[Holanda] Lançamento: Take Back Mokum – Ocupação e Luta pela Moradia em Amsterdã

Como ocupar uma casa? Como organizar uma greve de aluguel? Como lutar contra a gentrificação? Como resgatar a cidade?

‘Take Back Mokum’ retrata a luta pela moradia em Amsterdã hoje. Ele mostra como o movimento de ocupação se mistura com o ativismo queer, com a luta de migrantes sem documentos, com questões ecológicas e com iniciativas populares pelo direito à cidade. Consistindo em ensaios, entrevistas, histórias visuais e muito mais, ele compila os insights e conhecimentos práticos de uma grande variedade de ativistas e coletivos de toda Amsterdã. Juntos, eles representam uma experiência compartilhada da vida urbana vivida de forma autônoma. Mokum é o apelido de Amsterdã. Originalmente significando refúgio ou porto seguro, é um lugar que criamos em resistência, em comunidade, em fuga da ordem estabelecida. Este livro mostra como – e convida você a participar.

Take Back Mokum – Squatting and The Housing Struggle in Amsterdam

352 p, ills bw, 14 x 21 cm, pb, inglês

US$ 22,30

ideabooks.nl

Tradução > Bianca Buch

agência de notícias anarquistas-ana

Mesmo molhado
Resplandece ao pôr-do-sol
O campo de algodão.

Paulo Franchetti

[Espanha] Um falso conceito “libertário” permeia nosso frágil mundo

Comunicado de imprensa do CEDALL – ano 2025

(Aviso urgente para os recém-chegados, notas para os que já se foram e beijos para os perenes…)

O CEDALL é um centro de documentação dedicado principalmente à divulgação da história do movimento libertário e antiautoritário no território espanhol. Quem nos conhece há algum tempo ou pode nos consultar no futuro está ciente dos materiais de informação histórica que oferecemos aos curiosos e interessados na extensa história do anarquismo ibérico espanhol durante os séculos XIX e XX.

2 É possível que esses sinais da identidade do CEDALL sejam conhecidos por aqueles que trocaram opiniões conosco ao longo desses 25 anos de trabalho cultural e propagandístico e, portanto, essa breve “introdução” pode parecer um tanto retórica ou simplesmente desnecessária. Talvez tenham razão aqueles que pensam assim. Mas, de qualquer forma, acreditamos que não é supérfluo delinear o que foram e ainda são hoje as principais linhas de argumentação que unem o nosso projeto coletivo voltado para a divulgação da história libertária das classes populares de nosso país.

O principal motivo deste inusitado artigo do CEDALL é evidentemente reativo e contém em sua origem uma profunda inquietação com o que consideramos ser uma distorção conceitual maciça e crescente do significado mais reconhecido do termo “libertário“. De fato, nós, como coletivo editorial, e sob o conhecido acrônimo “CEDALL“, desde o início incluímos expressamente a palavra “llibertari” (em catalão).

4 Como é historicamente reconhecido desde meados do século XIX, o termo libertário, especialmente no que diz respeito ao que poderíamos chamar de “(des)ordem capitalista global”, tem sido associado principalmente ao movimento operário de influência anarquista em sua insistente batalha contra o capitalismo e por uma sociedade livre e emancipada de qualquer exploração social. Acreditamos, a respeito dessa forte afirmação, que poucos historiadores e “acadêmicos” seriam capazes de refutar essa definição inicial, expressa em uma infinidade de livros e análises rigorosas da história geral dos séculos XIX e XX.

5 A questão central desse escrito-denúncia encontra-se, sobretudo, em nosso atual e brilhante presente e, portanto, no persistente uso “in-progress” e amplamente distorcido do termo “libertário“. Entre alguns dos diversos e brilhantes “falsários” encontramos hoje desde setores econômicos até grupos sociais/políticos e também alguns estranhos e muito poderosos “indivíduos-alfa” que fariam parte de um estranho e perigoso conglomerado “hipercapitalista” internacional.

Entre suas muitas maluquices que expressam com certa frequência nos meios de comunicação de massa, um de seus objetivos de médio prazo é a destruição gradual de certas conquistas sociais obtidas por meio das lutas das classes populares em muitos países (ou seja, educação, assistência médica e previdência pública etc.).

Seu ataque persistente e deliberado ao “estado” é exercido, nessa ocasião, a partir de uma posição nitidamente “anarcocapitalista”, e não se baseia na justiça social para o benefício de todos os cidadãos, mas sim, ao contrário, na chamada “liberdade” (empresarial) que favorece, prioritariamente e sem nenhum disfarce, seu próprio benefício econômico.

Pelo contrário, a possível supressão do “estado”, teorizada pelos primeiros ideólogos do anarquismo social mais reconhecido no último terço do século XIX, sempre esteve ligada à supressão real e efetiva do sistema capitalista injusto e também à construção de uma nova sociedade na qual qualquer indício de exploração social desapareceria, tanto em suas dimensões individuais quanto coletivas.

6 Alguns exemplos concretos desse surto epidêmico da classe burguesa internacional que está varrendo nosso frágil mundo globalmente sob o rótulo recente desse falso espírito libertário capitalista podem ser vistos recentemente, por exemplo, no governo de Javier Milei na Argentina ou na influência ameaçadora e persistente dos poderosos “lobbies” capitalistas dos EUA, intimamente ligados atualmente ao bloco ultraconservador que venceu as recentes eleições gerais de 2024 em torno do pântano golpista do “trumpismo”. O que antes, e não há muito tempo, era habitualmente referido pela imprensa internacional “mainstream” sob o rótulo acurado de “ultraliberal”, está se transformando rapidamente, por meio de uma certa insistência importunante, sob o guarda-chuva distorcido e cada vez mais enganoso do termo “libertário“.

7 Nós do CEDALL gostaríamos de alertar enfaticamente, caso ainda não estejam cientes de nossa linha editorial, que os materiais históricos que disponibilizamos e as ideias-força que neles transpiram remetem a (outro) imaginário ideológico radicalmente antagônico e oposto a esses grosseiros defensores de um “anarcocapitalismo” cada vez mais antissocial e doentio.

A tradição histórica inicial dos movimentos libertários foi articulada principalmente por militantes e ativistas sociais que fizeram parte das classes populares (mulheres e homens) e que defenderam os oprimidos (“o sal da terra”) em seu cotidiano arriscado e difícil até as últimas consequências, com uma atitude exemplar de solidariedade.

