[Colômbia] Abolir o Estado, Constituir as Assembleias!

A guerra, que se mantém nos territórios, tem sido continuada devido a decisões políticas contrárias ao povo. E são as mesmas pessoas que continuam a deitar mortos, que continuam a sofrer o abuso do Estado, a repressão das forças de segurança que só servem para manter os privilégios daqueles que controlam o poder político e/ou econômico, das promessas não cumpridas que levaram ao início de um novo ciclo de violência, à traição de acordos que semearam a esperança, mas decidiram colher um fogo alimentado com gasolina.

Hoje, diferentes agrupamentos, coletivos e organizações, nos manifestamos publicamente contra a reforma fiscal sobre bens essenciais de subsistência, mas não apenas porque consideramos esta reforma como um roubo organizado ao bolso da classe trabalhadora, camponeses, trabalhadores e trabalhadoras de serviços, por conta própria e autônomos. Se não, além disso, tornamos evidente o fracasso que constitui este governo uribista de Iván Duque, assim como o desastre que é todo o aparato estatal deste país, que tentou esconder com obras públicas, leis, decretos, propaganda da mídia e nacionalismo barato, o roubo organizado que realmente é, sobre a totalidade do povo desta região do continente.

Os impostos de que Duque falava – mentirosamente – de reduzir, independentemente do presidente em exercício, foram, são e serão, um roubo geral do povo, porque garantiram, através da máfia clientelista, o acesso ao poder de não mais de 20 famílias em todo o país, que se enriqueceram corruptamente e continuam a exercer o poder nos territórios – muitas vezes – através do uso de armas, legais ou ilegais; beneficiando-se de aluguéis legais e do mercado negro, – entenda-se – tráfico de drogas, contrabando, tráfico humano, engorda de terras, desapropriação de terras de camponeses, mineração ilegal.

Como podem esperar que o povo continue a acreditar no Estado, se o mesmo governo que o controla, age sistematicamente contra o povo?

O tratamento da pandemia é desastroso, não apenas o Duquismo arruinou a opção covax quando poderia ter garantido o fornecimento de vacinas, mas também ousaram fazer negócios com a saúde, às custas dos impostos que roubam dos trabalhadores.

A pressão sobre os trabalhadores da saúde, a superexploração que sofrem, dia após dia, não é exclusiva, já que os professores também têm sido profundamente afetados, sem mencionar todas as pessoas, que com seu suor, lágrimas e esforço sustentam um estado que leva mais do que realmente dá.

Recuperar as autonomias municipais, a coletivização do território entre aqueles que o habitam ancestralmente ou tradicionalmente (não entre aqueles que por usurpação, desapossamento e deslocamento as obtiveram), exercer a assembleia, o comunalismo e a horizontalidade, onde todas as decisões se dão coletivamente, uma assembleia aberta, participativa, diversa em diálogo permanente, rejeitando qualquer autoridade, caudilhismo, caciquismo, patronalismo e patriarcalismo.

Por tudo isso, e muito mais, é que os anarquistas, nos expressamos em retumbante oposição às simples ações, o que constitui um desfile pela sétima via, quando em verdade convocamos a Greve Geral Indefinida, que leva a mover o status quo em benefício do povo: de suas minorias crioulas oligárquicas e burguesas, para os povos amplos, abrangentes e diversos que compõem a maioria da população da região colombiana.

Não é necessário que o Estado controlado pela elite decrete a REFORMA AGRÁRIA, as próprias comunidades, cidades e municípios podem fazê-lo, sem intermediários, basta que eles concordem com uma assembleia e a iniciem.

Abolir as relações de subordinação ao estado narco-oligárquico!

Acabar com a atividade passiva, é hora de ir para as ruas!

Obstruir o exercício da repressão!

Constituir assembleias autônomas de bairro e municipais!

Abolir as relações de opressão machista e patriarcal: participação diversificada e igualdade de gênero, acordos de renúncia à guerra!

Desobediência civil desarmada!

Evitar a reforma tributária, reforma previdenciária e reforma trabalhista!

Abolir o Estado!

Constituir as assembleias!

Colectivx Kaos Kreador Antifascista | Banderas Negras | ULET-AIT

Fonte: https://www.acat-ait.org/2021/05/06/abolir-el-estado/

Tradução > Liberto

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sob a janela
o gato prepara o salto
como sempre faz

Fred Schofield

[Turquia] O estado matou Bayram!

Bayram vive!

O anarquista azerbaidjano Bayram Mammadov, torturado e preso por três anos por pichar sobre a estátua do ex-presidente e ditador Heydar Aliyev, no Azerbeijão, foi encontrado morto em Istambul no dia 5 de maio de 2021.

Bayram foi preso no Azerbaijão em 2016 e foi libertado há cerca de dois anos. Ele morava em Istambul, na Turquia, há pouco tempo. Bayram estava desaparecido há quatro dias, quando a polícia informou os seus amigos na quarta-feira, 5 de maio, que o corpo dele tinha sido encontrado em uma praia. Uma morte muito suspeita.

A Federação Anarquista Revolucionária (DAF, Devrimci Anarşist Federasyon) protestou em 6 de maio em frente ao consulado do Azerbaijan em Istambul com a faixa “O estado matou Bayram!”.

A seguir, o texto divulgado pela DAF

O anarquista Bayram Mammadov estava na mira do estado do Azerbaijão desde o primeiro dia em que começou a se opor a ele. Ele foi torturado, caluniado, preso, e finalmente forçado a viver como um exilado político. Agora o estado da Turquia diz que Bayram se matou. Nós sabemos que eles estão mentindo. Como escrevemos na nossa faixa, “O Estado matou Bayram”. Protestamos em frente ao Consulado azerbaidjano com nossa faixa para gritar a verdade ao mundo inteiro. Não vamos parar de perguntar o que aconteceu com Bayram!

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Noite de lua cheia
dentro do céu nublado
Ainda incendeia

Alice Ruiz

[Espanha] Lançamento: “El bien más preciado. Artículos libertarios”, de Javier Valenzuela

El bien más preciado es la libertad“, diz a letra de um velho hino anarquista espanhol. Javier Valenzuela defende com paixão esta ideia em todos e cada um dos artigos reunidos neste livro. Trate-se do humor, do sexo, da eutanásia, das drogas, da imigração ou da identidade de Espanha, Valenzuela prefere sempre a liberdade à autoridade, a justiça à lei e a ordem, a rebelião ao servilismo, o que o faz ir contra a corrente do conformismo tão comum em nosso tempo. Escritos com o sal da boa caneta e a pimenta da irreverência, estes artigos estão tão inspirados pelo Cervantes da “liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus” como pelo Camus de “sem liberdade não há arte”.

El bien más preciado

Artículos libertarios

Javier Valenzuela

MAKMA, Colección Hojas de bisturí. Valencia 2021

192 págs. Rústica 20×14 cm

ISBN 9788494680526

18,00 €

makma.net

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Anoitece
Atrás da colina
O sol adormece

RôBrusch

[Espanha] Memória | Assim os comunistas assassinaram 12 anarquistas em Barcelona

Por Manuel Aguilera Povedano

O juiz Josep Vidal recebeu um caso complicado em 10 de maio de 1937. Haviam aparecido vários cadáveres não identificados em um vinhedo nas imediações de Barcelona e ele, com apenas 30 anos, era o eleito para investigá-lo. Naquela mesma tarde chegou a Cerdanyola com três agentes e o médico forense. Não ia ser nada fácil. Anotou em sua caderneta que havia “doze cadáveres, com as caras muito sujas, e começando a se decompor, apresentando, aparentemente, sinais externos de violência”.

