[Chile] Companheira Claudia Lopez, Presente!!!

Com sua Dança Rebelde, entre pedras e barricadas, você dançou aquele 11 de setembro de 1998 em La Pincoya.

Cada movimento se misturava com os versos de sua poesia subversiva.

Naquela noite, enquanto sua dança estava se transformando em fogo e esperança, sua vida foi tirada, um tiro covarde nas costas, das mãos da yuta [polícia] bastarda.

Querida Claudia, nunca nos conhecemos nesta vida, mas graças às histórias de sua amiga Paz, hoje sei um pouco mais sobre você, sua ternura, seu amor e sua força.

Sou grata pelo olhar sincero e pelos abraços de Paz, eles me transportaram até você, ao seu amor pela vida e ao mesmo tempo à sua raiva pelas injustiças pelas quais continuamos a lutar hoje.

Hoje comemoramos você Companheira, modelando na parede sua bela dança com seus queridos gatinhos: Lechuza, Preciosa e Paty.

Você também nos oferece lindas frésias amarelas, suas flores favoritas, para que nos lembremos de você para sempre.

Em nossos corações negros será sempre aceso o fogo de sua Dança, em nossa memória sua poesia e em cada ação direta sua convicção, subversão e rebeldia.

Companheira Claudia Lopez, Presente!!!

(A)

Naty Kaleida Blue

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Neste bosque urbano
árvore feita em concreto
– meu corpo estremece.

Eolo Yberê Libera

[Espanha] Gratidão e reconhecimento pelo último congresso da CNT

Diante das narrativas do fim do mundo e da impotência política, este congresso traz imaginação e planos para realizar, abandonando posições defensivas e passando à ofensiva sindical.

Sou um dos milhares de afiliados da CNT que nestes dias estão começando a receber notícias do congresso que terminou em Canovelles no dia 6 de dezembro. O trabalho das pessoas que fizeram parte das delegações e da organização tem tido seu preço e agora elas devem um merecido descanso. Mas isto não deve nos impedir de começar a avaliar o cenário que se abre após este congresso.

A primeira coisa é ressaltar que a importância deste congresso da CNT transcende os contornos de sua organização e, creio, é de interesse para o resto do espaço sindical combativo, para o movimento libertário e, por que não, para o resto das famílias socialistas.

Começo com o que é mais específico da CNT: seu compromisso com seu próprio modelo sindical. A prática sindical da CNT tem sido uma raridade durante décadas. Mas por sermos aparentemente maximalistas, ideologizados e caprichosos, nos tornamos uma proposta original, independente e pró-ativa. Em resumo, a linha é desenvolver uma luta pela liberdade sindical colocando todo o protagonismo nas próprias instituições da classe trabalhadora: os sindicatos.

Cabe a eles tomar a iniciativa de defender os direitos trabalhistas e políticos da classe trabalhadora, não ao legislador ou às mesas de negociação e ao diálogo social. Isto, que pode ser uma afirmação compartilhada por amplos setores, tem uma tradução prática na CNT que não tem em outras organizações: colocar nossa força militante à disposição de uma ofensiva sindical para ampliar o alcance do que é possível através da ação sindical direta. O exemplo mais recente está na Galiza, com a greve do consórcio IeB, na qual centenas de trabalhadores da Xunta retrataram a representação unitária como uma máscara oca para a organização independente da força de trabalho no contexto geral das estabilizações no setor público. É claro que também vemos exemplos desta luta nos reveses, como as sentenças do caso La Suiza, que visa punir a ação sindical da CNT.

Construindo o novo sindicalismo

O congresso reforça esta linha de trabalho, abandonando posições defensivas e passando à ofensiva sindical. Neste sentido, o congresso da CNT é mais uma vez uma raridade, mas porque longe de se limitar à lamentação ou reclamação, ele propõe mecanismos de luta ofensiva para estender os direitos e liberdades políticas da classe trabalhadora. Diante das narrativas do fim do mundo e da impotência política, este congresso traz imaginação e planos para realizar.

Uma agenda própria

A trajetória da CNT após os pactos de Moncloa de 78 é relativamente bem conhecida: de ser um sindicato de centenas de milhares de membros a ser reduzida ao mínimo de expressão após várias cisões, rupturas e saídas massivas de militantes. A trajetória mudou há pouco mais de uma década, quando a CNT retomou o crescimento e a projeção que lhe permitiria tornar-se um sindicato relevante mais uma vez.

Mas esta mudança de trajetória não mudou a natureza independente do sindicato. Para uma organização marginal ser independente é natural por causa de seu pequeno tamanho. Mas para que um sindicato com milhares de membros seja uma estrutura autogerida e autônoma é outra raridade. E a CNT está sendo capaz de manter aquela autonomia organizacional que, e isto é o que é importante, lhe permite reunir os interesses da classe em seu meio sem a mediação de outros tipos de tendências: as pessoas não estão aderindo por causa de afinidade ideológica ou recomendação partidária, mas por causa de seu puro interesse de classe.

Isto não significa que a CNT seja um farol de luz imaculada, ou que seja o graal de uma nova força proletária. Talvez o oposto seja verdade. Talvez esta impermeabilidade a outras tendências torne a CNT especialmente sensível à espontaneidade e à interferência das correntes políticas que permeiam a sociedade. Mas é justamente aqui que reside a importância da soberania organizacional de que estamos falando. A agenda própria não significa isolamento ou auto-referencialidade, embora possam ser confundidas. Sua própria agenda é quando age sobre uma realidade que impõe tendências do exterior. Esse é o verdadeiro mérito.

O que tudo isso significa? Que a CNT é, hoje, um exemplo do que significa ter uma agenda própria e a capacidade de defini-la de forma autônoma. Uma raridade. Por exemplo: há 7 anos, em seu congresso anterior, a CNT escolheu definir-se como feminista e adotou um conjunto de acordos sobre as trabalhadoras que pode ser explicado pela ascensão do movimento feminista na última década. Esta orientação foi a chave para chegar às greves feministas de 2018 e 2019 com seu trabalho de casa feito, em contraste com outras organizações e correntes políticas que tiveram que debater entre o seguidismo e a indiferença (ou a birra impotente).