8 É por isso que as tendências ideológicas e econômicas representadas por esse bloco social cada vez mais consolidado e de aparência ultraconservadora não representam em nada o que o coletivo CEDALL tem defendido desde o seu início. De certa forma, pode-se afirmar, com certo rigor histórico, que grande parte dos libertários fez parte, desde o início, do imaginário social que se constituiu em torno do que alguns de seus líderes chamam depreciativamente de “esquerdistas”, em que a crítica radical ao capitalismo e ao seu regime de dominação absoluta formou uma parte substancial de suas ideias e anseios persistentes.

9 Finalmente, e para finalizar nossa nítida posição ideológica, gostaríamos de listar brevemente, embora não de forma exaustiva, nossas fortes preferências pessoais sobre alguns dos homens e mulheres anarquistas e socialistas libertários que deixaram uma marca indelével em nós ao longo de sua história pessoal e que ainda vivem em nossos pensamentos e em nossos corações:

Mikhail Bakunin, Pierre-Joseph Proudhon, Piotr Kropotkin, Louise Michel, Emma Goldman, Elisée Reclus, James Guillaume, Errico Malatesta, Anselmo Lorenzo, José Prat, Teresa Claramunt, Francesc Ferrer i Guardia, José Sánchez Rosa, Mauro Bajatierra, Salvador Segui, Joan Peiró, Eleuterio Quintanilla, Manuel Buenacasa, Ángel Pestaña, Tomás Herreros, Joan García Oliver, Federica Montseny, Francisco Ascaso, Buenaventura Durruti (entre outros e outras…)

EQUIPE CEDALL (Janeiro de 2025)

Fonte: https://redeslibertarias.com/2025/01/20/un-falso-concepto-libertario-recorre-nuestro-fragil-mundo/

Tradução > acervo trans-anarquista

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/12/16/o-falso-anarquismo-de-milei-e-seu-apoio-estrondoso-a-israel/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/09/19/espanha-milei-e-a-mistificacao-libertaria/

agência de notícias anarquistas-ana

se andava no jardim
que cheiro de jasmim
tão branca do luar

Camilo Pessanha

[Rússia] Algumas pessoas deixam o país, outras recorrem a explosivos

Em dezembro de 2023, o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB) anunciou a prisão de um cidadão russo-italiano acusado de atacar um aeródromo militar e sabotar uma linha ferroviária. O suspeito era Ruslan Sidiki, um anarquista de 36 anos, ciclista de longa distância e eletricista. Atualmente em prisão preventiva, ele pode enfrentar uma sentença de prisão perpétua. O site Mediazona publicou uma coleção de cartas de Sidiki, nas quais ele descreve por que recorreu à sabotagem, como planejou e executou os ataques e por que se considera um prisioneiro de guerra, e não um preso político. O Meduza resumiu o conteúdo dessas cartas.

Ruslan Sidiki nasceu em Ryazan, na Rússia, mas passou boa parte da infância na Itália, para onde se mudou com a mãe. Depois de terminar a escola, tentou entrar para o exército italiano, mas não foi aceito. Permaneceu na Itália por vários anos, trabalhando e visitando a família e os amigos em Ryazan sempre que podia. Em uma dessas visitas, recebeu uma oferta de emprego como eletricista — e decidiu ficar.

“A vida aqui era bem boa até 2008”, lembrou ele. “Sentia falta da minha avó e dos meus amigos, e naquela época a Europa parecia um pouco entediante demais.”

Antes da anexação da Crimeia pela Rússia e do início da guerra no leste da Ucrânia, em 2014, Sidiki viajava com frequência para a Ucrânia, onde, entre outras coisas, fazia caminhadas pela zona de exclusão de Chernobyl. Gostava do desafio de navegar por terrenos difíceis, escapar de patrulhas e usar equipamentos militares. Nessas viagens, construiu uma rede de aventureiros com ideias semelhantes, incluindo amigos ucranianos.

Em suas cartas, Sidiki se descreve como anarquista. Diz que suas ideias sobre um mundo justo sem Estado começaram a se formar muito antes de entrar em contato com a filosofia anarquista. Embora critique o que chama de rigidez ideológica de alguns anarquistas e comunistas, afirma que sua oposição ao fascismo e ao totalitarismo nunca vacilou.

No dia em que a Rússia lançou sua invasão em grande escala da Ucrânia, Sidiki lembra de ter sentido uma sensação esmagadora de impotência. “Vi trens carregados de equipamento militar passando e o desespero me deu vontade de mastigar os canos dos canhões”, escreveu. Convencido de que a resistência armada era a única opção restante, decidiu agir. Para ele, o governo russo havia “cortado todos os meios pacíficos de influenciar a situação” ao reprimir ativistas contrários à guerra. “Qualquer um que se manifeste contra a guerra é rotulado de traidor e enfrenta repressão”, escreveu. “Nessas circunstâncias, não é surpresa que algumas pessoas prefiram deixar o país, enquanto outras recorram a explosivos.”

Sidiki escolheu como alvo a Base Aérea Dyagilevo, a apenas 10 quilômetros de sua casa. A ideia surgiu quando ele percebeu que o zumbido baixo dos aviões sobre Ryazan frequentemente coincidia com relatos de ataques aéreos russos na Ucrânia. Ele compartilhou seus planos com um “camarada ucraniano”, que o colocou em contato com “alguém experiente nessa área”. Por sugestão dessa pessoa, Sidiki viajou para a Letônia para “testar suas habilidades” — ele já se interessava por explosivos há anos e aprendera a fabricar bombas caseiras por volta dos 18 anos.

Em julho de 2023, ele executou seu ataque. Usando drones com um mecanismo de lançamento programado, configurou três veículos aéreos não tripulados para decolar três horas depois e deixou o local. Mais tarde, soube pelas notícias que apenas um dos drones chegou à base. Os outros dois, ele suspeita, foram derrubados por uma raposa que viu por perto, mas não se preocupou em espantar.

“Para ser honesto, fiquei preocupado que fossem me rastrear”, admitiu. “Mas planejei bem minha rota, alternando entre pontos cegos e áreas com câmeras. E o atraso de três horas entre minha saída e o lançamento dos drones tornou o rastreamento ainda mais difícil. Se não fosse pelos drones que ficaram para trás, eles não teriam conseguido identificar o local de lançamento.” Mesmo assim, passou o mês seguinte em alerta, ouvindo passos do lado de fora de sua porta. “Mas depois de um mês, a ansiedade passou. Se tivessem me descoberto, teriam me pegado em poucas semanas.”

Dois meses após o ataque, a avó de Sidiki faleceu. A perda o abalou profundamente. “Isso afetou minha clareza mental e minha cautela”, escreveu. “Sinceramente, eu deveria ter me dado alguns meses para me recuperar. Mas não fiz isso.”

