Psicoterrorismo como arma estatal

Por Reno Moedor | Fevereiro de 2026

De grupos bolsonaristas de whatsapp de pessoas comuns influenciadas pela didática do extermínio do seu diferente, até o crime organizado, o uso do psicoterror ou do “psyops” pra outros, já vem sendo utilizada de muito tempo atrás. Hoje a mudança é que os hackers “red team e blue team” estão passando para o lado da perseguição estatal para fins ideológicos e se vangloriando disso abertamente. Uns comemoram o suicídio de um alvo com festas e churrascos em clubes da Aeronáutica, outros se vangloriam junto à mão de obra terceirizada do crime organizado da perseguição contínua do alvo até que este enlouqueça, e outros são chamados para palestrar em centros de psyops na escola superior de guerra do país. 

Longe de um artigo científico, isso é apenas um breve relato do que tenho visto e vivido nos últimos três anos como alvo destes grupos. 

Conhecido pelos irmãos comunistas e anarquistas perseguidos na ditadura, através de treinos pelas forças especiais do braço armado do país, trago aqui um breve relato para tentar divulgar cada vez mais, que estes grupos nunca deixaram de operar, agora estando muito mais organizados financeiramente e juridicamente, no STJ são os chamados grupos C4 de vendas de sentença, incluindo capatazes da polícia civil e policiais militares da ativa, executores do exército, e capangas do entorno de Brasília (316 norte) residentes no Goiás, no Pará, e trabalhadores cooptados pela ideia do poder do monitoramento ilegal, sejam elas: porteiros, vigilantes de patrimônio privado, vigilantes de hospitais e escolas, vendedores, auxiliares de limpeza, etc. 

A detecção

O ataque deles se expande quando você vê seu celular sendo uma espécie de “beacon”, para mapear seus amigos. Após os conhecidos IOCs psicológicos, são aqueles em que você ouve alguma informação privada sua sendo falada por pessoas que não são de seu convívio, você precisa validar a detecção do IOC técnico. Pois se eles têm acesso à essas informações, tem sempre algum meio, se não for por p2 geralmente é seu celular!

Graças a uma ferramenta (Avilla Forensics) de um desses poucos policiais éticos que existem por aí, foi possível identificar alguns indicadores de comprometimento e notar a invasão de um suposto aplicativo espião no meu Android, onde verifiquei que o invasor salvava as imagens e prints através do seu computador, ou seja, quando se salva imagens pelo Whastapp Web, a pasta destino é a Private, sendo apenas possível verificar este conteúdo da pasta, após o downgrade do aplicativo para ultrapassar as barreiras criptográficas atuais, seguindo o passo a passo de forense no youtube qualquer um consegue fazer isso, que é dado junto do app que é open source, inclusive por lá foi possível ver grupos de amigos do ZAP que não fazia parte, ou seja que eu não estava dentro do grupo, sendo monitorados sem nenhum escopo, sua mãe e famílias também, através do programa IPED que já vem junto desse mesmo app, mas vou logo dizendo que foi trabalho de formiguinha pois você tem que ir foto por foto, verificando se são suas aquelas ou se foram colocadas lá por quem te investiga…

Finalidades do psyops

A ideia do psyops é sempre uma, manter o alvo com medo, medo de sair, medo de viver, até que encurralado, pois no mercado que vai, na escola que vai deixar o filho, na academia, na vida do dia a dia normal, vai ter um agente observando-o. E a finalidade é sempre a mesma, a do autocídio ou de tentar enlouquecer o escolhido pelo grupo. No RJ, no MS, no RN, esses grupos se multiplicam, mas no DF é bem diferente, aqui é oculto. Camaradas que trabalham em cargos públicos também relatam essas perseguições por governistas, pois parece que o governo Lula resolveu deixar alguns bolsonaristas em cargo de comando, o que é uma maluquice completa.

No emprego, onde existia certa paz, se torna outro ambiente de guerra pois exposta suas ações, indivíduos pensam que podem seguir um assédio moral ininterrupto e continuam mesmo após serem processados.

A última opção que consegui foi trabalhando online pois lá eles não conseguem interferir. A Telus International, programa conhecido por ex detentos, tem ótimos programas para brasileiros e pagam em dólar, é o que tem me mantido até então.

A nossa realidade é muito diferente da dos partidários. Pois eles insistem em dizer que a ação direta é uma coisa negativa, dando brechas para todo tipo de brutalidade contra nossos coletivos ao redor do mundo. Por isso somos alvo mais frequente desses grupos de extermínio. Lembrem-se que eles são extremamente covardes e aterrorizam quem for, até de fora do escopo investigativo de uma possível persecução penal legal.

Da maturidade das consequências de nossas ações

Nossa maturidade deve ser no nível do filme “A battle after another”,nele, mesmo 30 anos depois, um coronel insiste em perseguir dois ativistas, claramente anarquistas que lutam contra todo tipo de opressão, ali mesmo após todo esse tempo, os kompas ligam para uma central que dá um local para eles ficarem sem correrem maiores riscos, através de códigos de segurança, onde tem comida, paz para relaxar um pouco, um emprego, armas…

Das defesas do psicoterrorismo

Mas por incrível que pareça ainda temos o direito à personalidade, que está intimamente ligada à LGPD. Alguns juristas consideram esses direitos como sendo compatíveis ao princípio do direito à privacidade. Ou seja, colha provas para no momento certo você ainda faturar uma grana em cima dos capitalistas safados através de um processo de danos morais, contra à honra e outras coisas mais.

Percebi também que mesmo a polícia civil não fazendo nada, um boletim de ocorrência assusta esses “Tonhão”, terceirizados. Não assusta os canalhas moradores servidores públicos perseguidores, mas os terceirizados ficam mais assustados quando fazemos denúncia de perseguição e stalking. Portanto, use também dessa arma. 

A nossa percepção magika também contribui para uma detecção de contra inteligência, a mediunidade ajuda em certos casos se você souber ouvir o silêncio, mas não desesperar também para não sair de casa na hora errada e dar de frente com quem o persegue. Tudo tem que ser no tempo exato, sem culpa, sem desespero, mas também com legitima defesa, fios ligados em grades de porta, maçanetas, grades de janela, segurança física e jurídica sempre à postos para enfrentar qual perigo for, treinamentos de lutas marciais também são sempre bem vindas.

Tudo se torna ferramenta no sentido absoluto da materialidade e espiritualidade, pedir proteção aos nossos guias e à nossa ancestralidade, pode se tornar um diferencial em meio a esses brutalizados. 

No mais continue viva, você não está sozinha. Saúde e anarquia.

agência de notícias anarquistas-ana

Lento dia:
um faisão
repousando sobre a ponte.

Buson

[Itália] Aqui quem não terroriza, adoece de terror!

Ficamos sabendo que nosso blog, junto com sottobosko.noblogs.org, foi parar nas páginas de um conhecido jornal de Bolonha por causa da publicação do texto “Quem sabota é inimigo da Itália“, relativo a algumas sabotagens nas linhas férreas ocorridas recentemente por ocasião das Olimpíadas de Milão Cortina (algumas delas justamente na região de Bolonha). “A rede do terror”, estampam.

A “rede do terror” é aquela que devasta e saqueia os territórios e as nossas vidas em nome do lucro, da guerra, de Estados que matam nas fronteiras e no mar, aquela que diariamente tortura e abusa nas celas das prisões e dos centros de detenção para repatriados (CPR). Terror é uma vida roubada, sacrificada à chantagem no altar do capitalismo.

Quando alguém tenta romper esse monopólio, devolvendo uma parte infinitesimal da violência estatal, é duramente reprimido.

Terror é o que eles gostariam de nos impor, trancando nossos companheiros e nossas companheiras na prisão e tentando destruí-los com sentenças e anos de cadeia, tentando isolar e quebrar a solidariedade para nos desencorajar.

A verdadeira “notícia” é que são cada vez mais as pessoas dispostas a se revoltar contra o terror deles. Toda a nossa solidariedade e cumplicidade a quem decide agir!

