O homem que matou o apartheid.

Por Carlos Ferreira de Araujo JR.

Dimitri Tsafendas foi um ativista anarquista/comunista nascido em 1918, na cidade de Lourenço MarquesMoçambique, de ascendência grega e moçambicana.  Tsafendas entrou para história por ter assassinado o primeiro-ministro da África do Sul H.F. Verwoerd, em 6 de setembro de 1966. Dimitri Tsafendas esfaqueou H.F. Verwoerd até a morte, em plena sessão ordinária na câmara legislativa da Cidade do Cabo.

Tsafendas era filho do anarquista grego Michalis Tsafandakis e de Amélia Williams, negra moçambicana. Desde cedo Dimitri Tsafendas se interessou por política. Durante a sua intensa vida, Dimitri Tsavendas aprendeu várias línguas: português, inglês, grego, turco, africâner. Aos 16 anos já havia sido demitido de vários empregos por conta de suas posturas políticas libertárias e comunistas. Morou alguns meses na Etiópia. 

Em Portugal Moçambique, Tsafendas foi vigiado pela PIDE, polícia fascista portuguesa. Na década de 1940, entrou ilegal na África do Sul e se filiou ao Partido Comunista. De alguma forma conseguiu ingressar na Marinha americana e foi enviado para a Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Guerra, ele foi deportado dos Estados Unidos para a Grécia. No país do seu pai, Tsafendas lutou na Guerra Civil Grega ao lado do Exército Democrático.

Com o fim do conflito, Dimitri Tsafendas foi para Portugal onde foi preso por 9 meses. Ao ser solto, Tsafendas se mudou para a Turquia. Depois foi para a Grécia onde aprendeu a fabricar bombas com os partisans gregos. Da Grécia foi para a Turquia onde se tornou professor de inglês.

Na década de 1960, Tsafendas convenceu o governo de Portugal de que não era mais um comunista. Em 1963, volta para Moçambique, mas em 1964 é preso em um comício anticolonialista e pró independência. Ao abrir uma das malas que Tsafendas carregava, a PIDE portuguesa encontrou bíblias, mas também diversos livros anticolonialistas e subverisovs. As autoridades chegaram à conclusão de que Tsafendas se fingia de missionário para propagar ideias subversivas e anticolonialistas. Porém, Tsafendas insistiu na versão de quer era um apóstolo de Cristo. Os médicos acreditaram na sanidade do militante deram alta para o militante. Tsafendas se mudou para a África do Sul por volta de 1965.

Assassinato do Primeiro-Ministro

Dia 6 de setembro de 1966. Parlamento da Cidade do Cabo, África do Sul. Naquela tarde, H.F. Verwoerd, o poderoso Primeiro-Ministro da África do Sul, o Grande Arquiteto do Apartheid, estava sentado em sua cadeira oficial, conversando tranquilamente com seus pares, igualmente racistas e tagarelas como ele, quando Dimitri Tsafendas, àquela época um funcionário oficial do parlamento, um burocrata de segunda categoria aos olhos daqueles senhores, entra rapidamente no local, se dirige ao primeiro-ministro, saca um enorme punhal e desfere profundos golpes contra o peito e o pescoço de Verwoerd que morre minutos depois, afogado no próprio sangue.

Tsafendas foi imediatamente detido. Ali mesmo foi brutalmente espancado por seguranças e parlamentares. Minutos depois, Tsafendas foi levado ao hospital e depois a prisão. A um jornalista revelou o motivo do ato extremado: vermes que habitavam o interior do seu estômago. Para muitos, a declaração bizarra de Tsafendas era uma nítida estratégia de forjar uma insanidade mental e talvez escapar da prisão. Tempos depois, Tsafendas apresentaria um motivo bem menos delirante: matar o ministro anteciparia o fim do Apartheid.

Dimitri Tsafendas foi preso e conduzido para a prisão da Ilha Robens. Com o fim do Apartheid, em 1994, Tsafendas foi transferido para um hospital Psiquiátrico. Em 1999, a cineasta sul africana Lisa Key gravou um documentário chamado Question of Madness com duas entrevistas cedidas por Dimitri Tsafendas. No filme, a cineasta defende que o militante assassinou o ministro por um motivo político, não por insanidade.

Dimitri Tsafendas, o comunista, libertário, antirracista, poliglota e anticolonialista que matou o arquiteto do Apartheid morreu em 1999, aos 81 anos.

REFERÊNCIAS

Tsafendas was not insane. He killed Verwoerd for political reasons: author”. TimesLIVE. 9 November 2018. Retrieved 24 November 2025.

Kenney, Henry (2016). Verwoerd: Architect of Apartheid. Jonathan Ball Publishers. ISBN 978-1-86842-716-1.

Barberá, Marcel Gascón (18 January 2019). “Mad Man? The Greek Who Killed Apartheid’s Architect”. Balkan Insight. Retrieved 13 January 2022.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

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