[França] Sinais de fumaça na primavera

No dia 19 de maio, após oito meses sob custódia de prejulgamento na prisão de Nancy, agentes do estado colocarão o anarquista B. em julgamento por um ataque incendiário a duas torres de retransmissão de celular durante o grande lockdown. É bem sabido que solidariedade significa ataque, e aqui é uma oportunidade perfeita de não deixar um companheiro sozinho contra esses canalhas de mantos, ao mesmo tempo em que continua a tarefa urgente de demolição do velho mundo…

Salins-les-Bains (Jura), 10 de abril de 2020. Enquanto o isolamento estava em pleno funcionamento em todo o mundo, um anarquista escalou as encostas do Monte Poupet. Com convicção e determinação, essa pessoa fez duas torres de retransmissão virarem fumaça antes de desaparecer na noite. Essas antenas eram usadas pela polícia e pelos gendarmes [força policial militar], bem como por empresas de telecomunicações. Isso está longe de ter sido a única ação, já que pelo menos outras 174 torres foram oficialmente sabotadas em toda a França no último ano, metade delas por incêndio. E, além disso, há, é claro, toda a sabotagem realizada contra os cabos de fibra óptica, empresas de telecomunicações e empresas fornecedoras de cabos e equipamentos eletrônicos.

Os poderosos consideram isso inaceitável uma pessoa sozinha que acredita na liberdade sair para um passeio sob as estrelas e quebrar os elos das correntes digitais que conectam os e-commuters [serviço de transporte especializado no transporte entre casa e trabalho] aos seus empregados, e os estudantes às suas aulas, interrompendo o fluxo do controle tecnológico. Mas como esse ato era parte de uma luta mais ampla, teimosamente difusa e sem forma definida, o sistema de justiça realmente se irritou, assim como o Oracle, um grupo criado pelos poderosos especificamente para tais situações. O Oracle lançou uma rápida investigação com o apoio da polícia local de Dijon e uma divisão dos gendarmes de Besançon, já que um incêndio anterior em 27 de março naquela cidade havia destruído uma torre pertencente à empresa de telecomunicações SFR no Mount Bréville.

Pelo menos nós podemos dizer isso eles não economizaram nos recursos nos meses após encontrar um pouco de DNA nos pés da torre chamuscada que eles atribuíram ao B., um companheiro bem conhecido por suas ideias subversivas: o GIGN veio de Paris para colocá-lo sob vigilância. Eles o seguiram, instalaram uma câmera na frente da casa de uma pessoa, colocaram rastreadores GPS nos veículos de seus amigos, conseguiram autorização para instalar escutas em apartamentos e até em praças públicas. Eles usaram coletores IMSI para ouvir conversas telefônicas e realizaram buscas simultâneas em três residências. E com tudo isso eles não conseguiram muito. Não só perderam repetidamente o rastro de nosso anarquista ciclista resistente durante sua investigação, como também tiveram que retirar as acusações relacionadas ao incêndio de Besançon (embora a investigação provavelmente ainda esteja em andamento contra outros). Eles ficaram sem escolha a não ser concluir que B. havia destruído as duas torres de retransmissão em Salins-les-Bains sozinho, o que ele havia dito claramente quando assumiu a responsabilidade por suas ações após sua prisão em 22 de setembro de 2020.

Após prender B. na prisão de Nancy-Maxeville e iniciar seu inquérito, a juíza e seus colegas continuaram o trabalho sujo: eles negaram o pedido de B. de ser libertado sob fiança com uma tornozeleira em fevereiro, então se recusaram a permitir visitas de quaisquer membros não familiares até que o inquérito fosse encerrado em março, e então a acusação tentou coagi-lo a expressar arrependimento e penitência oferecendo uma pseudo redução da sentença por meio de uma confissão de pena – o que B. recusou sem hesitação. Finalmente, eles anunciaram que ele estava agendado para julgamento em 19 de maio deste ano.

Em nosso mundo, as correntes eletrônicas estão estreitando e estar permanentemente conectado é uma parte central da reestruturação do Estado e do capitalismo – como inimigos da autoridade, é claro que nossa atenção se voltará para a infraestrutura como torres de retransmissão e a expansão da teia de cabos de fibra óptica. Estaremos também atentos aos produtores e instaladores dos cabos, torres e redes, como Axione (Bouygues), Axians (Vinci), Circet, Consructel, Dorsalys (Eiffage), Nexans, SNEF, Sogetrel e Sopelec, alguns dos quais receberam visitas amigáveis nos últimos meses. Neste momento onde as devastações do sistema tecno-industrial no planeta e em nossas mentes se tornam mais evidentes a cada dia, se opor sem concessões é realmente o mínimo que podemos fazer. Aqueles que se recusam a desistir e aceitar o paraíso tecnológico vão, é claro, continuar a enfrentá-lo… Às vezes o céu de primavera está tão claro que parece que um sinal de fumaça poderia alcançar alguém atrás mesmo das grades mais apertadas.

Solidariedade é ataque!
Liberdade a todos!

Alguns anarquistas, em cumplicidade e solidariedade

13 de abril de 2021

Tradução > Brulego

agência de notícias anarquistas-ana

confira
tudo que respira
conspira

Paulo Leminski

[Chile] Apoio Mútuo Entre Povos | Chamado Internacional

Apoio Mútuo Entre Povos

CONCENTRAÇÃO / VIGÍLIA

Quinta-feira, 20/05, 18 h

Embaixada da Palestina

EM SOLIDARIEDADE COM O POVO PALESTINO SITIADO, ASSASSINADO PELO ESTADO DE ISRAEL

Após o bombardeio israelense à Palestina¹

140 palestinos mortos

40 crianças mortas

20 mulheres mortas

Com a fiança político-militar e econômica dos Estados Unidos, a inutilidade das organizações internacionais ocidentais e a cumplicidade dos governos dos países árabes da região, Israel, com um dos exércitos mais fortes do mundo e tecnicamente armados esteve bombardeando a Palestina, um povo sem exército que foi declarado “terrorista” por resistir à ocupação militar do Estado sionista de Israel que, mais além de seu próprio sonho político (teológico-político, estatal-nacional), opera a nível geopolítico como a ponta de lança da razão civilizatória governamental ocidental na região.

[1] Cifras até 15/05/21

agência de notícias anarquistas-ana

A bola baila
o gato nem olha
salta e agarra

Eugénia Tabosa

[Reino Unido] A Monarquia, o Estado e a BBC

A ampla cobertura da morte do príncipe Philip destacou o papel que a família real desempenha na manutenção do sistema.

Mais de 110.000 pessoas protestaram junto à BBC sobre essa cobertura servil, antes de seu Diretor Geral, Tim Davie, que apoia o Partido Conservador, ordenar que o formulário de reclamação fosse retirado, para evitar mais constrangimentos à medida que os números subiam.

Boris Johnson realçou o papel fundamental que a monarquia desempenha tanto na manutenção do status quo quanto como cimento que preserva o Reino Unido e a Commonwealth, em seu elogio de Philip em estilo bajuladoramente sicofântico: “Como o exímio condutor de carruagens que era, ajudou a dirigir a família real e a monarquia para que esta permanecesse uma instituição indiscutivelmente vital para o equilíbrio e a felicidade de nossa vida nacional.” Essa visão foi ecoada pelo líder do Partido Trabalhista, Keir Starmer e seu predecessor, Jeremy Corbyn. Starmer disse: “O Reino Unido perdeu um extraordinário funcionário público no Príncipe Philip.” Enquanto isso, o Congresso dos Sindicatos (TUC) tuitou “O movimento sindical do Reino Unido envia nossas condolências à rainha e à família real pela morte do duque de Edimburgo”. Alguns deputados trabalhistas de “esquerda”, que já haviam alardeado seu republicanismo no passado, também estavam ansiosos para rastejar, assim como os líderes do Partido Nacional Escocês e do Plaid Cymru. Tanto Siân Berry, atual líder do Partido Verde, quanto Caroline Lucas, sua ex-líder, elogiaram Philip, um notório assassino de criaturas de grande porte como tigres ou menores como tetrazes e faisões, por sua preocupação com o meio ambiente e com o World Wildlife Fund (Fundo Mundial para a Vida Selvagem).

