Honoré Eugène Belcayre, seleiro, anarquista francês sem endereço fixo.

Este documento histórico excepcional, datado de 20 de outubro de 1893, nos leva aos arquivos da Polícia Ferroviária e do Comissariado Especial de Annemasse. Trata-se de um relatório detalhado sobre Honoré Eugène Belcayre, um ativista anarquista de 18 anos cuja vida o levou a cruzar fronteiras entre França, Itália e Suíça. Entre a vida de vagabundo, a expulsão do cantão de Genebra e as convicções libertárias marcadas por uma tatuagem explícita (“Viva o anarquismo e Morte à polícia”), este documento oferece um testemunho impressionante da vigilância das redes anarquistas no final do século XIX e da repressão aos “grandes nômades”. Descubra o retrato de um homem considerado “um dos mais perigosos” pelas autoridades da época.

Ministério do Interior

Polícia Ferroviária

Comissariado Especial

Nº 1682

Anarquistas

BELCAYRE Honoré, Eugène

Annemasse, 20 de outubro de 1893

Relatório

O seguinte é relatado como anarquista: Belcayre Honoré, Eugène, nascido em 20 de abril de 1875 em Paris, 3º arrondissement, de pai desconhecido e Jeanne Belcayre, sem profissão ou endereço fixo, que foi levado em 11 de outubro para a fronteira de Moëllesulaz – Hte Savoie – pela Gendarmaria de Genebra, em virtude de uma ordem de expulsão emitida contra ele no mesmo dia, por ter sido preso no dia anterior por vadiagem na companhia de Leroy Gabriel, também nascido em Paris.

Durante o interrogatório, este indivíduo declarou ser anarquista desde uma viagem que fizera em julho passado a Milão e Turim, onde camaradas desta última cidade tatuaram em seu braço direito as palavras “Viva a anarquia e Morte à polícia”. Acrescentou que jurara permanecer fiel ao anarquismo e não cumprir o serviço militar, e que manteria seu juramento. Segundo seu depoimento, sua mãe morava em Rodez há dois anos na casa Cablat, uma chapelaria. Quanto a ele, após concluir seu aprendizado como seleiro em Paris com diversos patrões, notadamente Renaudin, na Rua de La Chapelle, 50 bis, e Saulnier, no Boulevard Barbès, 80, disse ter deixado a cidade aos 14 anos para ir a Noy-le-Sec trabalhar para um mestre seleiro cujo nome já não se lembrava, e onde alegou ter trabalhado por 15 dias. De lá, ele teria ido para Longwy, onde teria ficado por 2 meses, e depois para Vitry le François, onde teria ficado por 5 meses, na casa do Sr. Cappe.

De volta a Paris em 23 de agosto de 1892, ele teria ficado por 6 semanas com sua irmã Eugénie, que era casada com o Sr. Vacaresse, um comerciante na esquina da Rue Oberkampf com o Boulevard Ménilmontant, e depois partiu para Rodez, onde também ficou com sua mãe.

Ele então teria retornado a Paris, onde teria ficado por mais 8 dias na casa de sua irmã, e depois teria deixado aquela cidade em 1 de dezembro (?) de 1892 para ir para Lyon, onde teria ficado por 6 meses, trabalhando como tosador de cães.

Nessa cidade, ele era conhecido pelo apelido de “O Parisiense”. Segundo relatos, morou no número 165 da Rua Molière, na casa do Sr. Fauriel, um carteiro, e depois na casa de Papillon, também no número 167 da Rua Molière, onde deixava suas ferramentas. Em 27 de junho de 1893, partiu de Lyon para Genebra, onde conheceu o Sr. Gabriel Leroy. Após dois dias em Genebra, viajaram para a Itália pela Passagem do Grande São Bernardo, seguindo para Turim, Milão e Brescia. Condenados a dois dias de prisão por vadiagem em Brescia, foram para Trieste, na Áustria, onde foram novamente presos pelo mesmo motivo. Após sete dias de prisão preventiva, foram deportados e levados para a fronteira italiana.

Em seguida, teriam ido para Veneza, onde o cônsul francês lhes deu 10 francos de auxílio, e depois para Vicenza (?), onde foram presos novamente por vadiagem. Após passarem 13 dias em prisão preventiva, teriam sido expulsos da Itália e levados para a fronteira de Modane por volta de 15 de setembro (?). Transferidos para Saint-Jean-de-Maurienne, teriam ficado detidos por nove dias antes de serem liberados com o reembolso das despesas de viagem para Chambéry. De Chambéry, viajaram para Aix-les-Bains e de lá para Culoz, Bellegarde e Genebra, mas ao chegarem a Genebra em 10 de outubro, foram presos por vadiagem, expulsos e levados para a fronteira no dia seguinte.

Após o interrogatório, os senhores Belcayre e Leroy foram libertados e deixaram Moëllesulaz no mesmo dia, dizendo que retornariam a Genebra.

Dois dias depois, em 13 de outubro, o Sr. Belcayre foi de fato preso novamente naquela cidade e escoltado de volta à fronteira em Moëllesulaz; ele foi libertado mais uma vez. Desde então, ele não foi visto na região.

Esse indivíduo, que parece ser extremamente perigoso, declarou que trabalhar era inútil, pois o roubo permitia viver muito melhor do que trabalhando.

O extrato de sua ficha criminal, emitido em 16 de outubro, menciona as seguintes condenações:

11 de fevereiro de 1891, Béziers: Vadiagem, 6 dias de prisão.

30 de janeiro de 1893, Lyon, mesmo dia.

Descrição: Altura 1,88m. Constituição física muito magra. Cabelo e sobrancelhas castanho-escuros. Testa estreita. Olhos castanhos. Nariz adunco. Boca grande. Queixo pequeno. Barba feita. Rosto fino. Pele bronzeada. Tatuagem no bíceps do braço direito com os seguintes dizeres: “Viva a anarquia! Morte à polícia.”

Sujeito a notificação individual de expulsão do cantão de Genebra.

