[Itália] Fora Alfredo do 41 bis. Presença solidária por ocasião da audiência no tribunal de vigilância penitenciária de Roma, 12 de junho de 2026

FORA ALFREDO DO 41 BIS

PELA SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL ENTRE OS OPRIMIDOS

CONTRA TODOS OS DONOS DA GUERRA E DA EXPLORAÇÃO

Com a aproximação do fim dos primeiros quatro anos de aplicação, em 30 de abril o Ministério da Justiça comunicou a renovação por mais dois anos do regime 41 bis em relação a Alfredo Cospito. No dia 12 de junho está prevista a audiência no Tribunal de Vigilância Penitenciária de Roma sobre o recurso contra a renovação feita pelo ministério.

Alfredo Cospito é um anarquista preso em 2012 por ter atingido um dos máximos responsáveis pelo desastre nuclear que virá. Após quase 10 anos de prisão, foi transferido para o regime de detenção mais aflitivo e vexatório existente nos presídios italianos. Uma medida alinhada com as manobras repressivas de todos os últimos governos, portanto clara expressão de políticas de guerra interna, imposta com o objetivo de silenciá-lo e interromper a circulação de seus textos. Simultaneamente, na fase final do processo antianarquista “Scripta Manent”, ele foi colocado em risco de uma condenação à prisão perpétua ostensiva.

O movimento de solidariedade internacional de 2022-2023, desenvolvido especialmente durante a longuíssima greve de fome de Alfredo, rompeu o equilíbrio político e repressivo sobre o qual se baseava a intenção de aniquilamento total representada pela combinação do 41 bis com o risco de uma condenação à prisão perpétua (na época praticamente certa). Ao mesmo tempo, essa mobilização rasgou o manto de silêncio imposto sobre um regime prisional de tortura até então intocável. Por fim, no ano passado, ocorreu a absolvição de 12 anarquistas, entre eles o próprio Alfredo, investigados em Perugia pela publicação de um jornal anarquista revolucionário. Uma investigação que havia sido um importante sustentáculo para a transferência para o 41 bis.

Alfredo Cospito ainda hoje está recluso nesse regime de tortura branca, portanto a mobilização não terminou. Continuar a lutar contra o 41 bis não tem a ver apenas com a prisão e a repressão estatal: o encarceramento de alguns revolucionários nas seções especiais é um alerta para as forças mais vivas no âmbito da luta contra o Estado e o capitalismo.

Continuar a lutar contra o 41 bis é, portanto, parte integrante de uma perspectiva revolucionária que não se extingue. Por uma liberdade autêntica e integral que ainda não existe nesta realidade, mas que continua pulsando em nossos corações, assim como nos corações daqueles que deram tudo de si, até o fim e sem meias medidas. Sara Ardizzone e Alessandro Mercogliano, anarquistas tragicamente mortos em ação no mês de março, estão entre esses companheiros cuja coerência e dignidade continuarão a perturbar o poder. Também por eles tomamos a iniciativa.

SEXTA-FEIRA, 12 DE JUNHO DE 2026, ÀS 09H00: PRESENÇA SOLIDÁRIA NAS PROXIMIDADES DO TRIBUNAL DE VIGILÂNCIA PENITENCIÁRIA DE ROMA, NA VIA TRIBONIANO.

individualidades anárquicas dispersas

Fonte: https://circoloculturaleanarchicofiaschi.noblogs.org/2026/05/31/fuori-alfredo-dal-41-bis-presenza-solidale-in-occasione-delludienza-al-tribunale-di-sorveglianza-di-roma-12-giugno-2026

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Cai orvalho
No coração oscilante
Manhã cinzenta

Kingo Yamazaki

[Espanha] Que floresça a anarquia!

Por Assembleia Anarquista de Sevilha | Ilustração: Helena García

Em 12 de fevereiro de 2026, no CSOA La Yesca, nos apresentamos a Assembleia Anarquista de Sevilha. Após mais de dois anos de trabalho interno, havia chegado o momento de nos abrirmos e ampliarmos nossas forças para construir anarquia em Sevilha e além.

Nossa assembleia nasce da necessidade de nos unirmos novamente, superar a dispersão do movimento anarquista sevilhano nos últimos anos e criar um projeto libertário sólido que nos permita voltar a acreditar seriamente naquele mundo novo que tanto sonhamos. Quando nos reunimos pela primeira vez em dezembro de 2023, muitas de nós havíamos passado por uma época de frustração por umas lutas sociais reduzidas a mobilizações cidadãs e assembleias como fim em si mesmas. Algumas de nós tinham se desgastado com o esforço de puxar o carro entre apenas poucas, conciliando ainda o ativismo com a necessidade de pagar o aluguel. Quem nunca se sentiu cansada do capital e de não ter tempo para acabar com ele?

Analisando o contexto político, chegamos à conclusão de que a desmobilização que pretendíamos deixar para trás era resultado não apenas do impacto dos anos de repressão contra o movimento anarquista, mas também de uma evolução compartilhada por movimentos sociais de todo tipo que, de forma bem resumida, poderia ser assim descrita:

2008-2011: Estoura a bolha, e evidencia-se a promessa enganosa do crescimento infinito. As pessoas perdem suas casas, vão para o desemprego e já não conseguem fechar as contas do mês. Surgem mobilizações e lutas por toda parte, tentativas constantes de lutar contra a autoridade.

2011: Da lama de umas e do esforço de outras, nasceu o 15M. Enche as praças de assembleias, horizontalidade e autorganização. A explosão se espalha pelos bairros.

2014-atualidade: Surge o Podemos [partido]. Instrumentaliza a mobilização, drenando-a para um canal institucional. Oportunismo e reforço da social-democracia sob novas siglas. Espalha-se o neorreformismo e cresce a desilusão, a desorganização, a apatia.

2020: A pandemia evidencia as prioridades capitalistas: produção acima da saúde. Em meio ao confinamento classista, o medo é usado para justificar mais vigilância e repressão.

2019-atualidade: A aceitação do autoritário se acumulou: adolescentes reivindicando Franco, racismo exacerbado, líderes autoritários despontando pelos bairros. Ou nos organizamos ou seremos atropeladas.

Sim, é preciso nos organizar, deixar de nos sentir sozinhas diante da dureza do que está por vir. Sem dúvida, o avanço do fascismo, o racismo cada vez mais descarado e a escalada belicista estão entre as principais ameaças que nos empurram a colocar a mão na massa o quanto antes. Com a mesma urgência sentimos a necessidade de combater a violência policial e a repressão na qual o Estado — também o social-democrata — mostra sua face mais feia. É claro que também não podemos deixar de lado a luta por moradia, nem aquela que pretende acabar com o extrativismo que reduz nosso planeta a matéria-prima.

Sabemos que compartilhamos essas preocupações com muitos outros coletivos do mundo libertário, embora as maneiras de enfrentá-las sejam múltiplas e tenham dado origem a árduas discussões sobre modelos organizativos e formas de ação. Nós decidimos conscientemente não nos filiar a nenhuma corrente, mas sim conhecê-las todas e aprender com cada uma o que mais nos convença em nosso contexto atual. Adoraríamos que nossa assembleia se tornasse um impulso para um ecossistema anarquista diverso, no qual todos os coletivos e individualidades libertárias de Sevilha encontrem seu lugar, complementando-nos uns aos outros.

Ao mesmo tempo, vemos como imprescindível fundamentar nosso trabalho coletivo em ideias comuns. Por isso dedicamos grande parte de nossos primeiros dois anos de vida ao debate interno para nos dotarmos de princípios, táticas e finalidades frutos de um pensamento profundo. Partimos da rejeição a toda autoridade, hierarquia e sistema de opressão: o Estado, o capitalismo, as instituições religiosas, o patriarcado e o colonialismo. Em contrapartida, defenderemos sempre a liberdade, a igualdade, a solidariedade e o apoio mútuo. Faremos isso praticando a horizontalidade em nosso dia a dia, deixando para trás o reformismo e promovendo a ação direta. Acreditamos na necessidade de intensificar o conflito contra as estruturas de poder. Não compramos nem queremos suas promessas de paz social em troca de submissão.

Pretendemos construir uma cultura militante forte, aspirando a viver nossas ideias anarquistas em cada faceta da vida. Entendemos que isso implica coletivizar o cotidiano e, a longo prazo, transformar a Assembleia Anarquista em uma rede de apoio mútuo, apoiada em estruturas de autogestão, que nos permitam sustentar umas às outras dependendo cada vez menos de remendos institucionais ou capitalistas. Ao mesmo tempo, sentimos a responsabilidade de nos envolver em lutas sociais locais. Apostamos na coordenação de anarquistas tanto em nossa cidade quanto no resto do território. Em todos os nossos passos, seremos sempre movidas pela paixão pela anarquia, aquela sociedade livre e solidária que, por mais distante que hoje nos pareça, continuamos vislumbrando no horizonte.

