[EUA] Encontro “Igniting Sparks” na Ecovila Emberfield

Este é um encontro gratuito que convida pessoas interessadas para a ecovila Emberfield Heart Collective, em La Plata, Missouri. É organizado por pessoas envolvidas no The People’s Project, uma organização dedicada a facilitar formas de vida e oportunidades educacionais para quem pratica habilidades de vida off-grid, jardinagem, vida rural auto suficiente (homesteading) e permacultura em comunidades intencionais.

Emberfield é uma ecovila off-grid situada em uma terra sob gestão coletiva (land trust), dentro da Permaculture Mutual Aid Network, uma rede de territórios, pessoas e comunidades intencionais da qual também faz parte The Garden, no Tennessee.

Durante o encontro, iniciaremos a construção de uma cabana comunitária, espalharemos cascalho para uma estrada, prepararemos e compartilharemos refeições, plantaremos árvores e jardins, além de diversas outras atividades de construção comunitária off-grid. Haverá pessoas com anos de experiência em vida comunitária intencional e na organização de encontros como este, que reúnem participantes por semanas para apoiar ecovilas com tarefas como cozinhar, construir, cultivar, plantar árvores, coletar lenha e outras atividades.

Também incentivamos que as pessoas tragam seus interesses criativos para compartilhar em formas de entretenimento off-grid, como música e arte, tanto ao redor da fogueira quanto durante o dia. Há também lagoas próximas para nadar e se refrescar, além de uma comunidade off-grid vizinha.

Há oportunidades para quem quiser se envolver mais conosco no futuro.

Este evento também faz parte de uma Permaculture Mutual Aid Tour, com uma caravana de pessoas viajando entre eventos específicos para ajudar no plantio de árvores e em encontros de comunidades intencionais. Estamos comprometidos com o anarquismo, a práxis anarquista, a construção comunitária, a ajuda mútua, o minimalismo, a tomada de decisão por consenso não hierárquico, a comunicação não violenta, a vida comunitária, a sustentabilidade, a autonomia e esforços conscientes para viver em paz entre nós e com a Terra.

Acesse www.peoplesproject.earth para saber mais.

Obrigado pela leitura. Esperamos te ver em breve!

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

vôo dos pássaros!
fio costurando ligeiro
o céu ao mar.

Tânia Diniz

[Suíça] Claudio Grigolo, Mais uma Perda para o Movimento Libertário em Ticino

Nos últimos meses, assistimos ao falecimento de importantes companheiros — pessoas que, com sua presença, paixão e dedicação, deixaram uma marca indelével em nossas vidas e em nosso ativismo. Apenas algumas semanas após o falecimento de Gianpiero Bottinelli (Umanità Nova, 7 de dezembro de 2025), na segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, o ainda jovem Claudio Grigolo, assistente social e ativista de longa data do Círculo Anarquista Carlo Vanza em Bellinzona, nos deixou.

Amante da música, sempre dividido entre Fugazi e Tre Allegri Ragazzi Morti, ele sabia como tornar o Circle (Círculo) um lugar de convívio com sua presença, bem como um espaço de documentação, pesquisa, protesto, construção e resistência. Lembrando-se de seu compromisso juvenil com o ambientalismo em organizações ecológicas, ele acompanhou o camarada Marco Camenisch com extrema generosidade em suas lutas e durante sua prisão. Um compromisso antimilitarista indomável, que lhe custou a prisão, forjou sua solidariedade com os resistentes ao serviço militar, os objetores de consciência e os desertores. Nos últimos anos, graças em parte à sua aguçada sensibilidade profissional, ele havia assumido com dedicação a batalha contra a criação de um centro “educacional” fechado para menores. Além disso, já na década de 1990, ele era membro do Comitê da Liga Suíça pelos Direitos Humanos — Seção da Suíça Italiana, que atuava em questões prisionais e contra a repressão policial.

De vez em quando, ele também contribuía para a imprensa anarquista. Em um artigo para a primeira edição da Voce Libertaria, ele escreveu: “Parece, portanto, cada vez mais urgente unir as forças da dissidência (radicalmente opostas à burguesia e aos reformistas de todos os matizes) e desenvolver ainda mais um projeto que dê forma e voz àqueles considerados incompatíveis pelo atual sistema de superexploração, que continua a ignorar os motivos e as necessidades essenciais de uma vida digna, livre de todas as formas de opressão.”

Mas a vida nos mostra de forma dramática que a luta não é meramente política, social ou militante: é profundamente humana. É composta de laços, confiança, partilha e solidariedade, mas também de ausências que pesam sobre nós e nos lembram o quanto cada momento é precioso. Essas perdas devem nos ensinar a não dar nada como garantido. Elas nos lembram que os relacionamentos devem ser cultivados, as conexões mantidas, as ligações feitas e o respeito mútuo praticado todos os dias. Cada gesto de proximidade, por menor que seja, torna-se uma forma de honrar aqueles que já não estão mais conosco e de fortalecer aqueles que permanecem.

Vamos sempre apoiar uns aos outros, com sinceridade e coragem. Vamos aceitar as dificuldades, compartilhá-las e continuar a lutar juntos, mantendo vivos os valores, as paixões e as ideias daqueles que nos deixaram. Que a memória de seus rostos, suas palavras e suas ações seja uma força motriz para perseverar, para sermos mais atentos, mais unidos, mais humanos. Sua ausência não nos separa: ela nos chama a sermos mais fortes, juntos, em sua memória.