O Comissário Especial

Leal

Arquivos de Haute-Savoie 4 M 350

Leia sua biografia no Dicionário de Ativistas Anarquistas.

Fonte: https://anarchiv.wordpress.com/2026/04/05/belcayre-honore-eugene-sellier-anarchiste-francais-sans-domicile-fixe/

agência de notícias anarquistas-ana

A mão que me espera
traça o caminho da volta
abrindo janelas.

Eolo Yberê Libera

[Espanha] Refletindo sobre a “esquerda”, a “direita” e os anarquismos

É curioso (e alarmante) como algo evidente, o fato de que os conceitos políticos de “esquerda” e “direita” precisam de uma atualização urgente, acaba sendo usado por alguns para justificar a própria visão do que é correto. E não me refiro àqueles paspalhos que garantem ser de “centro”, algo ainda mais inextricável que as duas polarizações mencionadas, apenas para evidenciar sem qualquer vergonha seu absoluto desconhecimento político. A outra versão seriam aqueles que dizem ser apolíticos, um despropósito ainda maior, embora possa ser compreensível que isso seja fundado no cansaço com a classe política de um ou outro tipo. Mas, perdoem-me por divagar devido à minha habitual avidez pela argumentação lúcida, e volto ao que foi exposto em primeiro lugar. Efetivamente, há quem utilize a óbvia crise conceitual do que tradicionalmente entendemos por esquerda e direita para levar a água ao seu moinho. Como foi a esquerda que, na modernidade, usou propostas de progresso, e por suposto de transformação social, mais claras, a argumentação pós-moderna costuma estar a serviço de justificar o estado das coisas (leia-se, especialmente, o sistema capitalista). No entanto, apesar da realidade que querem colocar diante dos olhos do vulgo, dando como exemplo de esquerda o que defendem figuras atuais deste inefável país como Pedro Sánchez, Yolanda Díaz ou Pablo Iglesias, ou reduzindo as propostas ao fracasso do socialismo de Estado (em todas as suas vertentes), é claro, a coisa é muito mais complexa. Na realidade, tampouco era tão simples no desenvolvimento da modernidade, já que se pode falar de esquerdas no plural e inclusive também de direitas, embora talvez neste último caso a questão seja menos complicada. Sirva como exemplo que algumas vozes midiáticas, com certa ressonância, dizem ser de direita só por não serem de esquerda, sendo isto último algo que identificam com a falta de esforço econômico ou algo assim (creio que apostam naquilo que chamam de meritocracia). Chegamos então, ao menos neste inenarrável país, à questão do liberalismo (já sabeis, iniciativa privada, mercado supostamente livre…) e à sua apropriação do conceito de liberdade.

Sempre digo, e nem todo mundo concorda comigo, que não sei por que diabos se deve identificar liberalismo com direita, já que se alguém tem uma concepção progressista da história (e o digo, para os obtusos, com certo sarcasmo) é preciso ver a visão liberal como um certo avanço para que cada um, com todas as dificuldades que se queira na convivência social, possa ser o que deseje e levar adiante seu próprio projeto de vida. Efetivamente, agora que ninguém me lê, simpatizo com grande parte das propostas liberais entendidas como respeito ao próximo, que com certeza não pensará sempre como a gente ao considerar a estrutura social, política e econômica, assim como garantidoras da pluralidade social. Paciência, que já chegaremos ao anarquismo com o muito que tem, na minha nada modesta opinião, de herança da tradição liberal na modernidade. Claro que se alguém identifica o liberalismo, e neste indescritível país é o normal, exclusivamente com a apropriação da propriedade e com um mercado que chamam de livre (mas não é), posto apenas a serviço dos mais fortes, aí estamos mal. Em qualquer caso, como não está claro para qual vertente política o liberal oscila, pode ser que se trate de um dos fatores para tentar, não tanto negar, mas atualizar o que entendemos como direita (se a identificamos com o conservadorismo) e esquerda (se é que esta pode aportar ainda alguma concepção de progresso). Há quem, também com evidente afã reducionista, ao falar da esquerda tradicional (a que surge, para o bem e para o mal, daquele grande evento da Revolução Francesa) a divide entre socialismo, comunismo e anarquismo. A confusão não é pouca, já que ao falar do primeiro se confunde terminologicamente com a social-democracia, que por sua vez esteve historicamente sujeita a uma considerável evolução: nos primeiros tempos, significava adotar a via democrática para a transformação revolucionária, enquanto na atualidade é mera gestão estatal do capitalismo para tentar consolidar um, a esta altura já falacioso e deturpador, Estado de bem-estar social. No entanto, a palavra socialismo é notavelmente poliédrica e existe quem, com alguns matizes no caso da lúcida opinião do que subscreve, coloca o anarquismo como a vertente antiautoritária do mesmo.

Em qualquer caso, as contribuições políticas e econômicas dos diferentes socialismos, é claro, são muitas e variadas; se alguém quer reduzi-las à gestão estatal, para consumo de um público com o cérebro pouco oxigenado, trata-se de alguém mal-intencionado ou um idiota de marca maior. Vamos ao segundo conceito, o de comunismo, que muitas vezes também se confunde com o de socialismo; tecnicamente, isso ocorre porque, segundo a doutrina marxista, o primeiro é uma fase prévia ao segundo onde convivem a propriedade privada e coletiva antes da chegada do paraíso comunista. Escusado será dizer o horror que resultou da práxis, ferozmente autoritária, onde não só não houve nenhum final feliz baseado na abundância material e na mera administração das coisas (já sem Estado), mas também o estágio socialista intermediário resultou num evidente fracasso, com uma burocracia estatal intolerável e com a total ausência de liberdades elementares. Chegamos, por fim, ao anarquismo, o qual teve que carregar sobre suas costas demasiadas coisas e sobre o qual se derramaram tantas falsidades, que já não se sabe como enfrentá-las sem renunciar completamente à mais monumental indignação. Diremos que a consideração de que suas propostas são ingênuas e utópicas é um pobre lugar-comum soltado a torto e a direito, enquanto se relega o anarquismo a uma mera curiosidade histórica, dando-o como superado há tempos. No entanto, dentro desta humanidade que tanto nos envergonha em geral, ainda bem entrado o século XXI, ainda continuam existindo sapiens pertinazes, considerem-se ácratas ou não, que advogam por um mundo sem imposições baseado na prática com conceitos tradicionalmente libertários como a ação direta, a solidariedade e o apoio mútuo. Particularmente, procuro brilhantemente inverter as acusações de ingenuidade e utopismo, já que se trata de ser honesto confiando numa filosofia eminentemente moral (não há contribuições teóricas fortes, já que o importante é a prática, o que não significa que não se aposte no conhecimento em todos os âmbitos) e na mudança social aqui e agora (ou seja, pode ser que se trate da conquista cotidiana da desgastada utopia sem considerações para o amanhã). Resumindo, multidão de projetos que advogam por uma sociedade mais livre, solidária e inteligente; se isso é uma utopia, vão vocês passear com o seu repulsivo pragmatismo.