Após abandonar os ataques com drones — depois de concluir, por tentativa e erro, que a área era protegida por sistemas de guerra eletrônica —, Ruslan Sidiki voltou sua atenção para as ferrovias. Ele mapeou uma rota na região de Ryazan usada para transportar equipamento militar e construiu duas bombas e um transmissor de vídeo com um mecanismo de autodestruição. Segundo ele, toda a operação custou apenas 10.000 rublos (cerca de 100 dólares).

Em novembro de 2023, Sidiki pedalou até o local, plantou os explosivos e posicionou uma câmera para capturar o momento da detonação. Ao amanhecer do dia seguinte, depois de se certificar de que o trem que se aproximava não transportava passageiros, detonou as bombas remotamente. Dezenove vagões de carga descarrilaram, e o assistente do maquinista sofreu ferimentos leves.

Depois disso, Sidiki escondeu sua bicicleta e as roupas que usava na floresta e voltou para casa por uma rota diferente. Mais tarde, enviou notícias do descarrilamento para seu contato na Ucrânia. “Alguns dias depois, ele me disse que seus superiores haviam decidido me enviar 15.000 dólares”, escreveu Sidiki. “Fiquei chocado — nunca tinha segurado mais de 1.000 euros na minha vida. Disse a ele que não precisava de dinheiro naquele momento e pedi para adiar o assunto.”

Três semanas depois, as autoridades chegaram até Sidiki. Os investigadores conseguiram identificá-lo por meio de imagens de uma câmera de vigilância — capturadas cinco horas após a explosão — que o mostravam caminhando por uma estrada pavimentada. “Eu estava exausto e achei que o perigo tinha passado, então caminhei o último quilômetro pelo asfalto em vez de evitar as câmeras”, escreveu.

Mesmo assim, rastreá-lo não foi fácil. “As forças de segurança me disseram que não tinham como saber de onde eu tinha vindo naquela noite. Eles estavam perdidos, assim como no caso dos drones. Mesmo quando me prenderam, ainda não tinham certeza do meu envolvimento”, lembrou Sidiki.

Na delegacia, ele contou que homens não identificados, vestidos à paisana, o torturaram por vários dias. Eles o espancaram severamente, aplicaram choques elétricos e filmaram tudo com um celular. Quando foi transferido para um centro de detenção preventiva, os médicos da instalação ficaram visivelmente chocados com sua condição. “O médico ficou atônito — meu corpo inteiro estava coberto de hematomas”, escreveu.

Sidiki foi acusado de cometer um ato terrorista, fabricar e distribuir explosivos como parte de um grupo organizado e passar por treinamento para atividades terroristas. Atualmente, aguarda julgamento e pode ser condenado à prisão perpétua. “Entendo que vou pegar uma pena longa. Não me iludo com a possibilidade de um resultado favorável”, escreveu.

Sidiki não se considera um prisioneiro político, mas sim um prisioneiro de guerra. Para ele, suas ações fazem parte do conflito entre Rússia e Ucrânia.

“Minhas ações se encaixam na definição de ‘sabotagem’, não de ‘terrorismo'”, argumentou. “Nunca tive a intenção de espalhar medo entre os civis. Meu objetivo era destruir aeronaves para que não fossem usadas para bombardear, destruir ferrovias para que não fossem usadas para transportar armas.”

Apesar de ter sido capturado, Sidiki disse que não se arrepende. “A guerra acabou para mim — fui pego. Mas sou genuinamente grato aos ucranianos que confiaram em mim. Se alguém é culpado pelo meu encarceramento, sou apenas eu”, escreveu. “Espero que os ucranianos enfrentem cada provação com resiliência. Desejo a todos céus pacíficos.”

Fonte: https://meduza.io/en/feature/2025/02/10/some-people-leave-the-country-others-turn-to-explosives

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

brilha o grampo
ou ela tem no cabelo
um pirilampo?

Carlos Seabra

[Espanha] Documentário: Durruti, filho do povo

“Durruti: filho do povo” trata da vida do anarquista leonês Buenaventura Durruti, sobre o qual há uma grande bibliografia, mas poucas produções audiovisuais. Durruti tornou-se um símbolo do movimento operário e do anarquismo em nível internacional.

Por meio de diferentes recursos, como recriações, animações, entrevistas com seus familiares, depoimentos de historiadores, entraremos em uma trama histórica que vai da greve de 1917 à revolução social de 1936, passando pelo surgimento da CNT, os anos do pistolerismo patronal, a ditadura de Primo de Rivera, a Segunda República e a Guerra Civil.

>> Assista (1:33:57) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=IcaRmi1jkHE

agência de notícias anarquistas-ana

salta o gato
assalta o gatuno
susto na noite

Carlos Seabra

[Espanha] Paul Goodman e os males da civilização tecnológica

Paul Goodman insistia nas condições “desumanizadoras” da sociedade moderna, onde a pressão social e tecnológica acaba determinando nosso comportamento; é o que ele chamava de um processo (negativo, claro) de socialização. Se a ciência social se ocupa da tensão entre a condição humana e as instituições, esforçando-se, portanto, para ser sempre prática e política, na sociedade ideal existirá pouca ciência social, já que as instituições realizarão e promoverão as faculdades humanas.

Em condições “desumanizadoras” ocorrem alienação, anomia, doenças mentais, delinquência e uma crise de valores de todo tipo. Goodman considerava que a nova religião estava representada pela fé das massas na tecnologia científica e apostava por uma mudança radical no sistema de crenças que transformasse a fé comum das pessoas. Claro, continuaremos vivendo em um mundo tecnológico, mas a tecnologia deve se tornar um ramo da filosofia moral, não da ciência, e seu objetivo deve ser a criação de bens sóbrios para a felicidade comum e fornecer os meios eficientes para que isso se cumpra. Goodman considerava que o tecnólogo, enquanto filósofo moral, deveria ter uma grande capacidade crítica; deve conhecer as mais diversas matérias das ciências sociais, direito, artes e medicina, bem como tudo relacionado às ciências naturais que tenha a ver com seu trabalho. Os critérios morais de uma tecnologia filosófica devem levar em conta a modéstia tanto quanto a eficiência, um senso do todo e não impor uma função particular além do que se pode tolerar; Goodman analisa essa questão em uma sociedade moderna dada ao desperdício e à exaustão dos recursos que foram produzidos.