Petra – Circolo Anarchico Carlo Vanza (Círculo Anarquista Carlo Vanza) – Bellinzona

Fonte: https://umanitanova.org/claudio-grigolo-un-altro-lutto-nel-ticino-libertario/

Tradução > transanark / acervo trans-anarquista

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Trovão ribomba
Galinhas levantam a crista
de uma única vez!

Naoto Matsushita

[Espanha] “Este indulto não é um presente; é fruto de uma luta incansável”

As Seis de La Suiza, condenadas à prisão após um protesto trabalhista, entre as quais se encontra uma moradora de Santander, Bea, foram indultadas pelo Conselho de Ministros após meses de luta e pressão social. A seguir, transcrevemos na íntegra o comunicado que nos enviaram com seus agradecimentos, reflexões e lições aprendidas sobre tudo o que passaram.

> Graças ao apoio mútuo, não conseguiram nos derrotar. <

O Conselho de Ministros aprovou o indulto às 6 de la Suiza. Nove anos depois, este processo chega ao fim. Ainda nos custa acreditar.

Fomos indultadas, sim, mas a repressão ao sindicalismo e àqueles que se organizam continua em vigor.

Este perdão não é um presente; é fruto de uma luta incansável. Por isso, queremos agradecer:

A vocês que lotaram as ruas.

A vocês que gritaram “6 de Xixón, absolvição!” quando tentavam nos silenciar.

A quem nos abraçou sem nos pedir que fôssemos heroínas, a quem entendeu que a dignidade não precisa ser perfeita para ser legítima.

Queremos agradecer a todas as pessoas e coletivos que nos acompanharam e apoiaram durante esses anos, tanto no plano humano quanto organizativo. Sem o apoio de vocês, isso não existiria hoje.

O que nos sustentou não foi a paciência, mas a raiva transformada em organização.

O que nos salvou não foi a esperança, mas o movimento de solidariedade que se levantou ao nosso redor.

Este caso demonstrou algo que já sabíamos: quando atacam uma, todas nós respondemos.

Não deixemos que se percam os aprendizados que adquirimos nessa luta; precisamos continuar tecendo a solidariedade e precisamos fazê-lo cada vez melhor

Hoje comemoramos, mas não esquecemos aqueles que continuam sofrendo repressão. Nem que esse caso crie um mau precedente para a coletividade: ainda hoje se tenta fazer com que o sindicalismo seja considerado crime.

Graças ao apoio mútuo, não conseguiram nos derrotar.

E que ninguém duvide: também não conseguirão derrotar aquelas que vierem depois.

Conteúdo relacionado: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/04/02/espanha-comunicado-nem-delito-nem-indulto-organizacao-e-luta/

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Horizonte em chamas.
No morro das goiabeiras
Sabiás em festa.

Rosa Yuka Sato

[Grécia] Patras: Exibição de faixa no desfile de 25 de março

No âmbito da semana internacional de ações em solidariedade aos companheiros presos no “caso de Ampelokipoi”, na quarta-feira, 25 de março, hasteamos uma faixa gigante durante o desfile [Dia da Independência Grega] na cidade de Patras, no momento em que as forças de segurança passavam. Não lutamos por nenhum Estado nem por nenhuma nação. Nossa luta é social e de classe. Nem uma hora no exército.

KYRIAKOS XYMITIRIS PRESENTE

LIBERDADE AOS COMPANHEIROS PERSEGUIDOS PELO CASO DE AMPELOKIPOI

 APOIAMOS OS APELOS DE SOLIDARIEDADE

O ESTADO E O CAPITAL SÃO OS ÚNICOS TERRORISTAS

A n a r q u i s t a s

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/17/grecia-semana-internacional-de-acoes-solidarias-com-os-companheiros-presos-e-em-memoria-do-guerrilheiro-armado-kyriakos/

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No parapeito
da velha janela
a gata espreita

Eugénia Tabosa

[México] Lançamento: “La clandestinidad anarquista. De la Comuna de París a la Mano Negra (1871-1883)”, de Clara E. Lida

A clandestinidade dos movimentos revolucionários, em geral, e do anarquismo, em particular, foi apenas estudada. Este livro explora o primeiro anarquismo espanhol desde sua introdução na Espanha, em 1868, e analisa os mecanismos que idealizou para desenvolver-se à luz pública, quando as circunstâncias o permitiram, ou prosseguir em segredo, em caso de perseguição.

Nestas páginas se presta especial atenção ao decênio clandestino, ao qual recorreram os anarquistas — homens e mulheres — a partir da repressão da Comuna de Paris e sua repercussão continental, em 1871. Na Espanha, nas cidades e no campo, os militantes souberam ocultar-se em grupos pequenos, mas ativos, somar sólidos intercâmbios transnacionais e transatlânticos (inclusive com México e o Rio da Prata), e publicar diversos impressos clandestinos que consolidaram amplas redes revolucionárias. Em 1881, ante o regresso público de uma pujante Federação de Trabalhadores, desde o poder se desenhou uma vasta repressão militar e judicial, e se recorreu a inovadores manejos da opinião pública. Uma imprensa oficiosa transmutou uma associação legal em uma aterradora sociedade criminosa chamada a Mão Negra. O êxito destas manobras conduziu o primeiro anarquismo espanhol a extinguir-se e desaparecer em 1888.