A coisa estava feia. Em plena guerra contra o fascismo, comunistas e anarquistas acabavam de se enfrentar nas ruas de Barcelona nos chamados Feitos de Maio e agora, quando parecia que a situação se acalmasse, aparecia isto. Os corpos estavam de boca para cima e ao longo do caminho e vários apresentavam tiros na cabeça feitos a pouca distância. Estava claro que haviam sido executados em outro lugar e abandonados ali. Se não, algum vizinho teria escutado disparos. “Aqui há marcas de pneus. Parecem de caminhonete”. Era a primeira pista. Se via claramente como um veículo havia manobrado para dar a volta. Não havia nada mais importante. Só um pacote de cigarros e um pedaço de corda manchados de sangue.

A grande incógnita era saber quem eram. Não havia nenhum documentos nos bolsos nem nada identificativo. Os camponeses da região não tinham nem ideia. Tampouco os cinquenta curiosos que observavam a cena com cara de espanto. Em Barcelona havia nesse momento um caos de denúncias de desaparecidos porque comunistas e anarquistas estavam ainda liberando os prisioneiros. Durante os combates houve 218 mortos, mas isto era outra coisa. Estes não tinham caído em um combate de rua, tinham sido selvagemente torturados e executados. “Como são da CNT vão nos foder bem”, comentou um dos agentes. Outro se aproximou de um dos cadáveres e mostrou aos demais o bordado da camisa: “CNT”. “Vão nos foder bem”, murmurou o juiz.

O juiz ordenou fotografar os cadáveres e transladá-los ao depósito judicial de Barcelona. Cedo ou tarde alguém viria reclamá-los e poderiam identificá-los. Assim seria com todos menos com dois. Mesmo 83 anos depois, ainda não se sabe seus nomes.

Em 12 de maio Solidaridad Obrera publicou que em Cerdanyola “uma misteriosa ambulância da saúde abandonou os cadáveres, barbaramente massacrados, de 12 militantes das Juventudes Libertárias”. A autopsia determinou que haviam sido “golpeados, maltratados ou torturados antes de seus fuzilamentos”. A instrução do caso estava pondo o jovem juiz em um terrível compromisso. Os assassinos pareciam estar bastante claros e tinham muito poder. PSUC e PCE mandavam mais que nunca nos governos catalão e central. Os testemunhos iam esclarecendo uma história que poderia derrubar a retaguarda republicana.

Uma semana antes, em 4 de maio de 1937, as seis da tarde, cinco jovens anarquistas se reuniram no bairro de Sant Andreu. Levavam alguns fuzis e queriam somar-se à luta contra o PSUC e ERC que havia começado no dia anterior. O mais jovem, Joan, de 20 anos, dirigia. O maior, Jose, de 33, ia a seu lado. Atrás se sentaram Francisco, César e Juan Antonio. “Por onde vamos? Está tudo cheio de barricadas”, perguntou um. Transitar por Barcelona era um suicídio. Uma rua era anarquista e outra comunista. “Vamos à Casa CNT-FAI, não? Melhor evitar o centro. Eles controlam o Paseo de Gracia”.

O destino era a Vía Laietana assim que preferiram dar uma volta pelo Parc da Ciutadella. Ignoravam que ali haviam se instalados milicianos da Coluna Carlos Marx e todos os acessos eram uma armadilha. Quando iam pela rua Pujades ouviram uns disparos e uma barricada lhes impediu a passagem. Em seguida se viram rodeados por “uns indivíduos que usavam boina com uma estrela vermelha”. “Cinco golpistas!”, gritou um dos comunistas. “Levem-nos ao quartel e que confessem”.

Ali, em umas celas do Quartel Carlos Marx, estiveram golpeando-os de um em um. Nas horas seguintes chegaram mais cenetistas detidos nas imediações. Agustín, ferroviário; Santos, curtidor com quatro filhos; e Carles, um tenente da Coluna Durruti que estava de licença. Logo chegou Joaquín, de apenas 18 anos, militante ativo das Juventudes Libertárias de Gracia. O dia acrescentou mais dois detidos, de 18 e 55 anos. O jovem levava as siglas “CNT” bordadas na camisa. No total, eram onze nas celas.

Em Sant Andreu se inquietavam porque não sabiam nada de seus companheiros. No dia seguinte, quatro anarquistas saíram em sua busca. Realizaram o mesmo trajeto que eles até que em Poble Nou uns vizinhos lhes avisaram de que seguir em carro era um suicídio. Decidiram continuar a pé, com o fuzil bem preparado, mas não evitaram a emboscada. Houve um tiroteio e um caiu ferido de morte: Toni, de 20 anos. Outro ficou detido: Lluís, de 19.

Os 12 detidos do Quartel Carlos Marx sofreram maltratos durante três dias. Golpearam-nos com culatras de fuzil, lhes cortaram com facas… Até que chegou a paz em 7 de maio. Os carcereiros tiveram que decidir: liberá-los e arriscar-se a uma denúncia por tortura ou desfazer-se deles. Os fuzilaram nesse mesmo dia e levaram os corpos a Cerdanyola.

A mãe do mais jovem, Joaquín, estava movendo céus e terra buscando seu filho. As pistas a levaram até o Quartel e ali se apresentou. Lhe responderam que se equivocava, que seu filho não estava ali. E era verdade. Seu corpo jazia já em Cerdanyola. Também o buscava seu irmão maior, Alfredo, que era um conhecido dirigente das Juventudes Libertárias. Como podia dar muitos problemas, também o assassinaram e seu cadáver ainda não apareceu.

O juiz Josep Vidal desistiu de avançar na investigação. Não se atreveu a mandar a polícia ao quartel comunista. Sem provas conclusivas, a Audiência encerrou o caso mas a CNT não estava disposta a esquecer. Empreendeu sua própria investigação secreta e identificou os supostos assassinos. Existe um informe manuscrito no Arquivo de Salamanca* com o nome dos culpados, seu cargo e seu domicílio. Não se sabe se sofreram represálias. A CNT preparou também um plano de vingança pelos Fatos de Maio, mas essa é outra história.

Estes são os 12 mártires de Sant Andreu:

1. Joan Calduch Novella. 20 anos. Natural de Arenys de Mar. Solteiro. Vivia em San Andrés, rua Bartrina 31, bajos.

2. José Villena Alberola. 33 anos. Vivia com seus pais e irmão na rua Estevanes 14, principal primera, do bairro de A Sagrera de Barcelona.

3. Francisco Viviana Martínez. 27 anos. Natural de Valência. Casado com Montserrat Uch Moré e com dois filhos: Josefa e Francisco.

4. César Fernández Pacheco. 25 anos. Natural de Barcelona. Solteiro. Vivia com sua irmã e cunhado na rua Montepellier, 32 bajos.

5. Juan Antonio Romero Martínez. 24 anos. Natural de Águilas (Murcia). Solteiro.

6. Agustín Lasheras Cosials. 25 anos. Natural de O Vendrell. Solteiro. Ferroviário. “Desconhecido número 6”.

7. Santos Carré Poblet. 30 anos. Casado. Quatro filhos. Curtidor. Vivia em Passatge Serrahima, 4, 2º (Poble Sec).

8. Carles Alzamora Bernad. 27 anos. Natural de Cuba. Solteiro. Ferroviário. Tenente da Coluna Durruti. “Desconhecido número 1”.

9. Joaquín Martínez Hungría. 18 anos. Dependente em uma loja. Militante das Juventudes Libertárias de Gràcia. “Desconhecido número 4”.

10. Lluís Carreras Orquín. 19 anos. Natural de Barcelona. Solteiro. Sargento de Milícias.

11. Desconhecido. 18 anos. “Desconhecido número 3”. Levava o bordado da CNT.

12. Desconhecido. 55 anos. “Desconhecido número 2”.

Como dissemos, outros dois implicados no relato foram assassinados: Antoni Torres Marín (20 anos) e Alfredo Martínez Hungría (uns 24 anos).

Agradeço a Agustín Guillamón que me facilitou o informe judicial que publicou em seus livros La represión contra la CNT y los revolucionarios (2015) e Insurrección (2017). Agradeço também a Jordi Bigues suas investigações a respeito. Publicou suas conclusões neste artigo¹ de 2018.

