[Canadá] Bye Bye Johnny: Uma Estátua de John A. Macdonald é posta abaixo em Kingston

Um pouco de contexto

Nós vimos um bom número de estátuas de John A Macdonald encontrarem seu fim no ano passado. Macdonald não manda mais em Montreal, Charlottetown, Picton, e agora, nem na sua cidade natal, Kingston. Após anos de pressão popular e corpo mole do conselho municipal, Johnny Boy foi finalmente jogado no depósito de uma velha e mofada arena de hockey. Embora quiséssemos que ele fosse vendido pro ferro-velho e que o dinheiro servisse pra financiar um acampamento indígena em algum lugar, pensar no primeiríssimo Primeiro Ministro do Canadá passando seus dias ao lado de cocô de rato e protetores genitais azedos são bem divertidos.

Mas como foi que chegamos aqui? A estátua de John A. Macdonald se impunha sobre Kingston City Park por, tipo uns cem anos. Eventualmente, habitantes indígenas locais e cúmplices anti-coloniais começaram a fazer bochicho, tumultuando sua festa de aniversário e ocasionalmente vandalizando sua estátua.

Alguns velhos de kilt ficavam incomodados, o jornal local publicou um editorial falando sobre como os vândalos deveriam, literalmente, serem banhados em piche e terem o corpo coberto de penas; e a prefeitura de Kingston criou o Grupo de Trabalho pelo Legado de Sir John A. Macdonald para direcionar os esforços do conselho municipal. Após alguns anos de reuniões, consultas e discussões, a solução deles foi adicionar mais uma placa, para “contar uma versão mais completa e inclusiva” da história. Genocídio: É complicado™.

Em Kingston, a tolerância com John A. pareceu mudar um pouco lá por maio, quando 215 covas sem identificação foram encontradas na Escola Residencial para “Índios” de Kamloops. Kingstonians foram, uma vez mais forçados a confrontar sua cumplicidade em celebrar o arquiteto do sistema das escolas residenciais. Conforme ações anti-coloniais explodiram de costa à costa, pareceu inevitável que, de uma forma ou de outra, a estátua viesse abaixo.

Revolução do coração

Na tarde de 10 de junho, indígenas e não-indígenas da comunidade se encontraram na estátua de John A. no parque municipal. O evento foi organizado sob a bandeira Revolução do Coração: Uma Ação Cerimonial. O grupo acendeu uma chama sagrada e se juntou em ritual, enquanto um imenso tecido vermelho cobriu a estátua. Eles votaram por permanecer acampados até que ela fosse derrubada e substituída por um monumento em homenagem as vidas perdidas nas escolas residenciais.

Em seguida, mais barracas começaram a aparecer. Alguns gazebos foram erguidos para proteger as pessoas das intempéries e bannock fresco [1] foi distribuído entre todos. O pedestal da estátua foi pichado com carvão, com mensagens anti-coloniais fazendo menção ao número de covas nas escolas residenciais, que iam sendo atualizadas conforme outras iam sendo reportadas. O número cresceu a cada dia, conforme notícias de Brandon, Lestock, Regina e outros locais iam chegando.

O prefeito e ex-membro de culto cristão fundamentalista/pastor mirim, Bryan Paterson inevitavelmente apareceu para dar o típico discurso para boi dormir, para assegurar a todos que a polícia não seria mobilizada para dispersar o acampamento. Dado o contexto, repressão policial seria um desastre para a imagem do prefeito. A atenção logo passou de vigiar a polícia para lidar com nacionalistas brancos e legalistas putos. Essas interações geralmente eram eficientemente desescaladas, apesar de algumas terem sido bastante tensas. Em uma madrugada, um cara branco bêbado, montado numa lambreta ameaçou “voltar com umas armas”, mas suas ameaças nunca se concretizaram.

Apesar do ocasional encontro com racistas, o clima no parque municipal era festivo e animado. Todos os dias havia uma roda de tambores e danças ao redor, um fluxo constante de visitantes e apoiadores, doações o suficiente para manter todos alimentados. Mesmo que muitas das pessoas presentes ficassem satisfeitas em arrancar a estátua de John A. num só puxão, o acampamento foi uma grande oportunidade para as pessoas se reunirem e se conectarem pela primeira vez desde a pandemia.

O brochante terreno da política municipal

O acampamento parecia ter acendido uma fogueira debaixo do rabo da cidade. Uma reunião extraordinária do conselho municipal foi agendada para 16 de junho. Em 14 de junho o grupo de trabalho de John A. se encontraria para rascunhar uma nova série de recomendações. O grupo chegou ao consenso que a estátua deveria ser retirada de seu pedestal assim que possível e posta em um depósito até que novas discussões pudessem ser realizadas.

No dia da reunião, cerca de 50 pessoas se reuniram no acampamento para ouvir tudo ao vivo. Aproximadamente uma dúzia de membros da comunidade (incluindo sobreviventes de escolas residenciais e dos sixtie scoops [2]) deram discursos inspiradores sobre os motivos pelos quais a estátua deveria ser derrubada.

