
Mário José Domingues (1899-1977) foi um escritor, jornalista e anarquista anticolonialista nascido na antiga colônia africana, São Tomé e Príncipe. Sua mãe era uma negra angolana chamada Korigola Munga, natural de Malanje. O seu pai era um branco português de nome Antônio Alexandre José Domingues.
Aos 20 anos de idade, Mário Domingues já era um dos únicos militantes anarquistas assumidamente anticolonialista em Portugal. Como periodista, o anarquista publicou diversos artigos anticolonialistas em jornais operários de Portugal como: A Batalha, A Voz Anarquista, Renovação e A Comuna. O libertário usava a teoria anarquista contra o colonialismo português, contra o racismo e contra a exploração do continente africano. Tal postura teve consequências: a censura e o fascismo do salazarismo instaurado em 1926, após um golpe militar.
Através dos seus artigos, Domingues criou um conceito para definir a colonização portuguesa na África: Colonização-Crime. De acordo com este conceito, o racismo, a colonização e o capitalismo eram fatores que estavam interligados. A colonização seria um regime de poder e violência sobre o território e sobre os corpos negros africanos. O racismo legitimava os trabalhos forçados, a escravatura, os assassinatos políticos e a violência sexual contra mulheres negras.
A colonização era um crime permanente e o capitalismo gerava a exploração econômica, social e ambiental dos territórios dominados por Portugal e pelas outras nações europeias. O libertário africano escrevia sobre a dor e a luta dos povos africanos subjugados:
Mãos de revoltado! Imensas, grandes, rodinescas, que se alentavam em mil gestos convulsivos, clamando milhões de tragédias inéditas, ocultas, longamente sofridas nos casebres desolados, nas choupanas salientes! Mãos que se erguem em frêmitos, em contornos de revolta e vingança, sedentas de pão e justiça! Não há mãos mais belas e mais pungentes do que as dos ignorados, do que as mãos da miséria! Na energia do arremesso, na rudeza do ataque, na louca fúria do heroísmo, elas cantam, choram, riem, contam uma interminável história de escravidão e de fome. A BATALHA. P.2. N.228. Data: 14/10/1919.
Domingues defendia a formação de uma confederação de povos africanos, não de nações. Uma confederação que respeitasse as línguas, culturas e histórias de cada povo. Esta era uma das particularidades do anarquismo anticolonialista de Mário Domingues:
a utopia anarquista da grande revolução mundial gerando uma sociedade sem estados nem fronteiras. A esperança histórica da emancipação da raça transformar-se-ia na luta pela independência que pairava “acima dos interesses mesquinhos das pátrias opressoras” e que colocaria um fim à tirania dos colonizadores, concretizando-se, não na formação de novos países, mas no quadro duma “Confederação Africana”, uma confederação guiada pelos princípios do antinacionalismo, do anticapitalismo e do antimilitarismo. (GARCIA, 2022.p.342)
Mário Domingues foi pioneiro ao denunciar a prática do Black Face como um ato de incitação de ódio racial. A pratica visava ridicularizar as pessoas negras, seus gestos e suas falas. O libertário chamou o ato de “brincadeira nojenta e cruel”.
ridicularizar, escravizar um negro é revoltante; ridicularizar, escravizar um branco pintado de negro, para criar entre as duas raças que deviam caminhar unidas, um ódio íntimo, um ódio surdo, que adquire expressões de divertimento sinistro quando alguns inconscientes agridem raivosamente o suposto preto, com uma bolada, é mais que revoltante, é abjecto, é cruel! A Batalha, 29/06/1922.
Com o que foi brevemente exposto, é possível afirmar Mário Domingues foi um precursor das lutas revolucionárias anticolonialistas na África. Bem antes da geração revolucionária, também antifascista, de Agostinho Neto e Amílcar Cabral, nos 50, 60 e 70, Mário Domingues, de dentro da capital de uma nação colonialista, cravou a seguinte frase: “A liberdade não se concede, conquista-se! Que a conquistem os negros!”
Autor:
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador e pesquisador. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil.
Fontes:
A BATALHA. P.2. N.228. Data: 14/10/1919.
_____________ 29/06/1922.
_____________ O ideal da independência. Lisboa. 05 /07/1922.
_____________ Confederação Africana. Lisboa. 13/07/1922.
GARCIA, José Luís. Mário Domingues – A Afirmação Negra e a Questão Colonial. Textos 1919-1928. Lisboa: Tinta da China, 2022.
_________________ Linha de cor e “colonização-crime” em Mário Domingues: A série “Para a história da colonização portuguesa” (junho-julho 1922). P.334
agência de notícias anarquistas-ana
nenhuma flor resta
os troncos abatidos
nenhuma floresta
Núbia Parente
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...