[Grécia] O Estado suprime manifestações em memória da Revolta Estudantil de 1973

Este ano, o aniversário do levante de 1973 na Universidade Politécnica de Atenas, que a junta dos coronéis afogou em sangue ao enviar tanques para a suprimir, é mais atual do que nunca. Isto porque o governo de direita do Nova Democracia (ND) fez mais um esforço para pôr fim a este aniversário e fazer avançar a sua agenda autoritária.

O Levante Politécnico foi o maio de 68 da Grécia. Nos dias que antecederam a noite sangrenta de 17 de novembro de 1973, os estudantes ocuparam as suas universidades, organizaram-se horizontalmente por meio de assembleias públicas e enviaram delegados à assembleia de coordenação. Paralelamente, assembleias de trabalhadores e conselhos foram formados fora das universidades. Todos eles exigiram o fim da junta militar apoiada pelos EUA no país. Este foi o nascimento do movimento autônomo grego, que rejeitou a burocracia em todas as suas formas e abraçou a democracia direta. Não é de admirar que as forças conservadoras do país queiram tanto pôr fim a cada memória viva deste aniversário do povo. O ND já se esforçou no passado para impedir as manifestações deste dia: em 1974 realizou eleições nacionais em 17 de novembro, enquanto que em 1980 proibiu as manifestações nesse dia com o resultado de confrontos violentos entre a polícia e manifestantes resultando em 2 mortes e dezenas de feridos graves.

Este ano, mais uma vez, o ND proibiu as manifestações em memória da Insurreição Politécnica, proibindo as reuniões de mais de 4 pessoas – uma proibição que lembra fortemente a aplicada pela junta militar. Muitas organizações, como a Anistia Internacional, expressaram as suas preocupações em relação à decisão do governo. A União de Juízes e Promotores da Grécia chegou a denunciar a medida como anticonstitucional.

O motivo desta proibição a reuniões públicas, segundo o governo do ND, é a rápida disseminação do Covid-19 no país. Mas uma quantidade cada vez maior de pessoas começa a ver que isso não passa de uma desculpa barata para a aprovação de medidas autoritárias.

• Se o governo estava tão interessado na saúde pública, tinha que, antes de qualquer proibição de reuniões públicas, fortalecer o sistema de saúde. Algo que não funcionou, apesar dos protestos e demandas dos sindicatos médicos (aos quais o ND respondeu com a tropa de choque).

• Tinha que fortalecer o transporte público, o que claramente não aconteceu, resultando na superlotação dos ônibus e vagões de metrô, onde as máscaras que as pessoas usam pouco podem fazer para evitar a propagação do vírus entre os passageiros, que estão literalmente “uns em cima dos outros”.

• Poderiam contratar mais funcionários educacionais e transformar edifícios não utilizados em escolas provisórias para evitar aulas lotadas. Mas não o fez, obrigando muitos alunos a ocupar as suas escolas e exigir medidas sérias contra a pandemia, à qual o governo respondeu permitindo que bandidos de extrema direita, disfarçados de “pais preocupados”, atacassem tais ocupações.

• Finalmente, poderia ter seguido o conselho da OMS para fazer testes em massa desde o início da pandemia, mas, em vez disso, o ND fez com que o chefe do grupo de ação contra a pandemia da Grécia Sotiris Tsiodras comentasse num briefing público que os testes em massa são um “desperdício de recursos”. Não foi a primeira vez que Tsiodras soou mais como um economista neoliberal do que um especialista em doenças infecciosas: noutro briefing, ele afirmou que o governo não pode investir em transportes públicos.

É o dogmatismo neoliberal do atual governo do ND que levou à atual disseminação do coronavírus no país. Mesmo que tenham que sacrificar tudo – até mesmo o seu crescimento econômico sagrado – eles nunca investirão em bens públicos. É por isso que as únicas medidas que tomaram até agora foram o uso obrigatório de máscara (como forma neoliberal de transferir toda a responsabilidade pela pandemia para o indivíduo) e uma grande militarização dos espaços públicos, com bandidos da polícia ganhando o direito de multar por centenas de euros cidadãos que eles considerem estar fora de casa sem motivo “apropriado” (mesmo que o cidadão tenha tomado todas as medidas legais necessárias para sair de casa).

A presença de 6.000 policiais por alguns dias transformou o centro da cidade de Atenas numa fortaleza, a fim de evitar que as pessoas se reunissem no 17 de novembro. Desde a manhã todas as estações centrais do metrô foram fechadas, dezenas de pessoas foram presas por tentarem chegar aos pontos de encontro, muitas outras foram multadas por “estarem lá fora sem motivo”, enquanto agentes da Segurança do Estado foram às casas de médicos da Federação das Associações de Médicos de Hospitais Gregos, que também apelaram à participação nas concentrações de hoje [dia 17], para os acusar de “provocação à desobediência”. Mas a crescente frivolidade policial e as duras multas econômicas não impediram as pessoas de se reunirem e protestarem contra o crescente autoritarismo do atual governo. Elas foram recebidas com muito gás lacrimogêneo e canhões de água por parte da polícia.

O significado da Revolta Politécnica de 1973 foi a capacidade da sociedade de se auto-instituir além do Estado e do capital. Este significado é hoje mais atual do que nunca e as pessoas parecem determinadas, apesar das duras repressões do Estado, a lutar por ele, o que só nos enche de esperança.

Yavor Tarinski

Fonte: https://freedomnews.org.uk/greece-state-suppresses-demonstrations-in-memory-of-1973-polytechnic-uprising/

Tradução > Ananás

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/11/19/grecia-o-dia-seguinte-ao-17-novembro-gosto-de-sangue-na-boca/

agência de notícias anarquistas-ana

Fugiu-me da mão
no vento com folhas secas
a carta esperada.

Anibal Beça

Leave a Reply