Também, como complemento de uma tecnologia prudente, está o critério ecológico na atitude e prática científicas; seria necessário simplificar o sistema técnico e determinar de forma modesta a intervenção humana no meio ambiente, tendo consideração por seus possíveis efeitos remotos, a fim de que este sobreviva em toda a sua complexidade. Aposta-se aqui na sabedoria ecológica de cooperar com a natureza em vez de tentar dominá-la. Além disso, as prioridades devem ser determinadas por amplas necessidades sociais. Se falamos de regiões subdesenvolvidas, e a fim de evitar o intolerável imperialismo cultural que tem sido praticado pelo Ocidente, seria conveniente a utilização de “tecnologias intermediárias” capazes de se acomodar da forma mais natural possível aos recursos, habilidades e costumes locais; o objetivo deve ser a eliminação da doença, da fome e do trabalho bruto, sem romper, por isso, o modo de vida específico de cada região. Goodman também insiste, além dos aspectos ecológicos, e aqui surge outro aspecto-chave nos males modernos, em uma medicina de caráter sociológico, psicossomático e preventivo; em cada um desses aspectos, encontra-se um chamado ao ser humano para que seja consciente de que faz parte do mundo natural, por isso deve desistir de tentar dominá-lo.

Existe a crença política de que os cientistas e inventores, e até mesmo os pesquisadores sociais, são neutros em relação aos valores, e que seu trabalho é “aplicado” por aqueles com responsabilidade de governo em uma nação. O anarquista Goodman, com uma tendência pluralista, considera de forma oposta que todos os trabalhadores, incluindo cientistas e pesquisadores, devem ter uma responsabilidade na utilização de seu trabalho; a tendência à diversidade, à ampla distribuição do poder de decisão, pode parecer conflituosa, mas resulta, na realidade, basicamente estável, já que, em vez de poucos objetivos nacionais decididos de forma estreita por uma minoria, existem coisas muito agradáveis e úteis em muitas atividades da vida. A proposta anarquista de Goodman, como não poderia ser de outra forma, passa por descentralizar de forma considerável a pesquisa e o desenvolvimento, e distribuir os recursos de caráter nacional através de milhares de centros de iniciativa e decisão. Se a crença habitual é que o desenvolvimento técnico só é programável sob a direção de um comando central, na realidade, os que dão origem a ideias inovadoras são aqueles que estão em contato direto com a questão em pauta. Os centros diretivos distantes, baseando-se em instruções burocráticas, raramente aportam soluções que abrem novos caminhos, já que costumam limitar-se a repetir o antigo. A descentralização generalizada exige mais inteligência, em vez de uns poucos intelectos organizados corporativamente muito dados à precipitação, à angústia e à avareza. Em contrapartida, um pequeno grupo em contato com uma realidade concreta tem a vantagem de uma boa comunicação e está, além disso, isento da pressão da imediatidade ou da preocupação contínua pelo prestígio pessoal.

Na época moderna, no final do século XIX, houve um auge na fé pública nos efeitos benéficos da “religião científica”; acreditava-se que os homens seriam objetivos, respeitosos com a realidade, precisos, livres de superstições e tabus, e imunes às autoridades irracionais e empíricas. Já na época de Goodman, décadas depois e após duas guerras mundiais, a confiança na ciência e na tecnologia parecia uma piada de mau gosto. No entanto, como é lógico, não se trata de abandonar a civilização tecnológica, mas de reformá-la de modo radical; Goodman, embora consciente dos enormes obstáculos, possuía grande confiança em uma transformação da consciência. No início do século XXI, os males da fé tecnológica desumanizada continuam os mesmos, ou até maiores; a civilização é capaz de produzir a mais incrível tecnologia, mas não consegue ou não quer acabar com a fome, construir melhores habitações ou hospitais, ou melhorar a educação. Contudo, Goodman não desejava opor uma coisa à outra; se o homem é capaz de inovar de maneira surpreendente em aspectos técnicos sem conseguir eliminar males intoleráveis, não é por hipocrisia, mas porque a estupidez acompanha inevitavelmente a condição humana. A reforma radical de caráter humanista que se pretende deve levar em conta esses aspectos da condição humana; a isso se soma a terrível perda de personalidade e de espírito criador que o desenvolvimento tecnológico na sociedade contemporânea tem acarretado. O anarquista Goodman, também psicólogo de formação, está convencido de que uma organização social tendente à uniformização, à rotina e ao controle é um desastre geral; trata-se de um processo de socialização que tende à coletivização e à perda de personalidade no indivíduo, o que só pode ser mitigado com a descentralização, a autogestão e uma educação com efeitos antídotos.

Capi Vidal

Fonte: https://acracia.org/371/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

pequenos dedos
das gotas de chuva
massageiam a terra

Carlos Seabra

[Alemanha] Munique: churrasco de viaturas policiais

Na rica capital da Baviera, a noite de sexta-feira (25 de janeiro) esteve longe de ser comum. O prefeito de Munique, Dieter Reiter, acostumado a ver de tudo do alto de seu posto administrativo, chegou a emitir um comunicado oficial declarando-se “horrorizado”. Seu espanto se refere a uma guerra no Oriente Médio ou à civilização tecnoindustrial envenenando o planeta? Nem de longe. Mas ainda assim, foi um pesadelo que perturbou o sono da boa sociedade: um incêndio noturno conseguiu chegar à sua porta. E destruiu as ferramentas dos lacaios encarregados de protegê-los.

Por volta das 2h40 da manhã, no distrito periférico de Allach-Untermenzing, cidadãos zelosos começaram a alertar os bombeiros sobre um gigantesco incêndio em andamento na brigada policial canina. Quando chegaram, as 23 viaturas policiais estacionadas ali já estavam completamente envoltas em chamas, enquanto o prédio da brigada (vazio) perdia suas janelas devido ao calor. O corpo de bombeiros de Munique levou quase uma hora para apagar o fogo, enquanto cerca de 50 policiais vasculhavam a área em vão em busca de suspeitos.

Ninguém se surpreenderá, mas as autoridades não reagiram bem ao churrasco de fim de noite e foram rápidas em soltar declarações marciais à menor provocação. O prefeito da cidade, do SPD (partido de esquerda), apontou que “as suspeitas indicam um ataque politicamente motivado por grupos da extrema esquerda”, antes de denunciar “um ataque à nossa democracia”. Já o ministro do Interior da região, do CSU (partido de direita), fez um desabafo sem rodeios: “Do meu ponto de vista, [este incêndio] já tem todas as características de um ato terrorista”, porque “atinge especificamente aqueles que trabalham dia e noite para garantir a segurança de nossos cidadãos”.

A investigação foi confiada à polícia criminal da cidade, em colaboração com o departamento nº 4 da polícia judiciária, responsável por crimes contra a Segurança do Estado (*Staatsschutz*). E, claro, como estamos na Baviera, o principal jornal regional acrescentou que “nos últimos seis anos, máquinas de construção, cabos elétricos, torres de celular e instalações ferroviárias vêm pegando fogo em Munique”, perguntando-se se haveria alguma conexão com esse ataque contra a polícia…

[Resumo da imprensa regional alemã (BR24 & Süddeutsche Zeitung), 25 de janeiro de 2025]

Fonte: https://sansnom.noblogs.org/archives/24242

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

de tantos instantes
para mim lembrança
as flores de cerejeira.