O racismo e o sexismo amplamente divulgados de Philip foram retratados pela mídia como excentricidades adoráveis, como pelo jornal Sunday Times que afirmou: “O príncipe Philip foi o consorte real mais longevo da história britânica – uma figura muitas vezes rabugenta, que ofendia pessoas com gafes sobre olhos puxados, mesmo que secretamente nós as tenhamos apreciado”. Isto se referia aos comentários que ele havia feito sobre estudantes britânicos que estudavam mandarim na China.

O “nós” usado pelo Sunday Times ilustra a divulgação da ideia da Nação Única como uma massa uniforme e concordante. Respondendo a essa legitimação do racismo, um grupo de jornalistas do leste asiático elaborou uma declaração assinada por 17.000 pessoas dizendo que: “Retratar a nação como um ‘nós’ coletivo que ‘secretamente’ aprecia calúnias racistas e depreciativas para grupos étnicos é insensível na melhor das hipóteses e incentivador de violência racista na pior.”

A cobertura exagerada da morte de Philip marca o início de uma guerra ideológica contra qualquer sinal de rebelião ou dissidência. Prova disso é que, quando do tombamento de estátuas nos protestos Black Lives Matters do verão passado, o establishment ficou tão horrorizado que respondeu com tentativas de controlar mais ainda o currículo escolar e com elogios aos “benefícios” trazidos pelo Império Britânico.

Nesta guerra cultural, a chamada “esquerda” tem sido espetacularmente frouxa e capitulou muito rapidamente para ganhar cócegas na barriga se se calasse sobre a monarquia, a herança racista da Grã-Bretanha e a brutalidade policial.

Philip vem de uma família que governou a Grécia. A população grega decidiu que não queria mais monarquia. Suas irmãs casaram todas com nazistas alemães de primeira linha e o desprezo de Philip pelas massas foi às vezes revelado como, por exemplo, nas suas observações quando visitou o ditador do Paraguai onde disse que era um prazer visitar um país não governado pelo próprio povo.

O funeral de Philip atraiu 13 milhões de telespectadores. A futura morte de Elizabeth será usada para desencadear outro frenesi de bajulação. Apelos para a abolição da monarquia e uma campanha consistente para expô-la como ferramenta essencial usada pela classe dominante deste país para preservar o status quo são cruciais. Apesar do “nós” usado pelo establishment, pode-se ver que muita gente se opõe à monarquia, fato comprovado pelas mais de 110.000 reclamações à BBC e a queda de audiência da ITV (de 60%), mas também de outros canais durante a cobertura da cerimônia.

Fonte: https://www.anarchistcommunism.org/2021/04/25/the-monarchy-the-state-and-the-bbc/

Tradução > Alainf_13

agência de notícias anarquistas-ana

Bolhas de sabão
sopradas no ar da manhã
exalam arco-íris.

Ronaldo Bomfim

Das Barricadas #1: Muros Que Gritam, Pedras Que Voam | Entrevista com Taller la Parresia sobre a insurreição na região colombiana

Há semanas as ruas do território dominado pelo Estado colombiano estão em efervescência, com paralisação total dos serviços, manifestações de rua, piquetes e barricadas. Uma insurreição tomou a região após o governo de Ivan Duque tentar implementar reformas, sobretudo a tributária, que aumentariam ainda mais a miséria e afetariam sobretudo as classes populares.

Como forma de solidariedade às companheiras e companheiros que estão em luta nas ruas neste momento, enfrentando a polícia e o risco de contágio por COVID-19 para afirmar seu direito à vida, publicamos hoje a primeira parte de “DAS BARRICADAS”, uma série de entrevistas realizadas com individualidades, coletivos e organizações anárquicas de diferentes partes da região colombiana.

Consideramos necessário difundir as análises das próprias pessoas envolvidas na insurreição, não apenas sobre a luta destas últimas semanas, mas levando em conta as recentes lutas dos últimos anos, a configuração das forças envolvidas, o histórico de resistência e da repressão que tenta sufocar as múltiplas formas de vida e de luta.

A entrevista de hoje foi realizada com o Taller la Parresia, compas que partem do uso do grafismo produzido em várias regiões sulamericanas como forma de ação direta e intervenção nos muros da cidade de Medelín, segunda maior cidade ocupada pelo Estado colombiano e localizada no Vale de Aburrá.

Pergunta > As notícias que nos chegam aqui indicam que a insurreição que tomou as ruas se iniciou com uma luta contra a reforma tributária que o governo de Ivan Duque tentou implementar. Todavia, consideramos interessante levar em conta o contexto das lutas recentes nos territórios em que as insurreições acontecem, principalmente porque há menos de 2 anos as cidades colombianas já haviam sido local de manifestações multitudinárias e intensas. Sendo assim, gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre o processo de lutas que está ocorrendo no momento no território dominado pelo Estado colombiano e qual a relação com as lutas que antecederam esse momento.

Resposta < Sim, como vocês comentaram, é um acumulado e não só nosso, mas de todo o povo e de nossxs amigxs na América latina. Vivemos o 2013 no Rio de Janeiro, seguimos as jornadas de nossxs amigxs em Santiago e Valparaíso, estivemos atentxs ao que acontecia em La Paz e em Quito. Tudo isso nos deixou em choque em cada momento.

Além disso, a execução de Marielle Franco, a de Santiago Maldonado, Bertha Cáceres, os 43 de Ayotzinapa e tantxs ex-combatentes que apostaram no processo de paz colombiano, xs líderes sociais, xs milhares de detidxs e desaparecidxs políticos e a todas as pessoas que sofrem o drama do deslocamento/migração venezuelana e mesoamericana.

Porem, para nós tudo se torna mais intenso com a necropolítica do Estado. Seguimos o caso das execuções extrajudiciais, chamados falsos positivos, jovens passados como guerrilheiros mortos em um combate que causou milhares de desaparecidos e execuções seletivas por parte dos militares para dar conta ao financiamento dos EUA. Também o desastre da represa que sequestrou o rio Cauca e a inundação das terras do cânion com centenas de fossas comuns, chamada Hidroituango.

Tudo tem sido muito intenso já há alguns anos, pois o Estado colombiano é uma máfia e se organiza como tal para exterminar seu povo e toda forma de organização e de vida. Além de ter super organizado suas frentes paramilitares e todo o assunto da produção e circulação de cocaína que agora se sabe que está a mando dos cartéis mexicanos.

Em novembro de 2019 nos somamos às jornadas de luta no Chile, em La Paz e Quito, e estranhamos que vocês, em suas cidades, não tenham feito isso. Nos moveu muito essas barricadas que apareceram nas cidades andinas e mesmo em Medelín, onde quase os Andes terminam ou entre os Andes.

Fomos documentando todo o processo insurrecional – o mapeamos e o narramos – porque pensamos que as lutas e nossas ações vão mais além do que esta prisão chamada pátria. Essa foi uma resenha das jornadas de novembro e dezembro de 2019 em Medelín e esta é a forma de confronto que se apresenta com o esquadrão de choque. Outra coisa a comentar é que igual a vocês [no Brasil], nós vivemos uma ocupação militar do território e isso nos expõe muito e faz que a luta seja muito complicada pelo medo e pela capacidade do Estado de exterminar as pessoas que se envolvem nesse processo.

>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:

https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/05/18/muros-que-gritam-pedras-que-voam/

agência de notícias anarquistas-ana

Parou de chover:
No ar lavado, as árvores
Parecem mais verdes.

Paulo Franchetti

Como a extrema-direita se infiltrou na comunidade gamer e por que esse ambiente é terreno fértil para Bolsonaro

Fóruns, comunidades e plataformas de streaming no Brasil viram território para disseminação de ideias alinhadas com a pauta de Bolsonaro

Por Henrique Araújo | 13/05/2021

Reparem no barbudão ao lado do cara com chifres e rosto pintado nas fotos da invasão ao Capitólio, em 6 de janeiro deste ano, nos Estados Unidos. Veste camisa de mangas longas que deixam as mãos e parte dos pulsos à mostra. Tem os dorsos tatuados: no esquerdo, um símbolo se sobressai. A imprensa chegou a confundi-lo com o signo da luta antifascismo ou uma foice e martelo estilizados, remetendo ao comunismo, mas estava enganada.

