[Espanha] Antonina Rodrigo, a escritora da vida

No dia 23 de abril inaugurou-se no Museu Bernarda Alba de Valderrubio, uma exposição dedicada à Antonina Rodrigo. A mostra foi proposta como homenagem a uma mulher que tem um longo percurso como escritora e historiadora, mas também como mulher com um compromisso político e social que sempre a acompanhou. “Antonina Rodrigo, obrera de la pluma” é o expressivo título desta exposição e nela se leva a cabo uma retrospectiva sobre a vida, obra, prêmios e distinções desta mulher que foi considerada, por escolha popular, entre “Os cem granadinos/as do século XX”.

A trajetória como escritora e historiadora de Antonina Rodrigo é longa, rica e frutífera. Seus temas de interesse foram diversos e suas obras se agrupam tecendo uma rede em que nenhum ponto é mais importante que os outros e que constituem uma autêntica declaração de intenções cheia de sentido. Seus três temas principais de estudo são: o mundo das “artes” e suas protagonistas (as letras, o teatro, a pintura); biografias de mulheres (e de alguns homens); e a derrota do grupo republicano na Guerra Civil e, especialmente, o exílio. Os três temas se entrecruzam tecendo essa rede cheia de sabedoria e bom trabalho.

Dentro do grupo das “artes” destacam-se seus livros sobre Federico García Lorca, María Antonia la Caramba, Margarita Xingu, Salvador Dalí e outros. Nesse interesse pelas “artes”, desenvolveu a biografia como ferramenta histórica para aproximar-nos às vivências de ditos personagens. No entanto, Antonina Rodrigo se destacou com brilhantismo por resgatar do esquecimento, através da biografia, a mulheres como Mariana Pineda (a quem professa uma singular admiração), María Lejárraga, Rosario Sánchez “La Dinamitera”, Amparo Poch, Federica Montseny, Beatriz Galindo e outras muitas mulheres. Também alguns homens como os já mencionados ou o Doutor Trueta. Por último, o tema da “Espanha silenciada”, a derrota e o exílio, compõem um terceiro centro de interesse no qual se destacam livros várias vezes reeditados como “Mujeres para la historia”. “La España silenciada del siglo XXMujer y exilio 1939″ ou sua recente “Mujeres Granadinas Represaliadas”.

Antonina Rodrigo é uma historiadora rigorosa que persegue suas fontes recorrendo ao trabalho de arquivo, um trabalho que requer horas, paciência e dinheiro, posto que ela desenvolveu seu trabalho “independente”, fora da Academia e do apoio e a cobertura que esta supõe. Ela faz parte desse pequeno setor de historiadoras que se posicionou à margem das instituições acadêmicas e que escolheu seus temas guiando-se exclusivamente pelo interesse que lhe despertou em cada momento. Apesar desta posição “à margem” e “independente”, as instituições acabaram reconhecendo seu trabalho, seus prêmios são múltiplos e assim aparecem refletidos na exposição.

Além de historiadora está sua faceta como escritora, seus livros são escritos com primoroso cuidado, esmero no vocabulário, nas palavras, na maneira de transmitir a vida palpitante de seus personagens e dos acontecimentos históricos. Sempre procurou que não se escoasse no relato histórico, a vida, as emoções, o sofrimento, as humilhações, as alegrias. Sempre escreveu sobre a vida e desde a vida, por isso seus livros pulsam em nossas mãos e nos emocionam sem perder o rigor. Não podemos esquecer sua faceta como conferencista na qual se destaca por essa facilidade de transmitir a vida, a “bebida” da história. É uma divulgadora excelente e suas conferências assim o demonstram.

Antonina Rodrigo entendeu o anarquismo e o feminismo, desde o qual desenvolveu seu compromisso, de maneira ampla, flexível e vivencial. Para ela o anarquismo é “uma forma de ser”, uma experiência vital, um compromisso existencial e ético que a leva a insistir sempre nos aspectos humanos. Neste sentido, ela é um exemplo de generosidade e bondade da qual tive a sorte de desfrutar.

Conheci Antonina Rodrigo quando estava investigando Teresa Claramunt e buscava desesperadamente alguma pista da qual estirar para poder seguir adiante. A quantidade de pessoas que se aproximam dela confiando em que possa oferecer algum rastro sobre o que investigam é enorme. Ela sempre atende com generosidade qualquer consulta, se tem algum documento ou indicação que possa ajudar, a oferece com desinteresse, algo que não costuma ser habitual. E muito importante, sempre consegue transmitir ânimos para seguir com a investigação.

Meu contato com ela foi se convertendo no transcurso do tempo em uma amizade que nos levou a compartilhar eventos, viagens e longas, longuíssimas conversas das quais sempre levei a melhor parte porque aprendo de seu fluxo de sabedoria. E tudo isso somado com um sentido do humor cheio de finura e de graça.

Laura Vicente

Artigo aparecido em Rojo y Negro, Mayo 2021, nº 356

Fonte: http://pensarenelmargen.blogspot.com/

Tradução > Sol de Abril

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o rio ao lado da estrada
corre
ri à gargalhada

Eugénia Tabosa

[Espanha] Lançamento: “Memorias | Louise Michel”

Louise Michel foi uma das principais figuras da Comuna de Paris que aconteceu entre 18 de março e 28 de maio de 1871.

Nestas Memorias autobiográficas, Louise Michel relata como foram se forjando nela os ideais que a levariam a fazer parte da Comuna.

Criada por sua mãe e seus avós em Vroncourt, desfruta de uma plácida infância rodeada de livros e poesia. Seus avós, a cada noite, escreviam em verso o acontecido durante o dia. Ela sempre quis ser poeta, e pode se observar nos diferentes poemas que aparecem em suas Memorias.

Em Paris exerce como professora, e é ali que vai a reuniões com outras mulheres nas quais se debate sobre os ideais que dariam lugar à Comuna.

Uma vez reprimida a Comuna, é encarcerada junto com outras mulheres. Outros de seus companheiros acabam executados, como é o caso de Théophile Ferré. Posteriormente é deportada a Nova Caledônia e finalmente anistiada pode voltar a Paris.

As Memórias de Louise Michel nos introduzem em sua personalidade, seus sentimentos, suas convicções e seus ideais sobre a justiça social e a igualdade entre homens e mulheres.

Nas palavras de seu editor, em 1886: “Quem se aproxima dela pela primeira vez fica surpreendido ao encontrar-se ante uma mulher afável, desde um bom início, de voz doce, com olhos brilhantes de inteligência e transbordante de bondade. Após haver falado com ela um quarto de hora todos os lados desaparecem: todos ficam subjugados, arrebatados, fascinados, conquistados”.

Memorias

Louise Michel

Mra Ediciones, Barcelona 2021

322 págs. Rústica 22,5×14 cm

ISBN 9788496504400

19,90 €

mralibros.com

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ao pé da janela
dormimos no chão
eu e o luar

Rogério Martins

[Espanha] Quando éramos os melhores em inovação educacional

Houve um tempo em que as propostas dos pedagogos espanhóis eram observadas com atenção em todo o mundo. Uma época em que havia uma abundância de escolas inovadoras, com métodos educacionais avançados, o que causou admiração entre professores e pensadores do início do século XX. Centros educacionais, geralmente fora do Estado ou escolas religiosas, que com poucos meios mas com uma convicção esmagadora, conseguiram elevar o nível cultural entre as classes mais desprivilegiadas.