Matsuo Bashô

[Itália] Roma: “nem deus, nem estado, nem guerra

Hoje, 17 de fevereiro de 2025, estivemos na praça Campo de’ Fiori desde o final da manhã, reunidos sob a estátua de Giordano Bruno com espírito livre e pensamento crítico para lembrar o aniversário de sua execução pelas mãos da Igreja Católica. Expressamos nossas ideias através de intervenções no megafone, reafirmando nosso rechaço a toda autoridade e dogma.

Uma faixa dizia: “nem deus, nem estado, nem guerra: liberadəs todxs em Terra Livre”, reafirmando nosso compromisso contra toda forma de opressão e por um mundo sem hierarquias.

À tarde, compartilhamos a praça com a UAAR de Roma, com quem organizamos um pequeno flash mob. Um momento de troca e cumplicidade que enriqueceu o dia e reforçou a importância da liberdade de pensamento contra qualquer imposição religiosa ou estatal.

Um aniversário que, mais uma vez, nos lembra que a luta pela autodeterminação e liberdade não é apenas memória, mas ação cotidiana.

Grupo anarquista Mikhail Bakunin – FAI Roma & Lazio

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Um ventilador
espalha o calor
e as notas da sinfonia

Winston

[Espanha] O capitalismo global industrial não é apenas sociocida e ecocida, também é insustentável. Diante disso, propomos o Decrecimento

Artigo publicado na Rojo y Negro nº 397, fevereiro de 2025

Luis González Reyes, da Cooperativa Garúa e militante de Ecologistas en Acción, revela algumas das chaves dos relatórios realizados para orientar transições ecosociais em diferentes regiões do Estado espanhol e sua interação com a prática sindical.

Em março do ano passado, o Grup Transició Ecosocial da CGT de Catalunya apresentou o relatório ‘Transição ecosocial na Catalunha. Uma proposta decrecentista’, impulsionado por vários sindicatos e federações da CGT, pela Fundação Salvador Seguí e organizações como Embat, Attac e o Sindicato de Inquilinas, entre outros.

Em Euskadi, tanto ELA quanto LAB publicaram estudos semelhantes. E em Castilla e León, a CGT, Ecologistas en Acción e Futuro en Común lançaram um processo participativo que espera ter um relatório similar pronto para a próxima primavera.

Quase todos esses estudos são coordenados pela Garúa, uma cooperativa formada por diversos profissionais, muitos deles ligados a Ecologistas en Acción, incluindo Luis González Reyes, doutor em ciências químicas, educador e colaborador habitual de várias universidades.

Luis, nos relatórios vocês definem como um ponto cego “que toda atividade econômica nas sociedades capitalistas industriais contemporâneas é impossível sem o concurso de um fluxo abundante e estável de matérias-primas e energia”, para depois afirmar que as energias renováveis não são suficientes para substituir os combustíveis fósseis. Como resolvemos esse dilema?

Na verdade, as renováveis, da forma como as estamos utilizando, não são fontes autônomas dos combustíveis fósseis. Elas precisam deles para a fabricação das máquinas que utilizam essas fontes renováveis. Também não podem depender de um sistema baseado em materiais não renováveis. Dessa forma, o que chamamos de “renováveis” não são realmente renováveis, mas, até certo ponto, uma extensão do modelo fóssil. Além disso, essa extensão tem propriedades, de maneira geral, diferentes das fósseis. Elas não são fontes energéticas concentradas, mas dispersas, e não estão disponíveis o tempo todo como os fósseis, mas de forma intermitente — quando o vento sopra ou o sol brilha. Isso faz com que não apenas dependam dos combustíveis fósseis, mas que não possam manter uma economia fóssil, que exige grandes quantidades de energia concentrada disponível o tempo todo.

Um exemplo claro disso é o transporte. Não existe a possibilidade de um transporte massivo, rápido e de longas distâncias sem o uso dos combustíveis fósseis. E sem isso não existe nem uma economia global nem uma concentrada nas grandes cidades.

A transição ecosocial é sinônimo de decrecimento?

O capitalismo global industrial não é apenas sociocida e ecocida, mas também insustentável. Diante disso, o que propomos é o Decrecimento. A proposta decrecentista se baseia em uma economia com consumo moderado de matérias e energia, sendo que esta última seja realmente renovável, produzida por economias locais e diversificadas, integradas no funcionamento dos ecossistemas — o que não é outra coisa senão baseadas em um setor primário agroecológico. E tudo isso, com uma forte redistribuição da riqueza. Para alcançar isso, é imprescindível recuperar nossa autonomia econômica e política, um passo essencial para superar o capitalismo.

Os relatórios do País Basco e da Catalunha foram impulsionados por organizações sindicais. Vocês propõem medidas com impacto disruptivo na forma de entender o mundo do trabalho… Como essas propostas podem ser levadas à ação sindical de uma organização como a CGT?

Quando aplicamos as transformações decrecentistas na economia do País Basco, Catalunha ou em todo o Estado, que foram os quadros que estudamos, o que encontramos é uma redução geral da economia. Isso não é surpresa, porque a maior parte de nossa atividade econômica não serve para satisfazer as necessidades humanas, mas para a reprodução do capital. Há setores muito importantes que precisam ser drasticamente reduzidos: automóveis, turismo, petroquímicos, etc., e outros precisam se reconverter e crescer: alimentação, têxtil, móveis, etc. Mas o balanço total é de uma perda de horas de trabalho.

Atenção, essas são tendências que inevitavelmente ocorrerão à medida que aprofundamos o choque contra os limites ambientais. O que está em jogo é fazer isso com parâmetros de justiça social. É isso que sindicatos como ELA, LAB, ESK ou CGT estão começando a ver, com os quais estamos trabalhando nessas transições.

O que nos une é entender que devemos proteger as pessoas, e não as atividades produtivas que devem desaparecer e já estão feridas de morte. E isso tem políticas concretas por trás, como a distribuição do emprego através da redução da jornada de trabalho sem redução salarial. Entre essas medidas, é fundamental a construção de outras economias fora das lógicas predatórias do capitalismo.

Você acha que com Donald Trump e seus seguidores será mais claro entender o que significa o ecofascismo? Ou simplesmente eles não têm nada de ecológicos?