Era a “marca do Estranho”, carregada pelo personagem Corvo Attano, do jogo “Dishonored”. Lançado em 2012 para PS3 e depois remasterizado para PS4, o game apresenta um enredo de vingança e conspiração. Nele, Attano é auxiliado por uma força obscura chamada de “Estranho” (cujos adeptos carregam seu emblema na mão, tal como o invasor do Congresso nos EUA) na missão de derrotar uma conspirata que o acusou falsamente de uma série de crimes, entre eles o de assassinato.

O jogo foi bem-sucedido por sua narrativa concentrada na ideia de que um homem tem de desmascarar um sistema oficial, desmontando-o peça por peça, numa cruzada pessoal, mas também coletiva – uma espécie de Neo, o protagonista de “Matrix”, só que em outro contexto. Não por acaso, tanto Corvo Attano quanto o hacker do filme de 1999 das irmãs Wachowski caíram no gosto dos conspiracionistas contemporâneos e inspiraram caracterizações, como referências à pílula vermelha.

Naquele dia, 6 de janeiro, o cara barbudo e o chifrudo eram parte do grupo que, encorajado por Donald Trump, vandalizou o Legislativo dos EUA, deixando cinco mortos e interrompendo a sessão parlamentar que formalizaria a eleição de Joe Biden como novo inquilino da Casa Branca.

O ato criminoso foi transmitido ao vivo a partir da plataforma de streaming DLive, voltada principalmente para jogos de videogame e discussões de tópicos sobre o tema, mas muito frequentada pela alt-right àquela altura unicamente por falta de opções – eles já tinham sido banidos do YouTube e da Twitch, a ferramenta da Amazon.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://mais.opovo.com.br/reportagens-especiais/bolsonaro-e-o-mundo-do-game/2021/05/13/como-a-extrema-direita-se-infiltrou-na-comunidade-gamer-e-por-que-esse-ambiente-e-terreno-fertil-para-bolsonaro.html

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lavrando o campo
a nuvem imóvel
se foi

Buson

Pelo menos uma morte e vários danos em um novo dia de protestos na Colômbia

Vários prédios e sedes de bancos foram atacados no vigésimo dia de manifestações contra o governo de Iván Duque

Pelo menos uma pessoa morreu e vários prédios do Estado foram destruídos em um violento dia (16/05) de protestos no sul da Colômbia, palco de fortes manifestações contra o governo do conservador Iván Duque há 20 dias.

Segundo a imprensa local, um homem morreu após um confronto entre manifestantes e as forças de segurança que eclodiu por volta da meia-noite de domingo, quando três postos policiais no município de Yumbo (sudoeste) foram atacados.

Enquanto isso, vários prédios do governo e sedes de bancos foram destruídos na cidade de La Plata (sul).

De acordo com o Comitê Nacional de Desemprego (composto por sindicatos, estudantes universitários e outros movimentos sociais), em meio às mobilizações, pelo menos 50 pessoas morreram, 578 ficaram feridas (37 devido a lesões oculares), 524 desapareceram e 21 mulheres sofreram violência sexual. O Ministério da Defesa registra a morte de um uniformizado.

Fonte: agências de notícias

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No perfume das flores de ameixa,
O sol de súbito surge –
Ah, o caminho da montanha!

Matsuo Bashô

Último informe de saúde sobre a finalização da greve de fome dxs presxs anarquistas e subversivxs

Durou 50 dias a greve de fome por parte de Joaquín Garcia, Marcelo Villaroel, Juan Flores, Francisco Solar, Pablo Bahamondes e Mónica Caballero, na qual Juan Aliste aderiu, indo de 22 de março até 10 de maio.

Pela primeira vez em décadas, uma mobilização de presxs com causas judiciais diversas e em diferentes prisões deu mostras de uma forma de enfrentar a cárcere.

Com uma perda média de 14,1 kg no peso corporal, essas são os números finais da mobilização:

Mónica Caballero, da prisão de San Miguel

Peso inicial: 58,9 kg

Peso final: 48,5 kg

Perda total de 10,4 kg

Joaquín Garcia, da Cárcere de Alta Segurança (C.A.S)

Peso inicial: 76 kg

Peso final: 62 kg

Perda total: 14 kg

Juan Flores, da C.A.S

Peso inicial: 72,5 kg

Peso final: 58,5 kg

Perda total: 14 kg

Marcelo Villaroel, da C.A.S

Peso inicial: 92,3 kg

Peso final: 80 kg

Perda total: 12,3 kg

Francisco Solar, da Seção Segurança Máxima

Peso inicial: 80,6 kg

Peso final: 64,3 kg

Perda total: 16,3 kg

Pablo Bahamondes, da prisão Santiago 1

Peso inicial: 99,7 kg

Peso final: 82 kg

Perda total: 17,7 kg

Atualmente xs companheirxs estão se recuperando fisicamente, mas se mantém firmes e com um ótimo ânimo pelas distintas expressões de solidariedade, tanto no Chile como fora das fronteiras, e pelas vitórias concretas alcançadas:

– O ingresso de uma cautela de garantia a favor de Marcelo Villaroel pela violação de seu direito ao processo de liberdade condicional.

– A devolução de 665 dias como abono ao atual cálculo de penas de Juan Flores Riquelme.

– Compromisso de pronunciamento por parte do INDH sobre as consequências das modificações no D.L. 321.

– Intervenção e atenção por parte de estamentos sobre o regime de isolamento na seção de Máxima e Alta Segurança, que começará a permitir videochamadas.

– Não aplicação de castigos axs grevistas.

Da Itália nos informam que o companheiro Juan Sorroche, que havia aderido à greve de fome como expressão internacionalista de solidariedade também depôs a mobilização.

Hoje com a satisfação de ter instalado o tema da nefasta reforma ao D.L.321, com as vitórias conquistadas e com a união entre xs companheirxs subversivxs e anarquistas. Não se deixar levar pelo imediatismo das redes sociais e continuar com a ação agitativa, real, concreta e solidária de forma permanente.

Hoje já resulta uma realidade indesmentível a existência de presxs subversivxs e anarquistas, de uma forma de levar a prisão e de continuar a luta dentro do isolamento em San Miguel, Santiago 1, Cárcere de Alta Segurança e Seção de Segurança Máxima.

Xs companheiros Juan Aliste, Marcelo Villaroel, Joaquín Garcia, Juan Flores, Francisco Solar, Pablo Bahamondes e Mónica Caballero são parte inegável desta continuidade de enfrentamento que vem de anos.

SEGUIR LUTANDO PELO FIM DAS ÚLTIMAS MODIFICAÇÕES NO D.L. 321!

SEGUIR LUTANDO PELA LIBERAÇÃO IMEDIATA DO COMPANHEIRO MARCELO VILLAROEL!

SEGUIR AGITANDO PELA SOLIDARIEDADE COM XS COMPANHEIRXS SUBVERSIVXS E ANARQUISTAS!

Buscando la kalle,

14 de maio de 2021.

Fonte: https://edicoesinsurrectas.noblogs.org/post/2021/05/15/ultimo-informe-de-saude-sobre-a-finalizacao-da-greve-de-fome-dxs-presxs-anarquistas-e-subversivxs/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/05/11/chile-comunicado-de-fim-de-greve-de-fome/

agência de notícias anarquistas-ana

uma pétala caída
que torna a seu ramo
ah! é uma borboleta

Arakida Moritake

[França] Contra a guerra civil global, precisamos de uma revolução social no mundo!

Desde 12 de maio de 2021, a população civil de Gaza vem sofrendo uma agressão militar atroz. Também temos visto em Israel cenas de linchamentos insuportáveis.

Não é a primeira vez na História nem o único lugar no mundo em que civis, mulheres e crianças são massacrados por um Poder culpado de um crime contra a humanidade. Agora mesmo, por exemplo:

• Segundo números oficiais (FAO) 25.000 pessoas, incluindo 10.000 crianças, morrem de fome todos os dias!

• Na Colômbia, desde 28 de abril, o exército, a polícia e os bandos paramilitares assassinam impunemente pessoas que se rebelam contra a injustiça social.

• Em Rojava, os revolucionários do norte da Síria, abandonados por todos os “Estados democráticos”, se posicionam sozinhos contra o exército turco e os islamistas genocidas.

• No Iêmen, Xinjiang, Birmânia, Síria ou Venezuela, as populações são deslocadas por milhões, torturadas ou mesmo massacradas em uma indiferença quase generalizada.

Todos esses atos bárbaros são perpetrados por estados e políticos que apoiam um sistema capitalista que lucra com nosso sofrimento.