Era o final do século XIX; o país estava em uma situação econômica deplorável, mantida por governantes medíocres submersos em corrupção, incapazes de tentar resolver os problemas urgentes sofridos pela maioria da população espanhola. A divisão entre as classes sociais era enorme: algumas pessoas ricas desfrutam de um excelente padrão de vida, enquanto as imensas massas trabalhadoras tinham sérias dificuldades financeiras. A oferta cultural era relegada ao gozo apenas de uma minoria; estima-se que em 1900, 60% dos cidadãos espanhóis eram analfabetos. E nesse contexto terrível, surgiu uma autêntica revolução pedagógica que, com suas peculiaridades, atingiu praticamente todas as partes da península; Zamora não foi exceção e em nossa província foram desenvolvidas interessantes propostas educativas de caráter popular, dignas de comentário neste artigo.

Em 1876, foi fundada a Institución Libre de Enseñanza (ILE), um estabelecimento educacional secular privado, inspirado no Krausismo e na pedagogia renovadora de Giner de los Ríos, Pestalozzi e Froebel. As contribuições únicas do ILE foram muitas: a rejeição do livro didático, a colaboração entre os estudantes, o respeito pelo mundo do trabalho, as caminhadas, as críticas aos exames ou o compromisso com a avaliação contínua, defendendo o conceito de que a educação deve cobrir toda a vida de uma pessoa.

Na órbita da instituição estaria a Residência de Estudantes em Madri, onde coincidiu uma longa lista de figuras importantes para a cultura do primeiro terço do século passado: Luis Buñuel, Federico García Lorca, Salvador Dalí, Rafael Alberti, Nicolás Guillén, Juan Ramón Jiménez, Miguel de Unamuno, Marie Curie, María Montessori, Benito Pérez Galdós, Gerardo Diego e León Felipe.

Vários desses intelectuais participariam das Missões Pedagógicas, um organismo financiado pelo governo republicano, que visava levar a cinematografia, o teatro ou uma seleção das melhores obras da literatura universal para os cantos mais remotos do país. Sanabria foi visitada no outono de 1934, ali, aqueles “missionários da cultura” puderam verificar o isolamento e a miséria sofrida pelos camponeses, além disso, eles forneceram material para algumas escolas, ou organizaram conferências sobre água potável ou avanços agrícolas. Durante sua estada em Sanabria, souberam da eclosão dos eventos revolucionários de outubro, estes também foram promovidos com ênfase pelos “carrilanos” da região, defensores do anarco-sindicalismo, que estavam construindo a ferrovia para a Galiza.

Seguindo os postulados do ILE, a instituição filantrópica Fundación Sierra-Pambley, em 1897, criou uma escola primária em Moreruela de Tábara. Uma realidade possível graças ao altruísmo do regeneracionista leonês Francisco Fernández Blanco. A escola podia ser frequentada por crianças de quatro vilarejos da região, com idades entre oito e quatorze anos, e elas deveriam ser: filhos de trabalhadores, órfãos ou de uma família pobre. A qualidade do treinamento, sua gratuidade, a horta escolar ou a existência de materiais pedagógicos e científicos modernos, foram sinais da identidade da escola. Os professores organizavam viagens frequentes: a Puente Quintos, ao Mosteiro de Moreruela ou ao recentemente construído Salto de Ricobayo, e quando era viável, as aulas eram realizadas ao ar livre.

Nesta educação alternativa, não só existiam centros destinados às crianças, mas sua infraestrutura também era utilizada para educar os idosos. Muitas iniciativas culturais surgiram: grupos de teatro, muitas vezes ligados a associações de bairro ou ateneus libertários; aulas noturnas para adultos, quase sempre gratuitas, ensinadas com entusiasmo por ativistas entusiastas que dominaram as letras, palestras informativas, sendo uma referência as palestras dominicais da Escola Moderna, devido ao elenco de professores e palestrantes científicos; bibliotecas populares, administradas por ateneus operários ou coletivos literários; recitais de poesia; grupos de esporte e caminhadas, organizados pela juventude e a criação das Universidades Populares, centros onde o povo podia ter acesso a uma cultura que até então lhe havia sido negada.

A Universidade Popular de Zamora foi aberta em 1933, ligada à Associação Profissional de Estudantes de Zamora (APEZ), que por sua vez aderiu à Federação Universitária Escolar (FUE). Era um coletivo autogerido, aberto a todos os cidadãos, e foi promovido por professores inquietos que treinavam alunos como Amado Hernández Pascual, Engracia del Río ou Valentín Ferrero, em estreita colaboração com os intelectuais progressistas de Zamora da época. Em suas modestas instalações, que estavam na antiga Escola Normal dos Professores (hoje Biblioteca Pública) e na extinta Casa do Povo, realizavam até o verão de 1936 atividades didáticas variadas, gratuitas: palestras sobre saúde; exposições; idiomas, assim como aulas noturnas de gramática, geografia, aritmética ou desenho.

No estudo “La labor educativa de Amado Hernández Pascual: universidad popular, esperanto y difusión cultural en Zamora y Argujillo durante los años 30”, recentemente publicado no Anuário do Instituto Florián de Ocampo de Estudos Zamoranos, detalhou em profundidade esta interessante experiência educacional coletivista.

Um pouco mais longe, em Barcelona, o pedagogo Francesc Ferrer i Guàrdia, em 1901, inaugurou a primeira Escola Moderna. Não era apenas mais um centro educacional, pois abria as portas para a renovação pedagógica do mundo de seu tempo. Ferrer, um pensador livre e anarquista declarado, propôs um sistema completo baseado no secularismo, racionalismo igualitário, apoio mútuo, jogo e ciência. Em suas salas de aula ele introduziu o ensino misto, eliminou recompensas e punições na infância, descartou exames, utilizou técnicas como a correspondência escolar (mais tarde aceita pela Freinet), ou o cuidado com a higiene como método preventivo de doenças.

A biblioteca da escola foi outro dos pilares do modelo Ferrerista, publicando seus próprios materiais e uma cuidadosa coleção de textos de autores de destaque: Odón del Buen, Santiago Ramón y Cajal, Émile Zola, Élisée Reclus, Jean Grave e Liev Tolstói. Também publicou um boletim periódico detalhando sua ideologia e suas chamadas.

Ferrer considerava que a Igreja Católica era diretamente responsável pelo atraso secular que a Espanha sofria, assim, na Escola Moderna eles decidiram não ensinar dogmas religiosos, o que somado à sua plena defesa da coeducação e suas críticas à instituição católica, o fizeram confrontar-se com os setores mais atávicos da sociedade, que conseguiram fechar sua escola em 1906. E mais tarde, vítima de uma montagem, foi acusado de ser o promotor da Semana Trágica, sofrendo um julgamento atormentado por irregularidades, condenando-o à morte. Apesar dos massivos protestos internacionais pedindo sua absolvição, o pedagogo foi executado. Seu último grito, diante do pelotão de fuzilamento, foi um símbolo intemporal e um escárnio da intolerância: “Viva a Escola Moderna!”