*”Os indivíduos que executaram os 12 companheiros de Sardañola e seus prêmios”. Centro Documental da Memória Histórica. Salamanca. PS Barcelona. Caixa 178 nº 49.

[1] https://directa.cat/dotze-joves-llibertaris-assassinats-per-lestalinisme/

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Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.

Matsuo Bashô

“Eu me orgulho do sangue de Zumbi”

“Como brasileira e descendente de algumas gerações de brasileiros, devo ter sangue do negro e do índio nas minhas veias. Eu me orgulho do sangue de Zumbi e exalto dentro de mim a epopeia da Confederação dos Tamoios.

Eu sinto, no mais profundo do meu ser, a beleza heroica da odisseia do negro fugido e olho com orgulho o penacho altivo do índio que preferiu morrer a ser escravo. Renego o sangue do bandeirante, capitão do mato, caçador de ouro e de escravos. Renego o sangue do “Moço Fidalgo da Casa Real” (…) Renego essa fidalguia de sangue e essa fidalguia de banditismo. Mas me orgulho da minha estirpe anônima, de meu pai abolicionista que morreu na mais completa pobreza, esquecido dos companheiros”.

— Maria Lacerda de Moura, em “A Legião Negra de São Paulo: Palmares” (1932).

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Sempre do mesmo lado,
O dia todo e a noite inteira,
O vento da montanha.

Paulo Franchetti

[Espanha] Mais de 70% de adesão na greve do Grupo Alonso

Por CNT Valência

As paralisações convocadas pela CNT se iniciaram às 17 horas e foram apoiadas de forma majoritária por mais de 70% dos trabalhadores/as das sete empresas do Grupo Alonso.

Dezenas de caminhões se reuniram no início das paralisações na base do Grupo Alonso, situada no município de Quart de Poblet. As paralisações convocadas pela CNT foram apoiadas por mais de uma centena de caminhões, com uma adesão superior a 70% da frota de veículos que foram chamados para a greve.

A essa mesma hora, se formou um grande piquete informativo em frente aos escritórios da direção de recursos humanos reclamando que se tenham em conta os seus problemas reais e as reivindicações da greve. Em especial, solicitam o estabelecimento de uma tarifa fixa para todos/as igualmente, evitando discriminações nas retribuições, entre outras petições.

O pessoal se encontra com força e muito unido. Desde a CNT se adverte a empresa de que as mobilizações não vão cessar até que as reivindicações dos trabalhadores/as sejam ouvidas. Amanhã continuarão as paralisações às 14 horas durante todo o final de semana.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/mas-de-un-70-de-seguimiento-en-la-huelga-del-grupo-alonso/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã

Zemaria Pinto

A ascensão da narcomilícia neopentecostal no Brasil

Traficantes, paramilitares e igrejas se unificaram em uma “guerra santa” contra grupos rivais e religiões afro-brasileiras.

Bandeiras de Israel foram içadas nos pontos mais altos da favela Cidade Alta, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Barricadas são levantadas para conter a entrada da polícia e de grupos rivais. Nestas barricadas, o símbolo da Estrela de Davi adverte os transeuntes sobre o território em que estão entrando. Em um bunker utilizado por narcotraficantes, forças policiais encontraram munições para metralhadoras antiaéreas, coletes balísticos e uma cópia de luxo da Torá, o livro sagrado do Judaísmo.

À sombra da pandemia da Covid-19, grupos criminosos assumiram o controle de cinco favelas na periferia do Rio de Janeiro e estabeleceram o autoproclamado Complexo de Israel. Rivais históricos na disputa pelo controle territorial, narcotraficantes e paramilitares uniram forças para avançar seus negócios ilegais. O Complexo de Israel é liderado pelo chefe do tráfico Álvaro Rosa, conhecido sob o apelido de Arão – o irmão bíblico de Moisés – e ex-polícias ligados ao grupo paramilitar Escritório do Crime, um esquadrão da morte notório, considerado responsável por vários crimes, incluindo o assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018. Atualmente, o grupo exerce controle sobre pelo menos 130 mil residentes.

Os moradores da região relatam a perda da liberdade de movimento e religião, bem como a destruição de terreiros de candomblé. Pais e mães de santo foram expulsos do território. Além disso, os moradores foram proibidos de usar trajes brancos – a cor geralmente associada aos praticantes das religiões afro-brasileiras.

O estabelecimento do Complexo de Israel representa um fenômeno inédito, mesmo em um Rio de Janeiro acostumado à toda sorte de atividade criminosa: a unificação de facções de tráfico de droga, grupos paramilitares e igrejas neopentecostais, travando uma “guerra santa” não só contra grupos criminosos rivais, mas também contra as religiões afro-brasileiras.

O tráfico de drogas e as religiões afro-brasileiras

Caracterizadas pelo abandono do Estado e pela pobreza crônica, grupos armados se estabeleceram nas favelas e periferias urbanas do Rio desde a década de 1980, reivindicando a maior parte dos seus rendimentos através do narcotráfico. Controlando acima de 50% das áreas mais violentas da cidade em 2005, o Comando Vermelho representa há muito tempo o grupo com maior poder no narcotráfico do Rio de Janeiro.

Durante as décadas de 1980 e 1990, os traficantes se identificaram principalmente com as religiões afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé, cujos locais de culto eram amplamente disponíveis nos seus territórios ocupados. Muitas vezes, os traficantes expressaram sua fé através da construção de altares e grafites dedicados às divindades afro-brasileiras.

Desde os anos 1980, grandes operações policiais foram realizadas nas favelas ocupadas por grupos de tráfico. Dada a ligação bem estabelecida entre o narcotráfico e as religiosidade afro-brasileiras, muitas dessas operações policiais foram acompanhadas por uma conversão simbólica, substituindo os símbolos religiosos afro-brasileiros e os lugares de adoração com expressões de fé cristã-evangélicas. As igrejas evangélicas têm expandido significativamente sua influência desde o final dos anos 90, formando uma rede religiosa e que promove uma “guerra contra o mal”, ancorado principalmente nas periferias. Apenas entre 2000 e 2010, o número de evangélicos aumentou mais de 60% no país.

O nascimento do narcopentecostalismo

Desde os anos 80, as igrejas evangélicas têm expandido suas atividades de missionários para prisões e outros estabelecimentos penitenciários. Atualmente, o número de reclusos convertidos ao neopentecostalismo nas prisões brasileiras é significativo.

As prisões sempre representaram um espaço chave para a formação de organizações criminosas. De fato, todas as grandes facções de narcotráfico, tais como o Comando Vermelho, Terceiro Comando e o Primeiro Comando da Capital, foram fundadas em prisões.

Ocasionalmente, a abundante presença evangélica em estabelecimentos penitenciários tem se traduzido na conversão de traficantes. Este foi especialmente o caso do Terceiro Comando Puro, o principal rival do Comando Vermelho. Enquanto cumpriam sentenças em prisões estaduais, vários líderes foram convertidos para a religião neopentecostal.

Pouco tempo depois, o primeiro grupo narcopentecostal conhecido foi fundado como uma subfacção do Terceiro Comando Puro: o Bonde de Jesus. Além de controlar o tráfico no bairro do Parque Paulista no Estado de Rio de Janeiro, os Soldados de Jesus atacaram e vandalizaram vários templos de Candomblé e de Umbanda, expulsando os sacerdotes dos seus territórios. Desde então, a perseguição não só das religiões afro-brasileiras, mas também de padres católicos, tem sido relatada em várias favelas dominadas pelo Terceiro Comando Puro.

A ascensão das milícias e novas alianças

Outra força importante no equilíbrio de poder no Rio de Janeiro são as chamadas “milícias”. Desde a ditadura militar, os grupos de extermínio formados por forças paramilitares e parapoliciais assumiram o controle de bairros inteiros. Muitas vezes comparada à máfia italiana, a milícia obtém as suas principais receitas da “gestão da violência” nos territórios sob o seu controle, coagindo a população local ao pagamento de taxas de proteção para as suas residências ou empresas. Em alguns bairros, milicianos também controlam outros ramos de infraestrutura, tais como a distribuição de gás, TV por cabo e transporte alternativo.