Articulando com o objetivo deste texto, segundo o título: o anarquismo, ainda na atualidade, é uma corrente de esquerda? Ambos os conceitos, polarizados até a náusea sem excessiva contribuição ideológica, converteram-se numa caricatura a ponto de a variável parecer ser maior ou menor gestão estatal. É claro que é algo falacioso e daí que a direita (ou direitas ou o que atualmente sejam) tenha se apropriado da concepção de liberdade da maneira mais lamentável e deturpadora. Como já deve estar evidente para o leitor perspicaz, não creio que os anarquismos atuais (sim, plurais, e sim, nem sempre com esse rótulo) devam entrar nesse jogo estéril a nenhum nível político, social ou midiático. Poderíamos ser companheiros de viagem de algumas forças aparentemente transformadoras, que sempre nos parecem alheias em seu afã de insistir na via do Estado, mas apenas se, uma vez conquistado o poder, tentarem transferi-lo aos movimentos sociais potencializando os mais nobres valores. Infelizmente, a experiência histórica nos demonstra uma e outra vez o contrário, pelo que é preciso dedicar os esforços a outros empreendimentos. Ninguém disse que seria fácil, palavra de ácrata com algum ou outro tique niilista.

Fonte: https://exabruptospoliticos.wordpress.com/2026/03/14/a-vueltas-sobre-la-izquierda-laderecha-y-los-anarquismos/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Não é meia-noite
e as mariposas cansadas
já dormem nas praças.

Humberto del Maestro

[Grécia] Reivindicação de responsabilidade de anarquistas por ataque incendiário contra um carro da Tesla

Nas primeiras horas de 22 de abril, incendiamos um carro da Tesla na região de Sykies, em Tessalônica.
 
Da práxis à teoria
 
Essa ação nasce de nosso desejo ardente de atacar uma das muitas máquinas que compõem o mundo tecnológico no qual somos forçados a viver.
 
O papel da tecnologia é um elemento central da dominação atual e da reprodução da normalidade sombria. Dos deslocamentos cotidianos à obrigação do trabalho, das relações humanas mediadas por uma tela ao sistema de identificação, controle e guerra, nada disso poderia funcionar hoje sem o aparato tecnológico que lhes dá sustentação material e do qual todos dependem.
 
Por essa razão, o ataque é essencial para construir uma perspectiva anarquista voltada para a destruição deste mundo.
 
A Tesla e seu fundador, Elon Musk, estão há anos na linha de frente da corrida para criar uma jaula tecnológica, sendo a união entre capitalismo, tecnologia e extrema direita. Além disso, seus carros, que são literalmente câmeras móveis sobre quatro rodas, com possibilidade de permanecerem ativos mesmo quando estacionados, materializam a ansiedade de participação de seus proprietários no absolutismo tecnológico.
 
Atacar o pesadelo tecnológico em todas as suas formas
 
O caminho do fogo nos chama a tomar nossas vidas em nossas próprias mãos e atacar.
 
Honra eterna aos camaradas Kyriakos, Sara e Sandro. Eles estão conosco em cada ataque.
 
Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1640959/  
 
Tradução > Contrafatual
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Fina chuva inútil
fundo musical
a flauta casual
 
Winston

[Chile] 8º Encontro do Livro e da Propaganda Anarquista – Santiago

Retomamos este espaço de discussão e debate em torno das ideias e práticas anarquistas.

Buscamos divulgar o amplo espectro das tendências anarquistas, convidando ao diálogo fraterno entre companheiros e simpatizantes.

O confronto de ideias nutre e aprimora a projeção antiautoritária, preparando-nos para um novo ciclo de luta contra o Estado e sua expressão fascista.

Todos são bem-vindos… menos a polícia.

@encuentrolibroanarcostgo

agência de notícias anarquistas-ana

Cresce a erva do tempo, devagar,
brota do chão
e me devora.

Thiago de Mello

[Grécia] Pôster | “Energia nuclear e armas nucleares: uma ameaça constante”

O uso da energia nuclear para a geração de energia não é uma opção nova. Trata-se de uma tecnologia que, na maioria dos países, foi relegada ao esquecimento da história com o rótulo de “perigosa”, após grandes acidentes nucleares em todo o mundo, mas também devido à pressão dos movimentos antinucleares que surgiram em resposta a elas. Nenhuma nova aplicação tecnológica da energia nuclear pode garantir que seus trágicos resultados não se repetirão no futuro ou que ela possa realmente constituir uma proposta alternativa.

No contexto dos crescentes conflitos bélicos da época em que vivemos e do envolvimento de Estados dotados de armas nucleares, intensifica-se cada vez mais a possibilidade de uma guerra nuclear com consequências incalculáveis.

Diante de um sistema explorador e opressor que gera e reproduz crises, desigualdade e guerras, não nos contentamos com nada menos do que a sua destruição. Propomos lutas antidesenvolvimentistas, com características auto-organizadas, anti-institucionais e anti-hierárquicas, e sua interação com as demais lutas sociais contra o Estado, o capital, o patriarcado e toda forma de poder.

