[Espanha] Entrevista com a ULET-AIT, organização anarcossindicalista colombiana

“Repara o coração ler uma mensagem de outras terras enquanto contas os mortos a cada noite”

A Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo (ULET) é uma organização de caráter sindical e, portanto abertamente pública. Tem como primeiro objetivo a defesa de suas filiadas e seus filiados; os direitos de trabalhadoras, trabalhadores e estudantes; e a liberdade do povo.

Organiza-se sob os princípios anarcossindicalistas, tem como base e meio ao anarquismo, e tem como fim o comunismo libertário.

Suas ferramentas de luta são o apoio mútuo, o assembleísmo, o federalismo, a autogestão, a horizontalidade, e a ação direta.

A ULET-AIT é formada por pessoas de diferentes tipos, cores, nacionalidades, pensamentos, comportamentos, e gostos, que se agrupam sob os mesmos princípios e se organizam para defender seus direitos, lutar por um mundo livre, sob a solidariedade e para a autogestão econômica e social do povo livre. Encontra-se aderida à Associação Internacional de Trabalhadoras/res (AIT-IWA).

As primeiras mobilizações que começaram em 28 de abril passado exigiam a eliminação do projeto de Lei de Solidariedade Sustentável. Em quê consiste dita Lei e por que pode ser o detonante de protestos massivos?

Esta lei só é a forma como quiseram chamar a nova reforma tributária que querem aplicar ao povo colombiano. Nesta se incluíam muitos impostos aos trabalhadores autônomos, se taxavam os produtos da cesta básica com até 19% de IVA (Imposto de Valor Agregado) e se propunha aumentar o valor do leite para bebês de menos de seis meses, algo totalmente desumano em um país onde crianças morrem de fome. Além do aumento no preço dos alimentos, se incrementava o preço dos combustíveis e, inclusive, dos serviços funerários.

As condições precárias de vida ficaram ainda mais ameaçadas pela lei promovida pelo partido do governo. Isto tudo, junto com a precarização laboral e a desigualdade, é o detonante do que hoje se vive na Colômbia, um ambiente de rebeldia e protesto.

A origem do protesto foi superada desde o primeiro momento, somando-se desde a exigência do fim do feminicídio, a oposição de projetos de megamineração ou fracking, respeito pelos povos indígenas ou demandas estudantis. Quais são as exigências que sustentam o movimento?

Pede-se derrubar a reforma da saúde (que hoje, 22 de maio, já foi arquivada). Uma das principais exigências é a reforma do corpo policial, já que este tem um longo prontuário quanto a violações de direitos humanos que vão desde detenções arbitrárias, passando por violações, desaparições e assassinatos.

Os povos indígenas pedem que se respeite seu território e suas tradições, além de serviços de saúde já que estes foram muito golpeados pela atual pandemia. Por outro lado, existe uma demanda generalizada por condições dignas em temas laborais: na Colômbia, um Senador ganha mais de 30 vezes o salário mínimo que ganha um obreiro.

Outro grande problema tem o setor da agricultura, a assinatura de Tratados de Livre Comércio com diversos países levou à importação de muitos produtos alimentícios gerando uma crise no setor camponês. Por isso, dito grêmio pede melhores vias para transportar seus produtos e a eliminação destas dinâmicas de importação.

Uma das demandas é a demissão do direitista Iván Duque. Este rechaço ao Governo está sendo capitalizado pela oposição de Gustavo Petro? Ou os protestos se encontram afastados de partidos políticos?

Os protestos respondem ao clamor popular e ao instinto coletivo e não estão sujeitos a partidos políticos que viram neste processo uma oportunidade para fazer proselitismo.

Vemos imagens e lemos relatos de bairros levantados, com grande nível de mobilização e nos quais inclusive expulsaram as forças policiais. Como estão se organizando estes lugares? Criaram novas estruturas que permitam a auto-organização de bairro ou já existiam anteriormente?

Os bairros se organizam mediante os diversos coletivos políticos que se encontram nos territórios e estes por sua vez permitem a articulação com os habitantes dos bairros. Os espaços contam com uma panela comunitária, grupos artísticos e grupos de primeira linha dispostos ao choque com a polícia. Estes espaços se mantêm com a solidariedade de quem os habitam e são produto de processos políticos e de protestos gerados durante anos.

Em lugares como Cali, podemos ver povos indígenas indo à cidade para unir-se às marchas. Quais são suas exigências e como é sua participação nos protestos?

Eles participam com comida, participação na mobilização em temas de segurança e com a difusão de seu saber já que aqui na Colômbia muitas pessoas guardam um grande respeito pela sabedoria ancestral que estes povos possuem. Os indígenas protestam para que se respeite seus direitos como povos originários e se conserve seu território mantendo longe projetos extrativistas. Além disto, pedem que não os criminalizem, já que muitas vezes são etiquetados como guerrilheiros, terroristas ou narcotraficantes. Outras demandas são saúde e vias de acesso.

Embora os protestos tenham um marco ideológico muito amplo, vemos uma forte participação de coletivos anarquistas. Que papel está tendo o anarquismo nas mobilizações?

Desde que os habitantes de um bairro ou território decidam se organizar sem depender de nenhum partido político, estão atuando sob a filosofia anarquista e se dá passagem à participação de coletivos afins com dita proposta. A participação consiste em somar mãos para realizar as atividades de organização, gestionar mobilizações e manter a horizontalidade dos espaços.

As forças de segurança colombianas têm um longo histórico de repressão e violação dos direitos humanos. Como está sendo a repressão do Governo?

A repressão do governo consiste em enviar corpos policiais antidistúrbios e a repressão é física e psicológica. Em uma manifestação podem acontecer feridos por perda de olho, abuso sexual, desaparecimento e assassinato. Em muitos locais de protesto optaram por cortar o serviço de energia, deixando sem luz as ruas e começar a disparar armas de fogo contra os manifestantes.

Outra estratégia é passar em veículos particulares sem nenhuma identificação da polícia e assassinar manifestantes, inclusive chegaram a ser cúmplices de habitantes de bairros de classe alta que saem para disparar contra os manifestantes.

Lemos inumeráveis denúncias de abuso e violência sexual contra mulheres. É uma prática comum entre as forças de segurança?

Sim, é uma prática comum entre as forças armadas do Estado. Estão há muitos anos fazendo o mesmo, além de violações e feminicídios se reportam casos de maltrato físico contra a mulher nos núcleos familiares dos homens que integram as fileiras de ditas instituições. Apesar de tudo isto gozam de impunidade.

Desde fora da Colômbia estão acontecendo manifestações e outras mostras de solidariedade internacional. Chegam-lhes estas notícias? Que podemos fazer desde o estrangeiro para apoiar vossa luta?

Chegam-nos as notícias e nos tem enchido de força, agradecemos que sintam nossa dor e nossa rebeldia. Recebemos grande apoio de países sul americanos e da Europa, especialmente da Espanha. Os convidamos a seguir com o boicote, a difundir nossas denúncias.

Repara o coração ler uma mensagem de outras terras enquanto contas os mortos a cada noite.

Fonte: https://www.todoporhacer.org/ulet-colombia/

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Sulco fundo de arado.
A terra aberta ferida
Eis a vida.

