórico por pichações em uma rua de Granada.

Em fevereiro de 2020 lhes notificaram que a causa seria resolvida em julgamento oral, recebendo também em agosto uma notificação de petições de penas pelas acusações: pedem a cada pessoa uma pena de 18 meses de multa mais custas do julgamento, junto com a responsabilidade civil e as próprias custas da defesa legal, entre 1.500 e 2.500 euros. Uma das pessoas aproveitou o encontro para pedir justiça e buscar apoio e difusão do caso, além de contar com reflexões muito emotivas a respeito da violência institucional que se exerce neste tipo de caso, a ansiedade e o medo que gera, com a dissolução dos próprios movimentos sociais em última instância.

Sim, o artista musical Pablo Und Destruktion apresentou sua novela,La bestia colmena”, tratando e refletindo sobre temas em torno do utopismo digital e a ‘bestia colmena’ que é o mundo das tecnologias, que nos ingere e se nutre de nós, pelas  mãos de um autoritarismo estatal em voga. Ante esta besta, o autor nos chama à  reflexão racional e razoável sobre os acontecimentos atuais, desde a crise sanitária da Covid-19 até o papel dos chamados ‘expertos’. Pablo García expressou também sua  tentativa de equilíbrio entre a autogestão e o mundo das editoras após “economias de combate“, fugindo de toda subvenção, tanto publicitária como estatal, posto que sempre vêm marcada com uma clara linha ideológica.

No final das jornadas começou com a apresentação da tradução para o asturiano da novela de George Orwell 1984, a cargo de Ediciones Trabe, e exposta pelo historiador Rafael Rodríguez Valdés, diretor da coleção da qual 1984 faz parte. Longe  de pecar de ‘presentismo’, Valdés conseguiu expor porque 1984 continua nos falando e fazendo refletir, mais além dos tópicos: a ideologia após a alimentação (a porcentagem de cacau no chocolate ou da carne em um hambúrguer, etc.), a questão de gênero e o papel da mulher na novela, assim como a música e a memória como base para a construção de um modelo de sociedade alternativa foram os motivos mediante os quais Valdés nos chamou não a comprar a novela, mas a lê-la. O toque  final foi colocado pelo concerto de La Cruz da Trova, com prévia atuação de Pablo Und Destruktion, primeiro, e de Samuel Fonseca, depois.

Este Alcuentru’l llibru anarquista, apesar das condições contextuais desfavoráveis, conseguiu gerar um ambiente equilibrado de reflexão e reivindicação. Terminou como começou: com a pluralidade de procedência de diversos lares, desde coletivos artísticos até clássicos combatentes do anarquismo, mas sempre com a vontade de encontro de modos de luta política com objetivos reivindicativos em comum.

Fonte: https://www.nortes.me/2020/09/07/cronica-de-tres-dias-de-literatura-y-anarquismo-en-xixon/

Tradução > Sol de Abril

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Imóvel, o gato,
olha a flor de laranjeira.
Eu olho o gato.

Jorge Lescano

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