
Manuel Bernardino de Oliveira foi um agricultor, professor e revolucionário brasileiro que liderou grupos armados contra latifundiários da região de Mata, perto de Codó, no Maranhão, durante a década de 1920. Jornais conservadores e a elite agrária o chamavam de Lênin maranhense, maximalista, fanático e diziam que Bernardino pretendia montar um soviete no interior do Maranhão. As principais fontes sobre a atuação de Manoel Bernardino são os jornais: A Pacotilha, Diário de São Luiz e o Diário Oficial do Maranhão. Bernardino chegou a dar entrevistas a alguns dos periódicos citados acima relatando fatos sobre a sua vida, suas ideias e planos.
Biografia: Manoel Bernardino (1882-1942)
Bernardino nasceu no Piauí em 1882. Viveu no Ceará e no Pará, onde trabalhou nos seringais. Morou em Belém e em São Luiz, onde travou contato com as ideias socialistas, mas sem detalhar em que situações. Como lavrador, já na região de Codó, Bernardino dedicou-se a lavoura de algodão. O estado só se fazia presente na região através da polícia e dos cobradores de impostos. Nesta mesma época, Bernardino e outros camponeses formaram a Liga de Defesa, com cerca de cem pessoas. A Liga de Defesa era um grupo de autodefesa dos agricultores como também um grupo de combate a roubos e estupros.
Manoel Bernardino integrou a Coluna Prestes no Maranhão e liderou cerca de 200 homens. Porém, entrou em conflito com lideranças da Coluna por defender a Reforma Agrária. Ele desertou em 1926. Ao voltar para o Maranhão em 1929, Bernardino havia se tornou um estrito vegetariano. Toda a comida que consumia era colhida do seu roçado. Segundo parentes, ele não consumia leite por ser “sangue de vaca” e não matava os insetos. Sua alimentação era a base de leite de coco.
Influências: Jesus, Kardec, Tolstoi e Zapata
Bernardino tinha uma modesta biblioteca em sua casa formada por livros e revistas enviadas de vários lugares. De acordo com seu sobrinho, Bernardino fazia parte da “Comunhão Esotérica do Pensamento“. Ele foi fortemente influenciado pelo espiritismo, por um cristianismo primitivo, hinduísmo, por religiões afro-indígenas e pelo Tolstoismo. O próprio Bernardino considerava Jesus Cristo um dos primeiros socialistas da História. Ele leu Kardec e Leon Denis, um socialista espírita. Nem todos os anarquistas da Primeira República eram ateus. Muitos anarquistas eram espiritualistas, tolstoianos, hinduísmo e espíritas: João Penteado, Edgar Leuenroth, Everardo Dias e Maria Lacerda de Moura (por alguns anos), por exemplo. Outros como José Oiticica e Everardo Dias eram de sociedades Maçônicas e Rosa Cruz.
Além das leituras religiosas, Bernardino assumiu ter sido influenciado pela Revolução Mexicana (1910-1920) e pelos jornais operários que traziam notícias das movimentações operárias como a Greve de 1917, em São Paulo, e a Insurreição Anarquista de 1918, no Rio de Janeiro. Provavelmente, Bernardino teve contato com a imprensa operária de São Luiz e de Codó. Os jornais elitistas do Maranhão, pelo contrário, o comparavam a Lenin, Antônio Conselheiro e aos cangaceiros.
Motivações
As causas apontadas para a insurreição em Mata foram a violência dos latifundiários, a desigualdade social, o descaso das autoridades e os impostos pesados. Os poetas cordelistas da região narraram que a luta de Bernardino foi motivada pela luta por construção de escolas na região. Na falta de escola, o próprio Bernardino deu aulas gratuitas na própria residência para lavradores e crianças da região em 1917.
As movimentações dos camponeses de Bernardino passaram a estar na mira das autoridades. Uma suposta carta de Bernardino foi interceptada pela polícia. A carta revelava um possível “batismo de sangue” do grupo armado de Manuel Bernardino. Um dos trechos da suposta carta de autoria de Bernardino interceptada pelas autoridades dizia: que o povo armado faça a Câmara! Às armas! Para Frente!
De acordo com as autoridades, Bernardino era um inteligente propagador do socialismo e defendia a derrubada dos governos para fundar um sistema em que vigorasse os interesses do povo. As autoridades afirmavam que Bernardino comandava um exército de cerca de mil lavradores.
Os boatos sobre uma revolução comandada pelos caboclos de Bernardino se espalharam pela região. Latifundiários montaram suas próprias milícias particulares. As autoridades oficiais também destacaram soldados para a região. Ao todo cerca de 600 homens armados foram mobilizados para combater o exército popular de Bernardino.
Os Fuzilamentos de Matta (1921)
Em 29 de julho de 1921, no distrito de Matta, Codó, o levante armado liderado por Bernardino foi duramente reprimido pelas forças militares do Maranhão. O destacamento liderado pelo tenente Henrique Dias foi enviado ao local. No local, o tenente encontrou, prendeu e “interrogou” velhos, crianças e mulheres, mas nenhuma revolta.
Alguns prisioneiros foram amarrados nas árvores para serem “interrogados”. O episódio terminou com a execução de pelo menos quatro pessoas, lavradores pobres caboclos e negros. Pelo menos duas vítimas eram filhos de Maria Paca, uma das integrantes do grupo de Bernardino. Integrantes do próprio destacamento militar assumiram e denunciaram os fuzilamentos ordenados pelo Tenente Henrique Dias. Jornais oposicionistas afirmavam que mais de cem pessoas haviam sido executadas e que os corpos serviam de comida para os urubus. As notícias chegaram ao governador do Maranhão que abriu um inquérito para apurar os fatos.
O inquérito militar confirmou a execução de quatro pessoas. Elas foram assassinadas numa antiga estrada. Os corpos foram enterrados em valas comuns. Tempos depois, surgiram boatos de que mais 14 ossadas haviam sido encontradas. Os populares também denunciaram que alguns agricultores estavam desaparecidos desde o fatídico dia. Atualmente, o local onde os corpos dos quatro camponeses foram encontrados chama-se “O Cemitério dos Afuzilados”. Os culpados pela execução foram julgados e absolvidos por unanimidade.
Manoel Bernardino de Oliveira morreu em 1942, aos 60 anos.
FONTES:
ALMEIDA, Giniomar Ferreira: O Lenine Maranhense: fuzilamentos e cultura histórica no interior do Maranhão. (1921). UFPB-2010.
FERREIRA, John Kennedy. ORGANIZAÇÃO DAS IDEIAS SOCIALISTAS NO MARANHÃO; Revista de Políticas Públicas, vol. 22, pp. 347-366, 2018. Universidade Federal do Maranhão.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).
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Pertinho do rio.
Paloma Ferreira – 09 anos
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.