Anos mais tarde, sucessivos governos, diante do escândalo de magnitude universal que o final fatídico de Ferrer significava, tentaram compensar sua figura desvendando placas ou nomeando ruas em sua homenagem. Em Zamora, um seguidor seu, o romancista Vicente Blasco Ibáñez, também tinha sua placa de identificação na nomenclatura da cidade, na atual Avenida de Portugal. No entanto, foi o povo que melhor honrou sua memória, pois abririam cuidadosamente numerosas escolas gratuitas em todo o território nacional, que operariam autofinanciadas até o final da Guerra Civil, seguindo ideias de Ferrer, consolidando um sistema educacional alternativo e popular, diametralmente diferenciado da educação estatal ou das ordens religiosas.

Suas técnicas didáticas foram adotadas pelo movimento libertário como um todo, que manteriam muitas escolas onde desenvolveram suas propostas; algumas delas entrariam para a história da educação: A Escola Natura “La Farigola” de Clot, sob a direção de Joan Puig Elías; a Escola Neutra de Gijón, do educador Eleuterio Quintanilla; as colônias escolares no campo do Levantine, do professor Higinio Noja Ruiz; ou os grupos infantis de Edgardo Ricetti (Sabadell), Antonia Maymón, e do andaluz extático José Sánchez Rosa. Sua influência atravessou até mesmo nossas fronteiras, chegando a escolas na América do Norte, Argentina, Brasil ou França e teve até admiradores fervorosos no Oriente, sendo suas ideias introduzidas pelo famoso escritor chinês Ba Jin.

Tal foi o prestígio deste modelo instrutivo integral, que durante uma visita de Albert Einstein em 1923 a Barcelona, o cientista visitou um centro do sindicato CNT, encontrando-se com o libertário Leonês Ángel Pestaña, e aproveitou a oportunidade para dar conselhos sobre aspectos culturais aos trabalhadores presentes.

Na província, temos provas do sincero pedido de livros e publicações, nas páginas do semanário “Campo Libre!”, pelos cenetistas de Losacio de Alba, provavelmente para tentar criar uma biblioteca popular na cidade, em 1936.

É claro que estas experiências foram um produto de seu tempo, com demasiadas limitações, e realizadas dentro de uma sociedade oposta à atual, mas para o pesquisador crítico, é difícil não ser seduzido por alguns idealistas, que conseguiram algo inimaginável hoje: fazer de nosso país uma referência em pedagogia. Sua atitude foi, para dizer o mínimo, louvável, e considero que suas propostas ainda são dignas de estudo para qualquer professor com preocupações pedagógicas.

Problemas crônicos da educação em nossos dias, tais como falta de motivação, falta de meios e investimento, burocracia, um bilinguismo mal planejado (ensinar tudo em inglês), um sistema ilógico de exames competitivos, excesso de individualismo e rivalidade, ou altos índices, que aqueles professores originais tentaram resolver. Também imaginavam um modelo educacional muito diferente daquele que conhecemos hoje.

Cooperar, não competir, um princípio que também é ideal neste momento. E a liberdade, o bem mais precioso. Quando nosso país era a inveja de todos, por sua educação inovadora.

Fonte: https://serhistorico.net/2021/01/09/cuando-fuimos-los-mejores-en-innovacion-educativa-carlos-coca-duran/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Janelas fechadas.
Lá fora, uma frente fria
pedindo passagem.

Renata Paccola

[Itália] O desafio da ecologia social do Bookchin

Por Martino Seniga

A nova realidade política e social criada pela pandemia têm visto uma reação que acredito ser muito branda e integrada por parte da galáxia ambientalista heterogênea, presente em todo o mundo com militantes e organizações de vários tipos.

Enquanto alguns veem a pandemia quase como uma perturbação, uma distração, da luta principal para salvar o planeta dos danos criados pela própria “raça humana” que agora está sob ataque do vírus Covid-19, de outro ponto de vista as novas prioridades sociais, causadas pela crise econômica e de saúde global, provavelmente ofuscam e desviam a atenção das emergências ambientais, que continuam sendo cruciais para a sobrevivência tanto da raça humana quanto do planeta inteiro.

Neste contexto, pode ser útil retomar o raciocínio e o projeto político desenvolvido desde os anos 50 por Murray Bookchin (Nova York 1921, Burlington 2006) conhecido como o fundador da Ecologia Social.

Em síntese extrema, Bookchin acredita que a crise ambiental e ecológica crônica de nosso planeta só pode ser resolvida adotando e desenvolvendo um novo projeto político social e econômico. Em particular, Bookchin identifica o sistema econômico capitalista e a organização hierárquica dos aparelhos governamentais, tanto estatais quanto privados, como a causa raiz da patologia global, tanto social quanto ambiental.

Partindo destas premissas, Bookchin elaborou uma proposta política e filosófica exposta em seus escritos e livros e desenvolveu em particular em seu último texto, publicado postumamente: La Prossima Rivoluzione, dalle assemblee popolari alla democrazia diretta (BFS PISA 2018).

Tendo projetado uma nova ecologia política e social que inova de forma perturbadora o pensamento progressista e anticapitalista, Bookchin procura superar as ideologias e erros que têm caracterizado os movimentos da esquerda internacional desde o século XIX.

Sem “jogar o bebê fora com a água do banho”, Bookchin tenta traçar um caminho, um caminho social e político para tentar salvar todo o bem que a humanidade conseguiu fazer para o desenvolvimento democrático e ecológico de nossa sociedade. Não apenas uma utopia, mas um projeto organizacional preciso para combater os vírus do irracionalismo, do fundamentalismo, do nacionalismo e do hipercapitalismo financeiro, que continuam a manter sob controle o frágil ecossistema humano e natural.

>> Martino Seniga, jornalista da RAI, especialista em questões ambientais e política internacional, é atualmente correspondente do TGR Lazio para a província de Frosinone.

Fonte: https://www.maxstrataweb.com/post/la-sfida-dell-ecologia-sociale-di-bookchin?fbclid=IwAR09Zleghrv_NZOM3gG6HoHuTCVKrlyxUHwdSJNzsamj0SzD0CSSBZWmRtk

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/07/espanha-a-tese-de-ecologia-social-de-m-bookchin-e-os-principios-de-gestao-de-bens-comuns-de-e-olstrom-sao-compativeis/

agência de notícias anarquistas-ana

Apenas vós,
Árvores de tronco branco,
Me garantis que retornei.

Paulo Franchetti

[Internacional] Rumo ao próximo Congresso Plenário e Extraordinário da AIT

Durante os próximos 25, 26 e 27 de junho, será realizada uma Plenária e um Congresso Extraordinário da AIT. Embora a Plenária tenha sido acordada para ser realizada na Eslováquia por acordo do Congresso de Melbourne, finalmente será realizada por videoconferência devido à impossibilidade das delegações virem à Eslováquia devido às restrições de movimento em muitos países.

Entretanto, a AIT não poderia renunciar a realizar suas próprias eleições internacionais devido à importância e significado que elas têm não apenas para todas as Seções e Amigos da AIT, mas para muitas outras organizações que têm a Internacional anarco-sindicalista como referência para defender os objetivos emancipatórios da classe trabalhadora em todo o mundo.

Na Agenda Plenária, alguns assuntos deixados pendentes do Congresso de Melbourne e outros debates que foram propostos recentemente no âmbito da Internacional serão discutidos e acordados. Algumas dessas questões serão o Centenário da AIT, a Imprensa Internacionalista, a Semana de Luta contra o Não Pagamento de Salários, a organização sindical no trabalho e a crise climática, etc.

