Lançamento: “Pandemia e anarquia”

Edson Passetti; João da Mata; José Maria Carvalho Ferreira; Beatriz S. Carneiro; Eliane Carvalho; Martha Gambini.

S i n o p s e

“Pandemia e anarquia” reúne quinze ensaios de pesquisadores das práticas libertárias que analisam as implicações sociopolíticas do novo coronavírus e sua relação com os modos de existência. Além da Somaterapia e de pesquisadores do Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária), este livro traz escritos de historiadores e cientistas políticos residentes em diversos espaços do planeta. Perpassando diversas esferas das relações humanas, da economia e da ciência às relações amorosas e ao ser criança durante a pandemia, os escritos insurgem-se contra a suposta ruptura com o mundo dado antes da Covid-19 para analisar e estancar a racionalidade neoliberal, e a chamada crise sanitária. Com isso, traçam a afirmação de uma vida outra no presente.

Pandemia e anarquia

Edson Passetti; João da Mata; José Maria Carvalho Ferreira; Beatriz S. Carneiro; Eliane Carvalho; Martha Gambini.

220 páginas

R$ 45,60

Editora Hedra

hedra.com.br

agência de notícias anarquistas-ana

lua quase cheia
por trás das nuvens
nos olhos do cão

Alice Ruiz

[Turquia] Para a readmissão das trabalhadoras do SML Etiket

A SML Etiket faz parte do grupo chinês SML, uma empresa com fins lucrativos. Os trabalhadores de sua fábrica em Istambul foram demitidos há três meses por se organizarem coletivamente no sindicato DEV Teksil. Desde então, eles têm se manifestado todos os dias em frente à fábrica para exigir sua reintegração.

Os sindicatos membros da Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Luta apoiam os trabalhadores da SML Etiket, assim como todos aqueles que são vítimas da repressão dos patrões. A liberdade de associação é inegociável!

A SML Etiket, assim como Manga, Decathlon, Zara, H&M ou Tommy Hilfiger, para quem a SML produz, são responsáveis por esta situação. Os grandes grupos são responsáveis por estes despedimentos, mas também pela exploração dos trabalhadores nas fábricas turcas deste grupo empresarial.

Solidariedade internacional e apoio àqueles que lutam por seus direitos e pela emancipação social dos trabalhadores.

Fonte: http://rojoynegro.info/articulo/sin-fronteras/turqu%C3%ADa-la-readmisi%C3%B3n-las-trabajadoras-sml-etiket

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

verdes vindo à face da luz
na beirada de cada folha
a queda de uma gota

Guimarães Rosa

[Itália] Reflexões sobre a pandemia

Em 1º de julho de 2021, às 21h00, convidamos você para uma reunião on-line na qual será apresentada a edição 389 da revista Aut Aut “Reflexões sobre a pandemia”. Convidamos você a participar porque é necessário refletir coletivamente sobre o que aconteceu, sobre o que está acontecendo, sobre o que poderia acontecer no futuro e, finalmente, sobre como, se possível, garantir que o futuro não seja nosso inimigo.

Conosco estarão Massimo Filippi, Alessandro Dal Lago, Serena Giordano, Antonio Volpe e Claudio Kulesko.

Massimo Filippi vem lidando há anos com a questão animal de um ponto de vista filosófico e político. Ele publicou vários livros como autor ou editor, coordena a equipe editorial da Liberazioni. Revista de crítica anti-especiista e colabora regularmente com o Manifesto.

Alessandro Dal Lago tem ensinado sociologia da cultura em várias universidades italianas e estrangeiras. Ele é o autor ou coautor de cerca de quarenta livros sobre temas sociológicos e filosóficos. Ele é membro da equipe editorial da “Aut Aut” e de várias outras revistas.

Serena Giordano é uma artista e professora. Ela publicou ensaios sobre arte contemporânea (também com Alessandro Dal Lago) para Il Mulino e Einaudi. Em 2020 ela escreveu Il dentista di Duchamp 15 racconti sull’arte contemporanea, Il Melangolo Genova. Ensina Pedagogia e Didática da Arte e Antropologia das Artes na Academia de Belas Artes de Veneza.

Antonio Volpe é um pesquisador independente em filosofia. Ele publicou artigos para algumas revistas e editou com Massimo Filippi os volumes “Jean-Luc Nancy”. La sofferenza è animale” e em diálogo com Alessandro Dal Lago “Genocidi Animali”.

Claudio Kulesko estudou filosofia na Universidade de RomaTre. Ele colaborou com revistas como “Not”, “L’Indiscreto”, “Singola” e “Effimera”. Ele faz parte da redação do “Liberazioni – Revista de crítica anti-especista”. Para Nero ele traduziu Entre as Cinzas deste Planeta (2019) e Renúncia Infinita, de Eugene Thacker (2021, TBA). Ele está entre os autores da Demonologia Revolucionária (Nero 2020). Com Andrea Cassini é o autor de Blackened: Fronteiras do pessimismo no Século 21(Aguaplano 2021).

E tudo isso na quinta-feira, 1º de julho de 2021, às 21h. Para assistir clique aqui: https://meet.jit.si/aut_aut

“Na primeira parte, reunimos vozes de estudiosos da filosofia que refletem sobre a relação entre pandemia e pensamento, com particular referência ao antropocentrismo, em uma fase histórica na qual o domínio humano sobre a natureza se revela em sua destrutividade triunfante (Filippi), às novas formas de poder cósmico (Kulesko) e aos desafios que o vírus coloca ao pensamento (Cimatti, Volpe). No segundo, convidamos sociólogos e antropólogos a refletir sobre as dimensões sociais e culturais do vírus: a propagação da incerteza (Dal Lago), o papel do vírus como revelação dos mecanismos de poder no mundo globalizado (Fassin), a ideia do fim do mundo que parece governar a cultura do capitalismo contemporâneo (Pandolfi) e a iconografia do vírus (Giordano). Finalmente, publicamos uma nota de um ilustre historiador da medicina, Giorgio Cosmacini, que fornece clareza lexical e conceitual sobre a ideia de pandemia na medicina e na opinião pública”(Da Aut Aut)

Aqui estão os artigos publicados na revista:

Prefácio [A.D.L., M.F.].

Massimo Filippi Um quase nada que não nos olha de novo

Felice Cimatti Pensando com o vírus

Claudio Kulesko O Zenith da Serpente Cósmica. Fúria telúrica, flagelos e pragas do Novo Leviatã

Antonio Volpe Agora só um vírus pode nos salvar?

Alessandro Dal Lago Notas sobre a Era da Incerteza

Didier Fassin Vida invisível na época da pandemia

Mariella Pandolfi Homo pandemicus: governando a precariedade?

Serena Giordano Covid na TV. Anúncios e propaganda no bloqueio

Giorgio Cosmacini Uma nota sobre medos e epidemias na história

INTERVENÇÕES

David Watkins Leitura que transborda para a escrita. Notas sobre a arte do pastiche

Edoardo Greblo Mudando a alma. A ortopedia moral do neoliberalismo

AO FINAL

Pier Aldo Rovatti Resposta a “Delo”

Fonte: https://ponte.noblogs.org/2021/2870/riflessioni-sulla-pandemia/

Tradução > Liberto

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Casal de patos.
Mas o tanque é velho e a doninha
os vigia.

Buson

A revolta popular contra a junta militar de Myanmar pode ser vitoriosa

Por Zaw Tuseng | 20/06/2021

Um ano após a vitória eleitoral da liga nacional pela democracia em 2015, enquanto eu estava caminhando pelo enorme museu do Tatmadaw (nome da força militar de Myanmar), não pude deixar de ficar admirado pela escala da ode gratuita dos militares de Myanmar à eles mesmos. O museu se estende por numerosas cavernas cobrindo as minúcias de sua história. Escondido em seu interior está um salão dedicado às vitórias do Tatmadaw. O que eles reivindicam como triunfos históricos são batalhas pelo controle do topo de colinas. Apesar de importantes em termos de campanhas individuais de contra insurgência, essa apresentação disfarça uma realidade.

O Tatmadaw não vence guerras. Eles podem até vencer algumas batalhas, mas no final recuam e buscam acordos de cessa- fogo.

Foi dito em recentes análises que a resistência ao domínio da junta é difícil, praticamente impossível, porque o Tatmadaw tem aproximadamente 350.000 tropas. O uso desse número é uma simplificação grosseira e dá uma falsa impressão de que o Tatmadaw está em uma posição inerentemente forte. Algo que não poderia estar mais distante da realidade, por uma razão: Os generais conseguiram provocar um levante nacional contra o Tatmadaw. Existem poucos eventos comparáveis a esse desde a segunda guerra mundial e o período das guerras anticoloniais. Não há nada pré-determinado sobre o que vai acontecer em Myanmar, certamente não a sobrevivência do Tatmadaw. O golpe provocou uma mudança histórica no país e um erro estratégico de proporções existenciais para os militares.