“Dessa forma, livres, atacamos este sistema mortífero, fortes pelo fato de que, espalhado por toda parte, pode ser atingido em toda parte… Até o seu colapso, até a libertação das nossas vidas e das existências alheias”

Inimigas da Itália e de todo Estado

Fonte: https://brughiere.noblogs.org/post/2026/02/13/qui-chi-non-terrorizza-si-ammala-di-terrore/

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/02/14/italia-pesaro-quebrar-o-gelo-reivindicacao-de-sabotagem-da-linha-ferrea-contra-as-olimpiadas/

agência de notícias anarquistas-ana

Eco dos trovões:
O aguaceiro, de repente,
faz subir o rio

Goga

[EUA] A livraria anarquista que não devia existir

de Carl Craft

Fifth Estate N° 417, Inverno de 2025

Wooden Shoe, em inglês, Sapato de Madeira, é uma loja estande anarquista de visibilidade pública, fundada em 1976 e que, usando projeções capitalistas, não devia existir. De modo inacreditável, continua funcionando. Muitos visitantes compartilham histórias dos pais quando eram hippies ou punks jovens, que frequentavam a South Street na Filadélfia, e vinham ao Shoe para aprender sobre o sistema.

Como descreveu um voluntário atual: “Uau, eu tinha em torno de 20 anos, saindo da Nova Esquerda inicial, da SDS que virou vanguarda, da mobilização em massa contra a Guerra do Vietnã, curioso em relação a anarquismos, e procurando um projeto e prática anarquista ou pelo menos, alguma tentativa. O início do Wooden Shoe me propiciou esse tipo de projeto em colaboração com outros. Agora, com quase 70, voltei para a Wooden Shoe como voluntário.”

De acordo com o Bureau de estatísticas sobre o Trabalho dos EUA, a expectativa média de vida de um novo negócio é em torno de 8,5 anos. Então, como o Wooden Shoes permaneceu ativo por quase 50 anos? Existem diversas explicações.

A loja, totalmente gerida por voluntários, que pega o seu nome do Sabot, literalmente um sapato de madeira usado por camponeses franceses, que era jogado nas engrenagens das máquinas como sabotagem, fica em área turística da Filadélfia, então, a loja recebe fluxo constante de curiosos. Oferece ampla variedade de títulos, incluindo, além da seção sobre anarquismo, LGBTQA, feminismo, poesia, graphic novels, livros infantis e mais. Eventos mensais também geram interesse.

No início, só pessoas envolvidas com o Wooden Shoe financiavam o projeto proposto. No entanto, como anarquistas, libertários de esquerda e novos indivíduos de esquerda, muitos com experiência em organizações e partidos de esquerda de cima para baixo, agir como capitalistas e esperar retorno do investimento não era a sua expectativa. Na verdade, é a participação voluntária e colaborativa que comanda o Shoe e faz dele um lugar onde as pessoas querem estar.

O prazer da participação é claramente expresso por dois voluntários.

“Eu adoro a comunidade que o Shoe cultiva. Entre o coletivo de voluntários, os organizadores de eventos e os clientes, a equipe da loja faz você conhecer as pessoas novas com ideias semelhantes”, diz um deles.

Outro ecoou o mesmo sentimento, dizendo: “Gosto de fazer parte do Shoe, que me permite fazer a diferença de maneiras que eu não conseguiria sozinha. Se tiver uma ideia de projeto que melhore as comunidades do nosso entorno, posso propor ao coletivo e contar com o apoio deles para realizar a ideia.”

Desde o início, buscaram-se aspectos fundamentais das relações anarquistas; como o consentimento, livre de coerção, entre iguais. Contudo, eram e são muitos os dilemas e as contradições. O fator ‘cringe’ pode ser grande e é preciso ter senso de humor e até sarcasmo. O Wooden Shoe existe dentro do capitalismo de varejo, no meio de todas as outras hierarquias associadas ao racismo, ao patriarcado, às classes e às outras formas de opressão sistêmica. A loja coloca preços nos esforços criativos de pessoas e, assim, transforma o valor de uso em faixas de preço (mercantilização) para livros, panfletos, patches, camisetas e zines. É necessário ter uma identidade legal para assinar contratos de aluguel, fazer comércio de varejo, e tudo o mais.

A loja é, hoje, organização sem fins lucrativos para o governo, para o proprietário e ao mundo todo. Tudo isso exige funcionários designados, estatutos e o envio de demonstrações financeiras anuais para o Departamento de Estado da Pensilvânia e ao IRS. Então, às vezes, os participantes se perguntam: a loja é um projeto autêntico voltado para o anarquismo ou é só mais um pequeno negócio de varejo?

O que torna o Wooden Shoe um projeto anarquista, além do conteúdo da loja, são as tentativas contínuas dos voluntários dentro do projeto de se relacionar e interagir entre si com base em ampla variedade de ferramentas anarquistas; interações não hierárquicas, consenso entre iguais, inclusive na tomada de decisões, inclusão e transparência no compartilhamento dos procedimentos, das finanças e da história. Também se busca autoconhecimento contínuo e autoavaliação das identidades e histórias pessoais, bem como o seu impacto no envolvimento e nos relacionamentos com a Shoe. Muitos veem o projeto no contexto da tradição anarquista da política prefigurativa, tentando incorporar as visões de um futuro anarquista coletivo. Frequentemente, esse é um esforço para um objetivo difícil que os participantes não atingem.

Aqueles envolvidos no Wooden Shoe se descrevem como coletivo voluntário. Desde o início, as pessoas que dedicam tempo e energia voluntários têm gerido o projeto, e essa é uma realidade maravilhosa. Trazer novos voluntários é um processo contínuo. Pessoas interessadas no voluntariado são orientadas a concordar de forma geral com a declaração de missão e a declaração de valores, afirmados pela da loja, além de completar três orientações de treinamento. Os voluntários de recrutamento determinam em que medida vão participar dos grupos de trabalho e da tomada de decisões.

Tudo pode parecer simples e direto. No entanto, todo voluntário tem uma vida contínua, que pode envolver emprego, relacionamentos, família, cuidados com as crianças, parentalidade, escolaridade, outras atividades voluntárias e as suas próprias físicas e mentais.

Portanto, há diferenças significativas entre os voluntários em relação a quanto tempo e energia que podem dedicar ao projeto Shoe. Isso leva a uma distribuição desigual do conhecimento interno sobre projetos e procedimentos. Compartilhar informações e conhecimentos sobre esses assuntos é uma necessidade constante para os voluntários diariamente e em reuniões coletivas. A chegada e saída dos voluntários é contínua e isso era de se esperar. Cria uma hierarquia desigual em relação ao conhecimento.

Diante dessas realidades, há aspectos práticos para sustentar o projeto. Atualmente, as reuniões coletivas de voluntários acontecem duas vezes por mês e o estatuto determina que os voluntários que participam da reunião tomam decisões conforme necessário. Não é necessário quórum. As anotações de uma reunião coletiva são enviadas a todos os voluntários. Qualquer pessoa que não puder participar de uma reunião coletiva, após ler as notas, é bem-vinda a questionar e até bloquear uma decisão relatada compartilhando a sua opinião e objeções, e quaisquer ideias alternativas propostas em até 3 dias. Depois disso, a decisão não é estabelecida, e a expectativa é que quem se opor participe da reunião coletiva seguinte para buscar alcançar consenso.

Tem a questão do dinheiro. Antes da eleição de Trump, em 2016, e desde então, a receita além das despesas no Wooden Shoe aumentou. O que fazer com esse dinheiro tem sido uma decisão contínua para o coletivo. Foram reservados fundos de margem de segurança. A preferência do coletivo é doar a maior parte do dinheiro adicional. Em reuniões coletivas mensais, são consideradas propostas de financiamento de organizações, incluindo outras organizações sem fins lucrativos. Alguns grupos solicitam financiamento, desde organizações locais sediadas na Filadélfia até outras em todo o mundo. No último ano, o coletivo doou fundos ou materiais impressos para 30 organizações e grupos. (Nota do Fifth State: Incluindo para esta publicação. Obrigado, camaradas!)

Além disso, a Wooden Shoe apoia a Aliança Cooperativa da Região da Philadelphia, PACA). Através da PACA, a Wooden Shoe oferece empréstimos sem juros a cooperativas sediadas na Filadélfia. Esperamos, em breve, fornecer fundos para empréstimos a uma loja de artesanato para imigrantes e a um coletivo de fitoterapeutas BIPOC*.

Carl Craft é voluntário da Wooden Shoe. O coletivo agradece aos fundadores e aos primeiros voluntários; Frank, Ben, Louise, Adrian, Steve, Barbara e Albo. Para mais informações, woodenshoebooks.org ou sabot@woodenshoebooks.com.

* N.T.: BIPOC, Black, Indigenous and People of Color, é como esse coletivo é referido nos movimentos sociais em inglês em geral atualmente.