Encheu-nos de alegria o grande número de pessoas que compareceu à nossa apresentação, algumas movidas pela curiosidade de se aproximar do anarquismo pela primeira vez, outras buscando um espaço para voltar a se entusiasmar. Nossa comissão de acolhida continua aberta para receber aqueles e aquelas que queiram começar a caminhar conosco.

Se o mundo atual te causa raiva e angústia, se você está buscando uma comunidade forte para enfrentá-lo, se compartilha do nosso amor pela anarquia… Não fique sozinhe em casa. Acenda a chama!

Assembleia Anarquista de Sevilha

asambleaanarquistasevilla.noblogs.org @sevillanarquista

Fonte: https://eltopo.org/que-florezca-la-anarquia/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Flocos de algodão
suspensos nos ramos verdes.
Paineira no outono.

Delores Pires

[França] Manifestação contra o fascismo e a guerra: milhares de pessoas marcham em Paris em homenagem a Clément Méric

Milhares de pessoas manifestaram-se no sábado (06/06) nas ruas de Paris, atendendo ao apelo de grupos antifascistas, organizações políticas e movimentos ativistas para denunciar a ascensão da extrema-direita, a violência fascista e os conflitos armados internacionais.
 
A marcha, que começou na Praça da República sob forte presença policial e de ativistas, reuniu participantes de diversos países, orientações políticas e associações. Bandeiras antifascistas, palestinas e de várias vertentes da esquerda foram exibidas durante toda a manifestação, enquanto diversas faixas denunciavam o “fascismo e a guerra”.
 
A manifestação também teve como objetivo homenagear Clément Méric, um jovem ativista antifascista que morreu em 5 de junho de 2013, após ser violentamente atacado em Paris por militantes de extrema-direita na sequência de uma discussão perto da estação ferroviária de Saint-Lazare. Com 18 anos, estudante do Sciences Po Paris e membro do grupo Ação Antifascista dos Subúrbios de Paris, ele se tornou uma figura emblemática na luta contra a extrema-direita na França.
 
Gritos de ordem como “Clément, presente!” e “Sem fascistas em nossos bairros, sem bairros para fascistas” foram entoados repetidamente durante a marcha. Vários manifestantes também acenderam sinalizadores de fumaça vermelha.
 
Os organizadores denunciaram o que consideram a normalização da retórica da extrema-direita na França e na Europa, bem como a “militarização das sociedades” e os conflitos armados em curso em diversas regiões do mundo. Alguns participantes expressaram solidariedade ao povo palestino e criticaram o apoio ocidental a Israel na guerra de Gaza.
 
A manifestação ocorreu em clima tranquilo, sem incidentes graves. Essa mobilização faz parte de uma série de eventos organizados anualmente por ocasião do aniversário da morte de Clément Méric, que se tornou um símbolo dos movimentos antifascistas na França.
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/06/04/franca-morte-de-clement-meric-milhares-de-manifestantes-nas-ruas-de-paris/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
dedo macio
doce siririca
fêmea no cio
 
Carlos Seabra

Fujimorismo: A dinastia do crime e da farsa de Estado no Peru

Manuel González Prada nos alertou que, no Peru, “onde quer que se coloque o dedo, pus escorre”. Décadas depois, a putrefação progrediu tanto que não encontramos mais um corpo doente, mas um cadáver social neste território ocupado chamado Peru. Grande parte dessa decadência se deve ao legado do regime de Alberto Fujimori e à perpetuação desse legado, agora liderada por sua filha, Keiko Fujimori.

O fujimorato da década de 1990 foi o exemplo perfeito de autoritarismo e controle social. Não só perseguiu opositores, como também neutralizou qualquer indício de dissidência social. Para alcançar esse objetivo, aperfeiçoou mecanismos de idiotização e despolitização em massa: uma mídia corrupta, um sistema de educação pública deplorável e programas de bem-estar social populistas envoltos em um eficaz marketing político. Dessa forma, construíram a figura de um “salvador” em uma nação historicamente acostumada a esperar por messias, impedindo-a de compreender que a verdadeira emancipação reside nos indivíduos organizados.

A compra literal de apoio político, revelada nos infames “Vladivideos“, filmados pelo mentor do regime, Vladimiro Montesinos, institucionalizou a corrupção, transformando-a em uma prática normalizada dentro da estrutura institucional peruana. Essa mesma lógica criminosa permanece intacta até hoje. O julgamento oral do “Caso Cócteles” contra Keiko Fujimori, no qual a promotoria busca uma pena de 30 anos de prisão, revelou a lavagem de mais de US$ 18 milhões, financiados secretamente pela construtora transnacional Odebrecht e pela oligarquia financeira local. Isso evidencia uma grande verdade anarquista: os partidos políticos não representam as comunidades, mas sim são empresas de fachada financiadas pela alta burguesia para comprar o aparato estatal por meio de votos delegados.

Apesar de sua fuga para o Japão e subsequente captura no Chile, a prisão de Alberto Fujimori acabou sendo um confinamento VIP. Enquanto isso, seu círculo íntimo operava nos bastidores para pavimentar o caminho para seus sucessores, consolidando Keiko Fujimori como chefe da organização. Com o tempo, o fujimorismo forjou alianças estratégicas com a APRA e outras facções da direita formal. Isso demonstrou que as redes estatais se reorganizam para manter o poder nas mãos dos mesmos grupos; os “líderes” podem cair, mas a máfia política permanece.

Na última década, as formas mudaram, mas não a essência. Ao conquistar a maioria no legislativo, o fujimorismo repetiu a lógica do absolutismo: fazer e desfazer decisões no Congresso. Utilizaram a mídia corporativa para empobrecer cognitivamente a população com conteúdo de baixa qualidade. Ao mesmo tempo, o movimento social — sistematicamente destruído na década de 1990 — tentou se reorganizar, mas acabou se dissolvendo devido à ascensão de líderes autoritários nacionalistas e de esquerda que buscavam apenas ganhos eleitorais, reforçando assim o mito messiânico do homem forte.

Hoje, um Congresso com maioria fujimorista e aliado aos setores mais ultraconservadores tomou o poder absoluto. Eles destituíram presidentes arbitrariamente, impuseram um sistema bicameral explicitamente rejeitado pelo povo em referendos e anularam a capacidade de legislação de iniciativa popular. Esse absolutismo parlamentar resultou nas chamadas “leis pró-crime”. Por meio de legislações como a Lei 32108, que obstrui operações judiciais contra o crime organizado, ou o prazo de prescrição para crimes contra a humanidade (Lei 32107), aprovada para garantir a impunidade dos assassinos do Estado na década de 1990 diante dos massacres de camponeses, o fujimorismo transformou o legislativo em um bunker protetor para corporações ilícitas e criminosos de colarinho branco. Tudo isso ocorre sob uma retórica de “democracia e ordem” que apela para o trauma histórico do conflito armado interno. O fujimorismo usa o espectro do Sendero Luminoso para rotular como “terrorista” (terruqueo) qualquer pessoa que levante a voz, justificando a criminalização do protesto e o uso implacável da violência policial.

Para pôr fim a essa desordem social destrutiva, a tarefa histórica não é reformar o Governo, mas desmantelar completamente o Estado da era fujimorista e seus mecanismos de controle. Atualmente, a coalizão mafiosa liderada pelo fujimorismo utiliza sistematicamente quatro mecanismos estatais principais para garantir sua hegemonia:

  1. O Mecanismo de Impunidade Legal (Captura do Sistema Judiciário): Através da subjugação do Tribunal Constitucional, da Ouvidoria e do constante assédio à Procuradoria-Geral da República, desativaram os mecanismos de controle e equilíbrio do sistema judiciário. O Estado não processa mais crimes; ele se tornou um escudo legal que engaveta as investigações do Ministério Público contra criminosos de colarinho branco.
  2. O Dispositivo de Castração Legislativa (O Cadeado do Congresso): Ao controlar o aparato bicameral, eles anularam o direito da população à iniciativa legislativa autônoma ou ao referendo. As leis não emergem mais do tecido social, mas são, em vez disso, decretos corporativos elaborados para favorecer monopólios e máfias envolvidas em mineração ou extração ilegal de madeira.
  3. O Aparato de Coerção Armada (Militarização e Leis de Impunidade Policial): Ao modificar as normas policiais e criminais para enfraquecer as investigações, o fujimorismo concedeu carta branca à impunidade às forças repressivas do Estado. O monopólio da violência armada serve para proteger os interesses comerciais da mineração e da extração, massacrando e processando qualquer tentativa de greves ou protestos regionais.
  4. O Dispositivo Ideológico da Alienação Mental (Guerra Cultural e Mídia): Operando por meio de corporações televisivas oligárquicas, elas disseminam conteúdo lixo que destrói a memória histórica, promove o hiperconsumismo e normaliza o fascismo social através da xenofobia e do classismo.