A internacional reacionária que está se formando tem pouco de ecológica. É, na verdade, um neofascismo fóssil que nega a emergência climática e ecossistêmica. No entanto, ao mesmo tempo, algumas das medidas que eles implementam respondem à imagem socialmente difundida de uma crise profunda. Quando querem expulsar as pessoas migrantes dos EUA, o fazem entendendo que o privilégio que significa o “modo de vida americano” está cada vez mais distante de muitas pessoas devido a essa crise ecosocial profunda. Ou quando retornam a uma política imperialista de controle direto de territórios, entendem que o papel das matérias-primas, que estão se tornando cada vez mais escassas, é cada vez mais central.

Depois de ler as análises e propostas dos relatórios, ressoa a frase de Buckminster Fuller quando dizia: “Nunca se muda as coisas lutando contra a realidade existente. Para mudar algo, construa um novo modelo que torne o existente obsoleto.”

A.R. Amayuelas

Fonte: https://rojoynegro.info/articulo/el-capitalismo-global-industrial-no-solo-es-sociocida-y-ecocida-tambien-es-insostenible-ante-ello-proponemos-el-decrecimiento/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

as crianças
naquele pátio, e o sol
brincando de esconder

Carlos José Ribeiro

[Reino Unido] Ativistas pró-Palestina vandalizam sede da BBC

Corporação é acusada de minimizar crimes de guerra israelenses 

Scott Harris ~ 

O grupo Palestine Action afirmou que seus ativistas atacaram, na madrugada de hoje (17 de fevereiro), a sede da BBC em Portland Place, Londres, cobrindo o térreo externo do prédio com tinta vermelha, simbolizando sangue, e quebrando janelas. O grupo acusou a BBC de “minimizar os crimes de guerra israelenses” enquanto falha em “dar espaço às vozes palestinas”, tornando-se assim “cúmplice do genocídio em curso em Gaza”. Esta é a segunda vez que o grupo tem como alvo o edifício.

Em uma carta aberta publicada em novembro passado, mais de 100 funcionários da BBC escreveram ao Diretor-Geral Tim Davie e à CEO Deborah Turness, criticando a emissora por oferecer “cobertura favorável a Israel” e por não cumprir um “princípio jornalístico básico” ao não responsabilizar Israel por suas ações. Um ano antes, oito jornalistas da BBC enviaram uma carta à Al Jazeera acusando a emissora britânica de aplicar um “padrão duplo na forma como vê civis”, destacando que a BBC é “implacável” na cobertura dos supostos crimes de guerra russos na Ucrânia, mas adota outra postura em relação a Israel.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2025/02/17/palestine-activists-deface-bbc-headquarters/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Ruídos dos carros,
os escuto pela mesma orelha
que os pássaros.

Robert Melançon

Flecheira Libertária 794 | “morte ao fascismo, morte ao patriarcado”

de pé e dançando

Primeiro sábado de 2025, Zagreb, Croácia. Anarcoqueers agitaram uma ação direta “anti-clero-fascistas”, em suas palavras. O alvo foi impedir uma prática já corriqueira na cidade, realizada pelos “Cavaleiros do Imaculado Coração de Maria”: organizam-se na praça principal e, ostentando imagens sacras e patrióticas, ajoelham-se para orar. O ato é repetido em outras cidades croatas e durante marchas contra o aborto e os direitos de minorias, notadamente as lgbt’s, como gesto de “hombridade” e de amor à pátria, à deus e à família (ato também imitado no Brasil, em meio às manifestações pró-aborto, em 2024). No início deste ano, após o convite de anarcoqueers, mais libertárixs e antifascistas juntaram-se na praça antes do amanhecer. Quando os machos do senhor chegaram, encontraram o local onde armam seu púlpito tomado por gente que dançava e cantava: “morte ao fascismo, morte ao patriarcado” e, em provocativo tom lírico, “maria sapatão”. Elxs não se intimidaram e não deram espaço. Em pouco tempo, os fachos estavam empurrando, socando e chutando algumas pessoas, com escolta da polícia. Anarquistas, queers e antifascistas seguiram com seus berros e tambores ruidosos, sem recuar. De joelhos, os cavaleiros foram embora.

fúria sem lamúria

Primeira sexta-feira de fevereiro de 2025, Bogotá, Colômbia. Durante manifestação em solidariedade às mulheres e lgbt’s que vivem na Argentina, irromperam ações diretas de anarcoqueers. Com faixas e pichações afirmando “fúria marika”, “fúria trans” e “fúria kuir”, depredaram a fachada da Embaixada da Argentina, empreendimentos gringos, painéis eletrônicos de publicidade e propriedades estatais. Pelas ruas, deixaram pintados “A’s na bola”. Em texto, assinado incognitamente, propagam a revolta e o enfrentamento às crescentes violências perpetradas contra pessoas consideradas inferiores por seu sexo, corpos, prazer. Apartadxs do coro do/a/es que lamentam retrocessos no campo dos direitos e da inclusão no mercado, explicitam não estarem interessadxs em melhorar as coisas para serem assimilados à ordem e se tornarem o mesmo.

>> Leia o Flecheira Libertária 794 na íntegra aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2025/02/flecheira794.pdf

agência de notícias anarquistas-ana

Vi de uma lagarta:
faço um casulo de lã
na noite gelada.

Anibal Beça

Mineração em terras indígenas | A fome do Mon$tro não acaba nunca…

Por muitos e muitos anos os povos indígenas de Pindoretama vêm enfrentando o desejo da classe política pelo desenvolvimento do país alinhada aos interesses de empresas multimilionárias pela exploração dos recursos naturais, as custas da saúde dos biomas brasileiros e de vidas humanas e não humanas que vivem em paz e em perfeita harmonia com a natureza.

Acontece que a FOME dessa gente é muito grande e por não estarem satisfeitos nunca, começaram um plano maquiavélico de DESMONTE dos direitos indígenas, criando amizade com os indígenas mais enfraquecidos espiritualmente e os tornando fantoches nas mesas de conciliação afim de garantir a exploração.

Quando todo o teatro estava montado e o horror sendo negociado sem que pudéssemos ou tivéssemos a chance de listar todo o desmonte das tenebrosas negociações em uma publicação só:

Por trás das cortinas do vexame que se tem propagandeado na internet, negociavam a construção de uma estrada que cortará o trecho mais preservado da Amazônia na BR 319. Tentam também negociar a criação de postos de petróleo afim de combustíveis fósseis na Bacia Amazônica.

Não satisfeitos os esfomeados agora tentam a validação por meio de um ataque monstruoso sobre os diretos conquistados com luta em todas as áreas possíveis.

Enquanto brigamos entre nós para saber de fato alguém é ou não indígena, os monstros devoram a Terra com um apetite incontrolável por poder.

O STF que deveria garantir a lei da indisponibilidade da Terra para exploração, não o faz pela pessoa do ministro da mesa de conciliação, e infelizmente se torna a maior vergonha ambiental do país, quem dirá do mundo!