Nestes tempos de volatilidade e dispersão, quando todos os dias há novas notícias e posições políticas se tornam como palhetas meteorológicas, a CNT mantém uma surpreendente coerência interna com seus eixos fundamentais. Aí, manter sua própria agenda independente é a principal explicação.

Consenso, coesão e cordialidade

Uma organização é um ninho de vespas. Um congresso de uma grande organização é uma caixa de bombas. As situações não são confortáveis. Há camarilhas, há corredores, há aparato(s). E existem porque há poderes em disputa, porque uma organização com milhares de membros tem recursos e capacidades que são em si mesmas uma potência social, em sua própria escala. Negar é tolice, ignorá-lo é imprudente. Mas também não podemos afirmar a existência de tensões para chafurdar nelas: devemos encontrar uma forma de coexistir com as tensões, de mediar conflitos e institucionalizar as instâncias de poder interno para que o consenso seja possível, a coesão sobreviva e a cordialidade seja a condição para a possibilidade de cuidado.

O congresso da CNT não tem sido uma balsa, mas demonstrou várias coisas que outras organizações e espaços políticos talvez devessem tomar nota. Debateu questões que agora são viscerais para todos nós sem explodir a organização, tais como prostituição ou direitos trans. Construir consenso diante do ruído externo: sim, isso pode ser feito. As diferenças ideológicas foram postas de lado, em muitos casos profundas e decisivas, para construir o mesmo projeto organizacional porque, diante da insanidade das redes sociais, isto pode ser feito. Abordamos questões espinhosas que são uma característica crônica das grandes organizações sindicais, como a distribuição da representação territorial ou mecanismos de recrutamento, e o fizemos com calma, sensatez e sem deixar as diferenças arrastarem o resultado.

O futuro da CNT depende de si mesma. Veremos ao longo dos próximos anos. O que é claro é que o que a CNT mostra é que é possível agir independentemente, estabelecer nossa própria agenda e construir grandes organizações de trabalhadores a partir destas coordenadas. Não se contentar com a marginalidade ou domesticação.

Naturalmente, não gostaria de fechar estas linhas sem a devida gratidão e reconhecimento às centenas de pessoas que formaram delegações e representaram o resto dos membros. Para aqueles que chegaram a um consenso. Para aqueles que trabalhavam nos cuidados, manutenção, informática, limpeza, cozinha ou limpeza. Àqueles que organizaram o congresso. Em resumo, gratidão à classe trabalhadora organizada por mostrar do que ela é capaz.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/opinion/gratitud-reconocimiento-ultimo-congreso-cnt

Tradução > Liberto

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pequenos dedos
das gotas de chuva
massageiam a terra

Carlos Seabra

[Itália] Notícias de Alfredo Cospito

Alfredo está em boas condições, está muito lúcido e esperava uma rejeição por parte do tribunal de vigilância em Roma. Ele não perde a esperança e ainda acredita que seja bem sucedido em sua luta. Em todo caso, ele deixa saber que pretende continuar seu movimento até a morte. Como a perspectiva de prisão perpétua foi evitada – pelo menos adiada – por enquanto com a decisão do tribunal de apelação de Turim em cinco de dezembro, Alfredo reitera que só terminará sua greve de fome se for desclassificado do 41 bis.

Ele está ciente da mobilização através de reportagens, quando ações e iniciativas impõem este nível de cobertura à mídia do regime. Os jornais, por outro lado, chegam até ele com páginas recortadas, buracos que se tornaram cada vez mais frequentes nas últimas semanas.

No momento, algumas cartas, telegramas e cartões postais parecem passar, ao contrário dos meses que antecederam sua luta, quando tudo o que lhe foi escrito acabou sendo confiscado. Particularmente com relação aos telegramas, que parecem ser as comunicações que mais frequentemente passam as malhas dos censores, é importante lembrar que estes devem ser individuais e devem conter o nome e o endereço do remetente.

Aqui novamente o endereço:

Alfredo Cospito

1. C. “G. Bacchiddu”

strada provinciale 56 n. 4

Località Bancali

07100 Sassari – Itália

Vamos fazê-los sentir nosso apoio!!!

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surgidos do escuro,
somem na moita, na noite:
amores de um gato

Issa

[Espanha] Alguém sabe o que diabos aconteceu no Peru?

A questão na manchete deste blog longe de ser modesta é (quase) retórica, dada a impossibilidade de acessar um mínimo de verdade devido à avalanche de intoxicação de informações. Não sei se isto se deve ao princípio de incerteza de Heisenberg, mas não creio, acho que é pura e simples manipulação da mídia por todos os tipos de canalhas. Lembro que no ano passado, o Prêmio Nobel peruano Vargas Llosa, tão talentoso em assuntos literários quanto iníquo em assuntos econômicos e políticos, fez alusão às “pessoas que não votam bem”. Não é necessário um grande estudo intelectual (ou moral) para entender que o que este sujeito quis dizer foi que as eleições em seu país, realizadas pouco antes, haviam sido ganhas por aqueles que não eram de sua espécie. O fato é que, de fato, um professor rural ganhou a presidência no país e a esquerda (parlamentar) deste país inefável se parabenizou por isso. O mesmo cara, chamado Pedro Castillo, há apenas alguns dias, acabou dissolvendo o Congresso, criando um governo de exceção e dando origem a nada menos do que um toque de recolher para convocar eleições constitutivas alguns meses depois. Certos meios de comunicação insistiram que as ações de Castillo equivaliam a um golpe de Estado completo; não estou nada contente em concordar com a grande maioria deles, mas parece-me que tudo isso foi um puro e simples autoritarismo. Também foi dito que o golpe ou a dissolução, ou o que quer que se queira chamar, foi devido à ameaça de demissão imediata, graças a uma moção de censura, do agora ex-presidente.