Este livro é um guia imprescindível para estudar a clandestinidade anarquista e adentrar-se em um mundo de luzes e sombras de intenso otimismo revolucionário, assim como de implacáveis perseguições.

La clandestinidad anarquista. De la Comuna de París a la Mano Negra (1871-1883)

Clara E. Lida

Editorial: El Colegio de México

Número de páginas: 236

ISBN: 978-607-564-732-6

$225.00

libros.colmex.mx

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Pelo zumbir dos mosquitos
deve ser alta madrugada.
Ó esta lua demorada!

Etsujin

[Chile] Memória e luta pelos companheirxs anarquistas Sara e Alessandro!

No último dia 20 de março, chegou do outro lado do oceano uma triste notícia: dois anarquistas morreram. Elxs preparavam um golpe contra a inércia capitalista. Um golpe contra o desespero, contra o conforto da obediência, que sempre acaba sendo um caminho mais fácil do que a incerteza da rebelião.

Porque elxs poderiam ter escolhido uma vida de resignação; no entanto, naquele canto do planeta, entre as ruínas da cidade e a tensão própria de uma ação, a decisão dxs companheiros Sara e Alessandro não foi senão a condensação de toda uma história de luta que entrelaça o passado e o presente, que confronta a vida e a liberdade contra os sistemas de dominação e morte. Sara e Alessandro escolheram a luta e a anarquia; nosso compromisso é não desistir desse caminho.

29 de março, Dia do Jovem Combatente!: Desde as barricadas, reivindicamos xs companheirxs que morreram em Roma. Força, amor e solidariedade às suas famílias, amigxs e companheirxs.

Não ao 41-bis

Liberdade a todxs xs presxs anarquistas!

Sem engano, sem dúvida, sem arrependimento… Pela anarquia!

agência de notícias anarquistas-ana

Você se parece
com este galho de acácias
repleto de sóis.

Eolo Yberê Libera

[EUA] Dez Pequenas Anarquistas Procurando por um Novo Mundo

Por Marius Mason

Fifth Estate # 417, Inverno de 2025

Uma análise de Dez Pequenas Anarquistas de Daniel de Roulet. Autonomedia, 2023.

A novela de Daniel de Roulet, Dez Pequenas Anarquistas, é uma trama magistral de fantasia e fato, história e histrionismo, ideologia e imaginação.

É uma mistura de pensamento feminista, prática pragmática e um diálogo aberto sobre estratégia e prioridades para o movimento anarquista.

A história é contada através de conversas dinâmicas e das vidas de dez mulheres anarquistas que se aventuram por conta própria e deixam o velho mundo para trás, em seu esforço de criar uma verdadeira comunidade anarquista numa terra estrangeira.

A história é baseada vagamente em um grupo real de mulheres operárias relojoeiras que deixam a vila suíça de Saint-Imier.

A ideia vem para as mulheres após uma visita de Mikhail Bakunin, que fala para elas sobre a Comuna de Paris de 1871 e as inspira a tentar viver uma vida diferente, longe das convenções de casa. O grupo viaja de barco para a Patagônia na ponta da América do Sul, apesar de não ter sido de propósito. Elas são levadas pelos ventos e se encontram abandonadas ali. Assim, começa a aventura.

Este pequeno –porém poderoso– livro é traduzido do francês por Joycelyn Genevieve Barque e John Galbraith Simmons. Eu estou sempre ciente de que o autor talvez tenha usado diferentes maneiras de transmitir sua mensagem, mas a tradução é de fácil entendimento e conversacional no estilo em que a narradora da história, Valentine, descreve as outras e as situações que elas encontram.

Trata-se de um dispositivo impressionante para atrair o leitor para a história, para relacionar a comunalidade dos problemas humanos (comida, abrigo, amor, cuidar de crianças) –o que conecta todos nós– e usa isso para introduzir temas e ideias que vão longe do cotidiano.

Tem um toque mágico na maneira em como a serendipidade beneficia o pequeno grupo de mulheres, incluindo a aparição do anarquista italiano Errico Malatesta em momentos oportunos.

Mas estas não são mulheres indefesas ou infelizes, que dependem dos outros para seu resgate. São um grupo comprometido de feministas e não tradicionalistas que são talentosas, engenhosas e corajosas.

Elas sofrem a ira e o assédio dos oficiais do governo e da polícia, amantes rejeitados e patronos conservadores da sociedade. Mas, apesar de tudo isso, usam sua engenhosidade e inteligência para formar um coletivo de relojoeiros que as sustenta e provém o capital necessário para reivindicar uma comunidade insular e formar um estado sem Estado.

E, hilariamente, sua comunidade frágil quase implode devido as mais bobas razões domésticas, mas são salvas dessa discussão final por uma introdução oportuna de cogumelos mágicos num jantar compartilhado.

Tendo estado em coletivos anarquistas que se desfizeram porque as pessoas não lavavam a própria louça, isto foi um ponto alto cômico do livro.