Nessa farsa de controle, tanto o fujimorismo quanto a esquerda partidária concordam: ambos reduzem a política ao ato submisso de votar. Os partidos obedecem a cálculos econômicos e pactos burocráticos que excluem completamente o povo da tomada de decisões diretas. A esquerda peruana, serva da lógica eleitoral, tem sido incapaz de renovar o movimento social sem instrumentalizá-lo em suas campanhas, alimentando a falsa crença em um “Estado salvador”. Mas o Estado peruano é uma máquina quebrada; não importa quantas vezes troquem de motorista ou tentem consertar o leme, ele só produz burocracia e um completo distanciamento das necessidades do povo.

Sob o jugo fujimorista, apostar em processos democráticos limitados às urnas é validar a continuidade do seu controle. O legado dos Fujimori persiste porque a estrutura estatal o permite. Diante disso, resta apenas a resistência popular auto-organizada. Precisamos de um movimento social autônomo, livre da interferência de partidos políticos, que teça redes genuínas de apoio mútuo em vez de depender da assistência estatal. O objetivo deve ser avançar rumo a autogovernos horizontais e federados que funcionem como polos econômicos alternativos ao capitalismo, desmantelando pela raiz os aparatos estatais que servem tanto ao fujimorismo criminoso quanto a uma esquerda reformista, desgastada e complacente. Poder popular e horizontal, sempre. Saúde e Liberdade nos Andes.

Christian Alarta

agência de notícias anarquistas-ana

no despenhadeiro
a sombra da pedra
cai primeiro

Carlos Seabra

[México] “Milhões e milhões gastos para maquiar uma cidade cheia de feridas”

Milhões e milhões gastos para maquiar uma cidade cheia de feridas, colocando perfume no que cheira a sangue e ausência, buscando a “celebração” da Copa do Mundo que enriquece os ricos enquanto a classe trabalhadora continua tentando sobreviver.
 
Temos lido muito que o espírito da Copa do Mundo não é mais o mesmo de antes; nos parece que isso se deve ao fato de que o espírito social está oprimido, está indignado.
 
Nenhum lustre no metrô, nem um mural de um ajolote¹, nem corrimãos roxos escondem a realidade; apenas mostram o quanto estão distantes da situação pela qual a população está passando.
 
Las brujas del mar
 
Nota
 
[1] A FIFA proibiu o uso do ajolote como mascote nos estádios e arredores durante a Copa do Mundo de 2026, devido a restrições de direito$ autorai$. A entidade exigiu a remoção de estátuas e painéis do animal, que havia sido promovido pelo governo da Cidade do México, para priorizar exclusivamente os mascote$ oficiai$ da competição.
 
Conteúdos relacionados:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/06/05/mexico-o-futebol-sera-rebelde-anticapitalista-comunitario-e-popular/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/06/05/mexico-a-capital-dos-desaparecimentos-forcados/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/05/11/antimundial-mexico-2026/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
teu corpo deitado
acorda desejos
não confessados
 
Eugénia Tabosa

[Porto Alegre-RS] 13/06 – Além das Fronteiras: Construindo Uma Vizinhança Internacionalista Revolucionária

No sábado, dia 13 de junho, nos conectaremos por vídeoconferência com companheirys da cooperativa 400 Voces, na Cidade do México (território ocupado pelo Estado mexicano), do Espacio Flora em Valparaíso (território ocupado pelo Estado chileno) e da Kasa Invisível, em Belo Horizonte (MG), com o intuito de aproximar e fomentar a cooperação internacionalista. Essa atividade é uma resposta ao chamado da rede Os Povos Querem e visa arrecadar fundos para o fortalecimento de espaços na Síria e Uganda.
 
Essa atividade será em Espanhol sem tradução.
 
Assista o chamado de Os Povos Querem:
 
https://kolektiva.media/w/ve7DvdEY5daQw37cQQYG1D
 
Sábado, 13 de junho. Abertura do Esp(a)ço, 18h. Início da atividade às 18h30h.
 
Lembramos que o Esp(a)ço não possui apoio de empresas ou governos e contamos com o apoio da comunidade para continuarmos de portas abertas. Para saber como apoiar, clique aqui (https://espaco.noblogs.org/apoie/).
 
Atenção: Para garantir o conforto e segurança de todas as pessoas presentes, pedimos que se você possuir histórico ou denúncia por reproduzir comportamento abusivo ou opressivo, assédio, abuso ou outro tipo de violência, por favor, entre em contato conosco pelo nosso e-mail ou redes sociais antes de comparecer. Não fazer isso é não se responsabilizar por suas ações e será solicitado que se retire.
 
espaco.noblogs.org
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
gota na água
faz um furinho como
prego na tábua
 
Carlos Seabra

O homem que matou o apartheid.

Por Carlos Ferreira de Araujo JR.

Dimitri Tsafendas foi um ativista anarquista/comunista nascido em 1918, na cidade de Lourenço MarquesMoçambique, de ascendência grega e moçambicana.  Tsafendas entrou para história por ter assassinado o primeiro-ministro da África do Sul H.F. Verwoerd, em 6 de setembro de 1966. Dimitri Tsafendas esfaqueou H.F. Verwoerd até a morte, em plena sessão ordinária na câmara legislativa da Cidade do Cabo.

Tsafendas era filho do anarquista grego Michalis Tsafandakis e de Amélia Williams, negra moçambicana. Desde cedo Dimitri Tsafendas se interessou por política. Durante a sua intensa vida, Dimitri Tsavendas aprendeu várias línguas: português, inglês, grego, turco, africâner. Aos 16 anos já havia sido demitido de vários empregos por conta de suas posturas políticas libertárias e comunistas. Morou alguns meses na Etiópia. 

Em Portugal Moçambique, Tsafendas foi vigiado pela PIDE, polícia fascista portuguesa. Na década de 1940, entrou ilegal na África do Sul e se filiou ao Partido Comunista. De alguma forma conseguiu ingressar na Marinha americana e foi enviado para a Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Guerra, ele foi deportado dos Estados Unidos para a Grécia. No país do seu pai, Tsafendas lutou na Guerra Civil Grega ao lado do Exército Democrático.

Com o fim do conflito, Dimitri Tsafendas foi para Portugal onde foi preso por 9 meses. Ao ser solto, Tsafendas se mudou para a Turquia. Depois foi para a Grécia onde aprendeu a fabricar bombas com os partisans gregos. Da Grécia foi para a Turquia onde se tornou professor de inglês.

Na década de 1960, Tsafendas convenceu o governo de Portugal de que não era mais um comunista. Em 1963, volta para Moçambique, mas em 1964 é preso em um comício anticolonialista e pró independência. Ao abrir uma das malas que Tsafendas carregava, a PIDE portuguesa encontrou bíblias, mas também diversos livros anticolonialistas e subverisovs. As autoridades chegaram à conclusão de que Tsafendas se fingia de missionário para propagar ideias subversivas e anticolonialistas. Porém, Tsafendas insistiu na versão de quer era um apóstolo de Cristo. Os médicos acreditaram na sanidade do militante deram alta para o militante. Tsafendas se mudou para a África do Sul por volta de 1965.

Assassinato do Primeiro-Ministro

Dia 6 de setembro de 1966. Parlamento da Cidade do Cabo, África do Sul. Naquela tarde, H.F. Verwoerd, o poderoso Primeiro-Ministro da África do Sul, o Grande Arquiteto do Apartheid, estava sentado em sua cadeira oficial, conversando tranquilamente com seus pares, igualmente racistas e tagarelas como ele, quando Dimitri Tsafendas, àquela época um funcionário oficial do parlamento, um burocrata de segunda categoria aos olhos daqueles senhores, entra rapidamente no local, se dirige ao primeiro-ministro, saca um enorme punhal e desfere profundos golpes contra o peito e o pescoço de Verwoerd que morre minutos depois, afogado no próprio sangue.