Eunice Arruda

Verve 39, no ar

Verve 39 avança com mulheres e homens corajosos. comemoramos os 150 anos da comuna de paris. no ritmo intenso dos poemas de louise michel, traduzidos por edgar de assis carvalho; nos ensaios de claire auzias, diego lucato bello, voltairine de cleyre; as memórias da singular revolta irrompida em 1871 seguem reverberando no agora. acompanhando os efeitos communards, entre eles a expansão dos anarquismos, a revista apresenta o artigo de florentino de carvalho sobre os efeitos do sindicalismo nos combates ácratas das primeiras décadas do século XX. diante da criação e proliferação atual da ideia de fim do mundo, nossa 39 traz edson passetti e a incessante invenção, no presente, de maneiras de existir militantistas. a seguir, lembramos o pensamento radical de william burroughs, em texto inédito acerca dos limites do controle e a generosa rebeldia do poeta e editor (amigo de burroughs) lawrence ferlinghetti, por gustavo simões. josé maria carvalho ferreira e integrantes de el libertário como pascual, recordam a vitalidade de nelson méndez, anarquista venezuelano morto em decorrência da Covid-19. eliane carvalho abre as resenhas deliciosamente, relacionando dois prazeres, comida e anarquia, comentando precisamente o último livro de nelson. e por fim, vitor osório, problematiza a atualidade dos embates libertários e das lutas políticas contemporâneas ao sul do nosso vasto continente. verve 39 avança, vaga precisa, onda irresistível. feito o poema de louise michel ela ruge.

Ruge e urge como o mar.

>> Versão completa em pdf, aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2021/05/verve39.pdf

agência de notícias anarquistas-ana

Vendaval. Nas nuvens,
veloz desfila o falcão:
um surfista no ar.

Ronaldo Bomfim

Não queremos Copa América! Queremos Vacina para o Brasil!

Por Rede de Informação Anarquistas – R.I.A. 

Após a Colômbia e a Argentina cancelarem a realização da Copa América em seus países, num momento de proximidade de novas ondas da #Covid-19 nos países da América Latina, a #Conmembol confirmou, nesta segunda-feira, a realização do megaevento no Brasil.

Com a intensificação dos protestos contra medidas de austeridade na Colômbia, e uma repressão sangrenta ao povo que luta contra reformas na previdência, a Conmembol, organização que lucra com as segregações sociais em nome de eventos do futebol, havia decidido realizar a Copa América apenas na Argentina. Contudo, o governo argentino optou por declinar do convite, uma vez que o país enfrenta séria ameaça de uma segunda onda da Covid-19.

Já aqui no Brasil, país marcado por um governo genocida e negacionista, ao que tudo indica não houve qualquer debate ou ponderação para realização de um evento que pode agravar nossa situação. Já passamos da marca de 460 mil mortos pela Covid19, e agora temos a possibilidade de espalhar ainda mais as novas cepas que já circulam pelo país (principalmente a cepa indiana, que chegou recentemente).

Não é hora de eventos, não é hora de festa, estamos de luto por milhares de pessoas que estão mortas pela Covid-19 no Brasil e por outras que estão em hospitais sem estruturas lutando e suspirando por vida.

NÃO PODEMOS DEIXAR ESSE EVENTO ACONTECER!

#NaoVaiTerCopa 

#Conmembol 

#CopaAmerica2021 

#CancelaCopaAmerica 

#CancelaCopaCovid19

INGLÊS

We don’t want America Cup! We want Vaccine for Brazil!

By Rede de Informação Anarquistas – R.I.A 

After Colombia and Argentina cancelled the Copa America in their countries, at a time of new waves of #Covid19 in Latin America, #Conmembol confirmed on Monday that the mega event will be held in Brazil.

With the intensification of protests against austerity measures in Colombia, and a bloody crackdown on people fighting against welfare reforms, Conmembol, an organization that profits from social segregations in the name of soccer events, had decided to hold the Copa America only in Argentina. However, the Argentine government chose to decline the invitation, while the country faces a serious threat of a second wave of Covid-19.

Here in Brazil, a country marked by a genocidal and denialist government, it seems that there has been no debate about holding an event that could worsen our situation.  We have already passed 460,000 victims of Covid19, and now we have the possibility of spreading even more the new strains that are already circulating in the country (especially the Indian strain, which arrived recently).

This is no time for events, this is no time for celebration, we are in mourning for the thousands of people who are dead from Covid-19 in Brazil and for others who are in unstructured hospitals fighting and sighing for life.

WE CANNOT LET THIS EVENT HAPPEN!

#NaoVaiTerCopa 

#Conmembol 

#CopaAmerica2021 

#CancelaCopaAmerica 

#CancelaCopaCovid19

agência de notícias anarquistas-ana

o céu e o mar
no horizonte nenhuma fresta,
para te espiar.

Núbia Parente

Foda-se as eleições!

[Itália] Musa: Assassinato do Estado na CPR em Turim

Musa Balde tinha 23 anos de idade. Na noite entre sábado e domingo, ele morreu na CPR [“centros de permanência para repatriação”].

No dia 9 de maio ele estava em Ventimiglia, fora de um supermercado onde estava tentando obter algum dinheiro. Três homens o atacaram com pontapés, socos e barras. Alguém faz um vídeo: Musa está no chão, encolhido enquanto os três homens o atacam.

Uma história de violência racista como muitas outras: apenas a difusão das imagens impede que o silêncio caia sobre sua história, porque pessoas como Musa raramente têm a possibilidade de contar e de serem acreditadas. É evidente que a mídia dá amplo espaço à versão dos agressores, que o acusam de tentativa de roubo, como se essa acusação pudesse tornar menos grave uma surra brutal.

Musa nasceu na Guiné: ele foi um dos muitos que tentam ganhar a vida, esperando cruzar a fronteira, continuar a viagem, dar sentido ao seu projeto de vida.

Em Ventimiglia, como nas montanhas do Piemonte, a fronteira é uma linha virtual para aqueles que têm o que é preciso para viver na Europa. As portas estão fechadas para os pobres, para os muitos que partiram em sua jornada da África despojada, colonizada e desertificada.

Na França, Musa tinha conseguido chegar e trabalhar por um tempo. Mas então ele, naquela cidade fronteiriça, conseguiu estudar, fazer o ensino médio, construir uma rede de amigos e solidariedade. Ele frequentou o centro social La talpa e l’orologio (A toupeira e o Relógio), e também participou de iniciativas e manifestações antirracistas.

No dia 9 de maio Musa é levado ao hospital: tem alta no mesmo dia, sem receber os papéis com o diagnóstico. Ele passa a noite em uma cela de segurança. Na manhã seguinte, ele é levado para Turim, onde, após a audiência de validação, é trancado na CPR de corso Brunelleschi.

Entre os muitos papéis que o fazem assinar, não há nada sobre a surra que sofreu.

Ele logo termina em solitária. Provavelmente eles o colocaram no chamado “pequeno hospital”, uma área da CPR próxima à parede onde existem celas individuais semelhantes a galinheiros. Nada a ver com um hospital. Apesar das feridas evidentes em seu rosto, Musa nunca é examinado.

Seu advogado o encontrou duas vezes e ele parecia muito abatido, incapaz de entender por que estava preso depois de ser atacado. A razão é trivial: sua rápida deportação teria tornado o julgamento contra seus agressores muito difícil.

Musa morreu sozinho. De acordo com reportagens da mídia, foi suicídio. Os rumores que saem da CPR falam de uma nova surra por parte dos guardas.

Uma coisa é certa. Estamos diante de mais uma vítima de fronteiras, de prisões para os indocumentados, de violência estatal contra pessoas racializadas.