Infelizmente, as dez pequenas anarquistas foram se desfazendo, uma por uma pelas provações e dificuldades que encontraram. A última, Valentine, descreve sua questão interna com a violência política e toma sua decisão com determinação.

Eu terminei o livro me perguntando o que aconteceria depois, enquanto Valentine encara seu futuro sozinha, mas sem se curvar.

Marius Mason — um anarquista, vegano, prisioneiro trans federal, que esteve confinado desde 2008 por atos em defesa do meio ambiente — foi uma parte integral da comunidade anarquista de Detroit antes de ser condenado e esperamos poder recebê-lo de volta quando ele for solto. Solidariedade e informações sobre Marius estão disponíveis em supportmariusmason.org.

Tradução > NTLFG (Núcleo de Traduções Libertárias Ferrer y Guardia)

agência de notícias anarquistas-ana

Salpicados de sons
Silêncio em suspenso:
Grilos e estrelas.

Marcos Masao Hoshino

[Espanha] A CGT condena a aprovação da pena de morte no Estado sionista de Israel. O genocídio se legaliza.

Desde a Confederação Geral do Trabalho (CGT), manifestamos o horror que supõe a recente aprovação da pena de morte por enforcamento em Israel, uma barbárie ante a qual cabe esperar que a Comunidade Internacional reaja e não olhe para o outro lado. Por quê? Pois, porque é uma nova medida a utilizar somente sobre a comunidade palestina, quer dizer, o plano genocida de Netanyahu segue adiante.

Como se fossem poucos os crimes atrozes que o sionismo cometeu, agora assistimos a esta “justiça” de verdugos que não duvidam em adornar com espetáculos embaraçosos protagonizados pelos próprios ministros judeus, como o de responsável pela segurança no próprio Knesset (Parlamento israelense), e à vista da opinião pública mundial.

O uso do Estado como máquina de morte não é algo novo. Todos os Estados matam e justificam seus crimes com base em leis que inventam. A pena de morte, em qualquer lugar do mundo, é um exercício de máxima violência por parte do Estado. Desde nossa postura, como anarcossindicalistas, nenhum Estado tem legitimidade para decidir sobre a vida de ninguém. Estes mecanismos foram utilizados desde sempre por uma elite para manter o controle das massas. Quanto à atitude do estado teocrático de Israel e a de seus ministros, que alguém como o ministro Itamar Ben Gvir, profundamente religioso e temeroso de seu Deus, celebre com champanhe a instauração deste tipo de lei só reflete seu nível de desumanidade. O quê poderia diferenciar entre o terrorismo que dizem “combater” com o que é aceito desde o aparato estatal de controle e repressão que legalizaram?

Esta medida é mais um ataque à população palestina, posto que a ela seja dirigida a morte na forca sob o pretexto do terrorismo. É uma lei que continua fomentando o ódio e beneficiando aos que a guerra e o sofrimento enriquecem.

Desde a CGT não podemos olhar para o outro lado depois de tudo o que vimos quanto à capacidade do sionismo para assassinar e fazer desaparecer seres humanos. Aniquilaram até deixá-lo em cinzas um território que não lhes pertence. Assassinaram milhares de seres humanos indefensos, famintos e enfermos. Feriram e mutilaram a outros milhares, e deixaram marcados para toda a vida a outros tantos. Quem semeia ódio, colhe morte.

Por tudo isso, desde nossa condição de internacionalistas e anarcossindicalistas, chamamos a toda a classe trabalhadora a mostrar sua solidariedade com esta duríssima realidade. Nossa luta é pela vida, pela liberdade dos oprimidos e a destruição de todos os patíbulos.

Contra a pena de morte e a barbárie genocida sionista!

cgt.es

Tradução > Sol de Abril

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Da minha janela
Ouço o cantar da coruja.
O sono não vem.

Adriana Aparecida Ferreira Cardoso

“A luta dos povos indígenas na Amazônia paraense e da ação direta no centro dessa luta”

O Centro de Cultura Social (CCS) convida para a conversa “A luta dos povos indígenas na Amazônia paraense e da ação direta no centro dessa luta” com o companheiro Rafael Zilio (CAB/UFOPA) que terá participação online:

No sábado dia 04 de abril de 2026, as 16hs.

O CCS fica na Rua General Jardim, 253, sala 22, Vila Buarque – Próximo ao metrô Republica, São Paulo (SP).

(solicitamos que por favor, toque interfone 22)

@centro_de_cultura_social

ccssp@ccssp.com.br

ccssp.com.br

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grama nos trilhos
composições mudas
sem estribilhos

Carlos Seabra

Saiu o primeiro número do e-zine digital semestral da Rede Comunitarista Ácrata – RECA – Yvy Marãey.

Trata-se de mais uma ação desta rede desterritorializada de anarquistas ácratas, que foi criada no ano passado como uma comunidade de experimentação prática da tática do Comunitarismo Ácrata – proposta pelo Manifesto Anarquista Ácrata (publicado de forma online no ano de 2023).

Siga nosso perfil no Instagram: @movimento_anarquista_acrata e acompanhe nossas lives pelo canal do YouTube: anarcrata)

>> Acesse o zine aqui: https://drive.google.com/file/d/1eoV8as7bdqMjEbVi80VUT8imUgp4iNA8/view

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sabor cereja –
minha boca
a tua deseja

Carlos Seabra

[Espanha] Comunicado | Nem Delito Nem Indulto: Organização E Luta

O indulto concedido às companheiras conhecidas como Las Seis de La Suiza não é um gesto de generosidade do poder. É o resultado direto da luta.