Um número mais adequado para se concentrar sobre é que Myanmar tem uma população de mais de 52 milhões, dos quais quase todos têm um ódio visceral do Tatmadaw. Esse é o contexto que confronta os generais. Eles reduziram os militares a serem essencialmente uma força estrangeira de ocupação tentando desesperadamente suprimir quase a totalidade da população de Myanmar. Para onde seus soldados olham, eles veem hostilidade. Além dos seus parceiros imediatos, notadamente a policia e o Partido da União, da Solidariedade e do Desenvolvimento, não há uma parcela significante do povo que os apoiem.

A resposta do Tatmadaw à esse levante foi previsível. Suas táticas de violência, privação e cooptação foram afiadas por décadas de ditadura. Existe um cálculo dentro do Tatmadaw de que eles podem sobreviver à raiva popular, ao Movimento de Desobediência Civil (MDC) e uma economia em colapso, enquanto isolam qualquer revolta emergente. O Tatmadaw acredita que possui uma janela de perseverança maior do que a resistência. Os generais vão tentar dividir o público do Governo de Unidade Nacional (GUN), do MDC e dos ativistas democráticos mais ardentes do país. Eles vão tentar semear discórdia entre os grupos étnicos, manter acordos de cessar-fogo com organizações étnicas armadas (OEAs) e prevenir a deserção de milícias parceiras. Eles vão vender o país de forma barata para a China.

Qualquer sucesso que o Tatmadaw possa reivindicar é conquistado com um grande custo em termos de soldados e recursos. Que eles não tenham sido capazes de expulsar o Exército de Independência do Kachin (EIK) de seus ganhos estratégicos feitos em março ou de reprimir decisivamente as revoltas em escalada em Sagaing, Chin e Kayah, são signos de fraqueza. Isolados em sua capital construída propositalmente, se escondendo nas escolas das cidades, e tendo que mover grandes comboios através do coração de Bamar, o Tatmadaw seria bobo de se sentir em uma boa posição presentemente. Suas tropas estão atormentadas para reprimir revoltas antes que elas se espalhem, enquanto isso temendo que suas poucas milícias vão desertar e os acordos de cessar-fogo vão colapsar quando o momento for adequado.

Essencialmente uma força de infantaria leve, o Tatmadaw está disperso através do país em numerosas pequenas bases. Em um contexto de levante nacional, isso poderia ser considerado uma vantagem caso o Tatmadaw fosse bem provido com boa logística e fortes unidades móveis. Pobre e sub-equipado, eles não possuem nenhum desses. Unidades individuais estão cada vez mais pressionadas enquanto seu reabastecimento é tensionado e populações locais os assediam. A logística será ainda mais apertada no período chuvoso e a base do Tatmadaw será desmoralizada à medida que milhões celebram abertamente suas derrotas nas redes sociais.

Tendo por muito tendo adotado a doutrina da ‘guerra popular’ de contar com a ajuda da população para expelir invasões estrangeiras, agora é o Tatmadaw que enfrente numerosas milícias locais de autodefesa. Muitas dessas milícias são da Forças de Defesa Popular (FDP) promovido pelo GUN, mas existem outras, como a Força de Defesa Chin, que são coletivos locais formados para prover segurança à comunidades ameaçadas. Essa tendência vai escalar.

Para avaliar com precisão as perspectivas da resistência, é mais pertinente focar no balanço militar em termos de trajetória. O movimento anti-junta não deveria ser julgado em sua composição em qualquer instante fixo do tempo, mas sim na velocidade em que está avançando.

Revoluções nunca começam com uma resistência que é bem armada, totalmente provida de pessoas e com competência profissional. As bem sucedidas tem uma íngreme curva de aprendizado em termos de liderança efetiva, desenvolvimento de táticas e adquirindo armas com a pressa necessária. A partir dessa perspectiva, os eventos não se movem à favor da junta. Eles enfrentam pressão através de todo o país, incluindo áreas que não produziram revoltas sustentáveis na memória recente, como o sul do Sagaing, mas crescente em outras regiões até Ayeyarwady na medida que novas FDPs se organizam.

O Tatmadaw deve ter o sentimento crescente de que é uma força de ocupação estrangeira em meio à uma população hostil. Seus soldados devem temer o enclausuramento de uma diversidade de ameaças – ataques locais, suprimentos constrangidos e uma sufocante ostracização social. Eles deverão ser forçados a se espalhar de forma ainda mais débil. Cada vez mais fatigados, eles podem ser assediados e fragmentados através de incontáveis pequenos ataques.

O Tatmadaw pode sempre vencer as linhas de fogo que eles escolhem priorizar, mas vão sofrer para criar uma estratégia viável contra um levante nacional. Isso seria difícil para qualquer força militar enfrentar uma quase universal revolta. Uma chave para o sucesso da resistência é unidade. Batalhas vitoriosas contra o Tatmadaw farão mais para catalisar solidariedade nacional do que qualquer outra coisa. Kani, Mindat e Demoso devem ser precedentes para ações coletivas ainda mais amplas, enquanto o país inteiro deve gratidão ao EIK por seus destemidos ataques sobre as forças do Conselho de Administração do Estado e à União Nacional de Karen por oferecer paraísos de segurança.

Se a natureza do conflito puder se mantida como um levante nacional, a balança militar favorecerá a revolução por simples força numérica e vontade. Muitos analistas apontam para a durabilidade do domínio militar em Myanmar. Essa atitude derrotista serve ao status quo de interesses maquiados como domésticos que buscam esperar que outros sofram os custos de expelir o Tatmadaw ou observadores estrangeiros cínicos que falham em ver o quanto o Tatmadaw é odiado. Muitos também sustentaram sutilmente a reivindicação do Tatmadaw de que eles estão mantendo o país junto, apesar de anos de atuação dos militares em dividir grupos armados locais em facções em conflito e uma completa rejeição de incluir líderes de fora de círculo político de tomada de decisão, provocando resistência geração depois de geração.

Lições estão sendo claramente aprendidas da experiência do país durante 1988 e depois. O GUN se vê como um movimento revolucionário ao invés de um ‘governo em exílio’ e tem feito claros esforços em construir uma coalizão nacional baseada em uma democracia federal. Esses esforços são nascentes e devem ser continuados.

Acima de tudo, é vital que a resistência armada surja não apenas das minorias étnicas, mas inclua fundamentalmente a maioria Bamar. É crítico que a resistência inclua as regiões e cidades. A resistência aqui ameaça grandemente a viabilidade do Tatmadaw. Os generais adorariam retornar à ‘normalidade’ de lutar apenas contra as organizações étnicas armadas. Alianças emergentes entre as organizações étnicas armadas e as FDPs em Chin, Sagaing e Kayah mostram o quão potente elas podem ser. O sinistro aviso do GUN de um iminente ‘Dia-D’ de ação nacional deve assustar os militares mais do que qualquer coisa.

Quando se caminha para fora do Museu do Tatmadaw, somos deixados com uma sensação de que um complexo enorme como esse tem a intenção de esconder aquilo que é na verdade um complexo de inferioridade. Se trata de militares tentando desesperadamente mostrar que eles são centrais para manter o país junto, para sempre os guardiões benevolentes. Qualquer sensação de que isto é aceito pelo povo se foi há muito tempo, enquanto o país se levante em revolta. O Tatmadaw é agora amplamente reconhecido como a bárbara desgraça nacional que é. Fundamentalmente essa é uma crise que apenas Myanmar pode resolver. Ação internacional será secundária. O povo deve se consolar sabendo que eles possuem os meios e o direito moral de derrubar os militares que destroem o país já faz muito tempo.

>> Zaw Tuseng fugiu de Myanmar aos 17 anos após participar de protestos estudantis para restaurar a democracia. Ele passou os anos seguintes como um exilado em um campo de refugiados na fronteira entre Índia e Myanmar, onde ele continuou a participar no movimento democrático de Myanmar. Ele possui um mestrado em administração pública na Columbia University’s School of International and Public Affairs e um BA em ciência política na Universidade de Delhi.

