[Itália] Quando as palavras voltam a assustar… A delegacia de Roma coloca fora da lei “Addio Lugano bela”

por Mario Di Vito | (il manifesto, 26 de abril de 2026)
 
Polícias de primavera. Uma citação da tradicional canção está entre as motivações da proibição de lembrar os dois anarquistas mortos no parque dos Aquedutos
 
As palavras, como se sabe, são pedras. Os versos da canção anarquista Addio Lugano Bella foram lançados há 130 anos e ainda ferem. A prova está na medida com que, em 26 de março, o chefe de polícia de Roma, Roberto Massucci, proibiu a homenagem a Sara Ardizzone e Sandro Mercogliano, mortos uma semana antes no parque dos Aquedutos pela explosão acidental de um artefato que estavam construindo.
 
A proibição de lembrá-los foi acionada porque “nas horas seguintes aos fatos ocorridos” em Roma “foram pintadas pichações claramente incitando um clima de ódio contra a ordem constituída: Paz aos oprimidos, guerra aos opressores“. Que são, justamente, versos escritos por Pietro Gori em 1894. A pichação em questão apareceu na capital há algumas semanas, do lado de fora da estação Marconi da linha B do metrô. Não estava sozinha, havia outras como “A vingança será terrível”, “Fora 41 bis” e “Todos para fora das prisões”, mas a delegacia se impressionou com a citação da canção que narra um antigo exílio de anarquistas da Suíça, depois de mais uma das tantas derrotas judiciais de sua história. O que preocupa o chefe de polícia, principalmente, é a segunda parte: falar de “guerra aos opressores”, na verdade, seria uma “clara referência às instituições”. Poderia se dizer que a sobreposição entre “opressores” e “instituições” é fruto de uma livre interpretação da polícia, mas aqui não se faz crítica literária.
 
TRATA-SE, ANTES, da proibição de ir depositar buquês de flores no local da morte de duas pessoas, numa extraordinária demonstração de que a ordem pública se tornou um valor mais forte que o luto. E isso, pensando bem, assusta mais do que as palavras e até do que as pedras: nem o pesar é concedido aos anarquistas. Uma porção de decisões judiciais, nos últimos anos, nos explicaram que fazer uma saudação romana em memória de algum camarada morto não é uma tentativa de reconstituir o extinto partido fascista – crime – porque aquele gesto deve ser entendido como ato puramente comemorativo. O mesmo raciocínio, ao que parece, não vale para os anarquistas. Tanto que, quando no domingo, 29 de março, dezenas deles aparecem mesmo assim no parque dos Aquedutos, 91 são detidos e levados à delegacia. Alguns por se recusarem a fornecer sua identidade.


Outros preventivamente, como admitido pelo último decreto de segurança, que aqui é aplicado pela primeira vez. Basta um “estado de fato”, ou seja, uma suspeita, para passar até 12 horas numa delegacia. E nem é necessária uma decisão do Ministério Público: basta comunicar o fato ao promotor de plantão. E no final nem está previsto que seja explicado seja lá o que for.
 
EXPLICA O ADVOGADO Cesare Antetomaso: “No auto que fundamenta a detenção para identificação prolongada, que no caso do meu assistido se estendeu por quase 11 horas, não há praticamente nenhuma motivação capaz de relacionar com certeza a conduta de um cidadão sem antecedentes criminais, que trazia consigo uma flor para deixar perto do local onde duas pessoas perderam a vida em circunstâncias ainda a serem esclarecidas, àquilo que é previsto pelas novas normas”.
 
De incidentes, em todo caso, naquele dia no parque dos Aquedutos não houve nenhum: os anarquistas foram colocados em ônibus e levados, sem episódios de resistência a funcionário público. Alguns dos detidos, como penalidade, receberam uma ordem de afastamento (foglio di via), mas a questão é controversa. Esta medida, na verdade, só pode ser aplicada a quem cometeu “múltiplos crimes”, mas, novamente por decisão do governo Meloni, a manifestação não autorizada deixou de ser crime. É uma infração administrativa. E não se pode aplicar medidas policiais por uma simples multa.
 
QUE RESOLVAM OS ADVOGADOS, que já começaram a apresentar recursos. Conclui novamente Antetomaso: “Sem qualquer referência à periculosidade presumida do sujeito detido, a retenção se configura como ilegítima”. Não seria grande notícia. O próprio Gori, ainda em sua despedida de Lugano, dizia: “Expulsos sem culpa, os anarquistas vão embora“.
 
Fonte: https://ilrovescio.info/2026/04/27/quando-le-parole-tornano-a-far-paura/
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
beija flor perplexo
sem encontrar umidade
nem no bebedouro…
 
Haruko

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