Eclodiram protestos na CPR: os prisioneiros decidiram imediatamente entrar em greve de fome. Ontem à noite, incêndios foram ateados em duas áreas da prisão para migrantes.

À noite, nas paredes do Escritório de Imigração da Sede da Polícia de Turim, apareceu a escrita “Musa: assassinato do Estado”. Queimem a CPR”!

A história da CPR em Turim é marcada por tantas vidas destruídas… Fathi, Feisal, Musa e muitos outros cujos corpos são marcados por espancamentos, cortes auto infligidos para escapar da deportação.

A CPR é uma lixeira social, onde os inimigos de uma guerra não declarada, mas feroz, são reunidos. A “hospedaria” é um não lugar, o nome alude aos cuidados, mas se refere aos antigos hospícios para os pobres. Um leprosário para os indesejáveis.

Todos os dias as fronteiras matam. As CPRs são a fronteira no meio de nossas casas. A alguns passos do nicho onde Musa morreu vivem meninos e meninas da mesma idade, que tiveram a sorte e o privilégio de nascer no lado “direito” da fronteira.

Há aqueles que acreditam que esta é a ordem do mundo.

Não temos a intenção de nos resignar a esta ordem. Estamos ao lado daqueles que lutam na CPR e ao longo das fronteiras feitas de nada que só a violência dos Estados torna real.

A indignação não é suficiente. Precisamos atrapalhar.

Se um dia nos perguntarem onde estávamos quando pessoas morreram no mar e nas montanhas, quando em nossas cidades havia prisões para pessoas viajantes, gostaríamos de poder responder que estávamos lá, com outros, na luta contra todas as fronteiras, Estados e prisões.

Federação Anarquista de Turim

>> Para Musa e os outros. Comício e manifestação até a CPR << 

Terça-feira, 25 de maio, CPR de Turim. Mais de duzentas pessoas participaram da manifestação lançada pela assembleia “Não a CPR” e da reunião ilegal em frente às paredes da prisão para migrantes, onde, em uma cela de isolamento, morreu Musa Balde. Intervenções, batucadas, música durante uma hora e meia. Depois, formou-se uma marcha, para contar ao bairro, o que acontece a alguns passos de suas casas. Para contar sobre vidas sob chantagem, vidas tornadas ilegais por uma lei racista e classista, uma lei que cria uma lacuna entre os submersos e os salvos. Um sulco feito de homens em armas, prisões, solidão, falta de cuidado, celas de isolamento para aqueles como Musa. Pessoas sem valor, armas descartáveis. As garantias são todas para os três batedores com passaporte italiano, que o massacraram em Ventimiglia.

A indignação desta vez foi além das paredes da CPR, dos círculos de camaradas que sempre estiveram lá, mas a história de Musa é apenas a última de muitas, surgiu graças a um vídeo que mostrou a violência que ele sofreu em Ventimiglia. A violência do Estado, das prisões, das leis permanece nas sombras da narrativa da mídia.

A CPR mata. Ano após ano, a lista de homens e meninos que morreram na CPR cresce mais, por causa dos espancamentos, da falta de cuidado, da indiferença.

A indignação não é suficiente. É necessário chegar ao meio, é necessário lutar para que as paredes da CPR permaneçam apenas na memória.

Fonte: https://www.anarresinfo.org/musa-omicidio-di-stato-al-cpr-di-torino/

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/10/05/italia-neonazista-que-promoveu-tiroteio-contra-africanos-e-condenado-a-12-anos-de-prisao/

agência de notícias anarquistas-ana

Paira no ar por um instante
A figura de um menino,
Saltitante.

Sérgio Sanches

[Rússia] Notícias da Cruz Negra Anarquista Moscou

• Ilya Romanov precisa de apoio para reabilitação

Ilya Romanov é um ativista do movimento anarquista desde 1987. Ele foi condenado à prisão duas vezes, por 10 anos na Ucrânia nos anos 2000 e 7 anos na Rússia na última década. Em 2019, ele quase morreu em consequência de uma hemorragia cerebral. Devido à demora na intervenção médica, ele perdeu a capacidade de movimentar o lado direito do corpo.

Sua ex-esposa conseguiu liberá-lo por motivos de saúde em abril de 2020. Com a ajuda de amigos, parentes, arrecadação de fundos e um caso de sucesso no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos contra a Ucrânia (apresentado em 2005, resolvido em 2020) Romanov recebeu reabilitação e assistência médica, mas ainda está incapacitado. A sua pensão é de cerca de 90 euros por mês. Ilya consegue andar com a ajuda de um ajudante e consegue usar uma prótese (perdeu uma das mãos em uma explosão, a outra está paralisada).

Ilya necessita de cuidados constantes, que não podem ser prestados por sua família, e as instituições sociais não oferecem a opção de residência permanente.

Você pode apoiar a família de Ilya Romanov por meio da conta do PayPal da ABC Moscou:

 https://wiki.avtonom.org/en/index.php/Donate

• Yegor Lesnykh teve negada sua liberdade condicional

Yegor Lesnykh é um antifascista, ativista dos direitos dos animais e membro ativo da comunidade radical em Volzhk (na área metropolitana de Volgogrado, ex-Stalingrado).

Yegor participou da manifestação contra a fraude eleitoral no dia 27 de julho de 2019 em Moscou. A polícia agrediu a manifestação e o promotor alegou que Yegor agrediu a polícia ao tentar soltar outro manifestante. Em dezembro de 2019, ele foi condenado a 3 anos de prisão.

Em 30 de janeiro de 2021, Yegor obteve liberdade condicional pelo tribunal local na região de Volgogrado, pois havia sido um prisioneiro modelo sem uma única sanção. No entanto, o promotor apelou da decisão e falsificou um relatório disciplinar alegando que Yegor havia violado as instruções sobre roupas em novembro anterior.

É possível que Yegor tenha que cumprir sua sentença completa. Você pode apoiá-lo com cartas:

Lesnykh Yegor Sergeevich, 1984 g.r.
FKU KP-21 UFSIN Rossii po Volgogradskoy oblasti
ul. Promyshlennaya d. 24
Volgogradskaya oblast g. Leninsk. 
404621 Rússia

Observe que os campos de prisioneiros russos raramente aceitam cartas escritas em inglês, mas você pode usar o google tradutor ou outros programas de tradução, ou enviar apenas fotos.

• Ilya Shakurskiy passou 27 dias no buraco

Ilya Shakurskiy é um dos prisioneiros na fabricada “Penza-St”. Caso de terrorismo de Petersburgo. Ele está cumprindo pena na república de Mordoviya, famosa por seus campos de prisioneiros desde os tempos soviéticos.

Em abril e maio, Shakurskiy foi mandado para o buraco (regime de isolamento) por 27 dias no total por violações forjadas, sendo as verdadeiras razões sua recusa em ser interrogado pelo FSB sem seu advogado.

Você pode escrever para Ilay Shakurskiy na prisão:

Ilya Aleksandrovich Shakurskiy 1996 gr
FKU IK-17 UFSIN Rossii po Respublike Mordoviya ul.
Lesnaya d. 3 Rayon Zubovo-Polyanskiy, p.
Ozernyi 431161 Respublika Mordoviya Rússia

Observe que os campos de prisioneiros russos raramente aceitam cartas escritas em inglês, mas você pode usar o google tradutor ou outros programas de tradução, ou enviar apenas fotos.