Fonte: https://www.irrawaddy.com/opinion/guest-column/the-revolt-against-myanmars-junta-can-succeed.html

Tradução > Antônio

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silêncio
o passeio das nuvens
e mais nenhum pio

Alonso Alvarez

Lançamento: “Ferrer, o Clero Romano e a educação laica”, de Maria Lacerda de Moura

S i n o p s e

“O livro ‘Ferrer, o Clero Romano e a educação laica‘ foi publicado em 1934, período bem posterior à morte de Francisco Ferrer, porém considerado a popularidade de Maria Lacerda de Moura entre os trabalhadores, possivelmente foi importante forma de aprofundar os conhecimentos de leitores interessados na educação racionalista. (…) Maria Lacerada destaca a relevância de Ferrer na educação popular e como um dos precursores da Escola Nova. A falta de reconhecimento de Ferrer seria explicada por ter abalado as estruturas de poder e desafiado a burguesia (…) Para a autora, Ferrer y Guardia é propositalmente ocultado entre os educadores e não é reconhecido entre os escolanovistas por representar uma ameaça, mas afirma que ele foi um ‘criador da Escola Nova'(…) Os textos de Maria Lacerda sobre Francisco Ferrer provavelmente foram importantes para um publico de leitores por homens e mulheres, maçons, livre pensadores, anticlericais, anarquistas e comunistas. Sua narrativa sobre Ferrer é informativa e elogiosa, mas indica divergências quando julga pertinente (…) Apresenta Ferrer como um educador que abalou as estruturas de poder do clero e da monarquia na Espanha (…)”

Ferrer, o Clero Romano e a educação laica

Autora: Maria Lacerda de Moura

Editora: CCS

Ano: 2021  

77 págs

R$ 18,00

ccssp.com.br/livrariaccs

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/28/lancamento-clero-e-fascismo-de-maria-lacerda-de-moura/

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Frescura:
os pés no muro
ao dormir a cesta

Matsuo Bashô

[EUA] Minha Vida Anarquista

Por Christopher Scott Thompson | 14 de abril de 2021

“Eu comecei a ver uma conexão entre minha mentalidade anarquista – que, por quase toda a minha vida, foi mais um instinto do que uma filosofia – e minha religião pagã. Especificamente, eu comecei a entender uma visão de mundo pagã e animista como o centro espiritual de uma sociedade livre futura capaz de viver neste planeta sem destruir toda a vida daqui.”

VENENO

Eu era um anarquista há quase tanto tempo quanto eu era pagão – ou até mais, dependendo de como você olhar para isso – mas eu não sabia muito o que a palavra significava na maior parte do tempo. Eu me declarava anarquista desde os meus dezesseis anos ou mais, mas a verdade é que tudo começou antes disso.

Quando? Eu não sei exatamente. Talvez quando as outras crianças me cercaram e andaram em circulo ao meu redor, gritando que eu era “veneno” porque eu não era como eles, porque eu me vestia com roupas de brechó que estavam fora de moda e não serviam direito. Talvez quando eles me empurraram contra a parede e bateram no meu rosto até a metade de cima de um dente da frente se partir. Talvez quando eles mandaram eu me sentar em um banco, e então mandaram eu me levantar, e depois mandaram eu me sentar novamente… ou talvez quando eu me levantei dando socos, porque eu de repente decidi que ninguém mais me diria o que fazer.

Minha política é pessoal. Eu odeio fascistas porque eu odeio valentões de todos os tipos, odeio eles desde que fui descrito como veneno por todos os meus colegas. Eu sou contra o Estado porque eu sou contra os valentões que dão ordens, achando que eles têm o direito de dizer a outras pessoas o que fazer. Toda postura política que eu assumo é baseada nestes dois fatos centrais.

D.O.E., SAIA…

Comecei a protestar como um menino que morava fora de Boston. Meu irmão mais velho e eu fizemos greve contra a complacência de nossa escola em tolerar valentões. Até onde eu sei, o bullying só acontecia por que a escola permitia, ou até aprovava isso como uma forma de punir as crianças que não agiam da forma que a comunidade queria que suas crianças agissem. O jornal mostrou, e o protesto se tornou uma grande polêmica local. Muitas pessoas pareciam achar que nossa mãe deveria ter nos impedido de protestar, ou pelo menos nos punido, mas em vez disso ela nos apoiou.

Alguns anos depois nos mudamos para o Maine e morávamos em uma propriedade rural na floresta sem eletricidade ou água corrente. Estávamos mais pobres do que nunca – a ponto de a renda familiar de um ano inteiro ser de apenas alguns milhares de dólares – mas isso foi suficiente para manter sete pessoas vivas, embora muitas vezes com polenta ou pão com leite.

O Departamento de Energia estava procurando um lugar para armazenar lixo nuclear, e o Maine parecia uma boa opção para eles porque não tinha muitas pessoas morando lá. Meus pais aderiram ao movimento de protesto contra a proposta de despejo nuclear e gravaram uma música com um cantor country local chamado Jimmy Floyd:

“DOE, vá embora, pare seu despejo agora, todos os nossos lagos e campos clamam, deixe-nos…”

Ir para aqueles protestos com eles foi provavelmente minha primeira exposição ao ambientalismo.

UM JOVEM ILEGALISTA

Primeiro eu comecei lendo filosofia no ensino médio, começando com o Jean Jacques Rousseau. Morando na floresta sem eletricidade, eu fui simpático aos seus argumentos de que a civilização era a raiz de todos os nossos problemas. Embora houvesse muitas coisas sobre ele que eu não percebi na época – por exemplo, que sua filosofia era basicamente totalitária. Foi nessa época que eu comecei a me chamar de anarquista, embora eu não tivesse lido nenhuma obra de um pensador anarquista ainda.

Minha visão de mundo na época era uma forma grosseira de anarco-primitivismo com uma boa dose de ilegalismo. Para simplificar, eu sentia que as leis existentes foram escritas por um grupo de criminosos para manter qualquer outro grupo de criminosos fora da competição, e eu não tinha a intenção de ser enganado por isso.

Mudando para a cidade quando jovem, eu passei vários anos envolvido em pequenos crimes de rua. Determinado em nunca mais ser vitimizado ou intimidado novamente, várias vezes eu lutei com outros jovens por pouca ou nenhuma razão, geralmente devido à percepção de desrespeito. Eu ainda não era político, mas pensava em meu envolvimento no crime como uma atividade inerentemente política, como uma declaração de guerra se você preferir.

Foi quando eu descobri o punk rock.

A PIT

Eu formei uma banda de punk hardcore com minha primeira esposa em 1994. A banda se chamava Pit, e nosso primeiro show nos baniu pelo resto da vida do restaurante Porthole em Portland, no Maine, depois que eu acertei um membro enfurecido da platéia com uma espada sem corte enquanto ele tentava me enforcar, e uma ex-namorada minha queimou ele por trás com um cigarro.

Como cantor da Pit, eu vestia um roupão de banho vermelho, um chapéu de pompom, uma camisa xadrez neon, e calça rosa. Essa roupa tinha o objetivo de irritar qualquer homofóbico na platéia para que eu pudesse ter a oportunidade de lutar com eles. Lutas eram uma característica comum dos shows da Pit.

As músicas que tocávamos frequentemente tinham temas vagamente políticos, como na música “Up Against the Wall” com a letra, “I ain’t some rebel without a clue, I got no social theory for you, all I know is what’s in front of my eyes… rich man lives, poor man dies!” (“Eu não sou um rebelde sem causa, eu não tenho nenhuma teoria social para você, tudo o que eu sei está diante de meu olhos… homem rico vive, homem pobre morre!”).

Devido as músicas como Up Against the Wall, Molotov Cocktail, Damn the Lying Bastards, e apresentações semelhantes de uma juventude irritada, a polícia apareceu para interromper nossos shows da Flórida à Massachusetts. Os policiais estavam longe da única fonte de problema. No entanto, em um show, levei um choque com um bastão elétrico para gado e em seguida espirraram mostarda amarela diretamente em meus olhos quando eu desabei no chão de dor.

Em uma visita a minha casa no Maine, fui abordado por uma ex-namorada que estava sendo perseguida por um nazista local porque ela era judia. Na verdade ele tinha dito a ela e a amiga dela que ele era da SS e que as colocaria na câmara de gás. Encontrei o homem na frente de um cinema da cidade e espanquei-o na rua na frente de algumas testemunhas. Fui preso por este ato solitário de retaliação antifascista e acusado de um crime que poderia ter me mandado para a prisão por cinco anos. As acusações que eu estava enfrentando resultaram no fim do meu primeiro casamento e no fim da minha banda punk.

MOVIMENTO MARINES

Depois de alegar contravenção, eu me casei de novo e mantive o foco em minhas práticas religiosas. Me mantive longe de crimes e fora das lutas de rua. Por fim, adotei a política de que eu só lutaria em legítima defesa ou em defesa de outra pessoa, e essa política me manteve fora de muitas brigas desde aquela época. Eu comecei a estudar artes marciais em 1998 e aprendi como canalizar meus instintos guerreiros para um treinamento disciplinado, em vez de um confronto aleatório.

Meu segundo casamento acabou em 2001, bem no meio do movimento mundial antiglobalização. Isso foi quando eu ouvi pela primeira vez sobre o Black Bloc, ou o “Movement Marines” como algumas pessoas os chamavam na época – um termo que já foi abandonado, sem dúvida pela óbvia masculinidade tóxica dele. O Black Bloc desempenhou um papel importante no fechamento da Organização Mundial do Comércio na Batalha de Seattle em 1999 e, agora que eu não estava mais casado, eu queria me envolver.

Peguei um ônibus Greyhound para um grande protesto antiglobalização, que resultou em minha primeira experiência enfrentando a tropa de choque – embora não como parte do Black Bloc. Durante uma trégua na ação, um policial da tropa de choque continuou tentando falar comigo na linha de frente, me perguntando do que isso tudo se tratava. Infelizmente, o pessoal do Black Bloc parado ao meu lado não ficou impressionado com o fato de um policial tentar falar comigo, então eles não quiseram fazer nada comigo pelo resto do dia!

