[França] De volta à natureza: a vida selvagem floresceu, vamos respeitá-la

Por Gaspard d’Allens | 16/05/2020

Aves, insetos, mamíferos… Esses 45 dias de calma, no período da estação reprodutiva, permitiram o início do “re-selvageamento”. Naturalistas e organizações ambientais estão pedindo um desconfinamento educacional para evitar um fluxo denso nos espaços naturais. E pedem por uma “nova cultura de humildade”.

A fauna e flora selvagens se beneficiaram por dois meses de um descanso, como uma respiração. Um tempo suspenso rompendo a eterna predação dos seres humanos na natureza. Na ausência deles, a fauna e a flora foram capazes de florescer, se desenvolver onde não eram esperados, ganhando as ruas da cidade, crescendo nos interstícios livres de nossas garras. Enquanto a população francesa permaneceu enclausurada entre quatro paredes, a natureza literalmente desconfinou.

“Os animais ocuparam espaços que anteriormente eram proibidos para eles, diz o presidente da Liga para a Proteção das Aves (LPO), Allain Bougrain-Dubourg, acompanhado por Reporterre. “Esta é uma situação sem precedentes, a primeira na história. Lugares como a zona submergível, que é a faixa costeira que atravessa as marés, não foram pisoteados por humanos por vários meses.”

Na Camargue, a LPO identificou 89 espécies de aves construindo ninhos. Um recorde. Os Ibis-preto, que geralmente vivem no outro extremo da Europa, no delta do Danúbio, foram observados em grande número no parque natural regional.

Em Charente-Maritime, as garças também apareciam na beira das estradas. Perto de Cap d’Agde, uma colônia de garajau-comum passou a habitar a praia de Portiragnes, a poucos passos dos parques de campismo. Os caminhos costeiros desertos e as praias onde o velejador geralmente coloca a toalha de banho se transformaram em ninhos aconchegantes para uma infinidade de pássaros, como os borrelho-de-coleira-interrompida, as aves aquáticas com longos membros inferiores e as avocetas. Nas montanhas, o tetraz-grande e o lagópode-branco surgiram dos recantos em que estavam confinados.

Segundo Frédi Meignan, presidente da associação Mountain wilderness, “estamos testemunhando um começo de re-selvageamento. Uma parte da vida está acostumada a viver sem os humanos. O confinamento coincidiu com a estação de reprodução. Um ano em que a filósofa Virginie Maris julga como “milagroso”. Os espaços naturais foram transformados em viveiros. Muitas espécies deram à luz e os pássaros ainda estão chocando. As florestas estão cheias de filhotes que nunca conheceram humanos antes. Ela acredita que “nossa imaginação estava bloqueada por nossa proximidade com uma natureza muito degradada. Com o confinamento, tudo mudou. A natureza foi reimplantada e nos tornamos conscientes das interações tóxicas que tínhamos com ela.”

“Precisamos aprender a compartilhar a Terra”

A parada das atividades humanas interrompeu uma carnificina que ficou invisível a medida em que se tornou cotidiana. Várias milhares de corujas e doninhas, dezenas de milhares de salamandras e ouriços e milhões de insetos foram salvos devido à redução do tráfego rodoviário”, escrevem em um comunicado várias associações ambientais e naturalistas, incluindo a Aspas, a LPO e a France Nature Environnement.

Essas organizações acreditam que a pandemia atual é uma oportunidade única para refletir sobre uma nova relação com os seres vivos. O próprio vírus Covid-19 é o resultado de um relacionamento destrutivo com o meio ambiente, diretamente ligado a destruição de florestas e ecossistemas. “Precisamos mudar essa mentalidade, parar de lidar com os espaços naturais com armas, com a caça, o aprisionamento”, diz o naturalista Pierre Rigaux. Essa relação doentia de predação e exploração favoreceu o surgimento da epidemia no outro lado do mundo.”

Para a filósofa Virginie Maris, devemos aproveitar esse período “para pensar em uma outra maneira de habitar o espaço, de modo menos brutal e menos mortal para os não-humanos. A Terra não está ocupada como um campo de batalha, precisamos aprender a compartilhá-la.”

Concretamente, vários naturalistas e organizações pedem um desconfinamento educacional para evitar um influxo excessivamente denso nos espaços naturais. Os dias de maio são geralmente os mais movimentados e as frustrações do confinamento dificilmente ajudarão.