Compreendendo a milícia como um aliado estratégico no combate ao narcotráfico, diversos representantes do Estado apoiaram abertamente esses grupos paramilitares. O atual prefeito do Rio, Eduardo Paes, por exemplo, declarou no passado que as “forças de autodefesa” formadas por policiais e bombeiros coibiam os narcotraficantes e traziam paz para certos bairros. É comum também nas fileiras policiais a percepção da milícia como uma extensão das suas próprias corporações, uma vez que são formadas por uma grande parte de ex-policiais e soldados do exército.

Contrariando esta reputação, associações entre grupos de milicianos e traficantes ligados ao Terceiro Comando Puro foram expostas. Para fortalecer sua posição em relação ao seu inimigo comum, o Comando Vermelho, os grupos criminosos lançaram uma nova joint-venture: nos territórios recém-conquistados, o Terceiro Comando Puro é responsável pelo tráfico de drogas, enquanto a milícia continua administrando e cobrando pela TV a cabo e pelo gás. As igrejas evangélicas, por sua vez, não fornecem apenas a justificativa ideológica para a guerra contra o demoníaco Comando Vermelho, mas também têm sido utilizadas para a lavagem de dinheiro. Como as igrejas são isentas do pagamento de impostos, fundos ilegais são facilmente canalizados por meio delas, tornando impossível rastrear a origem desse dinheiro.

A narcomilícia neopentecostal

Apesar da abordagem perigosa, a tripla aliança entre os traficantes do Terceiro Comando Puro, a milícia e igrejas evangélicas parece funcionar bem. Em janeiro deste ano, o Complexo de Israel expandiu o seu território para outros bairros do Rio de Janeiro, a convite dos próprios traficantes locais. A Polícia Civil do Rio também está investigando uma suposta aproximação com criminosos de outras regiões.

Também fora do Complexo de Israel, o poder desta joint-venture está aumentando: O Terceiro Comando Puro conseguiu expandir significativamente o seu território, conquistando importantes bastiões do Comando Vermelho na cidade.

O maior vencedor, talvez, desta nova aliança poderá ser a milícia: no ano passado, ao menos 57% da área da cidade do Rio de Janeiro era dominada por grupos milicianos, colocando 5,7 milhões de habitantes da cidade sob a mercê de organizações paramilitares. As autoridades não são inocentes neste desenvolvimento. Territórios controlados pela milícia raramente são alvo de operações policiais: desde 2018, apenas 3% das operações militares e policiais foram lançadas em territórios ocupados pela milícia.

Apesar de algumas detenções ocasionais, estas organizações criminosas altamente lucrativas e profissionais não podem ser seriamente confrontadas sem visar suas estruturas políticas e fontes de financiamento. Isto inclui rever a estrutura de transporte público e distribuição de gás e de TV a cabo – a principais fontes de rendimento das milícias – bem como a atual legislação sobre drogas e impostos para igrejas, muitas vezes utilizadas para lavagem de dinheiro.

Embora isto possa parecer uma discussão difícil, o preço atualmente pago pela população do Rio, tomada como refém pela narcomilícia neopentecostal é muito mais elevado: ao terror propagado pelos grupos armados acrescenta-se a perda da liberdade de fé e a perseguição das religiões afro-brasileiras e dos seus praticantes.

Fonte: https://www.opendemocracy.net/pt/ascensao-narcomilicia-neopentecostal-brasil/?fbclid=IwAR06Ajtk0nL47g8d8reWe0nNMPF6zT2a8f6QPF0ae2wKNe9FomFKlTb77W4

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dois amigos na janela
a lua
encontra o pinheiro

Ricardo Portugal

[Portugal] “Defender as revoluções era, para mim, o meu dever histórico.”

A seguir, entrevista a um combatente internacionalista das YPG.

Podes apresentar-te e introduzir a tua história em Rojava?

O meu nome de militante é Sorxwin Soresger, tenho cerca de trinta anos e cresci na Europa. Participei em diferentes lutas na Europa até que decidi juntar-me às YPG como voluntário internacionalista no Nordeste da Síria em 2015, para me juntar à luta contra o Estado Islâmico e defender a revolução de Rojava.

Como era a situação geopolítica quando foste para Rojava? Qual era a situação da guerra e a política em torno dela?

É uma questão muito ampla. Talvez não consiga ser muito preciso, visto que já foi há alguns anos e a minha memória não é muito boa. Lembro-me que era a época do Obama no ocidente e que isso teve um impacto aqui. Após a vitória em Kobane, os americanos começaram a coordenar-se mais com as nossas tropas (por exemplo, desenvolvendo um sistema de comunicação com as nossas unidades no terreno e com os seus aviões de combate). Em Bakur e no resto da Turquia o HDP também estava com força após uma grande vitória política nas eleições. No final de 2015 o Estado turco e a máfia ligada a ele iniciaram uma operação para criminalizá-los e atingir de forma mais ampla o movimento curdo, iniciando uma operação militar contra cidades e vilas do lado curdo. Lembro-me de uma vez que estava em Qamishlo (na Síria) a olhar para a sua cidade gémea, Nusaybin (do lado turco da fronteira), que havia sido destruída por tanques turcos. Neste dia senti-me muito desconfortável. Nós estávamos no país em situação oficial de guerra, mas na verdade a guerra acontecia a algumas centenas de metros de onde estávamos, do outro lado da fronteira, num país que não estava oficialmente em estado de guerra civil. Lembro-me que fiquei muito zangado com os media ocidentais por não cobrirem esses eventos. De resto, a situação em Rojava era bastante diferente de agora. A fronteira com o Iraque não era hermética como agora e a Turquia não tinha ainda construído o muro que existe hoje. Além disso, o Daesh ainda estava presente e controlava territórios. Quando cheguei a Rojava, o tema principal era a criação da aliança das SDF (concretamente uma aliança entre as milícias YPG e ASL para impedir a expansão do Estado Islâmico). Em 2015, após a batalha de Kobane, as nossas forças iniciaram uma grande ofensiva para cortar a linha de abastecimento do Daesh que vinha da Turquia. No fim de 2015, partimos para a ofensiva na principal cidade controlada pelos jihadistas, onde havia o maior e mais infame mercado de escravos, Al-Shadadi. Foi uma operação longa e perdemos muitos bons camaradas nesta batalha. A frente era muito extensa desde a cidade até às aldeias perdidas no meio do deserto. Depois de alguns meses de lutas intensas, conseguimos ganhar o controlo da cidade e libertar milhares de pessoas do poder jihadista.

>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:

https://guilhotina.info/2021/05/07/defender-rojava-entrevista/

agência de notícias anarquistas-ana

Neve ou não neve
onde há amigos
a vida é leve

Alice Ruiz

Honra e luta pelo anarquista Bayram Mammadov, encontrado morto em Istambul

Era 2016 quando o anarquista Bayram Mammadov junto com Gias Ibrahimov foram presos pela polícia do Azerbaijão, acusados de pintarem um grafite dizendo “Foda-se o sistema” e “Feliz dia dos escravos” no monumento ao falecido ex-presidente e ditador Heydar Aliyev, que é o pai do atual ditador do Azerbaijão, Ilham Aliyev. Os companheiros foram torturados pela polícia azerbaijanesa para admitir as acusações. Os policiais forçaram os companheiros a aceitar as falsas acusações sobre atividades criminosas sérias de porte de drogas, torturando-os. Embora os companheiros fossem torturados e forçados a aceitar falsas acusações por porte de drogas, ficou claro que o regime totalitário do Azerbaijão estava procurando criminalizar os companheiros com falsas acusações. O regime totalitário até tentou forçar os companheiros a pedir desculpas publicamente diante da estátua do ditador Heydar Aliyev, mas os companheiros recusaram corajosamente a exigência política do regime. Os companheiros acabaram sendo condenados a 10 anos de prisão sob falsas acusações, mas foram libertados sob pressão pública contra o regime do Azerbaijão, após três anos de tortura nas prisões do regime.