OCCUPY MINNESOTA

Quando o movimento Occupy explodiu em 2011, eu já me chamava de anarquista há cerca de 23 anos, mas eu ainda não tinha lido nenhuma obra de nenhum dos filósofos anarquistas. Eu era amplamente antiautoritário, anticapitalista e antifascista, mas eu não tinha nenhuma imagem clara de como seria uma sociedade sem o Estado. Meu anarquismo era basicamente uma resposta instintiva ao crescer como um estranho e me identificar com qualquer pessoa que também parecesse um estranho. Eu não apoiava nenhum dos dois grandes partidos políticos, mas eu tinha desenvolvido o hábito de manter minha boca fechada sobre isso porque muitos dos meus amigos eram democratas.

Quando o Occupy Wall Street começou em Nova York, eu estava morando em Minneapolis com minha terceira esposa. Nós dois sabíamos que queríamos estar envolvidos nesse novo movimento. Eu me lembro de ver a marcha sobre a ponte no noticiário da TV e murmurar para mim mesmo sobre como algo assim deveria acontecer em todos os lugares. Meu sogro virou para mim e disse, “Espere alguns dias. E acontecerá”.

O homem estava certo. O Ocuppy logo se espalhou para Minnesota. Alguns dias antes do nascimento do meu segundo filho, eu estava mantendo a ordem com algumas dezenas de outros ocupantes, defendendo um pequeno monte que nós queríamos usar como acampamento enquanto o Departamento do Sheriff pairava nas proximidades e ameaçava prender todo mundo. Minha esposa estava na tenda médica dizendo aos voluntários horrorizados de lá que eles teriam que levá-la ao hospital se ela entrasse em trabalho de parto, enquanto seu marido estava prestes a ser preso!

Esse foi o começo de alguns anos de intensa atividade política com diferentes ramos do Occupy, anos que reviveram meu radicalismo adormecido. Eu participei de eventos em St. Louis, Chicago e outros lugares, servindo como um guarda-costas não violento para jornalistas civis que pediam proteção da violência policial.

Em St. Louis, a tropa de choque abriu a cabeça de uma Ocupante tão violentamente que ela teve de ser grampeada para ser fechada de volta. Em Chicago, alguém atrás de mim gritou “Eles estão bem atrás de você!” e eu me virei apenas a tempo de ver a tropa de choque atacando. Me virei e corri, de qualquer jeito para longe – uma das razões para eu ser um lutador quando era um homem jovem era que eu não conseguia correr para salvar minha vida, mas de alguma forma naquele dia eu encontrei um jeito de fazer isso. Assim que coloquei distância entre mim e a tropa de choque, eu vi um jovem com sangue escorrendo na frente de seu rosto, olhando para o nada como se não pudesse mais ver o mundo ao seu redor.

Essa foi apenas uma de muitas chamadas difíceis. Eu não vou entrar em detalhes, porque não há nada de incomum nas minhas experiências. Mas vou dizer uma coisa. Sempre que você ouvir que a tropa de choque usou gás lacrimogêneo ou balas de borracha, ou que eles “entraram em choque” com a multidão, eu te garanto que foi a própria polícia que decidiu que isso ia acontecer. Em minha experiência, a violência nunca acontece em um protesto a menos que a tropa de choque queira isso.

VOCÊ SABE O QUE VOCÊ É?

Eu já praticava artes marciais há 15 anos nessa época, e eu costumava dar aulas em seminários aos finais de semana. Eram eventos onde instrutores de todos o país se reuniam – às vezes de fora do país – e ensinavam todas as habilidades que eles possuíam. Luta com vara, luta com faca, luta livre, esgrima – qualquer tipo de habilidade em artes marciais. Você treinava o dia todo e depois bebia e conversava a noite toda, normalmente debates sobre histórias obscuras ou anedotas sobre treinamento com diferentes instrutores.

Um desses debates desviou para política, e outro instrutor perguntou minha opinião sobre algo. Sabendo que eu era muito mais radical politicamente do que a maioria de meus colegas artistas marciais, respondi com relutância. “Eu não concordo com nenhum partido”, eu disse. “E não apoio nenhum político de nenhum partido.”

“Você sabe o que você é?” ele disse, ironicamente. “Você é um anarquista!”

Ele estava certo, e por algum motivo, ouvir ele dizer isso, fez eu me comprometer com isso em um nível que eu nunca estive antes. Quando eu cheguei em casa, eu comprei um livro sobre a história do anarquismo chamado Demanding the Impossible de Peter Marshall. Comprei os livros Farquhar McHarg de Stuart Christie, depois li todos livros disponíveis em inglês sobre os anarquistas da Guerra Civil Espanhola, junto com todos os filósofos anarquistas que eu negligenciei por tantos anos -William Godwin, Pierre-Joseph Proudhon, Mikhail Bakunin, Peter Kropotkin, Emma Goldman, Voltairine de Cleyre, Murray Bookchin, Lorenzo Kom’boa Ervin, e muitos e muitos outros.

Eu comecei a ver uma conexão entre minha mentalidade anarquista – que, por quase toda a minha vida, foi mais um instinto do que uma filosofia – e minha religião pagã. Especificamente, eu comecei entender uma visão de mundo pagã e animista como o núcleo espiritual de uma futura sociedade livre, capaz de viver neste planeta sem destruir toda a sua vida.

Uma sociedade descentralizada de comunidades diretamente democráticas e igualitárias – esse é o tipo de mundo pelo qual eu quero lutar, mesmo que ainda falte mil anos para se tornar nossa realidade. Tradicionalmente, a maioria dos anarquistas são ateus – mas eu não acredito que a espiritualidade irá desaparecer da mente humana, e se isso está conosco para ficar, então devemos fazer algo bom com isso.

Como todos que estão lendo esse post podem ver, eu não sou exatamente um pacifista. O meu paganismo tem mais a ver com as sociedades guerreiras do mundo antigo do que qualquer tipo de utopia pacífica New Age. Eu sempre vou enfrentar valentões como eu tenho feito desde quando eu era criança, e isso inclui racistas, misóginos, homofóbicos, transfóbicos, e fascistas de todos os tipos. O mundo no qual eu quero viver não é um mundo sem conflito, mas onde as pessoas possam viver em relação com o espírito e em igualdade umas com as outras – um mundo com “muitos deuses, e sem mestres”.

Fonte: https://abeautifulresistance.org/site/2021/4/14/my-anarchist-life

Tradução > Brulego

agência de notícias anarquistas-ana

folhinhas
linhas
zibelinas sozinhas

Maiakovski

Nota de repúdio | Nós contra nós não faz sentido!

A Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio expressa seu repúdio aos atos de violência cometidos contra militantes por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) durante o ato em protesto contra o governo federal, realizado ontem (19/06) em São Paulo.

Segundo diversas pessoas presentes ao ato, a violência começou quando militantes tentaram fazer um bloqueio na Rua da Consolação, e adotaram outras táticas de Ação Direta, uma forma histórica e justa de ação da classe trabalhadora, no que foram apoiadas por diversos participantes do protesto.

Várias pessoas foram agredidas fisicamente e ocorreu um clima de intimidação geral. Um dos articuladores da Rede de Proteção foi uma das vítimas, tendo sido agarrado por sua camiseta.

Uma das pessoas agredidas foi agarrada por militantes do MTST e foi intimidada e ameaçada de ser levada para agentes da Polícia Militar.

As agressões só foram interrompidas graças à intervenção de mulheres do MTST.

A Rede de Proteção é uma organização suprapartidária, que, desde 2017, atua nas periferias e quebradas na denúncia e no combate à violência do Estado e considera inadmissível atos como os ocorridos ontem.

Não aceitamos nenhum tipo de violência ou intimidação contra militantes, ativistas ou coletivos, muito menos contra aqueles dedicados à luta contra o Genocídio de Estado. É inadmissível que integrantes de um movimento social atuem como linha auxiliar da repressão.

A Rede de Proteção defende a união e, na medida do possível, a ação conjunta de grupos e organizações compromissadas em combater este governo genocida e as diversas formas em que o genocídio estatal se apresenta em nossa sociedade, marcada pelo racismo e pela desigualdade.

Diferenças de opinião ou de táticas devem sempre ser debatidas e discutidas de forma democrática e respeitosa, sem nunca recorrer à violência ou à criminalização de quem pensa diferente.

Não acreditamos em posturas punitivistas ou vingativas, mas sim na perspectiva de responsabilização, balanço sério e compromisso de não mais agir assim.

Repudiamos procurar o sistema violento e seletivo para buscar reparação, mas é necessário que o MTST haja de forma coerente e responsável para buscar a responsabilização das pessoas e a reflexão sobre o que significa agir com truculência entre companheiros, a fim de que deste episódio possamos ao menos levantar a discussão sobre represálias entre as esquerdas, para esse tipo de ação não venha mais a ocorrer.

Acreditamos sobretudo em práticas antipunitivistas para lidarmos coletivamente sobre o ocorrido, e estamos abertos ao diálogo.