Durante anos, seis sindicalistas foram perseguidas, julgadas e encarceradas por fazer o que sempre fez o movimento obreiro: organizar-se frente à exploração e defender uma trabalhadora que denunciava assédio e violação de direitos laborais. Por isso foram condenadas a três anos e meio de prisão em um processo que pôs em questão os limites mesmos da ação sindical.

Entraram na prisão. E não o fizeram sozinhas.

Por trás havia uma organização, a CNT, que não abandonou as suas, e centenas de milhares de pessoas que encheram as ruas, mantiveram caixas de resistência, difundiram o caso e assinalaram a injustiça. Houve mobilizações, pronunciamentos sindicais, apoio social e pressão política constante durante meses, reclamando uma solução que a justiça negava.

Agradecemos o gesto do indulto parcial (as penas econômicas seguem vigorando) proposto pelo Governo, mas chega tarde. Chega depois do castigo. Chega depois de tentar converter a solidariedade em delito.

Mas que ninguém se equivoque: se hoje estão fora, não é pela benevolência do Governo, mas pela força coletiva da classe trabalhadora organizada.

Este caso demonstrou algo fundamental: que o sindicalismo que incomoda, o que assinala o patrão, o que não negocia a dignidade, segue sendo perseguido. E precisamente por isso, segue sendo necessário.

Frente aos que querem um sindicalismo dócil, institucionalizado e sem conflito, a experiência de La Suiza reafirma o contrário: o anarcossindicalismo, baseado na ação direta, no apoio mútuo e na solidariedade, não só segue vigente, mas que é mais útil do que nunca.

Porque quando tocam a uma, respondemos todas. Porque sem organização não há defesa. Porque nenhum direito se conquistou sem luta.

Hoje celebramos que nossas companheiras estejam fora.


Mas não esquecemos: nunca deveriam ter entrado.


Solidariedade, organização e luta.

cnt.es

Tradução > Sol de Abril

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/07/23/espanha-o-sindicato-cnt-se-concentra-na-plaza-mayor-de-ciudad-real-em-apoio-a-las-6-de-la-suiza/

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Pássaro ligeiro
Come o pêssego maduro
Antes de mim.

Roseli Inez Jagiello

[Itália] Para recordar Sara e Sandrone

E a quem não sucumbe

que se abram as tumbas

se aprontem as bombas

se afie o punhal

é a ação o ideal.

Conheci Sara e Sandrone em diferentes momentos e anos de luta (a Sara ainda antes, quando éramos estudantes secundaristas). Os caminhos da vida nos “separaram”, mas quando necessário a gente se encontrava em manifestações, assembleias ou só para tomar uma cerveja num boteco qualquer. O que escrevem os vendidos da imprensa não me interessa. Eles deixaram um grande vazio, e nesse vazio ficará a lembrança de serem anarquistas e de lutarem de cabeça erguida pelos oprimidos contra cadeias, guerras e opressores. Encerro com uma frase de uma declaração dele no tribunal:

A responsabilidade individual é um fundamento do anarquismo. Eu não recebo ordens nem as dou: de ninguém nem a ninguém. Ajo respondendo apenas à minha consciência, que não tem parâmetros de interesse nem de vantagens e que continua sendo a única voz que posso escutar“.

Viva a Luta, Viva a Anarquia

Tradução > Liberto

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travesseiro novo
primeiras confissões
a história do amigo

Alice Ruiz

[Rússia] Novo projeto: “Solidariedade é o Caminho” em apoio aos desertores e aos que fogem da guerra

As pessoas se deslocam. Esta é uma realidade, pura e simples. É criminalizada e tornada dolorosa, e até letal, pelas fronteiras criadas pelos Estados, pelo capitalismo, pelos xenófobos e pelas guerras.

Não queremos ficar de braços cruzados. Esforçamo-nos por demonstrar solidariedade prática com as pessoas que decidiram deixar a Ucrânia porque desertaram ou simplesmente porque querem esconder-se da guerra, evitar a mobilização, a repressão ou o culto do militarismo e do nacionalismo.

Não podemos ajudar as pessoas a atravessar a fronteira estadual. No entanto, se elas conseguirem se mudar para a Romênia, podemos compartilhar nossos recursos e infraestrutura com elas.

Podemos fornecer os seguintes recursos e atividades em particular:

• Acomodação temporária gratuita na Romênia, Eslováquia, Áustria, República Tcheca, Alemanha, Grécia…

• Contribuição financeira para despesas básicas de subsistência; medicamentos, passagens, alimentação, roupas, etc.

• Podemos transportar pessoas da fronteira romena para um local seguro no interior da Romênia. Podemos buscar pessoas nas seguintes cidades:

Siret – https://en.wikipedia.org/wiki/Siret

Tarna Mare – https://en.wikipedia.org/wiki/Tarna_Mare

Izvoarele Sucevei – https://en.wikipedia.org/wiki/Izvoarele_Sucevei

Sighetu Marmației – https://ro.wikipedia.org/wiki/Sighetu_Marma%C8%9Biei

Nossas atividades são organizadas por voluntários sem remuneração financeira. Não cooperamos com autoridades estatais, polícia, exército ou guardas de fronteira. Recusamos demonstrar solidariedade com membros da burguesia, políticos ou membros de qualquer governo. Demonstramos solidariedade principalmente com pessoas da classe trabalhadora. Se precisar de nossa ajuda, entre em contato conosco.