• Kirill Kuzminkin recebe sentença profabacional

Kirill, então com 14 anos, foi preso em Moscou em novembro de 2018 após o atentado suicida cometido pelo anarquista Zhlobitskiy em Arkhangelsk, no qual três oficiais do FSB ficaram feridos. Kirill estava em contato com Zhlobitskiy e foi encarregado da preparação e armazenamento de explosivos. Ele estava esperando por seu julgamento em prisão domiciliar.

Em 9 de abril de 2021, ele foi condenado a uma sentença de prova de dois anos e 3 meses e uma multa de 10.000 rublos (cerca de 135 dólares americanos). Kuzminkin planeja apelar da sentença.

• Nikita Uvarov é libertado enquanto aguarda o julgamento

Nikita Uvarov foi preso no ano passado, quando tinha apenas 14 anos, na cidade de Kansk, na Sibéria, acusado de estudar e fazer pesquisas para realizar um ataque terrorista. Uvarov foi finalmente libertado enquanto aguardava julgamento em 5 de maio. Ele não foi condenado a ficar em prisão domiciliar.

O co-réu de Nikita, Denis Mikhaylenko, de 15 anos, está atualmente na prisão. Você pode apoiá-lo escrevendo para

Mikhaylenko Denis Sergeevich 2005 g.r
SIZO-5, g. Kansk, ul. Kaytyminskaya 122,
663600 Krasnoyarskiy kray, Rússia

Observe que os campos de prisioneiros russos raramente aceitam cartas escritas em inglês, mas você pode usar o google tradutor ou outros programas de tradução, ou enviar apenas fotos.

Todos os endereços de prisioneiros que atualmente apoiamos na Rússia estão atualizados, conferir aqui:

https: //wiki.avtonom.org/en/index.php/Category: Currently_imprisoned_in_R…

Cruz Negra Anarquista Moscou

Fonte: https://avtonom.org/en/news/abc-moscow-news-ilya-romanov-needs-support-rehabilitation-yegor-lesnykh-denied-parole-ilya#

Tradução > Da Vinci

agência de notícias anarquistas-ana

A ponte é um pássaro
de certeiro vôo: sua sombra
perdura na lembrança.

Thiago de Mello

[México] Reivindicação do atentado explosivo contra o Banjército

DEPOIS DA MEIA NOITE…

Justamente uns minutos depois das 00:00 horas de 23 de maio de 2021, colocamos um artefato explosivo feito com base de pólvora e gás butano, com o objetivo de destruir as instalações do BANJÉRCITO (Banco Nacional do Exército) localizado em CALZADA DEL HUESO 7700 COL GRANJAS COAPA DELGACIÒN TLAPAN, DE LA CIUDAD DE MÉXICO (Endereço na Cidade do México), objetivo que cumprimos totalmente.

Fizemos isso porque…

I.

• Recordamos de Mauricio Morales, companheiro anarquista chileno que morreu tragicamente em 22 de Maio do ano de 2009, ao transportar um artefato explosivo que aparentemente se direcionava à Escola de Gendarmeria (guardas militares) do Bairro Matta, Santiago. Está presente, companheiro!

• Atendemos ao chamado das ações convocadas pelos presos anarquistas no mundo. Desde o México até a Grécia, desde Montevidéu até a Bélgica! Desde Argentina até o Reino Unido. Que o prazer armado siga nos encontrando!!!

• Condenamos às operações repressivas contra xs anarquistas no Reino Unido e as redes mundiais de contrainformação. Nos solidarizamos plenamente com os que enfrentam a repressão no Reino Unido, assim como com xs companheirxs de 325, Anarchist Black Cross Berlin, Northshore Counter-Info, Montreal Counter-Info e Act for Freedom Now.

II.

Repudiamos o militarismo mexicano. Hoje, no México, vivemos em um regime militarista reforçado. O governo de Andrés Manuel López Obrador aprofundou a expansão da influência política, presença e acesso a recursos dos corpos militares, incrementando seu poder, duplicando seu orçamento e estendendo sua área de influência: entregando aos milicos áreas como a migração, portos e aduanas, distribuição de programas sociais e segurança pública. Isso, por consequência, provocou um doloroso aprofundamento da verticalização social, fazendo cada vez mais rígidas as hierarquias sociais. E qual é o resultado? Mais violência contra as classes exploradas, desaparições forçadas, execuções extrajudiciais, tortura sexual, aumento dos feminicídios; tudo isso castigando, como sempre, com mais ênfase no bem estar de quem cria a vida: as mulheres. Ou como essas hierarquias sociais podem ser sustentadas, se não nos colocam ao patamar de descartáveis e se apropriando de nossos corpos? E logo, quando as mães, procurando seus filhos desaparecidos dão gritos de horror, o que o estado mexicano tem para elas? O deboche e o desdém são as únicas coisas que recebem de López Obrador! Mas, qual é a causa de tanta indiferença? Pensamos que se este sistema é indolente diante dos nossos gritos é devido à nossa dor pela possibilidade da continuação desta ordem de exploração. É que a estrutura deste monstro se alimenta de nosso sangue e de nossos ventres! Sem o valor que criamos, sem a vida que damos, sem os corpos que cuidamos, como a vida poderia ser reproduzida depois que suga esta ordem? Por isso é que nem o estado nem o patriarcado nem o capitalismo deterão por eles mesmos este massacre. Nós vamos ter que pará-lo!

Não nascemos mulheres, nos fizeram mulheres. Pois agora reivindicamos! E desde esta perspectiva dizemos nitidamente: NÃO PERMITIREMOS SUA EXPANSÃO, NUNCA MAIS SERES DÓCEIS DIANTE SUA ORDEM DE MORTE E MISÉRIA!

III.

• Na noite de segunda-feira, 3 de maio, uma ponte do Metrô da Cidade do México desabou, o número de mortes chegou a 26 e ao menos 10 pessoas hospitalizadas estão em estado grave. A todos culpados, FUNCIONÁRIOS, CAPITALISTAS E LACAIOS ASSASSINOS, dizemos: Tenham muito medo, porque vamos atrás de vocês, e pode ser que estejamos mais perto do que vocês acreditam.

• Na manhã de 18 de maio, um grupo de 95 estudantes (74 mulheres) foi sequestrado pelo estado mexicano, em um ato covarde de criminalização do protesto social. Exigimos sua liberdade imediata. Abaixo os muros das prisões! Todos os prisioneiros são políticos!

• As eleições no México estão próximas. Repudiamos o estado! Não o deixaremos dormir! Acenderemos a revolta!

Vamos acender a chama! Vamos viver a sua alegria! Vamos destruir esta ordem! Viva a Anarquia!

Pelo Grupo Informal de Ação Anarca Feminista Insurrecional Lupe la Camelina.

Ciudad de México, 23 de maio de 2021.

P.S.: Os meios de comunicação burgueses no México calaram esta ação. Isso só nos confirma o consenso das classes pelo poder. E reitera nossa convicção de transbordar o argumento e a ação. Se os incomodamos, se querem nos calar, significa que vamos por um bom caminho. NÃO nos calarão!

Tradução > Caninana

agência de notícias anarquistas-ana

Ao deixar o portão
Do templo zen,
Uma noite estrelada!

