O regime adicionou a ABC Bielorrússia à lista oficial de “formações extremistas”.

O regime adicionou a ABC Bielorrússia à lista oficial de “formações extremistas”. Esta é mais uma tentativa de pressionar o movimento anarquista e criminalizar o trabalho de solidariedade.
 
Isso faz parte de uma tendência mais ampla que visa tanto grupos anarquistas quanto quaisquer iniciativas de solidariedade na Bielorrússia. Outros coletivos e organizações anarquistas já foram rotulados como “extremistas”, incluindo Pramen, Revolutionary Action e outras iniciativas de apoio a prisioneiros, como Bysol e Dissidentby.
 
Na Bielorrússia, o Estado pode declarar qualquer grupo de pessoas como uma “formação extremista”. Qualquer interação com tais grupos pode então ser tratada como um crime.
 
Segundo a legislação bielorrussa, isso pode incluir:
 
• Participação em uma formação extremista:
Qualquer forma de cooperação, mesmo que mínima, pode ser interpretada como envolvimento. A pena máxima é de 7 anos de prisão.
 
• Financiamento de atividades extremistas:
Qualquer doação pode ser considerada financiamento de atividades extremistas. A pena máxima é de 8 anos de prisão.
 
• Facilitar atividades extremistas:
Isso pode incluir o envio de informações ou materiais de mídia para organizações designadas, a concessão de entrevistas ou comentários, a execução de tarefas ou o fornecimento de qualquer outra forma de apoio. A pena máxima é de 7 anos de prisão.
 
Essas leis são frequentemente aplicadas retroativamente.
 
Bielorrússia não é o único país a usar acusações de “extremismo” ou “terrorismo” contra “inimigos” políticos; táticas semelhantes são usadas por governos em todo o mundo, de Minsk a Washington (como a criminalização do movimento antifascista).
 
O que isso significa na prática?
 
Qualquer pessoa na Bielorrússia, ou que planeje viajar para lá, poderá ser processada criminalmente por interagir com a ABC Bielorrússia. Encorajamos as pessoas a reverem suas práticas de segurança caso planejem visitar a Bielorrússia ou a Rússia. Se você estiver fora da Bielorrússia, agora é o momento de demonstrar solidariedade e apoiar nosso trabalho fazendo uma doação. Não pretendemos mudar a natureza do que fazemos. A repressão é justamente o que torna o trabalho da ABC necessário, portanto, para nós, a luta continua.
 
Até que todos sejam livres
 
abc-belarus.org
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/12/22/metodos-de-repressao-na-bielorrussia-perseguicao-de-pais-de-presos-anarquistas/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Como versos livres
– ao toque dos tico-ticos –
as flores que caem…
 
Teruko Oda

[Grécia] 17 anos da ocupação Agros no Parque Tritis

17 ANOS DA OCUPACÃO AGROS
 
Sexta-feira, 22 de maio, 20h30
 
Exibição de um documentário independente sobre Christos Tsoutsouvis: “O sorriso que se apagou ao som de um tiro”
 
Em seguida uma festa de aniversário
 
Domingo, 24 de maio, a partir das 12h
 
Reparo do forno a lenha da ocupação e instruções para sua construção com barro e outros materiais naturais
 
Cozinha coletiva
 
Caça ao tesouro planejada por crianças para crianças de 5 a 105 anos!
 
Sexta-feira, 5 de junho, 21h
 
Ao vivo
 
STIXORAGIA
TIME TRAP
 
Todos os eventos serão realizados no espaço da ocupação
 
10, 100, 1000 OCUPACÕES CONTRA UM MUNDO DE DECADÊNCIA ORGANIZADA
 
agros.espivblogs.net
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/11/22/grecia-ilion-eventos-na-ocupacao-agros/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
instante do passarinho
fui olhar
fiquei sozinho
 
Ricardo Silvestrin

[São Paulo-SP] 31/05, no CCS | Ciclo de debates: Espaços Anarquistas

A Biblioteca Terra Livre comemorará seu aniversário de 17 anos retomando, em parceria com o Centro de Cultura Social, o CICLO DE DEBATES: ESPAÇOS ANARQUISTAS. Para isso convidamos todas pessoas interessadas para uma roda de conversa sobre o Espaço Ay Carmela! no dia 31 de maio de 2026, às 15h, no Centro de Cultura Social.

Nesse encontro conheceremos a história e a organização do Espaço Ay Carmela!, local autogerido que existiu entre 2008 e 2011 na região central da capital paulista, abrigou centenas de eventos e projetos de caráter autônomo e libertário. O Ay Carmela! era gerido por indivíduos e coletivos como o Centro de Mídia Independente (CMI), o Movimento Passe Livre (MPL/SP), o Fórum Centro Vivo e a Biblioteca Terra Livre.

Estarão presentes no bate-papo pessoas que participaram da fundação e da gestão do espaço, além d da Biblioteca Terra Livre, que foi fundada no dia 31 de maio de 2009 no Espaço Ay Carmela! Compareça e venha debater sobre anarquismo, organização, autogestão e ocupação das cidades.

Domingo, dia 31 de maio de 2026, às 15 horas.

Centro de Cultura Social (CCS)

Rua General Jardim, 253, Sala 22 (interfone)

Próximo ao metrô República

Vila Buarque – São Paulo – SP

CICLO DE DEBATES: ESPAÇOS ANARQUISTAS.

Por ocasião das comemorações de 15 anos da Biblioteca Terra Livre em 2024, realizamos uma série de debates sobre espaços anarquistas buscando rememorar e celebras as muitas pessoas que antes de nós se associaram para criar e manter espaços de organização, luta e sociabilidade numa perspectiva libertária. Projetos em que de certa forma participamos, apoiamos ou que nos influenciou na construção de um acervo, um coletivo e uma sede que pudesse ser a materialização de um novo modo de relação social e política baseado na autogestão e na ação direta. Para celebrar e relembrar todas essas iniciativas bem como refletir sobre suas práticas, conquistas e desafios, acontece o CICLO DE DEBATES: ESPAÇOS ANARQUISTAS, agora em parceria com o Centro de Cultura Social, o espaço libertário mais duradouro do Brasil, fundado em 1933.

Os primeiros encontros contaram a história e os desafios de três espaços emblemáticos dos anos 2000/2010: Espaço Impróprio (20/04/2024), Ativismo ABC (18/05/2024) e Casa Mafalda (15/06/2024). Entre exibição de documentários, conversa com alguns ex-membros, resgate histórico, nostalgias, análises políticas e auto-críticas, o Ciclo foi uma experiência rica para as novas e velhas gerações refletirem sobre as necessidades das lutas cotidianas.

Retomamos esse Ciclo com o Espaço Ay Carmela! E no segundo semestre daremos continuidade, pois há muita memória e luta na experiência de espaços como o próprio Centro de Cultura Social, o Instituto de Cultura e Ação Libertária, a Casa do M.A.R., o Espaço Germinal, a Comuna Goulai Pole, o Centro de Cultura Social Vila Dalva, a Biblioteca Carlo Aldegheri e muitos outros locais de luta e resistência anarquista que deixaram suas marcas nas lutas sociais em seus territórios de atuação.

@bibliotecaterralivre

@centrodeculturasocial

agência de notícias anarquistas-ana

velho no banco
corrida de meninos –
passam os anos

Carlos Seabra

“Essa crueldade de Belo Monstro foi cometida conscientemente pelos governos Lula e Dilma”

O Ecogenocídio Promovido Pela Construção da Mega Hidrelétrica de Belo Monte Pode Ser Atribuído ao “Erro Humano”, ao Estágio da Tecnologia à Época, Algo Para Além do Domínio do Governo?

