Terminado o ‘dia de catarse’ – qualquer semelhança com o ritual dos ‘dois minutos de ódio’, do livro ‘1984’ [de George Orwell], não será mera coincidência -, que foi esta paralisação de final de semana prolongado em feriadão e apelidada de ‘greve geral’, agora os burocratas dirigentes das centrais sindicais vão correndo receberem suas gratificações pelo espetáculo realizado, enquanto os trabalhadores serão deixados à dispersão pela ‘festa do dia do trabalho’, na segunda-feira.
Para quem, levado pela manipulação das centrais sindicais, acredita que isto é uma ‘greve geral’, sugiro a leitura sobre a primeira greve geral do Brasil, ocorrida no ano de 1917, em São Paulo, e organizada pelos primeiros movimentos sindicais da história do Brasil, os sindicatos revolucionários anarquistas.
Para início de conversa, a greve geral de 1917, compreendida como um processo que se iniciou como uma série de greves localizadas e se generalizou posteriormente, a partir do agravamento dos eventos repressores perpetrados pelas forças da ‘ordem’, compreendeu um período de tempo –inicialmente indeterminado– que se arrastou durante meses, até que as autoridades e os patrões cederam, e não um período de apenas vinte e quatro horas, com hora certa para acabar.
As autoridades agiram de forma arbitrária contra os grevistas (atacando seus direitos de associação e expressão e submetendo-os a uma repressão violenta) e fizeram uma campanha publicitária mentirosa, argumentando que eram os anarquistas que estavam incitando à violência – como costumam fazer até hoje, para variar -, mas mesmo assim os anarquistas não abriram mão da sua autodefesa e nem fizeram o jogo das autoridades de recuarem até uma postura de ‘grevistas bem comportados’.
Já quanto à presença de elementos ‘socialistas’ na coordenaçãoo grevista do Comitê de Defesa Proletária, é preciso lembrar que estes eram minoria ínfima naquele momento e que, logo depois disto, quando o sindicalismo anarquista foi esmagado pelas autoridades do Brasil e o Partido Comunista foi criado, levando à hegemonia ‘socialista’/marxista no meio operário, uma das primeiras medidas que os marxistas tomaram foi organizar uma reunião com os líderes anarcossindicalistas ainda remanescentes e atentarem contra suas vidas dentro do próprio local da reuni&ati lde;o.
Diferentemente do que alegam alguns autores sobre o tema, os anarcossindicalistas não buscavam apenas uma sociedade ‘mais justa e mais igual’, eles não eram meros reformistas (pois, afinal, esse é o discurso – da busca pela improvável ‘humanização’ do sistema capitalista – dos partidos reformistas de esquerda), pois os anarcossindicalistas eram de fato revolucionários e, a comissão de jornalistas que mediou as discussões ao final do processo se fez necessária devido aos atos de intransigência contra os grevistas, que foram deflagrados pelas próprias autoridades e pela maioria do patronato.
Não foi à toa que os grupos dominantes, após terem desarticulado o sindicalismo anarquista pelo emprego da violência mais atroz (inclusive com a criação de campos de concentração para onde enviaram os líderes anarcossindicalistas), colocaram em seu lugar este sindicalismo completamente submetido ao ‘disciplinamento’ jurídico e ‘amansado’ pelas benesses concedidas aos agora aristocratas dirigentes das burocracias sindicais licenciadas do trabalho especialmente para fazerem ‘política sindical’ e recebendo salários especiais para isto (garantidos pelos impo stos sindicais e chegando a valores que ultrapassam em até dez vezes mais os salários que ganhavam enquanto trabalhadores no exercício da sua profissão).
Mas o sindicalismo anarquista não ‘morreu’, conforme quer e afirma o status quo (inclusive em seus materiais oficiais de ensino de história): ele está sendo reconstruído por vários grupos espalhados pelo Brasil e o mundo (no Brasil, destaca-se o trabalho de reconstrução da Confederação Operária Brasileira – a COB), e este antigo ‘fantasma’ que assombra os grupos dominantes poderá se tornar novamente uma verdadeira ameaça real ao sistema.
Porém, para isto, é preciso antes fazer ao sindicalismo amarelo pelego aquilo mesmo que ele se prestou a fazer contra o sindicalismo anarquista – na verdadeira campanha de guerra que foi empreendida para assegurar o triunfo do capital na luta entre dominantes/exploradores e dominados/explorados -: ajudar a enterrá-lo!
Vantiê Clínio Carvalho de Oliveira
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agência de notícias anarquistas-ana
Tarde de outono —
Assustada a coruja
Acorda com o trovão
Eduardo Balduino

Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!