Ao mesmo tempo, durante o Congresso Extraordinário serão discutidas principalmente as adesões que várias organizações fizeram para se tornarem Amigos da AIT, bem como os pedidos de mudança de status de alguns de nossos Amigos que querem se tornar Seções completas.

Lembramos que no XXVII Congresso da AIT realizado em Melbourne (Austrália) várias organizações da região da Ásia-Pacífico foram aprovadas para a adesão, e este será o primeiro encontro internacional da AIT onde suas delegações poderão participar representando suas organizações como Seções e Amigos.

Da Secretaria da AIT desejamos que a Plenária e o Congresso se desenvolvam sem nenhum problema e que todas as delegações participantes possam discutir e concordar na melhor atmosfera de fraternidade.

Viva a AIT!

iwa-ait.org

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

trigo dourado
pelas mão do vento
é penteado

Carlos Seabra

[Espanha] Lançamento: “¿Es posible la educación libertaria hoy?”

Homenagem a Francisco Ferrer i Guardia no centenário de sua morte

Vários Autores

Este é um livro dirigido aos que pensam que a educação é a mais importante das tarefas que as pessoas deveriam trazer entre as mãos. Por desgraça, e por múltiplas causas, não ocupa esse lugar nos planos da maioria dos diversos governos de nosso planeta, para muita gente – e também os que participaram nas jornadas que deram lugar a esta edição – seguimos no empenho de conseguir esse objetivo e sonhamos com as iniciativas, estratégias e tarefas que podem nos ajudar a consegui-lo.

Para educar para a liberdade, sem adjetivos, há muitos caminhos que podem se percorrer. Aqui se fala de alguns deles.

¿Es posible la educación libertaria hoy?

Homenaje a Francisco Ferrer Guardia en el centenario de su muerte

VV.AA.

Fundación Salvador Seguí, Madrid 2021

183 págs. Rústica 21×14,5 cm

ISBN 9788487218293

10,00 €

fundacionssegui.org

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Canta o bem-te-vi
no galho da goiabeira:
mesma saudação!

Ronaldo Bomfim

[Espanha] Cantábria | Rádio Argayo: O alto-falante social do território

Um projeto em contínuo crescimento para acomodar todas aquelas vozes do território unidas por um objetivo comum: uma Cantábria anticapitalista, feminista, libertária e antirracista.

Queremos oferecer formatos e conteúdos para despertar através das ondas aéreas seu espírito crítico, informações verdadeiras e pensamento livre, mas também sonhos.

E tudo isso, abraçado pela música de todos os gêneros e cores, desde que sirvam para nos dar asas de liberdade. E se for com um sotaque local, melhor ainda!

Nos escute ao vivo: https://radioargayo.noblogs.org/

agência de notícias anarquistas-ana

Nuvem, ergue a pálpebra!
Quero ver o olho de cego
com que sondas a noite.

Alexei Bueno

[Chile] Por um cotidiano subversivo, seguimos atacando a ordem dos ricos

A baixa e quase nula adesão ao que foi a jornada nacional de protestos contra a última conta pública de Pinẽra denota o que já se advertia desde o ano passado: que a conflituosidade e a mobilização social foram absorvidas pela pandemia e institucionalizadas pelas urnas.

A criminalidade de Piñera a 9 meses de deixar seu cargo só pode deixar saldos felizes, já que conta com uma rejeição popular generalizada, conseguiu primeiro sair em pé da revolta de 2019, conseguiu esticar um estado de exceção e toque de recolher durante toda a pandemia, conseguiu um inédito plebiscito popular por uma “nova constituição” em seu mandato e como declarou na mesma noite da última eleição “é a democracia e com ela somos todos os democratas quem ganhamos”.

É da interpretação deste cenário e de sua autocrítica o que nos permitirá aos setores revolucionários e libertários definir os caminhos para seguir avançando e não nos estancar e nos derrotar.

O fracasso quanto à adesão popular às convocatórias de ontem (01/06) é evidente quantitativamente mas não total em aspecto qualitativo, já que se conseguem focos de protestos ao longo do país por coletivos que continuam com o espírito de combate e revolta intactos.

Tirando conclusões

As últimas e interessantes eleições evidenciam (apesar de sua baixa participação) que existe uma rejeição generalizada à velha institucionalidade e uma rejeição ao modelo econômico atual, o qual levou à aparição de novos setores independentes de esquerda sobre coalizões que nos governam durante 30 anos, e é desde estes feitos que há de se replanejar e incidir não participando e se integrando, mas desde nossas posturas, nos organizando.

O único que continua nas ruas sem descanso é a mobilização pela volta às ruas dxs presxs políticxs, a qual não deve parar, mas que até agora não consegue por si só uma pressão para uma saída sem condições, e deixa como único caminho o esperar a que o novo mandatário no próximo ano decrete um indulto que, bem sabemos, não será para todxs e virá com as imposições, compromissos e o aproveitamento que fará o poder deste.

Apesar de que o povo em luta aposta mais uma vez em seus anseios de mudança pelas urnas e abandonou as ruas, vemos que existe um terreno fértil para a difusão e prática das ideias e propostas que nascem a partir do anarquismo, é por isto que devemos tirá-las do desconhecimento, sectarismo e falta de iniciativa para posicioná-las no levantamento de instâncias que sejam solidárias, de difusão, propaganda/agitação ou comunitárias que vão para um lado mantendo e aprofundando o conflito, e pelo outro planejando soluções autônomas e autogestionárias aos problemas cotidianos, e desde esta prática permanente se vão gerando as propostas que nos permitam avançar na destruição e superação do capitalismo, e ir plasmando esse mundo novo que queremos criar.

Devemos avaliar para definir e não fazer pelo dever de fazer, ou simplesmente fazer por fazer, e sobretudo, estar informadxs e informando sobre os contextos e conjunturas que vamos cruzando, porque é a partir destas interpretações e conclusões onde poderemos definir uma tática e coerência para que o avanço de quem planejamos gerar as alternativas para uma saída revolucionária ao atual estado de coisas seja efetivo.

Grupo de Propaganda Revolucionária – La Ruptura.

Tradução > Caninana

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/11/chile-chamado-a-autonomia-revolucionaria-e-ao-antifascismo-militante/

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a chuva no charco
traça círculos
sem compasso

Eugénia Tabosa

[França] Chamada internacional para contribuição | A Internacional sindical vermelha e a oposição sindicalista ao bolchevismo

O movimento anarquista e o movimento sindicalista revolucionário deram seu apoio incondicional à Revolução Russa em seu início, mas pouco a pouco, à medida que as informações chegaram à Europa Ocidental, surgiram dúvidas sobre o caráter emancipador da revolução e sobre a natureza real do regime estabelecido pelos bolcheviques.

Tendo uma necessidade vital de apoio internacional, o poder soviético criou em março de 1919 a Internacional Comunista – ou Comintern – cuja função era inicialmente contribuir para o sucesso da revolução mundial, mas que rapidamente se contentou em incentivar a formação de partidos comunistas destinados a apoiar a política internacional da Rússia comunista. De fato, os bolcheviques perceberam que uma Internacional dos partidos não era suficiente porque a massa do proletariado internacional escapava de seu controle: a maior parte estava sob o domínio de organizações reformistas, enquanto uma forte minoria, muito ativa, estava nas organizações sindicalistas revolucionárias.