A Coordenação do MTST precisa se responsabilizar pela ação de seus militantes no ato de ontem, pois o silêncio ou a criação de uma narrativa que justifique qualquer violência deste tipo apenas enfraquece a unidade popular.

A Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio se propõe a participar e colaborar com este debate.

Paz entre nós, guerra aos senhores.

São Paulo, 20 de junho de 2021.

agência de notícias anarquistas-ana

zínias frescas,
brancas, amarelas,
cadê as borboletas?

Rosa Clement

Chamada para participação na 5º edição da revista anarcofeminista A Inimiga da Rainha!

Propomos a 5º edição da revista em meio a um cenário de intensificação das lutas sociais e políticas no contexto latino americano e de radicalização do caráter repressivo e autoritário dos Estados para manter a todo custo os privilégios da burguesia e sua classe política. A falência do modelo neoliberal; o aprofundamento das desigualdades pela crise sanitária da Covid-19; a incerteza do futuro que nos aguarda; o aumento das pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza; o genocídio do Estado racista contra populações negras, indígenas e imigrantes estão provocando inúmeras revoltas por todas as partes que têm sido catalisadas por forças políticas de extrema direita ou por partidos de esquerda da ordem burguesa. As tentativas de institucionalização dos conflitos é crescente. Serão esses os únicos caminhos possíveis? Perdemos a capacidade de imaginar novos mundos e outros estilos de vida capazes de serem experimentados e vividos coletivamente?

Quais são os possíveis horizontes que podem ser traçados quando direcionamos nosso olhar para a conjuntura política atual que vem tomando forma na América Latina? Estamos atentes às lutas no campo da macropolítica acompanhando, por exemplo, as eleições peruanas de Castillo na presidência, as lutas que tomam as ruas há dias na Colômbia contra as reformas tributária e na saúde e nossa polarização política que encurrala projetos autônomos e nos dá a ilusão de que a única saída à esquerda é sempre partidária. Ao nos colocarmos como uma revista que opera no campo dos discursos, queremos dar visibilidade às narrativas que operem para além da hegemonia de ideias institucionalizadas. Nossa aposta está em ser um espaço possível de circulação de materiais que inspiram-se nas políticas do cotidiano, nas lutas que traçamos no corpo a corpo, nos olhos, no sangue e no calor das ações que é de nós para nós e por nós mesmes.

A revista receberá através do email ainimiga@riseup.net até o dia 16 do mês de julho, textos, poesias, poemas e obras de artes visuais com a seguinte formatação:

– O envio de textos, poemas, poesias não deve ultrapassar os 7.000 caracteres.
– As produções escritas podem ser acompanhadas de até duas imagens* que podem ser fotos e/ou ilustrações que acompanhem o texto em uma boa resolução (recomendado:300 dpi).
– As produções escritas devem ser enviadas em extensão .docx ou .oxt.
– Serão recebidas até três obras de artes visuais por artista. As imagens das obras devem ter boa resolução (recomendado: 300 dpi). Especifique caso a obra seja uma série. Informe os dados técnicos da obra (título, ano de realização, técnica).

*Não há garantia de que todas as imagens enviadas (tanto as que acompanham o texto, como as obras de artes visuais) serão utilizadas por conta de restrições que a diagramação poderá sofrer durante o processo de edição da revista. Lembramos que a revista será impressa em risografia e isso pode interferir na maneira como as imagens serão concebidas. Se for preciso, por conta da diagramação e adaptação ao formato e estética da revista Cinco, as obras enviadas poderão sofrer modificações (podem ser recortadas, duplicadas, ter tamanhos adaptados às páginas conforme nossas necessidades). As alterações serão realizadas respeitando sempre a coerência da obra e com consulta de autore.

Aguardamos as ideias, textos, obras de todes! grite! desenhe! cante! registre todas as opressões que nos interpelam, para juntes colocarmos nossas ideias no mundo e plantarmos nossas sementes de rebeldia, ação e luta!

Para mais informações: ainimiga@riseup.net
Acesse a divulgação no blog: ainimiga.noblogs.org

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Escorre pela folha
a tarde imensa,
pousada em gota d’água.

Yeda Prates Bernis

Primeira chamada pra oficina/rodas de conversa e banca de materiais | Feira Anarquista Feminista de Porto Alegre (RS)

Saudações Anárkicas!

Vai acontecer a I Feira Anarquista Feminista de Porto Alegre!

Nos juntamos entre coletivos e individualidades na organização, e decidimos fazer dois momentos: um final de semana via internet (devido às incertezas da pandemia da Covid-19 e para tornar o evento mais acessível à mais pessoas) e um final de semana presencial, com medidas de cuidado mútuo coletivo.

Nós achamos muito importante os encontros e as trocas compartilhadas, principalmente que convergem com o ideal anarcofeminista, e não podemos mais deixar de habitar os espaços, menos ainda no momento pandêmico que estamos vivendo.

Esse texto vem com o intuito de convidar pessoas que se alinham com esse ideal (exceto homens cis) à propor oficinas, rodas de conversa e inscrever suas bancas de materiais e produções – estamos pensando também em fazer uma feira virtual para que possa ser mais abrangente.

Para inscrever uma atividade ou sua banca, preencha o formulário no link:

https://fafpoa.limesurvey.net/536681?newtest=Y&lang=pt-BR

Nós iremos entrar em contato para acertar os detalhes.

Qualquer dúvida, mande um e-mail pra nós: fafpoa@riseup.net.

Essa chamada ficará aberta do dia 21/06 ao dia 21/07.

As minhas armas são os meus sonhos, é a minha vida subjectiva, é a minha consciência, a minha liberdade ethica, é essa harmonia que canta dentro de mim, e toda a minha lealdade para commigo mesma; e eu não maculo a minha riqueza de vida, o meu thesouro interior, envolvendo-o na mesquinhez e na perversidade das leis dos homens ou misturando-o com dinheiro, essa cousa horrível que corrompe as consciências mais convencidas da sua fortaleza inexpugnável, e as escravisa, acorrentando-as à gehenna do industrialismo, as chocar-se umas contra as outras na engrenagem sórdida da exploração do homem pelo homem.” (MOURA, Maria Lacerda de. A minha saudaç ;ão. O Combate, São Paulo, n. 4824, p. 1, 27/09/1928)

feiraanarquistafeminista.noblogs.org

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/04/28/chamada-para-organizacao-da-i-feira-anarquista-feminista-de-porto-alegre-rs/

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De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume…

Matsuo Bashô

[Espanha] Do faça amor e não guerra, a outro ditado muito mais espirituoso da CNT

Quem não tem olhos para ver a moral desta faixa não deve andar pela cidade ou mesmo ter um emprego.

Uma grande máxima apontada pela CNT que ajuda seu vizinho como você mesmo desde um dos melhores pontos de vista, o do apoio mútuo e o de fazer cumprir o horário, seja de 7 ou 8 horas, mas não mais além disso.

Uma fachada do antigo escritório do Bankia é a agraciada da vez onde a mensagem fixada em uma faixa, é clara e retumbante, “Faça amor e não horas extras ou trabalho à peça¹”, “Contra o desemprego apoio mútuo”, toda uma declaração de intenções que transmite que o excesso da jornada seja espalhado, mas em casa ou em qualquer outro lugar sempre em pares, seja pêra com maçã, maçã com maçã ou abacate com salmão.

O fato é que esta faixa ajuda, e muito, a refletir sobre o trabalho pensando na quantidade de horas extras perdidas e de trabalhos à peça quando há alguém esperando que você deixe o trabalho para se entregar aos prazeres que realmente importam.

Uma frase lapidária que terá que ser notada após uma pandemia que, embora certamente tenha causado em parte um baby boom, ainda precisa de mais horas de afeto em casa ou onde quer que seja necessário.

Você sabe, mais afeto e mais amor e menos trabalho, que embora dignifique faltarão postos de trabalho se você fizer horas extras ou trabalhos à peça. Quando você passar pelas Três Cruzes, você só terá que aguçar sua visão.

Fonte: https://www.zamoranews.com/articulo/imagendeldiazamora/haz-amor-guerra-dicho-ingenioso-cnt/20210521183840163863.html

[1] Trabalho por peça é qualquer tipo de emprego no qual um trabalhador recebe uma taxa fixa por peça por cada unidade produzida ou ação executada, independentemente do tempo.

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folhas no quintal
dançam ao vento
com as roupas do varal

Carlos Seabra

Lançamento: “Clero e fascismo”, de Maria Lacerda de Moura

S i n o p s e

Clero e fascismo – horda de embrutecedores!, cuja primeira edição data de 1934, e que teve traduções e língua espanhola na América Latina, como na Argentina (1936). É uma obra essencial não só para compreensão da ascensão ao poder político do fascismo na Itália, e sua consequente influência em outras partes do mundo, em seus primórdios – principalmente na década de 20 do século XX – como para a observação da imersão, por vezes sorrateira, de seus ideais na cultura, na educação e mesmo no imaginário político-social até os nossos dias. É uma obra atemporal, expressiva do antifascismo em qualquer localidade e, por isso, tão essencial.”