Também tem sido insistido que tudo isso foi porque Castillo foi assolado por inúmeros casos de corrupção, mas outros afirmaram que esta é uma mentira podre. Isto já aconteceu com outros líderes (supostamente) de esquerda da América Latina, processados por corrupção que outros negam (o contrário do que acontece neste país indescritível, chamado Reino da Espanha, onde os que estão no topo são intocáveis diante de enredos flagrantes de corrupção). Da mesma forma, como não poderia deixar de ser, a tentativa de golpe (ou dissolução) foi comparada ao que aconteceu três décadas atrás, naquela ocasião com outro presidente de memória infame, Fujimori. Um dos pontos mais perplexos é que alguns, por exemplo, Juan Carlos Monedero, ex-líder do Podemos e agora estrela da mídia, apontou em tom um tanto exculpatório para Castillo a fraqueza das instituições peruanas; entretanto, outros meios de comunicação que não são abertamente reacionários, como eldiario.es, indicaram exatamente o contrário, a solidez democrática daquele país, o que explica por que as ações do ex-presidente permaneceram apenas uma letra morta e o indivíduo acabou na prisão acusado de rebelião e conspiração. Aparentemente, o resto do poder executivo, as forças armadas, a polícia, a Corte Constitucional, o procurador da república e até mesmo, creio, a sursum corda declararam em termos inequívocos que não tolerariam qualquer alteração da ordem constitucional (ou algo do gênero). Que coisa!

Por outro lado, algumas personalidades mais de direita da mídia, bastante tendenciosas e um tanto repulsivas, insistiram que a esquerda, em geral, reagiu tarde e mal a um homem que apoiavam e que acabou se tornando um líder do golpe. Quer estejam ou não parcialmente certos ou não, o que é certo é que alguns deles, embora reconheçam que o que Castillo fez não é certo e até mesmo apontem sua inépcia por certas coisas, parecem ter buscado um tom justificador aludindo ao grande número de poderes que não toleram o menor indício de comunismo (sic), aos numerosos interesses em jogo, à iniquidade da direita peruana e até mesmo, creio, mencionando os Estados Unidos (cuja comprovada promoção de ditaduras na América Latina o faria suspeitar de quase tudo). Por outro lado, a tradicional separação teórica dos poderes do liberalismo, na qual quase ninguém jamais acreditou, provoca um novo caso curioso sobre o que aconteceu no Peru; enquanto alguns apontam que o que Castillo fez foi tentar concentrar malevolamente e tiranicamente todos os poderes em suas mãos, outros argumentam que tal divisão nunca existiu no país. No final, nunca saberemos a verdade rigorosa e, o mais terrível de tudo, podemos aplicar isto à enorme e intolerável intoxicação de informação que é produzida diariamente sobre tudo. Mas, além disso, há uma leitura óbvia que devemos tirar de tudo isso da perspectiva, é claro, de querer mudar as coisas para melhor nas esferas política e econômica. E isto é, quer aqueles que acabam dirigindo o governo sejam ou não mais ou menos honestos na origem, as chances de transformar qualquer coisa são uma ou nenhuma. Se realmente queremos um mundo mais livre e mais unido, a coisa não é conquistar o poder, que acaba conquistando ou corrompendo seus conquistadores, mas continuar trabalhando horizontalmente, praticando verdadeiramente o apoio mútuo. Um pouco solene, mas aí está!

Juan Caspar

Fonte: http://acracia.org/alguien-sabe-que-diablos-ha-pasado-en-peru/

Tradução > Liberto

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pinga torneira
tic tac do relógio
luz com poeira

Carlos Seabra

[França] Macron no Qatar: 501.000€ e 480 toneladas de CO2

AS VIAGENS DE IDA E VOLTA DE EMMANUEL MACRON AO QATAR PARA O MUNDIAL DE FUTEBOL CUSTARAM AO CONTRIBUINTE FRANCÊS CERCA DE 501 MIL EUROS, OU 31 ANOS DE SALÁRIO MÍNIMO. E LANÇARAM 480 TONELADAS DE CO2 NA ATMOSFERA, OU 53 ANOS DE PEGADA DE CARBONO PARA UM FRANCÊS.

No dia 13 de dezembro, o A330 presidencial, avião da Airbus com capacidade para 375 assentos com o logotipo da “República Francesa”, partiu de sua base em Évreux para se pré-posicionar em Orly, antes de decolar para Doha no dia seguinte. Era para a semifinal.

No dia 16 de dezembro, para a final, o avião presidencial foi pré-posicionado em Paris, para decolar no dia 17 de dezembro com destino a Doha. Em cada viagem, o Airbus é acompanhado por um Falcon 7X, um jato particular que acompanha a viagem para servir de reserva. Um avião e um jato para apenas um presidente e sua equipe.

Mais de 500.000 euros e milhares de litros de querosene para poder mostrar na tela, durante os jogos, a cara de Macron a gritar após cada ação dos Blues. É caro o golpe publicitário, principalmente em tempos de “sobriedade”.

Porque é propaganda. Segundo o jornalista Nils Wilcke, “o presidente quer surfar no efeito Copa do Mundo”, confirma um ex-assessor. Não tinha conseguido aproveitar em 2018 por causa do caso Benalla”. Ele esperava uma vitória para aprovar a reforma da previdência em janeiro? Falhou.

Nós sabíamos, Macron dá azar.

Fonte: https://contre-attaque.net/2022/12/18/macron-au-qatar-501000-et-480-tonnes-de-co2/

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ninho de toutinegra
num alcatruz
que sede!

Rogério Martins

[Reino Unido] Um guia anarquista para o natal

por Ruth Kinna

Não é surpresa alguma descobrir que o teórico anarquista Kropotkin era interessado pelo Natal. Na cultura Russa, São Nicolau (Николай Чудотворец) é reverenciado como defensor dos oprimidos, dos fracos e dos desamparados. Kropotkin compartilhava desses sentimentos.

Mas há também uma ligação familiar. Como todo mundo sabe, Kropotkin poderia rastrear sua ancestralidade a antiga dinastia Rurjk que governou a Rússia antes do advento dos Romanovs e que, a partir do século I dC, controlavam as rotas comerciais entre Moscou e o Império Bizantino. O ramo da família de Nicolau foi enviado para patrulhar o Mar Negro. Mas Nicolau era um homem espiritual e procurou fugir da pirataria e banditismo pela qual sua família viking russa era famosa. Então, ele se estabeleceu com um novo nome nas terras do sul do Império, hoje a Grécia, e decidiu usar a riqueza que ele tinha acumulado de sua vida de crime para aliviar os sofrimentos dos pobres.

Fontes de arquivos não publicados descobertos recentemente em Moscou revelam que Kropotkin era fascinado por este laço familiar e da semelhança física marcante entre ele e a figura do Papai Noel, popularizada pela publicação de “Uma visita de São Nicolau” (mais conhecido como “A noite antes do Natal”) em 1823.