O anarquista Bayram Mammadov, que vivia na Turquia há algum tempo após sua libertação em 2019, hoje, 5 de maio, foi encontrado morto em uma praia de Istambul (de acordo com as informações da imprensa).

“Mas o que aconteceu com ele efetivamente precisa ser esclarecido”.

O regime ditatorial do Azerbaijão, juntamente com a ditadura da Turquia, está caminhando para um regime teocrático, anseia por um império construído por terroristas islâmicos otomanos. As severas repressões internas, juntamente com os ataques no exterior, fazem parte deste mecanismo terrorista que os regimes turcos e azerbaijanês estão buscando estabelecer.

Ilham Aliyev carrega o legado político do Partido Comunista Soviético e da KGB. O ex-ditador do Azerbaijão Heydar Aliyev, como fundador do Novo Partido do Azerbaijão, foi membro do Comitê Central do Partido Comunista Soviético de 1982 a 1987. O ditador Heydar Aliyev demonstrou repetidamente sua lealdade ao Partido Comunista Soviético e a KGB (Heydar Aliyev foi membro da KGB de 1941 a 1969). Em 1969, Heydar Aliyev foi nomeado pela KGB como Secretário Geral do Partido Comunista do Azerbaijão. Após o colapso da União Soviética em 1991, o bolchevique Heydar Aliyev continuou seu domínio sobre o Azerbaijão, criando o partido do Novo Azerbaijão em 1992. Finalmente Heydar Aliyev morreu em 12 de dezembro de 2003, aos 80 anos de idade.

O ditadorzinho Ilham Aliyev, chegou ao poder no Azerbaijão após a morte de seu pai bolchevique. Ilham Aliyev estudou no Instituto de Relações Internacionais de Moscou e foi educado pela KGB. O Instituto de Relações Internacionais de Moscou, especificamente, foi um dos centros para formar espiões e mercenários para a KGB, recebendo estudantes que vinham de outras regiões para serem treinados pela KGB e que depois retornavam à sua cidade natal para fazer as políticas da KGB. O fato de Ilham Aliyev ter sido estudante no Instituto de Relações Internacionais de Moscou de 1985 a 1990 é uma prova de que o ditador bolchevique Heydar Aliyev fez parte da KGB.

A morte suspeita do anarquista Bayram Mammadov deve ser trazida à atenção do movimento internacional. Ilham Aliyev aprendeu as tramas de assassinato da KGB em Moscou por muitos anos, e não está fora da realidade que estes neo-bolcheviques mataram nosso companheiro Bayram Memmedov.

O bolchevismo é o inimigo da classe trabalhadora.

Abtin Parsa

5 de maio de 2021

>> Abtin Parsa é um ex-prisioneiro político anarquista iraniano que mora atualmente na Holanda.

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Neste outono,
Como estou ficando velho!
Pássaros nas nuvens.

Bashô

[Colômbia] “É infame que matem jovens desarmados”, diz pai de adolescente morto com tiro

Por Boris Miranda | 07/05/2021

Santiago e Marcelo são dois dos pelo menos 24 mortos durante os protestos que tomaram as ruas da Colômbia na última semana e deixaram cerca de 800 feridos.

Ambos eram jovens, estavam prestes a concluir o ensino médio e entrar para a universidade.

E foram atingidos por disparos da polícia em meio à onda de manifestações registradas na Colômbia desde 28 de abril contra o projeto de reforma tributária do governo Iván Duque.

Os pais dos dois jovens exigem justiça. Um pedido que visa não só a polícia, mas também as Forças Armadas e o próprio presidente Duque.

Injustiça

Marcelo decidiu sair às ruas para protestar contra a reforma tributária “cansado de tanto abuso”, conta seu pai, Armando Agredo, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

A família mora em Cali, capital do Vale do Cauca (no sudoeste do país) que foi o grande epicentro das manifestações.

“Marcelo tinha 16 anos quando foi baleado. Meu filho não tinha absolutamente nada na mão, nenhuma arma. Ele não era uma ameaça. Como podem tirar a vida de uma pessoa indefesa? Por isso, pedimos justiça”, desabafa o pai.

Agredo conta que o filho deu um pontapé em um policial que se aproximava do grupo de manifestantes e isso fez com que ele sacasse a arma.

“Não se justifica. Um pontapé não justifica atirar para matar um rapaz saudável, desarmado. Um pontapé não é para tirar a vida de um ser humano”, acrescenta.

Segundo ele, “é infame que matem jovens desarmados”.

“É um abuso de autoridade de uma pessoa que tinha um revólver quando meu filho não tinha absolutamente nada”, conclui.

Por sua vez, Miguel Murillo, pai de Santiago, tampouco encontra justificativa para o tiro no peito que acabou com a vida de seu filho em Ibagué, capital do departamento de Tolima (a oeste do país).

“O meu filho já estava indo para casa, não estava em nenhuma passeata. As testemunhas me contaram que passou um tanque perto delas, alguém atirou uma pedra e os policiais saíram. Não sei porque reagiram dessa forma para atingir Santiago com uma bala”, diz ele.

O pai descreveu o ocorrido como um episódio “cruel” e acrescentou que, mesmo que não tivesse ocorrido com seu filho, merecia todo repúdio.

“Eles não têm o direito de fazer o que fazem. O pior é que nesse país você vê isso o tempo todo. Há muitos crimes semelhantes que já foram cometidos, matar jovens causa muita dor nas famílias”, declara.

No relatório da Defensoria Pública sobre as causas das mortes, consta que tanto Marcelo quanto Santiago perderam a vida por armas de fogo.

Onze das mortes confirmadas oficialmente durante os protestos ocorreram em Cali, mas também foram registrados óbitos nas cidades de Bogotá, Ibagué, Madrid, Medellín, Neiva, Pereira, Soacha e Yumbo. A maioria dos mortos e feridos são jovens.

Fonte: BBC News Mundo

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casca oca
a cigarra
cantou-se toda

Matsuo Bashô

[México] Convite para eventos de solidariedade com a Família MOVE

Bom dia a todas e todos,

A data do bombardeio despótico da casa coletiva do MOVE em 13 de maio de 1985 pela prefeitura da Filadélfia está se aproximando. Relatórios recentes da imprensa revelam que os ataques do Estado contra o MOVE não param, pois há 36 anos vêm mostrando um nível inimaginável de depravação ao usar os ossos de seus familiares como experimentos em antropologia forense. 

Este mês, convidamos vocês para uma exibição virtual de dois excelentes documentários em homenagem às mulheres, homens, meninas e meninos do MOVE, que cometeram o crime imperdoável de viver em harmonia com a natureza e proteger todas as formas de vida. Respeitamos e apreciamos as e os integrantes da organização que nunca se curvaram enquanto continuam a lutar neste planeta, e também aqueles que foram mortos pelo Estado com balas ou fogo, ou após a morte, usados em pesquisas médicas neo-coloniais. Nosso total apoio vai para as demandas do MOVE por reparações e justiça, incluindo a libertação imediata de Mumia Abu-Jamal.