Clero e fascismo – horda de embrutecedores!
Autora: Maria Lacerda de Moura
Editora: CCS
Ano: 2021
Páginas: 145
Preço: R$ 25,00
http://ccssp.com.br/livrariaccs/

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Poço do céu
Sem borda, sem fundo
Onde está o balde?

Leandro Feitosa Andrade

[Espanha] Liberdade, autonomia e solidariedade: a constante evolução do movimento anarquista

Lançamos algumas reflexões sobre o que é e tem sido o anarquismo; melhor dito, o movimento anarquista, pois se caracteriza pela diversidade de ideias e ações, pelo constante devir e pela reflexão permanente, em busca das melhores práticas, algo que o garante como alternativa a qualquer sistema unificador e coercitivo.

O anarquismo nunca foi, nem pode ser, um movimento doutrinário de caráter fechado, pois seus traços de identidade se baseiam na liberdade e na autonomia, dois conceitos que se constroem em um devir constante. Recordemos, em relação a esta tensão entre modernidade e pós-modernidade, que Bakunin, um dos pais do anarquismo, já deixou muito claro: “Abomino todos os sistemas impostos, porque amo sincera e apaixonadamente a liberdade”. O anarquista deve ser sempre alheio a qualquer tentação doutrinária. Se mergulharmos na história do anarquismo, cujo ponto de partida pode ser concretamente situado no século XVIII, dificilmente poderemos estabelecer contornos precisos; de fato, podemos até encontrar dentro dele, não apenas uma pluralidade óbvia de discursos, mas também, às vezes, até mesmo ideias díspares e conflitantes. O que na modernidade seus inimigos (ou seja, todos os autoritários) definiram como “fraqueza teórica” (questionável, é claro), na época da crise das grandes narrativas e ideologias foi descoberto pelo anarquismo como sua principal força; o que, com toda probabilidade, garante sua perpetuidade. O anarquismo possui, em todo caso, um grande corpus histórico, tremendamente rico e plural; mas, acima destas propostas teóricas, há suas práticas sociais. O que aumenta a força do movimento anarquista, acima e além de seus discursos, é sua atividade social permanente.

Mencionamos a liberdade e a autonomia como sinais de identidade e conquistas permanentes do movimento anarquista; não esqueçamos o apoio mútuo, a solidariedade, o federalismo, a associação voluntária… Diante de toda ortodoxia, rigidez teórica e imposição prática, o anarquismo reivindica com estas armas uma leitura complexa da realidade. Assim, libertos para sempre de todos os laços e cargas pesadas, de todos os dogmas, os anarquistas são capazes de empreender, aqui e agora, um caminho de libertação. Não há nada tão satisfatório quanto ler e entender os clássicos do anarquismo a partir desta perspectiva antiautoritária e antidogmática do século XXI (pós-moderna, se você quiser chamá-la assim, mesmo que seja um termo anátema para muitos), desvinculada de qualquer fundação, já que odiamos qualquer “fundamentalismo”. Desta forma, o anarquismo se mostra como o melhor movimento (e conjunto de ideias, é claro) para liberar a tensão entre modernidade (a promessa de emancipação) e pós-modernidade (a crise dos grandes discursos libertadores). Esta crise das grandes ferramentas que, supostamente, iriam trazer progresso à humanidade, pode ser superada por um anarquismo que, paradoxalmente para aqueles que fazem uma leitura deprimente e reacionária da pós-modernidade, tenta dar um novo sentido, o mais amplo possível, aos conceitos de liberdade, razão e autonomia. As leituras da realidade que ele poderia fazer, para mencionar um dos grandes pensadores, o bom Kropotkin, não apenas as repetimos, como se fosse uma fórmula válida para qualquer época, mas as tomamos como um exemplo à luz dos novos tempos para entender que a realidade é sempre muito complexa.

Numa época em que as grandes histórias, políticas, religiosas ou mesmo científicas, não parecem ter lugar, o anarquismo se mostrou a única garantia para que o ser humano não esteja subordinado, não só a elucubrações metafísicas, mas também a qualquer forma de abstração ou essência inexistente (não há essência, porque nada nos é dado para sempre, a possibilidade de mudança é permanente). O anarquismo, ou melhor, os anarquistas, enfrentam realidades concretas tentando oferecer as melhores soluções para o benefício da liberdade e da solidariedade. A motivação é uma ação permanente, ao contrário de qualquer imobilismo que tente se justificar no passado (por mais gloriosa e vingativa que queira se apresentar, há sempre algo reacionário nela). Sejamos claros, nesta jornada, que se pode ser anarquista de múltiplas maneiras; se o modelo é a humanidade, então vamos primeiro aceitar sua pluralidade. Não é concebível, de uma perspectiva anarquista, a sociedade como um todo fechado e ordenado (por mais que repitamos o clássico, “a anarquia é a expressão máxima da ordem”, uma frase que talvez incorra em uma ou duas contradições).

Talvez alguns leitores achem isto um discurso abstruso. Vamos recapitular. O anarquismo é definido mais por suas práticas do que por seu rico corpus teórico, distante de qualquer forma dogmática; portanto, falemos melhor do movimento anarquista. O movimento anarquista é eminentemente ético; não é, evidentemente, contrário à política (“anti-política”, costumavam dizer), mas ao Estado; não acredita em nenhuma divisão entre a sociedade (horizontalidade: pessoas livremente relacionadas e associadas) e o Estado (hierarquia: uma minoria que usurpa esse poder). Contra esta tentativa de unidade desejada pelo Estado, o movimento anarquista luta pela diversidade, fragmentação, pluralidade social, mas com a garantia ética da solidariedade e do apoio mútuo. Em face da unificação do estatismo e do capitalismo predatório, o movimento anarquista supõe a alternativa viável de uma sociedade sem dominação, não como um projeto ideal para o futuro, mas como um trabalho constante aqui e agora para construir e conquistar aquele terreno que hoje quer ser visto como utópico.

Capi Vidal

Fonte: http://acracia.org/libertad-autonomia-y-solidaridad-el-devenir-constante-del-movimiento-anarquista/

Tradução > Liberto

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olhos baixos
serena e bela
aguarda o dia

Eugénia Tabosa

[Espanha] Antonina Rodrigo, a escritora da vida

No dia 23 de abril inaugurou-se no Museu Bernarda Alba de Valderrubio, uma exposição dedicada à Antonina Rodrigo. A mostra foi proposta como homenagem a uma mulher que tem um longo percurso como escritora e historiadora, mas também como mulher com um compromisso político e social que sempre a acompanhou. “Antonina Rodrigo, obrera de la pluma” é o expressivo título desta exposição e nela se leva a cabo uma retrospectiva sobre a vida, obra, prêmios e distinções desta mulher que foi considerada, por escolha popular, entre “Os cem granadinos/as do século XX”.

A trajetória como escritora e historiadora de Antonina Rodrigo é longa, rica e frutífera. Seus temas de interesse foram diversos e suas obras se agrupam tecendo uma rede em que nenhum ponto é mais importante que os outros e que constituem uma autêntica declaração de intenções cheia de sentido. Seus três temas principais de estudo são: o mundo das “artes” e suas protagonistas (as letras, o teatro, a pintura); biografias de mulheres (e de alguns homens); e a derrota do grupo republicano na Guerra Civil e, especialmente, o exílio. Os três temas se entrecruzam tecendo essa rede cheia de sabedoria e bom trabalho.

Dentro do grupo das “artes” destacam-se seus livros sobre Federico García Lorca, María Antonia la Caramba, Margarita Xingu, Salvador Dalí e outros. Nesse interesse pelas “artes”, desenvolveu a biografia como ferramenta histórica para aproximar-nos às vivências de ditos personagens. No entanto, Antonina Rodrigo se destacou com brilhantismo por resgatar do esquecimento, através da biografia, a mulheres como Mariana Pineda (a quem professa uma singular admiração), María Lejárraga, Rosario Sánchez “La Dinamitera”, Amparo Poch, Federica Montseny, Beatriz Galindo e outras muitas mulheres. Também alguns homens como os já mencionados ou o Doutor Trueta. Por último, o tema da “Espanha silenciada”, a derrota e o exílio, compõem um terceiro centro de interesse no qual se destacam livros várias vezes reeditados como “Mujeres para la historia”. “La España silenciada del siglo XXMujer y exilio 1939″ ou sua recente “Mujeres Granadinas Represaliadas”.

Antonina Rodrigo é uma historiadora rigorosa que persegue suas fontes recorrendo ao trabalho de arquivo, um trabalho que requer horas, paciência e dinheiro, posto que ela desenvolveu seu trabalho “independente”, fora da Academia e do apoio e a cobertura que esta supõe. Ela faz parte desse pequeno setor de historiadoras que se posicionou à margem das instituições acadêmicas e que escolheu seus temas guiando-se exclusivamente pelo interesse que lhe despertou em cada momento. Apesar desta posição “à margem” e “independente”, as instituições acabaram reconhecendo seu trabalho, seus prêmios são múltiplos e assim aparecem refletidos na exposição.