O vasto movimento de solidariedade expresso com as vítimas dos bombardeios na região de Gaza não deve esquecer que todas as ideologias utilizadas pelo Poder, ou seja, o nacionalismo e as religiões, são precisamente os pilares desta lógica assassina, que empurra as pessoas para matarem umas às outras em benefício dos líderes deste mundo.

A solidariedade de hoje com os habitantes de Gaza deve se registrar ao lado de todas as revoltas populares que estão sacudindo o planeta, de Hong Kong ao Sudão ou à Argélia, do Chile aos coletes amarelos na França, e que estão se espalhando em uma vasta luta global contra um sistema social assassino. Ao fazer isso, nossa solidariedade só se tornará mais forte e mais formidável.

Evitar massacres em Gaza como em qualquer outro lugar é lutar por um mundo sem país ou fronteiras. É por isso que também saudamos nossos amigos israelenses que se opõem à guerra e se recusam a trazer o uniforme das FDI; saudamos nossos camaradas colombianos que lideram uma luta admirável contra seu estado corrupto; saudamos nossos amigos em Rojava que lutam contra a barbárie genocida e, em geral, saudamos todos aqueles que, em todos os lugares, defendendo sem concessões a Paz e a Liberdade, estão fraternalmente unidos através das fronteiras.

Abaixo com todos os exércitos, abaixo com todos os estados!

Em Bogotá ou Gaza: o mesmo poder, a mesma luta

PODER = ASSASSINO!

Alguns ativistas da CNT-AIT França

Fonte: http://cnt-ait.info/2021/05/14/guerra-civil/?fbclid=IwAR2RbjVwlz_sCFkluj7ONHcElYHlwT9Dus-Ftvk_6pkwjpNYqFIUBgLnbIE

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Recolhida em si mesma
a alma do figo
é flor em za-zen.

Yeda Prates Bernis

[Espanha] Emma Goldman e o prazer de viver. 81º aniversário de sua morte

Artigo da historiadora Laura Vicente, coincidindo com o 81º aniversário da morte da grande anarquista Emma Goldman.

Emma Goldman morreu em Toronto no dia 14 de maio de 1940, estava a ponto de completar seu 71° aniversário. Sua vida foi um turbilhão de experiências e compromissos, ela viveu a vida de forma apaixonada, diversificada e contraditória. Ela mesma disse em sua autobiografia que “era composta de madeixas diferentes, cada uma diferente da outra em tom e textura”, não se definiu através de uma única identidade, ou “madeixa”, mas sua vida foi composta de muitas identidades que ela tentou fazer coexistir.

Para Emma Goldman, o prazer de viver era tão premente quanto o prazer de lutar pela causa (com letra minúscula). Quando Emma Goldman tinha vinte anos, um menino muito jovem a repreendeu pela frivolidade de sua dança, porque era “imprópria de um agitador (…), indigna de uma pessoa que estava a caminho de se tornar uma figura importante no movimento anarquista”. Segundo este homem, sua frivolidade “só prejudicaria a Causa”. Ela, indignada com esta interferência em seus assuntos, disse-lhe que “estava cansada de ter sempre a Causa jogada na minha cara. Eu não acreditava que uma Causa que defendia um ideal maravilhoso, o anarquismo, a libertação de convenções e preconceitos, exigisse a negação da vida e da felicidade”.

Para ela, a dança transcendeu o próprio fato de se mover ao ritmo da música, foi um ato de liberdade, o direito de se expressar livremente e de que todas as pessoas tivessem acesso a coisas belas. Uma encarnação da liberdade no corpo que poderia circular livremente, um sintoma de uma vida cheia de alegria e vitalidade em oposição à vida severa e intimidadora, sem cor nem calor, a vida repressiva imposta pelo capitalismo (e o comunismo sob o qual ela viveu entre 1920-1921).

Emma Goldman tinha um pequeno programa pessoal do que era importante para ela na vida: empatia, alegria, calor, cor, lugares para encontrar e discutir (poder conversar, comer com amigos ou companheiros, dançar, receber e dar flores, ler, ir ao teatro, etc.), enfim, aproveitar a vida. Um programa que apoia o slogan que lhe foi atribuída: “Se não posso dançar, não é minha revolução”.

E depois houve as outras “madeixas”: o ativismo anarquista que a levou à prisão em numerosas ocasiões, a perda de sua cidadania americana e de tudo pelo que lutou nos Estados Unidos (inclusive a revista que fundou em 1906) por enfrentar desde o antimilitarismo a Primeira Guerra Mundial, sua condição de apátrida após deixar a Rússia revolucionária por não fechar os olhos ao autoritarismo e à repressão do Partido Bolchevique, e tantas outras experiências que foram contra seu desejo de desfrutar a vida.

Ela tentou compatibilizar todas as “madeixas”, em sua busca de autonomia; ela olhou para o mundo ao seu redor de uma maneira diferente, tornando visível o imperceptível e sensível o indiferente. Ela questionou o mundo ao seu redor, rompeu com determinismos sociais, morais e culturais, buscou alternativas entre a pluralidade do “possível” e fez suas escolhas.

Ainda existem aqueles que consideram que Emma Goldman não merece a categoria de grande pensadora do anarquismo?

Laura Vicente

>> Todos os textos entre aspas são de sua autobiografia: Vivendo Minha Vida.

Fonte: http://pensarenelmargen.blogspot.com/2021/05/emma-goldman-y-el-placer-de-vivir-81.html?m=1

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/04/16/reino-unido-critica-emma-goldman-mother-earth-and-the-anarchist-awakening/

agência de notícias anarquistas-ana

Minha voz
Torna-se vento —
Coleta de cogumelos.

Shiki

Nasce a Inkonstante Edições

O que fazemos aqui não é diferente de qualquer outro blog de difusão de informação e escritos insubmissos. A internet surgiu como uma construção coletiva sob as ideias de livre troca de informações e comunicações. Nenhuma empresa é dona da internet, e o conteúdo encontrado neste cyberespaço é vasto e diverso.

Hoje a dominação dos ambientes digitais através da publicidade, mineração de dados (dados gerados no facebook e outras redes sociais com fins lucrativos), algoritmos de rastreamento e de análise de comportamento na rede usam a internet como uma poderosa ferramenta de expansão do sistema de vigilância e controle. Esse avanço tecnológico é financiado por governos e empresas que direcionam seu funcionamento à exploração dos usuários, para lhes arrancar mais lucro e incentivar uma cultura de constante consumo, espetáculo e alienação. Não é a toa que as empresas mais ricas de hoje (Amazon, Microsoft, Google, Facebook são algumas delas) são do ramo da tecnologia, a maioria especializada em mineração de dados – basicamente vender toda informação que você consome e entrega à rede – com seus algoritmos fechados e maliciosos.

A cibernética tem moldado o mundo do século XXI, e nesse cenário das coisas, onde até sua geladeira está conectada à rede, o cerco do cyberespaço cada dia toma mais espaço em nossas vidas. Nesse 2020 podemos observar como a pandemia de Covid-19 alavancou mudanças impostas pelos estados com a desculpa de que é para a proteção das pessoas. Também em 2020 podemos assistir um presságio dos novos tempos, com o lançamento de Elon Musk, o cara dos carros elétricos, que através da sua famosa empresa de tecnologia, a Tesla, já lançou mais de 90 satélites na atmosfera com a intenção de expandir o 5g e conectar todo o globo em um mesmo sistema. Essa manobra deu a Elon Musk o segundo lugar no ranking de MAIS RICO DO MUNDO, passando a fortuna de Bill Gates.

Acreditamos na liberdade de ser e pensar, na difusão de ideias, de oposição ao controle e dominação social, na propagação das informações e resgate de histórias e conhecimentos que aqueçam as chamas da insubmissão, da konfrontação anárkica, das conexões que não podem ser aprisionadas, que não morrem. Por isso acreditamos que se faz essencial a luta no meio digital, e que hoje fazer parte do mundo virtual é parte também da nossa realidade de luta, também para ter de volta coisas que o sistema nos rouba diariamente. Seja com nossos dados, seja com câmeras sob nossas cabeças, seja nos tirando o brilho das estrelas com tantos satélites, nossa luta segue sendo para que essa realidade imaterial, inumana, maquinaria, alienante e destruidora tenha seu merecido fim.