Tsafendas foi imediatamente detido. Ali mesmo foi brutalmente espancado por seguranças e parlamentares. Minutos depois, Tsafendas foi levado ao hospital e depois a prisão. A um jornalista revelou o motivo do ato extremado: vermes que habitavam o interior do seu estômago. Para muitos, a declaração bizarra de Tsafendas era uma nítida estratégia de forjar uma insanidade mental e talvez escapar da prisão. Tempos depois, Tsafendas apresentaria um motivo bem menos delirante: matar o ministro anteciparia o fim do Apartheid.

Dimitri Tsafendas foi preso e conduzido para a prisão da Ilha Robens. Com o fim do Apartheid, em 1994, Tsafendas foi transferido para um hospital Psiquiátrico. Em 1999, a cineasta sul africana Lisa Key gravou um documentário chamado Question of Madness com duas entrevistas cedidas por Dimitri Tsafendas. No filme, a cineasta defende que o militante assassinou o ministro por um motivo político, não por insanidade.

Dimitri Tsafendas, o comunista, libertário, antirracista, poliglota e anticolonialista que matou o arquiteto do Apartheid morreu em 1999, aos 81 anos.

REFERÊNCIAS

Tsafendas was not insane. He killed Verwoerd for political reasons: author”. TimesLIVE. 9 November 2018. Retrieved 24 November 2025.

Kenney, Henry (2016). Verwoerd: Architect of Apartheid. Jonathan Ball Publishers. ISBN 978-1-86842-716-1.

Barberá, Marcel Gascón (18 January 2019). “Mad Man? The Greek Who Killed Apartheid’s Architect”. Balkan Insight. Retrieved 13 January 2022.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

agência de notícias anarquistas-ana

grama nos trilhos
composições mudas
sem estribilhos

Carlos Seabra

[EUA] Lançamento: “Cartão Vermelho – A Copa do Mundo de 2026, o Sportswashing e a Máquina de Ganância da FIFA”, de Jules Boykoff

A Copa do Mundo chegou, mas que função um torneio global desempenha em um Estado policial cada vez mais beligerante, com Donald Trump no comando?

Publicado às vésperas da Copa do Mundo de futebol sediada pelos Estados Unidos, México e Canadá, este panfleto conciso e contundente oferece uma análise crítica do lado sombrio do chamado “jogo bonito” em seu momento mais emblemático.

No centro desta análise do renomado jornalista esportivo e pesquisador Jules Boykoff, que também jogou futebol profissionalmente, está o conceito de sportswashing, prática pela qual líderes políticos utilizam o esporte para estimular o nacionalismo e legitimar a si próprios no cenário mundial, desviando a atenção de problemas crônicos em seus países. Entra em cena o recém-condecorado com o novo Prêmio da Paz da FIFA, Donald J. Trump, uma figura sem rivais quando se trata de extrair cada gota possível de riqueza pessoal e prestígio da realização do torneio. Nessa tarefa, ele conta com a eficiente colaboração de uma entidade máxima do futebol mundial marcada pelo clientelismo e pela corrupção.

Nestas páginas, Boykoff demonstra que é possível, ao mesmo tempo, admirar a habilidade e o atletismo exibidos em campo e lamentar sua exploração por agentes de poder para os quais o amor pelo esporte não significa nada diante da oportunidade de lucrar ou acumular prestígio. E, como Cartão Vermelho mostra de forma habilidosa, esse truque não se limita ao futebol. Exatamente o mesmo expediente será utilizado para distrair a opinião pública e enriquecer determinados interesses quando os Jogos Olímpicos chegarem a Los Angeles daqui a dois anos.

Elogios

Arranca o curativo que encobre a realpolitik tóxica do futebol global.” – Christopher Gaffney

Precisamos urgentemente de escritores e pensadores como Boykoff para nos incentivar a recuperar o esporte do povo para as comunidades que ele deveria servir.” – Nick McGeehan

Leitura essencial para qualquer pessoa que realmente ame o jogo bonito e acredite nos verdadeiros valores do esporte: integridade, inclusão e direitos humanos.” – Andrea Florence

O novo livro de Jules Boykoff é leitura indispensável para quem deseja compreender a degradação gradual do futebol internacional e como recuperar a beleza presente no esporte.” – Karim Zidan

Ninguém está mais preparado do que Boykoff para examinar a Copa do Mundo da FIFA… Ele a crítica com nuance, inteligência e vigor… leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada em futebol, transparência e verdade.” – Shireen Ahmed

É tão erudito quanto sincero. A crítica contundente de Boykoff não deixa o leitor derrotado, mas esperançoso de que possamos devolver vida ao futebol.” – Brenda Elsey

Red Card

The 2026 World Cup, Sportswashing, and the FIFA Greed Machine

JULES BOYKOFF

Capa comum (paperback)

120 páginas

ISBN: 9781682195284

Editora: OR Books (09/06/2026)

Dimensões: 5 x 0,5 x 7 polegadas

Preço: US$ 17,95

orbooks.com

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Frio leve de outono…
A passarada se recolhe
antes do pôr-do-sol!

Irene Fuke

O negacionismo ambiental do governo Lula e da esquerda da ordem é sutil, mas é negacionismo e serve à ilusão de um capitalismo verde.

Por Renato Athayde Silva | 06/06/2026
 
Não adianta fazer discurso bonito enquanto o modelo de “desenvolvimento” do país segue fazendo avançar o colapso ambiental.
 
As perspectivas para a questão ambiental no Brasil são mais do que alarmantes.
 
1- Relações internacionais voltadas para expandir a venda de soja, gado e minério. Acordos com a UE e a China, por exemplo.
 
2- Novos poços de petróleo, inclusive na Amazônia.
 
3- Política trilionária de financiamento do latifúndio através do Plano Safra, Lei Kandir etc.
 
4- Investimentos em infraestruturas para exportação de commodities e produção de energia:
 
a. Pavimentação de rodovias no coração da Amazônia, com destaque para a BR-319.
b. Construção de hidrovias e ferrovias.
c. Novas hidrelétricas na Amazônia.
d. Expansão de outras formas predatórias de exploração de energias não fósseis como as “fazendas” eólicas e solares.
 
5- Liberação indiscriminada de agrotóxicos.
 
6- Proliferação de datacenters.
 
7- Aumento da mineração de terra raras.
 
Os governos brasileiros são reféns da nossa condição de economia periférica do capitalismo e nossa história de fornecedora de commodities para os países ricos.
 
O governo Lula pratica o negacionismo sutil. Finge que não é negacionista, mas mantém a política de desenvolvimento que nos aproxima cada vez mais do colapso.
 
Produzir menos. Produzir diferente. Dividir melhor.
 
Conteúdos relacionados:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/05/07/lula-ninguem-nesse-pais-tem-mais-responsabilidade-climatica-do-que-eu/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/06/20/lula-defende-exploracao-de-petroleo-na-foz-do-rio-amazonas-o-pais-nao-pode-deixar-de-ganhar-dinheiro-com-esse-petroleo/
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/04/22/governo-lula-planeja-nova-politica-de-mineracao-para-forcar-exploracao-de-minas/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
tu conheces pelo coração
a gramática do meu corpo
e seu dicionário
 
Lisa Carducci

Manifesto da Contra Parada Kuir

Entramos em mais um Mês do Orgulho LGBT, e já sabemos o que esperar: corporações desprezíveis colocando logos com as cores do arco-íris em suas redes sociais e usando nossas vidas e corpos para vender produtos e limpar suas imagens imundas, partidos, lideranças e polítiques se promovendo em cima de nossas lutas.

Quem somos?

Não somos conformadys com um sistema que nos aniquila. Não somos assimiladys e nem temos interesse em nos assimilar à norma. Nos recusamos a acreditar no “orgulho”. Nos recusamos a acreditar num orgulho que convive pacificamente num sistema que se sustenta através da morte da diferença.

Quem somos nós se não pessoas em um mundo que quer normatizar tudo? Somos animalizadys, monstrificadys, criadys em uma realidade cada vez mais hostil à nossa existência. 

Somos transviadys cuirs e cada vez mais forçadys a nos assimilar a um sistema hostil. É inegável o cinismo das pessoas que causam nossa marginalização e que fazem, no Mês do Orgulho, grandes discursos e demonstrações de um suposto apoio, enquanto direta ou indiretamente contribuem para nossa destruição.

Entramos em mais um Mês do Orgulho LGBT, e já sabemos o que esperar: corporações desprezíveis colocando logos com as cores do arco-íris em suas redes sociais e usando nossas vidas e corpos para vender produtos e limpar suas imagens imundas, partidos, lideranças e polítiques se promovendo em cima de nossas lutas.