Tradução > CF Puig

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flor do verão!
a tarde chovida em aves
o cheiro do mato

Gustavo Terra

[Alemanha] Eles não tinham escolha – humanos e animais na guerra na Ucrânia.

Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 | 18h00
Coletivo de Libertação Animal de Dresden: Eles não tinham escolha – Humanos e animais na guerra na Ucrânia
| Palestra e debate (em inglês e alemão)
@Hole of Fame, Königsbrücker Str. 39, Dresden

“Eles não tinham escolha” – Humanos e animais na guerra na Ucrânia (Ao Vivo). Entrevista e palestra informativa sobre animais em guerras. Há pessoas que arriscam suas vidas para salvar a vida de outras. Cada vida importa. Em uma guerra, isso não muda. Simplesmente há mais vidas para serem salvas, e as condições para isso pioram. “Eles não tinham escolha” está inscrito no “Memorial dos Animais na Guerra” em Londres. Aplica-se a muitas pessoas em guerras, mas também a todos os animais. 

O foco da noite será a situação dos abrigos de animais gravemente afetados pela guerra e o resgate de animais nas linhas de frente na Ucrânia. Se possível, alguém que resgata animais na zona de guerra participará do evento para uma entrevista ao vivo. Além disso, haverá uma visão geral da situação atual na Ucrânia e uma oportunidade para discutir o impacto da guerra sobre os animais, tanto humanos quanto não humanos. 

Perguntas sobre o evento podem ser enviadas para tierbefreiung_dd@riseup.net. A entrevista será em inglês. Se possível, será fornecida tradução. 

Durante o evento, serão arrecadadas doações para melhorar a vida das pessoas afetadas pela guerra na Ucrânia. 

Lanches e bebidas estarão disponíveis no bar. 

a-dresden.org

agência de notícias anarquistas-ana

É tarde, escurece,
a lua se esforça
mas logo aparece.

Pedro Mutti

[Grécia] Ataque e despejo iminente de Prosfygika

Durante o verão de 2025, o governo regional da Ática — cuja capital é Atenas —, mediante um acordo programado, iniciou em segredo o planejamento para a repressão e o despejo da Comunidade Okupa de Prosfygika na Avenida Alexandras, no centro da capital.

No início de 2026, colocou em marcha uma nova fase de seu plano, utilizando artigos pagos por porta-vozes do governo para promover o plano de despejo violento da Comunidade de Prosfygika durante os próximos seis meses. Destinando para isso, como de costume, grande quantidade de dinheiro público.

É a quarta vez que tentam despejar e saquear Prosfygika na última década. Desta vez parece ser a mais grave e sua materialização parece próxima. Para isso, exploraram todos os seus recursos propagandísticos, apelando à sensibilidade social com um suposto projeto de criação de moradias sociais e abrigos para familiares de pacientes do hospital oncológico St. Savvas. O plano de despejo de nossa comunidade está financiado com 15 milhões de euros de fundos europeus do programa ESPA Regional Ática 2021-2027.

Desta vez tampouco conseguirão!

Prosfygika é uma comunidade composta por mais de 400 pessoas — gregos, refugiados e migrantes — que inclui 50 crianças, grupos sociais vulneráveis, pessoas com graves problemas de saúde mental, pacientes com câncer, pessoas idosas, etc.

Durante os 16 anos de funcionamento da assembleia, foram eliminados todos os pontos de venda e produção de drogas, incluindo drogas pesadas, que previamente haviam infestado o bairro com o beneplácito da GADA — Chefatura de Polícia de Atenas —, além disso, foram estabelecidas 22 estruturas autônomas auto-organizadas para os habitantes da comunidade e dos bairros vizinhos de Ambelokipi e Gkyzi.

Como exemplo, sirvam:

• A Casa Infantil, a Estrutura de Autoeducação e a Creche Infantil Autogestionada que funcionam diariamente com um programa educativo completo para as crianças da comunidade de Prosfygika e do bairro, em colaboração direta com escolas, associações de pais e sindicatos de docentes em Ambelokipi, Ática e em todo o país.

• A Estrutura de Saúde e a Farmácia Social que oferece atendimento aos moradores do bairro que necessitam, em colaboração com dezenas de estruturas de saúde auto-organizadas, clínicas sociais e sindicatos de trabalhadores da saúde em nível pan-helênico.

• A Estrutura de Acolhida para Pacientes e Acompanhantes do Hospital oncológico “St. Savvas”, em colaboração com a união de trabalhadores do hospital.

• A Padaria Coletiva “Berkin Elvan”, que produz pão e produtos assados diariamente para os moradores do bairro e para qualquer ateniense que o deseje.

• A Estrutura de Obras Técnicas para a manutenção dos edifícios de Prosfygika.

• A Cafeteria e Cinema Coletivo para crianças e adultos, que oferece entretenimento e contribui para o desenvolvimento cultural dos moradores do bairro e de Atenas em geral.

• O Centro Social, que abriga a biblioteca, a sala de leitura e a assembleia geral semanal de tomada de decisões da Comunidade. Ao longo dos anos, também abrigou numerosos eventos, apresentações e assembleias de caráter social, político e cultural, tanto da Comunidade como de outros grupos e coletivos sociais.

• A Estrutura de Mulheres, cujo objetivo é a coletivização e o empoderamento das mulheres e dissidências, a criação e difusão de uma cultura oposta ao sistema patriarcal e que também funciona como abrigo de emergência para mulheres e dissidências que o desejem.

• A Equipe de Solidariedade com as pessoas em situação de rua, localizada na infraestrutura da Comunidade, fornece alimentos cinco dias por semana a dezenas de pessoas no centro de Atenas.

As estruturas da Comunidade estão abertas a todo o mundo e funcionam com base na auto-organização e na solidariedade social.

Durante o último ano, a Comunidade anunciou publicamente sua decisão de realizar a renovação externa dos edifícios de Prosfygika mediante autofinanciamento e com a participação e o apoio de arquitetos, engenheiros civis e outros especialistas técnicos. O plano do governo regional é uma resposta que busca antecipar-se a esta iniciativa social.

Esta nova agressão do governo regional da Ática faz parte da estratégia central do regime de Mitsotakis para desmantelar o maior projeto social existente atualmente no tecido urbano de Atenas — e de toda a Grécia em geral —, e um dos maiores da Europa, que tem atraído a atenção e o interesse de universidades e instituições culturais e educacionais da Grécia e do estrangeiro.

Para além de seu caráter social, a Comunidade de Prosfygika tem estado na primeira linha das lutas sociais, políticas, classistas e internacionalistas. Na Comunidade também residem combatentes da Grécia, Europa e organizações revolucionárias da Turquia e Curdistão. O regime de Mitsotakis vê em Prosfygika um oponente político e por isso tenta destruí-lo para tirar, por sua vez, proveito político e econômico.

O suposto desenvolvimento do bairro é uma falácia que busca expulsar a comunidade e desmantelar os modelos sociais de autoorganização social. É evidente que se trata de outra estratagema pré-eleitoral de um governo em decadência cujo único estandarte é a doutrina da lei e da ordem.

Mentem quando afirmam que o governo regional se preocupa com a habitação social. Prosfygika já proporciona habitação social para centenas de pessoas a quem a crise empurrou para a rua e o colapso de todas as estruturas sociais as condenou à miséria e à marginalização. Seu plano de deixar sem teto mais de 400 pessoas para alojar apenas 50 com capacidade econômica é o cúmulo da hipocrisia e da desumanidade de um sistema que se preocupa exclusivamente com seu próprio benefício e o saque dos fundos públicos e europeus. É uma desculpa descarada para desmantelar as habitações sociais já existentes, enquanto 80.000 apartamentos vazios, propriedade do Município de Atenas, permanecem vazios e sem uso no centro da cidade.

Mentem quando afirmam que o governo regional se preocupa com os familiares de pacientes com câncer, a quem a Comunidade tem acolhido e cuidado durante anos; pessoas que até então dormiam em seus carros durante dias ou semanas enquanto seus entes queridos recebiam tratamentos de longo prazo. A Comunidade já oferece condições de vida saudáveis e apoio com seu próprio trabalho e recursos. O governo regional planeja deixar na rua os familiares de pacientes com câncer, enquanto estabelece relações clientelistas com pessoas necessitadas. Ao mesmo tempo, inúmeras propriedades, propriedade do Estado e da Igreja, encontram-se vazias a poucas quadras de Prosfygika.