Criaram assim em 1921 um anexo sindicalista ao Comintern: a Internacional Sindical Vermelha, cuja fundação teve conseqüências muito importantes sobre o destino posterior do movimento sindicalista revolucionário, provocando uma fratura irremediável que estará na origem da formação do anarco-sindicalismo.

Os sindicalistas revolucionários tentaram em várias ocasiões chegar a um compromisso com os bolcheviques, em particular sobre a questão da independência sindical. Mas rapidamente chegaram a uma dupla conclusão: a) Nenhum compromisso com os bolcheviques era possível; b) O movimento sindicalista revolucionário não podia permanecer isolado em nível internacional. Eles resolveram fundar, em Berlim, no final de 1922, uma Internacional sindicalista revolucionária: a Associação Internacional dos Trabalhadores.

O ano de 2021 marca o centenário do congresso de constituição da Internacional Sindical Vermelha, que foi o principal instrumento de penetração do comunismo nas organizações sindicais do planeta, muitas vezes dominado pelo sindicalismo revolucionário. Através de métodos agressivos, muitas vezes levando a divisões, a Internacional Sindical Vermelha conseguiu minar a influência da corrente sindicalista revolucionária e assumir o controle do movimento sindical. Um dos poucos exemplos do fracasso desta estratégia foi a CNT na Espanha.

Le Monde Libertaire, órgão da Federação Anarquista Francófona, publicou em 2020, em sua versão on-line, uma série de artigos dedicados a este evento.

O Cercle d’études libertaires Gaston-Leval está lançando um apelo internacional aos camaradas que estariam interessados em escrever um documento relacionado à história da implantação da ISR em seu país, a forma como essa implantação foi realizada e as conseqüências que isso pode ter tido sobre o movimento sindical e/ou revolucionário.

Tal trabalho nos parece absolutamente necessário: de fato, se os métodos de penetração das organizações de massa ordenados pela Internacional Comunista e implementados pela Internacional Sindical Vermelha foram tão eficazes, isto talvez se deva também às próprias deficiências do movimento sindicalista revolucionário e do movimento anarquista, que não foram capazes de enfrentá-los. Isto é o que os camaradas brasileiros chamam de “perda do vetor social”, ou seja, a perda da implantação de massa. Fazer um balanço sem concessão deste fracasso é sem dúvida a melhor maneira de prever uma estratégia realista para o futuro.

Abraço Fraternal, René Berthier

Circulo de Estudos Libertários Gaston-Leval, Junho 2021

Modalidades práticas:

Na medida em que os artigos, traduzidos por nós, serão publicados online no Libertarian World, não há teoricamente nenhum limite de espaço. No entanto, parece-nos que não é razoavelmente desejável que excedam um certo limite de comprimento.

Um máximo de 3.500 palavras ou 25.000 caracteres (com espaços) parece razoável.

Os documentos devem ser enviados para o Cercle d’études libertaires Gaston-Leval com a menção: “ISR”: cel-gl@orange.fr.

Data limite:

Os artigos serão publicados até Dezembro de 2022, data do centenário da fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores em Berlim.

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no funeral
flores
que ele jamais lhe deu

Ruby Spriggs

[Espanha] Lançamento: “El ángel rojo. Melchor Rodríguez, el anarquista que salvó a sus enemigos”, de Alfonso Domingo

A novela biográfica “El ángel rojo” conta a história de Melchor Rodríguez García, delegado especial de prisões da II República espanhola. Sevilhano de nascimento, Melchor Rodríguez foi um anarquista que preferia “morrer pelas ideias, nunca matar por elas”, e que demonstrou grande humanidade na guerra civil espanhola, salvando a vida de numerosos inimigos. Enquanto no lado franquista se exacerbava a repressão, Melchor conseguia impor a ordem na retaguarda republicana, parando as saídas dos cárceres, os passeios e os fuzilamento. Nomeado depois conselheiro da Municipalidade de Madrid, lhe coube a triste tarefa de fazer entrega do consistório às tropas vencedoras no final de março de 1939. Condenado pelo novo regime, cumpriu cinco anos de uma condenação de vinte. Até o final de seus dias seguiu sendo libertário. No total, Melchor esteve 34 vezes no cárcere com a monarquia, a república e o franquismo. Seu enterro, em fevereiro de 1972, conseguiu unir duas Espanhas irreconciliáveis: anarquistas e membros do regime que ele havia salvado na guerra.

El ángel rojo

Melchor Rodríguez, el anarquista que salvó a sus enemigos

Alfonso Domingo

Editorial Renacimiento, Colección Espuela de plata ,128. Sevilla 2021

552 págs. Rústica 21×15 cm

ISBN 9788418153402

23,90 €

editorialrenacimiento.com

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é quase noitinha
o céu entorna no poente
um copo de vinho

Humberto del Maestro

[Espanha] Criancices

Vivemos imersos em uma sociedade adulta, no pior sentido da expressão. O mundo pertence aos adultos. Essas pessoas de meia-idade que decidem ser os mestres e amantes do mundo e cujas opiniões e decisões superam as de qualquer outro grupo de pessoas sejam elas idosas, jovens ou crianças, e é precisamente nestas últimas que eu quero me concentrar para desenvolver uma breve reflexão.

As pessoas pequenas são as mais fracas e é precisamente por isso que devemos cuidar delas acima de tudo. Mas temos um problema sério, que é que como adultos somos o elo mais forte da corrente, e acontece que quando nos encontramos em uma situação de poder devemos ser extremamente cautelosos, para não agirmos como meros déspotas ou pequenos reis caprichosos.  Portanto, como acreditamos que o mundo é nosso e “quando você é pai, vai comer ovos” ou “quando você crescer vai entender”, abusamos repetidamente dos pequenos descarregando sobre eles nossa raiva, nossa irracionalidade ou nossa frustração. Seja forçando-os a ser o que nós mesmos não somos ou a se comportarem de forma artificial, mais típica de um quartel militar cheio de disciplina e repressão.

Uma prova mais do que evidente do desprezo pelas crianças é a linguagem que nós adultos usamos. Digo isto porque nestes tempos em que o machismo foi descoberto na forma de linguagem não inclusiva, talvez tenha chegado o momento de ampliar “nosso sentido de aranha” para detectar linguagem que exclua outros tipos de grupos oprimidos. “Criancice”, “não seja criança”, “não seja infantil”, “se comporte como uma  pessoa adulta” e outros disparates que povoam nossa linguagem viciada e que trazem à tona uma realidade prepotente que, em alguns casos, parece estar escondida.

Lembro-me de quando eu ainda era uma “criança terna” que entrei pela primeira vez nas instalações da CNT em Fraga. Eu tinha apenas quinze anos de idade e tive a sorte de conhecer militantes que na época me pareciam avós, e agora estou por volta da mesma idade que eles. Eram pessoas que haviam vivido a revolução em primeira mão, mas eu não sabia então que havia uma revolução ou o que haviam vivido, mas percebi que eu era tratado de maneira diferente dos outros adultos que eu conhecia. Porque aqueles militantes falavam comigo como um igual e me ouviam em silêncio respeitoso quando eu falava. Tanto que, a princípio, por falta de hábito, eu tinha um pouco de medo de me ouvir falar sem interrupção. Também descobri que fiquei encantado em ouvir seu discurso lento, pensativo e extremamente respeitoso para comigo.

