
No dia 18 de maio, realizou-se no tribunal de Bolonha a segunda audiência contra 6 companheirxs, acusadxs por fatos específicos relacionados à mobilização de 2022-23 em apoio a Alfredo contra o 41-bis e a prisão perpétua sem possibilidade de benefícios.
Nessa audiência, várias testemunhas foram ouvidas e, entre elas, o próprio Alfredo também pôde falar, por videoconferência a partir da prisão de Bancali.
Sua emoção, unida à das cerca de trinta companheirxs presentes na sala, era perceptível desde o início. Alfredo começou com estas palavras:
“Neste momento é emocionante estar aqui, porque a última vez que pude ver rostos amigos foi há um ano e meio, e naquela época Sara e Sandrone ainda estavam vivos; agora estão mortos e eu não pude lhes dar minha solidariedade porque aqui dentro meu isolamento é total, eles te proíbem de existir.”
Ele prosseguiu falando das motivações que, em 2022, logo após sua transferência para o regime 41-bis, o levaram a iniciar uma greve de fome por tempo indeterminado. Motivações que, como ele mesmo lembrou, encontraram ampla repercussão na mobilização internacional que sustentou sua luta. Destacou que, sem o apoio recebido do lado de fora, teria sido condenado à prisão perpétua sem possibilidade de benefícios, e que sua luta foi movida pela necessidade de impedir que sua detenção sob o 41-bis criasse um precedente extensível ao movimento.
Em seguida, Alfredo relatou seu atual estado de isolamento. Reafirmou estar submetido a um bloqueio quase total de correspondência que atualmente (diferentemente do período anterior à mobilização) inclui também as notificações sobre cartas retidas. Não recebe correspondência há meses; recentemente lhe foi entregue uma carta de dezembro de 2025.
Falou também da já conhecida impossibilidade de acesso a livros, tanto por meio de compras via catálogo quanto através da biblioteca central da prisão. Contou o paradoxo de seu isolamento: tomou conhecimento de grande parte das mobilizações anarquistas dos últimos anos através do volumoso dossiê que fundamenta a renovação de seu regime 41-bis, definido pelos próprios guardas que lhe entregaram o documento como “o mais volumoso da história do 41-bis”.
Como mais um elemento de sua situação carcerária, descreveu um regime 41-bis que vem sendo ampliado cada vez mais para pessoas antes não submetidas a esse regime, em uma progressiva redução do critério de acesso, citando o exemplo de um detento transferido do regime AS para o 41-bis por ter sido encontrado com um telefone celular.
Essa ocasião também permitiu que Alfredo traçasse o percurso de sua detenção: da prisão militar por objeção total ao serviço militar obrigatório, passando pelas alas comuns, pelas seções de Alta Segurança de Ferrara e Terni, até chegar ao 41-bis, definido como um lugar de isolamento total. Evidentemente, o olhar de Alfredo não se limitou à sua experiência pessoal e, mais uma vez, ele não perdeu a oportunidade de condenar a brutalidade do 41-bis como um todo, reiterando que, para ele, não há distinção entre os prisioneiros dentro desse sistema de reclusão e aniquilamento.
Relatou o horror da ala hospitalar do 41-bis de Opera, onde estão detidas principalmente pessoas muito idosas, muitas acometidas por Alzheimer, em cadeiras de rodas ou com severas limitações de autonomia, que já nem sabem mais por que estão ali. Por fim, não deixou de expressar uma avaliação sobre o sentido desse regime, originalmente criado para eliminar aqueles sujeitos com quem o Estado negociou e que precisaram ser silenciados quando se tornaram inúteis para seus jogos sujos.
Após seu depoimento, ecoaram na sala inevitáveis e calorosas saudações carregadas de afeto, o que irritou a juíza e levou ao consequente esvaziamento da sala de audiência. Também no início da audiência, xs companheirxs presentes conseguiram saudar Alfredo, que respondeu com carinho, conseguindo assim romper, ainda que por uma fração de segundo, um isolamento terrível. Foi uma emoção fortíssima, compartilhada dos dois lados daquela maldita tela.
Estamos certos de que a ocasião de hoje foi muito preciosa para Alfredo, mas ainda mais para nós, que em suas palavras e em sua ironia sempre presente encontramos mais uma vez uma enorme determinação, um ódio aos opressores e um fortíssimo amor por seus companheiros, começando por suas primeiras palavras para Sara e Sandro. E é com a viva lembrança deles que também queremos concluir estas linhas, para não esquecer quem deu a própria vida lutando por um mundo diferente.
Com Sara e Sandro no coração.
Para que de cada prisão não restem senão escombros.
Força, Alfredo!
Alguns companheirxs de Bolonha, acusadxs e solidárixs.
A próxima audiência do processo em questão será no dia 15 de junho, às 9h. Serão ouvidas as últimas testemunhas e provavelmente terá início a fase de debates.
Fonte: https://ilrovescio.info/2026/05/20/la-parola-ad-alfredo/
Tradução > Liberto
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Camila Jabur
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...
Espaços como esse são fundamentais! Força compas. Vou contribuir!
A autoridade dos que são contra não é menos autoritária que as outras e encontra, quanto a mim, uma sólida…
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