Mentem quando afirmam que o governo regional se preocupa com os problemas sociais do bairro, quando Prosfygika é um exemplo de convivência harmoniosa entre pessoas de todo o mundo: 27 nacionalidades diferentes, com seus correspondentes idiomas, culturas e religiões habitam o bairro. Adjacente a uma unidade OKANA — Organização para o Tratamento da Dependência de Drogas — é o único lugar sem tráfico de drogas, já que foram expulsos aqueles que se aproveitam dos mais vulneráveis. O único problema de segurança pública na zona são as políticas da GADA — chefatura policial da Ática — e do Ministério do Interior, que periodicamente invadem o bairro com gás lacrimogêneo — nas imediações de dois hospitais — para desmantelar uma comunidade auto-organizada que promove um modelo diferente de igualdade social e justiça.

Mentem quando afirmam se preocupar com o uso de Prosfygika e o desenvolvimento de Ambelokipi. A reurbanização de Prosfygika provocará um aumento vertiginoso dos aluguéis e do custo de vida em toda a zona, deslocando dezenas e centenas de vizinhos que não podem suportar o aumento de preços. Esta situação afetará gradualmente todas as áreas circundantes, alterando a composição social ao deslocar os moradores atuais em favor dos mais abastados.

Conclamamos toda pessoa com consciência e empatia a se unir à Comunidade de Prosfygika contra os planos de despejo e saque deste histórico bairro de resistência, auto-organização e refúgio.

Conclamamos a se mobilizar e comunicar nossa luta em seus bairros, círculos familiares e sociais, escolas, sindicatos e locais de trabalho para proteger Prosfygika dos planos predatórios e especulativos do governo.

Um governo que não se preocupou com a vida das 57 pessoas falecidas no acidente ferroviário da Tessália. Um governo que tem convertido a Grécia no lixão da Europa. Um governo que tem desmantelado toda estrutura social e serviço público de saúde, educação, habitação e cultura. Um governo que deixou morrer tanta gente durante a COVID-19. Um governo que tem empurrado os agricultores e o campo em geral para a mendicância. Um governo que tem expulsado do país meio milhão de jovens durante a última década. Um governo que não merece confiança sobre seu plano em Prosfygika, há apenas mentiras e miséria em suas palavras.

O despejo e a repressão de Prosfygika terá consequências incalculáveis para a saúde mental e física de dezenas de crianças, idosos e pacientes da Comunidade. Muitos deles não sobreviverão ao despejo por culpa do governo e seus agentes.

O despejo e a repressão do bairro de Prosfygika também afetarão o movimento e todas as lutas em curso, já que cada espaço liberado que se perde significa um duro golpe à luta comum contra a exploração e a injustiça que sofre quase toda a sociedade.

Por nossa parte, temos a responsabilidade e o dever de defender as habitações que cuidamos desinteressadamente durante anos como se fossem nossas, mantendo vivo um monumento nacional e arquitetônico que o planejamento estatal teria derrubado para lucrar com sua reconstrução. Temos a responsabilidade e o dever de defender as pessoas de nossa Comunidade, que de outro modo acabariam dormindo na rua.

Declaramos publicamente que não cederemos nem um centímetro de terra ao regime e suas empresas e que lutaremos com todas as nossas forças para desativar seu plano sujo, inclusive com nossas vidas. Temos o dever histórico e social de continuar na luta.

Nos certificaremos de que o enorme custo que nos empurram a assumir para proteger nosso bairro e Comunidade seja ainda maior para o governo e seus agentes.

SE CAIRMOS, CAIREMOS SOBRE SUAS CABEÇAS.

Conclamamos:

• A indivíduos, coletivos, sindicatos, associações, organizações a fazer todo o possível para frear a repressão e o despejo de Prosfygika.

• A indivíduos, coletivos, estruturas, iniciativas a se unirem ou virem morar em Prosfygika.

• A permanecermos atentos ante possíveis provocações do Estado e da polícia, que tentarão dividir e desmantelar a Comunidade e nossa luta comum.

PROSFYGIKA CONTRA MITSOTAKIS E SUAS EMPRESAS. PROSFYGIKA É RESISTÊNCIA SOCIAL, AUTO-ORGANIZAÇÃO, IGUALDADE E SOLIDARIEDADE.

NEM UM EURO DE DINHEIRO PÚBLICO PARA A REURBANIZAÇÃO DE PROSFYGIKA.

TUDO PARA A COMUNIDADE, PELO AUTOFINANCIAMENTO E A AUTO-ORGANIZAÇÃO.

TIREM AS MÃOS DE PROSFYGIKA. VENCEREMOS OU VENCEREMOS.

Convidamos para a Assembleia Aberta em Solidariedade com a Comunidade Okupa Prosfygika, para informação mais detalhada acerca da situação e o plano de defesa para o bairro e a Comunidade.

Assembleia Okupa de Prosfygika, Av. Alexandras

E-mail: sykapro_squat@riseup.net

Blog: sykaprosquat.noblogs.org

Instagram: @sykapro

Twitter: @Prosfygika

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Um rouxinol!…
E na hora do jantar
a família reunida.

Buson

A Hora é Agora: Uni-vos, Trabalhadores, pela Dignidade e pela Luta!

Chega de silêncio, chega de aceitar migalhas enquanto constroem a riqueza da nação com o suor do teu rosto! Olha ao teu redor: a precarização avança, os direitos são rasgados e a ganância patronal tenta calar a nossa voz. A imagem que você vê não é um instantâneo qualquer; é o retrato da nossa força coletiva, o símbolo de que a união é o nosso maior escudo. Enquanto estivermos divididos, seremos apenas peças descartáveis na engrenagem. Mas, juntos, somos a engrenagem que faz o mundo girar! Acorda, classe trabalhadora! O momento de reagir é este, antes que arranquem de nós o pouco que conquistamos com décadas de luta.

Não espere que a mudança caia do céu ou venha da boa vontade dos patrões. A história prova que cada direito conquistado – da jornada de 8 horas ao descanso semanal, das férias ao 13º salário – foi fruto da nossa pressão nas ruas, da nossa coragem em cruzar os braços e dizer: “Não passarão!”. A exploração só recua quando encontra pela frente a muralha da nossa organização. Seja no sindicato, na assembleia da fábrica ou na mobilização popular, o nosso lugar é na linha de frente, lutando por dignidade, por salário justo e por respeito. A passividade é o combustível da opressão; a rebeldia organizada é o motor da vitória.

Portanto, vista a camisa da luta, chame o companheiro de trabalho, o vizinho, o amigo! A batalha que se aproxima não é de um, é de todos nós. O ato que esta imagem representa precisa de você para se transformar numa avalanche que derrube os muros da injustiça. Apareça, participe, organize-se! Junte-se a nós no [local do evento] e faça valer a nossa força. Porque um trabalhador sozinho pode até ser ignorado, mas a classe trabalhadora unida é capaz de parar o mundo e construir um futuro onde a nossa dignidade não seja moeda de troca. A luta é agora e a vitória será nossa!

União Anarquista Federalista – UAF

uafbr.noblogs.org

Contato: uaf@riseup.net

Filiada à Internacional de Federações Anarquistas – IFA (https://i-f-a.org/)

agência de notícias anarquistas-ana

na boca da fornalha
labaredas
dançam Falla

Eugénia Tabosa

“Democraticamente”, sob governo Lula 3, o Itaú lucrou equivalente a R$ 128,2 milhões por dia em 2025. 

[Austrália] Uma declaração de solidariedade e recusa

Nós estamos com aqueles que foram às ruas de Sydney contra o genocídio na Palestina. Nós estamos com aqueles que recusaram a visita de um representante de um etnoestado colonialista de povoamento. Nós estamos com aqueles que não foram recebidos com diálogo, mas sim com spray de pimenta, intimidação e violência policial. Para muitos, essa repressão foi um choque. Na Austrália, a brutalidade deveria acontecer em outro lugar. Aqui, a discordância deve ser educada, fragmentada e exaustiva. O que se desenrolou não foi erro. Nem excesso. Nem fracasso. Foi o Estado reconhecendo uma recusa que não podia mais ignorar sem consequências. Foi o poder respondendo à solidariedade que já não pede permissão. O medo estava do outro lado.