Kropotkin não era tão corpulento como Papai Noel, mas com uma almofada de pelúcia a rechear sua túnica, ele sentiu que poderia passar. Seu amigo Elisée Reclus aconselhou-o a largar a guarnição da pele sobre a roupa. Essa foi uma boa ideia, pois também lhe permitiria usar um pouco mais de preto com o vermelho. Ele decidiu seguir o conselho de Elisée nas renas, também, e de usar um trenó conduzido a mão. Kropotkin não era normalmente dado a fantasiar-se. Mas explorar a semelhança para espalhar a mensagem anarquista era uma excelente propaganda pela ação.

Antecipando “V”, Kropotkin pensou que todos poderiam se passar por Papai Noel. Na margem de uma página Kropotkin escreve: “Infiltrem-se nas lojas, distribuam os brinquedos!”

Restos rasurados na parte de trás de um cartão postal se lê:

Na noite antes do Natal, todos nós vamos estar prontos

Enquanto as pessoas estão dormindo, vamos realizar a nossa influência

Nós vamos expropriar bens das lojas, porque é justo

E distribuí-los amplamente, para aqueles que mais precisam.

Suas notas sobre este projeto também revelam alguns valiosos insights a propósito de suas ideias sobre características anarquistas do Natal e de seu pensamento sobre as formas e quais os rituais do Natal Vitoriano deveriam ser adaptados.

“Todos nós sabemos”, escreveu ele, “que as grandes lojas – John Lewis, Harrods e Selfridges – estão começando a explorar o potencial de vendas do Natal, criando cavernas mágicas, grutas e terras encantadas fantásticas para atrair nossos filhos e pressionar-nos para comprar presentes que não queremos e não podemos pagar”.

“Se você é um de nós”, continuou, “você vai perceber que a magia do Natal depende do sistema de produção do Papai Natal, não das tentativas das lojas para seduzi-lo ao consumo de inúteis bens de luxo”. Kropotkin descreveu as oficinas espalhadas pelo Pólo Norte, onde os elfos trabalham felizes durante todo o ano, porque eles sabiam que estavam produzindo para o prazer de outras pessoas. Observando que essas oficinas eram estritamente sem fins lucrativos, a base de mão-de-obra artesanal e funcionando em modelos comunais, Kropotkin tratou-as como protótipos para as fábricas do futuro (delineadas em “Campos, Fábricas e Oficinas”).

Algumas pessoas, ele sentia, pensavam que o Papai Noel sonhava em ver que todos haviam recebido presentes no dia do Natal, era quixotesco. Mas ele poderia ser realizado. Na verdade, a extensão das oficinas – que eram muito caras para manter no Ártico – facilitaria a generalização da produção pautada pelas necessidades e a transformação da troca ocasional de presentes em partilha regular. “Precisamos dizer às pessoas”, Kropotkin escreveu, “que oficinas comunais podem ser estabelecidas em qualquer lugar, e que podemos combinar nossos recursos para assegurar que todos tenham suas necessidades satisfeitas!”

Uma das questões que mais incomodou Kropotkin sobre o Natal foi a forma pela qual o papel inspirador que Nicolau desempenhou evocando mitos do Natal, confundido a ética do Natal. Nicolau foi erroneamente representado como um homem caridoso e benevolente: santo, porque ele era beneficente. Absorvido na figura do Papai Noel, as motivações de Nicolau para as doações se tornaram ainda mais distorcidas pela fixação vitoriana por crianças.

Kropotkin realmente não entendia as ligações, mas sentia que refletia uma tentativa de moralizar a infância através de um conceito de pureza que foi simbolizado no nascimento de Jesus. Naturalmente, ele não poderia imaginar a criação do Grande Irmão Papai Noel, que sabe quando as crianças estão dormindo ou acordadas e vem para a cidade, aparentemente sabendo quais entre elas se atreveram a chorar ou fazer birra.

Mas, cedo ou tarde, ele avisou, esta ideia de pureza seria usada para distinguir crianças más e boas, e apenas aquelas do segundo grupo que seriam recompensadas com presentes.

Seja qual for o caso, era importante recuperar deste quiproquó confuso tanto o princípio da compaixão de Nicolau quanto as origens folclóricas de Papai Noel. Nicolau deu porque era torturado pela sua consciência das privações de outras pessoas. Embora ele não fosse um assassino (até onde Kropotkin soubesse), ele compartilhou da mesma ética de Sofia Petrovskaya. E ainda que fosse obviamente importante se preocupar com o bem-estar das crianças, o princípio anarquista era tomar em conta o sofrimento de todos.

Da mesma forma, a prática da doação foi erroneamente compreendida, como se necessitasse da implementação de um plano centralmente dirigido, supervisionado por um administrador onisciente. Tudo isto estava completamente errado: Papai Noel veio da imaginação do povo (basta considerar a gama de nomes locais que Nicolau tinha acumulado – Sinterklaas, Tomte, de Kerstman). E o espraiamento da alegria – através da festividade – foi organizado de baixo para cima.

Enterrado sob o Natal, argumentou Kropotkin, estava o princípio solidário do apoio mútuo.

Kropotkin apreciou o significado do ritual e o valor real que os indivíduos e as comunidades associavam ao carnaval, aos atos de lembrança e comemoração. Ele não queria abolir o Natal, nem tampouco queria vê-lo republicanizado através de alguma reorganização burocrática obstinada do calendário.

Era importante, no entanto, separar a ética que o Natal apresentava da singularidade da sua celebração. Dar uma festa era apenas isso; a extensão do princípio do apoio mútuo e da compaixão à vida cotidiana era outra coisa. Na sociedade capitalista, o Natal abria espaço para bons comportamentos. Enquanto era possível ser cristão uma vez ao ano, o anarquismo era para toda a vida.

Kropotkin percebeu que sua propaganda teria mais chance de sucesso se ele pudesse mostrar como a mensagem anarquista também estava incorporada na cultura mainstream. Suas anotações revelam que ele se inspirou particularmente no “Conto de Natal”, de Dickens, para encontrar um veículo para suas ideias. O livro foi amplamente creditado com consolidadas ideias de amor, alegria e boa vontade no Natal. Kropotkin encontrou a genialidade do livro em sua estrutura. Que outra coisa seria a história do encontro de Scrooge com os espíritos dos natais passados, presentes e futuros além de um relato prefigurativo da mudança?