Além de historiadora está sua faceta como escritora, seus livros são escritos com primoroso cuidado, esmero no vocabulário, nas palavras, na maneira de transmitir a vida palpitante de seus personagens e dos acontecimentos históricos. Sempre procurou que não se escoasse no relato histórico, a vida, as emoções, o sofrimento, as humilhações, as alegrias. Sempre escreveu sobre a vida e desde a vida, por isso seus livros pulsam em nossas mãos e nos emocionam sem perder o rigor. Não podemos esquecer sua faceta como conferencista na qual se destaca por essa facilidade de transmitir a vida, a “bebida” da história. É uma divulgadora excelente e suas conferências assim o demonstram.

Antonina Rodrigo entendeu o anarquismo e o feminismo, desde o qual desenvolveu seu compromisso, de maneira ampla, flexível e vivencial. Para ela o anarquismo é “uma forma de ser”, uma experiência vital, um compromisso existencial e ético que a leva a insistir sempre nos aspectos humanos. Neste sentido, ela é um exemplo de generosidade e bondade da qual tive a sorte de desfrutar.

Conheci Antonina Rodrigo quando estava investigando Teresa Claramunt e buscava desesperadamente alguma pista da qual estirar para poder seguir adiante. A quantidade de pessoas que se aproximam dela confiando em que possa oferecer algum rastro sobre o que investigam é enorme. Ela sempre atende com generosidade qualquer consulta, se tem algum documento ou indicação que possa ajudar, a oferece com desinteresse, algo que não costuma ser habitual. E muito importante, sempre consegue transmitir ânimos para seguir com a investigação.

Meu contato com ela foi se convertendo no transcurso do tempo em uma amizade que nos levou a compartilhar eventos, viagens e longas, longuíssimas conversas das quais sempre levei a melhor parte porque aprendo de seu fluxo de sabedoria. E tudo isso somado com um sentido do humor cheio de finura e de graça.

Laura Vicente

Artigo aparecido em Rojo y Negro, Mayo 2021, nº 356

Fonte: http://pensarenelmargen.blogspot.com/

Tradução > Sol de Abril

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o rio ao lado da estrada
corre
ri à gargalhada

Eugénia Tabosa

[Espanha] Lançamento: “Memorias | Louise Michel”

Louise Michel foi uma das principais figuras da Comuna de Paris que aconteceu entre 18 de março e 28 de maio de 1871.

Nestas Memorias autobiográficas, Louise Michel relata como foram se forjando nela os ideais que a levariam a fazer parte da Comuna.

Criada por sua mãe e seus avós em Vroncourt, desfruta de uma plácida infância rodeada de livros e poesia. Seus avós, a cada noite, escreviam em verso o acontecido durante o dia. Ela sempre quis ser poeta, e pode se observar nos diferentes poemas que aparecem em suas Memorias.

Em Paris exerce como professora, e é ali que vai a reuniões com outras mulheres nas quais se debate sobre os ideais que dariam lugar à Comuna.

Uma vez reprimida a Comuna, é encarcerada junto com outras mulheres. Outros de seus companheiros acabam executados, como é o caso de Théophile Ferré. Posteriormente é deportada a Nova Caledônia e finalmente anistiada pode voltar a Paris.

As Memórias de Louise Michel nos introduzem em sua personalidade, seus sentimentos, suas convicções e seus ideais sobre a justiça social e a igualdade entre homens e mulheres.

Nas palavras de seu editor, em 1886: “Quem se aproxima dela pela primeira vez fica surpreendido ao encontrar-se ante uma mulher afável, desde um bom início, de voz doce, com olhos brilhantes de inteligência e transbordante de bondade. Após haver falado com ela um quarto de hora todos os lados desaparecem: todos ficam subjugados, arrebatados, fascinados, conquistados”.

Memorias

Louise Michel

Mra Ediciones, Barcelona 2021

322 págs. Rústica 22,5×14 cm

ISBN 9788496504400

19,90 €

mralibros.com

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ao pé da janela
dormimos no chão
eu e o luar

Rogério Martins

[Espanha] Quando éramos os melhores em inovação educacional

Houve um tempo em que as propostas dos pedagogos espanhóis eram observadas com atenção em todo o mundo. Uma época em que havia uma abundância de escolas inovadoras, com métodos educacionais avançados, o que causou admiração entre professores e pensadores do início do século XX. Centros educacionais, geralmente fora do Estado ou escolas religiosas, que com poucos meios mas com uma convicção esmagadora, conseguiram elevar o nível cultural entre as classes mais desprivilegiadas.

Era o final do século XIX; o país estava em uma situação econômica deplorável, mantida por governantes medíocres submersos em corrupção, incapazes de tentar resolver os problemas urgentes sofridos pela maioria da população espanhola. A divisão entre as classes sociais era enorme: algumas pessoas ricas desfrutam de um excelente padrão de vida, enquanto as imensas massas trabalhadoras tinham sérias dificuldades financeiras. A oferta cultural era relegada ao gozo apenas de uma minoria; estima-se que em 1900, 60% dos cidadãos espanhóis eram analfabetos. E nesse contexto terrível, surgiu uma autêntica revolução pedagógica que, com suas peculiaridades, atingiu praticamente todas as partes da península; Zamora não foi exceção e em nossa província foram desenvolvidas interessantes propostas educativas de caráter popular, dignas de comentário neste artigo.

Em 1876, foi fundada a Institución Libre de Enseñanza (ILE), um estabelecimento educacional secular privado, inspirado no Krausismo e na pedagogia renovadora de Giner de los Ríos, Pestalozzi e Froebel. As contribuições únicas do ILE foram muitas: a rejeição do livro didático, a colaboração entre os estudantes, o respeito pelo mundo do trabalho, as caminhadas, as críticas aos exames ou o compromisso com a avaliação contínua, defendendo o conceito de que a educação deve cobrir toda a vida de uma pessoa.

Na órbita da instituição estaria a Residência de Estudantes em Madri, onde coincidiu uma longa lista de figuras importantes para a cultura do primeiro terço do século passado: Luis Buñuel, Federico García Lorca, Salvador Dalí, Rafael Alberti, Nicolás Guillén, Juan Ramón Jiménez, Miguel de Unamuno, Marie Curie, María Montessori, Benito Pérez Galdós, Gerardo Diego e León Felipe.

Vários desses intelectuais participariam das Missões Pedagógicas, um organismo financiado pelo governo republicano, que visava levar a cinematografia, o teatro ou uma seleção das melhores obras da literatura universal para os cantos mais remotos do país. Sanabria foi visitada no outono de 1934, ali, aqueles “missionários da cultura” puderam verificar o isolamento e a miséria sofrida pelos camponeses, além disso, eles forneceram material para algumas escolas, ou organizaram conferências sobre água potável ou avanços agrícolas. Durante sua estada em Sanabria, souberam da eclosão dos eventos revolucionários de outubro, estes também foram promovidos com ênfase pelos “carrilanos” da região, defensores do anarco-sindicalismo, que estavam construindo a ferrovia para a Galiza.

Seguindo os postulados do ILE, a instituição filantrópica Fundación Sierra-Pambley, em 1897, criou uma escola primária em Moreruela de Tábara. Uma realidade possível graças ao altruísmo do regeneracionista leonês Francisco Fernández Blanco. A escola podia ser frequentada por crianças de quatro vilarejos da região, com idades entre oito e quatorze anos, e elas deveriam ser: filhos de trabalhadores, órfãos ou de uma família pobre. A qualidade do treinamento, sua gratuidade, a horta escolar ou a existência de materiais pedagógicos e científicos modernos, foram sinais da identidade da escola. Os professores organizavam viagens frequentes: a Puente Quintos, ao Mosteiro de Moreruela ou ao recentemente construído Salto de Ricobayo, e quando era viável, as aulas eram realizadas ao ar livre.

Nesta educação alternativa, não só existiam centros destinados às crianças, mas sua infraestrutura também era utilizada para educar os idosos. Muitas iniciativas culturais surgiram: grupos de teatro, muitas vezes ligados a associações de bairro ou ateneus libertários; aulas noturnas para adultos, quase sempre gratuitas, ensinadas com entusiasmo por ativistas entusiastas que dominaram as letras, palestras informativas, sendo uma referência as palestras dominicais da Escola Moderna, devido ao elenco de professores e palestrantes científicos; bibliotecas populares, administradas por ateneus operários ou coletivos literários; recitais de poesia; grupos de esporte e caminhadas, organizados pela juventude e a criação das Universidades Populares, centros onde o povo podia ter acesso a uma cultura que até então lhe havia sido negada.