Nenhum de nós é a favor da violência, mas rejeitamos a definição oficial. A pobreza é violência. A fome é violência. A precariedade é violência. O desemprego é violência. A crise habitacional é violência. As fronteiras são violência. O racismo é violência. A ocupação colonial é violência. Isso não são slogans; são as condições materiais da vida cotidiana. As pessoas não vão às ruas porque gostam de confrontos. Elas agem porque a vida foi organizada contra elas, porque a dignidade, a segurança e a possibilidade de um futuro habitável lhes foram roubadas. E agora, porque são forçadas a testemunhar um genocídio.

Não estamos sujeitos apenas à repressão em nosso próprio país, mas também ao espetáculo constante de mortes em massa em outros lugares — mortes possibilitadas por nossos governos, financiadas por nossos impostos, justificadas em nosso nome. Dizem-nos para observar. Para aceitar. Para ficar em silêncio. Para testemunhar um genocídio, ser tornado cúmplice pela inação, ser punido por recusar essa cumplicidade — isso também é violência. E quando as pessoas recusam esse papel, o que as espera? Uma força armada para a ordem e a propriedade: cassetetes, escudos, armas químicas, armas de fogo. Ferimentos não são acidentes. O medo não é um dano colateral. A prisão não é prevenção. São apenas métodos. Ninguém arrisca a própria vida levianamente. Ninguém joga a liberdade por diversão. Reagimos porque somos alvos de ações.

A obsessão com a “violência dos protestos” é uma mentira contada aos quatro ventos para esconder uma verdade mais profunda. Se a revolta envolve violência, este é o mínimo em comparação com a violência permanente do próprio sistema. Este sistema sobrevive pela força. Despejo à força. Disciplina à força. Educação à força. Fronteiras à força. Polícia à força. A crise do custo de vida não é uma tempestade — é planejada. A crise imobiliária não é um fracasso — é uma política aplicada com lei e violência. Eis a diferença: entre a violência que defende a dominação e a recusa que a interrompe. Em Nova Gales do Sul e em toda a Austrália, a máscara está caindo. Protestar é criminalizado. Os poderes da polícia se expandem. A violência estatal fica impune. A solidariedade é rotulada de extremismo. O cuidado é reformulado como ameaça. Enquanto isso, os aluguéis disparam, as hipotecas se tornam insuportáveis, os salários despencam, as pessoas são empurradas para subúrbios intermináveis, deslocamentos intermináveis, exaustão sem fim. Isto não é desordem. É controle. A polícia não está fora deste sistema. Ela é a sua linha de frente visível.

Nossa solidariedade com a Palestina é total. Mas não é um chamado para reproduzir as mesmas estruturas que criaram essa catástrofe inicialmente. Genocídio não vem do nada. Ele cresce da criação das fronteiras, da soberania, exclusão — de estados organizando a vida através de dominação. A Palestina expõe isso com uma claridade brutal: colonialismo, nacionalismo, ordem militarizada e guerra permanente. Mas isso não é isolado. É a regra em qualquer lugar onde o pertencimento é imposto pela força. Nós falamos de terras roubadas. Austrália é construída em invasão e mantida através da lei, da polícia e das prisões. Nós não falamos pelos povos indígenas. Nós não prescrevemos terras, vida, ou libertação. Essas lutas são autônomas e autodeterminadas. Nossa tarefa é a recusa: para prejudicar o sistema do qual nos beneficiamos, para enfraquecer as instituições de expropriação, para praticar solidariedade sem dominação. Estar ao lado da Palestina não é demandar uma bandeira diferente. Trata-se de rejeitar o capitalismo e a própria forma de estado — ao mesmo tempo reconhecendo que a libertação tem muitas etapas, escolhidas por aqueles que vivem seu preço. Nós afirmamos a libertação sem fronteiras, sem exércitos, sem polícia — a libertação vivida diariamente, não administrada de cima.

Nos é dito: votem. Esse é o seu poder. Isso é realismo. Mas o que é realmente oferecido? Reacionários. Conservadores. Ou um partido trabalhista administrando à mesma economia, policiamento, fronteiras, e obediência ao capital e ao império. No fundo, a maioria das pessoas já sabe que esse sistema não funciona para elas. Elas sabem através de avisos de aluguel, de extratos de hipoteca, da impossibilidade de morar perto do trabalho, das horas roubadas pelo tráfego e fadiga, no medo de serem descartadas, nas imagens de morte em massa passando interminavelmente, no isolamento manufaturado como vida normal. Elas sentem isso constantemente — e é dito que elas não tem alternativa. Eleições não rompem essa ordem; elas a ritualizam. Elas tornam a raiva compartilhada em gestos privados e retornam o poder às estruturas que criaram a crise. O problema não é a apatia. É a imaginação sob domínio. Nos tornamos impotentes não porque a mudança é impossível, mas porque a ideia de outra vida é sistematicamente apagada. E, ainda assim, tudo poderia ser diferente. Esse mundo não é inevitável, ele é imposto.

Se eleições não podem nos libertar então a questão é como viver de outra maneira. Nós expandimos a luta recusando a separação. Palestina não é um problema único. Violência policial aqui não é isolada. Fronteiras, habitações, guerra, trabalho — eles formam uma realidade singular. Nós respondemos criando o oposto: ajuda mútua, cuidado coletivo, recursos compartilhados, auto-organização. Formas de viver horizontais que contradizem o presente. Estruturas que não pedem por permissão. Que não esperam por líderes. Que permitem que as pessoas decidam, ajam, e defendam uns aos outros diretamente. Isso não é sobre substituir um governo por outro. Trata-se de abolir a própria dominação.

A luta pela Palestina é uma brecha. Uma rachadura no espetáculo. Um momento onde a recusa se torna visível. A recusa de um mundo organizado envolto em morte. Uma abertura para um mundo organizado envolto em vida. A libertação da humanidade será total ou simplesmente não será. Contra a violência de estado e capital. Pela ajuda mútua, auto-organização e libertação coletiva.

Alguns anarquistas – Em solidariedade

Tradução > Núcleo de Traduções Libertárias Ferrer y Guardia (NTLFG)

agência de notícias anarquistas-ana

No olhar do companheiro
que constrói sem pedir licença,
o amanhã inteiro.

Liberto Herrera

[Itália] Novidade editorial: Dicionário Anarquista para Meninos e Meninas

Um pequeno dicionário para um grande ideal

Dicionário Anarquista para Meninos e Meninas

Conceito original, ilustrações e textos de Jorge Enkis

adaptados para a edição italiana

Dedicado a meninos e meninas a partir de 9 anos, este Dicionário, com sua linguagem simples, positiva e às vezes irônica, e suas ilustrações alegres, é uma ferramenta formidável para despertar o espírito crítico em relação a si mesmo e à sociedade como um todo. Ele ensina que cada questão pode ser vista de diferentes pontos de vista e que na vida é importante valorizar as coisas belas, sem deixar de lutar contra as injustiças. Para os adultos que ainda sabem se envolver, é uma excelente oportunidade de questionar as próprias certezas, mas também é um veículo de comparação e diálogo com a geração que será chamada a cuidar do mundo. Esperando que ele o faça com liberdade, solidariedade humana, respeito ao meio ambiente e a todos os seres vivos no coração.

Dizionario anarchico per bambini e bambine

Páginas 84

€ 14,00

edizionimalamente.it

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Cinco lobos correm
em noite de lua cheia.
— Uivos na floresta —

Tânia Souza

[Itália] Pesaro: QUEBRAR O GELO! Reivindicação de sabotagem da linha férrea contra as Olimpíadas

QUEBRAR O GELO

Na madrugada do dia 7 de fevereiro, a linha férrea próxima à estação de Pesaro (PU, Marcas) foi sabotada.

Esta ação visa tornar visíveis as contradições que o “espetáculo” das Olimpíadas carrega consigo, neste caso as Olimpíadas de Inverno Milão Cortina 2026. Entre os vários parceiros oficiais desses jogos estão empresas como Leonardo, Eni, Grupo FS, que colaboram e especulam sobre guerras e devastação da terra em nome do feroz progresso capitalista.

Solidariedade combativa a todos os trabalhadores e todas as trabalhadoras que se rebelam contra a exploração dos patrões, aos povos em luta pela libertação de suas terras e a quem se levanta contra esta sociedade.

Liberdade para todos os rebeldes e todas as rebeldes enjaulados!