Ao ver o seu presente através de seu passado, Scrooge teve a oportunidade de alterar seus modos avarentos e remoldar o seu futuro e o futuro da família Cratchit. Mesmo que isso só seja lembrado uma vez por ano, Kropotkin pensou, o livro de Dickens emprestou aos anarquistas um veículo perfeito para ensinar esta lição: alterando o que fazemos hoje, modelando os nossos comportamentos segundo o de Nicolau, podemos ajudar a construir um futuro que é como o Natal!

>> Ruth Kinna é editora da revista Estudos Anarquistas (“Anarchist Studies”) e professora de Teoria Política na Universidade de Loughborough.

Fonte: http://strikemag.org/anarchist-guide-christmas/

agência de notícias anarquistas-ana

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho

Matsuo Bashô

[Itália] Comunicado sobre os últimos acontecimentos relativos à greve de fome do anarquista Alfredo Cospito

Saiu hoje, 19 de dezembro de 2022, a resposta ao recurso apresentado por Alfredo Cospito ao Tribunal de Sorveglianza. A audiência foi realizada no dia primeiro de dezembro em Roma. A resposta foi negativa, ou seja, a possibilidade de desclassificar Alfredo do 41 bis foi rejeitada. Assim, permanecerá em 41 bis pelo menos durante os próximos quatro anos, época em que a continuação da aplicação do regime 41 bis ao Alfredo será novamente discutida.

Ainda não sabemos as razões para a rejeição. Alfredo está hoje no 61º dia da greve de fome, ele fez saber que vai continuar a greve de fome, que seu objetivo é sair do regime 41 bis. O que também sabemos é que continuaremos a apoiar sua luta, e que além da situação de Alfredo, a luta contra a prisão e a sociedade capitalista que a alimenta continua.

Esta notícia pesa sobre nós como uma montanha, mesmo assim temos que manter nosso espírito para cima e não deixar que ela nos abata, nunca tivemos esperança na justiça, então agora mais do que nunca é importante lutar pela libertação de Alfredo e de todos aqueles sequestrados pelo Estado.

Ao lado de Alfredo, pela conflitualidade anarquista e destrutiva.
Morte ao Estado e viva à anarquia!

agência de notícias anarquistas-ana

No campo queimado
ainda uma leve fumaça
Tronco resistindo

Eunice Arruda

[EUA] Uma excelente notícia!

Companheiros, segundo a reportagem sobre a audiência de Mumia Abu-Jamal hoje 16 de dezembro, ele ganhou! Não é uma vitória total. Quer dizer, não sairá livre agora, mas é um importante passo adiante.

Desde cedo, ao redor de 100 compas da Filadélfia, Nova York e Nova Jersey se manifestaram sob a chuva na rua, enquanto outros entraram no tribunal. Houve muitos gritos celebrando a chegada à casa de Mutulu Shakur¹ e claro outros gritos e chamados pela liberdade de Mumia.

Como vocês recordarão, a Juíza Lucrecia Clemons havia indicado que iria ratificar sua decisão anterior contra uma audiência probatória para Mumia. Mas isto não aconteceu.

Depois da audiência, Johanna Fernández reportou às pessoas mobilizadas que a juíza não havia tomado uma decisão, o que devemos considerar uma vitória.

Por outro lado, a juíza deu aos advogados de Mumia de 60 a 90 dias para apresentar mais evidências a seu favor. Eles já haviam reportado a compra de testemunhas chaves como o taxista Robert Chobert e a trabalhadora sexual Cynthia White, como verificado nas 6 caixas de evidências encontradas em um armazém da Promotoria. Nesta audiência de hoje anotaram a presença de Kenneth Freeman no carro de Billy Cook, irmão de Mumia. Se supõe que Freeman era a pessoa que assassinou o policial Faulkner.

Uma segunda vitória, diz Johanna Fernandez, é a autorização pela juíza da revisão pela equipe de Mumia de outras 30 caixas de evidências também encontradas na Promotoria.

Em particular, interessa a Clemons as violações do caso Brady, a ocultação de evidências que poderiam ser provas de inocência, e do caso Batson, sobre a discriminação na seleção do jurado.

Se supõe que um fator que influiu na mudança de opinião da juíza poderia ter sido o Escrito Amicus recém apresentado que enfatizou o clima de racismo na Filadélfia no momento da detenção e julgamento de Mumia.

Quem seguiu seu caso durante muitos anos sabe da supremacia branca do juiz Albert Sabo, que disse a um colega, “Eu vou ajudá-los a fritar o negro” (usando a palavra mais depreciativa possível). Também se sabe que aquela madrugada de 9 de dezembro de 1981, Mumia recebeu uma bala no estômago e foi golpeado e pisoteado quase até a morte em um claro caso da violência policial.

Ao escutar a informação sobre as decisões da juíza, as e os compas na rua resolveram trabalhar mais duro que nunca pela liberdade de Mumia nos meses que vem. Sob uma chuva cada vez mais forte marcharam 10 quadras em resposta ao imperativo vocalizado por Gabe Bryant: organizar, fazer estratégias, galvanizar e agitar para que Mumia e todos os presos políticos saiam livres. Gritaram os nomes de Kamau Sadiki, Veronza Bowers, Imam Jamil Al-Amin, Ed Poindexter, Leonard Peltier, Ruchell Magee e Jo-Jo Bowen!

Liberdade PARA MUMIA ABU-JAMAL E TODOS OS PRESOS POLÍTICOS AGORA!

Fonte: https://amigosdemumiamx.wordpress.com/?fbclid=IwAR3E8m_jiKina-LygIFxEPr_DvIKWqhWurofQal3N1aCHEyBwKvyNs4mqD4

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Ventos nos umbrais
janelas antigas,
modernos varais.

Sandra Maria de Sousa Pereira

[Itália] Declaração de Alfredo Cospito: “Eu não o aceito e não vou desistir”

A seguir, declaração de Alfredo Cospito¹ na audiência de recurso para o recalculo das sentenças no âmbito do julgamento de Scripta Manent (Turim, 5 de dezembro de 2022).