Shiki

Mais de 200 corpos de crianças indígenas são achados em escola no Canadá

Durante décadas, crianças indígenas foram arrancadas dos braços de suas famílias e mandadas a internatos como a Escola Residencial Indígena Kamloops

Restos mortais de 215 crianças, algumas com apenas três anos de idade, foram encontrados enterrados em uma vala comum naquele que já foi o maior internato indígena do país. A descoberta, mais um indício de genocídio contra povos indígenas, ocorreu na última sexta-feira, 28/05, no local onde a Escola Residencial Indígena Kamloops funcionou de 1890 até o final dos anos 1970, na região da Columbia Britânica.

Desde o século XIX até a década de 1970, mais de 150.000 crianças das chamadas Primeiras Nações indígenas foram arrancadas dos braços de suas famílias e obrigadas a frequentar escolas cristãs financiadas pelo estado como parte de um programa para assimilá-las à sociedade canadense. Muitas delas nunca voltaram para casa.

Nesta sexta, Rosanne Casimir, chefe da nação indígena Tk’emlups te Secwepemc, anunciou que radares de penetração do solo descobriram os restos mortais. Segundo Casimir, mais corpos podem ser encontrados porque há mais áreas para revistar nas dependências da escola. Em comunicado, ela chamou a descoberta de uma “perda impensável que foi comentada, mas nunca documentada na Escola Residencial Indígena de Kamloops”.

Ao longo de décadas, crianças indígenas foram forçadas a se converter ao cristianismo e proibidas de falar em suas línguas nativas. Muitos foram espancados e abusados ​​verbalmente, e afirma-se que até 6.000 morreram. Em 2008, o governo canadense pediu desculpas no Parlamento e admitiu que o tratamento nas escolas era abusivo.

Os líderes indígenas citaram esse legado de abuso e isolamento como a causa raiz das taxas epidêmicas de alcoolismo e dependência de drogas nas reservas. Um relatório feito há mais de cinco anos por uma Comissão de Verdade e Reconciliação disse que pelo menos 3.200 crianças morreram em meio a abusos e negligência, e disse que havia relatos de pelo menos 51 mortes apenas na escola de Kamloops entre 1915 e 1963.

“Isso realmente ressurge a questão das escolas residenciais e as feridas desse legado de genocídio contra os povos indígenas”, disse Terry Teegee, chefe regional da Assembleia das Primeiras Nações para a Colômbia Britânica. O primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, John Horgan, disse que ficou “horrorizado e com o coração partido” e chamou o caso de “uma tragédia de proporções inimagináveis”.

Fonte: agências de notícias

agência de notícias anarquistas-ana

Entre as antenas
E as casas todas iguais –
Quaresmeiras!

Paulo Franchetti

[Chile] Civis armados atiram contra manifestantes colombianos. Assassinos!

Não é só a polícia e o exército que disparam em um povo que luta por dignidade, mas também civis armados e grupos paramilitares que amparados por estes estão fazendo parte ativa na repressão, assassinando e desaparecendo os manifestantes.

As “pessoas de bem” se fazem chamar e não são mais que reacionários à serviço do governo que querem a todo custo amedrontar a Greve Nacional para defender o modelo econômico capitalista imperante no país.

Os ricos têm bem claro que ao pobre se assassina quando veem que este tira seus privilégios.

Desde o Chile enviamos força e abraços fraternos à luta popular colombiana por uma vida digna, que não se detêm nem se amedronta. ARRIBA A GREVE NACIONAL!

Grupo de Propaganda Revolucionária – La Ruptura.

agência de notícias anarquistas-ana

A lua da montanha
Gentilmente ilumina
O ladrão de flores.

Issa

Novo vídeo: Puxirum / Moitará / Mutirão

Quando voltamos nosso olhar para os saberes e práticas dos povos originários, temos as bases do viver comunitário e do fortalecimento de nossos coletivos.

O que hoje chamamos de “Mutirão”, em português, tem origem no chamado ‘puxirum’ ou ‘moitará’ por diferentes povos originários. É a ideia de pegar junto, de apoio mútuo através da organização comunitária ou familiar de cada região. O mutirão não se restringe a cumprir uma tarefa. É também uma forma de se divertir e transmitir conhecimento, fortalecendo comunidades.

>> Assista o vídeo (04:47) aqui:

https://kolektiva.media/videos/watch/ec9e6adf-8b12-4d63-9c42-4a27102af0cc

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um atrás do outro
cactus florescem
enquanto a lua não vem

Nenpuku Sato

[Espanha] Uma escritora anarquista

Por Marc Caellas | 23/04/2021

Como acontece às vezes com qualquer escritora, Ursula K. Le Guin, renasceu no planeta literário de nosso país. Um documentário sobre sua figura, disponível em Filmin, novas edições de seus livros em castelhano e catalão, mais os elogios de críticos e leitores contemporâneos puseram de novo em evidência uma autora que não só tratou de temas como o feminismo, o anarquismo ou as identidades de gênero há mais de cinquenta anos, mas o fez dentro de um gênero a parte, a ficção científica, em que é pouco comum brilhantismos estilísticos como os seus.

Seus livros se originam em sua vida, mas Ursula K. Le Guin não escrevia para “expressar-se”. Sua ficção era vivencial (ou experiencial), mas não confessional. Assim, em “Los desposeídos” (Raig Verd, 2018), K. Le Guin inventa uma sociedade anarquista na qual seus fundadores criam uma nova língua porque se dão conta de que não podem instaurar uma nova sociedade com uma linguagem antiga. Ainda que baseada na língua anterior, a nova é substancialmente diferente. O personagem Shevek transmite nessa nova linguagem a experiência intelectual que sua criadora sentia, embora em sua vida “real” fosse quase todo o tempo uma dona de casa convencional cuja principal preocupação fosse a educação de seus filhos.

“Los desposeídos” é considerada a primeira novela utópica anarquista. Seu protagonista é um físico que quer compartilhar suas descobertas com colegas de outros planetas, mas se depara com muros reais e mentais dos que veem sua atitude como uma ameaça à sociedade aparentemente livre que seus compatriotas conseguiram desenvolver durante cento e sessenta anos. É um livro fundacional, imprescindível para qualquer ativista social que se prese. O livro trata dessas interrogações que alguns de nós estamos a muito nos propondo, se é possível viver sem pátria, religião e polícia, por exemplo, e fazendo leituras atentas de pensadores como Kropotkin (de quem se comemora em 2021 o primeiro centenário de morte), que expõe que os homens viveram muitos anos em sociedades sem estado e que este foi criado para impedir a associação direta entre os homens, para obstaculizar o desenvolvimento da iniciativa individual e local, para esmagar as liberdades existentes, para impedir seu novo florescimento, e tudo para submeter as massas à vontade de umas minorias.

Ursula K. Le Guin pensava que o anarquismo era uma forma de pensar profundamente radical, muito frutífera e propositiva. Ao ler numerosos livros sobre anarquismo, se deu conta que era a única grande teoria política sobre a qual não havia sido escrita uma novela utópica. Mas a utopia de “Los desposeídos” é imperfeita, e a novela inclui sua própria traição aos postulados que defende. Outra novela mítica escrita faz mais de cinquenta anos, mas reeditada recentemente (Minotauro em castelhano, Raig Verd em catalão), é “La mano izquierda de la oscuridad”. Nela K. Le Guin esboça um planeta cujos habitantes tem uma particularidade que os faz únicos: são hermafroditas. Os “guedenianos” adotam um ou outro sexo exclusivamente na época do cio, na semana denominada “kémmer”. Durante as outras três semanas do mês seu gênero é neutro, e não tem características nem comportamentos de homem ou mulher. Dependendo dos níveis de feromônios emitidos, se transformam em macho ou fêmea, e assim podem procriar. Um mesmo individuo é homem em um mês e mulher no seguinte.