Iniciativa de coletividades anarquistas contra a pilhagem da natureza

enantiasthlehlasia@espiv.net – enantiasthlehlasia.espivblogs.net

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Branco instante
entre verde e azul:
garça ou pensamento.

Yeda Prates Bernis

[Espanha] Novidade Editorial: “Tierra y libertad. Historia del anarquismo y anarcosindicalismo en la región mexicana”

Desde a Editorial Anarcosindicalista Aurora Negra anunciamos nossa nova edição, “Tierra y libertad. Historia del anarquismo y anarcosindicalismo en la región mexicana (1853-1980)”, de Ignacio Marín Rivera

Tierra y libertad tem sido mais que um grito lançado pelos insurretos de vários países. Tem sido a síntese de milhões de escravos, dominados por seus iguais e por seus salários em todos os confins do mundo, que buscavam um mundo e uma vida em liberdade, igualdade e fraternidade, uma vida em comunidade e apoio mútuo, uma vida em anarquia.

O México tem ouvido ao longo dos anos a milhões de pessoas sintetizar seus anseios de liberdade com estas palavras através de diversas organizações que deixaram sua marca no processo revolucionário: La Social, La Escuela Moderna y Libre, o Partido Liberal Mexicano, a Casa del Obrero Mundial, a Confederación General de Trabajadores, etc.

Numerosos militantes anarquistas, fossem notórios ou anônimos, contribuíram com suas vidas para manter levantada a bandeira internacional do anarquismo, uma bandeira que chama ao seu redor aos que estão dispostos a realizar os inumeráveis sacrifícios que a guerra final, a guerra às guerras, a guerra de classes, exige contra a paz social para a conquista de uma sociedade livre.

O presente volume se integra em nossa coleção “El anarcosindicalismo a través de la historia y las fronteras” que registra nosso percurso, o da “AIT-IWA“, através de suas lutas de ponta a ponta do vasto mundo, com o fim do comunismo libertário, sendo compiladas neste volume as diversas táticas e experiências ensaiadas na região mexicana desde a aparição da ideia na região até os anos mais próximos a nossos tempos.

A colaboração é de 14€.

Recordamos que desde a editorial podemos apresentar nossos trabalhos editoriais naqueles sindicatos e espaços anarquistas interessados.

Uma fraternal saudação anárquica.

Para realizar pedidos contatar-nos em:

editorialauroranegra@cntait.org

Ig: editorialauroranegra

Fb: Editorial Anarcosindicalista Aurora Negra

cntaitalbacete.es

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

sobre um ramo seco
uma folha se pousa
e trina ao vento

Rogério Martins

[Itália] Jornada Bakuninista

No ano do 150º aniversário da morte de Mikhail Bakunin, apresentamos, a partir das 17h, o lançamento dos livros:

• Carlos Taibo, “Bakunin e Marx em confronto” (ed. Zero in Condotta) – com a participação de David Bernardini e Francesca Tasca

• Mikhail Bakunin, “Viagem à Itália”, com curadoria de Lorenzo Pezzica (ed. Eleuthera) – com a participação do curador

• Alessio Lega, “Bakunin, o demônio da revolta” (ed. Eleuthera) – com a participação do autor

Em seguida, jantar popular com espaguete à Bakunin!

DOMINGO, 10 DE MAIO DE 2026

A PARTIR DAS 17H

Ateneo libertario

Viale Monza 255

Milano

agência de notícias anarquistas-ana

Um só pirilampo
ofusca o pisca-pisca
das luzes do campo.

Sérgio M. Serra

A Farsa Verde: Capitalismo, Destruição e a Necessidade de uma Ecologia Radical

Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

O verde tomou as ruas das cidades. Nas vitrines das lojas, nas campanhas publicitárias, nos relatórios corporativos, uma cor supostamente redentora promete salvar o planeta. Painéis solares adornando fachadas de megacorporações, empresas de combustível fóssil financiando projetos de reflorestamento, bilionários anunciando neutralidade carbônica em 2050. A ilusão é tão perfeita quanto necessária ao sistema que a produz. O capitalismo não apenas tolerou a questão ambiental — incorporou-a, domesticou-a, transformou-a em mercadoria. Essa é a natureza do greenwashing: não é simples mentira, é uma operação sofisticada de cooptação que permite que a máquina de destruição continue funcionando sob aparência de reforma.

Quando falamos de “capitalismo verde” ou “desenvolvimento sustentável”, confrontamo-nos com uma contradição fundamental que nenhuma inovação tecnológica consegue resolver. Um sistema baseado na acumulação infinita de capital não pode coexistir com um planeta de recursos finitos. A lógica é simples e intransponível: em uma economia que demanda crescimento perpétuo, a conservação ambiental será sempre secundária ao lucro. As “soluções verdes” do mercado raramente questionam os pilares dessa lógica. Em vez disso, oferecem paliativos que reforçam a ilusão de que é possível manter a estrutura e resolver seus problemas através de ajustes cosméticos.

A destruição ambiental não é um acidente do capitalismo, nem uma externalidade corrigível por regulação. É constitutiva do sistema. A extração de recursos, a exploração de territórios, a transformação da natureza em mercadoria — tudo isso não constitui um desvio do capitalismo, mas sua essência mesma. Desde as monoculturas que esgotam solos até às minerações que abrem crateras na terra, desde os oceanos repletos de plástico até às atmosferas saturadas de carbono, cada degradação corresponde a um lucro concentrado. O sistema não precisa ser consciente de sua destrutividade; ela lhe é funcional. Uma floresta em pé não gera valor para o capital. Uma comunidade vivendo em equilíbrio com seu território não alimenta as máquinas da acumulação. É preciso destruir para lucrar.