Vou ler apenas quatro linhas. Antes de cair definitivamente no esquecimento sob o regime de 41 bis, deixem-me dizer algumas coisas e depois me calarei para sempre. O sistema judicial da república italiana decidiu que, sendo muito subversivo, eu não poderia mais ter a possibilidade de ver as estrelas novamente, a liberdade. Enterrado definitivamente com prisão perpétua, que não tenho dúvidas que me darão, com a absurda acusação de ter cometido um “massacre político”, por dois ataques de denúncia no meio da noite, em locais desertos, que não deviam e não podiam ferir ou matar ninguém e que de fato não feriram nem mataram ninguém. Não satisfeitos, para além da prisão perpétua sem benefícios, visto que desde a prisão continuei a escrever e a colaborar na imprensa anarquista, foi decidido calar-me para sempre com a mordaça medieval do 41 bis, condenando-me a um limbo sem fim à espera da morte. Eu não o aceito e não vou desistir, e continuarei a minha greve de fome pela abolição do 41 bis e da prisão perpétua até ao meu último suspiro, para tornar conhecidas ao mundo essas duas abominações repressivas deste país. Somos 750 neste regime e também por isso luto. Ao meu lado estão os meus irmãos e as minhas irmãs anarquistas e revolucionárias. Estou habituado à censura e às cortinas de fumaça midiáticas, estas últimas com o único propósito de transformar em monstros qualquer adversário radical e revolucionário.

Abolição do regime de 41 bis.

Abolição da prisão perpétua.

Solidariedade com todos os prisioneiros anarquistas, comunistas e revolucionários do mundo.

Sempre pela anarquia,

Alfredo Cospito

[1] Alfredo encontra-se em greve de fome desde 20 de Outubro resistindo à aplicação do regime 41 bis ao qual a justiça italiana o quer submeter.

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dou de comer ao gato:
o ronrom
estridula sem cessar

Ross Clark

[Chile] Histórias de Natal

Era dezembro de 1940 em Santiago do Chile e os trabalhadores de diversas empresas construtoras se mantinham em greve, se aproximava o fim do ano e a pobreza era grande.

Naquele contexto, o 24, a poucas horas da noite feliz, três indivíduos corretamente vestidos entram com armas de fogo na filial da Av. Brasil da Caja Nacional de Ahorro, em menos de três minutos acessam os cofres, levando grande quantidade de dinheiro que se encontrava armazenada para as festas de fim de ano.

Em 5 de fevereiro de 1941, quatro pessoas são detidas em Valparaíso, os três assaltantes mais o chofer, após serem torturados reconhecem serem os assaltantes da Caja Nacional de Ahorro, mas indicam que o dinheiro o gastaram em bordéis e jogos, a polícia não acredita, já que os conhece de antes e continua torturando-os, até que finalmente se sabe que todo o dinheiro do roubo foi entregue às famílias dos grevistas da construção, para que pudessem se manter durante as festas e os primeiros meses de 1941. O dinheiro nunca foi encontrado, portanto ao não existirem provas, após semanas, todos foram postos em liberdade.

Os assaltantes eram:

– Jorge Agustín Ramírez, integrante da Federación Juvenil Libertaria e impulsionador da greve das imprensas de fevereiro de 1940.

– Jorge Ramírez da Barra, obreiro filiado à Unión de Resistencia de Estucadores (URE) e colunista do jornal anarquista “La Palabra y La Protesta”.

– Antonio Pávez Gomes, sapateiro e militante anarcossindicalista, orador em algumas atividades.

– Hugo Darquín Hernández, chofer durante o assalto, não apresenta filiação política nem sindical.

Fonte: Nuevas Crónicas anarquistas de la subversión olvidada, de Óscar Ortiz

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manhã de vento
na caixa do correio
apenas uma folha seca

João Angelo Salvadori

Não existe oposição institucional ao fascismo: Análises sobre a escalada da violência da extrema-direita no Brasil

Na noite de 12 de dezembro, a violência da base bolsonarista de rua avançou mais um passo em sua radicalização. Uma Delegacia e a sede da Polícia Federal foram atacadas, cinco ônibus e três carros foram incendiados em Brasília como resposta à prisão de um indígena pastor evangélico e bolsonarista acusado de organizar os atos golpistas, praticar ameaças e promover ataques ao Estado Democrático de Direito. O homem que se intitula “líder indígena” mesmo sem o reconhecimento dos povos da sua etnia, teve a prisão decretada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.

Quando esses grupos neofascistas começam a adotar táticas de luta radicalizada sem qualquer oposição das polícias, é preciso refletir sobre o futuro dos conflitos políticos por vir. E repensar – mais uma vez – o papel da esquerda radical diante dos avanços do fascismo de rua.

***

No início, a maioria dos atos dos autoproclamados “cidadãos de bem” contestando o resultado das eleições para presidente foram diurnos e compostos por homens, mulheres, idosos e, muitas vezes, crianças para dar um ar de “família” e justificar a falta de ação violenta da polícia que ataca protestos e bloqueios de movimentos de esquerda com ou sem crianças. Já nessa época, alertamos sobre o risco de atribuir falsa legitimidade a certas ações ao tratar como “insurreição popular” os atos bolsonaristas por intervenção militar e anulação das eleições patrocinados por empresários do agronegócio e das indústrias.

Agora, quando ações violentas como linchamentos e até sequestros e torturas se tornam parte do seu repertório de ação, um novo perfil majoritariamente masculino, radicalizado, noturno e disposto ao confronto aberto está se consolidando, segue sem oposição dos movimentos de esquerda e com o apoio quase integral das forças de segurança. É preciso compreender que o fascismo sem oposição nas ruas crescerá como um motim cada vez mais violento.

A esquerda petista, a mídia e alguns juristas acreditam que basta chamar o que está acontecendo de terrorismo e tratar com prisões e penas duras seus participantes. Tal iniciativa é parte do processo pacificador que professa a fé nas leis e nas instituições que nada fizeram até agora para barrar de fato tais ações e deixaram as ruas livres para o fascismo. Como resultado, a imagem de ônibus em chamas, antes o símbolo da luta contra a repressão do estado e a exploração capitalista, vista nos atos contra aumento da tarifa, contra a Copa da FIFA ou contra ações da polícia nas periferias, agora está prestes a se tornar o retrato do “terrorismo de direita”. E o papel de “defensor da lei e da ordem” passa a ser adotado pela esquerda legalista e institucional que em breve estará sob a tutela de um novo governo petista.