“La mano izquierda de la oscuridad” é uma história filosófica que trata sobre o diálogo entre diferentes. Aqui não há batalhas interestelares nem perseguições entre constelações planetárias mas uma trama amena e profunda que reflete sobre a alteridade e os preconceitos para com o diferente. Em “Conversaciones sobre la escritura” (Alpha Decay), livro fundamental para quem queira aprender ferramentas chave para escrever, Ursula K. Le Guin insiste na importância do som da linguagem, no quão fundamental é ouvir-se quando se escreve. A autora considera a linguagem um objeto físico e lamenta que em seu ensino se esqueça “e assim temos prosa que soa pom, pom, pom e não sabemos onde está falhando”.

Ursula K. Le Guin também deplora a crescente mercantilização da escrita que dá mais poder aos departamentos de vendas do que aos editores. As modas passam e a boa literatura, como a sua, fica. Suas reflexões sobre a conveniência de usar o passado ou o presente são de um brilhantismo e concisão admiráveis, produto de toda uma vida exercendo uma arte como se fosse um ofício, com um nível de auto exigência elevado e umas certezas aprendidas inclusive com erros, como o cometido com o pronome neutro em “La mano izquierda de la oscuridad”, que K. Le Guin explica, que não se justifica, pela época, 1968. O escritor David Naimon pergunta com inteligência e as respostas de K. Le Guin iluminam debates atuais sobre o uso da linguagem inclusiva e nos aproximam de uma autora sobre a qual seguiremos falando no futuro.

Fonte: https://www.diaridetarragona.com/cultura-vida/Una-escritora-anarquista-20210423-0071.html

Tradução > Sol de Abril

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Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Guilherme de Almeida

Bloco Combativo no 29M em São Paulo!

Ontem construímos o 29M: Bloco Combativo! junto com vários camaradas de luta de São Paulo. Diante da impaciência e da revolta crescente da população pobre e trabalhadora da cidade, levamos para o Dia Nacional de Lutas a exigência da construção da Greve Geral pela vida, por salários, por empregos e por direitos. A nossa saída continua a mesma de sempre: através da luta combativa, da ação direta e da construção revolucionária, muito longe dos palanques eleitorais, das traições de classe e dos conchavos pelegos!

Agradecemos a todos que participaram e compuseram o Bloco. Seguimos na construção do Sindicalismo Revolucionário e na luta pela libertação do nosso povo!

FOB-SP

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Casal de patos.
Mas o tanque é velho e a doninha
os vigia.

Buson

[Colômbia] Derrubaram o busto de Andrés López de Galarza

Como parte do primeiro mês da Greve Nacional (Paro Nacional) na Colômbia, na cidade de Ibagué foi realizada uma série de manifestações no setor da Calle 60 com a Carrera Quinta.

Entretanto, depois das quatro horas da tarde, um grupo de manifestantes, incluindo a primeira linha, chegou às instalações do viaduto do Sena, onde começaram a despregar o busto de Andrés López de Galarza.

Após vários minutos de permanência no local, eles conseguiram derrubar o busto e depois o arrastaram para a estrada que liga o Ministério Público ao setor do Sena.

Depois disso, eles interceptaram uma caminhonete e pediram as gravatas ao motorista. Com estas amarraram as partes destruídas do busto e as levaram para a área da Universidade de Tolima.

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Num banco de praça
a sombra de um velho assombra
o vento que passa.

Luciano Maia

[Espanha] Lançamento: “Kropotkin cien años después”

Jordi Maíz (Coord.)

Ao completar-se 100 anos da morte de P. Kropotkin, um 8 de fevereiro de 1921, a Fundação Anselmo Lorenzo (FAL), cuja missão é, entre outras, conservar, atualizar e difundir a grande obra do anarquismo ao longo do tempo lhe rende uma merecida homenagem com a publicação de um livro, no qual pessoas especialistas nas ciências sociais destacam a transcendência da obra de Kropotkin, não só no âmbito da cultura anarquista, mas para a ciência em geral. Seu rico legado, recolhido em alguns livros imprescindíveis.

– La Conquista del Pan, El apoyo mutuo, Palabras de un rebelde, Campos, Fábricas y Talleres… – e diversos artigos e conferências, como qualquer outra grande obra convertida em “clássica”, resiste e se enriquece coma passagem do tempo. A colaboração de Kropotkin fruto de laboriosos estudos e investigações in situ, e seu compromisso ativo com as organizações anarquistas, pelo que sofreu repressão, exílio e cárcere, serviriam tanto para liberar os velhos escravos e servos medievais como para emancipar os trabalhadores precários e autônomos dos tempos modernos.

Comprovar se isso ainda é certo é o objetivo desta publicação, além de reconhecer sua contribuição à obra vital do Anarquismo.

Textos de José Ramón Palacios, Jordi Maíz , Álvaro Girón, Paco Madrid, Grupo Redes (Diana García, Clara González-Garzón, Emilia Moreno, Laura Vicente), José Luis Oyón, Rodrigo Quesada, Susana Sueiro. Joan Zambrana, Rafael Cid, Frank Mintz, María Migueláñez, Javier Colodrón, Carlos Varea, Carlos Taibo.

Kropotkin cien años después

Jordi Maíz (Coord.)

Fundación de Estudios Libertarios Anselmo Lorenzo. Madrid 2021

406 págs. Rústica 23×15,5 cm

ISBN 9788412350715

19,00 €

fal.cnt.es

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Com dignidade
nas minhas velhas roupas –
o espantalho

Stefan Theodoru

A fome em crescimento: o negócio da fome.

A Covid-19 escancarou a fome no Brasil. Com o rebaixamento de renda de grande parte da população em decorrência do desemprego, somado à inflação dos alimentos que superou os 15% dos 12 meses iniciais da chamada pandemia, o triplo da inflação geral… o aumento exponencial da fome no país se acentuou.

A atribulação da fome retornou a pautar de modo considerável os discursos da mídia, dos partidos políticos e da sociedade civil organizada clamando por medidas paliativas de Estado. De acordo com o relatório “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, publicado em 13 de maio deste ano, houve uma redução geral da disponibilidade de alimentos nos domicílios classificados como “em situação de insegurança alimentar”, incluindo alimentos considerados não saudáveis como os ultraprocessados mais baratos. Estima-se que 58 milhões de pessoas adultas, idosas, jovens e crianças enfrentarão fome diária e constante ao longo de 2021.

Outro levantamento foi realizado no mesmo período pelo Grupo de Pesquisa “Alimento para Justiça” da Universidade Livre de Berlim, em parceria com UFMG e a UnB, com financiamento do governo alemão. O resultado indicou que o consumo de alimentos considerados saudáveis diminuiu em 85% nos domicílios mais pobres durante a chamada pandemia. A maior redução foi no consumo de carnes (44%), seguida de frutas (40,8%), queijos (40,4%), e hortaliças e legumes (36,8%). Ainda de acordo com a mesma pesquisa, os ovos tornaram-se a principal proteína nas refeições, mesmo com o maior aumento entre os alimentos da categoria, em quase 19%.