Os mecanismos de mercado propostos como solução — créditos de carbono, offsetting ambiental, certificações “ecológicas” — funcionam precisamente para perpetuar essa lógica. Permitem que poluidores continuem poluindo, contanto que comprem o direito de fazê-lo. A atmosfera não negocia; os ecossistemas não entendem contratos. No entanto, esses instrumentos financeiros oferecem tranquilidade aos que possuem capital: a ilusão de que a crise pode ser gerenciada dentro do sistema que a origina.

Diante dessa realidade, torna-se necessário imaginar uma ecologia que não seja extensão da lógica do mercado, mas sua negação radical. Uma ecologia anarquista compreende que a libertação humana e a harmonia ambiental são inseparáveis. Não se trata de proteger a “natureza selvagem” contra seres humanos, como propõem alguns conservacionismos elitistas, mas de reconhecer que os seres humanos são parte da natureza e que nossa libertação depende de vidas vividas em reciprocidade com os ecossistemas.

Essa perspectiva recusa a separação entre questão ambiental e questão social. As comunidades mais afetadas pela destruição ambiental são aquelas sem poder de mercado: povos originários expulsos de seus territórios, trabalhadoras precarizadas em zonas de sacrifício industrial, populações urbanas pobres respirando ar envenenado. A libertação ambiental passa, necessariamente, pelo fim da hierarquia que permite que alguns lucrem à custa do envenenamento de outros.

Uma ecologia anarquista propõe organização horizontal de comunidades sobre seus territórios, gestão coletiva de recursos, economia baseada em necessidades reais e não em acumulação. Propõe tecnologias apropriadas, conhecimentos locais, formas de viver que regenerem em vez de degradar. Não é utopia ingênua: é reconhecimento de que milhões de seres humanos já vivem dessa forma em diversos contextos, mantendo equilíbrios ecológicos que os impérios do capital destroem.

Compreender essa verdade exige recusa à ilusão verde. Exige reconhecer que não há capitalismo sustentável, não há crescimento infinito possível, não há salvação pelo mercado. Exige, ainda, coragem de imaginar e construir alternativas radicais: outras formas de viver, outras relações com a terra, outras organizações sociais.

Nesta luta pela vida no planeta, contra a farsa verde e pela ecologia anarquista, somos pessoas dignas e livres!

anarkio.net

agência de notícias anarquistas-ana

A abelha tristonha,
fauna e flora devastadas,
produz mel amargo.

Leila Míccolis

[Espanha] Roc Blackblock restaura mural para celebrar o 90º aniversário da Revolução Social de 1936

Por ocasião do 90º aniversário da Revolução Social, quis refazer o mural da miliciana da Kasa de la Muntanya. Pintei este mural há 5 anos e as cores estavam bastante deterioradas. Achei justo torná-lo elegante para celebrar o 90º aniversário e ser mais uma das atividades realizadas para relembrar os dias em que o sonho igualitário era vivido. A escolha da nova paleta de cores baseou-se na esperança de que fosse mais resistente ao sol. As condições de trabalho (ou melhor, a minha condição física) tornam estes trabalhos em altura muito árduos, mas como se tratava de uma restauração, foi possível fazê-la rapidamente e em dois dias estava concluída.
 
Um pouco de contexto
 
Em 1936, o “Escritório de Informação e Propaganda da CNT FAI” encomendou a vários fotógrafos o registro dos acontecimentos nas ruas. Este mural foi inspirado em uma dessas fotografias. O original, de Antoni Campanyà, data de 28 de agosto de 1936, um mês após o golpe. Pertence a uma série de retratos dos milicianos durante a tomada do “Caserna del Bruc” (que foi renomeado “Caserna Bakunin”). A importância desta série reside no fato de as fotografias terem se tornado a certificação da vitória da Revolução Social, uma vez que retratam a conquista e a tomada de um símbolo como o quartel, a última defesa nacional da região. Presume-se que os milicianos que tomaram o quartel pertenciam a uma coluna de Hospitalet e Baix Llobregat.
 
Não só o golpe de Estado foi detido nesta parte do país, como a Revolução Social teve início. Fábricas e terras foram coletivizadas, riquezas e recursos foram redistribuídos, espaços e símbolos de poder e opressão foram tomados e incendiados, instituições, quartéis, igrejas…
 
Mais uma vez, agradeço a @kasadelamuntanya pelas instalações e pela acolhida, a @feralcala pelas fotografias e pela companhia, sempre bem-vinda, e a Max pelo seu conhecimento e por estar sempre pronto para se sacrificar.
 
Roc Blackblock
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
piscina de areia
pardalzinho brinca e canta
acha que é sereia
 
Diana Pilatti

E a bandeira anarquista tremulou neste no 1º de Maio de 2026!

Enquanto outros se perguntavam o que fazer no 1º de Maio de 2026, a Federação Anarquista Capixaba (FACA), em conjunto com a União Anarquista Federalista (UAF) propôs, e a luta aconteceu. Do sul ao norte do Estado, a bandeira preta e vermelha voltou a se erguer onde o sistema gosta de pisar: nos bairros operários, nas fábricas silenciadas pelo medo, nos muros cinzentos da exploração. Mas foi em Cachoeiro de Itapemirim que o chão tremeu de novo. Ali, na terra onde a história não morreu, o anarquismo mostrou que ainda respira fundo – com colagens, panfletos e rodas de conversa que despertaram a classe trabalhadora do torpor eletrônico.
 
Em Cachoeiro, a bandeira preta e vermelha tremulou novamente. Não como peça de museu, mas como fogo vivo. A FACA esteve lá para lembrar que o fascismo avança, que o Congresso cospe ódio, que as milícias urbanas e os pastores armados querem nos dobrar. Mas a resposta foi a mesma de sempre: organização de baixo para cima, autonomia, rebeldia. Homens e mulheres trabalhadores de Cachoeiro pararam, leram, discutiram. A escala 6×1 foi denunciada. O assédio moral, a inteligência artificial que descarta gente como peça defeituosa, os robôs que roubam o suor – tudo isso foi nomeado, escrachado, enfrentado. A FACA não fala sozinha: ela costura a voz de quem vive do braço.
 
