
Bem-vindos à 11ª edição da Anarchist Review of Books, produzida por um coletivo sediado em Atlanta, Baltimore, Belfast, Bruxelas, Chicago, Detroit, Dublin, Exarchia, Londres, Nova Iorque, Oakland e Richmond. Trazemos esta edição em meio a um inverno rigoroso, enquanto tropas federais dos EUA caçam, detêm, deportam e assassinam seres humanos em nome da lei.
A palavra fascismo está por toda parte agora, mas o que está surgindo ao redor do mundo hoje não deve ser confundido com a mobilização estatal impulsionada pela indústria que caracterizou os movimentos fascistas do século XX. O que enfrentamos hoje é mais escorregadio, move-se mais rapidamente e é inseparável da tecnologia digital. Repetidamente, isto destrói os laços entre os humanos e o mundo ao seu redor, e aniquila qualquer sensação de realidade consensual usando um dispositivo extremamente brilhante que já está no seu bolso. É o rizoma em sua manifestação destrutiva e devoradora do mundo, uma força capaz de criar uma utopia para um pequeno grupo de pessoas.
Essa nova onda tecno-autoritária (que não vê ironia em descrever a ANTIFA como uma organização que tem “raízes perigosas” na luta contra o fascismo na Alemanha da década de 1930) é um movimento multiclassista, multiétnico e multigeracional que, como Joe Schmidbauer descreve nesta edição, surgiu a partir de ideias utópicas liberais.
Na obra final de Klee Benally, No Spiritual Surrender (Sem Rendição Espiritual), ele criticou o apelo anarquista para construir “um novo mundo a partir da casca do velho”. “O anseio deles é utópico”, disse ele, “(e a utopia é uma lógica colonial)”. Benally sabia o que Platão sugeriu há quase 2500 anos: a utopia de uma pessoa é sempre o inferno de outra.
O espectro dessa utopia tecno-autoritária impulsionou ações coletivas nos EUA, motivadas pela autopreservação. Minnesota deu origem espontaneamente à maior rede de ação descentralizada em mais de meio século, uma que jornalistas independentes descreveram como leaderless (sem nenhum líder) e leaderful (com todos sendo lideres) ao mesmo tempo, povoada por indivíduos que agem com base em suas próprias convicções. As fantasias de uma vanguarda revolucionária emergente permanecem apenas isso, fantasias. O que estamos vendo, em vez disso, é uma organização logística sendo realizada bairro por bairro, às vezes bloco por bloco.
É assim que se enfrenta uma crise. Os momentos mais importantes de risco coletivo são aqueles em que vemos como a subjetividade, a identidade e a sensação de um eu separado são claramente usadas como táticas de dividir para conquistar. O risco coletivo espontâneo e emergente precede a política, que, como nos diria Hannah Arendt, é sempre o território do compromisso. O que se seguirá a esses momentos revolucionários é impossível de prever.
Se quisermos alcançar algo além de uma campanha de sobrevivência, precisamos imaginar um futuro que ultrapasse o uso limitado da imaginação, que acaba em um beco sem saída de um tipo ou outro de utopia. A libertação começa no reino dos sonhos e da fantasia, e só é alcançada através da proficiência tática e da compreensão da realidade material.
Um exemplo disso vem dos zapatistas, que coletivizam com sucesso o risco, construindo laços comunitários sólidos por meio da autogestão baseada na solidariedade local e internacional. Do ponto de vista logístico, eles organizam conselhos autônomos em nível local, com rodízio de responsabilidades. Quando paramilitares atacam uma comunidade, a rede já está estabelecida, permitindo que todas as comunidades vizinhas respondam imediata e coletivamente ao risco. É assim também que o Corpo de Bombeiros da cidade de Nova York se organiza. Cada quartel de bombeiros do FDNY (Fire Department of the City of New York), como um conselho zapatista individual, cada bombeiro, como um militante. Essas são estruturas que não apenas podem ser sustentadas, como já formam os alicerces da vida coletiva.
Mas, seja combatendo incêndios ou o ICE (Immigration and Customs Enforcement), a realidade concreta é esta: não é mais seguro estar na linha de frente, independentemente do que digam os memes. Aqueles que estão na linha de frente de qualquer conflito entendem que o risco de danos, prisão e morte é maior. É mais seguro quando o risco é coletivizado, quando existem múltiplos pontos de contato e proteção, quando a comunicação é clara e a base é sólida. Quem está na linha de frente sabe que assumir essa posição é viver à beira de uma grande onda. Para vivenciá-la, devemos permanecer absolutamente presentes, como se estivéssemos à beira do próprio tempo, sem saber o que virá a seguir. O vento em nossos rostos é assustador, e é fresco, e nele, juntos, estamos vivos e fortes.
Em cada edição, declaramos o poder da imaginação. Nesta edição, trazemos entrevistas e perfis de pessoas que colocaram essa declaração em prática. Contemplamos utopias passadas e presentes; céus e infernos, movimentos artísticos, ilusões compartilhadas e lutas por libertação. T. Fleischmann destaca a coragem de Claude Cahun; Lorenzo Kom’boa Ervin e Joe Schmidbauer refletem sobre o fogo, as falhas e o futuro da contracultura; Shellyne Rodriguez presta homenagem a Assata Shakur; Ella Ray testemunha a ressurreição com Bread and Puppet; Jules Bentley despeja seu humor ácido contra um fornecedor de moda anarquista chique; e a ficção de Carrie-Edmund Laben incute em todos nós o medo de Pan. Além de resenhas e ilustrações de Narsiso Martinez, Élan Cadiz, Ben Durham, Molly Crabapple, N. Masani Landfair e Elektra KB; e remessas da Cisjordânia, Minnesota, Rojava e da Fronteira entre a Ordem e o Caos.
Todo o poder à imaginação
Todo o poder ao povo
Coletivo Editorial
Fevereiro de 2026
Fonte: https://anarchistreviewofbooks.org/about-this-magazine-arb-11-winter-spring-2026/
Tradução > NTLFG (Núcleo de Traduções Libertárias Ferrer y Guardia)
agência de notícias anarquistas-ana
Margeando riacho
Tenras folhinhas brotam
No campo queimado.
Mary Leiko Fukai Terada















Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...
Espaços como esse são fundamentais! Força compas. Vou contribuir!
A autoridade dos que são contra não é menos autoritária que as outras e encontra, quanto a mim, uma sólida…