O Sistema que Finge Pedir sua Opinião

Por Akracia – Fenikso  Nigra

Há um mecanismo que funciona com precisão. Você vota. Escolhe entre opções. Acredita que está decidindo o rumo das coisas. E nada muda. Os salários continuam congelados. Os bancos continuam lucrando. As favelas continuam sem água. O mecanismo continua intacto.

Brasil, 2024. O Banco Master controla o sistema de processamento de transações de cartão de crédito e débito. Movimenta bilhões diariamente. Define quem pode comprar, quanto paga, qual taxa incide sobre a operação. Nenhum eleitor votou no Banco Master. Nenhuma eleição o coloca ali ou o remove. Ele existe porque o sistema foi construído para que ele exista. Porque a concentração de poder não precisava de legitimidade democrática. Precisava apenas de permissão.

A democracia que conhecemos funciona assim: transfere para as pessoas o direito de escolher quem vai administrar o sistema. Não o direito de escolher o sistema. Os candidatos mudam. As prioridades do capital não. Um presidente promete educação. Outro promete segurança. Um terceiro promete emprego. Mas educação pública continua sucateada. Segurança continua privatizada. Emprego continua precário. Porque essas não são decisões dos governos. São decisões de quem controla o dinheiro. Banco Master, fundos de investimento, grupos empresariais que funcionam acima e além de qualquer voto.

Isso não é inépcia. Não é incompetência administrativa. É arquitetura. A estrutura foi desenhada para que o poder econômico funcione independentemente do poder político. O governo troca. A concentração de riqueza permanece. Primeiro acontece o voto. Depois, a realidade de quem governa: um ministro da economia que vem do setor financeiro. Um juiz que vem da elite. Um secretário que conhece mais banqueiros do que vizinhos. Eles não obedecem ao povo que votou. Obedecem à lógica que os formou.

A história da América Latina conhece isso bem. Chile, 1973. Pinochet tira Allende do poder, mas a estrutura econômica de concentração de riqueza permanece. Ditadura cai. Democracia volta. Desigualdade segue intacta. Argentina, 2001. Manifestações nas ruas. Crises de governo. Nove presidentes em semanas. O que não muda? O poder dos bancos sobre a vida das pessoas. Nem ditador nem democrata consegue tocar nisso. Porque não é o governo que o sustenta. É a lógica que o governo administra.

O Banco Master é apenas o caso mais visível. Existem centenas deles. Grupos de comunicação que definem narrativas de eleição. Fundos de investimento que decidem quais empresas vivem e quais morrem. Cartéis de alimentos que controlam preços nas prateleiras. Estruturas de poder que nenhum voto toca. E aqui está a parte que faz a máquina funcionar: a ilusão de participação. Você vota e acredita que o sistema responde a você. Acredita que a próxima eleição muda as coisas. O mecanismo continua funcionando porque você o legitima sem questionar sua natureza.

Não é à toa que o voto é secreto. Não é à toa que defendemos a democracia como sagrada. Ela é a válvula de escape perfeita. Absorve o protesto. Canaliza o descontentamento. Oferece ilusão de mudança. E garante que os termos do jogo permaneçam inalterados. Enquanto você escolhe entre A e B, quem de verdade decide fica invisível. Não participa de debates. Não aparece na urna. Simplesmente continua.

A pergunta então não é para qual lado votar. É se vale a pena gastar energia elegendo representantes de um sistema que você não representa. Se vale participar de um mecanismo que garante sua própria impotência. Se a democracia que conhecemos não é apenas um modo sofisticado de dizer: “Você pode escolher tudo, menos o que importa”.

Na luta por estruturas que nos sirvam realmente, somos pessoas dignas e livres!

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George Swede

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