Aos que não temem a noite

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por Kuarup | 02/11/2018

Após o segundo turno das eleições que levaram ao esperado desfecho, a vitória de Bolsonaro, alguns compas e seções da esquerda institucionalizada, tem buscado cobrar de nós, Anarquistas/Autônomos, algum tipo de “posição ou justificativa” de nosso insistente argumento contra a farsa do espetáculo midiático-eleitoral, trocando em miúdos, nossa recusa em votar.

Aos nossos Camaradas anarquistas tudo está sempre às claras, votar não impediu o ascenso do Bolsonaro, nem os votos da extrema esquerda fariam diferença em face das serpentes que estavam chocando desde o pós-junho de 2013.

As ações que poderiam ter impedido o nascimento dos monstros de agora já não estão disponíveis, e exigiriam que a esquerda negasse o que ela é, um instrumento de gestão das condições de dominação e hegemonia.

A esquerda institucionalizada está em busca de uma narrativa que justifique sua derrota colossal nas urnas, para isso querem instalar o bode na sala. Não cairemos nesta armadilha, nossa posição contra o teatro eleitoral tem se mostrado a cada dia mais evidente.

As razões e a genealogia que trouxe a todos a este momento, a esquerda partidária/institucional, necessita ser estudada, e avaliada. Nosso conselho é simples: “ vá para casa, repense sua vida”.

O beco sem saída, e a miséria política desse país, não podem ser creditados ao acaso, ou a exclusiva beligerância de uma direita vitaminada por fenômenos novos ou pouco compreendidos. Temos sujeitos históricos que estavam na cena, foram partes da trama política que desembocou neste momento, negar isso equivale a legitimar os jogos e performances, e estamos habituados a ver, quase tão previsíveis quanto desonestos.

Onde estavam os Anarquistas? Com limitações que sempre compartilhamos, enredados muitas vezes nas armadilhas táticas que a esquerda nos lança, como cascas de banana, a despeito de tudo, prosseguimos nas nossas ações de destituição dos poderes que tão largamente denunciamos. Simplesmente seguimos labutando contra os bloqueios das formas de existência que defendemos.

As várias faces do Fascismo já denunciávamos desde que a gerência do PT nos assuntos do Estado, ainda sob o governo Dilma Rousseff, partejou a famigerada Lei Antiterrorismo, elevada ao estado da arte agora sob a influência de Bolsonaro. Não nos esquecemos das digitais nos processos de criminalização das lutas sociais, de indivíduos e organizações, em plena gestão “de esquerda”.

Não nos esquecemos das prisões e assassinatos morais nas universidades e lutas estudantis, do encarceramento de camaradas e a indiferença crônica da esquerda partidária diante desses dramas. Fincamos nosso pés naquilo que sempre acreditamos, apesar de.

E apesar das evidências, das mudanças que o capitalismo vinha assumindo, o fim do ciclo paz e amor de classes, e a entrada em cena de seu metabolismo ultra-selvagem, a esquerda tupiniquim seguiu em seus esforços de montar seu puxadinho nos fundos da Casa Grande, até então com o “consenso” das massas.

O “programa” de conciliação de classes distribuiu um novo padrão de consumo para o mundo do precarizado, a fantasia contaminou a esquerda institucional, tornando-a ainda mais subalterna ao andar de cima. Nem fez questão de armar as defesas do mundo dos que vivem do trabalho contra os punhais longos que logo cairiam sobre todos nós.

Bem longe da estratégia de conciliação assumida, o afiar de facas das classes dominantes contra o povo brasileiro nunca parou, e é uma boa prova de que para coçar e trair, é só começar.

No fermento político de milhões de ressentidos, patologia do tecido social recém anunciada, é de bom tom ressaltar o desarme em duas décadas, de todas as ferramentas de combate que o clico de luta contra a ditadura havia construído. É dizer, todo o esforço de contenção e apagamento das faíscas de rebelião produziu excelentes resultados, tudo que restou foi a vida nua do novo ciclo do capitalismo sem rebocos, em toda a sua crueza.

Podemos dizer que a esquerda calculou “danos colaterais” em seu conhecido padrão de conciliação, noves fora o capitalismo de choque em pleno setup de instalação acelerada na muitas instâncias da vida brasileira.