E enquanto a cidade de Cachoeiro de Itapemirim via a bandeira dupla – preta como a fome que o capital espalha, vermelha como o sangue derramado em pelos Mártires de Chicago – a FACA espalhou sementes também em Vitória, Vargem Alta, Alegre, Piúma, Marataízes, Itapemirim. Mas é no sul capixaba que a chama pegou com mais força, porque lá o povo sabe que a guerra de classes não acabou. Não acabou em 1936, não acabou na ditadura, não acabou agora. A bandeira que tremulou em Cachoeiro é a mesma que tremulará nas próximas batalhas. A FACA não pede licença: ela entra pela porta da fábrica, pelo portão da escola, pelo beco da periferia.
 
E o 1º de Maio de 2026 foi só o aquecimento. A Federação Anarquista Capixaba está nas ruas, mas precisa de mais braços, mais mentes, mais fúria organizada. Se você quer ver a bandeira preta e vermelha tremulando em cada esquina, se está cansado de patrão, pastor, juiz e robô decidindo sua vida, chega junto.
 
Filie-se à FACA. Venha construir conosco a única força que pode parar o capital: a classe trabalhadora em pé, armada da sua própria consciência e organização.
 
Procure a Federação Anarquista Capixaba.
 
A luta te espera!
 
Federação Anarquista Capixaba – FACA
Filiada à União Anarquista Federalista – UAF
 
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caminho mundo…
a treva negra
envolve tudo…
 
Luís Aranha

[País Basco] Protesto, rebeldia e ruptura: assim foi o Primeiro de Maio da CNT

 
Os convocantes rechaçaram explicitamente as reformas laborais, considerando-as insuficientes para melhorar as condições da classe trabalhadora.
 
Por DavidBM
 
Bilbao, 1º de maio 2026 – As quatro capitais de Hego Euskal Herria foram cenário este Primeiro de Maio de mobilizações convocadas pela Confederação Nacional do Trabalho (CNT), em uma jornada marcada por um discurso combativo contra a precariedade laboral, o militarismo e o atual modelo econômico. Milhares de pessoas foram às ruas sob o lema “Corre, companheira! O velho mundo fica atrás de nós”, em uma reivindicação que situou a desobediência e a organização coletiva como eixos centrais.
 
Em Bilbao, a manifestação iniciou às 11h30 desde Gran Vía 54-56 e percorreu o centro da cidade até concluir na Plaza Arriaga, onde se celebraram vários comícios. Convocatórias similares se desenvolveram de forma simultânea em Donostia-San Sebastián, Vitoria-Gasteiz e Iruña-Pamplona, em uma jornada que buscou reforçar a presença do anarcossindicalismo no mapa das lutas laborais.
 
O manifesto difundido pela organização insiste em que “hoje não marchamos por nostalgia nem por ritual”, mas como resposta a um contexto no qual, segundo denunciam, “o trabalho segue sendo exploração” e a vida cotidiana está marcada pela precariedade. “Não há reforma suficiente dentro deste sistema”, sustentam, em uma crítica direta ao modelo socioeconômico atual.
 
Um dos eixos do discurso foi a reivindicação da desobediência como ferramenta política. “Não há futuro sem desobediência”, proclamaram, defendendo a ação direta, a auto-organização e a construção de alternativas “sem amos e sem permissões”. Frente ao que consideram uma tentativa de “impor a obediência como virtude”, a CNT apelou à comunidade, à solidariedade e à luta compartilhada.
 
A convocatória também incorporou uma crítica explícita ao contexto internacional. Em um momento marcado por conflitos armados e tensões geopolíticas, o sindicato denunciou que “a guerra é uma indústria” e que as decisões que a alimentam se tomam “longe dos que a sofrem”. Neste sentido, defenderam uma paz baseada na justiça social e o fim da exploração: “não pode haver paz enquanto a riqueza de uns dependa da miséria de outros”.
 
As mobilizações do Primeiro de Maio em Euskal Herria foram protagonizadas majoritariamente por sindicatos como ELA, LAB ou CCOO, que centraram suas reivindicações na melhora de salários e condições laborais. Em contraste, a CNT apostou por um discurso mais rupturista, centrado no questionamento do sistema em seu conjunto e na reivindicação do anarcossindicalismo como alternativa.
 
Durante os atos finais, as intervenções insistiram em que “o velho mundo – o da hierarquia, da submissão e do medo – se rachava sob nossos passos”, apelando a intensificar a organização desde baixo através de greves, redes de apoio mútuo, cooperativas e ocupações. “Ali onde haja exploração, haverá resistência”, reiteraram.
 
A jornada concluiu com um chamado a estender a luta mais além do Primeiro de Maio: “Não esperamos o futuro: o estamos criando”, proclamaram, fechando uma mobilização que combinou crítica social, discurso político e reivindicação histórica do movimento obreiro libertário.
 
Fonte: https://www.ecuadoretxea.org/protesta-rebeldia-y-ruptura-asi-ha-sido-el-primero-de-mayo-de-la-cnt/
 
Tradução > Sol de Abril
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
passeio campestre —
no vestido e nas sandálias
o aroma do mato
 
Leonilda Alfarrobinha

[Austrália] O capitalismo precisa das prisões, mas nós não

Você pode ouvir a expressão “abolição das prisões” e pensar numa grande bola de demolição, destruindo as paredes de um bloco de celas e libertando as pessoas lá dentro. Hoje, essa ideia soa completamente absurda para a maioria das pessoas.

Como assim? Soltar todos os prisioneiros? Os estupradores? Os assassinos? Simplesmente deixá-los soltos nas ruas?

A verdade é que, por mais ingênuos que alguns ativistas possam ser sobre o assunto, a abolição das prisões é possível. Mas isso não será um acontecimento único e definitivo.

Em vez disso, pense na abolição das prisões como um processo. Ela começa com a compreensão das raízes daquilo que chamamos de “crime” e com o apoio a companheiros trabalhadores em situação de necessidade. Mas esse processo não pode se completar sob o capitalismo.