E a fome do Monstro não acaba nunca…

Todos eles serão lembrados quando não houver mais ar para respirar, nem possibilidades de vida digna em lugar algum desse país, comerão dinheiro e viverão sobre os escombros da destruição que iniciaram, viverão seus filhos e netos num deserto sem fim que provocaram por ganancia e falta de respeito a VIDA!

Agora, o final dessa história depende de você que está nos lendo, da forma como você se organiza e luta, você vai permitir? Você quem decide! QUEM CALA CONSENTE!

Autonomia Indígena Libertária – AIL

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vento muda
ares de chuva
tua chegada

Camila Jabur

[Alemanha] Manifestação selvagem em memória de Kyriakos Xymitiris.

Em 31 de outubro, nosso companheiro anarquista Kyriakos Xymitiris foi assassinado e nossa companheira anarquista Marianna M. ficou gravemente ferida em uma explosão em um apartamento em Atenas. Ela foi levada ao Hospital Evangelismos, onde foi atendida sob constante vigilância policial, e depois transferida para a prisão preventiva de Korydallos. Como resultado do que aconteceu naquele dia, também nossa companheira anarquista Dimitra Z., nossos companheiros Dimitris e Nikos R. e outra pessoa foram detidos e presos no mesmo caso.

Desde então, a dor e a raiva estão presentes em nossas vidas. Tristeza por perder um companheiro que se comprometeu a lutar até o fim e por todos os meios; raiva porque foi esse sistema capitalista, racista e patriarcal que o matou. Kyriakos não escolheu fechar os olhos para os interesses econômicos e políticos de alguns poucos que nos condenam a uma vida de miséria por meio da venda de casas a fundos especulativos, da precarização do trabalho, do feminicídio, das fronteiras e das guerras. Na cidade de Berlim, Kyriakos está engajado há anos na defesa de espaços autônomos e contra a gentrificação, na luta internacionalista, na abolição das prisões, bem como em todas as lutas sociais e de classe.

Sua paixão e convicção por um novo mundo livre da opressão deixa um enorme vazio naqueles que o cercam, bem como na própria luta. Entretanto, sua marca por meio de palavras e ações nos encoraja a manter vivo o fio da insurreição, dando continuidade à visão da revolução social presente em nossos corações e mentes. Uma ação revolucionária que entende a luta armada como um meio decisivo a favor dos de baixo na balança do poder, que tenta e consegue devolver ao Estado parte da violência que ele nos impõe todos os dias.

Entendemos que, por meio da defesa de sua memória, também nos unimos a todos aqueles que deram suas vidas e foram presos para lutar contra a injustiça, a desigualdade e a exploração.

Por tudo isso, e atendendo ao chamado dos companheiros gregos em Atenas nos dias 7 e 8 de fevereiro, queremos confrontar aqueles que tentam perverter essa memória, bem como expressar nossa solidariedade aos companheiros presos pelo mesmo caso. Portanto, decidimos fazer uma pequena manifestação selvagem em Friedrichshain, onde compartilhamos juntos muitos momentos coletivos de alegria e raiva. Foram feitos piquetes nas ruas e grafites foram pintados em memória de Kyriakos. Mais tarde, na rua Rigaer, as forças de ocupação foram bombardeadas com pedras.

Esse bairro de Berlim, como outras metrópoles do mundo, enfrentou um enorme processo de gentrificação. Nos últimos anos, os espaços coletivos foram despejados e transformados em restaurantes e lojas de yuppies [1], as pessoas de baixa renda foram deslocadas para a periferia, o airbnb está em alta, os aluguéis estão se tornando insuportáveis e as políticas sobre como usar o espaço público estão mais repressivas.

Nós, como Kyriakos, não podemos desviar o olhar desse processo que destrói a cidade e as diferentes comunidades que vivem nela. Nós, que acreditamos em um mundo melhor, queremos sair dessa precariedade em que aqueles que não se conformam com a norma são condenados. É por isso que, enquanto muitos outros protestos e respostas estão ocorrendo em diferentes cidades, queremos resistir e continuar o caminho que já percorremos com nosso amigo e camarada Kyriakos. Esse caminho que lhe custou a vida. Ele em nossas mentes, suas ideias em nossos corações. Juntos, tomamos de volta as ruas de Berlim e Atenas. Corações revolucionários ardem para sempre!

Liberdade para nossos companheiros Marianna M., Dimitra Z., Dimitris e Nikos R.!

Kyriakos presente!

Fonte: https://kontrapolis.info/14942/?

Tradução > acervo trans-anarquista

[1] Nota de tradução: significa “Young Urban Professional”, “jovem profissional em ascensão”.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/12/04/grecia-para-meu-companheiro-kyriakos-x/

agência de notícias anarquistas-ana

Recanto úmido.
A pedra
e seu delicado capote verde.

Yeda Prates Bernis

[Espanha] Novo comic de Rubén Uceda: “Sin olvido, un viaje por la memoria antifascista” | Sem esquecimento, uma viagem pela memória antifascista

A protagonista deste comic, Lola, está investigando sobre a repressão no regime franquista. Isto a leva a vivenciar a crônica de um crime histórico não resolvido, a dialogar com os milhares de mortos esquecidos em nossas valas e refletir sobre os perigos políticos e sociais de nossa desmemória coletiva.

Esta é a viagem de Lola contra o fascismo. Em sua viagem, Lola visita levantamentos de fossas comuns escutando os familiares, arqueólogos e ativistas. Acompanha-se de pessoas que lhe mostram lugares de homenagem à ditadura, alguns de tamanho monumental.

Junto a outras pessoas, Lola reflete e discute sobre a necessidade de despedir-se dos mortos, sobre o cordão umbilical que deve existir entre a vida e a morte. E também descobre o que esconde sua família, sua parte mais próxima do esquecimento coletivo.

Distribuidoras:

Traficantes de sueños : https://traficantes.net/libros/sin-olvido

Virus: https://viruseditorial.net/libreria/sin-olvido/

Cambalache: https://www.localcambalache.org/?page_id=38&id_libro=20271

Fonte: https://www.portaloaca.com/contra-info/publicaciones/nuevo-comic-de-ruben-uceda-sin-olvido-un-viaje-por-la-memoria-antifascista/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/12/19/espanha-lancamento-casilda-revolucionaria-un-comic-sobre-la-vida-de-casilda-hernaez-de-ruben-uceda/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/09/02/espanha-lancamento-hq-la-huerta-y-el-origen-de-las-cosas-de-ruben-uceda/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/06/14/espanha-lancamento-hq-el-corazon-del-sueno-verano-y-otono-de-1936-de-ruben-uceda/

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Seus cachos de seda
são borboletas douradas
brincando na brisa.