Aqui tentaremos responder às perguntas mais frequentes sobre as nossas atividades. Se tiver outras dúvidas, entre em contato conosco.

O que devo fazer se precisar da sua ajuda?

Entre em contato conosco por e-mail e especifique que tipo de ajuda você precisa. Por exemplo, se você precisar de transporte seguro de carro a partir da fronteira romena, é uma boa ideia entrar em contato conosco alguns dias antes de cruzar a fronteira. Se você precisar comprar uma passagem de trem, podemos providenciar isso se soubermos de onde você está viajando e para onde. Se você precisar de orientação sobre o procedimento de asilo nos países da União Europeia, podemos providenciar uma consulta gratuita com alguém que tenha conhecimento nessa área. No interior da Romênia, também é possível providenciar acomodação temporária gratuita para que você possa recarregar as baterias, descansar e, mais tarde, continuar sua jornada em busca de uma vida melhor.

Você pode ajudar alguém a cruzar a fronteira?

Não oferecemos esse tipo de solidariedade, mas concordamos com ela em princípio. Existem outras pessoas e redes de solidariedade que podem ajudá-lo. Mas tome cuidado com os provocadores da polícia. Também alertamos fortemente contra a possibilidade de ser transferido mediante o pagamento de uma taxa. Isso geralmente é feito por golpistas e pessoas que não se importam com a sua segurança.

Quanto tenho que pagar?

Todas as nossas atividades são organizadas gratuitamente. Somos uma rede informal de solidariedade, não somos advogados, uma empresa ou uma instituição oficial. Somos voluntários que querem demonstrar solidariedade com pessoas que precisam de ajuda. Se quiser apoiar as nossas atividades, será bem-vindo. Aceitamos dinheiro como doação voluntária, não como pagamento por serviços.

Posso doar dinheiro para as suas atividades por transferência bancária?

As doações só podem ser feitas pessoalmente. Em primeiro lugar, não queremos que bancos e entidades comerciais lucrem com atividades solidárias. Em segundo lugar, preferimos um sistema de apoio que não deixe rastros e não revele informações confidenciais sobre doadores e membros ativos da nossa rede.

Por que não há indivíduos específicos listados em seu site que organizam suas atividades?

As redes de solidariedade não são um meio de autopromoção. Estamos aqui principalmente para ajudar os outros, não para exibir nossos nomes, rostos e egos pessoais. Alguns de nós também temos experiência com repressão, por isso sabemos que as atividades de solidariedade podem levar à perseguição, criminalização, intimidação e agressão. Vivemos em um mundo cruel, onde é legal enviar dinheiro para fins bélicos mortais, mas ajudar pessoas a escapar da guerra e da mobilização pode ser criminalizado. Devemos pensar na segurança de nossos colegas e das pessoas que ajudamos. É por isso que preferimos apresentar nosso projeto anonimamente, e é importante para nós ter um alto grau de cultura de segurança na comunicação e na auto-organização.

Por que vocês não ajudam os membros da burguesia ou do governo?

Nossa rede de solidariedade é uma forma organizada de resistência da classe trabalhadora. A burguesia, os governos, os Estados e seus exércitos são responsáveis pelas guerras e pelo sofrimento da classe trabalhadora. Eles não são nossos aliados, mas parasitas que nos exploram em tempos de “paz” e nos mobilizam em tempos de guerra para morrer e matar, para que seu sistema possa continuar a saquear nossas vidas e os ecossistemas planetários. As redes de solidariedade da classe trabalhadora são uma ferramenta para mudar a situação. Hoje, somos solidários com os trabalhadores que fogem da guerra, que amanhã poderão nos ajudar quando a guerra se aproximar de nossas casas.

Como vocês podem coordenar suas atividades em termos práticos?

Nossas atividades funcionam porque colaboramos com pessoas de diferentes regiões, como Ucrânia, Rússia, Romênia, Eslováquia, Hungria, República Tcheca, Grécia, França, etc. Todos usam seus recursos locais e os disponibilizam para o benefício da infraestrutura e de atividades específicas. Alguns têm dinheiro, outros falam várias línguas, outros oferecem um lugar seguro para dormir, outros são bons programadores de TI e outros são bons motoristas. Quando tudo isso se une, aumenta a eficácia de nossas atividades. Não precisamos de uma hierarquia ou de um carimbo das autoridades para fazer isso. Muitas atividades também podem ser organizadas sem dinheiro. Se você sabe o que quer, pode se organizar mesmo com recursos mínimos. A solidariedade é o caminho a seguir.

Солидарность это путь // Солідарність це шлях [Solidariedade é o caminho]: https://solidarityactivities.noblogs.org/

Tradução > Reno Moedor

agência de notícias anarquistas-ana

tantos outonos
em uma paisagem
chuva nos pinheiros

Alice Ruiz

[Itália] Ao lado de quem luta | Sara e Sandrone

Nos solidarizamos com a dor de companheiros, companheiras, amigos e familiares pela perda de Sara e Sandrone. Que sua determinação extrema sirva de exemplo para todos que lutam por uma sociedade sem injustiças e opressão, contra a barbárie do imperialismo e do colonialismo.