No domingo, 9 de maio, às 20h na página do FB Amigos de Mumia México, estaremos exibindo o documentário MOVE dos diretores Ryan McKenna e Ben Garry da Cohort Media, 2003, 55 minutos, Filadélfia. Narrado pelo estimado historiador Howard Zinn, o filme apresenta a fundação da organização MOVE no início dos anos 70 pelo coordenador John Africa, suas atividades anti-sistêmicas, os dois atos de guerra urbana contra a organização em 1978 e 1985, e seus prisioneiros políticos que passaram mais de 40 anos atrás das grades. Se você preferir assistir em outro momento, o documentário MOVE legendado em espanhol aparece no YouTube como La Historia de MOVE “35 años en movimiento”https://www.youtube.com/watch?v=KregIt7Y4As

Na quinta-feira, 13 de maio, às 20h, na página do FB Amigos de Mumia México, estaremos exibindo o documentário Ramona Africa. Insidethe Activist Studio, 2016, 136 minutos, NYC. Nesta entrevista com a proeminente porta-voz da organização MOVE, que agora está se recuperando de uma longa doença, ela conta suas primeiras lembranças pessoais de sua comunidade na Filadélfia, de como conheceu o MOVE, o primeiro ato de guerra contra eles em 8 de agosto de 1978, quando 9 homens e mulheres da organização foram presos, e sua experiência de sobreviver ao bombardeio e incêndio da casa do MOVE em 13 de maio de 1985, onde 11 pessoas foram assassinadas, incluindo 5 crianças. Se você preferir exibir o filme em um espaço comunitário, compartilhamos este link: https://archive.org/details/ramona-africa-inside-act

Nesses dias também estaremos divulgando informações atualizadas sobre a situação da família MOVE e, em particular, expressarmos nossa solidariedade com seu evento internacional que acontecerá na Filadélfia no sábado, 15 de maio.

Ona MOVE! Mexam-se!

amigosdemumiamx.blog

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agência de notícias anarquistas-ana

aceita
o vôo é o leito
da borboleta

Joca Reiners Terron

Breve comentário sobre o extermínio que não para | “É esse o cheiro da democracia”

No dia de ontem, 6 de maio de 2021, uma invasão policial à favela do Jacarézinho, na zona norte do Rio de Janeiro, deixou um rastro de sangue. Ao menos 25 pessoas foram assassinadas a tiros pelos policiais. Há também alguns relatos de torturas e invasão de casas de moradorxs da região. Além disso, após a ação, os policiais ainda mexeram nos corpos, montando cenas, tirando fotos e se divertindo com os corpos estendidos no chão.

Após o massacre, a polícia deu uma declaração pública na qual afirmava que a operação foi um sucesso e que as pessoas assassinadas eram “criminosas” e traficantes de drogas. Esse é o argumento usado permanentemente pelo Estado quando mata, na enorme maioria pessoas pretas e pobres, como se elas devessem morrer por representarem um mal. É o racismo de Estado que mostra sua cara.

Não nos interessa defender a “inocência” ou a “culpa” das pessoas executadas. A questão é bem anterior a isso. Salta os olhos como esse tipo de declaração explicita um extermínio em curso, evidencia que a pena de morte neste território nunca deixou de existir. Enquanto isso, mais uma pilha de corpos de pessoas executadas por policiais. E não. Essa não foi uma ação ilegal dentro do Estado democrático de direito, tão defendido por todos os lados. Foi uma operação oficial. Os casos de invasões policiais nas favelas e periferias (na base do cano do fuzil) são diários.

O extermínio é constante, é a outra face do regime democrático. É esse o cheiro da democracia. Cheiro de sangue, cheiro de morte. O massacre de ontem não foi um caso isolado. Não. Não foram desvios de conduta individuais a serem apuradas. Não nos interessa fazer denúncia ao que haveria sido uma operação com excessos. O que ocorreu ontem no Rio de Janeiro é a continuidade de um extermínio em curso, que precisa ser parado. E isso não vai ocorrer com protocolos ou reformas, mas com a ABOLIÇÃO urgente da polícia. Não é possível vida dentro do Estado, esta máquina que se alimenta de corpos e de dor.

Nem esquecimento e nem perdão!

Morte ao Estado,
que viva a vida livre!

(A)

agência de notícias anarquistas-ana

No perfume das flores de ameixa,
O sol de súbito surge –
Ah, o caminho da montanha!

Matsuo Bashô

[Colômbia] Indígenas Misak derrubam estátua de Gonzalo Jiménez de Quesada em Bogotá

O monumento estava instalado na praça da Universidade de Rosário, a três quarteirões da Casa de Nariño.

Indígenas da comunidade Misak derrubaram uma estátua do fundador de Bogotá, Gonzalo Jiménez de Quesada, na capital do país.

O monumento estava instalado na praça da Universidade de Rosário, a apenas três quarteirões da Casa de Nariño.

O fato foi registrado em fotos e vídeos, nos quais os indígenas podem ser vistos gritando slogans a favor da greve nacional que está ocorrendo no país.

“Viva a greve nacional”. “Viva o movimento das autoridades indígenas da Colômbia”, gritaram eles.

Além disso, disseram que, a partir deste momento, o país tem menos uma estátua de um conquistador.

“O que acabamos de fazer, junto com as mulheres mestiças de Bacatá, o movimento das autoridades indígenas do sudoeste, é uma limpeza, uma cura espiritual, derrubando este assassino e estuprador em massa número um aqui em Bogotá”, disse um dos manifestantes à imprensa local.

Esta não é a primeira vez que os povos indígenas derrubam uma estátua no país. Em 28 de abril, no início da greve nacional, eles derrubaram a estátua de Sebastián de Belalcázar em Cali.

Naquele dia, o líder indígena Pedro Velasco, governador da comunidade Misak, disse que estes monumentos são um ataque à memória histórica de sua comunidade.

“Nós a derrubamos porque a colonização do poder, nem em Cauca nem em Valle del Cauca, deveria continuar a existir contra a memória histórica dos 116 povos indígenas na Colômbia”, disse ele.

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Na tarde sem sol
folhas secas projetando
sombras em minh’alma.

Teruko Oda

[Espanha] Consulado da Colômbia em Barcelona amanhece pichado

Ação em solidariedade com a revolta do povo colombiano e denunciando a brutal repressão do Estado

Hoje (07/05) amanheceu pichado o Consulado da Colômbia em Barcelona. Nas paredes, porta e piso do Consulado, liam-se as seguintes frases:

“Colômbia Resiste”.

“Desde Barcelona, todo o nosso apoio, vocês são um exemplo de luta e resistência”.

“Governo colombiano genocida”. Responsável por:

+ de 36 mortes

+ de 10 estupros

+ de 80 desaparecimentos em 7 dias”.

Esta é uma maneira de apoiar a Greve Nacional na Colômbia. O povo está em revolta há mais de uma semana. Desde o primeiro dia o Estado colombiano está respondendo com violência contra os manifestantes, disparando com armas, violando mulheres e desaparecendo com dezenas de pessoas. Apesar disso, a população continua maciçamente nas ruas e a Greve Geral indefinida não pára. Dos vilarejos e comunidades eles descem para as cidades para participar da Greve Nacional.

A luta do povo na Colômbia é um exemplo brutal de luta e capacidade de resistência. Mas não só por estes dias!

A partir do seu local você pode dar uma dimensão internacional à revolta, apoiando da forma que quiser ou achar melhor! Há muitos convocações para apoiar a Greve Nacional na Colômbia estes dias na Catalunha ou você pode inventar uma variedade de formas de conseguir força e solidariedade para a revolta lá! Esta ação que realizamos é apenas uma delas!

Governos tenham cuidado, as revoltas são mais contagiosas do que a Covid!

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O casulo feito
bicho dentro dele dorme
vestido de seda.

Urhacy Faustino

[Colômbia] “Meu irmão sempre disse que se ele morresse, ele o faria por seu país”: irmã de Nicolás Guerrero

Por Valentina Parada Lugo | 04/05/2021

Isabella García Guerrero, irmã mais nova de Nicolás, um dos jovens mortos pela polícia no meio da greve nacional em Cali, disse que esta é a segunda vez que sua família é vítima do estado colombiano. Ela pede que a morte dele não seja apenas mais um número.

“Nico sempre lutou por seus ideais, ele não se contentava em ver este país assim”. Onde quer que ele tivesse que marchar, onde quer que ele tivesse que pedir seus direitos, ele estava sempre lá. Ele morreu em seus ideais de luta, ele queria um futuro melhor para a Colômbia, queria nos dar uma vida digna, queria ver sua filha crescer em um país diferente. Ele sonhava com a mudança. A última vez que falamos foi no sábado e ele me disse para não me preocupar, que coisas muito feias estavam chegando e que certamente muito sangue de inocentes seria derramado para que isso mudasse… mas eu não esperava que fosse dele”.