Blog com publicações e Contra-Info http:inkonstantedicoes.ga

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Num vôo direto
o pássaro volta
procurando um teto

Eugénia Tabosa

[Chile] Ativação em memória do Punky Mauri e dos 81 prisioneiros mortos na prisão de San Miguel

Nossxs mortxs vivem em revolta

Logo fará 12 anos desde a morte do anárquico companheiro Mauricio Morales, tentando atacar a escola de gendarmeria com um explosivo.

Em sua memória e porque as razões são sempre mais do que suficientes e se destacam mais na apatia pandêmica, chamamos a nós mesmos para irrompermos em frente da prisão de San Miguel no dia 8 de maio.

Também lembramos dos 81 prisioneiros que morreram naquele lugar no incêndio de 8 de dezembro de 2010 e somos solidários com a Greve de Fome que diferentes companheirxs em distintas prisões de Santiago vêm levantando desde 22 de março.

A memória anárquica, a solidariedade, o apoio mútuo e o gosto por romper com a normalidade foram o alimento de nosso fogo e nosso guia. O terreno onde vive a Anarquia é a rua, por isso nosso apelo é de transbordar a virtualidade, não esperar nem “condições ótimas” nem permissões do Poder, pois existem restrições somente para aqueles que as respeitam.

Continuaremos a ser a pior peste negra.

Abraçamos todos aqueles que chegaram e deram vida à jornada, pedalando, pichando, gritando… e com você Mauri, continuamos a abraçar o kaos.

Nada acabou, tudo continua.

Até destruir o último bastião da sociedade penitenciária!

Mauricio Morales Presente!

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/07/17/chile-punki-mauri-presente-10-anos-da-morte-em-acao-de-mauricio-morales/

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Libélulas!
Dá saudades da terra natal
A cor deste muro.

Buson

Como descobri o passado nazista e os crimes de guerra do meu padrasto

Uma reportagem investigativa da BBC revelou que um suspeito de crime de guerra nazista, que fixou residência no Reino Unido, pode ter trabalhado para os serviços de inteligência britânicos durante a Guerra Fria.

Antes de sua morte ocorrer, oficiais alemães estavam investigando Stanislaw Chrzanowski pelo assassinato de judeus durante a 2ª Guerra Mundial em Belarus.

O homem já havia sido interrogado pela polícia britânica, mas nunca fora acusado de nenhum crime.

Agora Chrzanowski, que se gabava diante de seu enteado de que tinha “um segredo inglês”, apareceu em registros de filmes feitos em Berlim na década de 1950.

E lideranças judaicas estão pedindo que uma investigação seja aberta para descobrir se Chrzanowski – e outros como ele – não foram acusados de crimes de guerra porque atuaram como espiões do governo do Reino Unido.

Por mais de 60 anos, John Kingston suspeitou que seu padrasto tinha sido mais do que apenas um segurança do prédio do governo municipal em sua cidade natal no Leste Europeu durante a 2ª Guerra Mundial.

Tanto que ele tinha certeza de que Stanislaw “Stan” Chrzanowski havia sido um criminoso de guerra nazista que conseguiu escapar da justiça.

E em várias ocasiões tentou persuadir as autoridades britânicas a investigá-lo. Mas não teve êxito.

Kingston conseguiu reunir uma grande quantidade de evidências – fotos, documentos e conversas telefônicas secretas – que por mais de 20 anos foram armazenadas em seu sótão.

Conheci Kingston em 2016 e, assim, comecei minha própria investigação de Chrzanowski e suas atividades durante a guerra.

Mas só quando Kingston morreu – e todo o material que ele havia armazenado no sótão foi entregue a mim – surgiram novas evidências para explicar por que Chrzanowski nunca fora levado à justiça.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.bbc.com/portuguese/geral-57051082

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Apito de fábrica
A poluição é o tempero
da marmita fria.

Teruko Oda

Colômbia resiste!

Mais de uma semana de conflitos na Colômbia, se expõem as condições de miséria e de opressão vividas lá. A resposta das pessoas não poderia ser outra que tomar as ruas e mostrar seu descontentamento, provando uma vez mais que a linguagem da confrontação, o conflito e a violência são os únicos que o poder entende. As mobilizações fizeram com que Iván Duque retirasse o projeto de reforma tributária que motivou a indignação geral em primeiro lugar, mas esta história não acaba aí.

Opus

Ato 1: Crise

A pandemia global se desenhou como a desculpa perfeita para se fazer a um lado do investimento social e se esquecer dos setores da população historicamente excluídos, as negritudes, as comunidades originárias, as dissidências sexo-genéricas, as mulheres, as meninas e os meninos.

O aumento da violência intrafamiliar, os feminicídios, as agressões sexuais e o terrorismo de estado, encabeçado pelo assassinato de centenas de lideranças sociais, entre as quais se encontravam autoridades afro, indígenas e camponesas, delimitava o panorama cotidiano da época em curso.

Além disso, os índices da pobreza, fome, precariedade trabalhista e desemprego crescem. O sistema de saúde se privatiza, aumentam o preço dos aluguéis, dos alimentos, do combustível; por sua vez, aumenta o gasto militar, e como se ainda fosse pouco, sendo este o contexto, se pretende impulsionar uma reforma tributária, com o pretexto de diminuir os efeitos da pandemia na economia, para que a crise, que não é outra que o próprio sistema, paguem as pessoas pobres e mais desfavorecidas.

Cali, conhecida como a cidade dos descolocados, tem vivido de forma desproporcional estes aumentos e privações. Porém, não tem sido uma exceção dentro do estado, e zonas históricas de pobreza extrema como o porto de Buenaventura e cidades próximas a Cali, como Buga, também passam por difíceis e desafiantes condições de vida, que se replicam ao redor do país.

Ato 2: O ódio

São uns assassinos. Usam armas de fogo, assim, qualquer uma. Nós só temos pedras. “La Haine”, filme de 1995.

A reforma tributária foi a gota que transbordou o copo. Se antes a única solução era apertar o cinto, hoje a resposta foi virar a rua de cabeça para baixo e exigir ao governo assassino a retirada de tão infame projeto, conseguindo a princípio, pouco mais que teimosas declarações do mandatário e sua panelinha, mas obtendo com os dias a retirada da reforma proposta e a renúncia do ministro da fazenda.

Dezenas de vidas têm sido ceifadas para conseguir esta meta, também são dezenas os estupros, agressões sexuais cometidas e os desaparecimentos forçados, que com sérias dificuldades e diante um enorme sub-registro foram possíveis registrar. Em suma, tanto as mesmas condições de miséria seguem vigentes, a raiva das pessoas foi crescendo, ao ponto de dirigir legítimos ataques contra postos de polícia e agências bancárias, mobilizar populações afro e indígenas a partir de seus territórios à cidades capitais como Popayán e Cali, e protagonizar bloqueios não apenas em cidades, mas em importantes vias arteriais do sul do país, gerando assim desabastecimento em diferentes regiões colombianas, em uma acidental sincronia a nível nacional, que dizem muitxs, não se via desde a paralisação civil de 1977.

O grupo Anonymous também atacou por meios virtuais, se atribuindo os ataques às páginas do senado, da presidência, a direção de aduanas e do exército, publicando os e-mails e as senhas de mais de 150 contas de membros das forças armadas; nomes, números de celular e documentos de identidade de integrantes da polícia, e as intervenções às comunicações de rádio do Esquadrão Móvel Antidistúrbios (ESMAD), nas que se fala de operações urbanas, se solicita apoio, munições e se menciona a atividade de frota aérea.

Intermezzo

Ato 3: Estado Assassino

Vão voltar, as balas que disparou vão voltar.

O sangue que derramou, irá pagar.

As pessoas que assassinou, não morrerão. Não morrerão!

(Canção tradicional de protestos na Colômbia¹).

Iván Duque, como menino caprichoso, pegou seus brinquedos novos. Helicópteros Black Hawk, os últimos modelos dos lança-cartuchos Venom, que contém fumaça e químicos, entre outras características tecnológicas “não letais” para os corpos antidistúrbios, que com propriedade sem par passeiam junto ao exército pelas ruas das cidades, convertidas em autênticos campos de batalha; onde o eco das botas militares de antes executavam operações de contrainsurgência no monte, hoje rebate sobre o asfalto.