Resposta a Um Amigo Lulista:

Essa crueldade de Belo Monstro foi cometida conscientemente pelos governos Lula, que conduziu o processo de licenciamento da obra (mesmo contra os pareceres em contrário de todos os laudos prévios – ambiental, social e até o laudo técnico de engenharia) e Dilma, que encaminhou autoritariamente a construção da obra (mesmo contra todos os protestos e resistências em contrário por parte das comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas), inclusive, pela via da expulsão violenta dos moradores das comunidades atingidas, perpetrada por enviados das empreiteiras beneficiadas (as mesmas que foram pegas na Operação Lava-Jato). 

Belo Monte foi um projeto proposto originalmente pela ditadura militar que, mesmo com todo o poder ditatorial, não teve coragem de o realizar, tamanha  a escala criminosa da obra – e pra “piorar” (como se fosse possível ser pior), a hidrelétrica (uma das três maiores do mundo) nem sequer produz um montante de energia suficiente para justificar todo o investimento que foi feito em sua construção (isso devido ao regime de águas – as características sazonais do Rio Xingu no local), daí o porquê do projeto ter sido reprovado inclusive pelo laudo técnico prévio de engenharia. 

A verdade é que Belo Monstro foi realizada pura e simplesmente para transferir recursos públicos para os proprietários das grandes empreiteiras. 

E tudo isto sem falar nos crimes de exploração sexual de menores – foi descoberto um cativeiro de meninas das comunidades da região mantido dentro do terreno da obra; de submissão dos operários a regimes de trabalho semiescravo – houve uma grande greve de trabalhadores nos principais canteiros da obra que foi duramente reprimida por forças militares; de descumprimentos por parte do governo de acordos firmados com as lideranças comunitárias locais.

Se quiser saber sobre a verdadeira história deste que foi o maior crime contra o meio ambiente e a dignidade humana já cometido por um governo no Brasil, sugiro que pesquise sobre a série de reportagens de denúncias sobre Belo Monte realizadas pela jornalista Eliane Brum e publicadas à época no jornal El País: aliás, o jornal do partido de esquerda PSTU também publicou matérias de denúncias a respeito à época.

Do mesmo modo que no caso do Banco Master, aqui não se pode compreender a realidade usando a viseira estreita da politicagem eleitoreira polarizada, da direita X esquerda, porque se trata do sistema como ele é, ou seja, uma grande máfia constituída por interesses político-econômicos escusos, da qual o cidadão comum – o eleitor ingênuo – não tem a menor ideia a respeito da sua verdadeira dimensão, visto que engloba todos os lados, direita, esquerda, centro e fundos: principalmente, os “fundos” dos “crentes” em grandes pastores políticos.

V.C.C.O.

Pesquisador e Militante Anarquista Ácrata 

#belomonte #ecogenocídio #governospt

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Janela fechada:
borboleta na vidraça
dá cor ao meu dia.

Anibal Beça

Recordem, companheiros: o anarquismo não se vota, se constrói nas ruas!

Mais um ano de 2026 se anuncia, e com ele a velha farsa eleitoral que a cada quatro anos tenta nos convencer de que a mudança vem das urnas. Mas nós, anarquistas, não esquecemos: o Estado é o nosso inimigo. Não importa se vista a camisa vermelha, azul ou verde; não importa o nome do ditador de plantão ou do “representante do povo”. O Estado é a espinha dorsal da opressão, a máquina que monopoliza a violência legal, que prende, explora, mata e decide quem vive e quem morre. Participar do jogo eleitoral é dar legitimidade a essa máquina assassina. É reconhecer que alguns seres humanos têm o direito de comandar os outros. E isso, companheiros, é a própria negação do anarquismo.

Não se deixem enganar pelas promessas de “mudança pela política”. Cada voto depositado na urna é um tijolo que reforça os muros da prisão que nos contém. Quando vocês entram na cabine de votação, estão dizendo ao sistema: “Aceito suas regras, aceito seus mestres, aceito que minha liberdade seja representada por um ladrão de terno”. Lembrem-se: toda eleição é uma cerimônia de legitimação da dominação. Os candidatos não são porta-vozes do povo — são capatazes do capital, da propriedade privada e da ordem estabelecida. E ao votar, vocês se tornam cúmplices dessa farsa, alimentando a ilusão de que a opressão pode ser humanizada. Ela não pode. Ela só pode ser destruída.

Nós não queremos reformar o Estado. Queremos extingui-lo. A história já nos mostrou: anarquistas que se renderam à lógica eleitoral abandonaram a essência da luta. Não existe “voto anarquista”, assim como não existe “cadeia anarquista” ou “exército anarquista”. O que existe é a ação direta, a autogestão, a organização de baixo para cima, sem patrões nem governantes. Quando boicotamos as eleições, estamos dizendo não apenas “não voto”, mas sim “não reconheço sua autoridade”. Cada eleição que ignoramos é um golpe na imagem de que o Estado é necessário. Cada hora que deixamos de gastar em comícios ou propagandas eleitorais é uma hora a mais dedicada à construção de redes de apoio mútuo, ocupações, cooperativas e assembléias populares.

Este ano de 2026, os donos do poder tentarão de novo nos chamar para o teatro. As telas se encherão de promessas, os debates fingirão debate, e os cofres públicos serão saqueados para financiar mentiras. Mas nós, que sabemos que a liberdade não se mendiga nem se vota, vamos responder com desobediência. Vamos recusar a urna como recusamos a algema. Vamos rir dos que nos chamam de “alienados” — alienado é quem entrega sua vontade a um pedaço de papel. A nossa pátria é o mundo, e nosso governo é a solidariedade horizontal entre iguais. Não queremos representantes, queremos ação. Não queremos promessas, queremos práticas libertárias.

Portanto, companheiros, quando agosto¹ de 2026 chegar e os meios de comunicação bradarem sobre a “importância do voto consciente”, mantenham-se firmes. Boicotem as eleições. Façam campanha anti-eleitoral nos bairros, nos sindicatos, nas escolas. Digam em alto e bom som: o anarquismo é antiestatal ou não é nada. E que os candidatos, os juízes eleitorais e os políticos de todas as faixas saibam: nossa luta não é por uma vaga no parlamento. Nossa luta é pela abolição de todo o parlamento, de toda a cadeia de comando, de toda a hierarquia. Enquanto eles contam votos, nós plantaremos árvores, ocuparemos terras, criaremos bibliotecas populares, montaremos hortas comunitárias, organizaremos defesas mútuas. Esse é o caminho. Não atrás de um governante. Mas ao lado dos nossos iguais. Viva a luta antiestatal! Abaixo as eleições! O futuro é autogestionário ou não será.

Liberto Herrera.

[1] 16 de agosto, tem início a propaganda eleitoral nas ruas e na internet. Já o horário eleitoral gratuito nas emissoras de rádio e televisão relativo ao 1º turno das eleições passa a ser exibido a partir de 28 de agosto e termina no dia 1º de outubro. 

Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/05/20/recordem-companheiros-o-anarquismo-nao-se-vota-se-constroi-nas-ruas/

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Frescura:
os pés no muro
ao dormir a cesta

Matsuo Bashô

[Chile] Weichafe da CAM Alvaro Quinchanao Hueche morreu em uma ação de sabotagem contra um caminhão florestal.