O Estado precisa das prisões para manter o capitalismo de pé. Portanto, para abolir as prisões, temos de abolir o capitalismo.

“Crime” e punição sob o capital

Então, e todos aqueles assassinos e estupradores?

Pela forma como a mídia noticia, parecem ser as únicas pessoas presas. Os governos nos vendem a imagem de prisões abarrotadas com a escória mais vil e mais violenta da Terra. Essas pessoas não seriam nada parecidas com você. Estariam praticamente destinadas à cadeia.

Mas os criminosos violentos compõem apenas uma pequena parcela da população carcerária.

Raramente alguém entra no sistema prisional por causa de um único ato dramático. A maior parte do contato com a polícia começa com a instabilidade. Você deixa de pagar uma multa porque não pode bancá-la. Viola a liberdade sob fiança porque não tem endereço fixo. Dorme num parque. Dirige sem licenciamento. Furta em loja. É acusado de embriaguez em via pública porque não tem outro lugar para beber. Ou, enfim, talvez você e seus amigos só tenham fumado um baseado.

Audiências são perdidas. Mandados são expedidos. As condições da fiança ficam mais rígidas. Mais tribunal. Mais multas. E é um ciclo que não recai de forma igual sobre todos. O encarceramento segue as linhas traçadas pela colonização. Os povos originários representam menos de cinco por cento da população da Austrália, mas quase quarenta por cento de sua população carcerária. Isso não ocorre porque exista alguma realidade em que pessoas indígenas sejam, por força de identidade, mais propensas a cometer crimes.

Em vez de dar recursos aos trabalhadores pobres, o sistema os prende por roubo. Em vez de tratar com humanidade as pessoas com dependência química, o sistema as prende por uso de drogas. E, em vez de enfrentar a epidemia de sofrimento psíquico neste país, o sistema permite que a polícia brutalize os doentes e que os tribunais os joguem em jaulas.

Enquanto isso, quem pode desfrutar da própria liberdade? Os defensores da guerra e os cúmplices do genocídio dos palestinos. Os criminosos financeiros. Os sujeitos repugnantes citados nos arquivos de Epstein. Sob o capitalismo, a classe dominante decide o que conta como “legal” e “ilegal”. E, quando ela mesma viola suas próprias leis, sai impune.

A fantasia do abolicionismo liberal

Algumas visões de abolição das prisões são bem-intencionadas, mas completamente irreais.

Muito daquilo que é chamado de “crime” na verdade não é danoso. Parte disso é danosa, mas deveria receber uma resposta baseada em cuidado, solidariedade ou atendimento médico. Mas a ideia de que podemos eliminar totalmente as prisões apenas criando “alternativas” está errada.

O capitalismo precisa das prisões porque o sistema não funciona a menos que o Estado tenha o poder de criar e impor leis. As corporações precisam garantir que não obtenhamos nada de graça. Os proprietários precisam extrair aluguel e despejar inquilinos. E os patrões precisam nos impedir de usar nossa maior arma: entrar em greve.

Portanto, a abolição das prisões tem de ser revolucionária. E, como revolucionários, também não podemos agir como se jamais houvesse necessidade de confinar temporariamente um indivíduo ativamente perigoso. O que mais faríamos com fascistas tentando esmagar uma revolução?

A abolição das prisões não significa ignorar o fato de que as pessoas causam danos. Ela rejeita a ideia de que um sistema construído sobre escravidão, racismo e exploração de uma fonte barata de trabalho possa algum dia servir à verdadeira justiça. Sobretudo quando está assentado sobre montanhas de casos não resolvidos e é imposto por abusadores incompetentes.

Em vez disso, a abolição das prisões deve fazer parte de um processo revolucionário de longo prazo.

O caminho para a liberdade

Quando o Estado manda pessoas para a cadeia, não é para manter todo o resto em segurança. É para proteger interesses capitalistas, fomentar divisões e gerar lucro. Em vez de proteger a sociedade, ele prende as pessoas em ciclos de violência, com pouca evidência de reabilitação.

A prisão isola as pessoas de suas comunidades, alimenta a desconfiança baseada em identidades e estimula o perfilamento. Ela mantém as causas profundas do chamado crime antissocial e impede que a classe trabalhadora se una para exigir condições melhores.

No curto prazo, é essencial combater o policiamento racista, a criminalização da pobreza e as leis anti-greve que nos privam de poder. Mas, se nosso objetivo é um mundo que não empurre centenas de milhares de pessoas pobres, desesperadas e doentes para jaulas, precisamos de uma revolução dos trabalhadores. Só então poderemos pôr fim ao sistema capitalista e à violência que ele gera.

ancomfed.org

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Pardal orfãozinho
vem brincar
comigo

Cláudio Fontalan

[Espanha] 9 de maio. X Jornadas de Pedagogia Libertária – Confederação Nacional do Trabalho

Os sindicatos CNT, CGT e Solidaridad Obrera organizam a X Jornadas de Pedagogia Libertária na sede da FAL em Madrid. O evento acontecerá no dia 9 de maio e contará com diversas apresentações e atividades ao longo do dia, com foco no tema Memória Histórica e Educação.

Teremos a oportunidade de conhecer os diferentes projetos de Memória Histórica implementados nas escolas, as ferramentas pedagógicas do projeto de arqueologia territorial na região de Guarguera (Huesca) e as lutas no âmbito da Formação Profissional. Além disso, haverá um painel de discussão sobre a ascensão da extrema-direita nas salas de aula.

