
O centenário da morte de Kropotkin é um belo momento para retornar à pergunta que ele fez em Freedom (Liberdade) em 1886: o que devemos fazer? Ruth Kinna o considera um pensador cujo trabalho evoluiu através de uma era política e social em rápida mudança, mas que nunca perdeu sua humanidade e fé na possibilidade de uma mudança real.
As diferentes respostas de Kropotkin a essa pergunta foram informadas por suas variadas avaliações da situação política na Europa. Na década de 1870, ele descreveu tal situação como “revolucionária”. Dez anos depois, sua terminologia mudou: ele falava em processos evolutivos e ajuda mútua. No entanto, não é óbvio que essa mudança sinalizou uma grande redução de suas ambições políticas. A evolução ainda apontava para “a anarquia vindoura”, uma proposição revolucionária que residia na mente da maioria das pessoas.
Kropotkin costumava escrever sobre a transformação anarquista como se o copo estivesse meio cheio. Ele destacou as tendências sociais e econômicas que poderiam aumentar a confiança nesta mudança anarquista. Mas ele temperou seu “utopismo” com uma dose saudável de realismo. A maior parte dos dados que utilizou para mostrar a iminência da anarquia, de fato, também atesta a terrível saúde do sistema de mercados regulados pelo estado, caso continuasse a crescer sem obstáculos. A essência do pensamento de Kropotkin sobre a transformação social era que o potencial para a anarquia não era a mesma coisa que sua probabilidade.
Os contornos do futuro alternativo de Kropotkin são bem conhecidos. Para combater a urbanização e o desenvolvimento do agronegócio, ele previu a integração da agricultura e indústria e a criação do que os economistas agora chamam de “10-minute neighbourhoods (bairros de 10 minutos)”. Sua globalização alternativa priorizou o compartilhamento de informações sobre o comércio internacional e previu a federação descentralizada comunista como oposição ao monopólio governamental e ao conglomerado corporativo. O plano pode ter parecido especulativo, mas o objetivo de Kropotkin era aumentar os esforços organizacionais práticos e perturbar os arranjos socioeconômicos existentes.
Para Kropotkin, o fortalecimento do liberalismo era uma perspectiva desoladora. Ele antecipou que a internacionalização do laissez-faire prenderia os parceiros comerciais em uma competição por recursos escassos e vantagens econômicas. O livre comércio apontou para a militarização do sistema interestatal, investimento de capital na guerra e patrocínio governamental da produção industrializada de armas. Os padrões de troca desiguais e colonizadores que moldaram a atividade econômica em todo o mundo incentivariam simultaneamente a oposição à dominação europeia e estimulariam os movimentos migratórios das regiões mais pobres para as mais ricas. Essas pressões provavelmente se intensificariam à medida em que o processo de aquecimento global (que Kropotkin não vinculou à atividade humana) afetasse a produção e a distribuição. Mais cedo ou mais tarde, o liberalismo abraçaria a social-democracia. Uma vez que os liberais entrariam em contato com a ideia da marcha histórica do socialismo, a noção de luta de classes poderia ser facilmente neutralizada pelo assistencialismo. O socialismo de gás e água controlaria a lealdade dos trabalhadores.
As esperanças de Kropotkin sobre a anarquização da vida social e econômica foram frustradas e ele provou estar totalmente certo sobre os rumos do liberalismo. Ele advertiu que a democratização dos estados ocidentais diminuiria o apetite pelo internacionalismo ao longo das linhas propostas por ele e, em vez disso, aumentaria a rivalidade chauvinista e xenófoba. A democracia liberal implicou a profissionalização da política e a abdicação do poder de decisão para especialistas. Mas isso seria mal interpretado como uma tremenda redistribuição de poder e uma vitória para a classe trabalhadora. Cooptados pelas franquias, o povo seria soberano apenas no momento em que renunciasse à sua soberania individual. A igualdade criaria oportunidade e privilégio. Kropotkin previu as linhas gerais da socialização do liberalismo, embora não tenha vivido para ver as consequências: lares dignos de heróis, educação universal gratuita e serviços de saúde do berço ao túmulo. Os cidadãos buscariam toda proteção para manter suas vantagens contra “estrangeiros”. A ideia de que a sociedade poderia funcionar de forma cooperativa e independente do estado iria parecer fantástica.
O mundo de Kropotkin não era tão diferente daquele em que habitamos. É um equívoco consignar sua concepção de transformação social a um passado distante, onde as barreiras para a mudança anarquista eram menos formidáveis do que são agora. Algumas de suas prioridades imediatas – assim como resistir às seduções do governo representativo e do socialismo de estado – dependiam do apoio que os anarquistas pudessem obter para sua causa na época. Sua compreensão realista dificilmente diminui a força de sua crítica. Kropotkin pressentiu o possível eclipse do anarquismo na Europa e testemunhou o colapso de seus sonhos na Rússia. Apesar disso, ele continuou a promover a política anarquista até o fim. Como é bem sabido, ele acreditava que a anarquia sempre podia ser descoberta nos cantos e recantos do estado e sempre poderia ser recuperada como uma ordem social alternativa. A ajuda mútua foi um dos pilares de seu anarquismo. Ele também nos deu frutíferos conceitos de livre acordo, espírito de revolta e bem-estar para todos.
A ajuda mútua às vezes está ligada a um conjunto restrito de atividades. Mas Kropotkin não estabeleceu limites para os tipos de ação direta e não prescreveu quais empreendimentos as pessoas deveriam buscar, contanto que fossem movidos por considerações de justiça.
O que, então, devemos fazer? Kropotkin deu sua resposta: Ajam por si mesmos!
Fonte: https://freedomnews.org.uk/100-years-on-kropotkin-remains-strikingly-modern/
>> Ruth Kinna é coordenadora do Anarchism Research Group e co-edita seu jornal Anarchist Studies. Livros recentes da autora incluem The Government of No-one and Great Anarchists (O Governo de Ninguém e Grandes Anarquistas).
Tradução > A. Padalecki
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agência de notícias anarquistas-ana
Nesta fria noite
Dorme no fundo do poço
A Lua encurvada.
Mary Leiko Fukai Terada
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!