Em nota, a Coordenadora Arauco Malleco (CAM) confirmou a morte em ação do weichafe [lutador] Alvaro Quinchanao, atropelado por um caminhão florestal durante uma ação de sabotagem na última terça-feira, 19 de maio, em Nueva Imperial.

Abaixo, compartilhamos a declaração completa:

DECLARAÇÃO PÚBLICA DA CAM

Como Coordenadora Arauco Malleco-CAM, informamos nosso povo nação mapuche e o público em geral sobre a morte em luta de nosso peñi [irmão] Alvaro Quinchanao Hueche, na noite de terça-feira, 19 de maio de 2026, durante uma ação de resistência e sabotagem contra a indústria florestal.

Foi durante essa ação que o motorista de um caminhão pertencente a uma empresa contratada pela Forestal Mininco atropelou brutal e impiedosamente nosso irmão no quilômetro 11 da Rodovia 488, no setor de Pichi Boroa, município de Nueva Imperial, região de La Araucanía. A crueldade do ataque reflete a impunidade oferecida pelo Estado chileno àqueles que agem em defesa dos interesses capitalistas em nossos territórios disputados.

Após isso, ferido, nosso irmão foi imediatamente socorrido por aqueles que o acompanhavam e levado a um local onde pudessem contatar o SAMU (Serviço de Atendimento Médico de Emergência). No entanto, quando chegaram, nosso irmão já estava sem vida.

Em conformidade com a nossa ética política enquanto CAM, em nenhum momento os weichafe tentaram atacar irracionalmente os motoristas de caminhão presentes no local. Para a CAM, uma ação de sabotagem nunca implica colocar em risco a vida dos trabalhadores, e desta vez não foi diferente. Apesar disso, o desfecho foi cruel em consequência das ações criminosas do motorista do caminhão.

Nosso querido weichafe Alvaro Quinchanao “Quincha”, como o conhecíamos, foi um dos mais destacados lutadores da CAM, humilde e sempre pronto para a luta. Oriundo de uma comunidade mapuche, atuava como psicólogo e participava ativamente das atividades da organização e dos processos de recuperação territorial.

Hoje, nossa dor é imensa. Quincha, um weichafe, um filho de imenso valor para o nosso povo, ofereceu sua vida pela causa mapuche e pela liberdade dos presos políticos mapuche, durante uma ação contra o grande capital.

Ele jamais deixará de viver em nossos corações e nos corações do seu povo!

Kiñe füta pagko ka fentren newen a su reñma.

Amulepe taiñ weichan!!!

CAM

Fonte: https://lazarzamora.cl/weichafe-de-la-cam-alvaro-quinchanao-hueche-cae-en-accion-de-sabotaje-a-camion-forestal/

agência de notícias anarquistas-ana

Tão pequena
E desbotada de chuva
A casa da infância!…

Paulo Franchetti

[Espanha] Campanha de financiamento | Roc Blackblock: ‘Vejo vocês nas ruas’

Um livro com a obra de Roc Blackblock. Murais, experiências, reflexões, ideias e ações de um dos artistas mais renomados do país.
 
Sobre o projeto
 
Vejo vocês nas ruas.
 
Desde o primeiro mural, em 1999, Roc Blackblock criou quase quatrocentos. Mensagens claras e contundentes, sempre críticas ao poder e ao status quo.
 
Grande parte deste trabalho já foi compilado e queremos publicá-lo no livro “Nos vemos nas ruas. Uma crônica gráfica da Barcelona rebelde“, um livro fundamental que é também uma crônica da Barcelona mais rebelde.
 
Como será o livro?
 
O livro, com mais de 200 páginas e em formato DIN A4 modo paisagem, é uma coleção de imagens dos murais e das paredes principais do Roc Blackblock, acompanhadas de textos e legendas para compreender a magnitude da mensagem e a dimensão do ativismo do Roc.
 
O texto principal foi preparado pela jornalista Mar Carrera Vendrell com base em longas conversas com Roc Blackblock e está estruturado em quatro capítulos: Cidade, Movimentos Sociais, Memória Histórica e O Papel do Artista.
 
O livro será publicado em 2 edições:
 
Edição em catalão e outra edição em espanhol.
 
Assim que a campanha de financiamento coletivo terminar, pediremos que você escolha o idioma no qual deseja receber o livro.
 
Além disso, cada um desses capítulos começa com um artigo reflexivo do antropólogo José Mansilla (Cidade), do jornalista Jesús Rodríguez (Movimentos Sociais), da historiadora Dolors Marín (Memória Histórica) e da historiadora da arte Núria Ricart (O Papel do Artista).
 
Quem somos nós
 
Roc Blackblock estudou Design Gráfico na Escola Elisava, em Barcelona, ​​e Ilustração na Escola de Arte Serra i Abella, em L’Hospitalet. No final da década de 90, iniciou sua carreira em ilustração e tatuagem. Nesse ambiente gráfico, começou a pintar grafite (1999). Como membro ativo de movimentos sociais, transformou o grafite em seu meio de comunicação coletiva, mantendo desde então a natureza social de seu trabalho e seu compromisso. Roc disponibiliza sua criatividade e linguagem gráfica à comunidade para transformar muros em alto-falantes da memória compartilhada de vizinhos, grupos, comunidades e movimentos sociais. Seu trabalho é o ponto de encontro entre arte urbana e engajamento social.
 
A Pol·len edicions é uma editora cooperativa de pensamento crítico que publica livros seguindo critérios de ecoedição. Entre os títulos mais notáveis, podemos encontrar: “la Caixa”. Una història mai no explicada, Cuba en Vallas. El imaginario de la revolución cubana a través de sus vallas políticas, La casa de l’amo, La vida secreta de la roba. Com el que vestim afecta al planeta, e Prova de vida.
 
Para que usaremos suas contribuições?
 
“Vejo vocês nas ruas” será um livro de memórias encadernado. Suas contribuições serão usadas para financiar os custos de edição, design e diagramação, além de parte da produção.
 
Calendário previsto
 
Queremos imprimir o livro durante os meses de julho e agosto, para que ele chegue às suas casas na primeira semana de setembro. Na semana seguinte, estará disponível nas livrarias e iniciaremos a turnê de lançamento.
 
+ Infos
 
Acompanhe o projeto e todo o nosso trabalho em nossos sites:
 
Web RocBlackblock
Web Pol·len edicions
E em nossas redes:
 
Instagram Roc Blackblock
Instagram Pol·len edicions
Twitter Pol·len edicions
 
>> Para apoiar, clique aquihttps://www.verkami.com/locale/ca/projects/43321-roc-blackblock-ens-veiem-als-carrers
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Noite escura,
chuva fina esconde
a lua cheia.
 
Fabiano Vidal

[França] Um edifício desocupado transformado em um centro social autogerido em Liège

Ativistas ocupam há um mês o antigo lar de idosos “Résidence Quentin”, na Place Xavier Neujean, em Liège. Há faixas na fachada do imóvel com os dizeres “Centro social autogerido: preenchendo o vazio com solidariedade” e “Liège não está à venda“.

Nas palavras dos ocupantes: “Este é o Centro Social Autogerido de Liège, um grande edifício ocupado no coração da cidade, onde uma energia positiva tem pulsado no último mês. É um antigo lar de idosos, portanto, possui cerca de cinquenta quartos, um térreo com um amplo salão e uma grande cozinha… e até mesmo um encantador pátio ajardinado. O edifício agora é habitado por pessoas de todas as idades, ansiosas por recuperar a cidade e libertá-la da escória, para trazer vida de volta a um lugar onde outros lucram com o vazio.