Piores índices foram contidos pelo auxílio emergencial, criado em abril do ano passado, uma vez que 63% dos entrevistados durante a pesquisa alegaram que usaram o dinheiro para a compra de alimentos. Quando o levantamento foi realizado, o valor do auxílio já havia sido reduzido pela metade. Dos 600 reais iniciais, o valor caiu para 300 reais. O benefício foi encerrado em dezembro do ano passado, voltando a ser pago em abril deste ano, após queda da popularidade do governo federal de acordo com os institutos de pesquisas, em um valor abaixo do inicial. São quatro parcelas de 150 reais (para famílias de uma só pessoa), 250 reais (para famílias de duas ou mais pessoas) e 375 reais (para mães chefes de família monoparental).

Enquanto isso, Melinda Gates e o presidente do Banco Mundial alegaram que, em um futuro pós-pandêmico, as mulheres devem ser colocadas em primeiro lugar. Além de se confirmarem como ótimas administradoras de casas e empreendedoras, conciliaram as misérias de auxílios pagos por governos e, muitas delas, começaram a empreender para conseguirem se manter e complementar a renda. Soma-se a isso, segundo o presidente do Banco Mundial e a esposa do dono da Microsoft, cujo patrimônio é de US$126,3 bilhões, que elas seriam melhores agricultoras que os homens e isso poderia levar a um crescimento de 4% do agronegócio. Ou seja, mulheres empoderadas é sinônimo de mercado, capitalismo sustentável e empreendedorismos.

solidariedade Ltda.

A despeito da fome que vem aumentando, o setor supermercadista vai muito bem, obrigado. Segue lucrando cada vez mais devido às vendas que dispararam no ano de 2020. De um lado, a população pobre e os que se encontram desempregados correm para os atacarejos, que concentram mercadorias e operam com custos mais baixos, oferecendo preços menores. De outro lado, as vendas pelos meios digitais dispararam, atendendo aos setores da classe média e alta, que seguem se alimentando em casa com o uso de aplicativos delivery.

Os dois grupos empresariais que concentram a maior fatia do varejo de alimentos no país não disfarçam os ânimos em relação aos resultados recordes de lucro. O diretor executivo da rede Atacadão, ao comentar os resultados de 2020, declarou que conseguiram “surfar nessa oportunidade”, obtendo resultados acima das expectativas. O Atacadão no ano de 2020 lucrou R$ 47 bilhões em vendas, 23% a mais do que no ano anterior. A rede pertence ao grupo Carrefour, cujo supermercado homônimo é focado no varejo e onde em uma de suas lojas foi executado um homem preto no ano de 2020. Os lucros das lojas do Carrefour em 2020 foram de R$ 2,8 bilhões (líquido), com um aumento de 20% nas vendas, batendo R$ 74,4 bilhões.

O concorrente, a rede Assaí, que pertence ao grupo Pão de Açúcar, somou R$ 39,4 bilhões, resultado 30% superior ao de 2019. Todos esses dados são divulgados oficialmente pelas empresas.

Fome, desemprego e crise são termos presentes no vocabulário empolado dos executivos do setor supermercadista enquanto possibilidades de investimentos. O negócio dos grandes varejistas de alimentos é estruturado de forma a maximizar ganhos e reduzir perdas. Isso é capitalismo e a filantropia sempre foi um grande negócio.

Essas empresas lucram mesmo quando resolvem fazer doações. Prova disso, é a campanha lançada pelas associações paulista e brasileira de supermercados: Apas e Abras. A iniciativa estimula empresas e pessoas a fazerem doações que serão revertidas em cartões individuais no valor de R$100,00 para serem utilizados nos próprios supermercados. O governador do Estado de São Paulo, ao comentar esta iniciativa, declarou que 100 reais bastam para alimentar uma família de 5 pessoas por 30 dias. A declaração canalha vem da mesma pessoa que no ano de 2017 propôs alimentar famílias pobres com uma “ração humana” feita de restos de alimentos.

Os primeiros 300 cartões da iniciativa foram doados pela própria Apas, um valor abaixo do mínimo estabelecido para as empresas, que devem fazer doações a partir de 5 mil reais. A campanha exalta a liberdade do consumidor poder escolher o que for comprar, além de poder usar o benefício quantas vezes quiser. A Apas também anunciou, em parceria com a prefeitura de São Paulo, a instalação de 102 pontos de coleta para arrecadar alimentos não perecíveis comprados pelos clientes nos próprios supermercados. Fazer caridade por meio de terceiros é o negócio da vez, que garante faturamento e pontos positivos na imagem de seus associados.

fome, periferia e elites secundárias.

Os efeitos da segunda onda da chamada pandemia, levaram duas das maiores ONGs focadas em atuações nas favelas do país a encabeçarem um movimento de combate à fome nas periferias. A CUFA (Central Única das Favelas) e Gerando Falcões, em parceria com a Frente Nacional Antirracista, lançaram no dia 5 de abri de 2021 o movimento Panela Cheia. Com o slogan “Fome mata. Panela cheia salva”, a campanha tem como objetivo arrecadar 2 milhões de cestas básicas para distribuição em todo o país. A iniciativa ainda conta com apoio do movimento União SP e da Unesco.

A união das entidades também pretende obter maior participação de empresários em doações de cestas básicas. Declaram que demandam medidas prementes e de efeito prático por meio de uma coalização política, social e empresarial para vencer a Covid-19.

Também demandam uma campanha oficial contra o que chamam de desinformação nas favelas, com medidas que explicitem a importância da vacinação para a preservação da vida biológica da população periférica. Citam a pesquisa Data Favela, em parceria com o Instituto Locomotiva, pela qual 53% dos moradores das periferias temem que a vacina não faça efeito, enquanto 31% têm medo de se infectar com o imunizante e 22% creem que a vacina pode alterar o DNA ou instalar um chip no organismo.

As lideranças dessas entidades declararam que essas aspirações não esgotam a pauta que reivindicam. Argumentam que o atendimento a essas demandas é suficiente apenas para “nos mantermos com o nariz acima da linha da água”. Esta é a tarefa das entidades filantrópicas!

programa de erradicação da fome no Brasil

Em 2014, o Brasil saiu oficialmente do Mapa da Fome, elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e cumpriu um dos Objetivos do Milênio (ODM): reduzir a fome e a miséria à metade em relação ao nível de 1990, até o ano de 2015.

A conquista foi celebrada e atribuída ao sucesso do Programa Fome Zero e sua derivação no Bolsa Família, que é a unificação de uma série de programas instituídos durante os governos Lula e seu predecessor, FHC.

Em 2001, o Instituto Cidadania, com a participação de Lula, elaborou o Projeto Fome Zero, com o objetivo de produzir um modelo que pudesse ser aplicado em qualquer governo, independente do partido. Com a eleição de Lula, em 2005, o Projeto se tornou uma estratégia, para posteriormente se constituir como plano nacional.

O programa, apresentado como uma proposta alternativa, respondia a diversas diretrizes estabelecidas pela ONU. Não demorou para que fosse reconhecido internacionalmente, como um modelo de sucesso para erradicação da pobreza extrema, reverberando, inclusive, nos novos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

fome, pandemia e gestão comunitária

No final de 2020, a Organização Internacional para Migrações (OIM) e o Programa Mundial de Alimento (PMA) — ambos incluídos no sistema ONU — publicaram um relatório prevendo que 33 milhões de pessoas pelo planeta passariam fome em função da chamada pandemia em curso.