Hoje, em nossa sociedade poucas coisas mudaram em relação às crianças, mas em nosso sindicato, na CNT de Fraga, felizmente, poucas coisas também mudaram, e podemos dizer com orgulho que amamos as “chiquilladas” (criancices) e que nada nos parece mais esperançoso do que a audácia dos pequenos. O frescor com que eles agem e se expressam, sem manhas, sem convenções ou subterfúgios. Simplesmente se mostrando como são, sem ter medo disso. Mostrando a nós adultos qual é o caminho que devemos seguir. O caminho das criancices!

Patricio Barquín, militante da CNT de Fraga

Fonte: https://bajocincalibertario.blogspot.com/2021/06/chiquilladas.html?spref=fb&m=1&fbclid=IwAR35yNJCdOC4Ct9rpMmNXndiVwylIvZGGdMoLZQMe7gB_VzHPjX7XPmCvcI

Tradução > Liberto

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Guardei para você,
num verso de porcelana,
as flores da manhã.

 

Eolo Yberê Libera

[EUA] A Vida é uma Empolgante Mistura de Destruição e Criação

Um Cartaz em Homenagem às Gerações Anteriores

Preparamos um cartaz juntando imagem e texto de nossos antepassados, cristalizando a maneira como as gerações anteriores de anarquistas enxergavam a relação entre a resistência à ordem existente e a construção de alternativas à ela. Abaixo traçamos a história de cada elementos do cartaz.

“Nos deixe então confiar no Espírito eterno que destrói e aniquila apenas por que é a fonte intangível e eternamente criativa de toda a vida. A paixão pela destruição é, também, uma paixão criativa.”

– Mikhail Bakunin, “A Reação na Alemanha,” Deutsche Jahrbücher fur Wissenschaft and Kunst, nos. 247–51

A Ilustração

Essa ilustração apareceu originalmente em 2001, no auge da atividade anticapitalista conhecida também como “O movimento antiglobalização”, em um álbum 7 polegadas da banda punk anarquista Dinamarquesa, Paragraf 119. O nome da banda faz referência ao artigo da lei Dinamarquesa que proíbe ferir oficiais do governo (“Se um policial quiser pagar com sua vida — tudo bem por nós”), Paragraf 119 surgiu dos movimentos punk, okupa e anarquista de Copenhague nos anos 1990, reunido em torno do histórico centro social ocupado Ungdomshuset. Em outro álbum do Paragraf 119, as fotos de vários dos membros da banda os mostram sendo presos em alguma violação da “ordem pública”. Isso é o melhor do punk — não como um gênero musical, mas como uma cultura de resistência na qual músicas extraem sua força das atividades compartilhadas entre artistas e ouvintes, os quais, através de seu esforço coletivo, geraram um espaço onde esses hinos tinham sentido real.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://pt.crimethinc.com/2021/06/12/a-vida-e-uma-empolgante-mistura-de-destruicao-e-criacao-um-cartaz-em-homenagem-as-geracoes-anteriores-1

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A bola baila
o gato nem olha
salta e agarra

Eugénia Tabosa

Novidade editorial | RE-NEGO: grito punk nas cenas do litoral e da serra da Borborema (1987-2014), de JR Karlos

“O livro RE-NEGO: grito punk nas cenas do litoral e da serra da Borborema (1987-2014) é de grande importância para o movimento punk do Brasil, sobretudo por trazer informações sobre a presença desse movimento na Paraíba. Existe uma vastidão de materiais, os mais diversos, com as mais diferentes abordagens sobre o tema Punk no Brasil, muitas vezes voltados, principalmente, para a movimentação no Sudeste do país. Não que isso não seja importante, mas o punk não aconteceu no Brasil apenas nessa região. Isso é possível perceber quando JR Karlos narra as particularidades da movimentação punk em João Pessoa e Campina Grande desde suas primeiras aparições.

Jr Karlos nos mostra o movimento punk na Paraíba conectado com a diversidade das cenas punks do Brasil, as quais foram gradativamente surgindo na década de 80, no momento em que muitos jovens se identificavam com o visual, os três acordes e as letras cruas e diretas produzidas pelos punks como um meio de expressão. Os punks da Paraíba se uniram as outras cenas punks dos diversos estados do Brasil e fizeram ecoar os gritos de revolta contra o capitalismo, a violência policial e as religiões, além de relatarem o cotidiano dos subúrbios onde habitavam. A origem social dos punks paraibanos, assim como em outras regiões, em sua maioria, era das classes trabalhadoras, pobres, suburbanos e negros.”

Trecho do prefácio de Mauricio Remígio

RE-NEGO: grito punk nas cenas do litoral e da serra da Borborema (1987-2014)

JR Karlos

Monstro dos Mares

ISBN: 978-65-86008-14-2

64 páginas / Capa em papel color plus de 180g.

R$15,00

monstrodosmares.com.br

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nenhum pio
depois do trovão
apenas uma fragrância

Alonso Alvarez

[Portugal] Resposta ao revisionismo histórico do PCP

Em defesa dos militantes antifascistas libertários face às tentativas de apagamento levadas a cabo pelo PCP

É histórica a tendência dentro do movimento operário de se realizarem ataques a outras correntes comunistas e socialistas dentro do mesmo. Existiu ao longo do último século particularmente uma luta pela hegemonia dentro do movimento, sempre à custa da vontade de milhares de operários. Nós reconhecemos isso com plena sobriedade. Contudo cremos existirem limites para a mesquinhice e a desonestidade intelectual a roçar a falta de respeito para com os milhares de operários que resistiram à ditadura dentro e através da CGT. Nós não temos qualquer interesse em lutar por uma hegemonia fictícia do que foi um movimento de massas, e não de ideologias ao contrário do que alguns parecem querer fazer. Depois do centenário do PCP os camaradas decidiram, e bem, escrever alguns textos a descrever o que foram então estes 100 anos de luta. Contudo, as heranças stalinistas parecem teimar em não desaparecer desde os anos da criação do partido e sendo assim, mais importante do que descrever a verdade e os fatos da época, assistimos a uma tentativa falaciosa de pintar uma imagem de que só com a criação do PCP a classe operária portuguesa obteve uma “correta posição de classe”.

O primeiro pedaço de revisionismo histórico aparece sob este rico parágrafo – rico, entenda-se por absurdo:

“Mas apesar da luta dos trabalhadores e do esforço do PCP, a CGT, dominada pelos anarco-sindicalistas e em perda de influência, recusa a tentativa do Partido de criar uma frente de unidade contra o fascismo, que acaba por cair por terra”.

Acrescentam ainda que:

“No começo de 1924, o PCP, defendendo a necessidade de uma sólida unidade de ação dos trabalhadores perante o perigo que avançava, tenta estabelecer com a CGT uma frente de unidade sindical contra o fascismo. Chega a realizar-se uma reunião com esse fim, mas a tentativa falha devido às posições anticomunistas dos anarco-sindicalistas, que dominam a CGT. Em 1925 o Partido participa nas eleições parlamentares formando um bloco com as chamadas forças democráticas de esquerda.”