Isabella García Guerrero, 22 anos, irmã mais nova de Joan Nicolás García Guerrero, um dos jovens assassinados durante a greve nacional na noite de 2 de maio em Cali (Valle del Cauca), exige que seu caso não fique impune e que ele não seja mais um número. De sua residência no México, ela disse ao El Espectador que esta é a segunda vez que sua família é vitimada pelo Estado: a primeira, há quase 20 anos, quando seu pai Rubiel García Montezuma foi condenado, sua família alega, por um crime que ele nunca cometeu. Laura Guerrero, mãe de Nicolás e esposa de Rubiel, espera há mais de uma década pela justiça no caso de seu marido e desde então processou a Nação por ter sido vítima de um “falso positivo” judicial.

Rubiel morreu há 15 anos depois de passar dois anos na prisão, e desde então ele se tornou o ideal de luta para seus filhos. “Meu pai sempre lutou para provar sua inocência e minha mãe sempre foi uma ativista pelos direitos humanos, pela paz, pelo feminismo”. Minha mãe sempre marchou conosco, ela sempre sonhou com uma Colômbia em paz. Na verdade, a linha artística que Nicolás carregava em seu sangue e que o levou a sonhar em se tornar um reconhecido grafiteiro também foi herdada de seu pai, que era pintor e artista.

Sebastián Tellez, fotógrafo, artista e amigo de Nicolás, concordou. “Flex (seu nome artístico) não era um bandido, não era um criminoso, foi um artista, um grafiteiro durante oito anos. Ele gostava de sair e pintar a cidade com belas mensagens e seu sonho era sempre aprender cada vez mais sobre arte, agora ele estava aprendendo a fazer Lettering”.

Nicolás tinha chegado a Cali, sua cidade natal, apenas três meses depois de ter estado na Espanha por vários anos vivendo com sua esposa e sua filha Emily, de oito anos de idade. De acordo com sua família, ele havia retornado em busca de uma oportunidade de trabalho com a Secretaria de Cultura de Cali, mas não havia recebido resposta de nenhum emprego e estava se dedicando a aprender a tatuar para ganhar uma renda. “Meu irmão e eu deixamos o país porque não tínhamos oportunidades. Eu não tinha um emprego decente, não tínhamos futuro, mas ele sempre sonhou em voltar à Colômbia. Ele nos disse que na Espanha não havia folclore, que a comida não tinha o mesmo sabor, que ele sentia falta de seu povo, de sua cidade”, disse Isabella.

Na tarde de domingo, 2 de maio, dia em que ocorreram os eventos, Nicolás havia se reunido com um grupo de amigos e vizinhos para recolher alimentos e remédios para levar aos manifestantes. Embora as pessoas que o acompanharam digam que não conseguiram ver qual oficial fardado atirou nele, este jornal falou com o motorista da van que o transportou quando ele foi ferido, cujo nome está sendo retido por razões de segurança, e que foi uma das principais testemunhas do que aconteceu naquela noite. “Quando Nicolás foi baleado, havia tantos policiais que era muito difícil saber quem disparou a arma, mas quero denunciar que logo atrás da primeira linha do Esmad (polícia de choque) havia um policial à paisana, ele estava usando calções e uma camiseta, mas não me lembro da cor, ele tinha um capacete de polícia e estava atirando à queima-roupa nas pessoas”.

O motorista da van, que na verdade era apenas mais um manifestante que havia assistido em seu veículo, disse que embora não conhecesse Nicolás e apenas lhe prestasse um serviço, ele testemunhou como queriam fechar a porta sobre ele no hospital Joaquín Paz Borrero, localizado no bairro Alfonso López (leste de Cali). “Não sei quanto me custará dizer isto, mas quando chegamos lá, tivemos que ameaçar os paramédicos do hospital para que eles o atendessem, porque inicialmente nos disseram que não poderiam receber feridos da greve nacional. Dissemos a eles que se não cuidassem dele agora, tínhamos muitas pessoas a caminho para acabar com o hospital. E foi aí que eles o atenderam”.

El Espectador falou com Angie Gutiérrez Ospina, porta-voz do hospital, que disse que “não foi assim, o que aconteceu foi que lhes disseram que não podíamos mobilizar mais ambulâncias porque tínhamos acabado de ser atacados nas ambulâncias como uma missão médica”. Mas eles o atenderam. Entretanto, após quase meia hora de atenção naquele hospital, Nicolás García Guerrero teve que ser transferido para a Clínica Imbanaco, onde finalmente morreu devido à gravidade de seus ferimentos.

Mauricio Zúñiga, outro dos amigos que acompanharam Nicolás ao velório no domingo, disse que quando a polícia e o Esmad chegaram para dispersar a manifestação, havia pessoas idosas participando das orações. “De repente, muitas motocicletas e tanques começaram a chegar e gás lacrimogêneo foi jogado em nós. A situação era tão difícil que as pessoas tiveram que fugir e muitas caíram no chão, entre elas idosos, pessoas que estavam em cadeiras de rodas de forma pacífica”.

Essa mesma cena foi transmitida ao vivo pelo DJ Juan de León que, através de sua conta Instagram, conseguiu capturar vários momentos chave da noite, como quando Nicolás Guerrero foi baleado. Essa imagem foi vista por mais de 50.000 pessoas ao vivo, incluindo os membros da família de Nicolás que descobriram o que havia acontecido através daquele meio. Juan de León e sua família receberam ameaças de morte em 3 de maio e tiveram que deixar a cidade por segurança.

“Se algo acontecer à minha família, responsabilizo o Estado colombiano”

Isabella está com medo e ansiosa pela segurança de sua família. Ela diz, com sua voz quebrando, que teme que agora que vão exigir justiça, possam começar a receber ameaças. “Sei que agora vem a parte mais difícil e tenho muito medo do que poderia acontecer com minha mãe, meu irmão de 10 anos, meu padrasto ou meus tios, porque finalmente estou fora do país, eles não podem fazer nada comigo, mas considero o estado colombiano 100% responsável se algo acontecer com minha família.

Embora eles não tenham sido intimidados desde que os eventos ocorreram, ela denuncia que, através das redes sociais, pessoas inescrupulosas espalharam maciçamente o endereço da casa de seus avós para fazer um velório para Nicolás, o que para ela significa um risco contra a integridade e a vida de sua família.

Isabella García Guerrero diz repetidamente sem cansar: contra a vontade da família, seu irmão “sempre esteve disposto a morrer por este país porque lhe doía as injustiças. Às vezes ele nos dizia que se um dia morresse, o faria pela Colômbia e que seu nome teria um legado, mas nós lhe dizíamos para parar de falar bobagens”.

Fonte: https://www.elespectador.com/noticias/nacional/mi-hermano-siempre-dijo-que-si-el-moria-lo-hacia-por-su-pais-hermana-de-nicolas-guerrero/?cx_testId=14&cx_testVariant=cx_1&cx_artPos=0#cxrecs_s

Tradução > Liberto

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O frêmito cessou.
A árvore abre-se
para conter a lua.

Eugenia Faraon

[Espanha] Combatendo o fascismo com golpes: prós e contras

Três veteranos da luta antifascista em Madri recontam em Mieres sua experiência enfrentando fisicamente a violência neonazista na capital.

Por David Artime | 04/05/2021

Serge Ayoub é um conhecido ultradireitista francês com cabeça raspada (e alopécica), bíceps inchados e o corpo de jogador de rúgbi. Quando perguntado em uma entrevista sobre o assassinato do antifascista Clément Méric durante uma agressão em Paris em 2013 (Ayoub foi investigado por suas ligações com os três acusados) ele culpa diretamente o líder de esquerda galês Jean Luc Mélenchon por seu chamado para retomar as ruas para combater o fascismo. “Recuperar a rua como? Pela força?” o ultra ironiza, depois de lembrar que Méric era um estudante de ciências políticas “fisicamente fraco”, e que ele teria feito melhor para combater o fascismo escrevendo poemas em seu computador do que lutando.

