[Espanha] A história de Jacinto Toryho, o anarquista com várias vidas

José Miguel Fernández Barreira publica um livro sobre a trajetória pessoal e política de um dos referenciais do anarquismo e do jornalismo libertário nos anos 30, nascido em Villanueva del Campo | Foi ele quem popularizou o hino “A las barricadas”

Por Manuel Herrera | 01/07/2026

Jacinto Torío Rodríguez nasceu em primeiro de fevereiro de 1909 em Villanueva del Campo, no canto nordeste da província de Zamora. Cerca de 25 anos depois, ele se tornara um dos referenciais do movimento anarquista na Espanha e do jornalismo libertário. Como ele chegou até lá? A vida deste homem, que adaptou seu sobrenome para Toryho durante a juventude, é o objeto do novo livro de José Miguel Fernández Barreira (Ermua, 1973). Trata-se de reconstruir os passos de um tipo que foi protagonista de várias vidas.

A primeira, na Tierra de Campos do início do século XX. “Pelos poucos escritos que temos sobre sua infância, provenientes de alguns artigos de imprensa, tudo indica que ele pertencia a uma família de rendeiros do campo. Na verdade, quando ele era pequeno, a Justiça foi penhorar a colheita de seu pai e foi ali que ele sentiu a raiva pela primeira vez, embora intuamos que a situação da família foi melhorando com o tempo”, destaca Fernández Barreira. De fato, Toryho pôde estudar. Primeiro, no colégio dos Padres Agostinianos de Valencia de Don Juan; depois, no seminário de Valderas.

Sim, no seminário. Apesar de sua trajetória posterior, foi por ali que começou a assumir as rédeas de sua vida adulta um homem que acabou fugindo do centro religioso após alegar que lhe haviam acontecido “coisas terríveis”. Seja como for, a qualidade de seus textos escritos, já naquela época publicados na imprensa local como o El Heraldo de Zamora, permitiu-lhe conseguir acesso – provavelmente por meio de uma bolsa de estudos – à escola de jornalismo do El Debate, em Madri.

Naquela época, no amanhecer dos anos trinta do século passado, Toryho escrevia muito influenciado pelo “azar do camponês”, segundo relata Fernández Barreira, que destaca o “conteúdo social” dos artigos do zamorano. Na verdade, o já jornalista logo se vinculou ao agrarismo, um movimento que defendia a libertação das pessoas do campo. Foi nesse contexto que a chegada da II República o pegou, um regime que ele defendeu em seu nascimento.

No entanto, pouco tempo depois, Toryho ficou decepcionado com a deriva do agrarismo. Ficara para trás o sonho do zamorano de ver os camponeses sentados no Parlamento. Foi então que o tom “antipolítico” do anarquismo começou a atrair um homem que mudou de sobrenome e que começou a se integrar no movimento libertário em sua esfera pessoal e no ofício. A partir de 1932, começou a colaborar com o Solidaridad Obrera, um jornal do qual foi correspondente em Madri.

Dessa posição, Toryho cobriu para a imprensa da época acontecimentos como os Sucessos de Casas Viejas. “Ele entendia o jornalismo como uma arma de mobilização social”, explica Fernández Barreira, que aponta que o zamorano chegou a ser também cronista parlamentar ou repórter experiente. Como prova disso, aparece uma série com uma dezena de reportagens escritas do manicômio de Ciempozuelos, onde ele se infiltrou para saber como os doentes eram tratados de acordo com a origem de suas famílias.

Com tudo isso, Toryho foi adquirindo um nome dentro do mundinho anarquista. Em Madri, criou as Juventudes Libertárias e de lá foi para Barcelona para continuar trabalhando no jornal a partir de sua sede central. Também nessa época de sua vida, ele é um dos responsáveis pela popularização, dentro do movimento anarquista espanhol, do hino “A las barricadas”. “A tonalidade era de uma canção polonesa, e a letra em castelhano foi adaptada por Valeriano Orobón, segundo várias fontes, a pedido do zamorano.

Na verdade, em sua função posterior como porta-voz dos Escritórios de Promoção e Propaganda durante a Guerra Civil, ele se encarregou de promover a gravação do que mais tarde se tornaria o grande hino da CNT. Antes disso, Toryho também desempenhou um papel relevante na Revolução de 1934, o que o levou de volta a Madri. Naquela altura, ele já compartilhava sua vida com a também jornalista e tradutora Rosa Zimmerman.

Apesar dessa mudança, Toryho não tardou a retornar à Catalunha em 1935. Foi para continuar sua trajetória paralela no jornalismo e na luta social sob a ótica da disciplina orgânica dentro do anarquismo. Essa posição converteu o zamorano em uma figura com detratores dentro da própria organização, começando por José Peirats, sua “némesis”, segundo Fernández Barreira, dentro do coletivo. Seu pensamento, aliado a certa arrogância no comportamento, contribuiu para que a figura de Toryho gerasse controvérsia em determinados círculos.

Mesmo assim, o zamorano chegou a ser nomeado diretor do Solidaridad Obrera, um jornal que, durante a Guerra, a partir de julho de 1936, foi um dos mais vendidos do país na zona republicana. Já no conflito, ocupou o citado cargo de porta-voz dos Escritórios de Promoção e Propaganda e começou a falar diariamente no rádio em nome da CNT. Ao longo do conflito, Toryho foi se convencendo de que o anarquismo lutava, não apenas contra o levante das direitas, mas “pela independência da Espanha”, tendo em vista que o lado nacional avançava com o apoio da Itália fascista e da Alemanha nazista, enquanto os comunistas se defendiam com o respaldo da URSS.

O exílio

Toryho publicou um livro com essa tese, mais um dos vários que engrossam a trajetória de um homem que, no final de 38 ou início de 39, pouco antes da queda de Barcelona, foi para Paris para, de lá, seguir para Cuba, para os Estados Unidos e, finalmente, para a Argentina. Já no país sul-americano, ele se fez um nome como um jornalista “bastante destacado”, segundo Fernández Barreira. De fato, colaborou com os grandes meios de comunicação do país e conquistou um espaço no diário La Razón.

Na Argentina, Toryho encontrou um lar, embora tenha podido retornar à Espanha, como tantos outros, no final de sua vida, já morto o ditador. “A sensação é que ele tinha uma situação econômica bastante boa”, analisa Fernández Barreira. “Na primeira vez que esteve lá, voltou a Villanueva del Campo. Foi um retorno à terra natal muito sentimental”, garante o escritor. Toryho faleceu em 1989, aos 80 anos de idade.

Para quem desejar se aprofundar na história, o livro de Barreira se intitula Jacinto Toryho: ¡Habla la revolución! e é editado pela associação catalã El Lokal, que apresenta a obra com o autor, nos próximos dias, em várias cidades barcelonesas. O prefácio traz a assinatura do zamorano Carlos Coca.

Fonte: https://enfoquezamora.com/2026/07/01/la-historia-de-jacinto-toryho-el-anarquista-con-varias-vidas/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

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