[Portugal] Lisboa | Manifesto antiautoritário para um 1º de Maio de luta e libertação – 2026

Em Lisboa, à semelhança do ano passado, prepara-se o 1º de Maio antiautoritário.

Manifesto:

O 1º de Maio é um dia de luto e de luta da classe trabalhadora um pouco por todo o mundo.

Em 1886, os chamados “Mártires de Chicago”, anarquistas, trabalhadores, insurgentes, foram condenados à morte por ousarem imaginar o impossível: que a vida não deveria ser inteiramente capturada pelo trabalho. Lutavam por oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito horas de ócio. Foram, por isso, silenciados pelo Estado, esse mesmo que protege a propriedade e pune quem a desafia. A história, porém, não se escreve com o veredicto dos tribunais, mas com a persistência dos corpos que resistem: a jornada de oito horas não foi concedida, foi arrancada aos patrões com organização, luto e luta coletiva. O que se celebra não é uma conquista pacificada, mas uma ferida aberta que ainda pulsa: memória viva de que nenhum direito nasce sem conflito e de que a luta contra a exploração e o Estado permanece internacional, contínua e inacabada.

Os Mártires de Chicago morreram pela luta dos trabalhadores e é porque anarquistas perderam as suas vozes, que hoje levantamos as nossas. Há mais de 130 anos, exigia-se o mínimo: cerca de 40 horas semanais, quando o comum eram jornadas de 80 horas que devoravam a vida. Hoje, o que se apresenta como progresso revela-se regressão: o novo pacote laboral tenta devolver-nos ao passado, com o banco de horas individual a estender o dia de trabalho em mais duas horas e a roubar-nos tempo, empurrando-nos para semanas de 50 horas. Continuamos esmagados por rotinas exaustivas, por um tempo que não nos pertence.

Por isso, voltamos às ruas no 1º de Maio. Não apenas para lembrar, mas para insistir: o nosso tempo não é mercadoria! Invocamos a memória dos Mártires porque a luta não terminou e porque conhecer a nossa história enquanto classes oprimidas é também uma forma de recusar o esquecimento e de afirmar, uma vez mais, o direito à vida para além do trabalho.

Nas últimas décadas, o 1º de Maio tem sido esvaziado e reconfigurado como uma celebração dócil do trabalho ou como um dia de descanso “concedido” pelo Estado: um feriado passivo que apaga a memória das lutas que o tornaram possível. Aquilo que nasceu como conflito foi transformado em ritual; aquilo que era insurreição tornou-se calendário. Neste processo, os sindicatos institucionais (CGTP-IN e UGT) afastaram-se da classe trabalhadora, confinando a luta à via legal e à negociação de migalhas. A chamada “concertação social” não passa de uma forma renovada da velha máxima autoritária da colaboração entre classes, um mecanismo que administra o conflito em vez de o enfrentar. A ação sindical, centrada em objetivos imediatos, abdicou de uma transformação radical das condições de vida, deixando para trás a possibilidade de libertação econômica, social, política e sexual. A isto soma-se a burocratização do sindicalismo e a sua instrumentalização como dispositivo de controle, frequentemente voltado contra movimentos autônomos de trabalhadores. O que se apresenta como representação transforma-se, muitas vezes, em contenção, num gesto que mais vigia do que liberta, mais disciplina do que organiza.

Mas a luta não se delega: constrói-se. Constrói-se nas ruas, nas ocupações, nas greves, na ação direta que recusa esperar autorização para existir. Não se pede, toma-se. É, por isso, urgente retomar as formas de luta que conquistaram direitos no passado: a ação direta, o boicote, a greve, a sabotagem. Não como memória, mas como prática viva, como recusa ativa de um sistema que insiste em roubar-nos o tempo, o corpo e a vida.

Enquanto tentam apagar o caráter combativo desta data, nós, anarquistas, reacendemos a sua chama revolucionária. Chamamos todas as pessoas insurgentes, trabalhadoras e lutadoras, coletivos, sindicatos autônomos, movimentos sociais, a ocupar as ruas, a romper o silêncio e a denunciar a exploração capitalista, estatal e todas as formas de dominação. Convocamos quem não aceita delegar a própria vida, quem se compromete com a ação direta, a autonomia e a construção de um mundo sem hierarquias.