Veremos discussões sobre “inclusão”, “respeito” e “representatividade” e notícias com temática LGBT publicadas pelos mesmos portais que repercutem e promovem as narrativas dos grupos que querem nos eliminar. Veremos a palavra “representatividade” sendo repetida em discursos, panfletos e redes sociais, como se a representação e a visibilidade fossem nossa salvação.

Além disso, teremos ainda mais oportunismo eleitoreiro por estarmos em ano de eleições. A 30⁠ª parada do Orgulho LGBT de São Paulo – a maior do mundo atualmente – terá como tema “a rua convoca, a urna confirma”. Que mesmo assimilando-se perdeu 60% dos patrocinadores, mostrando o quanto isso funciona, restando, entre os principais patrocinadores Amstel e Phillip Morris: cerveja e cigarro para LGBTs!

É mais uma manobra para arrebanhar LGBTs para as urnas e eleger candidatys que seguirão reproduzindo a mesma política responsável pela violência que incide sobre corpos dissidentes de gênero e sexualidade, sobre corpos marginalizados, racializados e PCD. 

Como diria a anarquista e uma das pioneiras na luta em favor das pessoas kuirs e contra a heteronormatividade, Emma Goldman: “se votar mudasse alguma coisa, o voto seria proibido”.

Segundo nos ensina Audre Lorde, sabemos que não se pode destruir a casa-grande com as ferramentas do senhor. Mas, diariamente, vemos esse ensinamento ser ignorado pelos movimentos LGBTs. 

É possível combater a transfobia, o racismo, a exploração e o patriarcado usando as ferramentas que produzem essas violências? Usando as instituições do patriarcado: governos, polícias e prisões? De forma alguma.

A cooptação e pacificação dos movimentos e lutas têm acabado com sua combatividade e potencial subversivo e fortalecido as mesmas instituições e relações que nos violentam ao invés de nos fortalecer. Um exemplo claro disso é a aposta de movimentos LGBTs na criminalização de condutas como forma de combater violências, como vimos com a criminalização da homo/lesbo/transfobia. 

Outro exemplo é o modo como o feminismo hegemônico, que é um feminismo de Estado, segue esse caminho, ao apostar na criminalização da misoginia e de movimentos masculinistas para combater a crescente violência patriarcal. Ao mesmo tempo, pouco tem se falado de propostas para se fortalecer e apoiar dissidências de gênero. Nós defendemos que essa violência deve ser enfrentada sem que dependamos do poder do Estado. Quanta energia está sendo usada para construir redes para fortalecer a autonomia das mulheres em abortarem e revidarem contra seus agressores?  

Essa postura punitivista dependente do Estado e sua justiça assassina, racista e colonial como mediador de conflitos sociais, alimenta a ilusão de que devemos recorrer a ele para nos proteger dessas violências ao invés de nos organizarmos diretamente para combatê-las. Isso é domesticação.

As instituições do Estado que alegam nos proteger, são as mesmas que nos matam. Basta olhar para o que está acontecendo nos territórios roubados dos Estados Unidos: uma leve mudança nos ventos políticos é o suficiente para que se modifiquem as leis e inicie-se uma perseguição a pessoas transviades, criminalizando suas existências. E essa perseguição estatal já começa a acontecer por aqui, basta olhar para a nova lei de Natal, no Rio Grande do Norte, que proíbe a participação de menores de 12 anos em eventos LGBTQIA+.

Em um momento de ofensiva global de movimentos conservadores, reacionários e da extrema-direita que têm, entre seus alvos, mulheres e pessoas kuirs, essa domesticação deixa essas pessoas desarmadas e despreparadas para enfrentar essas ofensivas enquanto armamos o Estado para nos atacar a qualquer momento.

Ninguém vai nos defender se nós mesmys não revidarmos.

Em junho convocamos coletivos, associações, grupos de afinidade e individualidades libertárias a realizar suas próprias ações contra a política da representação, a política partidária, estatal e capitalista e a extrema-direita. Não somos mercadorias, não somos negociáveis, não somos moeda de troca, não votamos e nos recusamos a ser governadys.

Em São Paulo, neste dia 07 de junho nos juntamos na estação Brigadeiro às 13h.

Assinam este Manifesto:

Acervo Digital Trans-Anarquista, Revolta Anarkokuir, CATs, Fúria Queer, Coletivo Antiordem, Antimídia.

transanarquismo.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

No grande jardim
Muitas flores plantadas
Lembram a mamãe.

Maria Aline Ferreira Dos Santos, 13 anos

Lançamento: “Anarquia é ordem” de Cássio Brancaleone

É com grande felicidade que nós, da Editora Terra Sem Amos, lançamos a obra “Anarquia é ordem: reflexões contemporâneas sobre teoria política e anarquismo“, escrita pelo sociólogo e professor Cassio Brancaleone, uma contribuição importante para o debate contemporâneo sobre anarquismo a nível nacional e mundial.

Partindo da crítica à exclusão histórica do pensamento libertário dos debates acadêmicos e políticos, o livro apresenta o anarquismo como uma tradição intelectual e prática capaz de oferecer respostas aos dilemas do presente. Ao dialogar com autores clássicos e contemporâneos, Brancaleone explora temas como autogoverno, autogestão, federalismo, ação direta e autonomia, demonstrando a atualidade das ideias anarquistas diante das crises políticas e sociais do século XXI.

A obra é, assim, um convite a repensar conceitos estruturantes como ordem, democracia, poder e organização social, mostrando que “anarquia” não significa caos, mas a construção coletiva de formas livres e solidárias de convivência.

O livro tem o valor de R$30,00 e frete grátis para todo o país. Em pré-venda, acompanha o pôster “Anarquia é ordem”. Encomende agora em tiny.cc/tsaeditora!

agência de notícias anarquistas-ana

Um reflexo roxo
no céu todo poluído –
Paineira florida

Sergio Dal Maso

[Chile] Múltiplas mobilizações estudantis diante de medidas antieducativas de Kast e militarização das salas de aula

Por La Zarzamora | 05/06/2026

No dia 3 de junho passado, ocorreram multitudinárias marchas estudantis nas diferentes regiões do território ocupado pelo Chile, em resposta às últimas medidas antieducativas do governo; por um lado, o projeto da megarreforma, que atualmente tramita no Senado e implica uma série de cortes econômicos que incluem o sistema educacional, e por outro, a militarização dos estabelecimentos educacionais, com um aumento progressivo do que inicialmente foi conhecido como “Aula Segura” e que hoje se agrava na iniciativa legal “Escola Protegida”.

Nas regiões, especificamente em Concepción, a convocação foi amplamente atendida por estudantes do ensino básico, médio e universitário, assim como por estudantes dos diferentes Lares Mapuche, que se manifestaram igualmente pela liberdade dos presos políticos e contra a reforma da Lei Indígena anunciada por Kast na prestação de contas pública, que pretende eliminar as poucas salvaguardas que existem para proteger as terras ancestrais da usurpação estatal e privada.

Em Santiago, as forças repressivas agiram com sua habitual covardia, reprimindo a multidão e deixando uma estudante de Direito da Universidade do Chile com múltiplas fraturas no rosto, que precisará ser submetida a cirurgia.

Cortes e Militarização

Cabe lembrar que os cortes na educação incluiriam: o PAE (Programa de Alimentação Escolar), o Fundo de Apoio à Educação Pública, o Programa de Acompanhamento de Acesso ao Ensino Superior, entre outras bolsas e benefícios.

Por outro lado, a Escola Protegida, iniciativa já despachada pelo Congresso, implica uma série de medidas que transgridem profundamente a comunidade escolar, focando antipedagogicamente na criminalização de infâncias e adolescências, permitindo violações como: revista e verificação de mochilas, medidas disciplinares que impedem elementos que protegem a segurança facial (ocultamento do rosto), a eliminação da gratuidade por 5 anos para estudantes que forem condenados por crimes de ataques à integridade física, uso de armas ou danos graves à infraestrutura, sanções diretas para quem liderar ou participar na paralisação total ou parcial das aulas, entre outras.

É necessário mencionar como antecedente que a intervenção policial nas escolas vem sendo executada há décadas no Chile, desde que foi promulgada a Lei Aula Segura (Lei 21.128) no ano de 2018 durante o governo de Piñera e que os protocolos de “segurança” das escolas incluem a entrada das forças repressivas nos estabelecimentos e a detenção de estudantes, ações que, disfarçadas como “protocolos de segurança”, são praticadas com a cumplicidade das equipes de gestão escolar das escolas, incluindo professores, UTP, diretores, entre outros.

As medidas, que são apresentadas à opinião pública como a solução para um problema de segurança, têm como um de seus principais objetivos coibir a organização e a protesto estudantil, criminalizando os estudantes e facilitando seu processamento legal, com a cumplicidade da estrutura educacional.