A Universidade Popular de Zamora foi aberta em 1933, ligada à Associação Profissional de Estudantes de Zamora (APEZ), que por sua vez aderiu à Federação Universitária Escolar (FUE). Era um coletivo autogerido, aberto a todos os cidadãos, e foi promovido por professores inquietos que treinavam alunos como Amado Hernández Pascual, Engracia del Río ou Valentín Ferrero, em estreita colaboração com os intelectuais progressistas de Zamora da época. Em suas modestas instalações, que estavam na antiga Escola Normal dos Professores (hoje Biblioteca Pública) e na extinta Casa do Povo, realizavam até o verão de 1936 atividades didáticas variadas, gratuitas: palestras sobre saúde; exposições; idiomas, assim como aulas noturnas de gramática, geografia, aritmética ou desenho.

No estudo “La labor educativa de Amado Hernández Pascual: universidad popular, esperanto y difusión cultural en Zamora y Argujillo durante los años 30”, recentemente publicado no Anuário do Instituto Florián de Ocampo de Estudos Zamoranos, detalhou em profundidade esta interessante experiência educacional coletivista.

Um pouco mais longe, em Barcelona, o pedagogo Francesc Ferrer i Guàrdia, em 1901, inaugurou a primeira Escola Moderna. Não era apenas mais um centro educacional, pois abria as portas para a renovação pedagógica do mundo de seu tempo. Ferrer, um pensador livre e anarquista declarado, propôs um sistema completo baseado no secularismo, racionalismo igualitário, apoio mútuo, jogo e ciência. Em suas salas de aula ele introduziu o ensino misto, eliminou recompensas e punições na infância, descartou exames, utilizou técnicas como a correspondência escolar (mais tarde aceita pela Freinet), ou o cuidado com a higiene como método preventivo de doenças.

A biblioteca da escola foi outro dos pilares do modelo Ferrerista, publicando seus próprios materiais e uma cuidadosa coleção de textos de autores de destaque: Odón del Buen, Santiago Ramón y Cajal, Émile Zola, Élisée Reclus, Jean Grave e Liev Tolstói. Também publicou um boletim periódico detalhando sua ideologia e suas chamadas.

Ferrer considerava que a Igreja Católica era diretamente responsável pelo atraso secular que a Espanha sofria, assim, na Escola Moderna eles decidiram não ensinar dogmas religiosos, o que somado à sua plena defesa da coeducação e suas críticas à instituição católica, o fizeram confrontar-se com os setores mais atávicos da sociedade, que conseguiram fechar sua escola em 1906. E mais tarde, vítima de uma montagem, foi acusado de ser o promotor da Semana Trágica, sofrendo um julgamento atormentado por irregularidades, condenando-o à morte. Apesar dos massivos protestos internacionais pedindo sua absolvição, o pedagogo foi executado. Seu último grito, diante do pelotão de fuzilamento, foi um símbolo intemporal e um escárnio da intolerância: “Viva a Escola Moderna!”

Anos mais tarde, sucessivos governos, diante do escândalo de magnitude universal que o final fatídico de Ferrer significava, tentaram compensar sua figura desvendando placas ou nomeando ruas em sua homenagem. Em Zamora, um seguidor seu, o romancista Vicente Blasco Ibáñez, também tinha sua placa de identificação na nomenclatura da cidade, na atual Avenida de Portugal. No entanto, foi o povo que melhor honrou sua memória, pois abririam cuidadosamente numerosas escolas gratuitas em todo o território nacional, que operariam autofinanciadas até o final da Guerra Civil, seguindo ideias de Ferrer, consolidando um sistema educacional alternativo e popular, diametralmente diferenciado da educação estatal ou das ordens religiosas.

Suas técnicas didáticas foram adotadas pelo movimento libertário como um todo, que manteriam muitas escolas onde desenvolveram suas propostas; algumas delas entrariam para a história da educação: A Escola Natura “La Farigola” de Clot, sob a direção de Joan Puig Elías; a Escola Neutra de Gijón, do educador Eleuterio Quintanilla; as colônias escolares no campo do Levantine, do professor Higinio Noja Ruiz; ou os grupos infantis de Edgardo Ricetti (Sabadell), Antonia Maymón, e do andaluz extático José Sánchez Rosa. Sua influência atravessou até mesmo nossas fronteiras, chegando a escolas na América do Norte, Argentina, Brasil ou França e teve até admiradores fervorosos no Oriente, sendo suas ideias introduzidas pelo famoso escritor chinês Ba Jin.

Tal foi o prestígio deste modelo instrutivo integral, que durante uma visita de Albert Einstein em 1923 a Barcelona, o cientista visitou um centro do sindicato CNT, encontrando-se com o libertário Leonês Ángel Pestaña, e aproveitou a oportunidade para dar conselhos sobre aspectos culturais aos trabalhadores presentes.

Na província, temos provas do sincero pedido de livros e publicações, nas páginas do semanário “Campo Libre!”, pelos cenetistas de Losacio de Alba, provavelmente para tentar criar uma biblioteca popular na cidade, em 1936.

É claro que estas experiências foram um produto de seu tempo, com demasiadas limitações, e realizadas dentro de uma sociedade oposta à atual, mas para o pesquisador crítico, é difícil não ser seduzido por alguns idealistas, que conseguiram algo inimaginável hoje: fazer de nosso país uma referência em pedagogia. Sua atitude foi, para dizer o mínimo, louvável, e considero que suas propostas ainda são dignas de estudo para qualquer professor com preocupações pedagógicas.

Problemas crônicos da educação em nossos dias, tais como falta de motivação, falta de meios e investimento, burocracia, um bilinguismo mal planejado (ensinar tudo em inglês), um sistema ilógico de exames competitivos, excesso de individualismo e rivalidade, ou altos índices, que aqueles professores originais tentaram resolver. Também imaginavam um modelo educacional muito diferente daquele que conhecemos hoje.

Cooperar, não competir, um princípio que também é ideal neste momento. E a liberdade, o bem mais precioso. Quando nosso país era a inveja de todos, por sua educação inovadora.

Fonte: https://serhistorico.net/2021/01/09/cuando-fuimos-los-mejores-en-innovacion-educativa-carlos-coca-duran/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Janelas fechadas.
Lá fora, uma frente fria
pedindo passagem.

Renata Paccola

[Itália] O desafio da ecologia social do Bookchin

Por Martino Seniga

A nova realidade política e social criada pela pandemia têm visto uma reação que acredito ser muito branda e integrada por parte da galáxia ambientalista heterogênea, presente em todo o mundo com militantes e organizações de vários tipos.

Enquanto alguns veem a pandemia quase como uma perturbação, uma distração, da luta principal para salvar o planeta dos danos criados pela própria “raça humana” que agora está sob ataque do vírus Covid-19, de outro ponto de vista as novas prioridades sociais, causadas pela crise econômica e de saúde global, provavelmente ofuscam e desviam a atenção das emergências ambientais, que continuam sendo cruciais para a sobrevivência tanto da raça humana quanto do planeta inteiro.

Neste contexto, pode ser útil retomar o raciocínio e o projeto político desenvolvido desde os anos 50 por Murray Bookchin (Nova York 1921, Burlington 2006) conhecido como o fundador da Ecologia Social.

Em síntese extrema, Bookchin acredita que a crise ambiental e ecológica crônica de nosso planeta só pode ser resolvida adotando e desenvolvendo um novo projeto político social e econômico. Em particular, Bookchin identifica o sistema econômico capitalista e a organização hierárquica dos aparelhos governamentais, tanto estatais quanto privados, como a causa raiz da patologia global, tanto social quanto ambiental.

Partindo destas premissas, Bookchin elaborou uma proposta política e filosófica exposta em seus escritos e livros e desenvolveu em particular em seu último texto, publicado postumamente: La Prossima Rivoluzione, dalle assemblee popolari alla democrazia diretta (BFS PISA 2018).

Tendo projetado uma nova ecologia política e social que inova de forma perturbadora o pensamento progressista e anticapitalista, Bookchin procura superar as ideologias e erros que têm caracterizado os movimentos da esquerda internacional desde o século XIX.

Sem “jogar o bebê fora com a água do banho”, Bookchin tenta traçar um caminho, um caminho social e político para tentar salvar todo o bem que a humanidade conseguiu fazer para o desenvolvimento democrático e ecológico de nossa sociedade. Não apenas uma utopia, mas um projeto organizacional preciso para combater os vírus do irracionalismo, do fundamentalismo, do nacionalismo e do hipercapitalismo financeiro, que continuam a manter sob controle o frágil ecossistema humano e natural.

>> Martino Seniga, jornalista da RAI, especialista em questões ambientais e política internacional, é atualmente correspondente do TGR Lazio para a província de Frosinone.

Fonte: https://www.maxstrataweb.com/post/la-sfida-dell-ecologia-sociale-di-bookchin?fbclid=IwAR09Zleghrv_NZOM3gG6HoHuTCVKrlyxUHwdSJNzsamj0SzD0CSSBZWmRtk

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/07/espanha-a-tese-de-ecologia-social-de-m-bookchin-e-os-principios-de-gestao-de-bens-comuns-de-e-olstrom-sao-compativeis/

agência de notícias anarquistas-ana

Apenas vós,
Árvores de tronco branco,
Me garantis que retornei.

Paulo Franchetti