Reivindicamos um 1º de Maio auto-organizado, à margem do reformismo e do controlo autoritário. Queremos a autonomia do nosso tempo, dos nossos corpos e das nossas vidas, porque aquilo que nos foi roubado não será devolvido, terá de ser recuperado.

Não esquecemos quem foi deixado fora daquilo a que chamaram “classe trabalhadora”. Quem nunca coube nessa definição estreita, moldada para reconhecer uns e apagar outros. Não esquecemos as vidas empurradas para a margem, silenciadas como sujeitos políticos, tornadas invisíveis por uma ideia de classe que nunca foi neutra — uma ideia construída para excluir.

A “classe trabalhadora” não surgiu como simples descrição do real: foi forjada historicamente, inscrita nas hierarquias coloniais e patriarcais que sustentam o capitalismo. Desde o início, traçou fronteiras entre o que conta e o que é descartável, entre o trabalho que produz valor e o que é negado, entre quem é reconhecido como força de transformação e quem é condenado à invisibilidade. Essas distinções nasceram da violência racial, sexual e econômica que organiza o mundo.

Durante séculos, impuseram como norma a figura do trabalhador assalariado — masculino, branco, nacional — elevando-o a sujeito político legítimo. Tudo o resto foi empurrado para fora: desvalorizado, criminalizado ou romantizado como exceção. Outras formas de trabalho, de resistência e de sobrevivência foram sistematicamente negadas, apesar de sustentarem a vida.

Repensar a luta de classes exige mais do que apelos abstratos à unidade. Exige romper com esta herança, desmantelar as fronteiras impostas e recusar uma ideia de classe fechada sobre si mesma. A classe não é um dado: é um campo de disputa. É nesse terreno que nos colocamos, ao lado de todas as existências que o capitalismo tentou disciplinar, explorar e destruir. Porque a luta não é apenas por inclusão numa categoria que sempre excluiu, mas pela sua transformação radical.

Propomos um 1º de Maio anarquista, transfeminista, antirracista e anti-imperialista. Um 1º de Maio que inclua quem é empurrado para as margens: a comunidade queer, as trabalhadoras migrantes, racializadas e precarizadas, as trabalhadoras sexuais, as pessoas presas forçadas a trabalhar em condições de escravatura. Porque a sociedade do trabalho é patriarcal, capacitista e extrativista, valoriza a produtividade acima da vida e transforma corpos em recurso.

Rejeitamos uma educação que nos treina para obedecer e produzir, que nos molda para aceitar a exploração como destino. Queremos um 1º de Maio que recuse fronteiras e afirme o internacionalismo e a autodeterminação dos povos. Um 1º de Maio que reconheça o colapso climático não como acidente, mas como consequência direta de uma sociedade industrial, colonial e capitalista.

Almejamos uma vida de ócio e de prazer, uma vida onde o tempo livre não seja uma migalha concedida pelo capital para alimentar o consumo, nem um descanso funcional que nos prepara para voltar a ser exploradas. Queremos tempo que nos pertença, tempo vivido e não administrado.

Queremos a abolição do trabalho assalariado e o fim de todas as formas de dominação — porque enquanto o trabalho governar a vida, não haverá liberdade. Transformemos esta data num espaço de agitação, solidariedade e organização popular. Ocupa o espaço. Recupera o teu tempo.

Porque tal como os “Mártires de Chicago”, carregamos nos nossos corações desejos de libertação social, ocupamos as ruas no dia 1 de Maio, a partir das 15h, no Largo de Camões. Este será um espaço de agitação, solidariedade e organização contra o Capital e o Estado e por um 1º de Maio combativo e autônomo. A marcha terminará em festa no Largo do Intendente, um apelo à ociosidade e à reapropriação do espaço público.

Hoje como ontem, não nos resignamos!

Fonte: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2026/04/21/lisboa-manifesto-antiautoritario-para-um-1o-de-maio-de-luta-e-libertacao-2026/

agência de notícias anarquistas-ana

Limpo o rosto na camisa –
O vento começa a trazer
As primeiras gotas de chuva

Paulo Franchetti

Leave a Reply