O objetivo é transformar o local em um espaço acolhedor para diversas atividades solidárias, como refeições com contribuição voluntária, banquetes comunitários, oficinas ou assembleias de ativistas, exibições de filmes, uma academia gratuita e muito mais. “Queremos ficar aqui o máximo de tempo possível e criar um centro comunitário, com horários fixos e estabelecer assembleias gerais e um comitê de gestão. Só porque será autogerido não significa que não haverá regras ou organização“, esclarece uma ativista.

>> Mais infoshttps://www.instagram.com/csa.liege/

agência de notícias anarquistas-ana

As folhas secas
caem com a ventania
sobre o riacho

Antonio Malta Mitori

[Itália] Com a palavra, Alfredo!

No dia 18 de maio, realizou-se no tribunal de Bolonha a segunda audiência contra 6 companheirxs, acusadxs por fatos específicos relacionados à mobilização de 2022-23 em apoio a Alfredo contra o 41-bis e a prisão perpétua sem possibilidade de benefícios.
 
Nessa audiência, várias testemunhas foram ouvidas e, entre elas, o próprio Alfredo também pôde falar, por videoconferência a partir da prisão de Bancali.
 
Sua emoção, unida à das cerca de trinta companheirxs presentes na sala, era perceptível desde o início. Alfredo começou com estas palavras:
 
Neste momento é emocionante estar aqui, porque a última vez que pude ver rostos amigos foi há um ano e meio, e naquela época Sara e Sandrone ainda estavam vivos; agora estão mortos e eu não pude lhes dar minha solidariedade porque aqui dentro meu isolamento é total, eles te proíbem de existir.”
 
Ele prosseguiu falando das motivações que, em 2022, logo após sua transferência para o regime 41-bis, o levaram a iniciar uma greve de fome por tempo indeterminado. Motivações que, como ele mesmo lembrou, encontraram ampla repercussão na mobilização internacional que sustentou sua luta. Destacou que, sem o apoio recebido do lado de fora, teria sido condenado à prisão perpétua sem possibilidade de benefícios, e que sua luta foi movida pela necessidade de impedir que sua detenção sob o 41-bis criasse um precedente extensível ao movimento.
 
Em seguida, Alfredo relatou seu atual estado de isolamento. Reafirmou estar submetido a um bloqueio quase total de correspondência que atualmente (diferentemente do período anterior à mobilização) inclui também as notificações sobre cartas retidas. Não recebe correspondência há meses; recentemente lhe foi entregue uma carta de dezembro de 2025.
 
Falou também da já conhecida impossibilidade de acesso a livros, tanto por meio de compras via catálogo quanto através da biblioteca central da prisão. Contou o paradoxo de seu isolamento: tomou conhecimento de grande parte das mobilizações anarquistas dos últimos anos através do volumoso dossiê que fundamenta a renovação de seu regime 41-bis, definido pelos próprios guardas que lhe entregaram o documento como “o mais volumoso da história do 41-bis”.
 
Como mais um elemento de sua situação carcerária, descreveu um regime 41-bis que vem sendo ampliado cada vez mais para pessoas antes não submetidas a esse regime, em uma progressiva redução do critério de acesso, citando o exemplo de um detento transferido do regime AS para o 41-bis por ter sido encontrado com um telefone celular.
 
Essa ocasião também permitiu que Alfredo traçasse o percurso de sua detenção: da prisão militar por objeção total ao serviço militar obrigatório, passando pelas alas comuns, pelas seções de Alta Segurança de Ferrara e Terni, até chegar ao 41-bis, definido como um lugar de isolamento total. Evidentemente, o olhar de Alfredo não se limitou à sua experiência pessoal e, mais uma vez, ele não perdeu a oportunidade de condenar a brutalidade do 41-bis como um todo, reiterando que, para ele, não há distinção entre os prisioneiros dentro desse sistema de reclusão e aniquilamento.
 
Relatou o horror da ala hospitalar do 41-bis de Opera, onde estão detidas principalmente pessoas muito idosas, muitas acometidas por Alzheimer, em cadeiras de rodas ou com severas limitações de autonomia, que já nem sabem mais por que estão ali. Por fim, não deixou de expressar uma avaliação sobre o sentido desse regime, originalmente criado para eliminar aqueles sujeitos com quem o Estado negociou e que precisaram ser silenciados quando se tornaram inúteis para seus jogos sujos.
 
Após seu depoimento, ecoaram na sala inevitáveis e calorosas saudações carregadas de afeto, o que irritou a juíza e levou ao consequente esvaziamento da sala de audiência. Também no início da audiência, xs companheirxs presentes conseguiram saudar Alfredo, que respondeu com carinho, conseguindo assim romper, ainda que por uma fração de segundo, um isolamento terrível. Foi uma emoção fortíssima, compartilhada dos dois lados daquela maldita tela.
 
Estamos certos de que a ocasião de hoje foi muito preciosa para Alfredo, mas ainda mais para nós, que em suas palavras e em sua ironia sempre presente encontramos mais uma vez uma enorme determinação, um ódio aos opressores e um fortíssimo amor por seus companheiros, começando por suas primeiras palavras para Sara e Sandro. E é com a viva lembrança deles que também queremos concluir estas linhas, para não esquecer quem deu a própria vida lutando por um mundo diferente.
 
Com Sara e Sandro no coração.
Para que de cada prisão não restem senão escombros.
Força, Alfredo!
 
Alguns companheirxs de Bolonha, acusadxs e solidárixs.
 
A próxima audiência do processo em questão será no dia 15 de junho, às 9h. Serão ouvidas as últimas testemunhas e provavelmente terá início a fase de debates.
 
Fonte: https://ilrovescio.info/2026/05/20/la-parola-ad-alfredo/
 
Tradução > Liberto
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/11/italia-fora-alfredo-do-41-bis/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
sabiá quieto
o silêncio da tarde
pousa na antena
 
Camila Jabur

[Grécia] 16 anos de ocupação Apertus

1º de maio de 2010 – 1º de maio de 2026

16 ANOS DE OCUPACÃO APERTUS

O inferno dos vivos… Se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

Italo Calvino, Cidades Invisíveis.

RESISTÊNCIA – AUTOORGANIZAÇÃO – SOLIDARIEDADE

PELA LIBERTAÇÃO INDIVIDUAL E SOCIAL

Ocupação Apertus

Espaço social livre em Agrínio

Rua Kalivion, 70

apertus.squat.gr

agência de notícias anarquistas-ana

Leve brisa
aranha na bananeira
costura uma folha.

Rodrigo de Almeida Siqueira

[Chile] Apoie o Espaço Anarquista Flora!

Ajude-nos a manter aberto o Espaço Anarquista Flora. Espaço de encontro, organização e luta em Valparaíso, território dominado pelo Estado do Chile.

História do projeto Flora

O Espaço Anarquista Flora funciona há quase 7 anos e está situado no coração do histórico bairro portuário de Valparaíso, território dominado pelo Estado do Chile e onde, há mais de 130 anos, desembarcaram as ideias anarquistas e seus lemas de emancipação social.

Nosso projeto surgiu como iniciativa da Assembleia Anarquista de Valparaíso depois da Revolta de 2019, a partir da necessidade de um espaço físico para nos reunir, organizar e conspirar entre camaradas.

Hoje funcionamos como uma assembleia autônoma e aberta para o bairro e a cidade, compartilhando e defendendo nossas ideias e propostas anarquistas, fazendo parte de uma rede de espaços anarquistas em Valparaíso.

