
Por Carlos Ferreira de Araujo JR.
Na África do Sul, o poder esteve nas mãos ensanguentadas de uma minoria branca por séculos. Diversas etnias originárias foram submetidas, segregadas e violentadas. O regime do Apartheid, oficialmente implantado em 1948, durou décadas e marcou negativamente a história da África do Sul.
Antes do Apartheid, porém, existiam outras formas/táticas de controle, como a Lei de Passes, onde as populações negras e indianas eram obrigadas a portarem passaportes com registros especificando lugares, horários e moradias das pessoas não-brancas. O segregacionismo era replicado pela maioria dos trabalhadores brancos pobres.
Os primeiros sindicatos da África do Sul, criados no fim do século 19, também eram restritos aos brancos. Os brancos pobres defendiam o trabalhismo restrito: bem estar social, direitos trabalhistas e reserva de trabalho para operários brancos. Esse quadro predominou até meados dos anos de 1910. O anarquismo na África do Sul surge num contexto de dominação colonial e de brutal segregação racial. Uma das associações mais radicais surgidas no período foi a International Social League (ISL) que tinha como:
objetivo declarado da ISL, de ser uma organização que atravessasse a linha de cor, era radical demais para a maioria dos trabalhadores brancos, que não reagiam bem às incessantes tentativas da ISL para reformar os sindicatos existentes. Na verdade, os oradores da ISL enfrentavam uma considerável e crescente violência no final da década de 1910.
A Liga Internacional Socialista (ISL), criada na segunda metade dos anos de 1910 e de orientação sindicalista revolucionária, foi uma associação libertária e interracial, anti-capitalista e anti-segregacionista. Ao contrário do trabalhismo branco, ideologia dos sindicatos sul africanos restritos aos brancos, os sindicatos anarquistas defendiam além da filiação de negros e asiáticos nas associações o fim das leis de passes e o fim de outras formas de segregação racial.
O anarquismo sindicalista atraiu muitos operários negros e indianos: Fred Cetiwe, Johnny Gomas [foto], Hamilton Kraai, Bernard L. E. Sigamoney e T. W. Thibedi, para citar alguns. O professor anarquista indiano Bernard Singamoney foi um militante bastante ativo na África do Sul na década de 1910. Foi filiado ao Sindicato Industrial dos Trabalhadores Indianos em Durban e a ISL.
O militante Hamilton Kraai foi bastante ativo na ISL além de ser membro dos Trabalhadores Industriais da África. Organizou diversos protestos e atos de desobediência civil contra as leis do passe em 1919. Já Fred Cetiwe foi um dos mais radicais defensores do socialismo revolucionário da ISL. Ele pregava abertamente o fim do sistema capitalista e do segregacionismo.
Thibedi William foi um professor anarco-sindicalista sul africano nascido no ano de 1888. Na cidade de Johanesburgo, Thibedi ingressou na Liga Internacional Socialista, de orientação sindicalista revolucionária, em 1915. Esta associação era uma das maiores da África do Sul e Thibedi se tornou um dos mais carismáticos representantes anarquistas da Liga. A ISL chegou a ser atacada por hooligans brancos da África do Sul.
Já Johnny Gomas nasceu em 1901, na cidade do Cabo. Gomas foi alfaiate e também ingressou na ISL. Também foi filiado ao Sindicato Industrial dos Têxteis de Kimberley. Em meados dos anos de 1920, Gomas fez parte do Partido Comunista na África do Sul. Ele morreu em 1979.
O anarquismo sindicalista das duas primeiras décadas do século 20, na África do Sul, desempenhou, portanto, um papel fundamental na luta contra o sistema colonial, o preconceito racial e as políticas segregacionistas. Comunistas, sindicalistas e libertários negros e indianos foram pioneiros na luta contra a opressão dos povos não-brancos na África do Sul.
[1] WALT, Lucien Van Der. Negro e Vermelho. anarquismo, sindicalismo revolucionário e pessoas de cor na África Meridional nas décadas de 1880-1920.
REFERÊNCIAS
WALT, Lucien Van Der. Negro e Vermelho. anarquismo, sindicalismo revolucionário e pessoas de cor na África Meridional nas décadas de 1880-1920.
CNT. (2011). “Zabalaza: A Voice for Organised Anarchism in South Africa”, Barcelona: CNT. Retrieved 4 January 2012.
“About Us”, Zabalaza Books. Retrieved 4 January 2012.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).
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Em agosto me mudarei com a família para o espírito santo. Mudança a trabalho. O lado bom é que terei…