Deu na mídia de massa:

Fonte: https://ispiraazione.noblogs.org/?p=292

Tradução > Liberto

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Libélula voando
pára um instante e lança
sua sombra no chão

Goga

[Reino Unido] Jantando com o Diabo

Mesmo que Chomsky não soubesse nada dos crimes sexuais de Epstein, ser amigo do arquifascista Steve Bannon é imperdoável

Kell com Farshéa ~

O que havia no multimilionário Jeffrey Epstein que permitiu que um professor sênior, de cultura e formação fortíssimas, de uma das melhores universidades particulares do mundo fechasse os olhos para os rumores que circulavam sobre o seu gosto por adolescentes?

Sejamos francos, ninguém se surpreendeu quando JK Rowldemort apareceu nos arquivos, convidando Epstein para o show inspirado em Harry Potter. Nem quando tentou silenciosamente apagar os registros do iate. Ela é uma transfóbica séria que coloca a vida de crianças em risco ao financiar campanhas de ódio, e cujos livros e filmes estavam cheios de clichês racistas e antissemitas. Mas e Chomsky? O velho professor libertário e intelectual e aclamado pelo público?

Quando Norman Finkelstein foi convidado por Robert Trivers para sair com Alan Dershowitz e Epstein em 2015, ele respondeu: “Tenho a impressão de que, se Epstein colocou a sua filha aos 15 anos nessa posição, você não o descreveria publicamente como um ‘amigo’ nem pessoa íntegra idônea. Na verdade, espero que você estrangulasse tanto Epstein quanto Dershowitz rapidamente.”

Então, como é possível que os Chomskys estivessem tão isolados na sua torre de marfim a ponto de não ouvirem esses boatos quando Noam participou das soirées de casas na cidade em 2015?

Epstein já tinha cumprido pena por tráfico de menor, em 2008, mas a esposa, Valeria quer que todos acreditemos que, 7 anos depois, eles eram ingênuos, inocentes confiantes que foram enganados pelo brilhante vigarista. Toda a explicação dela depende do idealismo e da bondade de Noam; um especialista em linguística e nas maquinações do Estado americano, mas que, de alguma forma, em outros aspectos, era um inocente por fora. Então, ou Valeria também era igualmente ingênua, ou o casal simplesmente não tinha a firmeza moral de Norman Finkelstein.

O que chama atenção no seu texto é o quanto evitou mencionar a sua própria responsabilidade, ter conhecimento ou a sua cumplicidade.

Não acredito que Chomsky tenha ido a festas sexuais ou à ilha. Mas ele e Valeria foram à casa geminada de Epstein e ao Zorro Ranch (que agora está sendo exposto como mais um inferno para abuso infantil entre adolescentes). Sem esquecer que Chomsky está nos arquivos “fantasiando sobre a ilha caribenha”. Então ele e Valeria certamente eram companheiros de viagem e acompanhantes dos eventos de ricos e bem conectados de um homem excepcionalmente repugnante.

Mesmo que acreditemos em Noam e Valeria, vagando por grupos de pessoas ricas e poderosas, todos amigos do generoso Sr. Epstein, não sabiam nada sobre os crimes sexuais; nem daquele almoço de 3 horas intermediado por Epstein? Aquele pelo qual Valeria não pediu desculpas e está realmente torcendo para que não tenhamos notado?

Porque, como mostram as fotos, Chomsky, libertário repreensor do imperialismo americano e herói para muitos da esquerda e do anarquismo, fez amizade com um amigo improvável nesses encontros notórios. Entra, à direita do palco: Steve Bannon.

Ninguém esperava que Chomsky aparecesse nos arquivos, e absolutamente ninguém esperava que ele fosse um companheiro de bebida de um fascista internacional. O que os Chomsky estavam fazendo ao recebê-lo para almoçar em 10 de fevereiro de 2019? Bannon, que não só fez parte do primeiro gabinete de Trump, mas passou anos construindo vínculos entre partidos de extrema-direita e fascistas na Europa e América do Norte. Bannon de Breitbart, da supremacia branca nativista.

Eles não podem fingir que nunca ouviram falar de Bannon. Não são só fotos constrangedoras em festas. Foi um almoço de verdade de 3 horas. Com um fascista de verdade. Talvez tenha sido essa arrogância, como a de intelectuais liberais, professores estáveis, você pode conversar com pessoas do outro lado da divisão em uma trégua civilizada, por mais repugnante que seja, em nome do discurso intelectual e da curiosidade objetiva. Como um dos ‘intelectuais públicos’ do mundo, Chomsky tinha carta branca para sentar e conversar com um organizador fascista internacional. O que fez Valeria? Estava sentada à mesa? Ou lavando as mãos repetidamente no banheiro?

Tenho vontade de admitir que, enquanto tinham algum respeito por Noam Chomsky, anarquistas, anti-imperialistas e antifascistas, por décadas, citavam seus livros e pagavam suas contribuições; e estavam ele e esposa conversando num almoço com um poderoso organizador fascista. Após a Segunda Guerra Mundial, pessoas que haviam colaborado com os nazistas foram arrastadas para as ruas, as suas cabeças foram raspadas e elas foram exibidas para todos verem. Eu realmente gostaria de saber por que não deveríamos buscar a máquina de cortar cabelos agora.

(Lembrando todas as vítimas de Epstein e, em particular, Ava Cordero, moça trans de 16 anos que ele abusou entre 1999 e 2001 e que, depois, foi desacreditada, abusada e criticada pela mídia que o protegia).

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/02/12/dining-with-the-devil/

Tradução > CF Puig

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/02/05/reino-unido-noam-chomsky-traiu-tudo-aquilo-em-que-sempre-acreditou-ao-manter-sua-amizade-com-epstein/

agência de notícias anarquistas-ana

Calada resiste
a flor entre o asfalto duro —
ninguém a doma

Liberto Herrera

[Espanha] Mambrú não foi à guerra: 45 anos desobedecendo

Salam aleikum.

Replicamos hoje, na íntegra, o texto de 4 de fevereiro com o qual o Coletivo Mambrú, de Zaragoza, celebra seus primeiros 45 anos desobedecendo. O celebram com o texto que segue, com o convite a um ato e com um link à primeira publicação de Mambrú.

Muitas felicidades. Parabéns e um forte abraço.

E vão quarenta… e cinco.

Este inverno, enquanto os amos do dinheiro — que não de nossas vidas, pois são só nossas —  se esforçam para empobrecer o mundo e militarizá-lo, nosso coletivo Mambrú completa 45 anos de vida desobediente e 40 da publicação antimilitarista da qual tomamos seu nome após conseguir acabar com a mili.

O antigo COA (Coletivo de Objeção e Antimilitarismo) nasceu em novembro de 1980 junto ao desaparecido CAN (Coletivo para uma Alternativa Não violenta). Ambos surgiram do primordial Grupo de Objetores de Zaragoza, que começou sua trajetória até 1973. Com o COA criamos o fanzine antimilitarista Mambrú, uma humilde revista aragonesa de contrainformação editada pela primeira vez em dezembro de 1985.

Esta publicação se converteu no órgão ‘oficial’ de um florescente Movimento de Objeção de Consciência no Estado espanhol (o MOC), cuja fundação em 1977 contou com a contribuição de integrantes de nosso grupo. Hoje, aquela velha revista é um meio de expressão digital para a aprendizagem da não violência que serve de porta voz à resistência civil de todo o planeta, uma infinidade de experiências pacíficas, muitas delas ignoradas, que os contamos com orgulho e admiração.

Se olhas atrás… a luta histórica pela objeção de consciência frente aos quartéis da ditadura franquista, a insubmissão em uma democracia que a chamam assim e não é, a auto-organização antimilitarista, tenaz, valorosa, dentro e fora de seus cárceres ate acabar com o serviço militar obrigatório e a prestação substituta, a desobediência civil sem fronteiras contra os senhores da globalização neoliberal, oficinas e mais oficinas de educação para a paz, contra a economia de guerra e a precarização social, a denúncia dos crimes e a repressão na Bósnia, Iraque, Palestina, Síria, Ucrânia, Venezuela, Irã, Mineapolis…

Uma soma interminável de guerras, invasões racistas e coloniais, ditaduras, estados policiais… Mas também uma corrida emocionante para melhorar a condição da humanidade, para oferecer ferramentas não violentas aos movimentos civis para opor-nos às injustiças e divulgar alternativas à defesa armada e a autodestruição humana e meio ambiental.