Dessa maneira, Flora se articula como um espaço para difundir ideias de emancipação social antiautoritária, onde se promove e difunde um anarquismo social que enfatiza a superação de uma sociedade de classes, patriarcal e colonial por meio da luta organizada.

Quais atividades fazemos na Flora?

Desde 2019, têm sido realizadas de forma sustentada no local uma série de atividades de organização e difusão de ideias e propostas a partir do anarquismo social.

Entre as atividades recorrentes estão: debates públicos, lançamentos de livros, jornadas de difusão de ambientes anticarcerários, oficinas de arte política de rua, capacitações em software livre, encontros de formação política, arrecadação de fundos para causas solidárias, leituras coletivas de ficção científica especulativa e política, jornadas de saúde coletiva, reuniões de coletivos em luta, entre outras.

Todas essas atividades são de caráter público, de livre acesso e sem custo monetário.

Além disso, o espaço Flora, como instância de organização entre camaradas anarquistas, participa ativamente de encontros de coordenação com outras coletividades e camaradas, tanto em atos públicos quanto em manifestações solidárias.

Por que pedimos seu apoio?

Em 2023, realizamos uma campanha para custear o aluguel e melhorar a infraestrutura do espaço. Dois anos e meio depois, vemos a necessidade de solicitar novamente seu apoio econômico para continuarmos tendo um espaço físico onde nos encontrar e nos organizar.

Por outro lado, acreditamos que, mais do que nunca, é vital manter a FLORA aberta no contexto político atual, em que a extrema direita está no governo e se esforça para desmantelar toda resistência organizada.

O custo do aluguel do espaço é financiado por meio da venda de livros, doações de camaradas da assembleia da Flora e da Assembleia Anarquista de Valparaíso. Diante da situação econômica no território em que estamos imersos, ultimamente tem sido difícil manter o financiamento do espaço.

Ajude-nos a manter o espaço aberto para continuar cultivando o anarquismo social desde o bairro, ajude-nos a combater o fascismo criando iniciativas populares e alianças com nossas vizinhas. E, claro, seguir gerando nexos com outras camaradas para continuar sendo uma contribuição concreta ao movimento anarquista local e internacional.

Enviamos uma saudação cordial a todas as pessoas que lutam e resistem em suas comunidades. Convidamos vocês a visitar nosso espaço e compartilhar experiências de luta e organização.

Obrigado por manter vivo, mesmo que à distância, este lugar de encontro, resistência e solidariedade.

Arriba as pessoas que lutam!

>> Apoie aquihttps://www.firefund.net/espacioflora

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Este abacateiro
acende, ante a luz do luar,
suas suaves lâmpadas

Jorge Fonseca Júnior

[Estônia] 3ª Feira Anarquista do Livro do Báltico

Anunciamos nossa 3ª Feira Anarquista do Livro, que este ano acontecerá em Tartu, Estônia, de 29 a 31 de maio de 2026!

Vamos continuar a tradição das Feiras Anarquistas do Livro. Convidamos todas as editoras e artistas anarquistas/libertárias e socialistas para apresentar e vender seus livros, revistas, jornais, quadrinhos, artesanatos etc., e todas as pessoas interessadas a passar o fim de semana conosco, participando de discussões e seminários. O evento é aberto para todas as pessoas sem necessidade de inscrição prévia. Os detalhes da programação e do local serão divulgados mais tarde.

Se você quiser vender ou apresentar seu material, realizar uma palestra, discussão, performance ou apresentação, escreva para o seguinte e-mail. Temos um número limitado de mesas e horários, então reserve com antecedência. O prazo, não rigidamente aplicado, para inscrições é 1º de abril de 2026.

Escreva para rigaanarchistbookfair@protonmail.com para se inscrever!

E como sempre: nos vemos na Feira do Livro!

Mudamos nosso nome, mas não nossos valores e objetivos. O mundo está mudando e nós também!

Como vocês podem ter notado, mudamos nosso nome para “Feira Anarquista do Livro do Báltico”. Os últimos dois anos da feira foram muito divertidos, educativos e internacionais. Por isso decidimos levar a feira para toda a região do Báltico! Isso nos dará a oportunidade de envolver mais camaradas bálticos, ideias e expositores. A unidade entre os povos do Báltico é única e especial. E queremos preservar essa unidade, especialmente nestes tempos em que nossas sociedades estão sendo divididas e suas partes isoladas.

Outra razão pela qual, por enquanto, a feira não pode continuar acontecendo na Letônia é o aumento da repressão contra ativistas e pessoas de esquerda, além do autoritarismo em geral. Ações em apoio à Palestina foram reprimidas, espaços comunitários locais foram perdidos e nenhum evento público pode acontecer sem autorização explícita da prefeitura. Infelizmente, não temos recursos humanos e apoio público suficientes para realizar a feira na Letônia e colocar em risco nossa segurança e a segurança das participantes. Esperamos que a situação política da Letônia mude e que possamos voltar a organizar a feira lá de tempos em tempos!

Baltic Anarchist Bookfair

rigaanarchistbookfair@protonmail.com

riga-anarchist-bookfair.hotglue.me

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Entrada do templo
Os galhos de sakura
na cabeça do Buda

Antonio Malta Mitori

[Espanha] Gonzalo Mateos Benito: “Pessoas da classe trabalhadora puderam chegar a ter uma grande influência política e social”

Gonzalo Mateos Benito nasceu em Salamanca em 1983, embora viva em Barcelona há quase vinte anos. É historiador e antropólogo de formação, mas sua verdadeira paixão é ser diretor de documentários. Recentemente, dirigiu os documentários La vida de una flor, sobre a fracassada insurreição anarquista do Alt Llobregat de 1932, e Garcia Oliver, ambos com financiamento da Fundação Salvador Seguí e da CGT, à qual pertence.

Como surgiu o projeto do documentário sobre Garcia Oliver? Como foi o processo de filmagem?

O documentário surge após ter realizado outros trabalhos relacionados ao movimento anarquista, como um sobre Salvador Seguí. O de Garcia Oliver nasce por iniciativa da CGT de Reus, que queria recuperar sua figura por ele ter nascido nessa cidade. O processo de filmagem foi um trabalho de documentação histórica, busca por arquivos e testemunhos, e reconstrução do contexto da época. Também envolveu visitar espaços e lugares relacionados à vida de Garcia Oliver e ao movimento anarquista.

O que te surpreendeu durante o processo de documentação?

A grande implantação social da CNT. Antes mesmo do golpe de Estado militar de 1936, o movimento anarquista tinha contatos com alguns militares contrários ao golpe. Após o fracasso do golpe militar em Barcelona, o anarquismo atuou em muitos aspectos como um verdadeiro contrapoder, assumindo funções que normalmente caberiam a um Estado, como o controle de fronteiras ou da ordem pública, a partir de uma perspectiva revolucionária. Isso nos convida a refletir sobre o papel do poder. Frequentemente, em alguns setores do anarquismo atual, existe uma rejeição total a qualquer forma de autoridade ou poder. Mas a história mostra que, em determinados momentos, é necessário algum tipo de organização e poder coletivo para transformar a sociedade.

Você acredita que Garcia Oliver foi o cérebro por trás da derrota do exército em Barcelona durante o golpe de Estado?

