
Por Carlos Ferreira de Araújo Júnior
A Grande Greve de 1919 ocorreu no mês de junho em Salvador e logo se espalhou por cidades vizinhas. O movimento teve como principais motivos a carestia de vida, os baixos salários, alta jornada de trabalho, as desigualdades sociais, miséria entre outros fatores. Várias categorias de trabalhadores participaram da greve: portuários, carpinteiros, metalúrgicos, pedreiros e tecelãs. O Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Demais Classes (SPCDC) esteve à frente da greve.
O Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Demais Classes (S.P.C.D.C) foi fundado em 19 de março de 1919. A associação foi influenciada pelo sindicalismo revolucionário e usou táticas de sabotagem e ação direta. Foi um marco para o movimento operário da cidade. O estatuto do sindicato vedava filiações políticas, defendia a participação das mulheres e a criação de escolas modernas. O SPCDC foi fundado por: Guilherme Francisco Neryz, Abílio José dos Santos, Durval dos Santos Cárceres, José Domiense da Silva e Ezequiel Antônio Pompeu. O grupo teve apoio de Agripino Nazareth.
A cidade de Salvador parou por 10 dias. A capital baiana não via uma movimentação de trabalhadores tão grande assim desde a Greve dos Carregadores (1857). Padeiros em greve avisaram que a distribuição de pão havia sido suspensa, exceto para os hospitais. Os ferroviários paralisaram os serviços. Os trabalhadores dos cemitérios também suspenderam os serviços. Os jornais da grande imprensa da época, tentando jogar a opinião pública contra os grevistas, afirmava que o fedor que exalava do cemitério era insuportável, graças ao abandono causado pela paralisação.
Cerca de 15 mil operários e operárias grevistas tomaram as ruas de Salvador naqueles dias de junho de 1919. Os trabalhadores conseguiram a redução da jornada de trabalho e a isonomia salarial entre homens e mulheres.
A Grande Greve em Salvador teve intensa participação das operárias, especialmente, as tecelãs. Em setembro de 1919, as tecelãs deflagraram uma greve contra os maus tratos e os baixos salários da categoria. No ano seguinte, operárias lideraram associações de defesa como foi o caso de Corina Marinho, oradora da União De Defesa Proletária, formada pelos operários e operárias da fábrica de charutos de Muritiba. Esta associação visava a defesa de operários e operárias contra os assédios, abusos e estupros praticados contra as operárias pelos mestres de fábrica.
Em 1920, com a chegada do anarquista negro Eustáquio Marinho, o S.P.C.D.C. vai se tornar uma associação alinhada as teses libertárias do Terceiro Congresso Operário Brasileiro (1920). O SPCDC enviou dois representantes para este congresso: o anarquista português Anibal Lopes Pinho e Gaudêncio José dos Santos, anarquista negro baiano.
Desde o final da década de 1990, o historiador Aldrin Castelucci pesquisa sobre o movimento operário de Salvador. Seus trabalhos são de grande importância para os debates sobre os mundos do trabalho, pois rompem a ideia cristalizada de uma militância operária essencialmente eurocêntrica e “sudestina”, resgatando o protagonismo de operários negros e negras baianas.
REFERÊNCIAS
CASTELLUCCI, Aldrin Armstrong Silva. Salvador dos Operários. Uma História da Greve Geral de 1919 na Bahia. Salvador -BAHIA. 2001.
KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente. Ed. Monstro dos Mares.
PERIÓDICOS
GERMINAL.N.1. Data: 19/03/1920. Salvador – Bahia.
________.N.2. Data: 03/04/1920. Salvador – Bahia.
________.N.3. Data: 01/05/1920. Salvador – Bahia.
RENASCENÇA. Data: jun. de 1919. P.14. n.43. Salvador -Bahia.
___________. Data: set. de 1919. P.21. n.46. Salvador -Bahia.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).
>> Foto em destaque: foto do Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Demais Classes. Na foto de 1920, temos em ordem da esquerda para a direita, começando pelos que estão em pé: Guilherme Francisco Neryz, Abílio José dos Santos, Durval dos Santos Cárceres, José Domiense da Silva e Ezequiel Antônio Pompeu. O grupo teve apoio de Agripino Nazareth.
agência de notícias anarquistas-ana
nos dias de outono
as folhas largam no ar
um cheiro de sono
Cristina Saba
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...
Espaços como esse são fundamentais! Força compas. Vou contribuir!
A autoridade dos que são contra não é menos autoritária que as outras e encontra, quanto a mim, uma sólida…
Em agosto me mudarei com a família para o espírito santo. Mudança a trabalho. O lado bom é que terei…