Mambrú é centenas e centenas de ações diretas coerentes, transformadoras e divertidas — Por que não mudar o mundo com alegria? — Para defender-nos dos que dizem defender-nos, ainda que na verdade só defendam, a sangue e fogo, capitais, impérios e privilégios. Ao longo de todo este tempo compartilhado nos moveu a convicção de que o caminho que seguimos é um espelho do destino; por isso, nos esforçamos para que nossos métodos sejam sempre coerentes com nossos fins, com o mundo que desejamos viver. Não queremos esperar o futuro para sermos livres, queremos que nossas formas de atuar agora sejam já um reflexo desse mundo novo que levamos em nossos corações.

Somos um punhado de gente disposta a frear a apologia da guerra, que questiona a normalização da violência e a dominação estrutural, que trata de prevenir-nos de novas e mortíferas guerras ou da repressão cotidiana superando a ideia de que a segurança requer exércitos, autoritarismo, hierarquias, rearmamento, obediência cega…

Se diz que quem controla o passado controla o futuro, e quem controla o presente controla o passado. A nossa é uma luta contra o controle do tempo vivido e por viver, também contra a indiferença e o esquecimento que perpetua as causas e agrava as consequências dos problemas aos quais nos enfrentamos. Celebramos nossa memória, refletindo sobre o ontem para imaginar, e construir, um amanhã de justiça. Somos um pequeno coletivo fazendo coisas pequenas para mudar o mundo.

Por isso, e porque cuidar da memória antimilitarista é imprescindível para cuidar uma sociedade que urge desmilitarizar, te convidamos para sexta-feira, 13 de fevereiro, a uma jornada de debate e reencontro. Esse dia, celebraremos, às 18h30 em La Pantera Rossa (San Vicente de Paúl 28), um cine fórum com «Te harán un hombre», de Mireia Prats e Joan Torrents. Um documentário que repreende a sociedade sobre a normalização da violência militarista, a impunidade do exército espanhol e a ausência de transparência institucional em uma democracia sob a sombra da ditadura franquista.

O filme conta em primeira pessoa os abusos que sofreu a juventude durante o serviço militar espanhol, um maltrato institucional que poderia repetir-se no caso de implantar-se de novo aproveitando o impulso belicista que vivemos e com o pretexto de fortalecer a segurança europeia.

Gostaríamos de ver-nos, refletir juntas, sorrirmos de novo e seguir imaginando contigo outra existência. Vens?

Fonte: https://www.politicanoviolenta.org/mambru-no-fue-a-la-guerra-45-anos-desobedeciendo/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

folhas escuras
tremem na brisa
à contra-lua

Rogério Martins

Traduções

[Uruguai] A cultura anárquica do comum

O fundo de um imaginário coletivo subversivo

Comecemos por uma obviedade: no capitalismo, os assuntos comuns geralmente não são resolvidos pelas próprias pessoas envolvidas. Embora as relações hegemônicas em nossa sociedade — aquelas que configuram os modelos sociais dominantes — sejam estruturadas com base na dominação política, elas não são, no entanto, as relações majoritárias. As relações majoritárias são aquelas que poderíamos chamar, em termos políticos amplos, de relações anarquistas, isto é, relações não mediadas pelo mando-obediência.

Em nosso cotidiano, participamos mais da criação comum de regras (explícitas ou não) do que da elaboração de leis e assumimos mais responsabilidades do que ordens. Isso não costuma ser pensado dessa forma, é claro, nem mesmo por quem nos acompanha. Para a maioria das pessoas, a afirmação aristotélica de que no mundo sempre algo manda e algo obedece parece incontestável.

Essa preeminência atribuída às relações baseadas na dominação funciona dentro de um paradigma da dominação justa que permeia quase toda a filosofia política, salvo raríssimas exceções. Segundo esse paradigma, as relações de dominação, as chefias, são inevitáveis. Não importa se para sempre, dado que “o ser humano é o lobo do ser humano”, ou apenas por um período, enquanto se conduz pelo “caminho da verdade”; a dominação política seria justa e necessária.

Essa visão, contestada repetidas vezes pelas ideias e práticas dos espaços de auto-instituição, costuma invisibilizar a multiplicidade de relações existentes. E é justamente nessa multiplicidade que podemos nos apoiar para romper seus pressupostos instituídos. Embora invisibilizada, a auto-instituição — essa série de processos por meio dos quais o comum é produzido e sustentado sem mediações hierárquicas — é parte fundamental das lutas antagonistas e do cotidiano das comunidades.

Na política, porém, não houve nem há maior medo do que do que o de baixo é capaz: a ralé, a plebe, os pobres. A ideia da necessidade de representação da vontade e de chefia encontrou sustentação, repetidas vezes, nesse medo. Mesmo para grande parte da crítica ao populismo atual, o verdadeiro problema, como se se tratasse de uma essência maligna, um monstro adormecido, reside nas classes subalternas. O “pecado” dos partidos populistas, nesse caso, seria exacerbar, liberar esse mal.

Para rejeitar toda visão elitista e paralisante, que transforma o anárquico em patrimônio de uma minoria iluminada, precisamos revisar as noções a partir das quais nos pensamos. Hoje, inclusive em nossas iniciativas, parece haver menos clareza — ou acordo — sobre o que exatamente defendemos.

Duas formas de entender o comum

A uma concepção identitária de comunidade — entendida como um conjunto estável de características compartilhadas por um grupo humano, em última instância, uma propriedade comum — opõe-se uma noção mais ampla, entendida como um modo de ser em comum. Nessa concepção mais dinâmica e relacional de comunidade, as pessoas não são meras receptoras passivas de uma propriedade, mas parte fundamental de um processo contínuo e coletivo de construção. Portanto, a comunidade não é nada exterior, nada “fora” das próprias pessoas. Tampouco é entendida como um bem de propriedade imutável que deva ser defendido.

Em vez disso, a comunidade surge por meio das relações nas quais as pessoas instituem o comum e nas quais, ao mesmo tempo, essas mesmas relações as instituem. Instituir refere-se, então, aos processos pelos quais as pessoas sustentam a vida coletiva: atribuem-lhe sentidos, protegem-na e organizam sua continuidade. Agir como se todos esses processos pertencessem de alguma forma ao Estado — isto é, identificar sociedade com Estado — é tão equivocado quanto pensar que eles estão livres da ingerência dos modos estatais.

O paradigma político identitário, assim, reproduz uma visão bastante limitada dos processos e do papel das pessoas na criação do comum. Embora, no processo de instituição conjunta do real, o novo não surja do nada, mas do previamente instituído, tampouco é jamais a reprodução exata do que já existe. Cada pessoa, ao se relacionar com o e com as demais, recria o mundo, sempre o modificando. O novo emerge inevitavelmente, ainda que transformar de raiz o que foi historicamente instituído não seja algo fácil.

O comum nunca é algo estático, alheio ou superior às pessoas que o compõem, como pretende a visão identitária. O comum é uma copresença, um estar-juntos, um compartilhar que se torna responsabilidade ética diante das outras pessoas. Parece óbvio, mas o fato de as pessoas viverem juntas significa que estão implicadas umas nas outras, e não apenas lado a lado. Essa visão distorcida de como o real é instituído incide na reprodução da ordem atual ao gerar uma ideia que nos desvincula do processo.

Alteridade e coimplicação

No paradigma identitário, além disso, a alteridade — toda relação com o outro — é tomada como um processo negativo. A relação não é produtiva, mas sempre uma relação de contenção. Ao papel passivo na construção do comum atribuído às pessoas soma-se a interpretação da interação social como um conflito contínuo entre indivíduos negociando sua sobrevivência.

Essa ontologia individualista, majoritariamente associada à ideia liberal — sujeitos independentes ou, no máximo, relações intersubjetivas — não consegue descrever adequadamente as relações entre as pessoas. Mesmo quando se afirma que da negação do outro possa surgir algo posteriormente positivo, a visão dos limites é sempre negativa. Isso levou à interpretação equivocada de que o anarquismo seria apenas uma reação especular ao poder político instituído. Esse erro explica, ao menos em parte, um falso antagonismo e um reducionismo entre a capacidade destituinte e instituinte dos movimentos antagonistas e antiautoritários.

No entanto, é possível conceber a alteridade a partir de outro ponto de vista, que suponha uma experiência diferente do limite. Não estamos obrigados a sobreviver aos outros; nossa singularidade, nós mesmos, emergimos de uma vasta série de relações — não apenas de negação — que estabelecemos com eles. Ao contrário do que dizem aqueles que incitam o medo do outro, as demais pessoas são a própria condição de possibilidade de todos os nossos desenvolvimentos possíveis, bons e maus. Quem nos cerca é parte do que somos e, na alteridade, ampliamos ou diminuímos nossas próprias potências.