“Assim que os humanos ocupam novamente o espaço, obviamente há competição e risco de conflito”, diz o observador de pássaros Allain Bougrain-Dubourg. Ele recomendou as autoridades a fazerem um levantamento dos locais o mais rápido possível. Enquanto alguns naturalistas foram capazes de obter multas durante o confinamento, a maioria deles permaneceu em suas casas. “Faltam dados e pesquisas de campo para conhecer o estado da fauna, seu novo território”, afirmou. “Se notarmos em algumas áreas um notável desenvolvimento da natureza, poderíamos imaginar fazer algumas coisas. Não se trata de proibir o acesso às praias, mas de ser mais atento e cuidadoso.”

“Nossa fragilidade durante o confinamento ecoou àquela da fauna selvagem”

Depois de oito semanas sem tráfego humano, a associação Rivages de France está preocupada com uma possível “hecatombe” com o retorno do público às praias: “A situação do ano de 2020, que parecia excepcional para a reprodução, poderia provar ser catastrófica: ovos esmagados, ninhadas pisoteadas, filhotes separados de seus pais ou até devorados por cães que não são mantidos na coleira”, escreveu em um comunicado à imprensa.

As associações multiplicaram as recomendações para evitar a tragédia: seguir os caminhos marcados ,evitar frequentar o topo da praia, as dunas de areia ou as áreas naturais atrás da costa, manter a coleira no seu cachorro e, principalmente, se afastar dos pássaros que estão no chão. “Se ele gritar repetidamente, tenha certeza, ele está bem, é apenas uma manobra para tirá-lo daqui!”, avisa o LPO.

Em Languedoc-Roussillon, a France Nature também deu alguns conselhos aos alpinistas, para que o retorno às montanhas não afete a biodiversidade. “Aves como o francelho, o falcão peregrino ou a coruja bufo-real podem ter se aninhado nas rotas de escalada. Ao se aproximar dos buracos nas falésias das montanhas, é aconselhável manter-se atento à presença de ninhos e, em caso de nidificação, seria melhor parar de subir a área”, alerta a associação.

Frédi Meignan espera que uma “nova cultura de humildade” surja. “Nossa fragilidade durante o confinamento ecoou àquela da vida selvagem. Antes, nós éramos consumidores do espaço, todos poderosos, como desenvolvedores, grandes importunos.”

“O indivíduo não é o primeiro culpado. Longe disso!”

Com leveza, os humanos terão que reaprender como “andar na Terra”, nas palavras do presidente da LPO. Não mais entrar em espaços naturais como em uma terra conquistada. Ele acha que está na hora:

“Algo excepcional aconteceu durante o confinamento. Pela janela, varanda ou jardim, os cidadãos olhavam a natureza com nova compaixão e atenção. Pela primeira vez, eles ouviram o canto dos pássaros sem poluição sonora. Nossos sentidos são despertados, reaprendemos a provar, cheirar, sentir… 

A iniciativa “confinados, mas em alerta”, lançada pela LPO, convidava indivíduos a identificar aves observadas em suas casas. A associação recebeu mais de 900.000 respostas. Algo inédito.

Contudo, cuidado para não idealizar demais o futuro, adverte o naturalista Pierre Rigaux. Na luta contra a erosão da biodiversidade, como na luta contra o aquecimento global, o comportamento individual não é tudo. “O indivíduo não é o primeiro culpado. Longe disso! É a urbanização e a agricultura industrial que degradam os espaços naturais, os pesticidas que matam a vida selvagem, a caça que destrói a biodiversidade.”

Nesta frente, o mundo futuro pode muito bem se parecer com o anterior. Os lobistas do agronegócio estão mais ativos do que nunca. O governo também aproveitou o período para enfraquecer a lei ambiental e a caça foi retomada, a critério das isenções concedidas pelos prefeitos. “Não vamos cair na miragem, adverte Pierre Rigaux. A luta deve continuar!”

Fonte: https://reporterre.net/Retour-dans-la-nature-la-vie-sauvage-s-est-epanouie-respectons-la

Tradução > Estrela

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Beira do lago
A mãe ganso e filhotes
Passeiam sem pressa.

Bruno Cercounei – 8 anos