Em anexo, você encontrará a programação do evento, que culminará em um recital de poesia acompanhado por violão. Lembre-se de que é necessário se inscrever para participar:  jplibertaria25@proton.me

Quando? Sábado, 9 de maio.
Horário?  A partir das 9h30

Onde?  Sede da FAL em Madrid.

fal.cnt.es


agência de notícias anarquistas-ana

pinta no nariz –
era uma pulga que
fugiu por um triz

Carlos Seabra

[Espanha] Um 1º de maio sem concessões: a rua frente à precariedade e a extrema direita

A CNT voltou a tomar as ruas de Badajoz no passado 1º de maio junto ao sindicato regional 25M em uma jornada que recuperou o pulso reivindicativo que alguns se empenham em domesticar. A manifestação partiu da Plaza de Santiago, no bairro de San Roque, e avançou até a Plaza de España, onde concluiu com um ato político. Ao redor de 200 pessoas participaram em uma mobilização que não se limitou à rotina, mas assinalou com clareza os responsáveis pela precariedade que atravessa a classe trabalhadora.

O percurso seguiu pelas ruas Toledo, Ricardo Carapeto Zambrano, Ronda del Pilar, Pedro Valdivia e Obispo San Juan. Ao longo do trajeto, os lemas foram diretos: contra o sistema capitalista, contra a perda de direitos e contra as políticas que, desde as instituições, continuam beneficiando a uma minoria enquanto se deterioram as condições de vida da maioria. A presença da plataforma de pensionistas reforçou essa mensagem de continuidade na luta, evidenciando que os cortes e o abandono afetam a diversas gerações de forma acumulativa.

Não faltaram tampouco as mensagens contra a guerra e o militarismo. Várias bandeiras palestinas percorreram toda a manifestação, acompanhadas de lemas em solidariedade com o povo palestino. Não como um gesto simbólico isolado, mas como parte de uma crítica mais ampla a uma ordem internacional que normaliza a violência quando serve a interesses econômicos e geopolíticos. O que ocorre fora não é alheio ao que se sofre dentro.

Durante a marcha, o tom foi firme frente ao avanço da extrema direita em Extremadura e no conjunto do Estado. Denunciou-se seu papel como garantia das mesmas políticas que castigam a classe trabalhadora, apesar de envolver-se em discursos de confrontos vazios. Sob uma retórica agressiva, o que sustentam é mais do mesmo: cortes, privatização e disciplina social.

A mobilização concluiu na Plaza de España com a leitura de um manifesto no qual se insistiu na necessidade de organização desde baixo, sem intermediários nem estruturas que diluam a capacidade de decisão dos que sustentam o trabalho diário. Frente à precariedade, mais organização; frente ao medo, mais solidariedade; frente aos que governam para uns poucos, resposta coletiva.

cnt.es

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Chuva no lago
cada gota
um lago novo

Alice Ruiz

[Espanha] Áudio | Barrio Canino vol.326 – III Bienal Anarquista de Madrid, BAM 2026

Esta semana trazemos o programa que fizemos ao vivo durante a cobertura radiofônica da III Bienal Anarquista de MadridBAM 2026, em 25 de abril de 2026 desde o CSO La Enredadera no bairro madrilenho de Tetuán. Esta edição da BAM esteve especialmente relacionada com a temática laboral, sob o lema “Recuperar nosso tempo. Abaixo o trabalho”.
 
A Bienal Anarquista de Madrid é um ciclo de palestras, oficinas, mesas redondas. Acompanhando o evento encontramos também os postos de editoras, livrarias e coletivos amigos. A ideia de organizar uma Bienal Anarquista em Madrid nasce em 2022 com o objetivo de conectar teorias e práticas libertárias, sair de nossos espaços confinados e construir alternativas reais com as quais poder enriquecer-nos em nossa busca de uma radical transformação social. Esta cobertura que trazemos aqui se soma às que já fizemos durante a primeira Bienal Anarquista em 2022 compartilhando espaço entre o Ateneu La Maliciosa e a Fundação Anselmo Lorenzo (FAL) e em 2024 durante a segunda Bienal Anarquista de Madrid no CSO La Animosa em Hortaleza. 
 
Esta retransmissão contém as seguintes entrevistas:
 
– Teresa, da organização da BAM2026
– Myrtille Gonzalbo, com a ajuda de Lily para a tradução, falando sobre a história do comunismo libertário espanhol: “150 anos construindo comunismo libertário. Teorias e práticas anticapitalistas no final do s.XIX e princípios do s.XX.” 
– Carmen, da Liza. Plataforma revolucionária socialista anarquista. Espaço de difusão e debate desde o anarquismo especifista.
– Deyanira Schurjin, apresentando o tomo II de seu projeto Sombras com sua publicação “Que trabajen las ricas”.
– Carlos da Fundación Salvador Seguí, falando da exposição fotográfica do Tetuán libertário e o passeio histórico pelo Tetuán obreiro dos anos 20 e 30.
– Alfredo Apilánez, falando de sua palestra “Contra el culto al trabajo. Clase, reproducción social y subversión de la vida cotidiana”.
 
E por que o trabalho?
 
As lutas contra o trabalho emergiram com força em diversos momentos históricos, desafiando a naturalização do trabalho como princípio ordenador do mundo. Desde insurreições obreiras até correntes teóricas e práticas que imaginaram outras formas de existência, a crítica ao trabalho foi e segue sendo uma crítica ao coração do capitalismo.
 
Nesta terceira edição da Bienal se retomam estas tradições de pensamento e ação, abrindo um espaço para explorar as teorias e práticas que apontam para a abolição do trabalho, interrogando suas possibilidades no presente e os horizontes que podem abrir para imaginar outras formas de viver.
 
Temos claro: não desfrutamos na paralisação, nem desfrutamos trabalhando. Não.
 
Programa completo para escuta on-line e para baixar:
 
agorasolradio.org
 
Link do programa: 
 
agorasolradio.org
 
Tradução > Sol de Abril
 
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Cheio de sonhos
Atiro na lixeira
Folhinha velha
 
Calberto

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Reuniremos em forma de arquivos digitais, materiais reunidos em algumas décadas de participação nas ações em que estivemos envolvidas e os disponibilizaremos de forma aberta e de forma direta, dentro do possível.

Convidamos a todas as pessoas interessadas em contribuir que o façam através de nosso email: lobo@riseup.net ou fenikso@riseup.net .

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Sesta no jardim:
a borboleta me acorda.
Coça o meu nariz.

Anibal Beça