[Taiwan] Resenha: ‘Uma contracultura híbrida’ de anarquistas

Esse livro fascinante sobre uma co-fundadora do anarquismo americano e uma de suas revistas mais importantes, examina suas causas principais como amor livre, reforma prisional, antimilitarismo e a emancipação da mulher.

Por Bradley Winterton | 05/08/2021

No final do século XIX e início do século XX, o anarquismo foi popularmente associado a atos de violência de inspiração política. O romance de 1907 “O agente secreto”, de Joseph Conrad, por exemplo, tem como centro os anarquistas e uma bomba em Londres, e na vida real houve dezenas de tentativas, algumas bem sucedidas, com kaisers, czares, generais, reis e figuras corporativas, por rebeldes que reivindicavam lealdade ao anarquismo. A teoria era sempre a mesma, que o Estado se mantinha no poder por meio da ameaça e do próprio uso da violência, e seus oponentes tinham toda razão em se utilizar dos mesmos meios. Havia também, é claro, os anarco-pacifistas, que escaparam a toda a violência, mas que ocuparam menos o imaginário popular.

Rachel Hui-chi Hsu (許慧琦), a autora desse novo livro sobre o anarquismo na América, é uma historiadora na Universidade Nacional de Chengchi (Taiwan), e esse é seu primeiro livro em inglês. É sobre Emma Goldman, uma das fundadoras do anarquismo americano, e a leitura é excepcionalmente fluente. A pesquisa e a escrita parecem ter sido feitas na época em que a autora foi secundada na Universidade John Hopkins nos Estados Unidos.

O foco principal do livro é na revista anarquista Mother Earth (Mãe Terra), editada em Nova Iorque e publicada entre 1906 e 1917 no nome de Emma Goldman. Hsu descreve ela e as ideias da revista como uma “contracultura híbrida”, englobando o anarco-comunismo clássico, que defendia uma sociedade não-coerciva, sem Estado e sem classes, baseado na cooperação voluntária de indivíduos livres. Dirigida à classe média instruída, a revista suportava muitas causas – amor livre, reforma prisional, antimilitarismo, controle de natalidade, drama moderno e emancipação da mulher, entre outros. Nem sequer é necessário dizer que essas pautas se sobrepuseram sobre as pautas de muitas outras organizações de esquerda, tanto naquela época quanto, curiosamente, nos dias atuais.

O livro olha de novo para a Mother Earth, incluindo as suas conexões com o Leste Asiático. Essas são reveladas através das 8.000 listas de subscritores fortes, apreendidas pelas autoridades federais dos EUA em 1917. Já nos anos 20, a Mother Earth estava a ser listada por um periódico anarquista de língua chinesa, Tian Yi, publicado no Japão. Outros jornais não anarquistas apresentaram artigos sobre Goldman, especialmente tratando do seu radicalismo sexual. Além disso, a Mother Earth defendeu uma política de imigração “transnacionalista” para os EUA que abraçasse todas as culturas e não procurasse fazer com que cada recém-chegado se conformasse às normas culturais anglo-saxônicas.

‘WOBBLIES’

Emma Goldman era uma imigrante judia da classe trabalhadora que chegou da Rússia em 1885. Ela pretendia retornar à Rússia em 1919, logo após ser banida dos EUA. Nesse período, ela primeiro apoiou a Revolução Russa, mas depois se posicionou contra em decorrência do pouco interesse bolchevique na liberdade individual.

Também proeminente nos Estados Unidos nesse momento eram os Trabalhadores Industriais do Mundo (Industrial Workers of the World, IWW, ou “wobblies”), fundado em Chicago em 1905. Ao mesmo tempo, e de equivalente importância para Goldman na equipe da Mother Earth, estava Alexander Berkman, seu ocasional amante. O livro contém animadas descrições de protestos de rua e sessões de tribunal com destaque das duas figuras. Goldman, em particular, percorreu os EUA anualmente, falando frequentemente em mais de 100 lugares diferentes. Ela atacou a existência de igrejas, explicou o drama europeu moderno e defendeu os direitos dos homossexuais (embora o termo só tenha sido utilizado muito mais tarde).