Humberto del Maestro

[Grécia] BAB2025 em Tessalônica

A 17ª Feira Anarquista do Livro dos Bálcãs acontecerá em Tessalônica, de quinta-feira, 15 de maio, a domingo, 18 de maio de 2025.

O sistema mundial de exploração parece disposto a se engajar em uma série infinita de guerras, buscando um novo equilíbrio por meio da destruição e do aumento do lucro capitalista. Enquanto isso, há sinais evidentes de uma crise real: a crise ambiental, que ofusca todas as outras sucessivas “crises” dos últimos anos.

A auto-organização já não é mais um simples slogan. É uma necessidade social. Os meses que antecedem a Feira Anarquista do Livro dos Bálcãs em Tessalônica são uma aposta aberta, um processo de fermentação de nossas ideias comuns e da criação conjunta de um espaço de encontro para a organização da solidariedade, resistência e luta. Um lugar onde a discordância será recebida com atenção companheira, respeito e compreensão mútua, onde compartilharemos e reconstruiremos, onde a riqueza, beleza e vitalidade das ideias e práticas anarquistas dissolverão a indignidade, a intolerância e a desumanidade: Mil rosas negras contra a resignação e o canibalismo social.

Um velho lema diz: “Lutemos pelo impossível antes que sejamos confrontados com o impensável”. Pois bem, o impensável já está aqui, e a utopia já não parece impossível. Ela é a única opção realista.

Em setembro de 2024, em uma assembleia conjunta realizada em Tessalônica com todas as coletividades da cidade que responderam ao convite para participar da assembleia organizativa, estabelecemos como meta para o BAB2025 reunir o maior número possível de companheiros de toda a região dos Bálcãs, a fim de discutir, de forma organizada, nossos acordos e desacordos e elaborar propostas concretas para lutas e ações comuns.

bab2025.espivblogs.net

Tradução > Contrafatual

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Esqueletos de árvores,
lampiões rodando no vento,
no chão, sombras, bêbadas.

Alexei Bueno

[Irlanda do Norte] Bloody Sunday: A Marcha pela Justiça Continua

O povo de Derry marcou o 53º aniversário do Bloody Sunday (Domingo Sangrento) com a Marcha pela Justiça anual. Milhares de pessoas participaram da marcha e manifestação comemorativa que foi de Creggan a Bogside ao longo da rota original da manifestação inicial dos Direitos Civis. Um dia em que 14 civis inocentes desarmados foram assassinados por paraquedistas britânicos em janeiro de 1972.

Todos os anos, o povo da cidade, incluindo muitos parentes dos mortos ou feridos no Domingo Sangrento, sai às ruas para marcar a ocasião. Há também amplas representações comunitárias e políticas de vários grupos de direitos humanos, justiça social e apoio a prisioneiros, bem como vários grupos republicanos. Os principais palestrantes deste ano foram um representante de um grupo de solidariedade à Palestina e um ex-ativista dos direitos civis, Eamonn McCann. Anarquistas em Derry foram acompanhados por anarquistas e sindicalistas de Belfast, Dublin, Escócia, Inglaterra e Itália.

Um ativista anarquista local destacou a importância da Marcha pela Justiça ao declarar: “A cada ano, temos uma presença anarquista visível crescente na marcha e somos gratos a todos aqueles que viajam para participar não apenas da marcha anual de comemoração, mas também dos eventos organizados localmente na semana que antecede a Marcha pela Justiça. É importante que continuemos com este evento e apoiemos as famílias que continuam a exigir justiça pelo que aconteceu nessas ruas.”

O Estado britânico e sua máquina de guerra devem ser responsabilizados pelo que fizeram nas ruas de Derry em 1972 e nos anos subsequentes de guerra que se seguiram. Não deve haver esconderijo para aqueles que criaram e administraram o Domingo Sangrento. É por isso que continuaremos a Marcha pela Justiça nas ruas de Derry. Como anarquistas, acreditamos que nunca alcançaremos justiça por meio dos sistemas legais do Estado, seus tribunais ou seus parlamentos. Todas as instituições foram criadas e projetadas apenas para proteger o próprio sistema de poder e interesses do Estado. Nossa liberdade, assim como a justiça que buscamos para os inúmeros outros Domingos Sangrentos, só virá das ruas e pelas próprias pessoas.”

Gostaríamos de estender nossos agradecimentos e solidariedade àqueles que marcharam conosco e àqueles que viajaram para mostrar seu apoio e solidariedade à Marcha Anual do Domingo Sangrento pela Justiça.

Domingo Sangrento em Derry – Origens e Consequências de um Massacre http://www.wsm.ie/c/bloody-sunday-derry-causes-consequences-massacre-1972

Fonte: https://derryanarchists.blogspot.com/2025/02/bloody-sunday-march-for-justice.html

Tradução > Bianca Buch

Nota:

Domingo Sangrento (Bloody Sunday (em inglês)) foi um confronto entre manifestantes católicos, protestantes e o exército inglês, ocorrido em Derry, na Irlanda do Norte, no dia 30 de janeiro de 1972. O movimento teve início com uma passeata de dez mil manifestantes que pretendiam, saindo do bairro de Creggan em marcha pelas ruas católicas da cidade, chegar até a Câmara Municipal. Antes disso, entretanto, soldados ingleses partiram para a ofensiva e dispararam contra os manifestantes, deixando 14 ativistas católicos mortos e outros 26 feridos.
Das quatorze vítimas mortas, seis eram menores de idade e um sétimo ferido faleceu meses depois em decorrência dos ferimentos. Todas as vítimas estavam desarmadas e cinco delas foram alvejadas pelas costas. Os manifestantes protestavam contra a política do governo britânico de prender pessoas suspeitas de terrorismo sem um julgamento prévio e contra as desigualdades religiosas presentes na Irlanda do Norte.

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O casulo feito
bicho dentro dele dorme
vestido de seda.

Urhacy Faustino

Recordando a Comuna…

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Nos becos, ecoa o grito de liberdade,

A Comuna floresceu na cidade ardente,

Por dias, a esperança dançou na eternidade,

Antes de ser silenciada pela mão do potente.

.

Entre as barricadas, corações pulsavam,

Solidários, lutavam por um mundo novo,

Mas as balas caíram, os sonhos se quebraram,

E Paris chorou, mas não se esqueceu do povo.

.

Seus nomes, sua luta, jamais serão apagados,

Na memória do povo, sempre renascem,

A Comuna de Paris, em corações gravados,

É chama viva, que a história não desfaz.

.

Liberto Herrera

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/03/19/lancamento-viva-a-comuna-o-anarquismo-e-a-comuna-de-paris/

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ribeira seca
nem um sopro
as cigarras crepitam

Rogério Martins