Garcia Oliver foi um dos impulsionadores da preparação do movimento operário para um possível golpe militar. Participou da organização de grupos armados, comitês de defesa e milícias ligadas à CNT, que desempenharam um papel importante na derrota do golpe militar em Barcelona e na Catalunha em julho de 1936. Ele pensava que o movimento operário e o anarquista deveriam estar preparados militarmente tanto para frear um possível golpe quanto para iniciar um processo revolucionário, o que permitiu que os trabalhadores organizados reagissem rapidamente quando o golpe ocorreu. Portanto, pode-se dizer que ele foi um dos cérebros dessa estratégia, embora a derrota dos militares também tenha sido resultado da ação coletiva de muitos militantes operários, comitês de defesa e milícias populares.

A CNT tinha o controle das ruas em julho de 1936. Como se explica a passagem da barricada para o Ministério da Justiça no caso de Garcia Oliver?

Embora a CNT tivesse muita força nas ruas, especialmente na Catalunha, o movimento anarquista sabia que não era majoritário em todo o Estado. Por isso, decidiu colaborar com o restante das forças antifascistas para continuar a guerra contra o golpe militar. Também pensavam que essa colaboração poderia evitar o isolamento internacional da República, esperando apoio das democracias europeias como França e Grã-Bretanha, algo que acabou não ocorrendo. Nesse contexto, deu-se uma situação complexa: ao mesmo tempo que se defendia a República, queria-se impulsionar a revolução social. Garcia Oliver acabou entrando no governo como ministro da Justiça por proposta da CNT.

Como ele vivenciou pessoalmente a passagem de ser um homem perseguido pela lei a se tornar ministro da Justiça?

Garcia Oliver tentou aproveitar o cargo para impulsionar reformas no sistema judiciário que hoje consideraríamos progressistas. Defendeu que a justiça deveria garantir direitos e foi crítico em relação às execuções sem julgamento que alguns grupos revolucionários ou comitês realizaram nos primeiros meses da guerra. Também sustentava que muitos crimes estavam relacionados à desigualdade social. Por isso, impulsionou projetos de reforma do sistema penitenciário, como a criação de cidades penitenciárias e a ideia de que os presos pudessem trabalhar e se reeducar. Apesar dessas iniciativas, sua passagem pelo ministério foi breve, em um contexto muito difícil marcado pela guerra e pelas tensões políticas.

Como ele geriu as críticas dos setores mais radicais da CNT?

Garcia Oliver adotou uma posição pragmática. Inicialmente, defendia fazer a revolução completa, mas essa proposta não prosperou. Diante da situação de guerra, considerou necessário colaborar com o restante das forças republicanas. Estava ciente de que a unidade antifascista era imprescindível para derrotar os militares sublevados. Isso ficou claro durante os Fatos de Maio de 1937, quando pediu aos anarquistas que interrompessem os combates para evitar um confronto interno que enfraquecesse a luta contra o fascismo.

Até que ponto seu livro O eco dos passos pode ser considerado uma crônica fiel?

Como ocorre com muitas autobiografias, o relato tem certo viés. Algumas lembranças podem estar interpretadas de forma subjetiva ou reconstruídas com o tempo. Por isso, certos episódios devem ser lidos com cautela. Ainda assim, o livro é muito útil para entender o contexto dos militantes anarquistas como Garcia Oliver, muitos deles oriundos do mundo operário.

Além disso, a obra é marcada pela experiência traumática da derrota na Guerra Civil e no exílio. Também inclui críticas a outras figuras do movimento anarquista, como Federica Montseny ou Durruti, refletindo tensões pessoais e políticas.

Garcia Oliver foi um estrategista militar?

Não se pode afirmar que o foi num sentido profissional, pois não tinha formação militar formal. No entanto, durante a Guerra Civil, defendeu a necessidade de formar militarmente as milícias operárias para combater o exército franquista. Foram criadas escolas de guerra onde os milicianos recebiam formação básica em armas e estratégia. Essas iniciativas buscavam tornar as milícias mais eficazes, dentro de um contexto revolucionário diferente do modelo militar tradicional.

Qual é o seu legado na política espanhola?

Sua figura representa uma época em que pessoas da classe trabalhadora puderam alcançar uma grande influência política e social. Também permite compreender a importância do movimento operário e do anarcossindicalismo na sociedade catalã daquele momento.

Fonte: https://alasbarricadas.org/noticias/node/59015

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Às dez da manhã
O cheiro de eucalipto
Atravessa a estrada

Paulo Franchetti

[Portugal] Contra a impunidade nas mortes às mãos do Estado

15 de maio de 2026

Esta manhã, familiares de algumas das mais recentes vítimas do sistema prisional, estiveram reunidas à frente do Ministério da Justiça, para entregar uma carta à Ministra da Justiça e exigir não só respostas, mas também responsabilização e transparência institucional perante as mortes dos seus familiares em contexto prisional. Para que não só o Estado, mas também a sociedade civil não tolere mais esse cenário de morte e tortura no sistema prisional português. Homenageando as vidas de Danijoy Pontes, Daniel Rodrigues, Miguel Cesteiro, Gabriel Facha, Iuri Rafael Mendes, Jorge da Conceição Dias dos Santos, conhecido por «Gordo», Carlos Teixeira, Sónia Lima, Maria Malveiro, Patrícia Ribeiro e todas as vidas que encontraram o seu fim ao abrigo desta instituição estatal e cujas famílias continuam na luta por justiça.

Relembramos que no passado 19 de Março, Carlos Teixeira, conhecido como «Gigante», foi encontrado morto no Estabelecimento Prisional de Alcoentre. A primeira versão apresentada pela Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) foi a de que se tratava de um suicídio. Segundo familiares de Carlos e de outros reclusos do EP de Alcoentre, Carlos foi espancado até à morte por guardas prisionais.

Este quadro sistemático de violação de direitos humanos e de mortes nas prisões portuguesas é amplamente conhecido e reportado, seja por instâncias de governação nacionais ou internacionais.

Entre 2018 e 2022, ocorreram 303 mortes de pessoas presas. Apenas seis foram investigadas pela Polícia Judiciária. A maioria das mortes são consideradas suicídio ou morte decorrente de alguma doença ou condição de saúde.

Fonte: https://www.jornalmapa.pt/2026/05/15/contra-a-impunidade-nas-mortes-as-maos-do-estado/

agência de notícias anarquistas-ana

Da estátua de areia
nada restará,
depois da maré cheia.

Helena Kolody

[Grécia] Breve relato do 10º Festival do Livro Anarquista e Subversivo

Especialmente em um momento em que o anarquismo está sendo perseguido pela propaganda e repressão do Estado, de 14 a 16 de maio, aconteceu em Patras a 10ª edição do Festival do Livro Anarquista e Subversivo. Um festival que, mais uma vez, buscou, por meio de uma série de eventos, destacar a riqueza dos conceitos anarquistas, antiautoritários e libertários, e ao mesmo tempo aproximar a comunidade local, especialmente os jovens da cidade, de livros anarquistas e subversivos, de nossos projetos e visões.
 
Durante esses três dias muitas pessoas passaram pelo local do Festival, numa organização particularmente bem sucedida, tanto política quanto logisticamente, assim como no que diz respeito à aceitação do evento. Desse modo, uma área livre do Estado e do Mercado se formou, um espaço público que se transformou em local para encontros e debates, interações e criticismo. Projetando a imagem do mundo com o qual sonhamos, o mundo da criação, da fermentação, da emancipação, da solidariedade e da camaradagem. O mundo da resistência social e de classe.
 