Com “tomar as ruas” Mélenchon certamente não queria dizer que havia que sair e bater nos neonazistas, mas Ayoub o interpretou dessa forma. E, é claro, para um bandido fascista como ele, entrar em luta é patrimônio da ultradireita.

Ele provavelmente está certo. É um fato que as pessoas da esquerda preferem manifestações, concertos e assembleias aos ginásios do MMA. Os membros de sindicatos e organizações progressistas não costumam se interessar por socos, pontapés e surras, uma arte na qual a extrema direita sempre foi mais habilidosa. Mas o que acontece quando os antifascistas, fartos da violência neonazista permanente, decidem agir usando suas próprias armas?

A capital francesa é um bom exemplo. Os antifascistas parisienses parecem ter tomado nota, mesmo antes da morte de Méric. A cidade da Torre Eiffel não é exatamente um lugar confortável para um fascista. Desde o início dos anos 90, grupos de antifas, cansados das agressões neonazistas, começaram a flertar com bastões de beisebol, socos ingleses e esportes de contato. A reportagem Antifa, Caçadores de Skins o explica muito bem. Mas não temos que voltar tão longe no tempo. Nas manifestações dos Coletes Amarelos, a imagem de fascistas perseguidos por grupos de antifas violentos e organizados tem sido comum.

Algo semelhante parece ter acontecido em Madri. Pelo menos é o que Claudio, Lucas e Jota explicaram em Mieres neste domingo, no âmbito das Jornadas Antifascistas que ocorre na cidade da Cuenca del Caudal. Eles são três veteranos da ação direta que os antifas de Madri empreenderam a partir de 2003, ano da fundação das Brigadas Antifascistas, BAF.

Na verdade, mesmo antes disso, no final dos anos 90, eles tinham começado a responder às agressões que eram comuns na época. Esses eram os tempos em que a moda skin se espalhava dos estádios para as áreas de vida noturna, e os neonazistas vagueavam livremente em Moncloa, Argüelles e outros bairros da capital. Qualquer pessoa que parecesse um punk ou um progre poderia ser vítima de ataques. No metrô, muitas vezes você tinha que se esconder. “Tivemos que lidar com toda essa violência. Ir armado tornou-se uma obrigação para nós”, explica Jota, que lembra que nos círculos antifas, naquela época, as pessoas começaram a carregar uma faca, uma corrente e um soco inglês, caso algo acontecesse.

Mas foi realmente em março de 2003, quando a criação da BAF foi um marco histórico. “O estágio de ‘não nos colocarmos no nível deles’ foi superado, quebramos com a vitimização, e uma atitude guerreira e caçadora foi adotada”, diz Claudio. “Tivemos que parar de reclamar e começar a procurá-los e pisar em suas cabeças”.

As “caçadas nazistas” começaram a ser comuns na capital, como ele se lembra, e então ser um neonazista “começou a ser perigoso”. Jota lembra como tiveram que começar a cobrir os emblemas fascistas em seus casacos e observar com muito cuidado onde eles estavam andando. Ele explica que havia cada vez mais grupos antifascistas organizados em toda Madri, e que havia fins de semana em que dois grupos de antifas coincidiam na mesma estação em busca de “presas”.

O ASSASSINATO DE PALOMINO, UM EVENTO REVULSIVO 

O assassinato de Carlos Palomino em 2007, longe de intimidar o movimento, foi um revulsivo. “Foi horrível, mas eles conseguiram confirmar o compromisso de muitas pessoas de exterminar estes lixos”, diz Claudio. Sua satisfação não é compartilhada por Jota: “é uma merda que um adolescente tem que morrer para conscientizar as pessoas de que o fascismo tem que ser combatido nas ruas”.

A partir de então, diz Cláudio, houve uma conscientização geral em todo o estado. “Isso reuniu a raiva de muitas pessoas que estavam claras de que tínhamos que responder”, explica ele. Os nazistas, continua ele, “tinham medo de ir às suas manifestações porque sabiam que estaríamos lá para confrontá-los”. Como exemplo, ele cita o comício da organização fascista Nação e Revolução na praça Tirso de Molina em 2008, que “não durou dez minutos” porque o movimento antifascista madrileno preparou um contra-ataque que terminou em uma batalha campal.

Não que a guerra tenha sido ganha, longe disso. Em Madri, como em Paris, ainda há nazistas organizados e violentos. Cidades como Alcalá de Henares ou bairros como Canillejas, feudos tradicionais dessas pessoas, são um bom exemplo, sem esquecer a Frente Atlético e o que resta do Ultras Sur. Mas a capital não é mais uma caminhada triunfal para eles, que quando organizam um show têm que alugar um restaurante de casamento em um lugar perdido, e quem quiser ir tem que ligar para um telefone para descobrir o local, explica Lucas. Os três oradores ressaltam que isto é uma fonte de orgulho para o movimento antifascista madrileno.

REPRESSÃO JUDICIAL

Não tem sido um leito de rosas. Além de Carlos Palomino, ao longo do caminho houve agressões, esfaqueamentos, multas, condenações e algumas prisões. O próprio Cláudio já foi levado à justiça três vezes e tem dois outros casos pendentes. “A repressão tem sido brutal”, reclama ele. A repressão, diz ele, não é a mesma quando se trata de combater a agressão do outro lado. Embora o assassino de Palomino tenha sido condenado a 26 anos de prisão, isto não foi assim em outros casos.

Nestas Jornadas de Mieres, o filme La Mort de Guillem, sobre o assassinato do jovem antifascista valenciano Guillem Agulló, foi exibido no sábado. Dos cinco acusados, quatro foram absolvidos, e o culpado, Pedro Cuevas, cumpriu quatro dos 14 anos em que foi condenado. Mais recente foi o caso de Jimmy (não um único réu), e igualmente chocante foi o caso de Roberto Alonso de la Varga, que deixou um congolês tetraplégico em Alcalá de Henares e a Promotoria sequer pediu sua prisão até que o jornal Público publicou uma reportagem alertando que ele permanecia em liberdade.

Nas Astúrias há muitos exemplos da frouxidão da justiça com a violência fascista. Nem um mês atrás o TSJA anulou a sentença contra os Ultra Boys acusados dos incidentes no derby de 2017. Antes disso, houve outros processos e absolvições em casos conhecidos de motins e agressões. Já em 2017, o jornal El Comercio advertia sobre esta situação. Somente no caso do ataque ao bar La Folixa em Cimavilla, em 2018, houve penas de prisão (oito réus aceitaram penas que variaram de seis meses a três anos e nove meses).

Depois de observar que esta não é exatamente uma estratégia fácil, vale a pena perguntar se a mobilização e a denúncia pública e judicial não são mais eficazes do que o confronto direto. Para Cláudio, ambas as formas de luta são complementares e necessárias. Jota já havia insistido que eles tomaram este caminho nos anos 90 não por diversão, mas porque eles não tinham outra escolha. “E éramos um bando de adolescentes que começaram a travar esta batalha, porque os partidos de esquerda e os sindicatos estavam em outro filme”, acrescenta ele.

Parece que isso mudou nos últimos tempos, após o surgimento do Vox [partido de extrema direita] e a necessidade do compromisso antifa que os principais partidos progressistas assumiram. A instalação de uma placa em memória de Palomino no Paseo de Las Delicias, o reconhecimento por Pablo Iglesias da luta antifascista de Bukaneros ou a própria organização destas jornadas em Mieres são gestos que Cláudio valoriza como sinais de uma consciência que não existia antes.

Fonte: https://www.nortes.me/2021/05/04/combatir-el-fascismo-a-hostias-ventajas-e-inconvenientes/

Tradução > Liberto

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