Ficam por esclarecer que posições anticomunistas teriam os anarcossindicalistas da CGT, tendo em conta que estes eram na sua esmagadora maioria, comunistas. Se os autores do texto se tivessem dado ao trabalho de ler as atas dos Congressos, quer da CGT, quer das Juventudes Sindicalistas, teriam descoberto que ambas as organizações tinham como objetivo a socialização dos meios de produção pelos próprios trabalhadores e o comunismo libertário. A CGT nunca recusou lutar com outras facções antifascistas, como veio a acontecer nos anos do reviralhismo com os republicanos e na greve de 18 de janeiro de 1934 com os socialistas e comunistas. Recusou apenas submeter-se à direção de um partido político que provocou uma cisão no movimento sindical ao fundar a ISV, enfraquecendo a unidade sindical que mais tarde acusam os anarcossindicalistas de sabotar. A CGT também nunca baixou as armas, continuando a organizar greves contra o fascismo, a publicar clandestinamente as edições do jornal A Batalha, a procurar organizar revoltas com os republicanos antifascistas que sempre recusaram fornecer armas aos operários e ao continuar as suas ações de propaganda e sindicalização de mais trabalhadores. A CGT já alertava para a ameaça do fascismo para a classe trabalhadora desde 1924, mas não tinha intenções de se unir a um PCP que investia no parlamentarismo e que tinha provocado a desordem na organização do operariado e das Juventudes Sindicalistas. De fato, esta é mais uma das heranças históricas do partido comunista que teima em guiar o proletariado por caminhos legalistas, reformistas e parlamentaristas. Tal como os camaradas da CGT a nossa concepção de sindicalismo revolucionário não se coaduna com as leis que o Estado burguês impõe aos sindicatos, vendo-se assim os mesmos forçados a enveredar por caminhos de “colaboração de classe”.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

http://uniaolibertaria.pt/resposta-ao-revisionismo-historico-do-pcp/?i=1

>> Foto em destaque: Presos políticos da CGT em Peninche, dezembro de 1934.

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Lentos dias se acumulam –
Como vão longe
Os tempos de outrora.

Buson

Como viviam as pessoas escravizadas pela Igreja no Brasil

Por Edison Veiga

As grandes instituições religiosas do Brasil colonial e imperial tiveram negros escravizados — e muitos. Pesquisas recentes apontam para um número de escravos muito acima da média do que havia nas grandes propriedades rurais, práticas de incentivo à procriação para aumentar a quantidade de mão de obra e até mesmo uma tabela de preços para quem quisesse comprar a alforria — com critérios específicos para precificar cada ser humano.

Os escravizados mantidos por mosteiros e conventos também eram obrigados a professar a fé católica, participando de missas, momentos de orações e recebendo os sacramentos.

Os que se rebelavam quanto à conversão costumavam ser punidos com castigos “de forma exemplar” ou seja, com intensidade suficiente para convencer os demais a não repetir gestos de desobediência.

De quebra, a luta pela aquisição de liberdade — ou seja, a compra de uma carta de alforria — costumava ser mais difícil para um escravo de ordem religiosa do que para alguém que estivesse sob o jugo de um senhor leigo.

Por outro lado, a libertação dos escravizados por mosteiros e conventos ocorreu em 1871, 17 anos antes da assinatura da Lei Áurea, em 1888.

“Escravos da religião”

Autor do recém-lançado livro Escravos da Religião (Ed. Appris), pesquisador na Universidade Federal Fluminense (UFF) e idealizador do podcast Atlântico Negro, o historiador Vitor Hugo Monteiro Franco revira arquivos da Ordem de São Bento desde 2014.

O material foi tema de sua iniciação científica, de sua monografia de conclusão de curso, de seu mestrado e, agora, está sendo esmiuçado em seu doutorado.

“Uma das principais descobertas foi o próprio termo ‘escravos da religião'”, conta ele.

“Não foi um termo que eu criei. É um termo da época, que encontrei em livro de batismos. Foi um choque para mim.”

Na ocasião, ele estava analisando os registros dos nascidos no século 19 em propriedade rural mantida pelos beneditinos na Baixada Fluminense, a Fazenda São Bento de Iguassú.

“Na hora de qualificar os pais, o monge não os qualificava como ‘escravos da Ordem de São Bento’, mas sim como ‘escravos da religião’.”

Para o pesquisador, residia aí uma diferença fundamental entre o modo de vida dos escravos mantidos por instituições religiosas: o fato de o senhor não ser uma pessoa, mas sim uma entidade.

“Parece simples, mas não é. A situação geral da escravidão no Brasil é de escravos privados, de senhores leigos. No caso dos ‘da religião’, eles não pertenciam a um monge específico, eram de propriedade coletiva. E isso teve repercussões na vida dessas pessoas para sempre, porque influenciava na forma, no dia a dia deles”, diz o historiador.

Franco ressalta que o cotidiano desses negros escravizados estava “regulado” pelos hábitos religiosos do catolicismo e da vida monástica.

“Por mais que a sede dos religiosos estivesse no centro do Rio e a fazenda na Baixada Fluminense, sempre havia um monge cuidando de lá. Era o chamado padre fazendeiro”, contextualiza.

“Ele fazia o trabalho espiritual: batizava as pessoas, casava-as, sepultava-as. Os beneditinos eram um tipo de senhor que conhece muito bem sua escravaria, anotando tudo em muitos detalhes.”

“Os monges conheciam cada momento, cada fase da vida dos seus escravizados. Por mais que as propriedades fossem enormes, eles tinham o controle administrativo sobre aquelas pessoas, ao contrário dos senhores leigos, que muitas vezes tinham um contato muito pequeno com os escravizados”, compara.

“Isso dava (aos religiosos) um poder muito grande. Ser ‘escravo da religião’ significava ter sua vida controlada por uma instituição religiosa”, acrescentou Monteiro Franco.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.bbc.com/portuguese/geral-57099524

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Um rastro de lua
Na rua de rastros
depois que a chuva parou.

Luiz Carlos

As Promessas Quebradas do Vietnã: As Críticas de um Anarquista Vietnamita

A crítica de um anarquista vietnamita ao chamado socialismo no Vietnã.

Vietnam 2021, o clima geral parece ser de otimismo. A busca incessante de uma estratégia de Zero-Covid tem recebido ampla aprovação tanto dentro do país como internacionalmente. A economia conseguiu escapar com um crescimento positivo onde seus vizinhos sofreram um declínio devido à pandemia. Mas debaixo de toda a confusão, alguém estaria certo ao sentir que algo está errado. Há esta sensação incômoda de que ninguém parece ser capaz de colocar o dedo na ferida. Quase como se houvesse um espectro assombrando o Vietnã, o espectro do comunismo – o comunismo real, sem os sinos e assobios.

Como Emma Goldman observou com astúcia, não havia comunismo na URSS. O mesmo pode ser dito do Vietnã hoje em dia. O partido dominante – o Partido Comunista do Vietnã – há muito tempo se desviou do caminho do comunismo.

Antes do atual líder do partido iniciar seu terceiro mandato (2020-2025), ele formulou um roteiro ambicioso no qual, até 2045, o Vietnã se tornaria um país “desenvolvido”, em pé de igualdade com o Japão, a Coréia do Sul e Cingapura. Para nós, radicais, isto é uma traição à classe trabalhadora, aos povos indígenas e aos grupos marginalizados que tanto sacrificaram pela revolução vietnamita. Mas, como os marxista-leninistas de olhos claros com convicções inabaláveis lhe diriam, faz tudo parte do plano e 2045 será o ano tão esperado quando o Vietnã finalmente evoluirá para um país sem classe, sem dinheiro e sem Estado.