Em um sistema educacional sempre deficiente, de má qualidade e historicamente servil ao empresariado e à produtividade do país, as medidas do poder significam um grande retrocesso na luta estudantil das últimas décadas.

A escola nas mãos do poder empresarial ou estatal é violada em sua essência, impedindo relações saudáveis de aprendizagem e adestrando os estudantes, para criar seres mergulhados na ignorância e fáceis de controlar.

Professor, Professora consciente, em qual corrente pedagógica te ensinaram a ser cúmplice do abuso de poder? Em qual disciplina te ensinaram a dar aulas na presença policial? São perguntas que fazemos, quando testemunhamos o longo silêncio da comunidade educativa diante de um crescente modelo repressivo que se agrava.

Por uma educação autônoma e integral, tomemos a educação em nossas mãos.

Fonte: https://lazarzamora.cl/multiples-movilizaciones-estudiantiles-ante-medidas-antieducativas-de-kast-y-militarizacion-de-las-aulas/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Mesmo sendo míope
vejo crateras e sombras.
Lua desta noite.

Danita Cotrim

Bolívia: na encruzilhada da insurreição e da contrarrevolução

GUERRA SOCIAL NO ALTIPLANO

Os protestos na Bolívia se intensificaram nas últimas semanas. A normalidade e a paz social eternamente almejadas pelos capitalistas está rompida. Dezenas de bloqueios de estradas em rotas estratégicas que conectam La Paz a Cochabamba, Oruro e as passagens de fronteira com Chile e Peru multiplicam-se sem cessar, apesar da atroz repressão de policiais, bandos militares e capangas pagos, aos quais o proletariado respondeu com genuína violência organizada de classe.

A sociedade da mercadoria, por meio de seus chacais porta-vozes e abutres jornalistas, apressa-se a vomitar suas ideologias e ódio racial contra os insurgentes. Primeiro acusando os rebeldes, todos em bloco, de serem partidários de Evo Morales (manipulados pelos resquícios da ideologia MASista), ocultando o fato de que esta jornada de luta de rua não é por um personagem obsoleto, mas a resposta da classe trabalhadora às condições miseráveis de subsistência e às políticas de fome dos fantoches de plantão que buscam acelerar o saque de recursos (água, lítio, terras, minerais) e impor mais medidas de austeridade.

Enquanto isso, organizações que giram em torno da Central Operária Boliviana (COB), setores mineiros, camponeses e agrupamentos indígenas endureceram os protestos e começaram a exigir a renúncia do presidente Rodrigo Paz. Os “dirigentes sociais” (ou melhor, burocratas apaga-fogo) denunciaram uma crescente “traição do Governo para com as bases populares” e rejeitaram as convocações oficiais ao diálogo. Mas para nós, anarquistas-comunistas, toda essa queixa é uma patranha; não existe tal traição, pois é a ação natural da burguesia impondo sua vontade para assegurar a continuidade da dominação do Capital.

As organizações sindicais, longe de serem uma arma de luta contra o capital, são uma ferramenta perfeitamente integrada ao sistema, que servem como mediadoras e conciliadoras entre a classe dirigente e os explorados, para regular o preço da força de trabalho e impedir que a classe trabalhadora se constitua como força revolucionária. Outra de suas características nauseabundas é que cumprem a função de enquadrar a força massiva da classe em interesses setoriais, contribuindo para o divisionismo e a fragmentação da luta, fomentando a ilusão de que cada setor laboral, raça, etnia possui interesses particulares descolados do resto.

Assim como ocorreu recentemente no Equador com a CONAIE (Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador), que só serviu para desgastar, emperrar e liquidar as mobilizações, as grandes organizações burocráticas “de vanguarda” encarregadas das negociações (haverá algo a negociar com nossos inimigos de classe?) tentam levar novamente a classe trabalhadora ao desfiladeiro das ilusões democráticas burguesas, para que tudo continue igual ou pior do que antes.

O governo do pateta Rodrigo Paz apressou-se a negociar acordos para dividir o movimento, com concessões a alguns dos setores mobilizados. Negociou com as cooperativas, anulando uma dívida de 95 milhões de bolivianos com a Caixa Nacional de Saúde e mantendo o subsídio ao combustível. Também negociou com o magistério e com a COB de El Alto, e assinou um acordo com os dirigentes dos “ponchos vermelhos” de La Paz. Esses setores foram se retirando aos poucos do conflito. Ficou evidente que algumas das bases repudiaram seus líderes por terem assinado.

Permitimo-nos citar um fragmento de um texto que circula na web, que exemplifica e contribui para o mencionado (embora não compartilhemos sua perspectiva de “democracia operária”), demonstrando como essas máfias de “profissionais das lutas e das mobilizações” são as verdadeiras coveiras de toda tentativa revolucionária:

Enquanto no dia 30 de maio, Assembleias Gerais auto-organizadas como a de Patacamaya, com a participação de representantes das 77 comunidades da província de Aroma, decidiram, assim como em todo o país, rejeitar qualquer diálogo com o governo, exigir sua renúncia e manter bloqueios por tempo indeterminado, radicalizando a mobilização — com 93 bloqueios hoje, contra 60 há dois dias —, a direção da COB, a principal federação sindical, mais uma vez se esquiva de sua responsabilidade e adia — sob o pretexto da segurança — a Assembleia Geral Nacional, onde se deveria tomar uma decisão hoje: negociar com o governo ou continuar a luta até sua queda. E na tentativa de impedir esta Assembleia, a direção da COB não fixou data para a próxima.

A postura da direção da COB é clara para todos.

Numerosos comitês auto-organizados haviam convocado a participar desta Assembleia para decidir sobre a continuação da luta pela derrubada do governo, e era certo que obteriam a maioria, arrastando consigo as bases da COB. Isso teria efetivamente transformado esta assembleia aberta da COB numa direção nacional auto-organizada para a luta pela derrubada do governo. A direção da COB demonstrou hoje que não deseja derrubar o governo e, portanto, não quer que o atual movimento insurrecional pertença àqueles que o lideram.

Muitos consideram isso uma traição.

Ao mesmo tempo, isso não surpreende muitos, dado que a COB já havia traído a primeira fase do movimento em dezembro/janeiro de 2026, e acima de tudo, não desanima ninguém porque os comitês auto-organizados já haviam alertado amplamente sobre o que provavelmente aconteceria.

Isso não destruirá o movimento. Simplesmente incentivará os comitês auto-organizados a estabelecerem por si mesmos a direção democrática nacional SIC! da qual o movimento carece e que poderia ter se reunido hoje. [1]

Assim age a esquerda, o sindicalismo e o cidadanismo. Hoje te levam à greve, mas antes ou durante o processo já te venderam aos vorazes conglomerados empresariais e suas famílias políticas.

Enquanto se permanecer preso à narrativa de que esta luta é pela defesa da democracia e da soberania contra o avanço da extrema direita e do fascismo, estaremos condenados a que a luta transcorra sem perturbar as estruturas do sistema capitalista, transitando por simples substituições governamentais onde a burguesia nacionalista prepara o terreno para a chegada de burguesias excêntricas com menos escrúpulos (os Mileis, os Noboas, os Bukeles, os Trumps).

A Bolívia possui uma grande tradição de combatividade no terreno da luta de classes (desde a insurreição operária de 1952 até as guerras da água de 2000 e do gás em 2003). Esta jornada de luta foi possível graças à existência de uma comunidade de luta (perspectiva de coletividade, redes de apoio, assembleias, grupos de logística); e fica claro que, embora a massividade de um movimento não o torne invulnerável, sem uma base social que se lance à luta e se apoie mutuamente, a paz social do capitalismo se imporá de maneira mais violenta, ainda que o proletariado se encontre em situação de precariedade e miséria extrema (veja-se o caso da Argentina).

E DEPOIS DA INSURREIÇÃO?

Por outro lado, cabe esclarecer que hoje a situação de insurreição proletária na Bolívia não surge num contexto de revolução mundial, mas pelo contrário, ocorre num vórtice de contrarrevolução onde a burguesia se mostra desesperada em sua corrida de acumulação de capital — acelerando a guerra, o ecocídio e o controle tecnológico —. A ação dos blocos burgueses que representam os novos fascismos e as novas direitas tende a acelerar as contradições de classe, mas isso não significa que automaticamente nossa classe responda com eloquência e contundência aos ataques do capitalismo. Fica claro que não se pode deixar tudo à espontaneidade.