Aos que se indignam com as ações diretas e aos que agitam o fantasma do terrorismo, respondemos que terrorista é o Estado, que passa fome, oprime e explora. Terroristas são aqueles que massacram e destroem populações inteiras e forçam os sobreviventes ao êxodo. As imagens do Líbano, de Gaza e de Teerã nos lembram disso todos os dias.

Toda forma concreta de resistência ao extermínio imperialista, ao capitalismo e à ocupação colonial é uma lufada de oxigênio e esperança, representa a brasa nunca apagada sob as cinzas e as ruínas, uma luz, uma esperança, um grito para afirmar que NEM todos somos cúmplices!

Ao lado de quem luta

Sempre adiante

Anarquistas, comunistas e independentistas

(Kasteddu – Cagliari)

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

manhã de vento
na caixa do correio
apenas uma folha seca

João Angelo Salvadori

[Chile] OUÇA: Entrevista com Mónica Caballero

Por La Zarzamora

No contexto da semana de agitação em solidariedade à prisioneira anarquista Mónica Caballero, a Rádio La Zarzamora, em colaboração com alguns indivíduos selvagens afins, conseguiu realizar uma entrevista na qual a companheira nos atualiza tanto sobre sua realidade carcerária quanto sobre suas reflexões e posições políticas.

Esta entrevista fez parte da cadeia de transmissões realizada pelas rádios livres e anarquistas de diferentes latitudes, transmitida no dia 28 de março de 2026 durante a semana de agitação e antes de uma nova comemoração do Dia da Juventude Combatente.

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https://archive.org/details/bloquelazarzamora-entrevista-a-monica-c-mas-bloque-2026


Fonte: https://lazarzamora.cl/escucha-entrevista-a-monica-caballero/

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vento apressado
por que não senta aqui
do meu lado

Alexandre Brito

Entre chantagens e canhões

Diante do recente impasse entre Donald Trump e a OTAN, o que se descortina não é um conflito entre “isolacionismo” e “aliança”, mas a nudez do sistema de Estados operando em sua lógica mais primária: a disputa por hegemonia pelo uso da força, a militarização de rotas comerciais como extensão natural da política imperial e a total instrumentalização de vidas humanas em nome de interesses geopolíticos. Para uma perspectiva anarquista e antiguerra, cada elemento desse contexto — desde o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã até a ameaça de Washington de abandonar o tratado do Atlântico Norte — não passa de mais um ato do mesmo espetáculo em que o Estado se revela como a principal fonte de violência organizada, e a “segurança” invocada por ambos os lados é, na prática, a segurança dos mercados e das cadeias de comando, nunca a das populações que pagarão o preço com seus corpos e territórios.

O Estreito de Ormuz, hoje bloqueado pelo Irã, é o ponto onde se materializa a disputa entre duas facções estatais pelo controle do fluxo energético global. A exigência de Trump para que a OTAN envie navios de guerra a fim de “garantir a livre navegação” nada tem a ver com princípios de liberdade; trata-se de impor, por meio de canhões e mísseis, a circulação ininterrupta do petróleo que alimenta a máquina de guerra e o capitalismo ocidental. Quando o ministro da defesa alemão, Boris Pistorius, declara que “essa guerra não é nossa, nós não a queremos”, não está ecoando qualquer sentimento pacifista — está apenas demarcando o limite tático de sua própria burguesia nacional, disposta a lucrar com a instabilidade sem necessariamente assumir os custos diretos de um confronto no Golfo. A recusa europeia não é uma vitória contra a guerra; é um cálculo de riscos dentro da mesma lógica imperialista que, décadas atrás, levou Alemanha e outros países da OTAN a participar de bombardeios na Iugoslávia, no Afeganistão e no Iraque.

A ameaça de Trump de retirar os Estados Unidos da OTAN, por sua vez, escancara o que sempre esteve por trás das alianças militares: não há compromisso com valores comuns, há apenas conveniência estratégica. O presidente norte-americano considera a aliança uma “via de mão única” porque, em sua visão, os europeus não estariam arcando com a parte que lhes cabe no serviço de manutenção da ordem imperial global. Mas a chantagem da saída não representa um movimento antiguerra; ao contrário, revela que Washington quer a liberdade de agir unilateralmente, sem ter que negociar com sócios menores que agora ousam dizer “não”. É a política de gangues em sua forma mais explícita: ou se alinham à ofensiva contra o Irã, ou os EUA retiram sua “proteção” — como se a presença de 84 mil militares e dezenas de bases em solo europeu fosse um favor altruísta, e não a infraestrutura que permite projetar poder sobre o Oriente Médio, a África e a Ásia Central.