Em um aspecto mais técnico, desde a organização NetBlocks², encarregada de reportar anomalias no acesso à internet a nível global, também se denunciam interrupções do serviço de internet, particularmente em Cali, epicentro dos conflitos, e em momentos em que se vivia uma repressão intensa. Adicionalmente, se reporta “suspeitosa” a desaparição de conteúdos em famosas plataformas virtuais privativas.

Somada à militarização, os tuítes do ex-presidente Álvaro Uribe Véjez, fundador do partido que levou à presidência da Colômbia a Iván Duque, só aumentam a sede de sangue de militares e policiais, a quem felicitava, respaldava em seu acionar e no uso das armas, a ponto que a própria plataforma Twitter teve que censurá-lo.

Contudo, não foi esse seu último trinado, e esta vez, fazendo referência à teoria da revolução molecular dissipada do renomado fascista chileno Alexis López (conceito difundido por ele mesmo na Universidade Militar Nueva Granada em Bogotá em datas recentes), Uribe seguia fazendo apologia à violência estatal, assinalando como terroristas e vândalos a todas as pessoas participantes dos protestos, por quem, ainda, o governo colombiano oferece recompensas de 10 milhões de pesos colombianos (aproximadamente 2.700 mil dólares).

Enquanto isso, as redes sociais se inundam de vídeos aterrorizadores, onde mães descobrem os cadáveres de seus filhos esticados no chão, o pânico toma conta de bairros de Buga, superpovoados por helicópteros Black Hawk, em que se aprecia de forma inequívoca os chocalhos dos metralhamentos e disparos indiscriminados, e outros, onde se denuncia que no pátio de um colégio de um bairro no sul de Bogotá, aterrissou um helicóptero utilizado em operações aéreas na cidade.

Cabe ressaltar que em momentos de tensões tais que abundam as notícias falsas e o oportunismo desenfreado, que busca fazer ver como mentiras os abusos cometidos pelo estado, o exército e a polícia. Porém, os sucessos do que fazemos referência, tem sido comprovados por diferentes agências independentes de notícias que se encontram fazendo coberturas desde diferentes pontos, no lugar dos fatos.

Ato 4: Acordando a revolta

Enquanto a revolução comporta uma estratégia a longo prazo e se encontra imersa no curso da história, a revolta não é só um repentino surto insurrecional, mas uma verdadeira “suspensão” do tempo histórico. E é na suspensão onde se liberta a verdadeira experiência coletiva: “O instante da revolta determina a fulminante autorrealização e objetificação de si como parte de uma comunidade. A batalha entre o bem e o mal, entre sobrevivência e morte, entre sucesso e fracasso, em que cada um está diariamente comprometido, se identifica com a batalha de toda a comunidade: todos têm as mesmas armas, todos enfrentam os mesmos obstáculos e ao mesmo inimigo. Todos experimentam a epifania dos mesmos símbolos”. (Furio Jesi)

Apesar da tentativa de rasgar o tecido comunitário, oferecendo recompensas, denunciando as pessoas presentes nos protestos ou impondo toque de recolher; apesar de não ser uma constante em todo o país, nas trincheiras se viu uma coordenação de bairro e comunitária impressionante para atender às pessoas feridas, informar sobre as incursões policiais e militares nas regiões, e manter por turnos a vigilância comunitária permanente, tudo isso financiado por cotas estabelecidas dentro das mesmas comunidades, cuidando da vida, o contrário do que informam fontes estatais.

No contexto da pandemia, o local tomou mais relevância que a afinidade, pois as distâncias, magnificadas pelas restrições na mobilidade fazem mais complicado o apoio a distância, a solidariedade/sororidade que não se efetua desde o mesmo ponto onde ocorrem as coisas. De maneira que, vizinhxs que provavelmente não tinham contato ou se conheciam, hoje trabalham mão a mão em benefício de sua comunidade, nessa conjuntura repressiva.

Ato 5: O fim das ideologias

Antes, xs vizinhxs religiosxs tomavam distância daquelxs que pareciam ter mais afinidade com as esquerdas, xs pessoas afins das esquerdas, por sua vez se afastavam de quem estava mais em sintonia com ideias de centro ou de direita, e assim, por não falar de pessoas que não parte de nenhuma estrutura partidária ou plataforma política. Estas distâncias eram mais evidentes em tempos de eleições, onde cada grupo em uma casa promovendo uma campanha ou outra, era como uma sutil provocação.

Contudo, hoje sem cores políticas, sem importar essas marcadas diferenças, as pessoas se reúnem nas ruas ao calor das fogueiras que junto à lua, iluminam as barricadas e as organizações de bairros que indômitas se sobrepõem à normalidade que pretende impor a paz social a sangue e fogo.

Conclusão:

A expansão da conflitividade social tornou a guerra mais evidente, que com eufemismos o poder busca ocultar, guerra que amplificada pelo conflito armado interno vivido por décadas, tem sido a constante do país; o que faz que situações deste tipo não se leiam como excepcionais, com a diferença que hoje a guerra de ontem se transfere às metrópoles.

Estes fatos também revelam a vigência dos antagonismos de sempre (civis e atores armados, poderosxs e despossuídxs, etc.). Assim mesmo, apesar de ser em princípio o assunto de classes médias, o acompanhamento de distintos setores (campesinato, negritudes, comunidades indígenas, mulheres, dissidências sexo-genéricas, grêmios como os de transportes, entre outros), tem sido chave para a continuidade da revolta, que com valentia e diante de uma força repressiva dotada de armamento sofisticado e tecnologia para matar, insiste em suas exigências, pela memória dxs mortxs e a dignidade do povo.

No âmbito internacional, houve concentrações solidárias na Europa, Oceania, e América, particularmente América Latina, onde consulados, embaixadas, praças e outros pontos de reunião, se denunciava o massacre cometido pelo estado colombiano.

Hoje, se está à espera de um diálogo entre o governo, pessoas e setores que convocaram as mobilizações. Só o tempo dirá se com esta luta o povo consegue impor suas demandas ao despotismo estatal. Por agora, esta alternativa se coloca como a única saída negociada para o cessar dos conflitos, de maneira que outro ato está por se escrever.

Desmonte do ESMAD agora!

Fim imediato da militarização e da repressão!

Notas da tradutora:

[1] Original em espanhol: Van a volver, las balas que disparaste van a volver. La sangre que derramaste, la pagarás. La gente que asesinaste, no morirá. ¡No morirá!)

[2] NetBlocks é uma plataforma global que monitora a liberdade na internet com a intersecção entre direitos digitais e cibersegurança. Em 5 de maio, a plataforma publicou dados sobre a interrupção da internet na cidade de Cali, e pode ser acessado aqui: https://netblocks.org/reports/internet-disrupted-in-colombia-amid-anti-government-protests-YAEvMvB3.

Tradução > Caninana

agência de notícias anarquistas-ana

Hora do almoço.
Pela porta, com os raios de sol,
As sombras do outono.

Chora

[País Basco] As origens do veganismo em Euskadi

As sociedades ‘vegetaristas’ alcançaram popularidade pelas mãos do naturismo e do anarquismo em princípios do século XX

Por Ana Vega Pérez de Arlucea | 22/04/2021

VEGETARIANOS! Comprem pão integral marca Ceres na padaria de Eduardo Miguel, Portugalete.

Talvez vocês se surpreendam ao saber que esse anúncio comercial já tem um século de antiguidade e que quando foi publicado, por volta de 1922, o vegetarianismo estava tão em voga como para protagonizar anúncios na imprensa, livros de receitas e comícios. A dieta estritamente vegetal conseguia cada vez mais adeptos em Euskadi e o fazia graças a correntes como o higienismo, o nudismo e o anarquismo.

As primeiras sociedades vegetaristas – assim eram conhecidas então – haviam aparecido na Europa em princípios do XIX defendendo a abstinência de carne desde a religiosidade cristã e a mortificação do espírito, mas também como solução a certas enfermidades ou problemas sociais. Diferente de agora nem o bem-estar animal nem a responsabilidade moral foram os argumentos principais do movimento vegetariano.

Desde uma perspectiva médica e antropocentrista, a doutrina acreditava que melhorando o corpo se melhorava a mente e com isso se beneficiaria a sociedade, de modo que uniu sob um mesmo guarda-chuva práticas como o nudismo, o esporte, o controle de natalidade, a renúncia a substâncias excitantes (café, álcool, tabaco, drogas…) e claro o vegetarianismo, que era o que hoje qualificaríamos de veganismo posto que não contemplava o consumo de ovos, lácteos nem pescados.