Se a batuta da luta é conduzida pela reformista Central Operária Boliviana (COB), após a decadência do MAS, é porque, de fato, as condições não amadureceram o suficiente para fazer contrapeso e levar adiante uma insurreição generalizada que vá além dos limites da pusilânime democracia e da esquerda. No entanto, superar isso não é algo que dependa especificamente da mera vontade de uns indivíduos ou de uma organização, mas só pode ser produto de balanços e rupturas dentro do próprio desenvolvimento da luta.

Duas décadas de revoltas em todo o mundo confirmam mais uma vez que lutar sob as bandeiras dos setores da esquerda reformista e progressista é condenar-nos à estagnação e a duros golpes que quebram a moral coletiva do proletariado. Não é surpreendente que na Bolívia, embora exista neste momento uma comunidade de luta proletária com grande combatividade, existam limitações produto da confusão e da desídia, que abrigam o risco de levar a rebelião a um ponto morto.

Isso quer dizer que se deve permanecer imóvel e expectante “até que as condições estejam dadas”? Acreditamos que não. Embora saibamos que não estamos sequer numa fase “pré-revolucionária”, isso não é o fim do caminho, nem significa a conclusão da luta, nem muito menos nossa derrota definitiva.

Os fatos materiais evidenciam a luta proletária, não como deveria ser, mas como é: contraditória em meio ao caos e à revolta, com a inevitável interferência em seus começos de setores interclassistas e reformistas que buscarão tirar proveito da partida. Nunca surgirá em condições ideais e à nossa conveniência. É por isso que de nada serve isolar-nos em nome de uma pureza revolucionária. Como agitadores e revolucionários, devemos incentivar o transbordamento das próprias organizações que demonstraram ser obsoletas para estender a luta, não para “melhorá-las ou mudá-las por dentro”, mas para rompê-las, superá-las e criar nossos próprios organismos autônomos que respondam aos nossos interesses históricos de classe… até a revolução social.

É absurdo pensar que depois de décadas de esquartejamento do proletariado e suas estruturas de combate e luta radical (seja pela repressão ou cooptação), ele vá desenvolver da noite para o dia uma aglutinação para lançar-se ao assalto ao céu com um programa revolucionário na mão e a bandeira com a inscrição Omnia sunt communia. Não é assim que funciona a luta de classes. Não é que primeiro o proletariado “adquira consciência, se faça revolucionário e depois se lance à luta”, mas é no processo da luta (sempre convulso, complexo, cheio de contradições e erros) que ele desenvolve sua consciência e revela a perspectiva revolucionária, ou pelo menos, aí se tornam mais evidentes os limites oprobriosos do reformismo, forçando-o a repensar os métodos de luta.

Os setores que já estão imersos nas bases dessas organizações, que tenham percebido que delegar a luta só levará ao impasse, deverão atender essa problemática e se reagrupar para superar essa contradição.

O governo tem clara sua resposta: estado de sítio, lei da mordaça, repressão brutal e gatilho fácil para sufocar a revolta o mais breve possível. Apesar dos mortos, ainda não conseguiu e sua desesperação aumenta. Mas o que há do outro lado da barricada? Continuaremos abrigando a estúpida esperança de que outros governos progressistas ou o bloco chinês-russo-iraniano intervirão de fora para nos salvar? Todos os estados são inimigos do proletariado e, mais cedo ou mais tarde, nos esmagarão ou entregarão como butim a seus rivais. O proletariado não tem amigos entre a burguesia; conta apenas com suas próprias forças, memória histórica e métodos de luta.

O barril de pólvora continua junto ao pavio, as mobilizações continuam e as assembleias de bairro seguem fortes, mas não devemos nos confiar. Sabemos que um dos pontos fracos de toda revolta é que, se elas se prolongam, acumulam o peso do desgaste e do desespero sobre os sublevados. A escassez de produtos de primeira necessidade, medicamentos e insumos se agrava com os bloqueios e a falta de combustível, e isso é crucial para a continuidade da resistência proletária.

O que acontece na Bolívia deve trazer enormes lições ao nosso arsenal nesta guerra de classes. Ou avançamos para a abolição do capital, do dinheiro, do mercado, do Estado e das classes… ou prolongaremos nossa penúria sob este sistema.

Viva a revolta proletária na Bolívia!

Acima os que lutam!

Nem esquerda nem direita!

Morte ao Estado e ao capital!

Contra a contra — Junho de 2026

Notas

[1] Informação citada por Luttesinvisibles.

materialesxlaemancipacion.espivblogs.net

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo

Buson

Não olhe para a Lei Rouanet!

O meteoro do incentivo à cultura. E o que os trabalhadores da arte da cultura deveriam aprender com as lições catastróficas da dependência política do fomento.
 
Por Manoel J. de Souza Neto | 02/06/2026 
 
Após anos de pesquisas sobre o fomento à cultura no Brasil, coordenando estudos independentes e cooperando com o Observatório da Cultura do Brasil em análises sobre a Lei Aldir Blanc, o MinC, o CNPC e a Lei Rouanet, encerro este ciclo com a sensação de tarefa cumprida. Nosso objetivo sempre foi diferente do de muitos que apenas desejam atacar a arte ou captar recursos. Queríamos provocar reflexão sobre falhas na execução das políticas públicas e expor contradições que incentivassem melhorias nos mecanismos de fomento à cultura. Não imaginávamos que, apenas por observarmos o cenário com a lente do Observatório e identificarmos o objeto em queda e a catástrofe que poderia provocar, seríamos perseguidos e hostilizados por alertar a sociedade sobre a tragédia iminente. Descobrimos, de forma amarga, como grupos de interesse, parte da mídia e a política podem ser medíocres. Depois de anos de artigos, pesquisas e relatórios, o que revelamos sobre problemas na aplicação de recursos e ineficácia das políticas públicas tornou-se menos importante do que o objeto secundário da própria pesquisa, que são as razões pelas quais o cenário não muda. E elas passam pelas pressões de partidos, grandes empresas, atravessadores, máfias de editais e setores da mídia, somando-se à anti-cultura promovida por conservadores e ultraliberais que tentam desmontar os instrumentos de fomento. Ambos os lados carregam responsabilidade semelhante pela falência estrutural do financiamento à cultura no Brasil. Descobrimos isso porque tentaram silenciar estudos que poderiam ajudar a sociedade, revelando justamente as razões pelas quais nada muda, justamente os interesses excessivos de poucos grupos beneficiados. As pressões políticas e perseguições aos pesquisadores levaram membros do Observatório da Cultura do Brasil ao limite, resultando em queda de canais. Considerando que auditorias e autoridades confirmaram nossos estudos, o grupo se desfez e este tema está encerrado para nós, mas não antes de apresentarmos as provas e auditorias que encerram o caso.
 
>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:
 
https://passapalavra.info/2026/06/159286/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Relva da manhã
Orvalhos salpicados
Frescura no ar.
 
Luci Ikari

8 punhaladas CONTRA A DEMOCRACIA

A democracia é uma forma de GOVERNO, e, portanto, de dominação. Mais uma via da burguesia para administrar a exploração política, econômica e social da maioria da humanidade.

A democracia é o PARLAMENTARISMO, ferramenta de dominação da burguesia, que se legitima mediante o voto, a delegação e a representação.

A democracia é a LEI, instrumento que perpetua a ordem existente. Regula e castiga as consequências que o próprio capitalismo e o próprio Estado engendram.

A democracia é a PROPRIEDADE PRIVADA, eixo econômico, político e social. Uma minoria detentora dos meios de produção para explorar-nos, enriquecer-se e aproveitar nossa força de trabalho.

A democracia é o TRABALHO ASSALARIADO. A condenação e a obrigação de trabalhar para uma minoria em troca de um salário que permita sobreviver.

A democracia é a MERCADORIA. Tudo está submetido à lógica do mercado e do Capital, tudo se converte em objeto e tudo tem um Valor econômico.

A democracia é o CÁRCERE, instrumento para sequestrar, torturar, isolar e esconder as consequências que o próprio Sistema provoca.

A democracia é a POLÍCIA e as FORÇAS ARMADAS. Impõem mediante a tortura, o assassinato, a repressão e a guerra a Ordem do Capitalismo e dos Estados.

Contra o Estado e o Capital!

Pela Anarquia

agência de notícias anarquistas-ana

Deslizam, suaves
nas pétalas das gardênias
gotas de orvalho.

Kazue Yamada

ECHO, a biblioteca itinerante da Grécia

de Giulio D’Errico

As intermináveis esperas, sem nada para fazer, é quando o tédio, muitas vezes, retorna, segundo os imigrantes, forçados a viver, na Grécia, em campos de refugiados por meses ou até anos. Seja esperando a resposta do pedido de asilo, esperando chegarem os documentos necessários para sair, ou pela impossibilidade de encontrar emprego que não seja extrema exploração ou, ainda, pela falta de acesso a oportunidades educacionais, fazendo das esperas algo que causa e agrava danos à saúde mental. De certa forma, é aí que a Biblioteca Itinerante ECHO tenta se encaixar, com livros em quinze idiomas e atividades.