>> Reportagem fotográfica aqui:
 
https://anarchistbookfairpatras.wordpress.com/2026/05/18
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
mamãe passarinho chocando,
papai trouxe a comida
festa na copa das árvores
 
Akemi Yamamoto Amorim

[Bolívia] A Virgem dos Desejos. Uma casa onde nascem e se concretizam as lutas

Alejandra García Castro
Comunicadora social, integrante de Mujeres Creando

Há 19 anos, a Virgen de los Deseos é a sede do movimento feminista anarquista Mujeres Creando. Ter um espaço físico para um movimento social é fundamental, ainda mais se isso permite que ele seja autogerido. Esse recanto onde os sonhos são gestados fica na zona de Sopocachi, em La Paz, Bolívia.

Seis sereias musicais na porta e uma placa em forma de olho com cílios longos dão as boas-vindas ao único espaço feminista anarquista do país. A casa vermelha de estilo colonial, pintada com belos murais na fachada, é o Bircholet1 de Mujeres Creando. Ao abrir a porta, parece que você entra em um lugar mágico, não só pelo som dos carrilhões que anunciam uma visita, mas também pelas cores, pela decoração, pelo ambiente acolhedor, pelo sorriso que alguma companheira lhe dá e pelo cheiro de comida caseira que sai da nossa cozinha. Nas paredes internas, impressionam as imagens de duas virgens: a Dolorosa e a Protetora dos Abortos, murais que refletem duas lutas que ali se erguem como pilares fundamentais do movimento, a luta contra a violência machista e o feminicídio como sua máxima expressão, e a descriminalização do aborto. Cada detalhe da casa diz algo, nada é por acaso. Os grafites também não. “Pensar é altamente feminino”, “Nenhuma mulher nasce para ser prostituta” e “Queremos todo o paraíso” não são ornamentos decorativos para ocupar as paredes, são frases carregadas de conteúdo político e crítica social, e parte de uma profunda reflexão sobre a realidade cotidiana e as estruturas de poder patriarcal, e das relações de opressão que as mulheres vivemos na Bolívia e no mundo. O grafite é uma linguagem que, desde sua fundação, há 35 anos, o Mujeres Creando adotou e hoje é sua marca registrada (em todos os cantos do país e em vários países há um grafite do movimento), pois sempre traz uma assinatura e funciona ainda como uma forma de diálogo com a sociedade. Nossos grafites interpelam, questionam, removem e comovem, e geram discussão sobre a conjuntura, às vezes, mas principalmente sobre temas que não são prioritários nas agendas do poder ou da mídia, embora sejam urgentes para nossas lutas e outras.

A Virgen de los Deseos é fruto de anos de trabalho e luta de companheiras que fundaram o movimento — como María Galindo —; de companheiras que chegaram pouco depois da sua fundação — como Julieta Ojeda, Idoia Romano e Helen Álvarez — e que continuam na luta, e de outras que já não estão. É um lugar onde muitas “ovelhas negras” 2 nos encontramos. Nesta casa, muitas de nós criamos raízes em nossa relação com o feminismo e encontramos sentido para o que, provavelmente, quando muito jovens ou meninas, não podíamos nomear ou situar como um impulso político para transformar o que nos cercava, porque talvez nos cercasse o feminismo intuitivo de que fala e conceitua María Galindo em seu livro Feminismo Bastardo, aquele que nasce da experiência individual, direta, e da vontade de se rebelar contra o que é imposto.

Confie no som da sua própria voz

É aí que nasce também a rádio Deseo, um sonho concreto que se tornou realidade, um meio de comunicação social que não só amplifica a luta e a voz das Mujeres Creando, mas é uma polifonia de vozes que interpelam e não necessariamente a partir do feminismo ou apenas das mulheres, mas a partir das lutas cotidianas contra todos os tipos de opressão. Para ter acesso a este privilégio, a rádio, conquistada com muito esforço, estabeleceu alguns parâmetros: ser protagonista de alguma luta e falar na primeira pessoa, e respeitar os princípios básicos do movimento: não ao racismo, não à discriminação, nem ao classismo; sem homofobia, sem misoginia nem antifeminismo; sem fascismo, respeito ao trabalho sexual e ao aborto, e também não pertencer a seitas religiosas, partidos políticos ou ONGs, que sempre roubam a palavra.

Os sindicatos de trabalhadoras domésticas tiveram o seu espaço e, com elas, começou-se a dar formação na Escola de Rádio «La voz de mi Deseo» (A voz do meu desejo). Helen Álvarez assumiu o desafio de a dirigir e convocar publicamente as organizações aliadas e aquelas que ainda não o eram, mas que tinham um historial de luta e resistência, pois o objetivo sempre foi democratizar o acesso a este amplificador de vozes que é, até hoje, a Rádio Deseo. Na frequência 103.3 FM, as trabalhadoras domésticas falaram, denunciaram, alertaram, convidaram, desabafaram, educaram e fizeram-se ouvir (com um programa estrela), que durou nove anos, até deixarem o trabalho assalariado doméstico. Também pessoas cegas e com outras deficiências, professoras do sistema público de educação, ativistas dos direitos dos animais, ambientalistas, arquitetas que pensavam numa cidade diferente, gays, lésbicas, ateies, atories; pessoas contra a energia nuclear, contra o Dakar e muitas outras. Seja a partir de suas organizações ou individualmente, elas tiveram capacitação e um espaço gratuito para produzir seus programas com grande qualidade e levantar suas próprias vozes, sem que ninguém lhes impusesse o que dizer.

A Rádio Deseo é um espaço de pluralidade de vozes, aberto a todas, todos e todes, e também um espaço onde a música é protagonista. Sergio Calero, comunicador social e um dos documentaristas mais importantes do país, divide a direção com María. Ele dirige e coordena uma série de programas especializados, em diferentes géneros musicais, de qualidade indiscutível; enquanto María assumiu a parte mais política do conteúdo da rádio.

A Rádio Deseo surgiu na sociedade boliviana há 18 anos e continua a ser a única rádio feminista do país. Nos últimos anos, o nosso meio de comunicação ganhou grande relevância, pois, embora o programa de María Galindo, integrante da Mujeres Creando, tenha a mesma trajetória que a emissora, há aproximadamente seis anos ela inventou um formato de rádio que chamou de «radiodocumentário», que leva a transmissão do estúdio para a rua. O sucesso tem sido impressionante; em termos de comunicação, tem níveis de audiência altíssimos e também um impacto social avassalador, pelos resultados concretos que María obtém ao acompanhar pessoas que denunciam fatos que envolvem instituições estatais ou privadas, onde, por ação ou omissão, são cometidas uma série de abusos e violações de direitos contra aqueles que a contactam. A chegada do programa de María e, consequentemente, da Radio Deseo, tornou-se muito mais popular graças às redes sociais, que amplificam o seu trabalho de forma incalculável, e isso porque, em cada radiodocumentário, María busca justiça para quem não a encontra por ser simples mortal nesta sociedade, sem pertencer às classes privilegiadas. Por isso, a legitimidade do trabalho de María e de Mujeres Creando, como coletivo, é indiscutível. Daí a enorme importância política da rádio para Mujeres Creando.