Durante os primeiros anos do século XX os vegetarianos se aproximaram cada vez mais dos postulados anarquistas. Para os ácratas ‘verdes’, a carne e o álcool eram venenos que o capitalismo e o socialismo tabernário – sim, este conceito existiu – usavam para controlar a classe trabalhadora. Os proletários tinham que acabar com o Estado e suas opressões mediante a luta obreira e a educação, mas seus corpos também deviam ser liberados através da higiene, da saúde, do ar livre, do exercício e da nudez.

Dois homens diferentes

A dieta vegetariana era parte fundamental desse regime de vida ideal e como tal havia de ser incluída entre os objetivos do anarquismo. A crescente politização do veganismo fez com que seus seguidores se dividissem em dois grupos: os que se identificavam com as ideologias libertárias e os que viam o vegetarianismo como uma opção pessoal apolítica. Estas duas correntes foram encarnadas em Euskadi por dois homens muito diferentes, mas unidos por sua fé na alimentação verde.

Podem vê-los retratados na imagem acima: o da esquerda se chamava Ricardo García Gorriarán e foi presidente tanto da Sociedade Vegetariano-Naturista de Vizcaya como da Associação Teosófica basca. Intelectual, sensível e com tendência a místico, Gorriarán teve uma livraria na bilbaína Plaza Nueva na qual vendia manuais espirituais e livros de receitas vegetarianas.

Em 1918 foi eleito líder da nova e extravagante sociedade vegetariana vizcaína, que organizava excursões nudistas à praia e, tal e como anunciava EL CORREO em junho desse ano, serviria “para a propagação de uma alimentação e uma vida em harmonia com a natureza, ao mesmo tempo mais saudável, moral e econômica que o regime cárneo”.

Médico e deputado anarquista

O outro apóstolo do vegetarianismo basco foi o doutor Isaac Puente Amestoy (1896-1936), nascido em Las Carreras (Abanto) e desde 1919 médico rural no partido alavés de Maeztu. Deputado provincial de Álava e membro da CNT-FAI, foi um dos maiores promotores da alimentação consciente e costumava prescrever a seus pacientes uma dieta livre de carne como tratamento médico.

“A alimentação mais conforme com nosso aparato digestivo é a vegetal, ela é suficiente para a nutrição do homem em todas as idades”, escreveu Puente em ‘El comunismo libertario y otras proclamas insurreccionales y naturistas’ (1933). O médico e político foi fuzilado pelas tropas franquistas em 1º de setembro 1936 perto de Pancorbo (Burgos).

Fonte: https://www.elcorreo.com/jantour/origenes-veganismo-euskadi-20210423101135-nt.html?fbclid=IwAR1ZW8XUBDuF-Z9KMkPv0LUqyUDCTrjmFXH_MmKjq7wPzem5ifBXzMfQKgs%3Fedtn%3Dbizkaia#vca=fixed-btn&vso=rrss&vmc=tw&vli=Jantour

Traduzir > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Caminho do mar:
A navalha no meu rosto
corta que nem gelo.

Antonio Cabral Filho

[França] As distopias e o futuro

Além de ser um tema de ficção científica e um gênero literário, as distopias nos alertam para o risco de um futuro moldado por sociedades totalitárias autocráticas. Portanto, não é surpreendente que a gestão autocrática da pandemia da COVID-19 tenha reativado este risco e que textos distópicos sejam tão atuais como uma profilaxia para evitá-lo. Não apenas porque o futuro é nossa maior preocupação quando o que estamos vivendo não nos agrada ou nos angustia – como acontece hoje nos aspectos de saúde, econômicos e relacionais – mas também porque nosso sentimento de impotência para mudar o curso da história nos leva inconscientemente a confiar no potencial profilático de tais textos para mudá-lo. E isto apesar do fato de estarmos conscientes da impossibilidade de inverter o sentido do tempo e de nada nos permitir saber com absoluta certeza qual será o futuro. Pois, de fato, apesar de não saber se as tensões políticas e sociais provocadas pela pandemia da COVID-19 e a mudança da sociedade industrial para a digital serão para o melhor ou para o pior, o fato é que este presente desastroso nos faz temer – tanto economicamente como nas esferas política, social e cultural – um futuro pior.

Medo de um futuro distópico, reforçado pelos efeitos deslocadores da pandemia e da ruptura tecnológica em nossas vidas e na sociedade. Não apenas porque o fenômeno do deslocamento das estruturas políticas e sociais – experimentado nos últimos 200 anos – pode continuar e agravar a crise da democracia “realmente existente”, mas também porque esta crise, em vez de incitar a melhorar a práxis democrática da sociedade como um todo, acentua os déficits democráticos e a práxis de governança autoritária em oposição à práxis da democracia direta da base social.

Não é surpreendente, então, que como os confinamentos e as medidas coercitivas têm seguido um após outro em nossas sociedades de democracia formal, a consciência do perigo distópico tem se manifestado através de numerosos textos que anunciam uma deriva distópica da sociedade. Nem é uma surpresa que esta deriva se baseie no modelo de controle totalitário já em vigor na China comunista de hoje.

Um modelo de controle totalitário que o progresso da quarta revolução industrial (engenharia genética e neurotecnologias) e a inteligência artificial tornaram possível e que o capitalismo da vigilância digital está se espalhando por todos os cantos do planeta. Como não ver nele uma experiência global para mudar – graças à pandemia e à desculpa do teletrabalho – o trabalho e as relações relacionais em um mundo sem fábricas, mas também sem sindicatos ou resistência coletiva? Um mundo no qual pouco importa se o Grande Irmão de 1984 (Orwell) é o Estado/Partido, como na China, ou os grupos de reflexão e gabinetes de especialistas do capital plutocrático anglo-americano. Bem, na realidade, o Big Brother já é o novo Senhor Feudal Tecnológico (o SeFTec) das empresas chinesas da Global Fortune 500 e das meritocracias robotizadas que controlam e decidem o funcionamento da economia e da política no mundo.

Um poder de controle e decisão que permite, por exemplo, que os Chefes da Amazon (Jeff Bezos), Apple (Tim Cook), Google (Sundar Pichai) e Facebook (Mark Zuckerberg) contabilizem em suas contas bancárias ganhos de capital latentes de mais de 16 bilhões de euros em um único dia (28 de julho de 2020, dia de sua audiência parlamentar no Capitólio dos EUA, em Washington DC), enquanto milhões de seres humanos passavam fome naquele dia no mundo.

Diante de tal injustiça e crime, o que deveria nos fazer temer o futuro distópico não é apenas o que restará de nossas liberdades formais nestas sociedades hipercontroladas, mas também deveria nos fazer temer a consciência e a indignação de que alguns têm tudo e outros não têm nada ou quase nada. Pois é óbvio que o capitalismo é e sempre será este crime contra a humanidade. Porque, seja na Ásia ou nas democracias robotizadas, a realidade é que o sistema meritocrático capitalista é o mesmo, e quer uma aristocracia de “nascimento ou riqueza” seja privilegiada sobre uma de “talento”, de modo que o recrutamento não favorecerá a igualdade. Nem mesmo a igualdade de oportunidades para todos. E ainda mais com os efeitos destrutivos sobre o emprego causados pelo progresso tecnológico capitalista e a divisão da sociedade em classes. Sem esquecer, além disso, a responsabilidade destes dois capitalismos na exploração irracional da natureza que levou o mundo à beira de uma catástrofe ecológica que põe em perigo a vida no planeta.

É por tudo isso que, apesar deste futuro distópico e ecocida ser o mais possível, a coisa digna e racional a fazer é não se resignar a ele e lutar para que não o seja. Não apenas porque o futuro pode ser outro, mas também porque vale a pena tentar por razões dignas e racionais, e também existenciais e históricas.

História e devir humano…

De fato, além de ser a coisa mais digna de ser feita, é racional pensar objetivamente no futuro em termos do presente; mas também em termos do passado. Não apenas porque o passado é uma sucessão de presentes, que nos fornece informações e ensinamentos sobre a evolução humana, mas também porque essas informações e esses ensinamentos mostram que a história não é linear, que ela é feita de avanços e retrocessos. Além de nos dar frequentes surpresas, como aconteceu e ainda acontece com a evolução humana. Esse processo evolutivo que deu a nossa espécie uma maior capacidade de ação para sobreviver e expandir-se em seu habitat planetário. Mesmo no período Antropocênico, que é o do nosso tempo. Uma época caracterizada pela enorme capacidade da espécie humana de modificar a natureza geológica de nosso planeta Terra.