O projeto

Hoje, a ECHO é uma biblioteca ambulante sediada em Atenas, percorre 500 km por semana para chegar a seis campos de refugiados, onde estão residentes cerca de 7.000 pessoas, e também em uma praça na capital grega e um centro comunitário em Corinto. Nascida no início de 2016, a biblioteca se adaptou à evolução contínua do sistema de asilo grego. Do extremo norte do país, a ECHO mudou-se primeiro para Tessalônica e depois para Atenas, mantendo a relação com aqueles que viviam em campos de refugiados no centro das atividades.

Os campos, nascidos como resposta emergencial ao grande número de chegadas em 2015-16, tornaram-se parte integrante da paisagem rural grega: há 32 campos no continente e 5 nas ilhas gregas. Cientificamente construídos bem longe dos centros urbanos, foram transformados em estruturas cada vez mais eficientes no controle das populações imigrantes, por conta da separação do restante do tecido social local e pela invisibilidade do fenômeno imigratório. Muros de concreto armado de 6 metros de altura, com arame farpado no topo, delimitam as prisões ao ar livre, com catracas eletrônicas para marcar entradas e saídas, dezenas de câmeras que monitoram movimentos de dentro e no entorno fora do campo, e a União Europeia financiou todas generosamente.

Desde 2022, passaram a ser uma etapa obrigatória no processo de solicitação de asilo, com a remoção de todas as soluções alternativas de moradia. Essa eficiência anda de mãos dadas com um processo de criminalização dos imigrantes que culminou, neste momento, com a nova lei de asilo do novo Ministro da Imigração, Thanos Plevris, cujo sobrenome deve soar familiar aos leitores deste Boletim.

Há 9 anos, a ECHO tem se adaptado e resistido a essas transformações, tentando assegurar o direito ao estudo, ao lazer e à leitura àqueles forçados a viver nos campos de refugiados que conseguimos atingir. A biblioteca, quando se desloca, não é muito diferente de qualquer outra van branca, mas, nas sessões, se transforma, com mesas, bancos e cadeiras, carpetes, luzes e prateleiras móveis, jogos e instrumentos musicais. Os livros, cerca de 5.000 nas prateleiras da biblioteca e em um pequeno armazém, são tanto a espinha dorsal do projeto quanto uma desculpa para muito mais. Distribuímos material para aprender inglês, grego e alemão, facilitamos o acesso a cursos online e a possibilidades educacionais, organizamos atividades para adultos e crianças, e compartilhamos informações sobre os serviços disponíveis na cidade. Basicamente, criamos momentos de socialidade, lazer e distração das condições de vida nos campos e tentamos, com as atividades, construir comunidades temporárias. O projeto é totalmente independente de fundos públicos e sobrevive graças a doações e pequenas licitações privadas. Nenhum de nós tem formação de biblioteconomia e, honestamente, nos importamos mais com a distribuição dos volumes do que com o seu retorno, que, de qualquer forma, tem média de 70% dos livros emprestados, que são retornados. Por isso, optamos por um sistema de empréstimo que não exige documentos nem cartões, basta passar o contato telefônico.

Os livros

O acesso à literatura, e à leitura em geral é, para nós, um potente antídoto ao tédio e é instrumento importante para a manutenção da saúde mental e o desenvolvimento de habilidades de pensamento crítico. O nosso catálogo é formado tendo em vista a comunidade com a qual colaboramos: temos livros, principalmente, em árabe, persa, turco, francês e inglês, mas temos livros em duas línguas curdas (kurmanji e sorani), e também em somali, urdu, pashtu, bengali, grego e alguns em lingala e em português. Para todas as línguas, são livros infantis, infanto-juvenis, jovens adultos, narrativa, não ficção e poesia.

A construção do catálogo, de certa forma, é um ato de equilíbrio: entre doações e compras, os pedidos dos leitores e as nossas propostas, a disponibilidade financeira e a facilidade para adquirir livros em determinado idioma. Recuperar mensagens de texto está longe de ser fácil. A maior parte vem de doações: editoras, prêmios literários, bibliotecas e livrarias de todo o mundo nos ajudaram, mas, em geral, precisamos ser criativos: toda vez que os amigos viajam para um país de onde queremos livros, tentamos fazer tudo para que voltem com a mala cheia deles.

Clássicos antigos e novos sempre funcionam, Fiódor Dostoiévski está entre os favoritos dos leitores, seja em árabe, turco, curdo ou persa. O pequeno príncipe está presente em quase todos os idiomas, seguido por Harry Potter, que continua sendo o favorito dos mais novos. O poeta palestino Mahmoud Darwish é o autor mais lido em árabe, enquanto Sadegh Hedayat e Khaled Hosseini são os mais lidos em persa.

As nossas propostas focam em autores e temas menos tradicionais. No que diz respeito à literatura, tentamos aumentar a presença de autoras e de livros que representem os leitores que temos: em francês, menos autores da metrópole e mais autores africanos; em inglês, estamos adicionando livros a Harry Potter e O Código Da Vinci de autores como Tomi Adeyemi, Namina Forna e Nnedi Okorafor, mas também Terramare de Ursula Le Guin e os livros de Octavia Butler. Com a literatura especulativa, especialmente aquela mais atenta à crítica social, buscamos estimular os leitores para ler em outros idiomas também: Ursula Le Guin em turco, Octavia Butler em árabe e Margaret Atwood em persa, enquanto recentemente adicionamos os livros da anarquista Margaret Killjoy às nossas seções de inglês e de francês.

Na seção de não ficção, os grandes livros populares sempre são bem sucedidos, como os livros de filosofia da Escola da Vida e os complementares à história, de Yuval Noah Harari. Mas não são os únicos. Volumes sobre filosofia, psicologia e economia estão entre os pedidos mais frequentes. Em princípio, tentamos atender aos pedidos que chegam, muitas vezes imprimindo o que não conseguimos encontrar em papel. Ao mesmo tempo, propomos visões alternativas, começando com livros de autoajuda e educação econômica mais focados no crescimento coletivo do que no individual: muitos jovens perguntam se temos livros sobre enriquecer, especialmente Rich Dad, Poor Dad, manual do turbocapitalismo americano, felizmente não muito famoso na Itália, mas uma praga global traduzida para 51 idiomas.

Quando podemos, incluímos livros menos convencionais no catálogo, especialmente sobre pensamento transfeminista, anticapitalista e anticolonial. Em vez dos grandes clássicos, focamos em livros leves e modernos, tentando, tanto quanto possível, manter um equilíbrio entre autores ocidentais traduzidos e autores nativos das diversas áreas linguísticas com as quais trabalhamos. Embora não seja a prioridade, ficamos satisfeitos em poder oferecer textos anarquistas em tantos idiomas quanto possível. Em turco e curdo há vários volumes disponíveis, de Max Stirner a David Graeber e Murray Bookchin. Em árabe e persa, é muito mais difícil porque as poucas traduções frequentemente estão fora de catálogo. No entanto, graças a alguns canais de Telegram da diáspora iraniana e da resistência palestina na Cisjordânia, há alguns anos encontramos um livro de Colin Ward traduzido para o árabe e um coletivo de tradutores preparando zines e panfletos anarquistas em persa. No último período, os americanos da Crimeth Inc. e os editores da Biblioteca Anarquista aumentaram o número de traduções, e graças aos camaradas do Centro di Estudi Libertari, de Itália, conseguimos expandir nossa oferta, com uma tradução árabe do Anarquismo, da teoria de Guèrin para a ação e outra em persa de alguns escritos de Bakunin. Em resumo, uma pequena coleção multilíngue de zines e textos anarquistas fotocopiados está misturada entre os volumes da biblioteca.

Giulio D’Errico estudou história entre Milão, Modena e País de Gales. Desde 2017, vive em Atenas, onde conheceu a Biblioteca Itinerante ECHO, da qual é um dos coordenadores desde 2021. No tempo livre, escreve e traduz; seus escritos estão em “A Rivista Anarchica”, “EMMA”, “ROAR Magazine” e em textos publicados pela Mimesis, Agenzia X e Active Distribution.

Para apoiar a Biblioteca Itinerante ECHO: https://echolibrary.org/support/

Fonte: https://centrostudilibertari.it/it/d-errico-echo

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
mil sonhos vagando

Aída Godinho