De fato, os confrontos do dia 12 mostram que essa direita está disposta a “não deixar ninguém” pra trás e lutar pela libertação de um dos seus integrantes. A Secretaria de Segurança do DF (governo alinhado ao Bolsonaro) alegou não ter efetuado nenhuma prisão para assim “reduzir danos e evitar uma escalada ainda maior nos ânimos”, atestando a eficiência da organização do protesto radicalizado. Dá a impressão até de que seu sucesso confirmaria a tese insurrecional de que “a força de uma insurreição é social, não militar”. Mas é bom lembrar que a motivação e os interesses dessa base radicalizada do bolsonarismo não são populares, isto é, originada dos debaixo: são os mesmos do presidente derrotado, sua família e sua rede de políticos eleitos para cargos no legislativo; além, é claro, do “partido militar” informal responsável pela eleição do representante do seu projeto de poder em 2018.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/12/17/nao-existe-oposicao-institucional-ao-fascismo/

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A serra em chuva
Sob o sol poente –
Como não agradecer?

Paulo Franchetti

Comunicado Sobre Nossa Saída da CAB

Comunicamos que, depois de um longo processo de discussão – que envolveu toda a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) e a Coordenação Anarquista Latino-Americana (CALA) –, a Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL, de São Paulo), a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), a Rusga Libertária (RL, de Mato Grosso) e o Coletivo Mineiro Popular Anarquista (COMPA, de Minas Gerais) tomaram a decisão de sair da CAB.

Apesar de estar se dando de modo respeitoso, essa separação reflete diferenças políticas significativas e visões que, neste momento, consideramos inconciliáveis. O motivo central de nossa saída tem a ver com o balanço que fazemos dos últimos anos da CAB e, também, dos caminhos que entendemos serem necessários para o próximo período de desenvolvimento das lutas sociais e do anarquismo organizado brasileiro. Entendemos que, enfim, é hora de superar o status de coordenação e fundar uma organização política anarquista nacional.

O especifismo brasileiro sempre teve como projeto a fundação de uma organização nacional. A primeira tentativa foi a Organização Socialista Libertária (OSL), que funcionou entre 1997 e 2000. Contudo, não deu certo, já que foi construída de maneira apressada e sem a devida maturidade dos estados e sua militância. A maior conquista desse primeiro processo foi o impulsionamento das experiências estaduais da Resistência Popular (RP), iniciadas em 1999. Foi a partir delas que voltamos a reinvestir no processo político e organizativo, dessa vez, com muito mais calma, fundando, em 2002, o Fórum do Anarquismo Organizado (FAO). Abrimos mão daquela unidade pretendida na OSL e passamos a reunir indivíduos, grupos e organizações em torno apenas do acordo com dois eixos: necessidade de organização e necessidade de trabalho social (de massas).

Como em qualquer processo de construção política, ocorreram os momentos de desacordos, tensões, conflitos e cisões internas. Com a saída da atual União Popular Anarquista (UNIPA) e o fim do Luta Libertária (LL) / Organização Socialista Libertária de São Paulo (OSL-SP), o FAO começou a se renovar internamente a partir de 2009, com a reaproximação da FARJ e de um conjunto de organizações estaduais que haviam se formado sob sua influência e até mesmo com a presença de seus militantes. Todas as organizações dessa rede ingressaram no FAO a partir de 2009; as iniciativas estaduais mais consolidadas (RJ, SP, CE, PR, SC) e outras que iniciavam sua articulação (MG, PE, uma nova reconstrução na BA, entre outros). Nesse processo todo, até a junção com os novos estados consolidados e em articulação, foram muito importantes alguns estados que estiveram (primeira formação na BA e uma articulação em GO) e outros que permaneceram no FAO (especialmente RS, AL e MT), os quais desempenharam protagonismo. Essa fusão permitiu os grandes avanços que culminaram na fundação da CAB, em 2012.

A proposta, naquela ocasião, era dar um passo rumo à organização nacional. Saíamos da organicidade de um fórum (espaço para troca de informes e realização de tarefas em comum) para uma coordenação (articulação nacional de organizações estaduais). Nessa nova etapa, estabelecemos que construiríamos uma organização nacional no médio prazo para fortalecer a luta ideológica e social no Brasil. Queríamos ir unificando as concepções e os processos para, em médio prazo, formar uma organização política anarquista nacional. Essa necessidade de unificação era um desafio complexo, pois o FAO e a rede que se construiu em torno da FARJ remetiam à lógica dos “grupos orgânicos”, proposta no documento “Luta e Organização”, de 1996. Havia, naquele momento, uma pluralidade de concepções e realidades, que fomos homogeneizando a partir de 2009, num movimento que teve continuidade ao longo dos primeiros anos da CAB. Ainda que todos os estados defendessem o especifismo e suas linhas gerais, haviam muitos outros aspectos que necessitavam ser homogeneizados, tanto em termos ideológicos e teóricos, quanto em termos estratégicos e programáticos.

Conseguíamos, até aquele momento, caminhar em nosso projeto, aprofundar a organicidade e os trabalhos sociais, mantendo esse horizonte de uma organização nacional que vinha sendo construída. Diversos aspectos estavam se desenvolvendo e avançando, ainda que parcialmente, na direção da mencionada unidade nacional, consolidando uma nova etapa do nosso projeto organizativo.

Entretanto, há aproximadamente quatro anos, nossas organizações passaram a ver esse movimento de maneira mais crítica, algo que foi se aprofundando e chegou a seu ápice no II CONCAB, de 2021, sediado em São Paulo. Nossa maior crítica é que, de maneira geral, os avanços da CAB haviam se interrompido e estavam se fortalecendo, na coordenação, aquilo que chamamos de “caminhos inconciliáveis” – nos termos que intitularam o próprio documento que iniciou a desvinculação de nossa Regional da CAB – para entender teoricamente o anarquismo e colocá-lo em prática.