Mulher, não gosto quando você se cala

Sendo um movimento feminista anarquista com quase 35 anos de luta e vigência política na Bolívia, Mujeres Creando tornou-se uma referência de rebeldia para as lutas feministas do sul global. Mas não foi uma tarefa fácil, mas sim uma construção diária, como fazem as formigas: dura, passo a passo, com alegrias e tristezas, com conquistas e frustrações, mas estabelecendo um pensamento e um feminismo próprios que se constroem dentro de uma sociedade muito particular, repleta de contradições e altamente politizada, a boliviana. Um dos seus principais instrumentos de luta tem sido a criatividade, traduzida em grafites, ações de rua e intervenções artísticas que buscam gerar mudanças estruturais, não apenas questionando o modelo machista, classista, misógino, capitalista e colonial em que vivemos, mas também formulando uma série de propostas concretas que nascem e se tornam realidade na «Virgem». A autogestão tem sido fundamental para ter liberdade e autonomia e, a partir daí, questionar o poder em todas as suas formas, todos os governos, independentemente da linha ideológica do governo em exercício. Desde posições de direita até a autodenominada esquerda foram questionadas e não conseguiram nos calar porque mostramos um leque de possibilidades de transformação que se concretizam dia a dia em nossa casa. A rádio é um motor, mas também uma peça de um conjunto de iniciativas coletivas que mantêm o movimento com grande força.

A mulher que se organiza não aguenta mais espancamentos

Mulheres em Busca de Justiça (MBJ), a máquina de produção de justiça em que se tornou a equipe multidisciplinar que atende gratuitamente, a cada ano, quase três mil mulheres e suas crianças e adolescentes, vítimas de violência machista — sobretudo incumprimento de pensão alimentícia —, tem um papel fundamental. O seu trabalho responde a uma necessidade urgente da sociedade boliviana, a luta contra a impunidade e o mau funcionamento do sistema judicial, bem como a falta de uma abordagem feminista. Elas conseguiram resoluções favoráveis para as vítimas de casos praticamente impossíveis de resolver, graças às suas formas «alegais», como diz Paola Gutiérrez, responsável pela MBJ, de contornar as lacunas da lei. E têm vindo a construir o seu reconhecimento pela firmeza, integridade, empatia e perspicácia com que acompanham as vítimas nesse caminho em busca de justiça. Por isso, também funciona ali a Escola de Ética Feminista, a cargo de Raiza Zeballos, onde, em acordo com a universidade pública, formam jovens profissionais da área jurídica, social e psicológica, com uma abordagem feminista para a atenção às vítimas.

Os bancos aproveitam-se da precariedade e da instabilidade laboral existentes na Bolívia, onde 85% da população se dedicam ao trabalho informal3 e são, sobretudo, as mulheres que se endividam. Por isso, a advogada Mayra Rojas presta assessoria jurídica em «la Virgen» àqueles que tentam tirar-lhes tudo quando não conseguem pagar a dívida ou se endividam excessivamente. Quando os direitos laborais de trabalhadores, trabalhadoras e trabalhadories não são reconhecidos, Dominga Mamani, advogada trabalhista e ex-trabalhadora doméstica, resolve os conflitos, especialmente dos mais desfavorecidos, no seu escritório contra a exploração laboral.

Também temos um alojamento, que faz parte da autogestão, onde pessoas do interior ou do exterior do país podem ficar hospedadas. Mas há um quarto solidário e gratuito que, muitas vezes, é ocupado por alguma companheira que teve que sair de casa por ter sofrido violência ou por companheiras indígenas que chegam à cidade de La Paz para ganhar a vida, ou qualquer mulher que precise dele. Esse espaço, também de acolhimento, é administrado por Julieta Ojeda, que também é responsável pela agenda cultural da casa, por onde passam músicos, comediantes, rappers, cineastas, autores e onde é organizada uma série de atividades relacionadas ou afins ao feminismo, mas também se discutem e analisam outros temas diferentes em debates, palestras e conferências a partir do feminismo de Mujeres Creando.

Na nossa «Zona Pirata», Carmen Gardeazabal fotocopia os livros internacionais que temos à venda para quem não tem recursos para adquirir o original. Fazemos isso porque o movimento acredita firmemente na democratização do conhecimento. A casa não é muito grande, mas cada canto foi muito bem aproveitado. Assim, foi possível ter uma sala de aula que também funciona como videoteca feminista, com uma seleção de filmes excelentes, e onde são ministrados workshops de autodefesa feminista para mulheres de todas as idades ou simplesmente alugada a outros coletivos ou instituições educativas.

A Virgen de los Deseos tem o único banheiro público do bairro, pois, apesar de estar no centro da cidade, não há esse serviço básico em locais próximos à área. Quem nos visita para solicitar qualquer uma das iniciativas oferecidas na casa pertence a um setor mais popular da população, por isso esse serviço é uma necessidade, assim como o chuveiro solidário para qualquer companheira que precise. Num espaço feminista, é claro que tem que haver uma creche. Rosario Adrián, pedagoga, dirigiu durante 10 anos um espaço permanente para as mães que decidiram levar adiante o seu projeto de vida; agora, isso se concretiza em locais onde as mulheres precisam de cuidados temporários para os seus wawas (filhas e filhos), como feiras, oficinas, cursos, encontros, etc.

Essas iniciativas são para nós lutas cotidianas que mantêm viva a nossa casa e nos permitem tecer solidariedades e cumplicidades. Embora eu tenha mencionado algumas companheiras por suas   responsabilidades específicas, somos muitas mais. A primeira coisa que desnaturalizamos ao chegar à «Virgem» é a hierarquização do trabalho e das profissões; na nossa casa, o trabalho manual, criativo e intelectual têm o mesmo valor e todas fazemos de tudo, desde servir as mesas do restaurante, lavar os pratos ou o banheiro, até conceber o pensamento e plasmá-lo na produção intelectual que é o Mujeres Creando. A venda dos nossos próprios livros representa uma parte importante do sustento econômico do movimento.

A Virgen de los Deseos, o Bircholet de Mujeres Creando, é um local de encontros e confluências, não só para as integrantes do movimento, mas também para outras lutas. Outros movimentos e grupos encontraram aqui o seu lugar seguro para se organizarem, reunirem-se, tomarem decisões, sem receios ou perseguições.

Para mim, «la Virgem» é um refúgio. O lugar onde encontrei outra família, aquela que escolhi. Onde posso refletir e construir coletivamente. Onde não me sinto sozinha e perdida, mas encontro outras pessoas, mulheres diferentes, porque Mujeres Creando é isso, um grupo diversificado, da cidade e do campo, jovens e idosas, com profissão e sem profissão, casadas, divorciadas, solteiras ou viúvas, de diferentes condições econômicas e origens sociais, etc. Porque na diversidade, cada uma contribui para a luta da outra e nos fortalecemos.

La Virgen de los Deseos é um sonho que desejamos que outros coletivos do mundo possam alcançar, porque sabemos que somos muitas, muites e muitos que buscamos uma transformação real da sociedade rumo a um horizonte melhor, e uma casa própria é um motor. Desejamos isso para que essas lutas tenham o seu cantinho que funcione como um megafone amplificador dos seus próprios sonhos e vozes.

  1. Palavra composta, entre «bir», birlocha (uma indígena, chamada chola, que tira a saia e se veste como uma «senhorita») e cholet, denominação dada ao luxuoso estilo arquitetônico aymara, que resulta de uma combinação de «chola» e chalet. 
  2. Como se referem, geralmente no núcleo familiar ou próximo, a uma pessoa rebelde ou que não segue os padrões estabelecidos. 
  3. Dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística.  

Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/01/20/la-virgen-de-los-deseos-una-casa-donde-nacen-y-se-hacen-las-luchas-concretas/

Tradução > transanark / acervo trans-anarquista

agência de notícias anarquistas-ana

chuva torrencial
sob a laje de concreto
um casal de pardais

Jorge Lescano