Segundo o relatório, na região identificada como “América Latina e Caribe”, o número de pessoas em situação de “insegurança alimentar grave” poderia chegar a 16 milhões (excluindo a Venezuela) até o final de 2020.

No Brasil, no início de 2021, uma pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (PENSSAN) identificou, no final de 2020, 19 milhões de brasileiros em situação de fome, ou “insegurança alimentar grave”.

Entretanto, a pesquisa brasileira atesta que o crescimento da fome no Brasil se acentuava desde antes da chamada pandemia. O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, da Rede PENSSAN, mostra que, enquanto a chamada insegurança alimentar, entre os anos de 2004 e 2013, especialmente em sua forma grave, diminuiu no país entre 2013 e 2018, houve um retrocesso, intensificado entre 2018 e 2020, relacionado, durante a pandemia, à redução no valor do auxílio emergencial.

O crescente desemprego e a óbvia constatação da situação de fome fizeram com que proliferassem as iniciativas privadas e das organizações não governamentais para a redistribuição de alimentos. Entre as organizações envolvidas na redistribuição de alimentos destacaram-se na mídia, por todo o Brasil, as iniciativas da Central Única das Favelas (CUFA).

Em parceira com as organizações Gerando Falcões, Frente Nacional Antirracista, com o apoio do União SP e cooperação da Unesco, a CUFA lançou recentemente o “Movimento Panela Cheia” com o objetivo de “arrecadar recursos para a compra de cestas básicas para pessoas em situação de vulnerabilidade (…) para fazer chegar alimentos (…) nas mesas de famílias em comunidades de todo país.

A articulação é recente, mas a atividade de redistribuição de alimentos nas favelas não. A CUFA já possui experiência na localização e administração de doações variadas, também ligadas a outros de seus projetos.

No início de 2021, a CUFA anunciou o uso da tecnologia de reconhecimento facial para cadastramento de quem receberia as doações. A tecnologia foi adotada em parceria com a empresa especializada Unico, uma ID Tech fundada por desenvolvedores treinados no Vale do Silício em empresas como Google, Yahoo, IBM, Facebook etc. e nas estatais da China. Atualmente, a empresa presta seus serviços para dezenas de negócios, como redes de supermercados, bancos, lojas de cosméticos etc.

O reconhecimento na CUFA deveria servir para a prestação de contas aos doadores, garantindo que as pessoas certas receberiam o alimento e que não houvesse fraude por nenhuma das partes. Em reportagem que celebrava a iniciativa, definia-se: “a ideia é ter o controle total: quem recebeu, como recebeu, qual o dia e hora. Esses dados, com o CPF da pessoa, são cruzados com o cadastro nacional. É para saber se aquela pessoa recebe algum dinheiro do Bolsa Família e também monitorar as doações”.

Logo após o anúncio, algumas pessoas se manifestaram nas redes sociais alertando para a polêmica em relação ao armazenamento de dados pessoais e ao uso destes dados. A CUFA prontamente interrompeu o uso da tecnologia, prometendo apagar todo o dado armazenado. Apesar do anúncio no início de 2021, o reconhecimento facial já estava sendo usado desde 2020, no programa “Mães da favela”, cujo objetivo era ajudar as famílias lideradas por mulheres e que sofreram com o impacto da pandemia.

O processo de atuação da CUFA passa pelo reconhecimento e articulação com as chamadas lideranças comunitárias, como uma forma de descentralização do “controle democrático”.

A participação da “comunidade” é um dos elementos que aproximava o projeto inicial do Fome Zero, com as diretrizes estabelecidas pela ONU. Não à toa, a CUFA é reconhecida como uma iniciativa de grande alcance nacional e mesmo internacional, a partir da parceria com o governo, durante o primeiro mandato do então presidente Lula. A CUFA passou a oportunizar cursos de empreendedorismo, prêmios, arregimentação de jovens pelo esporte, gestão de situações emergenciais, etc.

A CUFA se firmou histórica e politicamente por suas conexões indissociáveis com a polícia e, também, por sua participação ativa na implantação do programa da polícia comunitária e das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), dos vínculos indissociáveis da CUFA com o PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) e territórios de paz, etc. Sem falar na pesquisa que a própria CUFA fez em 2008 com os moradores de favelas onde quase metade aprovava a entrada do caveirão nas favelas e os demais pleiteavam uma polícia cidadã. Ou seja, tudo polícia.

gestão da miséria

O plano da CUFA, o programa Fome Zero, auxílios emergenciais, etc., etc. são claros em suas metas: manter os pobres em seu lugar, contentes e obedientes.

Entre os governos as estratégias variam de bolsas migalhas, auxílios esmolas ou similares. Estes restos que possibilitam a manutenção da sobrevida de grande parte da população, são somente uma ínfima parte do dinheiro sequestrado constantemente pelo Estado.

A produção de alimentos não cessou durante a pandemia, assim como sempre se produziu mais do que o suficiente para alimentar a população global.

Os programas assistenciais, sejam eles de governo, iniciativas privadas ou parcerias público-privadas, alimentam o controle sobre a população a partir de registros, digitalização de dados, monitoramento comunitário. Alimentam a gestão dos pobres e famélicos por seus pares e por eles mesmos. E os pobres e miseráveis, em grandes contingentes, agradecem e se submetem consensualmente na busca pelas migalhas que continuam miseravelmente presentes para comprovar suas provações e pecados.

O capitalismo alimenta-se da pobreza e enaltece a pobreza obediente.

A pobreza extrema é sinal de perigo, pois alguém com fome pode perder o controle e o equilíbrio, quando a migalha vira moeda em troca da obediência.

Os anarquistas aprenderam há muito tempo que a criação da escassez é própria do Estado e do capitalismo.

Os povos indígenas no Brasil, quando não dependem da intervenção do Estado, desconhecem o que é a subsistência, pois a vida coletiva fora das métricas econômicas é de abundância.

A fome como sinônimo de insegurança alimentar coloca a vida sob a ótica do cálculo entre o risco e a segurança. Mas, comer não é só se alimentar. Faz parte de uma relação, uma sociabilidade. Dentro do cálculo neoliberal só cabe a ração administrada e abençoada para conter a revolta.

Fonte: Hypomnemata 245 | Boletim eletrônico mensal do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP N° 245, maio de 2021.

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Boneca se aquece
com o meu chapéu de lã.
Eu visto saudades.

Teruko Oda

[Argentina] Temperamento n° 54 – Especial Revolta na Colômbia

Com a colaboração das companheiras do podcast “Aullido Indómito”. | Gravado no final de maio de 2021

Primeira parte:

– Organização coletiva nas ruas. Autodefesa, panelas populares, primeiros socorros.

– Bogotá: A luta no Portal América. De centro de tortura a lugar de encontro

– Violência policial e paramilitar

– A outra repressão. Reflexões sobre a Convenção Constitucional desde território chileno.

Segunda parte:

– Cali-Valle del Cauca, coração da revolta.

– A minga, sua prática na Greve Nacional.

– Violência sexual sistemática. O caso de Alison Meléndez em Popayán e a resposta popular.

– Desaparecidos

Música: Gato e’ Monte – Spektra de la Rima – La Muchacha – La Perla e Tambor Hembra

>> Para escutar o programa:

http://blog.temperamento-radio.com/2021/05/27/temperamento-ndeg-54-especial-revueltas-en-colombia/

agência de notícias anarquistas-ana

Lentos dias se acumulam –
Como vão longe
Os tempos de outrora.

Buson