Entretanto, um olhar mais atento à sociedade vietnamita de hoje mostra que este plano é completamente ilusório e que as promessas são meras justificativas para que a classe dominante e a classe capitalista continuem a vampirizar o Vietnã por ainda mais tempo. A diferença entre o que as elites do Partido pregam e o que elas permitem que aconteça na realidade são como a noite e o dia.

Na medida em que a economia do Vietnã cresce a passos largos, cresce também a abismal brecha entre ricos e pobres. E nenhuma quantidade de bem-estar e regulamentação pode impedir a acumulação de capital ou o fluxo inverso de riqueza das mãos da maioria para as de poucos. Em nenhum lugar esse acúmulo é mais difundido do que no sistema de propriedade da terra. Este sistema permite que o controle da terra seja tirado das mãos dos camponeses e das pessoas comuns em troca de uma compensação mínima e entregue aos capitalistas que frequentemente lucram várias vezes mais com isso. Em todo o país, surgiram ricos edifícios residenciais, mas muito poucas pessoas deslocadas por eles podem se dar ao luxo de se mudar para cá. O bilionário Pham Nhât Vượng, cuja família tem a mesma riqueza que 800.000 homens e mulheres vietnamitas, não poderia ter construído seu império sem que a propriedade pública tivesse sido colocada em seus bolsos desta maneira.

Os ecossistemas já precários do Vietnã e as comunidades indígenas também estão pagando um preço pesado por este rápido desenvolvimento econômico. O plano para o setor elétrico até 2045 concedeu algumas concessões para as energias renováveis enquanto apoiava a construção de novas usinas elétricas alimentadas a carvão, ignorando sua enorme pegada de CO2 e os muitos avisos sobre a ligação entre a energia do carvão e a névoa PM (partículas finas) 2,5 que cobre as grandes cidades, ameaçando o bem-estar de milhões de pessoas. Em meados de 2010, centenas de pequenas centrais hidrelétricas foram construídas em áreas montanhosas em todo o país para satisfazer o apetite por eletricidade nas cidades e fábricas. Essas plantas não só perturbaram o sistema fluvial e privaram as terras agrícolas com privação de sedimentos essenciais, mas também causaram grandes e não mencionados estragos nos ambientes onde as comunidades indígenas vivem durante sua construção e operação. As usinas de energia solar em Ninh Thuận roubaram as terras de pastagem indígenas Chăm. O Delta do Mekong, a principal área de cultivo de arroz do Vietnã, vê atualmente sua existência ameaçada pelas muitas represas que estão sendo construídas aos montes na Tailândia e na China. E, ao mesmo tempo em que um plano nacional para plantar um bilhão de árvores está sendo ratificado, os capitalistas receberam um grande número de aprovações para lhes permitir transformar milhares de hectares de fazendas e florestas em campos de golfe e resorts.

Por trás de tudo isso está um profundo senso de nacionalismo – uma ferramenta eficaz para silenciar qualquer crítica significativa ao Estado, um valor que pode ser usado para minar outras lutas populares em nome de um interesse superior abstrato. O nacionalismo se tornou o elemento que determina o valor de um cidadão vietnamita.

Foi o nacionalismo que catapultou a Việt Minh [Liga pela Independência do Vietnã] na década de 1940. Foi o nacionalismo que impulsionou milhões de jovens vietnamitas a colocar o interesse da nação acima de seus próprios interesses enquanto lutavam de corpo e alma contra o imperialismo. Desde os primeiros dias do Partido, tem havido um esforço constante para cultivar um forte senso de nacionalismo em todos os lugares. O nacionalismo faz parte do currículo das crianças do Vietnã, em nossas canções, nossos poemas, nossa arte e em toda a mídia. Um dos maiores sucessos do Partido tem sido semear a confusão entre a identidade nacional e a lealdade do Partido. Em capitalistas vietnamitas contemporâneos como o VinGroup ou BKAV, pode-se ver a inspiração da máquina de propaganda estatal e a incorporação de elementos nacionalistas na comercialização de seus produtos.

Ironicamente, são os nacionalistas que afirmam serem os herdeiros da revolução “comunista” do Vietnã, mas é o grupo que mais se opõe a ideias radicais como a libertação animal, a libertação sexual e de gênero, a autonomia dos povos indígenas, a descriminalização do trabalho sexual e a solidariedade internacionalista com lutas como as de Hong Kong e Mianmar. A persuasão nacionalista transformou-se previsivelmente em uma força contrarrevolucionária e reacionária vestida de vermelho.

As vítimas do nacionalismo vietnamita incluem (não de forma exaustiva):

• Pessoas Queers, que continuam a enfrentar altos níveis de discriminação no Vietnã. Os avanços recentes em matéria de gênero e libertação sexual vieram em grande parte de elementos liberais, como o movimento Orgulho, que nada mais é do que um estratagema de marketing para empresas locais e estrangeiras. Mudanças substantivas, como o reconhecimento da paternidade do mesmo sexo e o reconhecimento das necessidades médicas das pessoas trans como direitos, sempre ficam em segundo plano para “as questões mais urgentes”.

• Trabalhadores sexuais, que são estigmatizados e alvo da polícia. Aos olhos da sociedade patriarcal vietnamita, o trabalho sexual não é reconhecido como trabalho, mas como uma mera patologia moral a ser erradicada. Como resultado, o trabalho sexual é culpado pela disseminação de infecções sexualmente transmissíveis, como o HIV e os trabalhadores do sexo, especialmente os trabalhadores do sexo que são queers, são marginalizados.

• As comunidades indígenas, que têm sofrido a investida das políticas expansionistas vietcong desde o período feudal, não encontram paz sob o regime “anti-imperialista” do estado atual. Pior ainda, sua opressão se intensificou à medida que o Estado adquire novas e mais eficazes ferramentas para neutralizar qualquer resistência e monitorar pró-ativamente a população aborígine.

No exterior, muitos defensores do “socialismo” no Vietnã testemunharam estes sinais de alerta óbvios, mas os ignoraram como justificados em nome do desenvolvimento de seu estado “socialista” preferido. Isto demonstra apatia e ignorância em relação à luta contínua do povo vietnamita por uma sociedade justa, bem como o apoio ao capitalismo, desde que ele esteja embrulhado em uma bandeira vermelha e afirme ser contrário às ambições imperialistas do “Ocidente”, particularmente as dos Estados Unidos, mesmo que tudo indique que o comunismo não está e nunca esteve nos planos.

Para concluir, existir é em si uma vitória, na verdade um papel claro, um papel para representar as vozes dos ativistas radicais no Vietnã. Chegamos à próxima classe trabalhadora, a juventude, que tanto perpetua como é oprimida pelo capitalismo e pelo Estado, para que possam se libertar das cadeias da opressão.

Mèo Mun

Fonte: https://libcom.org/meo-mun-broken-promises-vietnam

Tradução > Liberto

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nuvens insultam o céu,
aves urgentes riscam o espaço;
pingos começam a molhar.

Alaor Chaves