É evidente que a extrema esquerda, após 2016, não recuperou seu fôlego, é necessário afirmar que nossas posições configuram uma vasta constelação de diferenças pueris, pouco apreço na construção de consensos táticos, pouco estudo e uma baixa intensidade no trabalho prático.

Somos bastante defeituosos, contraditórios e sequer somos tantos como apregoam. Nossos problemas são de variada ordem, e nosso balanço não escamoteia essas dificuldades, mas entre as falhas geológicas do nosso campo nunca desfiguramos nossa Ética, entendida não somente como enunciado, mas como acontecimentos e afecções que buscamos viver.

Do conjunto acima não negamos que a “conjuntura”, com a eleição de Bolsonaro mudou substantivamente as condições no país. Não vamos cometer o mesmo erro dos amigos do Passa Palavra, para quem, até um dia desses, o golpe era mera treta da esquerda partidária. Como desses jogos teoréticos nãos participamos, preferimos a dura bússola de confrontação com o real existente, bem sabemos quem a borracha busca quando o pau tá cantando.

Se perguntarem aos Anarquistas qual a nossa tarefa atual, a resposta é direta e evidente: Organizar toda e qualquer ação Antifascista, enfatizar as ações de solidariedade, apoio e ajuda mútuas, difundir as idéias e práticas horizontais e de contra-poder.

Se formos indagados acerca de toda a miríade de formas mortas da vida política degradada do país, nada temos a dizer, isto é, nesses circos não ingressamos, e nossas energias não serão tratadas por essas agendas.

De uma ponto de vista de nossas ações, pensamos que a hora é de encontros, escutas pacientes, diálogos sem pretensões e subterfúgios, de compartilhamento de angústias e sonhos esperançosos. Mas a hora é também um tempo de invenções, de criação de armas para derrotar a aspereza da noite que ameaça ser longa e maléfica, para todos.

Não sabemos as respostas, nem mesmo temos essas tolas pretensões ao papel de oráculos. Dos muitos campos aonde crescem o anarquismo, temos muitas e honestas dúvidas para dividir, em rodas aonde nosso pensar seja respeitado, e onde a prosa seja horizontal, instituída pela sabedoria de um comum e menos pela astúcia da razão prática.

Encontros queremos, ideias ou ações de luta e ajuda mútua é o que nos move. Nem somos muitos, mas sabemos ser tantos.

Não tenhamos medo dos monstros da noite, aprendemos como nos mover nos seus becos e esquinas perigosas. Podemos usar a espessa neblina para atacar o Inimigo, usar as armas que construirmos juntos para nossa autodefesa.

Não tenhamos medo da face violenta dos que buscam nos cercar, façamos músicas e poesias para reunir coragem e inspirar uma boa luta.

Não tenhamos receio de sorrir e gargalhar bem alto do matreiro adversário. Se juntas, nossos risos ecoarão longe, confortando e estimulando outras vozes.

Não tenhamos medo da solidão, busquemos uns ao outros, com todo o ferver e as paixões de nossas existências. O medo, tem horror da vida viva!

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agência de notícias anarquistas-ana

Vai brotar no tempo
Tempo traz vento
Natureza canta e desencanta.

Mara Mari

2 responses to “Aos que não temem a noite”

  1. Sergio da Motta e Albuquerque

    Belíssimo texto. Ação direta é no que creio. E em Agostinho da Silva, o filósofo anarquista português. Que viveu no Brasil e enfrentou a ditadura ao modo dele. Agostinho entrou em luta corporal com os militares da ditadura, em defesa de alunos pobres, que ele ajudava com seu próprio dinheiro. Ele nunca apoiou a esquerda institucionalizada. (Ele) Quer(ia) voltar ao tempo das velhas aldeias de Portugal, onde prevalecia o escambo, e o trabalho era valorizado sem a medição do Estado. Anarquismo sempre!Eu apoiei a luta antifascista dos Black-Bloc, com meus artigos. E denunciei Dilma e sua lei suja anti-terror. Hoje, estou bem comigo mesmo. Com algumas autocriticas, é claro. Saudações anárquicas de um senhor de 63 anos que destruiu sua própria vida, em nome da coerência. Minha consciência é limpa.

  2. Anônimo

    Um erro da anarquia? Se juntar à esquerda ou se auto-denominar extrema-esquerda.

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