Então os conselheiros assumiram o palco, e rapidamente ficou nítido que ouvir 13 homens brancos debatendo o lado “bom e ruim” do legado de John A. era tão divertido quanto lamber tomada. Estavam sendo discutidas, duas opções: A) Deixar a estátua onde estava, ou B) Retirar a estátua. Mas na crocodilagem, o prefeito tinha um truque na manga. Ele propôs uma terceira opção: C) Realocar a estátua no Cemitério Cataraqui, próximo a tumba de Macdonalds. Essa opção nunca foi citada ou informada pelos conselheiros ou pelo grupo de trabalho que supostamente os guiariam nos processos decisórios.

Insistindo que esse era o único caminho para “acabar com a divisão”, Paterson eventualmente convenceu a maioria dos outros conselheiros a votarem em seu favor. A remoção da estátua deveria começar alguns dias mais tarde. Ela seria posta no depósito até que sua eventual realocação para o cemitério, durante o verão.

Uma vitória agridoce

Cerca de 150 pessoas se reuniram para testemunhar a remoção da estátua. Uma equipe de pedreiros ficou horas tentando dar um jeito pra que John A. não se tornasse Humpty Dumpty [3]. Um pequeno grupo de legalistas ficou ao redor, resmungando. Seus kilts balançavam no mesmo vento que balançava suas bandeiras britânicas. O som agudo de suas gaitas de fole era um convidado não muito bem-vindo.

A vibe do nosso lado era de celebração. Música pow-wow [4] saía do alto-falante enquanto pessoas dançavam em roda. Qualquer progresso dos pedreiros era comemorado pela multidão. Depois de várias horas, eles estacionaram um guindaste na frente da estátua, em preparação para erguê-la. Dois velhos legalistas passaram por debaixo da fita da polícia e ficaram no trajeto do guindaste. “Liberdade de assembleia!”, um gritou. Mas a convicção deles não foi páreo para encarar um policial qualquer que em 30 segundos, com uns poucos gritos, fez eles vazarem.

Com esse contratempo menor fora do caminho, a estátua foi atada e estava pronta para ir. E simples assim, nós tiramos John A. do seu pedestal, balançando pra todo lado como aquela coisa que balança pra todo lado. A platéia foi ao delírio.  Gritos por todo lado e o refrão de Stream “Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye” foi entoado repetidas vezes. A estátua foi lentamente abaixada na carroceria de um caminhão e levada pra supracitada arena de hockey.

Pra ser honesto, sabíamos que não era o fim da luta. Ninguém estava satisfeito com o resultado. As pessoas do acampamento queriam que a estátua nunca mais visse a luz do dia, juntamente com todas as outras estátuas como ela. Ainda assim, o sentimento de que o agora era um ótimo momento para ações anti-colonial era real, e os laços que foram feitos no parque pareciam que iriam facilitar muito para que outras coisas acontecessem no futuro.

Até a próxima

A cova de John A. no Cemitério de Cataraqui foi vandalizada na noite seguinte ao Dia do Canadá. Sua lápide foi coberta de tinta vermelha, e o monumento que antes mantinha sua placa foi marcado com um picho que diz “Por toda dor que você causou, queime no inferno”. A placa já havia sido removida por ter sido vandalizada.

O cemitério é propriedade privada. O local faz dinheiro através das famílias que consideram aquele um local agradável para pôr seus entes queridos para descansar. Provavelmente os gerentes estão mais preocupados com a satisfação de seus clientes do que lutar uma irritante batalha política para manter uma estátua que não para de ser vandalizada. O acordo pendente de manter a estátua deixa aberta muitas possibilidades para pressionar os diretores do cemitério para desistirem dela.

É evidente que políticos farão política. Talvez tenha se depositado muita confiança na ideia de que a burocracia municipal seria capaz de chegar num resultado satisfatório. Neoliberalismo é uma baita de uma droga, e quem usa, sempre encontra um jeito de cooptar a luta social e surgir com uma solução que “agrada a todos”. Talvez confiar na prefeitura seja uma batalha perdida, e pode ser o momento de seguir o exemplo de como o povo em Winnipeg ou Montreal lidaram com suas estátuas coloniais.

Por último, se outro acampamento surgir, seria ótimo ter algumas discussões realmente coletivas sobre segurança e desescalar conflitos. Ataques da extrema direita contra manifestantes e acampamentos são mais e mais frequentes. Apesar de às vezes esses eventos parecerem isolados nos EUA, pode acontecer e acontece aqui também. O ataque com veículo contra uma família muçulmana aconteceu uns poucos dias antes do acampamento se formar. Ainda assim, é importante não deixarmos que nossos medos nos paralisem. Vamos aspirar pelo melhor, e nos preparar para o pior.

Notas do tradutor:

[1] Bannock é um pão, de origem indígena, comum também entre campistas canadenses.

[2] Sixties Scoops foi uma série de promulgações de leis, no território do Canadá, que permitiu ao Estado sequestrar crianças indígenas e forçá-las em escolas.

[3] Humptu Dumpty.

[4] Um termo abrangente para música tradicional indígena.

Fonte: https://north-shore.info/2021/08/09/bye-bye-johnny-john-a-macdonald-statue-taken-down-in-kingston/

Tradução > 1984

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Luiz Bacellar

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