
Por Luca Cappellini | 22/05/2026
Existem lugares que não são simplesmente endereços no mapa de uma metrópole que corre, apaga e cimenta. São nós de resistência, faróis teimosos que continuam a iluminar mesmo quando lá fora impera a noite mais escura dos poderes fortes. Em Milão, um desses postos avançados insubstituíveis completa um aniversário redondo e pesado como chumbo: já se passaram cinquenta anos desde que o Círculo Anarquista Ponte della Ghisolfa fincou raízes na Viale Monza, 255.
Meio século de autogestão, de cultura libertária arrancada das lógicas do lucro, de assembleias, contrainformação e solidariedade de base.
Das origens ao coração da tempestade
A história do Círculo começa antes de sua chegada ao Precotto. Fundado em maio de 1968 em um espaço na piazzale Lugano, próximo àquela ponte della Ghisolfa cantada por Testori que lhe dá o nome, o círculo nasce como um espaço de agregação para jovens anarquistas e trabalhadores do cinturão industrial milanês. É um momento de fermento extraordinário, mas também o início da temporada mais dura e dramática da história republicana.
É dessas primeiras salas que passa a história da Itália. Ali circula Giuseppe Pinelli, o ferroviário partisano, animador da Cruz Negra Anarquista e mensageiro de humanidade. Ali se respira o ar de uma mudança que assusta os palácios do poder. Um poder que, em 12 de dezembro de 1969, decide parar os ponteiros da história com o massacre de Estado da Piazza Fontana.
A máquina de lama e repressão cai imediatamente sobre os anarquistas. “Pino” Pinelli é detido ilegalmente na Delegacia e, na noite entre 15 e 16 de dezembro, “voa” pela janela do gabinete do comissário Calabresi. Poucos dias depois, outro militante ligado ao círculo, Pietro Valpreda, é jogado na primeira página como o “monstro”, o culpado perfeito construído sobre medida pelos serviços desviantes e por uma imprensa cúmplice.
Foram necessários anos de lutas ferozes, de investigações da contrainformação militante e de mobilizações operárias para gritar a verdade: Pinelli foi assassinado, Valpreda é completamente inocente, e as bombas foram colocadas pelos fascistas com a cobertura do Estado. O Ponte della Ghisolfa foi o epicentro dessa batalha pela verdade, pagando um preço altíssimo em termos de buscas, ameaças e vigilância.
1976–2026: cinquenta anos na Viale Monza, 255
Despejado da sede original, o Círculo não se curva. Entre 12 de dezembro de 1976 e os primeiros meses de 1977, encontra sua nova casa no número 255 da Viale Monza. Uma casa que, ano após ano, tijolo após tijolo, se tornou um monumento vivo da Milão antifascista e antiautoritária.
Nesses cinquenta anos, enquanto a cidade ao redor mudava de rosto — transformando-se de metrópole operária em vitrine reluzente para aperitivos e fundos imobiliários — o número 255 permaneceu idêntico a si mesmo em sua coerência. É aqui que nasceu a experiência histórica da A-Rivista Anarchica; é aqui que gerações de militantes aprenderam que a alternativa ao estado de coisas presente é possível, necessária, autogerida.
Entrar hoje na Viale Monza, 255, significa pisar no mesmo chão que viu Pietro Valpreda voltar a respirar a liberdade após a prisão política, significa cruzar o olhar com as placas que lembram Pino Pinelli, significa dar continuidade às batalhas de ontem contra as guerras de hoje, contra a destruição ambiental em nome do lucro e contra toda forma de autoridade.
Além das muralhas: um posto de resistência cultural em movimento
O “Ponte” nunca foi um museu da memória nem uma fortaleza isolada. Ao contrário, a Viale Monza, 255, se confirma dia após dia como um posto de resistência cultural permanente e ativíssimo, aberto ao bairro e à cidade. Suas salas são um laboratório contínuo de ideias: desde frequentes lançamentos de livros até assembleias públicas, passando por encontros de discussão onde se analisam as contradições do presente e se imaginam práticas de libertação.
Porque a cultura anarquista está viva apenas se sabe dialogar com as novas gerações e utilizar as linguagens da contemporaneidade. É com esse espírito que nasceu “La cassetta degli attrezzi” (A caixa de ferramentas), o podcast mensal autoproduzido pelo Círculo. Um espaço digital de aprofundamento, análise política e entrevistas que, fiel ao seu nome, se propõe a fornecer instrumentos teóricos e práticos a quem não pretende se resignar ao pensamento único dominante, levando a voz do Ponte muito além dos limites físicos de Milão.
