[França] Prostitutas, freiras e anarquistas: a história não contada das mulheres que moldaram Paris

Um dos bairros mais icônicos de Paris foi fortemente influenciado por um conjunto diverso de mulheres: prostitutas, freiras, uma artista travesti e ativos revolucionários. Seu papel, frequentemente negligenciado nos livros de história, é o centro de um novo conceito de turismo que focaliza nas mulheres francesas que moldaram a capital.

“É o tipo de coisa que, uma vez que você percebe, está em todos os lugares”, disse Heidi Evans, uma guia de turismo de 30 anos, enquanto ela mostrava um coração pendurado no alto de um dos muros da Rue dês Abbesses, uma movimentada via do pitoresco bairro de Montmartre, norte de Paris.

Um “A” negro corta o vermelho do coração, dividindo-o em vários pequenos pedaços.

O símbolo, que está pendurado em diversas ruas do bairro turístico, foi colocado para homenagear o movimento anarquista liderado por Louise Michel, uma icônica francesa revolucionária e feminista.

Michel e seus seguidores foram cruciais para o movimento radical da Comuna de Paris, que conduziu uma luta armada contra o governo francês no início da década de 1870.

Louise Michel é uma das principais figuras apresentadas no mais recente tour que Evans está preparando, para a série “Women of Paris Walks”.

O passeio será realizado no 18º arrondissement da capital francesa, uma região diversificada e popular entre os turistas, internacionalmente conhecida por ser o lar da basílica Sacré Cœur e do Moulin Rouge.

Evans, que é britânica, veio a Paris em busca de aventura, fundando sua empresa de turismo em 2016, depois de se convencer de que as mulheres eram “um tema extremamente negligenciado no turismo de Paris”.

Seus passeios procuram mudar isso, contando a história de diferentes partes da cidade a partir de mulheres que a moldaram.

Normalmente, explicou Evans, passeios e relatos históricos sobre Paris eram focados em personagens masculinos – Napoleão, Luís XIV, Victor Hugo, Jean-Paul Sartre – além de ignorarem ou diminuírem o papel de mulheres importantes.

“O que é interessante sobre Louise Michel é que você realmente vê o nome dela com frequência pela cidade. Há uma estação de metrô e escolas com o nome dela”, disse Evans, acrescentando: “E, contudo, aposto que, se você perguntasse sobre ela a um parisiense comum, ele não seria capaz de te dizer”.

Louise Michel é, de fato, a única mulher francesa a ter uma estação de metrô batizada com seu nome (embora Marie Curie, nascida na Polônia, tenha uma estação nomeada ao lado do marido Pierre; e Simone Veil também nomeie metade de uma estação).

Ignorar o papel das mulheres na história não é, claro, algo limitado à França ou à história francesa. De toda a história registrada, pesquisadores calcularam que as mulheres representam apenas 0,5%.

Em Paris, uma nova geração de ativistas começou a pressionar por uma mudança de narrativa, exigindo que seja enterrado, de uma vez por todas, o “clichê da mulher parisiense” (a “femme fatale” branca, esbelta e impecável) e que as mulheres – todas, não apenas aquelas que são brancas e fisicamente perfeitas – sejam propriamente reconhecidas.

Uma foto tirada em 11 de abril de 1982 mostra uma atitude da cantora e atriz americana Liza Minelli durante um show de uma noite no cabaré Moulin Rouge, em Paris.

Evans disse que ela se considerava parte deste movimento e que foi por isso que sua mais nova turnê mundial focalizaria um grupo ao qual ela chamou de mulheres protagonistas “contrastantes”: freiras, prostitutas, artistas, revolucionárias – e uma dançarina travesti que se rebelou com um notório beijo lésbico no salão de exposições do Moulin Rouge.

“Se eu fosse criar passeios sobre mulheres, precisaria preparar aqueles que apresentassem mulheres de todos os tipos”, afirmou Evans.

Seu mais recente tour passará por Pigalle, historicamente a grande área de prostituição de Paris, perto da basílica Sacré Cœur.

Ao traçar os passos das mulheres cujas pegadas ainda se mantêm na capital hoje, Evans disse que pretendia mostrar os contrastes do bairro, que durante o final do século 19 e início do 20 foi lar tanto de um florescimento marcante para profissionais do sexo quanto para freiras que produziam vinho.

“A ideia é mostrar aos turistas uma Paris de tipo diferente, não apenas a versão clichê”, disse Evans.

Fonte: https://www.thelocal.fr/20200928/prostitutes-nuns-and-anarchists-the-untold-story-of-the-women-who-shaped-paris 

Tradução > Erico Liberatti

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/12/21/franca-a-anarquista-que-agora-faz-parte-do-metro-de-paris/

agência de notícias anarquistas-ana

de momento em momento
tudo que eu digo
se choca com o vento

Camila Jabur