E quanto à violência, ou “propaganda das escrituras”, Mother Earth defendeu a linha oficial – o Congresso Anarquista Internacional de Londres tinha dado o seu selo de aprovação em 1881 – sem dar nenhuma ênfase em particular.

Mother Earth era também culturalmente militante, promovendo e vendendo trabalhos de ícones modernistas como Nietzsche, Ibsen e Strindberg. Esse destaque por Goldman no drama parece estranho para um anarquista aos olhos modernos. Mas esses nomes eram controversos nesses tempos. A peça Fantasmas de Ibsen, por exemplo, era sobre sífilis e foi amplamente proibida, enquanto que as mulheres que se rebelaram contra os limites do casamento eram comuns a ambos os autores. A personagem Nora, de Ibsen, abandona o seu casamento em Casa de Bonecas, enquanto que Miss Julie de Strindberg apresenta uma mulher com um gosto sexual pela sua criada, e Dança da Morte está centrada num casamento totalmente sem amor. Goldman, no entanto, pensou que tais peças simplesmente mostravam a vida tal como ela era.

RADICALISMO SEXUAL

Esse livro tem uma longa sessão sobre o radicalismo sexual de Emma Goldman. Algumas de suas ideias, como a de que casamento equivale à prostituição legalizada, prevaleciam na época. Ela também argumentava que o público estadunidense era amplamente ignorante sobre as questões referentes às doenças venéreas. Quanto à homossexualidade, Goldman deixou suas opiniões permissivas mais restritas às suas palestras. Na imprensa, foi Berkman nas suas Memórias da Prisão que considerou longamente a questão. O radicalismo sexual de Goldman nem sempre era popular entre os seus companheiros anarquistas homens, mas ela permaneceu forte em suas posições, incluindo mulheres negras também na sua teoria sobre o “comércio de mulheres” nos EUA.

Com a eclosão da Primeira Guerra, os anarquistas da América imediatamente atacaram a crescente supressão da liberdade de discurso, o patriotismo excessivo, a escalada da luta de classes e o recrutamento que se seguia. A oposição a este último item, “the draft” (o rascunho), naturalmente retornou 50 anos depois na resistência à Guerra do Vietnã, mas mesmo nestes primeiros anos foi uma questão suficientemente potente para levar ao encerramento final da Mother Earth em 1917 e à prisão de Berkman e Goldman durante dois anos, após eles foram deportados.

Emma Goldman, Mother Earth e o Levante Anarquista cobriram muito mais questões do que é possível mostrar aqui, e abordando-as em detalhes. Hsu tem desenterrado muitas reportagens de jornais sobre as palestras de Goldman, bem como investigado as diferenças de opinião entre o pessoal da revista. O resultado, em 454 páginas, é um relato extremamente abrangente do seu tema.

Os próximos anos de Goldman foram passados na Alemanha, Inglaterra, França, Espanha e Canadá. Hsu compreensivelmente não cobre esses anos – ao invés disso, em um epílogo, ela destaca a influência da anarquista no pensamento libertário nos Estados Unidos até hoje.

Por fim, a suposta sentença da grande matriarca, “Se eu não posso dançar, não é minha revolução”, se tornou popular nos próximos anos do século XX, aparecendo em camisetas. Mas a verdade parece ser que ela provavelmente nunca o disse.

EMMA GOLDMAN, MOTHER EARTH AND THE ANARCHIST AWAKENING

Rachel Hui-chi Hsu

University of Notre Dame Press

454 páginas

Fonte: https://www.taipeitimes.com/News/feat/archives/2021/08/05/2003762058

Tradução > Mari

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/04/16/reino-unido-critica-emma-goldman-mother-earth-and-the-anarchist-awakening/

agência de notícias anarquistas-ana

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Mara Mari

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