Bem, se olharmos objetivamente a história e a evolução humana, o que vemos e confirmamos é que nossa capacidade e os meios para tornar a existência mais segura e prazerosa para todos não cessaram de aumentar, e que isto foi possível apesar da loucura autodestrutiva e do paradigma civilizador que tem sido dominante. Um paradigma que ao longo da história humana não cessou de oscilar entre o bem e o mal, demonstrando que ambos são possíveis. Mas também que o instinto de sobrevivência e o desejo de liberdade são capazes de tirar a humanidade de contratempos e orientar a história – mesmo em seus piores períodos – para horizontes mais promissores. Não esqueçamos como a criminosa loucura nazista/fascista distópica terminou. Essa ameaça que nem mesmo há um século atrás e por alguns anos estava prestes a se tornar o paradigma civilizatório dominante anunciado para durar pelo menos um milênio. Tampouco devemos esquecer o fim de outras ditaduras, a queda do Muro de Berlim e antes disso os meses de maio de 68 e 15M, nem que os regimes ditatoriais ainda continuam na China e em outros países.

De fato, a história não deixou de ser este combate permanente entre a aspiração de uns de dominar e a aspiração de outros de serem livres, e não há nada que indique que não continuará a ser assim. Portanto, não é apenas por razões dignas e racionais, mas também por razões existenciais e históricas que é legítimo e lógico pensar que o futuro pode ser diferente e que vale a pena lutar para que assim seja.

E ainda mais agora, porque a luta contra a dominação é mais necessária do que nunca. Não apenas para evitar que aqueles que a exercem nos imponham um futuro distópico, mas também para impedi-los de tornar a vida impossível com seu irracional desenvolvimentismo ecocida que nos leva ao colapso ambiental. Um colapso que põe em perigo o futuro humano no planeta e pode pôr um fim à história.

Um final paradoxal e absurdo, dada a extraordinária singularidade da aventura humana. Uma aventura que exigiu milhões e milhões de anos para que o universo proporcionasse as condições propícias à organização da matéria a fim de possibilitar o surgimento da vida, e muitos milhões de anos depois o início desta aventura singular. Como resignar-se a um fim tão paradoxal e absurdo?

O futuro não é uma questão trivial, já que as distopias implicam a perda de nossa liberdade e a continuidade do capitalismo o perigo da extinção da vida. Lutar contra estes dois perigos é, portanto, um dever ético e uma necessidade vital. Não se trata de ser otimista ou pessimista, mas de ser coerente ou não com a ideia que temos do ser humano e seu futuro.

Octavio Alberola

Artigo publicado na revista Al Margen, n° 117

Fonte:  https://acracia.org/las-distopias-y-el-futuro/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Joaninha caminha
no braço da menina.
Olhar encantado.

Renata Paccola

[Espanha] As ideias Anarquistas no design da cidade de Calafell

O arquiteto que ficou a cargo da ampliação da zona da Marina de Calafell aplicou conceitos modernos para a época.

Por José M. Baselga | 17/03/2021

Em meados dos anos 30 se vislumbrava em Calafell um exemplo de “cidade linear”. Um traçado de ruas paralelas onde – em uma ponta – estava el sanatorio Sant Joan de Deu (hoje é o hotel Ra Beach Thalasso-spa) que, entre outras coisas, servia de hospital para as crianças, moradores locais e também era uma espécie de centro social para os cidadãos de toda Calafell. Já – na outra ponta – estavam las Colonias de Vilamar, um grandioso e moderno centro educativo de autogestão infantil que serviu de exemplo para toda Espanha na época. Entre esses dois pontos estava a estação ferroviária municipal.

Esse modelo de cidade surgiu de um conceito anarquista do arquiteto Eugeni Duran, que chegou a Calafell para ser professor de engenharia de minas, e acabou indo trabalhar como arquiteto para a prefeitura local (ele tinha formação nas duas áreas).

No entanto, sua carreira profissional começa trabalhando na companhia Riesgos y Fuerzas Eletricas del Ebro, mais conhecida como “La Canadiense” (A Canadense). Ele foi um dos responsáveis pela extensão das linhas elétricas da cordilheira dos Pirineus, norte da Catalunha (divisa com a França, onde há hidroelétricas) até Torredembarra (sul da Catalunha), onde conheceu e se casou com a assistente de um açougue local.

A testemunha de toda historia aqui relatada, Modest Duran, nasceu dessa união. Por curiosidade, vale citar que o anarquista Modest, com 20 anos de idade, foi um dos “líderes” que lutou na guerra civil espanhola (1936-1939) ao lado dos “republicanos” (uma conveniente junção entre anarquistas e comunistas) contra os “nacionalistas” do ditador fascista Francisco Franco.

Mas enfim, Eugeni vivia os tempos da primeira grande guerra (1914-1918), na qual um dos donos da “La Canadiense” morreu no afundamento do vapor Lusitânia, que foi atacada por submarinos alemães. Alguns meses depois, desencadeou a histórica greve dos trabalhadores de companhia no inicio de 1919, uma das mais bem sucedidas conquistas do anarco-sindicalismo. Com isso, Eugeni Duran foi preso porque – além de apoiar a greve – escreveu um livro contra as companhias elétricas no qual ensinava como usar a eletricidade sem ter que pagar as contas. Seus ideais anarquistas fizeram com que as companhias elétricas não voltassem mais a contratá-lo.

Assim, Eugeni partiu para a cidade de Calafell na época da ditadura de Primo Rivera (1923-1930). O ajuntamento militar soube que, além de professor de engenharia de minas, ele também era arquiteto e lhe deixou a cargo do desenho do barrio de la Marina, como se conhecia o que hoje é o núcleo de la playaCalafell nessa época era um povoado da zona costeira, na qual haviam algumas lojinhas de pesca (onde também guardavam os barcos). E foi aí que começou a surgir essa cidade linear que obrigou a redesenhar quase todo o layout da estrutura municipal anterior.

Em meados da década de 30, o projeto foi posto em prática de maneira um tanto irregular, alinhando as ruas e adaptando as licenças de construção “aos pontos de vista que deveriam levar em conta qualquer projeto de desenvolvimento urbano”. Fora isso, Eugeni, aproveitando o seu conhecimento em engenharia, foi encarregado de projetar o “estaleiro mecânico” do cais dos pescadores. Essa maquinaria, que foi recentemente restaurada, é um exemplo único na arqueologia industrial do mundo pesqueiro da costa da Catalunha. Apesar de tudo, ao que parece, a prefeitura de Calafell não lhe pagou devidamente pelos seus trabalhos.

Bonde elétrico

Além de arquiteto e engenheiro de minas ele também tinha vasta experiência com eletricidade e motores elétricos. Assim ele fez um visionário projeto de transporte público para interligar ComarugaSant SalvadorEl Vendrell, a praia de Calafell e o seu centro. Uma ideia extraordinária e magnífica de conectar todas essas praias com o centro do povoado e o mercado local utilizando linhas de bondes elétricos, porém os prefeitos da época não tiveram coragem ou vontade de pôr o projeto em prática que, por fim, acabou caindo no esquecimento.

Os projetos de Eugeni Duran foram apresentados entre 1925-1926 com ideias muito avançadas para a época, o que não o impediu de pôr boa parte delas em prática. Felizmente, o seu nome e suas autorias foram resgatadas pelo seu filho (aos 90 anos de idade) antes de cair no total esquecimento. E o seu legado se manteve em Calafell, apesar da chegada do expansionismo descontrolado e o do crescimento turístico desmedido.

Fontes: https://www.diaridetarragona.com/costa/Las-ideas-anarquistas-en-el-diseno-de-Calafell-20210317-0058.html

https://didcticadelpatrimonicultural.blogspot.com/2021/03/l-eugeni-duran-l-arquitecte-enginyer.html 

https://www.diaridetarragona.com/costa/Cuando-los-ninos-se-autogobernaron-en-Calafell-20190616-0018.html

Tradução e recompilação > Ligeirinho

agência de notícias anarquistas-ana

diante do mar
três poetas
e nenhum verso

Alice Ruiz