A relação entre os sujeitos e o meio, portanto, é de coimplicação e cofuncionamento, não de separação ou mera negação. O comum é o que surge nessa relação. Pensar a comunidade e suas relações a partir da diferença e da alteridade desafia certa pretensão autoritária de uniformidade e homogeneidade das comunidades.

Uma figuração anárquica do comum

Ao abandonar a ideia de uma alteridade sempre negativa e de sujeitos substanciais, podemos enfrentar o desafio de pensar o comum como condição mesma dos desenvolvimentos coletivos antiautoritários, ali onde a diferença se torna produtiva. O comum é o terreno de conflito e a condição de possibilidade da criação anárquica: a auto-instituição. A singularidade e a vitalidade desse tipo de criação residem em práticas que prescindem tanto de qualquer chefia externa ou interna quanto de qualquer forma de representação ou passividade.

A cultura do comum deve enfatizar o caráter contingente, relacional e transformador do estar-juntos. A contingência própria do que é vivo reforça a proposta. Na prática, a auto-instituição, por sua vez, supõe a rejeição da representação e de qualquer vínculo com princípios abstratos universais colocados acima das pessoas. Portanto, embora propostas de todo tipo sejam importantíssimas, não há espaço para modelos de pretensão universalista que busquem substituir os envolvidos ou abarcar toda a complexidade social.

Uma figuração anárquica da cultura do comum pode irromper no imaginário coletivo como a afirmação e o máximo possível de ampliação das potências coletivas.

Instituir a diferença

Não é preciso se preocupar com o comum, no sentido de que ele simplesmente já existe; mas sim com as possibilidades que se abrem ao pensá-lo de maneira diferente. Por que insistir em uma ideia de alteridade que não reconhece as infinitas possibilidades da interação? Por que apegar-se a um elitismo que reduz a anarquia ao excepcional?

O antagonismo entre construção e destruição é falso. O anarquismo não pode ser reduzido à simples negação ou reação especular da ordem instituída que, embora o condicione, não pode determiná-lo. Na prática, a negação, como destruição parcial ou total do mundo instituído, é indissociável da instituição, ao mesmo tempo, de outros mundos. Mesmo na perspectiva insurrecional, não há fim do capitalismo sem mais “instituições anarquistas”, ou seja, sem generalizar esse sustentar a vida coletiva em chave antiautoritária. Portanto, rejeitar a necessidade da projeção anárquica equivale já a fracassar.

Ao mesmo tempo, o anarquismo tampouco pode ser reduzido a uma construção paródica em que, de algum modo, se vive um ideal futuro. As práticas anárquicas afirmam e ampliam potências comuns, transformações e conflitos no presente. A projeção dos movimentos, o impulso projetual das capacidades do de baixo, não supõe criar modelos únicos nem combater monstros com monstros. A criação auto-instituinte é sempre provisória, aberta e mutável. É o terreno de combate do possível.

O que defendemos não pertence ao futuro, não é abstrato, nem está fora ou acima de nós. Não há anarquismo sem sujar as mãos; a luta por generalizar a auto-instituição do comum não garante resultados, mas justamente por isso torna tudo possível.

Regino Martinez

Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/01/21/la-cultura-anarquica-de-lo-comun/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Árvore amiga
enfeita meus cabelos
com flores amarelas

Rosalva

[México] Fúria do Livro e da Gráfica Anarquista, 6 e 7 de março

Sexta-feira, 6 de março, e sábado, 7 de março, na loja de chocolates solidária Las 400 voces. A partir das 11h. Cidade do México.

Em meio à turbulência atual, estamos conspirando para criar este belo encontro!

Um pretexto para nos vermos, conversarmos e celebrarmos juntos estes 13 anos de existência como projeto editorial!

Pela libertação total — animal, humana e da Terra!

Liberdade para Sheveck!

Deseja apresentar uma publicação, projeto, palestra ou oficina?

Escreva para nós em editorialmareanegra@proton.me

agência de notícias anarquistas-ana

Laranjais em flor.
Ah! que perfume tenuíssimo…
Esperei por ti…

Fanny Dupré

O Colapso Que Nos Convoca

O edifício podre do capitalismo global entra em convulsão terminal. Suas fundações, erguidas sobre exploração e ecocídio, rangem até à exaustão. Este não é um acidente de percurso, mas o desfecho lógico de um sistema que consome vidas e planetas com a mesma frieza. Diante desse iminente colapso civilizacional, a pergunta crucial não é como salvar as ruínas, mas como garantir que, na queda, esmaguemos de vez o altar do Capital, do Estado e de toda hierarquia. E a resposta, clara e urgente, é a da ação anarquista: que os explorados e oprimidos sejam, sem qualquer mediação ou piedade, os atores conscientes da derrocada deste mundo doente.

Os arautos do poder, em pânico, já oferecem suas soluções envenenadas: mais Estado, mais controle, mais “capitalismo verde” para gerir a escassez que eles próprios criaram. Querem nos convencer a confiar novamente nos carcereiros, agora como supostos bombeiros. É uma fraude histórica. O Estado, longe de ser um antídoto, é o braço armado e o gestor burocrático da catástrofe. Sua lógica é a da soberania sobre pessoas e territórios, da triagem social em meio ao caos, da perpetuação de uma elite em bunkers mentais e materiais. Confiar nele para nos guiar no colapso é como entregar o rebanho ao lobo para que o proteja.

Portanto, a única força histórica capaz de não apenas sobreviver ao colapso, mas de forjar no seu fogo algo radicalmente novo, somos nós: a multidão dos sem-poder, dos precarizados, dos racializados, dos esmagados pela máquina. Não temos interesse em preservar este mundo, pois ele nunca nos pertenceu. Nosso poder reside exatamente no que o sistema nos negou: a desvinculação afetiva de suas instituições moribundas e a capacidade criativa de quem sempre teve que reinventar a vida nas frestas. O colapso não é o fim da nossa história; é a demolição necessária do palco onde sempre fomos coadjuvantes.

A hora não é de petições, nem de esperar por salvadores políticos. É a hora da ação direta, da organização horizontal e da solidariedade agressiva. Cada greve selvagem que paralisa os fluxos do capital, cada centro social ocupado que vira base de apoio mútuo, cada infraestrutura comunitária que ignora o Estado e o mercado, são laboratórios do futuro e golpes diretos no presente caduco. É na prática concreta das assembleias populares, das redes de abastecimento autogeridas, da defesa comunitária, que se forja a consciência e o poder de que precisamos. É assim que se desmonta um mundo: criando, aqui e agora, os embriões do que virá.

Rejeitamos com todo vigor qualquer pacto faustiano que nos ofereça migalhas de “estabilidade” em troca do desarme de nossa rebeldia. A esquerda autoritária, com sua nostalgia de Estados fortes e vanguardas iluminadas, é um beco sem saída. Ela só reproduz, com nova roupagem, a mesma lógica de comando e obediência que nos levou ao abismo. Nosso caminho é outro: não a tomada do poder, mas a sua dissolução. Não a gestão da crise, mas a explosão criativa a partir dos seus escombros.

Que o medo, portanto, seja combustível, não paralisia. O sistema se alimenta do nosso temor do caos, vendendo segurança em troca de liberdade. Mas o verdadeiro caos é a ordem atual, que diariamente destrói ecossistemas e condena gerações. Nossa ousadia deve ser proporcional à monstruosidade que enfrentamos. “Não há nada a perder, exceto nossas próprias correntes”. E há um mundo a ganhar: um mundo sem senhores, sem fronteiras, sem a máquina de moer corpos e sonhos; um mundo onde a liberdade individual seja indissociável da comunidade livre, onde a necessidade de destruir ande de mãos dadas com a paixão de construir.

O colapso iminente não é um apocalipse, é um parto. Doloroso, caótico, mas carregado de uma possibilidade imensa. Cabe a nós, anarquistas e rebeldes de todas as bandeiras, ser a parteira desta nova era. Não com discursos, mas com mãos que desmontam o velho e erguem o novo. Não com líderes, mas com a força coletiva dos que ousam governar a si mesmos. Que a derrocada do mundo doente seja a nossa obra mais ousada, e o caos que se avizinha, a tela em branco onde, enfim, pintaremos a liberdade.

Liberto Herrera.

agência de notícias anarquistas-ana

Entardece,
Gaivotas riscam o céu
Flores brancas nascem na mata

Betty Mangucci