As críticas que fizemos à CAB foram diversas, e formalizadas nesse documento. Não é nosso intuito retomar o que foi ali colocado. Basta apontar que o aspecto central de nossa crítica é que, em nossa região (Sudeste/Centro-Oeste), já estávamos funcionando como uma organização política regional, unificando processos, concepções, linhas etc. Entendíamos ser necessário seguir para a nacionalização, conformando, enfim, a organização nacional que estava em nosso projeto, desde 2012. No entanto, para que isso fosse possível, era necessário solucionar o problema dos “caminhos inconciliáveis” que existiam dentro da CAB, os quais passavam por três grandes aspectos: 1.) Concepção de organização política anarquista; 2.) Linha e prática política; 3.) Linha teórica e ideológica. É importante colocar que, para nós, essas críticas também foram apontadas como autocríticas, já que estávamos participando do processo organizativo, tínhamos também responsabilidade nos problemas que apontávamos.

Contudo, em nossa avaliação – que tinha como base todos os debates dos últimos anos nas mais diferentes instâncias da CAB –, haveria grandes divergências às nossas críticas e proposições. Reconhecendo que a CAB tinha cumprido um papel importante para a construção organizativa nacional do anarquismo e que existiam posições distintas, com diferentes gradações, sobre os diferentes pontos que mencionávamos, compreendemos que talvez o melhor caminho fosse dar fim à própria CAB, reconhecendo seu esgotamento como ferramenta. Então, aqueles/as que quisessem avançar em termos organizativos (como na nossa proposta) fariam isso, e aqueles/as que não quisessem conformariam um outro fórum ou coordenação.

Ocorreram intensas discussões e diferentes respostas para nosso documento. No entanto, de modo geral, as demais organizações alinharam-se no sentido de discordar que a dissolução da CAB seria a melhor alternativa. Recusaram, portanto, a proposta de nossas organizações. Nossa militância, sem perspectivas de resolução dos problemas apontados, e evitando acirrar os conflitos, decidiu deixar a CAB. Informamos, nesta ocasião, que pretendemos nos constituir, logo em breve, como organização política anarquista e avançar para a nacionalização.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.anarkismo.net/article/32699

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lavrando o campo:
do templo aos cumes
o canto do galo

Buson

[Espanha] “Lançamento: Casilda revolucionaria | Un cómic sobre la vida de Casilda Hernáez”, de Rubén Uceda

Casilda Hernáez foi uma revolucionária basca e libertária, uma mulher de um fogo que não se apaga, uma lutadora que não perdeu a capacidade de sonhar.

Estas páginas nos contam boa parte de suas vivências e sentimentos atravessando uma das épocas mais convulsas e fascinantes do século passado.

Dito com suas próprias palavras:

Naqueles tempos o mais sublime que se podia ser era obreira internacionalista, era algo que saía do medíocre, um sentimento superior“.

>> Vídeo promocional:

https://www.youtube.com/watch?v=6Eke8K3HR6c

Casilda revolucionaria | Un cómic sobre la vida de Casilda Hernáez

Rubén Uceda

Número de páginas: 50

12,00€

www.todostuslibros.com

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na folha orvalhada,
gota engole gota,
engorda, desliza e cai

Alaor Chaves

Novo vídeo: Princípio da autoridade – Visão Libertária

Neste vídeo quis pegar como base o texto O Paradigma Anarquista na Educação, do professor Silvio Gallo, no qual o autor aborda um conceito a meu ver bem potente para os libertários pensarem a questão da autoridade absoluta na educação.

Silvio não está preocupado em levar a liberdade para um ambiente autoritário e sim partir do princípio da autoridade para ir em direção à liberdade – no qual a destituição da tirania fosse ocorrendo paulatinamente.

Diante disso traço um paralelo com uma observação que fiz em um espaço que estive presente em João Pessoa (Paraíba).

Dentro de uma sociedade altamente hierarquizada e cada vez mais controlada por mecanismos de controle, pensar este princípio da autoridade, sugere um caminho e um terreno muito fértil para pensarmos as nossas liberdades.

>> Veja o vídeo aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=jOywhl4HS-8

>> Apoie, divulgue e colabore com o projeto À Margem

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No olho das ruínas
as íris dos vaga-lumes
sob as tranças de ervas.

Alexei Bueno

[Uruguai] Intervenção e panfletagem na embaixada Italiana de Montevidéu

Na calorosa tarde do domingo 4 de dezembro, intervimos no espaço da embaixada Italiana, situada em um dos bairros mais glamorosos da capital uruguaia; ao mesmo tempo e nas proximidade enchemos de panfletos a praça denominada ¨Leon Tolstoi¨. O lema é claro, liberar o companheiro Cospito do regime torturador e fascista chamado ¨41 BIS¨. No momento da intervenção diferentes vizinhos se mostravam surpreendidos pelo inusitado movimento em um bairro acostumado à paz e tranquilidade que lhes brinda a patrulha contínua e a exagerada quantidade de câmaras de vigilância em cada esquina.

À distância fazemos chegar nossas forças a todos os companheiros na prisão que põem o corpo inquebrantável frente a estas adversidades.

Na Itália, França, Chile, Rojava e todo o mundo… QUE VIVA A ANARQUIA!! ABAIXO AS PRISÕES!!

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As flores na árvore
Esperam de branco
O fruto

Eugénia Tabosa

[Irã] Em memória do companheiro Aref Ghanbarzai, de 15 anos, membro da Federação Anarquista ERA

Aref Ghanbarzai (Ghanbarzehi), era um membro de nossa organização que tinha 15 anos de idade e vivia na cidade de Zahedan, no sudeste do Irã. Foi assassinado por duas balas do regime fascista por resistir à prisão, com as mãos vazias, em seu degradado bairro marginal em 22 de setembro de 2022.

Aref era um militante anarco-egoísta e jovem trabalhador que se dedicou a aprender a ler e escrever em idioma persa. Mostrou grande interesse pelos temas políticos contemporâneos e a história da filosofia em nossas tertúlias.

Não temos uma foto de nosso companheiro, porque estava sem documento de identidade como muitas outras pessoas de Baluchistán.

SEMPRE RECORDAREMOS TUA ORGULHOSA LUTA!

A União Anarco-Egoísta de Sistán e Baluchistán, parte das auto-organizações dentro da Federação Anarquista ERA

Páginas de redes sociais da Federação Anarquista ERA:

https://asranarshism.com/1401/08/25/aref-ghanbarzai-1/

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Não tenho certeza,
mas acho que os grilos gostam
da minha janela.

Humberto del Maestro