O emaranhado jurídico que envolveria uma eventual retirada formal dos EUA ilustra perfeitamente como o Estado, mesmo em suas disputas internas de competência entre Congresso e Presidência, não possui freios substantivos que o impeçam de continuar sua trajetória bélica. A seção 1250A da Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2024 proíbe o presidente de abandonar a OTAN sem aprovação de dois terços do Senado — uma amarra legal que, para os anarquistas, apenas formaliza a divisão de tarefas entre as facções da classe dominante. Enquanto isso, um parecer do Departamento de Justiça de 2020 sustenta que o presidente tem autoridade exclusiva para rescindir tratados, e a Suprema Corte tem consistentemente ampliado os poderes executivos. Trump já retirou os EUA de cinco tratados internacionais, como o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), sempre com a certeza de que a máquina estatal não se autolimita. Mesmo que o Artigo 13 do tratado da OTAN preveja um ano de espera após a notificação, o que se desenharia seria uma batalha judicial onde o desfecho importa menos do que o fato incontornável: o Estado encontra sempre um meio legal ou extralegal para fazer valer sua vontade armada.

No entanto, a retirada formal talvez nem seja necessária. O que Trump e seus estrategistas já ensaiam é o esvaziamento da aliança por dentro — uma estratégia que remete ao precedente francês de 1966, quando o governo de Charles de Gaulle retirou a França da estrutura militar integrada da OTAN, mantendo-se formalmente no tratado, mas causando um caos logístico que levou anos para ser contornado. A repetição desse cenário implicaria a retirada unilateral de tropas, a desobediência ao Artigo 5º (o coração da “defesa coletiva”) e o fechamento ou redução de bases que funcionam como verdadeiros nós arteriais do poder militar estadunidense. Apenas na Alemanha, a base de Ramstein abriga mais de 16 mil militares, civis e contratados, sendo o principal centro de comando aéreo da OTAN fora dos EUA. Na Ilha Terceira, nos Açores, a base das Lajes continua sendo um ponto de reabastecimento estratégico no meio do Atlântico, essencial para qualquer deslocamento de aeronaves entre a América e a Eurásia. Na Itália e no Reino Unido, outras bases garantem o suporte para caças, transporte aéreo e reabastecimento em voo.

A retirada ou o enfraquecimento desse dispositivo não representaria, sob nenhum aspecto, um desarmamento. Tratar-se-ia apenas de uma reconfiguração que, como mostrou a experiência francesa, gera imensos transtornos logísticos, mas nunca dissolve a capacidade de intervenção. A dependência americana das bases europeias é tanta que, sem elas, a ponte aérea transatlântica entraria em colapso: aeronaves como o F-15E, com raio de combate de cerca de 1.300 km, simplesmente não teriam como operar no Oriente Médio e na Ásia Central sem escalas e reabastecimento em solo europeu. Tanques aéreos, cadeias logísticas de munições, equipamentos pesados e até o sistema de evacuação médica — cujo centro nervoso está em Ramstein — ficariam seriamente comprometidos. O fato de os próprios planejadores militares americanos reconhecerem esses prejuízos demonstra o quanto a “segurança nacional” dos EUA é, na verdade, uma estrutura de ocupação global que exige a submissão de territórios alheios para se sustentar.

Sob a ótica anarquista, contudo, o mais revelador nessa crise é o modo como o debate público reduz toda a questão a um cálculo de eficiência militar ou a uma disputa entre “globalistas” e “isolacionistas”, quando a verdadeira questão deveria ser: por que ainda toleramos que um punhado de Estados decida, com navios de guerra e bombardeiros, quem pode ou não navegar por um estreito, quem pode ou não extrair petróleo, quem pode ou não existir? O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã é um ato de coerção estatal; a ameaça de enviar uma frota da OTAN é outro. Nenhum dos dois lados representa a vontade popular, nenhum dos dois defende a livre circulação de pessoas, nenhum dos dois coloca a inviolabilidade da vida acima das cotas de exportação de hidrocarbonetos. O que está em jogo é a continuidade de um sistema no qual o acesso a recursos é garantido pela capacidade de infligir morte, e no qual a geopolítica é simplesmente a continuação da guerra por outros meios — ou, como já se disse, a guerra é a continuação da política por outros meios.

Por fim, a história nos mostra que nenhuma aliança militar se dissolve sem deixar rastros de destruição, e nenhum Estado abdica de sua violência fundante. A saída dos EUA da OTAN, mesmo que viesse a ocorrer, não significaria o fim das intervenções americanas; apenas deslocaria os eixos de intervenção, provavelmente reforçando o caráter unilateral e ainda mais desregulado da política externa. E a permanência, com ou sem Trump, significará a manutenção de uma estrutura que já matou centenas de milhares de pessoas no Oriente Médio, nos Bálcãs, no norte da África, sempre sob o pretexto de “defender” valores que, na prática, se resumem à subordinação econômica e militar. Para quem se coloca do lado das populações que sofrem com bloqueios, bombardeios e ocupações, a única posição coerente é a recusa absoluta a essa lógica: não à OTAN, não ao unilateralismo estadunidense, não ao militarismo iraniano, mas à própria existência de alianças bélicas e Estados armados. A crise no Estreito de Ormuz é apenas mais um sintoma de que, enquanto existirem Estados, existirão conflitos armados; e enquanto existirem tratados como o da OTAN, existirão estruturas institucionalizadas para perpetuar a guerra, seja em nome da “livre navegação”, da “defesa coletiva” ou de qualquer outra fórmula que tente maquiar o poder de matar em massa como um interesse legítimo.

Liberto Herrera.

Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/03/31/entre-chantagens-e-canhoes/

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Carlos Seabra