Memória de papel: dois livros para compreender
Para quem quer se aprofundar na história daqueles anos, na contrainformação e nas vidas humanas partidas pela estratégia da tensão, eis duas leituras fundamentais que desmontam os teoremas dos poderes fortes.
1. Eduardo M. Di Giovanni, Marco Ligini, Edgardo Pellegrini – La strage di Stato (O massacre de Estado)
Lançado poucos meses depois da Piazza Fontana (em 1970), este texto é a obra-prima absoluta da contrainformação operária e estudantil milanesa. Escrito “a quente” por um coletivo de militantes e advogados, o livro tem o imenso mérito histórico de ter virado a verdade oficial do avesso no momento em que o Estado e os grandes jornais acusavam Pietro Valpreda e os círculos anarquistas.
Através de uma densa rede de testemunhos, verificações de horários e análises políticas, o texto demonstra como a bomba da Piazza Fontana não foi um ato isolado de um grupo de loucos, mas um plano orquestrado por facções dos serviços secretos, aparelhos de Estado e mão de obra neofascista (a pista vêneta da Ordem Nova) para deter as conquistas do Outono Quente. Uma leitura militante, tensa, densíssima, que restitui a honra a Valpreda e grita a verdade sobre o fim de Pinelli quando fazê-lo custava a prisão ou espancamentos. É o livro que mudou a percepção de uma geração inteira.
2. Paolo Pasi – Pinelli. Uma história
Uma biografia indispensável que realiza um trabalho de reconstrução extraordinário, subtraindo Giuseppe Pinelli à única e trágica dimensão de “vítima” para lhe restituir a complexidade e a dignidade de toda a sua existência. Paolo Pasi, com uma escrita rigorosa mas profundamente empática, reconstrói a vida de Pino: o ferroviário, o esperantista, o militante da Cruz Negra Anarquista, o homem dos livros e do diálogo.
Através da voz de quem o conheceu, o livro desnuda não apenas o absurdo da tese do “mal-estar ativo” e a injustiça da máquina judiciária que tentou abafar a verdade sobre sua morte, mas mostra sobretudo a humanidade luminosa de um homem que fez da solidariedade a bússola de sua própria vida. Uma peça fundamental para compreender não apenas a Milão dos anos 1960 e as dinâmicas do Ponte della Ghisolfa, mas para captar o legado moral que Pinelli deixou a todos os movimentos libertários.
Um posto de resistência contra os “poderes maus” e um olhar para o futuro.
Celebrar os cinquenta anos do Ponte na Viale Monza não é um exercício de nostalgia estéril. A memória libertária é uma arma para o presente. O Círculo continua sendo um grão de areia nas engrenagens daqueles “poderes maus” que hoje, exatamente como cinquenta anos atrás, usam a guerra, a repressão ao dissenso e o controle social para manter seus privilégios.
Mas olhar para esse meio século significa sobretudo lançar um desafio ao amanhã. Em uma Milão cada vez mais atomizada, onde os espaços sociais são cancelados e as relações humanas são submetidas à lógica do consumo, o Ponte projeta sua visão para o futuro. Cinquenta anos na Viale Monza são apenas a corrida de aproximação: o objetivo continua sendo o mesmo de sempre, imutado e urgente. Continuar a ser um incubador de utopias concretas, um lugar onde as novas gerações possam se encontrar, se organizar e descobrir que um mundo novo é possível, porque já o estamos construindo, dia após dia, pedaço por pedaço.
Enquanto houver um canto de Milão onde tremula a bandeira vermelha e preta, enquanto houver salas onde a cultura não se compra e as ideias são discutidas sem hierarquias, a Resistência não será um capítulo fechado nos livros de história. Feliz aniversário à Milão rebelde, feliz aniversário ao Ponte della Ghisolfa. Com Pietro e Pino no coração, o olhar no futuro e sempre do mesmo lado da barricada.
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
Havia o escuro
mas eu não sabia onde;
teu rosto era sol.
Eolo Yberê Libera
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...
Espaços como esse são fundamentais! Força compas. Vou contribuir!
A autoridade dos que são contra não é menos autoritária que as outras e encontra, quanto a mim, uma sólida…
Em agosto me mudarei com a família para o espírito santo. Mudança a trabalho. O lado bom é que terei…